Vingança em Manhattan
Capítulo 29
— Eu os vejo — disse Jake. — Estão virando a esquina. Spocatti está com o celular na mão. Agora no ouvido.
Babe inclinou a cabeça para aproximá-la da janela do passageiro. A rua estava escura, mas, com algum esforço, ela conseguiu vê-los. — Ele deve estar telefonando para Katzev.
— Provavelmente.
— Para entrar.
— Obviamente.
— Estou preocupada com o alarme.
— Todos devem estar.
— O que acha que aconteceu?
Ele deu de ombros. — Eu fui forçado a sair do circuito. Não faço ideia. Espero que consigam cuidar da situação sozinhos.
O tom ríspido da voz de Jake fez com que Babe McAdoo se virasse para olhar para ele. Estava escuro dentro do carro, mas ela viu que ele observava Carmen e Spocatti intensamente. Apesar do rosto dele estar neutro, ela sentia a raiva fervilhando sob a superfície. No decorrer dos anos, ela lidara com muitos homens e mulheres dessa profissão e sabia que aquela raiva devia ser levada a sério. Ele se sentia desprezado. Será que conseguiria conter esses sentimentos? Se não conseguisse, o que faria? Ela escolheu as palavras com cuidado. — Lamento que se sinta assim — disse ela.
— Não sei o que estou sentindo, Babe.
Ela não disse mais nada. Era melhor recuar, apesar da tensão que sentia dentro do carro. Ela se virou para a janela e notou que Spocatti e Carmen estavam parados do lado de fora de uma das portas de garagem. Spocatti falava ao telefone. Carmen estava um passo atrás dele, olhando para os dois lados da rua e para as janelas dos prédios que os circundavam. Um atirador poderia estar em uma delas. As mãos dela estavam nos bolsos do casaco, segurando as Glocks, caso fossem necessárias.
Quando o barulho estridente dos alarmes começou a diminuir, Babe abriu o vidro alguns centímetros e escutou. Mais cedo, ela achara que somente um alarme estava tocando. Em vez disso, eram vários, e agora estavam sendo desligados um a um.
— Ouviu aquilo? — perguntou Babe. — Eu achei que era só o alarme do depósito. Mas ouça. São vários alarmes tocando. Ou estavam tocando. Como alarmes de carros. Ele deve ter carros lá dentro.
Quando ele respondeu, era como se estivesse falando com uma criança. — Isso mesmo, Babe. Eram alarmes de carros. Se fosse o alarme do depósito, conhecendo Katzev, seria um alarme silencioso que notificaria diretamente o consórcio e acionaria um pequeno exército de assassinos que não são considerados como fim do ciclo. Não sei o que disparou os alarmes ou o que está acontecendo lá dentro. Mas, obviamente, Katzev encontrou as chaves e os está desligando.
Ele nem mesmo tentou esconder o gelo na voz. Ela sabia que ele estava furioso por não ter sido convidado a se juntar a Carmen e Vincent, já que também era um alvo do consórcio. Portanto, ela ficou sentada observando o depósito até que o último alarme foi silenciado. Depois de um momento, uma das portas foi erguida e eles entraram na escuridão total. Ela tentou ver se havia alguém lá para recebê-los, mas estava escuro demais. A porta da garagem foi fechada atrás deles, que desapareceram.
— Eles estão lá dentro agora — disse ela, mais para si mesmo do que para ele. Babe estava preocupada com eles.
— Sim, estão.
— Por que estava tão escuro? O que acha que vai acontecer?
— Quem sabe?
Dado o tom da voz dele, aquilo soou como "Quem se importa?". Ela decidiu ignorá-lo e concentrar-se na tarefa. — Então, agora esperamos Chloe.
— Babe — disse ele, como se não a tivesse ouvido. — Por que acha que Spocatti não queria que eu entrasse lá com eles? Trabalhamos juntos várias vezes no decorrer dos anos. Ele sabe que sou muito mais do que competente. Ele também sabe que o consórcio quer me matar. Por que ele me privaria de acompanhar Carmen e matar Katzev?
— São perguntas demais, Jake. E não sou o Vincent. Não posso responder por ele. Mas eu sei que ele apoia você totalmente. Ele sabe que você se juntou a nós para ajudar a derrubar o consórcio.
— Ele sempre foi um filho da puta arrogante — disse Jake, ignorando-a. — Chega em seu cavalo branco e assume a situação. Como chegou nesse ponto?
— Só aconteceu.
— Mas como?
— As pessoas respeitam o Vincent. Você sabe tão bem quanto eu que ele é o melhor. Ninguém é tão bom quanto ele.
— De acordo com quem? Onde ele conseguiu essa reputação?
Ele estava começando a deixá-la ansiosa. — Você sabe como ele é bom. Todos sabem. Ele mereceu a reputação que tem.
— Quem decidiu que ele a mereceu? Eu mereci alguma coisa? Por que você o coloca em um pedestal desse jeito?
Ela se virou para ele. — Por que está fazendo isso?
— Só estou procurando respostas.
— Eu lhe dou o que posso, mas não tenho todas as respostas.
— Então, qual sua serventia para mim?
A mão direita dela desceu para o bolso onde estava a arma que ele lhe dera mais cedo. Mas Babe McAdoo chegou tarde demais. Jake puxou a arma e a apontou para o rosto dela. Havia um silenciador na ponta do cano. Ele pressionou levemente o gatilho e um minúsculo feixe de laser vermelho atravessou a distância entre eles, encontrando seu lugar no centro da testa de Babe. Ela olhou para ele abertamente, chocada.
— Você está no meu caminho.
— Eu não...
— Você deveria estar me apoiando.
— Eu estou apoiando você.
— Eu devia estar lá dentro. Eles mandaram dois homens para me matar. Katzev os mandou. Um deles provavelmente teria me matado se não tivesse sido atropelado por um caminhão. Por que eu não tenho o direito de vê-lo morrer? Por que eu não posso participar da morte dele? Por que eu sou considerado tão inferior que não posso participar? Não era esse o trato. Eu vim para participar. Nunca esperei que seria um maldito expectador.
— Você está levando isso para o lado pessoal.
— Não, não estou.
Apesar do coração estar martelando com força, ela conseguiu manter a voz firme. — Eis o que é pessoal — disse ela. — Você está com uma arma apontada para o meu rosto. Um laser brilhando na minha testa. Não pode ser mais pessoal do que isso. Pode guardar essa arma? Não estou contra você, Jake. Eu já disse, eu apoio você.
— Como posso saber? Você conhece o meu rosto, Babe. Por um capricho, se quisesse, poderia me identificar e me entregar.
Naquele momento, ela se deu conta de como sabia pouco sobre ele desde que o chamara para surpreender Carmen e ajudá-la. Durante o tempo que passaram juntos, ele não dera praticamente informação nenhuma sobre si mesmo, com a exceção de que Katzev usara seus homens para tentar matá-lo. Ela estivera tão envolvida em ajudar Carmen que não prestara muita atenção a ele ou ao seu comportamento.
— Eu conheço o rosto de muitos de vocês — disse ela. — Eu abri minha casa para você e ofereci um lugar seguro, longe de Katzev e do consórcio. Concordei com você que Spocatti o deixou de fora disso tudo, e é por isso que estamos aqui agora. Vamos fazer alguma coisa. Estamos esperando Chloe. Vamos salvá-la. Eu tentei ajudar todos vocês.
— Você parece desesperada, Babe.
— Você não abaixou a arma, eu tenho motivo para estar.
— Acho que vou cuidar disso eu mesmo. A começar por Spocatti. Nunca gostei dele. É hora de ele saber que não é o Rei Merda aqui.
Os olhos dela se encheram de pesar. Ela sabia o que ia acontecer e sabia muito bem que não tinha poder para impedi-lo.
— Jake — disse ela.
— Cale a boca, Babe.
— Eu nunca trairia você.
— Eu não a conheço e não acredito em você.
— Estou aqui ao seu lado — disse ela. — Por favor, pense bem. Eu devotei vinte anos da minha vida para ajudar o seu pessoal.
— Meu pessoal. O que isso significa? Que não sou um McAdoo? Que não sou um de vocês?
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Eu acho que foi o que quis dizer.
— Por que está fazendo isso?
— Sobrevivência.
Antes que ela pudesse erguer as mãos para se proteger, ele deu dois tiros no rosto dela. A cabeça bateu no vidro do passageiro, deixando uma mancha de sangue. E Babe McAdoo, da famosa família McAdoo, conhecida e aclamada por sua variedade de temperos, particularmente durante a época das festas, quando todos pareciam usá-los principalmente nos perus e frangos assados, estava morta.