A mensageira das violetas

Florbela Espanca · Chapitre 11 sur 38

Pages du PDF

A mensageira das violetas

Eu...

Sinto o teu coração que Deus talhou 

Num pedaço de bronze luminoso,

Como um berço onde a vida me pousou. 

O silêncio, ao redor, é uma asa quieta... 

E a tua boca que sorri e anseia,

Lembra um cálix de tulipa entreaberta... 

Cheira a ervas amargas, cheira a sândalo... 

E o meu corpo ondulante de sereia

Dorme em teus braços másculos de vândalo...

 

EU...

 

Eu sou a que no mundo anda perdida, 

Eu sou a que na vida não tem norte, 

Sou a irmã do Sonho, e desta sorte 

Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida, 

E que o destino amargo, triste e forte, 

Impele brutalmente para a morte! 

Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê... 

Sou a que chamam triste sem o ser... 

Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que alguém sonhou. 

Alguém que veio ao mundo pra me ver, 

E que nunca na vida me encontrou!

 

TORTURA

 

Tirar dentro do peito a emoção,

A lúcida verdade, o sentimento!