A Enxada e a Lança
Apresentação (Laurentino Gomes)
Apresentação
A enxada e a lança: a África antes dos portugueses é um a obra m onum ental, de fôlego e am bição a que poucos autores se arriscariam . Paulista de nascim ento e piauiense de coração, o diplom ata, ensaísta, poeta e historiador Alberto da Costa e Silva com pôs a partir deste livro um panoram a grandioso e erudito para desvendar a aventura dos seres hum anos no continente que, segundo todas as evidências reunidas até agora pela ciência, lhe deu origem . Na sequência vieram A m anilha e o libam bo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700; Um rio cham ado Atlântico; Francisco Félix de Souza, m ercador de escravos – estudos que, som ados a inúm eras conferências, artigos e entrevistas, transform aram o autor em um dos m ais im portantes africanistas da atualidade e um dos m aiores intelectuais brasileiros de sua geração.
Este prim eiro volum e de sua história da África com eça com os Australopithecus, ancestrais rem otos dos seres hum anos atuais que teriam vivido nas florestas e savanas do Quênia, da Etiópia e de regiões vizinhas m ilhões de anos atrás. A partir dali, o leitor é conduzido em um a j ornada de m uitos séculos que o levará ao encontro de culturas m ilenares, registradas em obras de arquitetura, cerâm ica, escultura, pintura, tecelagem e outros artefatos produzidos na m aioria das vezes por autores anônim os e que hoj e oferecem pistas esparsas de sua existência. Algum as dessas civilizações são bem conhecidas, com o a dos faraós egípcios, a dos valentes guerreiros núbios do alto Nilo e a dos j udeus da Etiópia, supostam ente um a das doze tribos perdidas nas savanas africanas e cuj a prática religiosa resum e-se aos prim eiros livros do Antigo Testam ento. Outras são praticam ente desconhecidas, com o a dos artífices das m isteriosas esculturas Nok, encontradas na franj a do deserto do Saara, e a dos iorubás, nação estabelecida nos arredores de Ifé, atual Nigéria, cuj os reis tinham poderes m ágicos.
É um a j ornada perm eada de surpresas a cada virar de página. Nela, o leitor encontrará, entre outros personagens fascinantes, o m ansa Muham ed, soberano do Mali, m aior produtor m undial de ouro até a descoberta de pedras e m etais preciosos em Minas Gerais no século XVII. Cerca de duzentos anos antes de Vasco da Gam a e Pedro Álvares Cabral, Muham ed intuiu ser possível chegar à outra m argem do oceano Atlântico, ou sej a, ao Brasil. Para isso organizou um a expedição de duzentas canoas despachadas para o alto-m ar. Nenhum a retornou. Inconform ado, Muham ed lançou outras 2 m il canoas rum o ao desconhecido, em um a das quais viaj ava ele próprio. Nada m ais se soube da expedição. Seu filho, Mansa Musa, fez um a peregrinação a Meca, santuário m undial do islam ism o, à frente de m ilhares de nobres, soldados e escravos e cem cam elos cobertos de ouro. Durante a perm anência no Cairo, capital egípcia, gastou um a tonelada do m etal dourado em presentes e com pras. O derram e foi tão grande que durante m uitos anos, no Oriente Médio, o ouro se desvalorizou em relação à prata.
Hábil no dom ínio da língua portuguesa, Alberto da Costa e Silva constrói sua narrativa em estilo preciso, às vezes delicado e poético, m as sem pre repleto de autoridade e erudição, valendo-se de sua longa experiência de pesquisador e diplom ata brasileiro na África, onde serviu com o em baixador na República do Benim e na Nigéria e percorreu quinze países. Generoso com o leitor, escreve de form a didática e fácil de entender, virtude infelizm ente rara entre os historiadores brasileiros. O olhar atento e inventivo do investigador revela-se logo nas páginas iniciais, nas quais se oferece ao leitor um sobrevoo cinem atográfico da paisagem africana: “O avião que vai de Adis Abeba a Cartum parece voar baixo, pois perm ite à vista distinguir bosques e clareiras. De repente, porém , sem aviso, a terra cai. Cai de enorm e altura, ao longo de paredes que parecem quase verticais. Lá em baixo, m uito em baixo, apenas se reconhecem agora o am arelado das savanas do Sudão e – um risco fino de lápis no papel – o Nilo Azul, com suas m argens verdej antes.”
Desde o início da obra, o autor deixa transparecer o seu m étodo de apuração, expondo ao leitor até suas fragilidades – m ais aparentes do que reais. Segundo ele, diante da óbvia escassez de provas docum entais, m uitas vezes foi necessário recorrer à im aginação e à conj ectura para com por o grande m osaico das civilizações africanas. “Toda narrativa histórica é um a aproxim ação hipotética de acontecim entos que o autor não viveu”, define. No caso da África, explica, é preciso m uitas vezes “adivinhar [o] passado”. Em A enxada e a lança esse “adivinhar o passado” envolveu um a pesquisa gigantesca, com o revelam as m ais de 1.600 notas de referências e as m ais de m il fontes bibliográficas que, som adas, ocupam cerca de 140 páginas, equivalentes a quase um sétim o do volum e total do livro.
Para reunir um a m assa tão im pressionante de inform ações foi necessário recorrer às m ais variadas pistas e fontes de inform ação, apelar para m étodos de datação por radiocarbono e term olum inescência, genética, paleontologia e arqueologia, glotocronologia (ram o da linguística que procura estudar a separação tem poral entre duas ou m ais línguas aparentadas), além de preciosos relatos de viaj antes que percorreram a África ao longo de m uitos m ilênios. Foi essa capacidade investigativa que rendeu ao autor, entre outras honrarias, o título de doutor honoris causa pela Universidade Obafem i Awolowo, de Ifé, na Nigéria, um a das m ais im portantes instituições acadêm icas do continente. Pela m esm a razão, o crítico literário paranaense Wilson Martins definiu A enxada e a lança com o “um livro que j á nasce clássico”.
O trabalho de pesquisa de Alberto da Costa e Silva aj uda a desm ontar alguns m itos que a falta de conhecim ento criou a respeito da África. O prim eiro tende a interpretar o continente africano antes da chegada dos portugueses com o um aglom erado de tribos prim itivas que viviam na Idade da Pedra e m ergulhadas em perm anente estado de guerra. A realidade é bem diferente. Desde tem pos im em oriais havia ali culturas bem organizadas que se relacionavam por um a extensa rede de com ércio de produtos tão variados quanto sal, arroz, algodão, tecidos, rebanhos de gado, ouro, bronze e ferro. Na atual região de Brong-Ahafo, na República de Gana, pesquisadores encontraram em 1975 restos de um a fundição de ferro datados da era cristã, portanto contem porânea do Im pério Rom ano em seu apogeu. Desde o século XIV era em grande parte com o ouro africano que a Europa satisfazia as suas necessidades de cunhagem de m oeda.
Um segundo m ito diz respeito à escravidão. O autor esgrim e seu vasto conhecim ento contra a atual tendência politicam ente correta de suavizar as form as de escravidão anterior à chegada dos portugueses no século XIV ou m esm o negá-la de todo. Por essa corrente de pensam ento, teriam sido os europeus os culpados pelo surgim ento do abom inável tráfico de seres hum anos na África. Inegavelm ente, a partir do século XVI os europeus sistem atizaram e deram a esse com ércio a escala que alcançou nos séculos seguintes. Estim a-se que cerca de 10 m ilhões de seres hum anos tenham sido capturados e trazidos para a Am érica até m eados do século XIX. Desse total, 40% vieram parar no Brasil. Foi possivelm ente a m aior m ovim entação forçada de pessoas em toda a história da hum anidade. Mas isso não significa que coube aos europeus inventar a m ão de obra cativa no continente.
Valendo-se de variadas fontes, Alberto da Costa e Silva dem onstra que as m arcas da escravidão j á estavam presentes na história africana bem antes da chegada dos portugueses – com o de resto na própria Europa, na Ásia e em praticam ente todas as porções do planeta habitadas pelos seres hum anos. Na quarta dinastia do Egito, por volta de 2680 a.C., o faraó Esneferu organizou um a expedição à Núbia da qual seus hom ens regressaram com 7 m il escravos. Estim a-se que após o advento do islam ism o, entre os anos 800 e 1600, as exportações de escravos para o Oriente Médio através do m ar Verm elho tenham som ado 2,4 m ilhões de cativos. Havia escravos eunucos, soldados, concubinas, artesãos, canoeiros, carregadores, serviçais dom ésticos, trabalhadores agrícolas. Em m uitos casos, eram usados com o oferendas em sacrifício pelos seus senhores. “Não vacilarem os em escrever “escravo” e “escravidão”, ao tratar de situações que eram centrais na parte das sociedades africanas”, explica.
Na abundância da m ão de obra escrava o autor identifica a causa do atraso tecnológico no continente africano, um a ideia que j á no final do século XIX seduzira Joaquim Nabuco ao analisar os problem as estruturais da sociedade brasileira. O regim e de escravidão, dizia o grande abolicionista pernam bucano, corrom pia tudo e im pedia que a sociedade evoluísse. “A escravidão não consentiu que nos organizássem os e sem povo as instituições não têm apoio, a sociedade não tem alicerce”, escreveu. Na m esm a linha, Alberto da Costa e Silva explica que a persistência da escravidão entre os africanos fez com que inovações im portantes com o o arado, o tear e o m oinho de água e o de vento nunca fossem adotadas de form a generalizada no continente. A m ão de obra cativa teria funcionado com o um fator de inibição à revolução da tecnologia que m arcou a vida econôm ica da Europa a partir do século IX. “A escravaria num erosa e fácil não era de m olde a estim ular a difusão de m áquinas poupadas de trabalho, com uns no m undo islâm ico e na Europa m edieval e renascentista”, explica Alberto da Costa e Silva. “Os inventos da Eurásia não penetraram na África subsaariana senão com grande atraso.”
Ao descrever suas viagens de pesquisas pela África no prefácio à prim eira edição deste livro, de 1990, o autor diz ter observado “com o se repetiam as paisagens nos dois lados do oceano” e com preendido “por que os africanos tão prontam ente se assenhorearam das terras brasileiras, ainda que delas não tivessem a propriedade e nelas trabalhassem com o escravos”. Junto com os escravos chegaram ao Brasil novas espécies de plantas, palavras, cores, ritm os e hábitos culturais que m arcaram profundam ente a nossa identidade. “Jam ais saberem os o que realm ente fom os se não [...] desfiarm os [a história brasileira] pelo m enos desde Afonso Henriques, [prim eiro rei de Portugal], na praia ocidental da Península Ibérica, e desde Nok e a expansão dos bantos, no continente que a nós tem os defronte”, diz.
Por essas e m uitas outras razões que os leitores encontrarão neste livro, estudar a história da África é essencial para com preender o Brasil. Com a vantagem de que, pelas m ãos de Alberto da Costa e Silva, essa aventura será, além de útil, m uito m ais fascinante e prazerosa.
Laurentino Gom es
Itu, em fevereiro de 2011