Vingança em Manhattan
Capítulo 17
Na névoa que se recusava a desaparecer, a mente de Chloe Philips continuava a vagar.
Em seu estado inconsciente, que revelava o negro mais negro, ela ouvia vozes no nevoeiro, sons na escuridão. Pensamentos sobre a morte infiltraram-se e ela se concentrou neles, como se o ato de abraçá-los pudesse torná-los reais.
Ela não queria mais viver. Estava cansada dessa vida. Ela e a vida se odiavam com a mesma intensidade.
À medida que o tempo passava (horas, dias, meses), ela via memórias que prezava ou que queria apagar para sempre.
Principalmente as que queria apagar.
Ela tentou se afastar dos piores momentos e pairar em torno das poucas boas memórias que a vida lhe tinha oferecido, mas, onde pousava, nessa paisagem amorfa da qual não conseguia despertar, não havia controle. A mente mostrava o que queria que ela visse, variando do melhor para o pior.
Ela tinha sete anos. Manhãs de domingo normalmente significavam ir à igreja. Mas, por algum motivo, isso estava mudando, pois agora a mãe e o namorado só iam quando não estavam muito "cansados". Ainda assim, naquele domingo, ela acordou em seu quarto no Queens e olhou para a outra cama, onde a irmã mais nova, Mia, dormia.
— Mia — chamou ela.
Nada.
— Temos que nos arrumar para a igreja.
Nada.
Ela deslizou para fora da cama e sentou-se ao lado da irmã. O afundar do colchão barato a acordou e ela olhou para Chloe, os olhos arregalados e assustados. — É ele? — perguntou ela.
Chloe sacudiu a cabeça. — Já falei que não vou deixar ele chegar perto de você de novo.
— Mas e você?
— Eu não importo.
— Claro que importa, Chloe.
Ela deu de ombros. — Vamos, precisamos ir para a igreja.
— Por quê? Faz um tempão que não vamos.
— Era melhor quando a gente ia. Tudo era melhor.
A irmã mais nova, com apenas seis anos, mais madura do que deveria por causa do que ele fizera com elas, sentou-se na cama. — Quem vai acordar os dois?
— Eu estava pensando em fazer café da manhã para eles. Talvez isso os deixe com um humor melhor. Especialmente ele.
— Você só sabe fazer cereal. E sabe que eles não gostam de barulho aos domingos. Eles gritarão se tiver barulho. Ele vai nos bater.
— Então talvez só suco e café. Posso fazer isso em silêncio.
— Tem certeza?
Não, mas ela se levantou mesmo assim. — Encontre algo bonito para usar. Uma roupa adequada para a igreja. Lave o rosto e arrume o cabelo. Como eu ensinei. Use as fitas que compramos na loja de um dólar na semana passada. As amarelas que parecem arcos. A mamãe não vai ajudá-la a se arrumar para a igreja, mas vai querer que esteja bonita.
— Se ela for.
— Vamos fazê-los ir. Agora, ande. Não faça barulho no corredor. Não feche a porta do banheiro até o fim, pois vai ranger. Você sabe que ela range. E não dê descarga. Faremos isso quando eles acordarem, mas teremos que ser rápidas para que a água esteja limpa quando usarem o banheiro. Você se lembra do que aconteceu na última vez em que não demos a descarga. Não queremos que ele fique bravo. Certo? Vou descer. Use aquele vestido.
— Que vestido?
— O favorito da mamãe. O cor-de-rosa que a vovó lhe deu de Natal.
— Eu detesto aquele vestido.
— Mia...
— Ok.
Elas se esgueiraram até o corredor. Mia entrou no banheiro e encostou a porta até um pouco antes de começar a ranger. Chloe percorreu o corredor, passou pela porta fechada do quarto da mãe e do namorado, ouviu o som abafado de água correndo e desceu a escada o mais silenciosamente que conseguiu em uma casa que parecia favorecer ruídos.
A casa estava uma bagunça, mas isso não era novidade. A novidade era que o sofá não estava vazio.
Ele estava dormindo nele, respirando tão profundamente que os roncos pareciam sacudir a sala. Ela parou no penúltimo degrau e ficou olhando para ele. A mãe tinha dezesseis anos quando Chloe nasceu. Agora, tinha vinte e três e estava com um homem que tinha o dobro de sua idade, talvez mais. Ele se mudara três semanas depois que o pai de Chloe fora embora. Pouco tempo depois, a mãe encontrara esse homem em um bar e, no fim de semana seguinte, ele fizera as malas, carregara-as para dentro da casa dela e não saíra mais.
— Precisamos dele — a mãe dissera a Chloe e Mia na noite em que ele se mudou. — Ele é veterinário. Tem um pouco de dinheiro e não é um cara ruim. Não estraguem tudo, ok? Precisamos dele agora. Ele tem salário mensal. Agora, deem um beijo na mamãe e lembrem-se de serem boas para ele.
Isso acontecera seis meses antes e, mesmo agora, ela só o conhecia como Eddy. Não sabia o sobrenome dele. Não se importara em perguntar. E, se fora dito, ela não se lembrava. Ele era somente Eddy, o velho que era tão violento quanto o pai dela.
Na mesinha ao lado dele, estava uma garrafa meio vazia de uísque barato, de uma marca que ele dizia que era "barata, mas com certeza resolvia". O cinzeiro estava cheio de pontas de cigarro. Havia também um charuto longo e fino, com o invólucro de plástico amassado ao lado.
Será que eles tiveram uma daquelas brigas na noite anterior, ou ele simplesmente desmaiara no sofá e ela fora para a cama sozinha, sem vontade de arrastá-lo? Chloe nunca sabia como as coisas estavam naquele relacionamento volátil deles, mas, agora, ela sabia que ele estava dormindo profundamente e que, talvez, conseguisse fazer o suco e o café, caso se apressasse.
A cozinha ficava logo além da sala de estar, onde Eddy dormia no sofá barato como se estivesse em coma. Chloe se esgueirou naquela direção, quase desmaiando quando o chão cedeu sob seus pés de tal forma que a madeira rangeu. Ela parou uma vez, com medo de acordá-lo se prosseguisse, mas ele estava dormindo muito profundamente, roncando alto como se a morte estivesse alojada em sua garganta.
Ela desejou que estivesse.
O suco foi fácil. Ela pegou quatro copos baixos, pegou a caixa de suco de laranja na geladeira e os encheu. O café foi mais difícil. Ela fizera café para eles algumas vezes antes, mas, agora, esquecera quantas colheres de pó ele gostava. Cinco? Seis? Ele gostava do café forte? Ela não conseguia se lembrar. Como era mais seguro ficar no meio termo, ela decidiu colocar cinco e começou a passar o café.
O cheiro de café fresco começou a encher o ar úmido. Era um cheiro profundo, rico e gostoso, do jeito que eles gostavam. Ela pegou duas xícaras na prateleira, o creme e o açúcar sem marca que a mãe comprara na mesma loja barata onde encontraram as fitas amarelas de Mia. Ela colocou duas colheres ao lado das xícaras e esperou a cafeteira terminar o trabalho.
A máquina borbulhou e cuspiu. Chloe olhou para o café que pingava. Ela pensou que, talvez, tivesse conseguido, que talvez eles pudessem ir à igreja hoje — talvez ter um dia normal — quando sentiu uma perturbação no ar atrás de si.
Ela não se virou. Sabia que era ele. Manteve os olhos no café que pingava. Ela o ouviu dizer "Você me acordou por causa dessa merda", antes de bater no lado da cabeça dela com uma frigideira. Ela caiu no chão, inconsciente.
— Chloe...
Ela ouviu seu nome sendo chamado, mas estava no limbo. Flutuando. Girando. Aproveitando a viagem. Ela teve uma visão de seu corpo caindo quando a frigideira bateu em sua cabeça e ficou imaginando como conseguia ver uma coisa que não sabia que aconteceria.
Truques da mente.
Ela não viu quando ele bateu nela, mas, um momento antes de desmaiar, o viu parado à sua frente com a frigideira na mão. Lembrou-se dele gritando porque ela o acordara. Lembrou-se dele se desculpando mais tarde por ter batido nela, quando a mãe desesperada o exigiu, antes de sair correndo com Mia para levar Chloe ao pronto-socorro. Mia usava o vestido cor-de-rosa que ganhara da vovó e as fitas amarelas no cabelo.
Ela se lembrou da mãe mentindo para os médicos, dizendo que a filha caíra na calçada em frente à casa delas, e, naquele momento, soube que as coisas sempre seriam daquele jeito. A mãe sempre escolheria homens "com um pouco de dinheiro" em vez do bem-estar das filhas. Portanto, naquele dia, com os médicos olhando em dúvida para a mãe, Chloe Philips decidira mudar de vida, escolhera uma nova — não necessariamente a vida melhor que desejava.
— Isso não é verdade — dissera para os médicos. — O namorado dela me bateu com uma frigideira. E não foi a primeira vez que ele bateu em mim e na minha irmã. E nem a primeira vez que fez outras coisas também.
Depois de muito debate e várias acusações, ela e Mia foram afastadas da mãe naquele dia. Chloe não a vira depois disso. Não sabia se o mesmo era verdade para Mia.
— Chloe. Acorde.
Mia era mais jovem e fora adotada de St. Vincent quatro meses depois de ter sido aceita em um dos abrigos. Isso ocorrera de forma silenciosa. Ninguém queria uma cena com Chloe, que estava prestes a perder a irmã. Quando ela acordou naquela manhã e viu que a irmã se fora, um dos assistentes sociais que trabalhava lá contou a verdade para ela.
Mia fora adotada por uma família boa. O mesmo aconteceria com Chloe — eles sabiam disso, mas demorava mais para crianças mais velhas, mesmo crianças um pouco mais velhas. O importante é que Mia fora para um bom lar. Mas, antes de partir, escrevera um bilhete para a irmã em um pedaço de papel branco. Chloe sabia que a irmã ainda não sabia escrever. E ela sabia reconhecer a letra de um adulto, mesmo que ele tentasse imitar a letra de uma criança. Eu a amarei para sempre, dizia o bilhete. Não se esqueça de mim. Amo você, Mia.
Chloe rasgara o bilhete ao meio e sua longa estadia em St. Vincent transformara-se em isolamento, fúria e solidão. Ela começara o primeiro ano escolar no outono. Tirava notas baixas, mas não se importava. Os assistentes sociais de St. Vincent a encorajaram a fazer amigos e a tentar se envolver com os outros durante o recesso. Talvez a música a ajudasse. Ou a dança. Chloe os ignorara e se isolara ainda mais. Algumas vezes, ela se perguntava se cometera um erro ao entregar a mãe. O que era pior, ser parte de uma família violenta ou estar aqui sem família alguma? Ela não tinha certeza da resposta. E isso a entristecia.
— Não vou pedir de novo, Chloe. Acorde.
Um ano depois, em uma tarde em setembro, ela conhecera Carmen.
Ela estava assistindo à televisão com cinco outras crianças quando Carmen entrou no prédio. Chloe olhou para ela e não conseguiu desviar os olhos. Carmen parecia uma estrela de cinema. Ou talvez uma modelo. A mulher tinha aquele tipo de presença. Cabelos pretos longos que brilhavam, como se capturassem a luz e a refletissem de volta. Calças pretas de couro e uma blusa justa branca. Alta e esguia, a pele perfeita, linda. Por algum tempo, ela conversou com duas assistentes sociais. Chloe viu quando ela entregou a elas um cheque e ouviu sua conversa afável. Como a mulher obviamente sabia que estava sendo observada, ela se virou, olhou para Chloe e acenou de leve. Chloe, estranhamente ansiosa por conhecê-la, acenou de volta.
— Quem é aquela ali? — perguntou a mulher.
As duas assistentes sociais seguiram-na até a sala de estar. — Essa é a Chloe — disse uma delas. Ela moveu a boca, sem fazer som, dizendo perturbada. Chloe percebeu e viu quando a mulher fez uma careta, como se o que tivesse sido dito fosse insensível, cruel e inadequado. E era.
A mulher estendeu a mão, que Chloe apertou. — Meu nome é Carmen — disse ela.
— Sou a Chloe.
— Ouvi dizer. Veja só, para uma tarde de outono, está muito mais quente do que achei que estaria quando me vesti hoje cedo. Caso contrário, não estaria usando essa roupa. Vou tomar um sorvete na loja ao lado. Quer vir comigo?
Chloe, fascinada, assentiu.
Carmen se virou para as duas mulheres. — Sabem a sorveteria aqui ao lado? Quero pagar um sorvete para ela. É claro, entenderei se acharem que precisam nos acompanhar.
— Sim, uma de nós precisa — disse uma das assistentes. — É o protocolo.
— É claro. — Ela olhou para Chloe e revirou os olhos de forma que só Chloe pudesse ver. — Então? Que tal uma casquinha? Eu pago.
Fora o começo do relacionamento delas. Desde então, inúmeros e-mails, cartas e telefonemas foram trocados. Carmen a visitava pelo menos uma vez por mês.
Quando as assistentes sociais passaram a conhecer Carmen, e especialmente o dinheiro dela, os protocolos foram relaxados. Carmen levou Chloe para fazer compras. Levou-a ao cinema. Algumas vezes, iam para o Central Park e deitavam-se em toalhas de praia, tomando banho de sol e ouvindo música no rádio. A única coisa constante no relacionamento delas era que sempre encontraram tempo para conversar.
Algumas vezes, eram conversas de garotas. Outras, eram sobre como Chloe precisava melhorar as notas na escola. Outras ainda, Carmen a ensinava como lidar com os valentões ou simplesmente riam juntas. À medida que o relacionamento delas se aprofundava, Chloe começou a sentir que, mesmo que provavelmente nunca fosse oficialmente adotada, Carmen a adotara. O entusiasmo que ela demonstrava sempre que se encontravam não era falso. Chloe teria detectado. Ela teria farejado a falsidade com a mesma facilidade com que antes farejava o álcool e a maconha no bafo da mãe e do namorado dela.
Elas eram amigas, boas amigas, e, no decorrer daquela amizade, Chloe começara a pensar que algumas coisas realmente importavam. Conseguir notas melhores era uma delas. Carmen estava certa. Se ela quisesse uma vida melhor quando saísse dali, precisaria ir para a universidade. Notas boas eram fundamentais para isso, portanto, Chloe começara a se concentrar nos estudos e suas notas melhoraram. À medida que os anos se passavam, ela começou a aceitar pessoas em sua vida, porque Carmen a incentivara a isso. Ela agora tinha duas amigas próximas, Valencia e Shenika, que também passaram a conhecer Carmen e a amavam. As coisas estavam melhores do que antes. Em um ano e dois meses, quando ela fizesse dezoito anos, Chloe sabia que poderia sair desse lugar e começar uma vida melhor.
E era o que pretendia fazer.
* * *
O tapa em seu rosto a acordou.
Assustada, ela levantou as mãos algemadas até o rosto e piscou com o brilho da luz acima de sua cabeça, onde a sombra do rosto de um homem estava a centímetros do seu.
— Eu disse que devia acordar — disse ele. Era o russo. — Você ficou apagada por tempo suficiente.
A cabeça doía e o rosto ardia. Ela olhou para a câmera à sua frente e se lembrou. Queriam um vídeo dela. Alguma coisa sobre pedir ajuda a Carmen. Quando se recusara, eles tinham batido nela e ela desmaiara. A cabeça e os lábios doíam e ela sentiu o gosto de sangue na boca. Eles tinham gravado o vídeo? Se tinham, era de sua imagem desmaiada. Mas, como não pudera dizer o que queriam que dissesse, o que tinham dito por ela?
Pior ainda, como ameaçaram Carmen? E se Carmen ainda não recebera o vídeo, Chloe sabia que o receberia em breve.
E então ela se lembrou do que mais disseram. Que Carmen era uma assassina. Era realmente por causa disso que Chloe estava aqui? Claramente ela estava sendo usada para atingir Carmen, mas será que era verdade?
Carmen era uma assassina?