Vingança em Manhattan
Capítulo 31
— Tire seus homens daqui — disse Spocatti a Katzev quando a arma de Carmen bateu no chão de cimento. — Nada acontece na frente de todas essas pessoas. Não é assim que eu trabalho, especialmente quando todos os seus homens estão armados. Se pretende salvar sua mãe, o tempo está acabando, Katzev. Então, tire-os daqui.
— Por quê? Eles trabalham para mim. Não vão contar nada do que aconteceu aqui.
— Você pensou o mesmo sobre Alex e Carmen antes de matá-lo e de tentar matá-la. Alguém nesse depósito será o próximo Alex. Vocês todos ouviram isso? Espero que sim. Espero que acreditem nisso, porque vai acontecer. Também sei que você sabe disso, Katzev. Se quer que seja feito, tire-os daqui.
Enfrentando a morte e a decepção, Carmen tentou manter-se calma, mas não conseguiu. Ela fora traída por Spocatti. Usada por ele. Estava furiosa e com medo, especialmente por Chloe, que ainda não se revelara. — Por que está fazendo isso, Vincent? — perguntou ela.
— Cale a boca, Carmen.
— Diga-me por que está fazendo isso.
— Pelo mesmo motivo que você faria se lhe tivessem oferecido vinte milhões de dólares. Você não passa de um alvo para mim. Se você pensou que nosso relacionamento era diferente, estava enganada. Não existem amigos nesse negócio. Você, dentre todas as pessoas, devia saber disso. É só o alvo e o dinheiro.
— Mentira. Eu nunca entregaria você.
— Então você é uma idiota. — Ele pressionou o cano da arma com tanta força na nuca dela que arrancou sangue. — Posso fazer isso de forma rápida e indolor, ou posso fazer com que caia no chão e sangre até a morte. Você escolhe. Abra a boca novamente e sangrará até a morte. — E, para Katzev, ele disse: — Não vou pedir de novo. Tire-os daqui.
— Um homem fica — disse Katzev. — Foi o que combinamos. Eu e mais um homem.
— Ok. O resto sai. Obrigado por sua confiança em mim, Katzev. — A voz de Spocatti estava repleta de sarcasmo.
Katzev sabia que não tinha escolha e Carmen viu quando ele abanou a mão no ar. — Coloquem as pistolas e as espingardas embaixo dos carros. Ao saírem daqui, espero que partam para bem longe. Terminaremos esse assunto sozinhos.
Em torno dela, Carmen ouviu os sons dos homens obedecendo. Ela conhecia algum deles? É claro que sim. Provavelmente trabalhara com vários deles, o que tornava a traição ainda pior.
O que ela podia fazer para interromper o que estava prestes a acontecer? A resposta era óbvia, apesar de saber que Spocatti tinha recursos para impedi-la. Ainda assim, ela tinha que tentar. — Eu disse a você que, se alguma coisa acontecer comigo, meu contato investigará o consórcio, Iver. Chloe e eu saímos daqui agora. Caso contrário, as consequências serão graves e você se arrependerá.
— Ele não vai se arrepender de nada — disse Spocatti. — Você acha mesmo que não sei quem é o seu contato na polícia de Nova Iorque? Provavelmente o mesmo que eu tenho. Se não for, posso descobrir em dez minutos. Lamento que tenha que ser assim, Carmen, mas negócios são negócios. Katzev aqui foi generoso. Parece que vou conseguir comprar aquela mansão em Capri antes do que pensei.
Ela estava prestes a falar novamente, mas, dessa vez, ele bateu a arma com tanta força na nuca dela que o golpe a deixou à beira da inconsciência. Ela se dobrou de dor, sentindo-se tonta e prestes a desmaiar. O chão começou a girar, seus joelhos dobraram-se e ela começou a cair.
Spocatti não deixou que isso acontecesse. Ele colocou o braço em torno da cintura dela e a ergueu, segurando-a até que ela tivesse consciência de uma das portas da garagem se abrindo, os homens saindo, e a porta se fechando novamente com um barulho alto, o som da própria respiração e o mundo entrando em foco novamente. Ela piscou com força. Sua mente estava mergulhada em confusão. Como as coisas acabaram desse jeito?
O que era mais doloroso é que ela não teria sua vingança. Estava sendo privada de matar Katzev pelo que ele fizera com Alex e Chloe. A ideia de fracassar de forma tão espetacular era como a morte para ela. Carmen decepcionara as duas pessoas que mais amara. Sempre soubera que poderia morrer por causa da profissão, mas nunca achara que seria pelas mãos de uma das poucas pessoas que considerava como um amigo.
A cabeça dela latejou. Uma onda de tontura a envolveu e ela achou que fosse vomitar. Os joelhos cederam novamente. Spocatti a ergueu novamente com um safanão brutal e ela se esforçou para manter o foco. Ela precisava se concentrar. Será que sofrera uma concussão? Como fora tola. Como fora ingênua. Seus pensamentos voltaram-se para Chloe, que ouvira a conversa toda e que, agora, sabia de coisas sobre ela que nunca deveria saber. Carmen sabia que iam matá-la, mas uma parte dela que acreditava que ainda poderia salvar Chloe veio à tona. Se ela jogasse certo, talvez pudesse salvar Chloe.
— Iver — disse ela.
— O que é, Carmen?
Katzev estava à direita dela, que ouviu quando ele começou a caminhar em sua direção. Então, ele parou.
— Iver, ouça.
— Ela está totalmente dominada? — ele perguntou a Spocatti.
— Ela não vai a lugar algum. Talvez ao inferno em cinco minutos.
— O que quer, Carmen?
— Quero ver seu rosto antes de morrer. Nunca coloquei os olhos em você. Quero ver qual é a aparência de um monstro.
— Você vê um todos os dias, Carmen, ao se olhar no espelho. Não vou lhe dar o prazer de ver o meu rosto.
— O prazer? Por favor. Você não tem culhão para me olhar nos olhos, Iver. É o viadinho escocês dentro de você. Se fosse russo de verdade, viria até aqui e provavelmente enfiaria a mão na minha cara. Ou me mataria você mesmo. Mas você não tem esses enormes culhões russos que acha que tem, não é? Na verdade, pelo que ouvi dizer, você tem amendoins no lugar de testículos. E um pinto muito pequeno. É por isso que contrata pessoas como eu e Spocatti para fazer seu trabalho sujo. É porque é muito pequeno. Ouvi falar muito dele. A expressão que usaram foi "um morango dentro de um cesto".
Na outra ponta do depósito, o capanga que sobrara abafou uma risada. Não fora alta, mas, se ela ouvira, todos ouviram, e ela só podia imaginar o tamanho do castigo que a pessoa levaria por causa disso.
— Quem disse isso? — perguntou Katzev.
— Não vou lhe dar o prazer de saber, Iver.
Ela o ouviu avançar em sua direção. Ele se movia rapidamente, determinado a vingar-se da vergonha que passara em frente ao capanga, que provavelmente mencionaria esse fato aos outros. Ela sabia que era o seu fim. Em voz alta, para o aposento, ela disse: — Chloe, eu sinto muito. Nunca quis que nada disso acontecesse. Perdoe-me.
Spocatti apertou o braço em torno da cintura dela. Ele era forte e segurava os braços dela firmemente. Carmen lutou contra ele, tentou alcançar o telefone para apertar um botão que avisaria a Liam que matasse a família de Katzev, mas foi inútil. Ela jogou o pé para trás para chutar Spocatti, mas ele se desviou. — Vá para o inferno, Vincent.
— Vou esperar você chegar primeiro e preparar o caminho para mim.
E, então, Iver Kester, que ela conhecera por anos como o misterioso Katzev que não tinha rosto, parou em frente a ela. Ele tinha quarenta e poucos anos, quase cinquenta, o que a surpreendeu porque, em sua mente, ela sempre esperara que ele fosse mais velho que isso, provavelmente devido ao poder e ao dinheiro que ele tinha.
Os cabelos eram pretos e cortados bem curtos. Os olhos eram azuis, a compleição pálida. Estava em boa forma. Tinha um pouco menos de um metro e oitenta. Usava um terno preto com gravata vermelha. E, para ser justa a ele, Carmen entendeu por que Babe McAdoo se sentira atraída por ele anos antes. Na juventude, Iver Kester devia ter sido muito atraente.
— Iver — disse ela. — Então, aí está você. A última coisa que verei. Que bela visão.
Ele recuou a mão e bateu com tanta força no rosto dela que Carmen foi jogada de encontro a Spocatti, que a segurou firmemente. Ela usou a distração da violência para pressionar o sapato direito para baixo e para a esquerda, o que silenciosamente liberou uma lâmina de uns cinco centímetros de comprimento. A lâmina estava embebida em tetrodotoxina, o veneno do baiacu. Essencialmente, era um bloqueador do canal de sódio que paralisava os músculos da vítima enquanto ela permanecia totalmente consciente ao passar pelos estertores da morte. Com o veneno no sistema, a vítima rapidamente não teria mais condições de respirar. A morte por asfixia ocorreria em doze segundos.
Ela ergueu os olhos para Katzev.
— Você vai me matar agora, ambos sabemos disso. Então entenda que o que vou dizer não é mentira, pois não tenho motivos para mentir. É o meu fim. Vou ao inferno para ver como são as coisas antes que você e o resto do consórcio cheguem lá. Mas há uma coisa de que precisa saber, Iver. Alex nunca o traiu. Seja lá o que for que acha que ele sabia sobre você ou o consórcio morreu com ele, se é que sabia de alguma coisa. E duvido que soubesse, pois ele teria me contado. A tragédia da morte dele resume-se ao verdadeiro motivo dela: sua paranoia.
— Houve uma quebra... — começou Katzev.
— Foda-se o que você achou que aconteceu. Alex não sabia de nada e você o matou. É isso que importa para mim. Eu voltei a Nova Iorque para me vingar. E olhe só para mim. Imobilizada por um homem que eu achei que era meu amigo. Espancada. Enfrentando a morte. — Ela fez uma pausa de um milissegundo. — E ainda assim vou me vingar.
Em um flash, ela chutou a perna de Iver Kester, enterrou a faca na panturrilha dele, na parte mais carnuda, e a deixou lá para que o veneno penetrasse no corpo.
Atordoado pelo ato, Kester caiu no chão, os olhos já arregalados e congelados no lugar ao erguer o olhar para ela, lutando para respirar, enquanto ela retirava a lâmina.
Spocatti foi rápido, soltou Carmen, girou o braço e atirou no capanga que Kester deixara para trás antes que ele tivesse tempo de processar o que estava acontecendo.
Carmen se abaixou sobre um joelho e colocou a boca perto do ouvido de Kester enquanto o rosto dele começava a ficar azulado pela falta de oxigênio. — Você está morrendo, Iver — sussurrou ela. — Logo, você deixará seu corpo e enfrentará Alex. Que tipo de encontro será esse? — Ela inclinou a cabeça enquanto os olhos dele permaneciam transfixados no dela, cheios de lágrimas. A beleza do veneno era que ele podia vê-la e escutar tudo o que ela dissesse.
Ela cuspiu no rosto dele. — Será que será tão agradável quanto o que está acontecendo com você agora?
Ele começou a fazer um som estranho. A língua começou a inchar. Ela sabia que tinha apenas alguns segundos para agir antes que fosse tarde demais. Ela botou a mão no bolso, pegou o celular e gravou os últimos momentos da vida miserável de Iver Kester antes que ele se fosse em um último suspiro barulhento.
Ela desligou o telefone, abaixou-se e encostou a cabeça no joelho erguido. Carmen estava exausta e sentindo dor. Respirou fundo e, olhando para Kester, cujo rosto agora estava roxo e sem vida, ela se deu conta de como estava grata por ainda estar respirando.
— O que planeja fazer com isso? — perguntou Spocatti.
Ela pretendia enviar o vídeo para o consórcio com um aviso que incluiria todas as informações sobre eles. Mas, mesmo sabendo que Spocatti a tratara daquele jeito somente como encenação, pois sabia sobre o sapato dela, ela não queria falar com ele. Ela achava que ele tinha levado as coisas longe demais. Carmen enviou uma mensagem a Liam em Aberdeen pedindo que recuasse. Naquele momento, tudo o que queria era encontrar Chloe. Mais nada.
Ela se afastou de Spocatti e avançou para o centro do depósito, onde começou a chamar o nome de Chloe, dizendo que era seguro sair, até que ela finalmente apareceu. A garota saiu de baixo de um dos carros, arrastando-se com dificuldade, pois o carro era rebaixado, como vários outros. Quando estava livre, ela se levantou, trêmula, e Carmen notou que o ombro esquerdo dela estava caído, pois estava deslocado. Ela viu a dor no rosto de Chloe ao correr em direção a Carmen, com a arma ainda nas mãos.
— Você está ferida — disse Carmen.
Chloe passou o braço direito em torno da cintura de Carmen, encostou o rosto no peito dela e elas se abraçaram. — É só o meu ombro — disse ela. — Vou ficar bem.
— Eu sinto muito — disse Carmen. Ela segurou o rosto de Chloe com as mãos, viu os arranhões e o lábio partido e ficou furiosa. Olhou para a arma que Chloe segurava e a pegou. — O que fizeram com você?
— Eles me bateram, mas eu aguento. Já passei por isso antes. Também matei um homem, mas ele mereceu. — Ela fez uma pausa e olhou nos olhos de Carmen. — Eles disseram que você é uma assassina. Isso é verdade?
Carmen não tinha certeza de como agir. Durante anos, ela tentara ser uma influência positiva na vida de Chloe. Mas o que era para a garota naquele momento? Uma assassina. Ela não queria que a garota soubesse que esse tipo de vida existia fora dos filmes, mas agora Chloe sabia, tinha sangue nas mãos. Talvez tivesse agido em defesa própria, mas, mesmo assim, matara um homem. Carmen sabia que aquele momento ficaria com ela pelo resto da vida.
— Isso tudo aconteceu com você por minha causa, e eu lamento muito — disse ela. — Vamos conversar mais tarde sobre quem eu sou. Há coisas sobre mim que você precisa saber, mas elas podem esperar. Agora, precisamos sair daqui. Posso consertar seu ombro, mas vai doer.
— Então, você também é médica?
— Não sou médica, Chloe — disse Carmen com um sorriso. — Mas posso consertar seu ombro.
Spocatti estava na porta da garagem esperando-as.
— Prontas? — perguntou ele.
Carmen, furiosa com ele, assentiu.
Ele ergueu a porta. Quando o fez, Jake, cujo nome real era Fred, mas inteligentemente escolhera o nome Jake, estava parado do lado de fora, obviamente transtornado, com ódio nos olhos e sangue no rosto, a arma apontada para Spocatti. Rapidamente, ele levantou o cano para a cabeça de Vincent.