Vingança em Manhattan

Christopher Smith · Capítulo 22 de 32

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Vingança em Manhattan

Capítulo 22

 

Em sua propriedade na Rua Sessenta e Um East, número 118, James Gelling estava sentado em frente a uma mesa na sala de estar, com o telefone na orelha, ouvindo. Quando houve uma pausa na conversa, que ele já considerara terminada há muito tempo, disse: — Obrigado, Bonzie. Dessa vez você ajudou bastante. Não passará desapercebido. Assim que eu ouvir alguma notícia sobre uma das ações, e espero ouvir em breve, vou telefonar para você e compartilhar a informação antes que o mercado abra em troca de sua gentileza. Não, não. Não participo mais de jantares. Mal posso engolir. E estou em uma maldita cadeira de rodas, Bonzie. Você sabe disso. Tenho cento e três anos. Hoje em dia, só consigo engolir caldo e chá, e o caldo só de vez em quando, desde que não tenha sal demais, pois faz a minha garganta se fechar. É um inferno. Adeus.

Ele desligou o telefone, fez algumas anotações com uma das mãos cheias de artrite e tentou ler o que escrevera através da névoa dos olhos verdes esbranquiçados. O teste era simples. Se ele conseguisse ler o que escrevera, e conseguia, então os outros também conseguiriam.

Ele tinha mais dois telefonemas a fazer e seu trabalho estaria completo.

— Frank — disse ele. — Preciso do número do telefone de Piggy French. Ela tem casas em Paris e em Nova Iorque. Ouvi dizer que está em Nova Iorque agora. Não consigo mais ler os malditos números na minha agenda, mas sei que os números dela estão lá. Pode procurar o número do telefone dela em Nova Iorque para mim?

— Sim, senhor.

Frank, que era tão alto que Gelling ficava fascinado, pegou a agenda que ficava guardada em um cofre trancado e a percorreu. — Piggy French?

— Nome terrível, mas foi o que eu disse. Eles lhe deram esse nome em Vassar porque, quando ela chegou no colégio pela primeira vez, era um pouco gorda demais para aquela turma. Quando ela perdeu peso em uma questão de meses e ficou esbelta, decidiu manter o nome como um lembrete para não engordar novamente e, também, para não dar a mão à palmatória para os valentões. Quando a transformação terminou, uma bela garota foi revelada. Ela e o nome viraram chiques. Que ironia! Mas depois a vida dela virou um inferno. Ela se casou, se divorciou e virou uma bêbada de marca maior. É esse tipo de informação inútil que preenche meu cérebro.

Frank deu o número a Gelling que, nesse meio tempo, tentara ver as horas no relógio costurado ao tapa-olho do homem. Não era muito, mas ainda tinha algum tempo. — Quer que eu disque para você? — perguntou Frank.

— Seria ótimo, Frank. Meus dedos parecem pretzels. Aqui, dê-me o telefone. Pelo menos posso segurá-lo.

Em alguns momentos, ele estava falando com Piggy French.

— Piggy — disse ele. — É James Gelling. Como vai?

— Nesse momento, um pouco bêbada, James. Peter me deixou.

— Lamento.

— Provavelmente foi melhor assim.

— Foi a bebida?

— Foi o quê?

— Foram as drogas?

— Foi o quê?

— Deixe para lá. Presumo...

— Não se preocupe. Dessa vez, eu tinha um acordo pré-nupcial impecável. O que sobrou do dinheiro do papai está seguro. Eu aprendi essa lição depois que Dick me deixou.

— E por que Dick deixou você mesmo?

— Ele me chamou de vagabunda no jantar chique que Maisie Van Prout deu para aquele xeique que todos adoram. Nãoseionome Quelquechose. Não consigo me lembrar agora. Mas me lembro da cena como se estivesse estampada na minha parede. Consegue imaginar? Aquele linguajar jogado na minha cara, na frente do xeique e de todos os outros na mesa, até da lendária atriz da Broadway, Eve Darling? Quando aquele babaca saiu da sala, eu me desculpei e imediatamente enfiei o nariz nas flores que Maisie colocara em um vaso na sala de estar. Só as cheirei, o perfume me acalma. Tão doce. Depois, quando ele me processou e ganhou os dez milhões, fiz a mesma coisa na minha casa. Enfiei o nariz dentro de um vaso cheio de flores. Não funcionou tão bem dessa vez. Provavelmente porque perder dez milhões para um imbecil como Dick Weatherbee é pior do que ser chamada de vagabunda por ele na frente de um xeique popular e uma lenda da Broadway que passou a noite inteira no banheiro cheirando cocaína.

Ela estava tropeçando nas palavras. — O que está bebendo, Piggy?

— Um pouco de tudo.

— Pílulas?

— Ainda não.

— Não tome pílulas.

— Eu o amava, Jamesie.

— Seus sentimentos serão diferentes em uma semana. Precisa se concentrar nisso. Precisa pensar, renascer. Espere uma semana passar e você verá as coisas de forma diferente.

— Uma semana será como um ano. Uma vida inteira!

— Não, não será. E não fique histérica, sou velho demais para isso. Preciso que se concentre.

— Ok.

— E, enquanto eu estiver aqui, o que pode acabar a qualquer momento, em minutos — em segundos! — estou disponível, se quiser conversar.

— Ok.

— Obrigado, Piggy. Odeio telefonar quando você está tão para baixo, mas preciso de algumas informações.

— Ok.

— Você sabe que sou discreto.

— É por isso que amo você. E por isso que confio em você. Todos confiam em você. Alguns acham que você ainda é analista.

Ele detestava a palavra analista, mas a aceitou, pois ela não estava em condições de ser corrigida. — Algumas vezes, ainda sou. Mas não sou, apesar de ter mantido a mesma ética em se tratando dessa profissão. Meus lábios são mais fechados do que os de um padre, o que, hoje em dia, não quer dizer muito. Digamos apenas que são fechados.

— Você tem uma mente suja e eu o amo por isso. O que quer saber, Jamesie?

Ele odiava quando ela o chamava de Jamesie, mas agora não era a hora de pedir que o chamasse de James ou de Gelling. Ele precisava de informações dela, portanto deixou passar. — Você e eu sabemos que lidou com Dick Weatherbee. Você me disse isso em uma de nossas muitas sessões não planejadas.

Passou-se um momento de silêncio. — Eu... uh... não me lembro disso. Eu estava bêbada quando disse isso?

— Totalmente. Estava no chão do quarto no Ritz Carlton em Paris e me telefonou cerca de uma hora depois que aconteceu. Você me disse que tinha biscoitos, vodca boa e batatas fritas baratas espalhadas à sua volta. Que tinha enchido a cara.

— Jesus.

A palavra soou como "Hei-zeus", o que o surpreendeu. — Piggy, você tem uma parte hispânica?

— Não, não. Só amo os idiomas românicos e os uso com frequência.

— De qualquer forma, seu segredo sempre esteve e sempre estará seguro comigo. Mas eu me lembro que você mencionou o nome de uma mulher que tinha conexão com a história toda. Era grego. Você se lembra do nome dela?

Piggy ficou em silêncio.

— Agora não é a hora de ficar quieta, Piggy.

— Ok.

— Se eu ler a lista de nomes que tenho à minha frente, consegue lembrar-se do nome que usou para acabar com Dick?

— Do que se trata, Jamesie?

— Não tem nada a ver com você. Eu prometo. Estou investigando um consórcio, que você mencionou na noite em que estava bêbada e comendo batatas fritas no Ritz. Você disse que eles foram essenciais para acabar com Dick. Só preciso do nome dela, porque estou sendo ameaçado pelo consórcio em nome dela. Preciso lidar com ela, se for quem acho que é.

— Por que está sendo ameaçado? Você é um anjo.

Ela disse "anjo" como "ancho".

— Piggy, fale direito.

— Ok. Mas você é um anjo.

— Aparentemente, alguém acha que não.

— Quem você acha que é?

— Eu cheguei em três nomes. Eu sei que ela pertence àquele consórcio. Isso lembra alguma coisa?

— Nesse minuto, eu me lembro de muita coisa, Jamesie. Vamos direto ao assunto e parar de tentar adivinhar nomes. Eu quero ajudar. Essa sua lista. Presumo que o nome de Hera Hallas esteja nela. A herdeira grega? A quem eu fui pedir... uh, você sabe... ajuda?

— Sim, ela está.

— Eu não acredito em coincidências, Jamesie. Por que você está encrencado?

— Eu não faço ideia, mas agora posso descobrir. Posso ameaçar de expô-la. Eu lhe devo uma, Piggy.

— Se piorar, essa coisa entre eu e Peter, que me deixou com aquele olhar cruel no rosto e aquelas palavras odiosas que me recuso a repetir, pois sou superior a elas, talvez eu telefone para você algumas vezes. Conversar sobre o que aconteceu. Arejar a cabeça. Pode ser?

— Ele também a chamou de vagabunda?

— Quatro vezes. É isso o que sou, Jamesie? Sou mesmo uma vagabunda? Dois homens me chamaram disso. Dois homens! E sabe o que ele disse depois? Que a palavra não era baixa o suficiente para descrever o monstro que sou.

— Você não é um monstro — disse ele. — E, sim, pode me telefonar. Menos quando eu estiver dormindo. Na minha idade, posso estar no meu último descanso, que eu bem que gostaria de aproveitar. Ligue no final da manhã ou à tarde. Veremos se ainda estou por aqui. Na minha idade, as luzes podem se apagar a qualquer momento, Piggy. Posso cair morto depois desse telefonema.

— Não diga isso.

— É verdade.

— Eu não aguento.

— É preciso enfrentar as coisas de vez em quando.

— Não isso.

— E Piggy — disse ele.

— Oui?

— Ne prenez pas les comprimés.

— O quê?

— Não tome pílulas.