Vingança em Manhattan
Capítulo 4
Ela se apressou pelo corredor, esperando que estivesse errada, mas sabendo que estava certa. Fez a curva e o procurou no bar. Ele desaparecera. E os drinques também. O barman viu o olhar dela e acenou com um pedaço de papel.
Ela não tinha tempo para isso. Precisava sair dali agora, enquanto ainda tinha uma chance, mas precisava saber o que ele escrevera, pois poderia dar alguma informação sobre o que fazer a seguir. Ela foi até o barman, um homem corpulento de trinta e poucos anos, cujos cabelos pretos estavam alisados para trás de forma a revelar um rosto bonito.
— Meu marido — disse ela. — Há quanto tempo ele saiu?
— Dez minutos? Ele me pediu que lhe entregasse isso.
Ela pegou o bilhete e o abriu. Cinco palavras: "Lamento. Eu não tive opção."
Ela olhou para trás, não viu nada fora do normal e virou-se novamente para o barman. — Por acaso viu se ele usou o telefone?
— Vi.
Então, ele telefonara. Ou alguém telefonara para ele. De qualquer forma, ele dissera a eles que ela estava aqui. Mas por quê? Se a queriam morta, ele poderia tê-la matado com um tiro há uma hora.
Porque querem pegá-la viva.
Era possível, mas por quê? Ela era parcialmente responsável pela morte de Laurent. Eles queriam fazer alguma coisa com ela antes de matá-la? Talvez Katzev quisesse matá-la pessoalmente, não seria surpresa. Ou talvez achassem que tinha informações às quais não deveria ter acesso, apesar de ela não saber o quê.
Ela precisava sair, mas não podia usar a entrada da frente. Nem mesmo a lateral. Logo, esse lugar estaria cercado, se é que já não estava.
— Seu marido disse que você tinha quinze minutos — disse o barman. — Não sei ao certo o que ele quis dizer com isso, mas talvez signifique alguma coisa para você.
— Significa. — Por que ele estava dando dicas? Fora forçado a fazer isso? Ou queria dar a ela uma falsa sensação de segurança? Com cinco minutos à frente, talvez ela pensasse que conseguiria sair agora e escapar deles. Quando, na realidade, a estariam esperando do lado de fora. Isso poderia ser uma armadilha. — Eu não o vi sair. Para que lado ele foi?
— Ele perguntou se podia usar a saída de serviço. Parece estranho, mas já ouvi pedidos mais estranhos. Nós o ajudamos.
Armadilha. — Entendo.
Ele fez uma pausa. Ela pôde senti-lo estudando-a. — Está em algum tipo de encrenca, senhorita?
Use-o.
— Estou.
— Que tipo de encrenca?
— Eu disse ao meu marido que o largaria hoje. Ele disse que garantiria que isso não acontecesse. Você sabe o que isso significa. Ele é violento. Já me agrediu antes e vai fazê-lo de novo.
— Há alguma coisa que posso fazer?
— Pode me colocar em um quarto?
— Você precisaria fazer o check-in...
— Você perguntou se podia ajudar. Preciso entrar em um quarto agora. Ele telefonou para algumas pessoas para que viessem aqui tentar me dissuadir, se é que me entende.
— Senhorita...
— É importante.
— Eu não tenho autoridade para isso.
— Então tem algum lugar onde eu possa me esconder? Um depósito? Uma sala de conferência?
— Por quanto tempo?
— Uma hora? Alguns homens virão aqui. Perguntarão a você se me viu. Preciso que diga a eles que saí no momento em que me entregou o bilhete. Se eles engrossarem, diga que chamará a polícia. Eles irão embora se disser isso. Não vão querer confusão.
— Por que não chamamos a polícia agora?
— Porque não chegarão aqui em tempo. Meu marido saiu rapidamente por um motivo. Ele usou a saída de serviço por um motivo. Esse bilhete é uma ameaça.
Ele olhou para o bilhete na mão dela, depois para o outro lado do bar, onde outro barman guardava copos enquanto olhava na direção deles. — Phil, preciso de um minuto, ok?
O homem olhou para Carmen e de volta para o barman. — Vamos fechar em quarenta e cinco, Jon.
— Eu disse um minuto, já volto.
* * *
Ele a levou para uma área atrás do bar. Eles começaram a caminhar por um corredor curto que levava a um par de portas basculantes.
— Vamos por aqui — disse ele. — Aja naturalmente.
Eles entraram na cozinha, grande e clara, com luzes brilhantes que refletiam nas mesas de aço, nas prateleiras e nos aparelhos. Carmen olhou em torno procurando câmeras no teto, mas o lugar era tão grande e Jon caminhava tão rapidamente, que ela não notou nenhuma. Ela contou seis pessoas na cozinha. Fizeram uma curva e ela viu uma sétima. Todas elas estavam limpando a cozinha para fechá-la ou preparando o serviço de café da manhã seguinte. Outra curva na cozinha. Ela estava nervosa por não ter visto câmeras, pois sabia que estavam lá.
— Ei, pessoal — disse ele. — Essa é minha namorada, a Lisa. Ela acabou de receber uma notícia ruim e precisa de um espaço para ficar sozinha. Meu turno termina em quarenta e cinco. Vocês se importam se ela ficar na escada até que eu saia?
— Achei que você fosse gay.
— Engraçado, Mac. Tudo bem, pessoal?
Todos deram de ombros.
— Obrigado.
Ele a pegou pela mão, encaminharam-se para a esquerda e empurraram outro par de portas. Abaixo, estava a escada. Fora ali para onde levaram Jake? Ela se virou para ele e perguntou.
— Foi, mas não se preocupe com isso. A porta lá embaixo fica trancada. Ninguém pode entrar, e não acharão que você está aqui atrás. Portanto, fique aqui. Vou tentar conseguir um quarto.
— Ameace-os com a polícia quando chegarem. Faça com que saiam.
— Farei o possível.
— Obrigada — disse ela.
— Você ficará bem. Se vierem, é melhor que eu esteja atrás do bar. Volto depois.
Ele se virou para sair.
Cada porta tinha uma pequena janela quadrada que dava para a cozinha. Ao observá-lo sair, todos os olhos na cozinha viraram-se para ela. Carmen se afastou das janelas, sem acreditar que estava nessa situação.
Um simples passeio em Manhattan para arejar a cabeça tinha se transformado nisso? Ela estava pensando em como as duas últimas horas foram irreais quando o celular tocou. Ela colocou a mão no bolso do casaco e o pegou. Um número que ela não reconheceu.
Ela hesitou antes de atender. — Alô?
A voz de um homem. Suave, quase frágil. — Carmen Gragera?
Ela não respondeu.
— Está tudo bem, Carmen. Sou amigo de Vincent. Ele telefonou há um momento e me disse que você está em um aperto.
Ela fechou os olhos de alívio.
— Gostaria de ajuda? — perguntou ele.
— Sim, gostaria.
— Pode vir me encontrar agora?
— Estou no meio de uma emergência.
— Entendo. Há algo que eu possa fazer?
— Eu posso lidar com isso. Posso encontrá-lo amanhã?
— Pode ser amanhã.
— Eu agradeço.
— O prazer é meu. Sou velho, Carmen. Provavelmente pode ouvir isso na minha voz. Não saio muito de casa, mas não deixe que isso a preocupe. Eu vivo para os telefonemas de Vincent. Eles me mantêm vivo. Lembram-me de quando eu estava no topo e ainda me importo. Diga a hora.
— Pela manhã?
— Dez?
— Perfeito.
Ele deu a ela o endereço.
— Qual é o seu nome? — perguntou ela.
A linha ficou muda.
* * *
Quando o turno terminou e o bar fechou, o barman, Jon, voltou. Ele parecia tenso e apreensivo, mas também controlado. Os olhos dele lembravam os de Alex, grandes e azuis. Inteligentes e intensos.
— Eles apareceram? — perguntou ela.
— Sim, eles apareceram.
— Quantos?
— Quatro.
— O que aconteceu?
— Perguntaram por você. Eu disse a eles que você tinha ido embora. Eles disseram que isso era impossível. Eu disse que você voltou cinco minutos depois que seu marido saiu e que provavelmente fora atrás dele.
— E eles acreditaram?
— Não sei, mas eles foram embora. E consegui isso para você. — Ele entregou um cartão a ela. Era a chave de um quarto. — Siga-me.
* * *
— Usaremos os elevadores de serviço — disse ele ao passarem pelas portas basculantes. Eles foram para a parte de trás da cozinha, cruzaram outro par de portas e saíram em frente a um grupo de elevadores. — Eles são usados para o serviço de quarto. Podemos chegar a qualquer quarto daqui.
— Não sei dizer o quanto agradeço.
Ele apertou um botão. — Minha mãe passou pelo mesmo tipo de merda com meu pai. Eu era jovem demais para fazer alguma coisa. É um prazer ajudar.
— Quanto eu lhe devo?
— Nada.
As portas se abriram e eles entraram. Ele apertou o botão 29, as portas se fecharam e o elevador começou a subir.
— O quarto não foi de graça — disse ela. — Pretendo pagar por ele.
— Na verdade, é de graça. Consegui como compensação para você. Eu disse a eles que derramei um drinque em você, e que pediu um quarto para que pudesse se limpar. Não é nada demais. Eles a tratarão como qualquer outro check-in. Você precisará sair amanhã ao meio-dia.
— Já terei saído há muito tempo — disse Carmen.
O elevador reduziu a velocidade e parou. As portas se abriram e eles saíram para uma pequena área de espera antes de entrarem em um corredor iluminado.
O quarto dela ficava no final do corredor. Quando chegaram, ele colocou a chave dentro da ranhura, destrancou a porta e eles entraram. Carmen esperava algo bonito — afinal de contas, era o Waldorf — mas não esperava uma suíte de canto com duas vistas incríveis da cidade.
Ela foi até a janela e olhou para a Park, onde o trânsito estava leve. Em algum momento, começara a chover. As ruas estavam brilhando. O rosto de Jake apareceu diante de seus olhos.
Onde está você? pensou ela.
— O banheiro fica ali — disse Jon. — Você encontrará um roupão e produtos de higiene. Nesse armário, há travesseiros extras. Também consegui serviço de quarto para você. Portanto, se estiver com fome pela manhã, fique à vontade. Peça blinis com caviar, não vai se arrepender.
— Você é muito gentil — disse ela.
— O prazer é meu, Carmen.
— Gostaria de um drinque? Tenho certeza de que há alguma coisa na geladeira. — Ela foi até o pequeno refrigerador sob a mesa de trabalho e o abriu. — E aqui está. Há de tudo. Quer me acompanhar? Vodca?
Ele foi até a porta e colocou a mão na maçaneta. — Eu preciso ir embora.
— Sinto muito — disse ela. — Você provavelmente está de pé há horas.
Ela sorriu ao cruzar a distância que os separava. Olhou dentro dos olhos azuis dele e estava prestes a apertar sua mão quando levantou os braços, segurou a cabeça dele nos dois lados e torceu-a tão rapidamente que o pescoço quebrou.
Não houve luta. Somente surpresa nos olhos dele antes que se dilatassem com a morte. Ele cambaleou para a frente e caiu com força aos pés dela. As pernas estremeceram por um momento, um jato de ar escapou dos pulmões e ele ficou imóvel.
Ela olhou para ele. — Eu nunca lhe disse meu nome, Jon, portanto, eles devem tê-lo dito a você. E isso significa que eles também sabem onde estou. — Ela sacudiu a cabeça. — Que desperdício. Estão esperando você lá embaixo? É claro que sim. Aposto como estão esperando que volte para que possa trazê-los até aqui. E então você esperaria o resto do dinheiro que lhe prometeram. E foi aí que você não pensou. Viu o rosto deles. Portanto, já sabe demais. Eles o teriam matado, mesmo se eu não o tivesse feito. E então sairiam daqui comigo.
Ela colocou a mão no bolso do casaco, sentiu a Glock e entreabriu a porta. Ninguém no corredor. Os elevadores de serviço estavam bem à frente, mas na outra extremidade do corredor.
Ela não sabia como faria, mas precisava sair antes que eles viessem por conta própria. Ela pegou as chaves de Jon no bolso da calça dele, saiu do quarto e começou a andar rapidamente em direção aos elevadores, procurando ouvir sinais de alguém vindo em sua direção. Em certo ponto, ela desejou que isso acontecesse. Assim, poderia usar a escada, desviar-se deles e pegar outro elevador em outro andar.
Mas eles o estavam esperando. Precisavam dele, pelo menos por enquanto. Por quanto tempo esperariam antes que decidissem que alguma coisa dera errado? Dez minutos? Quinze? Se fosse ela, esperaria esse tempo. Depois se preocuparia. Depois agiria.
No elevador de serviço que usaram antes, ela tentou três chaves do chaveiro dele antes de encontrar a certa, colocou-a na fechadura e conseguiu apertar o botão para descer. As portas se abriram, sugerindo que ninguém usara o elevador desde que saíram dele. Ela entrou e apertou o andar da cozinha. O elevador começou a descer.
Ela tentou se acalmar, mas era difícil. Como sairia dali? Alguns deles estariam esperando na área do bar, outros estariam guardando as saídas do prédio. Ela olhou para o mostrador e sua mente disparou enquanto os andares passavam. Logo, ela estaria perto de uma sala cheia de pessoas da cozinha. Se a vissem, não iriam apenas questionar por que ela estava lá novamente. Também iriam querer saber por que ela não estava com Jon. O que diria se alguém perguntasse? Pior ainda, como Jon a escoltara tão rapidamente pela cozinha, ela só pudera observá-la depressa e não teve tempo de ver se havia câmeras nos cantos. Ela não sabia se apareceria nos vídeos da segurança, mas, se houvesse câmeras na cozinha e dependendo de onde estivessem localizadas, talvez aparecesse.
O elevador parou. As portas se abriram para os sons de conversa, risadas, batidas de bandejas e o tilintar de copos e talheres. Com o bar e o restaurante fechados, o clima estava mais relaxado do que antes. A noite estava terminando.
Logo na saída do elevador, ela olhou para o teto em busca de uma câmera, mas não havia nenhuma. Pelo menos não ali. A cozinha, no entanto, era totalmente diferente. Ela sabia que havia câmeras lá, em algum lugar. Sempre havia. No momento em que entrasse na cozinha e ao tentar sair sem ser notada, certamente seria filmada. Não que importasse muito. Ela já atravessara a cozinha antes. Já a tinham em vídeo.
Ela segurou as portas do elevador abertas e olhou para a esquerda, viu o primeiro obstáculo e também notou como seu anonimato seria breve.
As portas para os elevadores de serviço agora estavam abertas. A sala interna não era mais privada.
Um homem parado ao lado de uma mesa de aço inoxidável com uma faca de açougueiro na mão olhou para ela. Altura média. Cabelos loiros. Talvez quarenta anos. Musculoso.
Apesar do ruído da cozinha, ele deve ter ouvido as portas do elevador se abrindo. Ele usava um uniforme branco sujo de sangue, especialmente as pontas das mangas que estavam úmidas. Na cabeça, ele tinha um chapéu alto de cozinheiro, que estava limpo.
Na mesa, havia vários tubos de filés inteiros envoltos em plástico. À esquerda dele, pilhas de bifes recém-cortados. Mais cedo, quando Jon a levara pela cozinha, ela não o notara, portanto era improvável que ele soubesse quem ela era ou que Jon falara com o grupo, dizendo que era namorada dele e a estava ajudando.
Os olhos deles se encontraram. Houve um momento em que pareceu que ele colocaria a faca sobre a mesa. Mas não o fez. Afinal de contas, estavam em Manhattan. Para ele, ela era uma intrusa, alguém que não tinha nada a fazer naquele lugar. Então, por que estava ali? E como entrara no elevador sem a chave?
Ele contornou a mesa com a faca ao lado do corpo e um olhar interrogativo no rosto.
Ela saiu do elevador e entrou na sala interna.
— Posso ajudá-la? — perguntou ele.
Ela colocou o dedo sobre os lábios, retirou a Glock do bolso do casaco e a apontou para ele. — Talvez — disse ela. — Vamos descobrir.