A mensageira das violetas

Florbela Espanca · Chapitre 21 sur 38

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A mensageira das violetas

Rústica

Viver!... Beber o vento e o sol!... Erguer 

Ao céu os corações a palpitar!

Deus fez os nossos braços pra prender, 

E a boca fez-se sangue pra beijar!

A chama, sempre rubra, ao alto a arder!... 

Asas sempre perdidas a pairar,

Mais alto para as estrelas desprender!... 

A glória!... A fama!... O orgulho de criar!... 

Da vida tenho o mel e tenho os travos 

No lago dos meus olhos de violetas, 

Nos meus beijos estáticos, pagãos!... 

Trago na boca o coração dos cravos! 

Boêmios, vagabundos, e poetas:

- Como eu sou vossa irmã, ó meus irmãos!...

 

RÚSTICA

 

Ser a moça mais linda do povoado, 

Pisar, sempre contente, o mesmo trilho, 

Ver descer sobre o ninho aconchegado 

A bênção do Senhor em cada filho. 

Um vestido de chita bem lavado,

Cheirando a alfazema e a tomilho... 

Com o luar matar a sede ao gado,

Dar às pombas o sol num grão de milho... 

Ser pura como a água da cisterna,

Ter confiança numa vida eterna

Quando descer à "terra da verdade"... 

Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza! 

Dou por elas meu trono de princesa, 

E todos os meus reinos de ansiedade.