A Enxada e a Lança
20. No baixo Zaire e nos planaltos de Angola
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No baixo Zaire e nos planaltos de Angola
Nos prim eiros séculos do segundo m ilênio de nossa era, desenvolveram -se, no curso inferior do rio Zaire, vários tipos de estruturas políticas, nas quais j á houve quem reconhecesse, isoladas ou a se com binarem , três fontes de autoridade ou
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poder.
Um a delas defluía dos ancestrais e tom ava form a nos clãs ou nas linhagens,
a
naquilo que os congos cham avam de canda e que estabelecia o vínculo genealógico entre os que a integravam e os que prim eiro tinham ocupado determ inada área de terra ou a haviam cedido a outros. Dentro de cada canda contavam -se vários ram os ligados entre si por um sistem a de parentesco sim bólico e perpétuo, cuj as hierarquias podiam favorecer a am pliação e a centralização da autoridade no cabeça do m ais antigo segm ento do clã. Quando a riqueza e a força se localizavam noutro ram o, m ais feliz na sua política de m atrim ônios e de alianças, m ais hábil em arregim entar clientes e com eles e com escravos aum entar o seu núm ero, as tradições genealógicas eram provavelm ente alteradas, para se conform arem à realidade. A própria m ecânica do casam ento facilitava a concentração da riqueza, do prestígio e do poder: era de regra desposar prim as em prim eiro ou segundo grau por parte do irm ão ou da irm ã do pai (que não pertenciam à m esm a canda do m arido, por ser esta m atrilinear) ou por parte do irm ão da m ãe.
Graças ao sistem a de m atrim ônios cruzados entre várias linhagens, corrigia-se tam bém a tendência à fragm entação das candas e se entreteciam os vínculos entre elas. Cada indivíduo ligava-se, assim , a m ais de um horizonte fam iliar. Se, por exem plo, por ser filho caçula, considerava não ter possibilidade de suceder na chefia ao seu tio m aterno m ais velho, podia buscar apoio para a secessão de seu grupo j unto ao pai ou ao tio paterno ou até m esm o a um estranho, um “senhor da terra”, de quem , ao dele receber o espaço em que se fixaria, passava a ser socialm ente “filho”. E, com o esse parentesco, quer real, quer sim bólico, era perpétuo, os liam es não se apagavam no tem po. Com o entre os lundas, os prim os longínquos eram “irm ãos”, porque descendiam de irm ãos, dos quais eram sucessores. Pois herdavam -se a posição fam iliar e a identidade social: ao assum ir a chefia de um a linhagem , quem o fazia transform ava-se no seu antecessor, de quem tom ava o nom e e assum ia o parentesco. Este parentesco estendia-se ao grupo do qual ele era o cabeça e situava o grupo em relação aos dem ais.
Se a canda se fundava no sangue e no culto dos ancestrais, um outro tipo de sobado desenvolvera-se a partir do solo, em torno dos ritos propiciatórios dos espíritos da água e da terra. O seu chefe era o quitom e — palavra que se traduz por “o puro” ou “o iniciado” — ou, ainda, o zim ba ou zum ba, o um bum ba, o pangana ou o calunga, um “senhor da terra” que participava dos m istérios do ofício do ferreiro. Cham ava a chuva. Favorecia a fertilidade das m ulheres, dos anim ais e das árvores. E seu poder estendia-se, ao que parece, por toda a área de drenagem de um curso d’água ou de um lago, centrada num a árvore santa, que recebia o espírito de um a serpente gigantesca, a um bum ba ou bom ba.
É possível que o título de quitom e se herdasse dentro da m esm a fam ília. O que se sabe é que não podia ficar vago. Por isso, o quitom e designava o seu sucessor ainda em vida e, ao sentir-se velho ou enferm o, transferia seus poderes para o escolhido e lhe ordenava, em público, que o m atasse por estrangulam ento ou a
pauladas. 2
A alternativa ao poder dos quitom es, tam bém nascida do culto aos espíritos da terra e das águas, eram as sociedades secretas, com o a quim passi, cuj os m em bros se reuniam no recesso das florestas, sob um chefe, um sacerdote, e a terem por oficiantes os albinos, os anões, os gêm eos e os que nasciam com pés aleij ados, pois se acreditava serem todos eles encarnações dos espíritos da terra e
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das águas.
Tanto o quitom e quanto as associações secretas do tipo da quim passi buscavam harm onizar as relações dos grupos hum anos com a natureza. Um a outra fonte de poder político, a dos espíritos celestes, voltava-se para as relações do hom em com os outros hom ens e a sociedade. Os espíritos celestes eram tidos com o m anifestações de um poder de proteção e de destruição — o cariapem ba — que podia ser usado por um indivíduo para favorecer a si m esm o e para am pliar o seu espaço na com unidade. Por interm édio do cariapem ba, um a pessoa podia adquirir honras e riquezas, defender-se contra a feitiçaria e as m aquinações de outrem , pôr o m undo a trabalhar a seu serviço. Ao aj udar um , o cariapem ba causava frequentem ente danos a outros: a face oposta do êxito era o m alogro; do poder, a subm issão; da saúde, a enferm idade; da riqueza, a pobreza; da fertilidade, a aridez, a desolação e os ventres estéreis. Não espanta, por isso, que esse poder m anipulado por alguns hom ens, os gangas, fosse identificado pelos europeus com um espectro noturno destruidor e devorador ou com o dem ônio. Por equivalente de satanás, de um a entidade m aléfica, de um gênio do m al, o cariapem ba será visto, no Brasil, entre os escravos bantos, desde Pereira da
Costa,4 5 6 e este conceito persistiria em Arthur Ram os, Luís da Câm ara Cascudo
e Roger Bastide. 7
Os gangas eram possuídos pelos poderes da terra e das águas, com o os quitom es, e recebiam os espíritos ligados à dim ensão do cariapem ba. Sabiam com o recolher e preservar esta força em fetiches ou inquices — pequenas pedras, penas, conchas, ervas e outros m ateriais reunidos num saquinho de pano ou pele ou num a escultura de m adeira. Havia inquices que tom avam outras form as: um pequeno m onte de terra, sobre o qual se punham alguns ram os, para convocar as chuvas. O cariapem ba podia, portanto, além de servir para identificar e com bater feiticeiras, curar um indivíduo, protegê-lo da infelicidade e favorecer-lhe a fortuna, ter um a destinação coletiva, com o quando era usado em benefício do grupo por um chefe espiritualm ente poderoso.
A alguns chefes que tinham visto crescer-lhes a influência e a autoridade — m ercê das terras férteis que controlavam , nas quais puderam assentar candas que deles se fizeram tributárias, ou de um a posição geográfica privilegiada, que lhes perm itiu controlar o com ércio inter-regional — não terão escapado as possibilidades de legitim ação e am pliação do poder que lhes ofereciam a crença no cariapem ba e o seu uso político. O chefe era poderoso porque podia em pregar o cariapem ba nele personalizado — e daí o ter surgido o culto das sepulturas dos sobas que o precederam e que tinham a m esm a força — para proteger ou castigar a coletividade. E cada um de seus m em bros.
Diz a tradição — conform e a registrou, por volta de 1624, um m issionário
j esuíta (o padre Mateus Cardoso?) na História do Reino do Congo 8 — que existia, ao norte do rio Zaire, em plena floresta, um ribeirão conhecido por Bungo (Vungu ou Bungu), e que ali m andava um rei, pai de m uitos filhos. O m ais m oço
deles, de nom e Motino-Bene (ou Antino-Ueneb ao reconhecer que não tinha qualquer possibilidade de chegar ao poder, o que m uito desej ava, resolveu em igrar com os seus para a outra m argem do rio e conquistar as terras que ali havia, repartidas entre diferentes senhores ou m anis.
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Esse Antino-Uene, que, em outros textos, com o o de Andrew Battel e o de
Cavazzi, se cham a Luqueni ou Nim i a Luqueni c — antino quer dizer “rei” ou
“j uiz”, e antotila significa “aquele que congrega m uita gente ao seu redor”10 —, passou as águas, invadiu Mpem ba Kasi e foi fixar-se num a colina, onde se ergueria Um banza Congo, a São Salvador dos portugueses.
A população local tinha por líder o m ani cabunga,d um quitom e, guardião do culto da terra e das águas e dos ritos dos ferreiros. Antino-Uene logrou o apoio daquele chefe-sacerdote, casou-se com um a das suas filhas e assum iu o título de m anicongo, o senhor do Congo. Com isto, a tradição parece dizer que Antino-Uene, chefe de um a canda im igrante, foi instalado em Um banza Congo e investido no poder por um quitom e, um “senhor da terra”. A estas duas fontes de autoridade j untaria tam bém a do cariapem ba, pois os m itos que o envolvem aludem à sua incom um violência, à sua crueldade, à força que tinha de orientar para o bem ou para o m al o destino de sua gente. Sinal disto é o fato de se
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cultuarem os túm ulos dos m anicongos, situados num bosque próxim o à cidade.
Esta, depois da chegada, possivelm ente no século XIV ou início do século XV, da gente de Antino-Uene, pronto prosperou. A terra era fértil, as águas boas de
beber, “o ar fresco, são e puro”, com o escreveria Filipo Pigafetta,12 a seguir as indicações de Duarte Lopes. Os rios eram ricos de peixe, e a savana, de caça. Perto havia sal. E nos solos bons plantaram -se banana, dendê, coco, cola, m ilhete, sorgo, inham e, m acunde. Criavam -se galináceos, cabras, porcos e cães. O platô era cortado por vários cam inhos do com ércio: os que traziam do norte, da outra banda do Zaire, o cobre; das praias do oeste, o sal e as conchas; do vale do rio Inquisi ou Nkisi, a leste, os panos de ráfia.
Cedo dividiu-se o trabalho. Havia poteiros, ferreiros, escultores na m adeira, cesteiros, tecelões. Os últim os, com a fibra da ráfia e de outras palm eiras, teciam panos belíssim os, “de pelo com o veludos, e dele com o lavores, com o satim velutado, tão ferm osos que a obra deles se não faz m elhor, feita em Itália” —
com o testem unhou Duarte Pacheco Pereira.13 E eram de diferentes tipos: lisos ou com pelo, com relevos ou sem eles, com o brocados, ou dam asco, ou seda
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acetinada, ou tecidos de Orm uz. Em quadrados, em geral de 66cm de lado, os
panos de ráfia dos congos se utilizariam depois com o sím bolo de valor de troca.
Outra m oeda incipiente foi o zim bo, pequena concha espiralada, cor de pérola ou cinzenta — e estas de colorido gris eram as m ais apreciadas e valiosas —, que o m anicongo m andava retirar do m ar e acum ulava em seu tesouro, para com o búzio dispensar favores. Mil conchinhas form avam um a funda; dez m il, um
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lufucu; vinte m il, um cofo. Assim o zim bo funcionava com o m edida sim bólica
de valor, com o m eio de acum ular e preservar riqueza, com o instrum ento de persuasão política e de pagam ento de serviços.
Os zim bos existiam em toda a costa de Angola, m as da ilha de Luanda vinham os m elhores e os m ais belos. Eram recolhidos do oceano por grupos de m ulheres,
em cestos estreitos e com pridos, sob o olhar de um vigilante do rei.16
Luanda ficava longe de Um banza: m ais de 240km ao sul da capital. Mas até a ilha chegou o poder do m anicongo, em sua continuada expansão pelas terras do planalto. Antino-Uene e seus descendentes teriam subj ugado as chefias vizinhas, entre as quais dois m icroestados ou pequenos reinos que o teriam antecedido na
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área, Um pangu e Um bata. Um pangu, por conquista m ilitar. Um bata, pela
adesão de seu m ani ao antotila ou rei do Congo. Por isso, m anteve-se hereditário e em grande parte autônom o o governo da província em que se transform ara o dom ínio do m ani Um bata, um a província que viria a ser, graças a seus bons
solos, no vale do Inquisi, a m aior produtora de alim entos do reino. 18
Os lim ites deste, no fim do século XV, seriam , a oeste, o Atlântico; ao norte, o rio Zaire, até a região de Luozi, onde ultrapassavam em bossa a sua m argem direita; a leste, a outra banda do rio Inquisi ou, m ais adiante, um a linha a acom panhar o rio Nsele e a cortar depois o divisor de águas entre o Cuango e o Inquisi; ao sul, o rio Loj e ou o rio Dande, até a costa, j unto à qual os dom ínios do m anicongo se estenderiam para a ilha de Luanda. Mas, além dessas fronteiras, m uitos chefes lhe reconheciam a suserania.
Para alguns autores, o território sob o m ando do m anicongo seria bem m enor. Poderia até m esm o restringir-se a um a sim ples chefia num a pequena colina do planalto de Mpem ba. O m anicongo não passaria, assim , no fim do século XV, de sim ples soba de aldeia, m as que, por ser herdeiro direto da linhagem de Antino-Uene ou Luqueni, tinha um direito de senioridade sobre os outros chefes de linhagens, cada um deles m estre de suas gentes e de suas aldeias e a com petir com os dem ais. Ele era um ponto inicial de um a rede de fidelidades rituais — e teria sido isso o que os prim eiros viaj antes e m issionários tom aram com o a estrutura de um reino. Confundiram com províncias de um estado centralizado um conj unto de grupos de linhagens unidos por laços de parentesco real ou sim bólico e a deverem respeito, m as não subm issão, ao sucessor do chefe
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originário com um , o Antino-Uene.
O fato de ser a autoridade do m anicongo ritual e sim bólica, de ter ele um a ascendência sobre outros chefes de candas ou cabeças de linhagens, em vez de dom ínio ou suserania sobre territórios, não exclui, porém , que estivesse ele no ápice de um a organização política com plexa e que a influência e o prestígio de sua autoridade se estendesse por am pla área.
Os prim eiros observadores europeus deixaram o retrato de um Congo bastante centralizado, no qual o antotila era senhor de tudo e tudo lhe pertencia. Teoricam ente detentor do m ando absoluto, tinha, na prática, no entanto, seus abusos cerceados pelos grandes da terra e pela am bição de outros pretendentes ao poder. Os grandes da terra form avam um a elite fechada e tida por perpétua, a que se dava o nom e de m uissicongo e que com preendia os m em bros das 12 candas da região central do país. Em bora representasse esta elite, o m anicongo
dela se distinguia por sua investidura.20
Quatro ou talvez, em alguns casos, m ais representantes dos m uissicongos elegiam o rei. O m ani cabunga, com o quitom e de Um banza Congo, detinha, ao que se pensa, o poder de veto. E, em bora o escolhido fosse quase sem pre o que se revelava m ais forte, ele devia form ar entre os descendentes de qualquer um
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dos que reinaram desde Uene, havendo em algum as ocasiões preferência pelos rebentos das filhas dos reis. O poder tendia, assim , a circular entre as várias
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linhagens m atriarcais da aristocracia de Um banza Congo.
O m anicongo sentava-se num a cadeira de m arfim e m adeira esculpida, vestido de panos de ráfia e tendo, a pendurar da cintura, peles de anim ais. Na cabeça usava “um barrete alto com o m itra”, “com lavores altos e baixos”, à
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m aneira de “cetim aveludado”; no braço esquerdo, um bracelete de cobre (ou
três de ferro); 24 e nos pés, sandálias de fibra de palm eira. Levava na m ão um espanta-m oscas de rabo de zebra e, ao om bro, um saquinho com relíquias dos ancestrais (pedaços de unhas, m echas de cabelo etc.). Seu vestuário, bem com o o da nobreza, contrastava com o da arraia m iúda, que andava descalça e cobria o corpo com panos m ais pobres. Os deserdados e os escravos traziam apenas o que cham avam “tanga” — e foi de lá e do quim bundo que a língua portuguesa herdou a palavra.
O país dividia-se em seis — Soio ou Sonho, Um pem ba, Um pangu, Um bata,
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Sundi e Um bam ba — ou oito províncias — essas e m ais Uandu e Uem bo —, todas, à exceção de Um bata, com andadas por governadores designados pelo rei e que por ele podiam ser discricionariam ente dem itidos. Isto, a acreditar-se nos prim eiros cronistas, que podem ter confundido um a rede de parentesco perpétuo e fidelidades sim bólicas com um estado centralizado. Segundo esses viaj antes e m issionários, os governadores provinciais eram sintom aticam ente parentes do rei, que escolhia tam bém em certas fam ílias aristocráticas os funcionários titulados que adm inistravam a corte e a sua casa. Havia um conselho de governo de 12 m em bros, o ne um banda, no qual se assentavam os chefes dos clãs m uissicongos, e, sem sua aprovação, não se podia nom ear um alto funcionário, abrir e fechar estradas ou declarar a guerra.
Cada província dividia-se, aos olhos europeus, em distritos, cuj os chefes, que atuavam com o j uízes e adm inistradores, eram teoricam ente nom eados pelo governo provincial ou diretam ente pelo rei, m as talvez fossem , na m aioria dos casos, sobas e líderes tradicionais, gangas, quitom es e cabeças de candas. Os distritos com punham -se de várias aldeias, organizadas em torno de um a linhagem m atrilinear, à qual se agregavam linhagens clientes e escravos, que eram crim inosos ou prisioneiros de guerra. As aldeias, com postas de casas de barro socado e teto de palha, estavam protegidas, por cercas vivas de espinheiros,
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contra as feras e os ataques arm ados. A capital diferia delas apenas pelo
tam anho. Só o com pound do m anicongo, com suas num erosas cabanas decoradas com panos de ráfia, seus pátios, pom ares e hortas, tinha cerca de 2.500m de circunferência.
Em bora, a partir de certa época, o m anicongo dispusesse de um a guarda própria, form ada por estrangeiros e escravos, o reino não possuía exército perm anente. Em caso de guerra, o soberano requisitava dos governadores das províncias, e estes, dos chefes de distrito, hom ens em arm as.
A tropa ia a com bate sem disciplina e direção. O prim eiro choque m uitas vezes decidia a sorte da batalha. E esta, a do conflito, pois não era possível a guerra prolongada, por falta de logística. Se a tropa acam pava num lugar, abastecia-se
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com o que ali encontrava e, em breve, não tinha m ais alim ento. A passagem
da chusm a em arm as pelo próprio território do reino era devastadora, pois acabava com a criação e a colheita.
E o reino era rico. Pela sua agricultura, pela sua produção de ferro, sal e cobre, pelo seu artesanato, pelo com ércio que com andava ao longo do rio e entre o litoral, a floresta e a savana.
Parte dessa riqueza transform ava-se em tributo. Era cobrado pelos chefes de aldeias, que ficavam com um a parcela dele e a outra passavam ao chefe de distrito, o qual agia da m esm a form a em relação ao governador, e este, em relação ao rei. O fluxo de bens não tinha, entretanto, um a só direção. Havia um a espécie de contraim posto. Quem contribuía esperava receber algo em troca, além de proteção. Com o se, através da organização tributária, se processasse
um a form a especial de com ércio, de perm uta de bens e serviços. 29
Um a vez ao ano, pagavam -se im postos ao rei. Num am biente de grande festa, quando o soberano presenteava os governadores e os confirm ava em seus cargos, ou os dem itia, se os tributos que traziam eram insuficientes.
Com os bens recebidos, o m anicongo alim entava e honrava a corte, m antinha guardas, paj ens, m úsicos, funcionários. Com prava fidelidades. E dava aos governadores, e estes aos chefes de distrito, que faziam o m esm o com os chefes de aldeia, para que igualm ente se com portassem com os seus, zim bos e artigos que suas províncias não produziam . Quem , por exem plo, entregava com o tributo peles, que tinha em abundância, recebia de retorno sal, raro e de alto valor na região onde vivia.
Pagar tributo tinha sentido político e tam bém religioso. Vinculava um a pequena com unidade a um grande reino. Marcava, através da diferença nas contribuições, a hierarquia dos grupos sociais, das províncias, dos distritos, das aldeias e, portanto, dos hom ens que as com andavam . E contribuía para evitar as calam idades, pois o tributo predispunha o rei em favor de quem o pagava, criava um laço de obrigações entre am bos, e era do rei que tudo dependia: a saúde, a fertilidade, a abundância.
e
Tam bém entre os vilis, do reino de Loango — que ficava na bacia do Kouilou-Niari, ao norte do rio Zaire, entre o lim ite ocidental da floresta de Maiom be e a costa atlântica —, o m onarca era um ser sagrado, que convocava as chuvas, presidia às cerim ônias agrícolas, legislava e j ulgava. Com o outros reis africanos, com ia e bebia fora da vista dos m ortais, tinha de ser fisicam ente perfeito e gozar de constante saúde, pois de sua inteireza corporal e de sua higidez derivavam o bom êxito na caça e na pesca, a abundância das colheitas, a fertilidade das m ulheres, a fortuna de todos.
Tal qual entre os lubas e os m alavis, o poder do rei era sim bolizado por um fogo que se acendia quando de sua posse e se apagava no seu falecim ento. Essas cham as deviam ser a fonte de todos os fogos que ardiam pelo reino.
O Loango era dividido em províncias, governadas por m em bros da casta real. Havia um a hierarquia das províncias, correspondente à ordem da sucessão do m onarca. Assim , o prim eiro na sequência de herança dirigia um a determ inada província, que era tida com o a principal; o segundo, outra, que seguia aquela em im portância; e assim por diante. Quando o rei m orria, o governador da prim eira província tom ava o seu lugar; o da segunda era feito governador da prim eira; e havia todo um processo de escalada de posições. Este sistem a dava, naturalm ente, grande força aos governadores, descentralizava o poder. Mas, em com pensação, evitava as disputas sucessórias, que em tantos outros estados se
decidiam pela guerra. 30
Outra característica de Loango era um a espécie de corte paralela, chefiada por um a m ulher — não se sabe se irm ã do rei, sua esposa ou m ãe de quem deveria suceder-lhe. Assim se assegurava a representação das m ulheres no
governo do reino e se protegiam os seus direitos. 31
A base da vida econôm ica de Loango era a agricultura, em bora a pesca e a caça devessem nela ter relevo. Explorava-se o sal da costa, sal que era trocado por m arfim e produtos da floresta com os pigm eus e os bantos que a habitavam . Outros artigos de escam bo eram os panos de ráfia vilis, tão belos quanto os do reino do Congo, e o cobre, que se obtinha das m inas do planalto de Teke, ao norte do baixo Zaire.
O estado dos vilis era possivelm ente tão antigo quanto o do m anicongo ou o do m acoco, nom e pelo qual se tornou conhecido o rei dos tios — tam bém cham ados
tequês e anzicos f por outros povos.
O território tio estendia-se pela chapada ao norte do lago Malebo (ou Stanley Pool) e, para leste, ao longo das duas m argens do Cassai. Suas tradições asseveram que sem pre m oraram ali m esm o, e com elas coincidem os seus
vizinhos, que os têm com o os prim eiros habitantes do lugar. 32 Controlavam o com ércio que passava pelo lago Malebo e chegaram a ter, entre os portugueses, a reputação de m ais poderosos do que o m anicongo, do qual em alguns m om entos foram vassalos e, em outros, ferozes inim igos.
Desde o século XV, a capital do reino tequê se situava no planalto do Mbe. Talvez j á então fosse o reino dividido em várias chefias hereditárias, com postas por um vilarej o principal, onde m orava o soba, e várias aldeotas dependentes, com andadas pelos cabeças de linhagem . Cada chefe retirava seu poder de um a ligação íntim a com o espírito do lugar, o anquira.
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O m aior dos anquiras, Anquê Um bale, tinha ação sobre todo o território tequê e vivia nas cataratas do rio Lefini. De seu vínculo com esse grande espírito provinha a força do rei, que era sobretudo um a autoridade religiosa, o guardião de um conj unto de obj etos sagrados e do segredo dos rituais. Podia ser eleito entre qualquer m em bro da nobreza — e a sociedade tio dividia-se claram ente entre aristocratas e hom ens com uns —, m as tinha de passar por um a iniciação secreta, para entrar em contato com o Anquê Um bale e com as alm as dos reis
que o precederam , e ser aceito por elas.33
Bem m ais com plexa era a sagração do soberano dos bolias,h povo que, desde
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pelo m enos o século XV, vive ao redor do lago Mai Ndom be (ou Leopoldo II)
e nas florestas que lhe ficam ao norte e ao nordeste.
Dizem os bolias que seus antepassados vieram das m atas próxim as ao rio Tshuapa, ou de um paraíso j unto a um grande rio. Ali viviam ao lado do form igueiro do qual tinham em ergido. Durante a m igração para o lago Mai
Ndom be, os bolias derrotaram , no alto Lokoro, o chefe ou ancum ui dos bosangas, Lotoco, de quem tom aram as insígnias e os tam bores, bem com o as instituições
políticas que dele tiveram o nom e.35 Dizem tam bém que trouxeram na bagagem um fragm ento do form igueiro e um pedaço de caulim , duas coisas sagradas, sobre as quais se funda o bocopo, o poder político.
Os chefes, cobertos por um a pele de leopardo, eram considerados grandes feiticeiros. O rei, m ais que isto, um espírito sobrenatural, capaz de m udar a seu talante a vida das criaturas. Era escolhido, dentre os m em bros de um a das linhagens reais — e estas se revezavam segundo determ inada ordem —, pelos próprios ancestrais, que apareciam em sonho a um dos candidatos, a proclam á-lo o preferido. Se este lograsse convencer o conselho de anciães da verdade do sonho, devia ter outro, no qual era conduzido até Um bom bipocu, o m aior dos espíritos da natureza, que o tornaria um deles. Mas, antes de assum ir o reino, tinha ainda de ser reconhecido com o tal pelos anim ais da floresta, no m eio dos
quais, à noite, era deixado sozinho.36
Os bolias, a respeito de cuj a história antiga tão pouco se sabe, teriam transm itido sua realeza sagrada e as instituições do bocopo a m uitos outros povos,
entre os quais os antom bas,j k l m os econdas, os ij em bes, os sengeles, os um belos
e provavelm ente os bom as n o e os sacatas.
O poder político estava ligado à capacidade de m obilizar as forças espirituais para resolver os problem as da terra, o que dependia da posse daquelas coisas sagradas — o fragm ento de caulim e o pedaço de form igueiro — nas quais repousava a autoridade. Por isso, passava-se o bocopo a um a outra tribo, ao entregar-lhe um bocado do caulim original, m isturado algum as vezes a restos de form igueiro. Esse torrão de caulim era a fonte do poder do rei e em torno da
porção de argila branca se organizava o novo estado. 37
A prática de investir coisas sim ples e corriqueiras — ou m elhor, certos exem plares delas — de um sentido sagrado, de fazê-las o assento de forças sobrenaturais e a fundação do poder político, de um poder político com preendido com o m eio de entendim ento não só entre os grupos hum anos, m as tam bém entre a natureza e a com unidade, entre os ancestrais e os que ainda estão por vir, é habitual na m aior parte da África e corrente ao sul do rio Zaire, desde o Atlântico até os Grandes Lagos. Não é, portanto, de surpreender-se — m esm o porque foram intensas as trocas culturais em toda essa grande região — que um bocado
de caulim contivesse a essência da força entre os am bundos p de Angola.
Os am bundos habitavam , e habitam , o baixo Cuanza e o m édio Cuango. Ao norte, seus lim ites iam até as m ontanhas escarpadas j unto às nascentes do Dande, para além se estendendo os dom ínios dos congos. Ao sul, chegaram até o rio
Longa, enquanto que o grande planalto m eridional pertencia aos ovim bundos. q A leste, as fronteiras eram m ais im precisas e se confundiam com as aldeias
avançadas dos quiocos e dos angangelas. r A oeste, paravam antes das costas m arítim as, que, na parte setentrional, eram senhorio congo e, no sul de terras
baixas sem iáridas, território dos Quissam as, s até o rio Longa, dos sum bes, entre o Longa e o Cuvo, dos seles e dos m undom bes, carta abaixo.
Os am bundos falam o quim bundo. Povos do planalto, ocupavam tam bém , com o exceção, as terras relativam ente rasas que constituem a Baixa de Caçanj e, nas bacias dos rios Cam bo, Lui e Cuango, terras separadas do altiplano por um a longa escarpa quase vertical, que alcança em alguns pontos m ais de seiscentos m etros.
Na chapada, a vegetação predom inante é a de cam pina, interrom pida por m anchas de savanas e por florestas ciliares e de m ontanha. Nas m atas, os am bundos colhiam frutos e raízes. Nas cam pinas, cultivavam o m ilhete e o sorgo. Criavam galinhas, cabras e talvez carneiros. Ao sul do Cuanza, área que a tsé-tsé não infestava, teriam bois. Pescavam . Caçavam com arco e flecha, arm adilhas e fogo. Trabalhavam o ferro, cuj o m inério extraíam de depósitos no vale do Nzongej i e na subida do planalto de Benguela. E com erciavam o sal, tirado dos brej os existentes em várias partes do território — no Quissam a, na Baixa de
Caçanj e, no Libolo, nos rios Lutoa e Quiongua.38
Os am bundos dividiam -se em vários grupos de dialetos e culturas diferenciadas, que se interinfluenciaram desde cedo e sofreram , conform e o caso, o im pacto da vizinhança conga, ovim bunda, quioco-luena ou lunda. Ao
norte de todos, no banco m eridional do rio Cuale, viviam os hungus,t sob o influxo
dos congos. Entre os rios Bengo e Cuanza, m oravam os lenj es. u A leste destes e
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até a Baixa de Caçanj e, que ocupavam inteiram ente, estendiam -se os pendes.
No divisor das águas do Lucala e do Uam ba, concentravam -se os andongos.w Os songos ficavam ao sul do rio Cuij e, e os libolos, ao sul do Cuanza, beirando os ovim bundos.
A estrutura social dos am bundos era m atrilinear, m as a autoridade estava nas m ãos m asculinas. No núcleo social, a aldeia, viviam os hom ens de um grupo fam iliar, acom panhados de suas m ulheres, de seus filhos pequenos e dos filhos crescidos de suas irm ãs, as quais estavam em com panhia dos m aridos em outros vilarej os. A aldeia era, assim , a m orada da linhagem , lugar em que tinham
dom icílio tam bém os que se encontravam ausentes.39 Com o as irm ãs e seus filhos m enores. Pois as m ulheres pertenciam às suas fam ílias e não às dos m aridos, e as crianças que tinham deles, tam bém .
A m eninada ficava em com panhia da m ãe, na aldeia do pai, até pouco antes da puberdade, quando ia ter com os tios, no vilarej o da linhagem de que fazia parte pelo lado m aterno. Isto sucedia sem pre com os m eninos, enquanto que as m eninas podiam perm anecer no povoado paterno até casarem , em bora m antendo estreito contato com os tios, para cuj a com panhia iriam , em caso de viuvez ou divórcio. As m ulheres casadas visitavam frequentem ente a vila dos irm ãos ou tios, para m anter vivos os vínculos fam iliares.
Em virtude da m atrilinearidade e da patrilocalidade, os m em bros de um a linhagem nasciam e passavam a infância longe de sua aldeia própria, a ela regressando, se hom ens, no lim iar da adolescência, e, se m ulheres, geralm ente
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depois de envelhecerem .
Cada aldeia, com sua linhagem ou angundu, controlava um determ inado território, com terras de cultivo, rios de pesca, pastagens e m atas. E cada linhagem tinha um a série de títulos perm anentes, de acordo com as regras do parentesco perpétuo e da sucessão das posições. A linhagem era eterna, pois, m esm o quando não possuía m ais m em bros vivos, continuava na m em ória das outras com unidades.
O título principal da aldeia era o lem ba dia angundu, investido no hom em m ais velho da geração m ais antiga. Ele representava o fundador do vilarej o, aquele que separara a linhagem de outro grupo de parentesco. Detinha a custódia de um pedaço de caulim , ou pem ba, e de um bocado de pó de m adeira verm elha, dos quais retirava a força para interm ediar com os m em bros m ortos da linhagem e com os espíritos da terra, e para realizar os ritos que favoreciam as chuvas, as colheitas, a caça e a fertilidade das m ulheres. Sua autoridade estava tam bém associada a um a árvore, a um fícus que se plantava na frente de sua cabana e em baixo do qual o lem ba, palavra que significa “tio”, deliberava com os m acotas, ou “velhos”, que o seguiam na hierarquia social.
Quando m orria um lem ba, podia haver cisão entre os sobrinhos m ais idosos, e um ou m ais deles sair da aldeia, para fundar um novo angundu. O secessionista levava com ele um fragm ento de caulim , um a porção de pó de m adeira verm elha e um galho do fícus, que plantava em frente à sua casa. Ele e a nova linhagem eram considerados com o descendentes daquele do qual se tinham separado e recebiam um nom e com posto em que isso ficava claram ente dito. Se m ais de um sobrinho se tivesse apartado da aldeia, os novos vilarej os e angundus por eles criados consideravam -se irm ãos entre si. Sendo o parentesco perpétuo, as linhagens se ligavam um as às outras e estabelecia-se um a precedência entre
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elas.
Por essa urdidura social passava a tram a de outras instituições. Pois outros grupos se form avam fora das relações de parentesco. Os dos rapazes da m esm a faixa de idade, que eram circuncidados e iniciados j untos, ainda m eninos, na aldeia de seus pais, e que depois m antinham contato entre si, m uito em bora dispersos pelos m ais diferentes vilarej os, aos quais pertenciam pela linha m aterna. Os dos adivinhos e curandeiros, pois cada quim banda — que era com o lhes cham avam em quim bundo — viaj ava livrem ente de aldeia em aldeia e por toda parte era recebido pelos seus pares, com consideração e hom enagens. Os dos caçadores, que se conheciam entre si por sinais secretos e form avam um a com unidade esotérica, que ultrapassava as fronteiras da linhagem , da nação e do
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idiom a.
Com o entre os lubas e os lundas, um grande caçador não o era som ente porque hábil no m anej o do arco e da flecha, m as sobretudo pelos seus poderes m ágicos. Tinha, sob a guarda, discípulos, com os quais estabelecia um a relação de autoridade e respeito. Os aprendizes iam engrossar a sociedade secreta dos caçadores, que talvez tenha exercido, tal qual entre os lubas e os lundas, um papel considerável na form ação e consolidação dos estados am bundos. Do que sabem os dos pendes do rio Lui, em ergem , porém , outras personagens principais: os cabeças de certas linhagens que custodiavam um a boneca de m adeira, a lunga ou calunga.
Segundo a lenda, o herói civilizador am bundo, Angola Inene, teria trazido de terras do nordeste ou, conform e outras versões, do m ar, as lungas (ou m alunga, que é o plural em quim bundo da palavra). Esta últim a origem seria o resultado de interpolação europeia, do traduzir equivocado de Calunga, “as grandes águas”, por oceano Atlântico, e contrasta com o papel agrário da escultura de m adeira,
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ligada aos ritos de cham ar a chuva e da fertilidade. As “grandes águas” podem
ter sido um dos afluentes do Zaire ou qualquer outro lago ou rio. Os europeus, além disso, interpretaram Calunga com o um a alta divindade e talvez tenham contagiado com este novo conceito as crenças am bundas.
Cada lunga vivia num determ inado curso d’água. E era guardada por um a linhagem , cuj o chefe conhecia o segredo da com unicação com as forças espirituais que a boneca continha. Essa linhagem sobrepunha-se às outras e seu cabeça possuía autoridade territorial sobre toda a área banhada pelo riacho ou pedaço de rio onde m orava a lunga. Era ele quem alocava as terras a novas fam ílias que para ali quisessem m udar-se e, paulatinam ente, senhor das chuvas e da fertilidade da terra, passou a receber tributos e a concentrar riqueza e poder. Estabeleceu-se tam bém um a hierarquia entre os vários guardiães de calungas: o custódio da estatueta do rio principal era m ais im portante do que os dos riachos tributários, a graduação da autoridade fazendo-se conform e a hidrografia.
A calunga tornou-se assim , e desde há bastante tem po — a contar do fim do
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século XIII? —, fonte de poder político e de um a organização social fundada
na terra, num sítio preciso, e não apenas na estrutura de parentesco. Muito em bora tenha sido depois suplantada, em quase toda parte, por novos sím bolos da centralização estatal, persistiu com o em blem a dom inante no baixo Lui e ligou-se ao nom e de num erosos ancestrais e fundadores de reinos, bem com o aos títulos de vários sobas. Entre os cubas, houve um Calunga; Calala Ilunga foi o herói civilizador dos lubas; os quiocos possuem um Calunga entre os seus m aiores; os povos do sul do lago Maláui dizem que Calunga lhes trouxe as novas
instituições, 45 a palavra aplicava-se, entre os lundas, ao senhor, ao chefe, ao
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rei, e, entre os congos, era, a um só tem po, o título m ais com um dos quitom es,
um a grande extensão de água e a vasta corrente m ítica a separar as duas
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m ontanhas que form avam o m undo dos vivos e o m undo dos m ortos. A boneca, com o seu nom e, atravessou o Atlântico e sobrevive nos m aracatus brasileiros.
O m aracatu é um a forte rem iniscência dos préstitos reais africanos. Já Pereira
da Costa48 acentuava, no início do século XX, ser ele “um cortej o régio, que desfila com toda a solenidade inerente à realeza”. Sabe-se que, no passado, se ligava à coroação dos reis do Congo, eleitos pela escravaria. E pode-se cogitar que representasse, até m esm o sob o disfarce da eleição ou da aclam ação, a persistência de estruturas de poder africanas no Brasil.
Mantendo-se em segredo os vínculos entre grupos am bundos, num segredo auxiliado pela ignorância dos senhores de escravos, tinham os chefes vendidos de m ostrar a fonte de seu poder — e j á agora tam bém penhor de unidade do grupo ao Brasil —, a calunga. A boneca, toda enfeitada de fitas, devia ser o foco central
do desfile, com o indica o ritual que Mário de Andrade49 registrou num m aracatu do Recife: antes da saída do bloco, passava de m ão em m ão, e cada um dos com ponentes do grupo dançava um bocado com ela.
Do que não necessitava Mário de Andrade era de recorrer a um “fenôm eno
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bastante engraçado de catacrese” para explicar a palavra “calunga”, a qual,
segundo ele, teria m udado de significado, no Brasil ou ainda na África, passando, do conceito originário de “chefe” ou “senhor”, a designar a boneca que seria o distintivo de poder dos sobas. Ora, o que se deu foi exatam ente o contrário.
Intuiu, contudo, Mário de Andrade 51 o conteúdo político da calunga, derivado daquilo que definiu com o “um conceito vago, m ístico, de grandeza inexplicável, de superioridade m isteriosa ou força sobre-hum ana”. Reconheceu nela um
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“sím bolo político-religioso de reis-deuses”. E nisto se aparta de Artur Ram os, que viu na boneca som ente o aspecto religioso, o fetiche do grande deus Calunga, de acordo com a concepção divulgada pelos europeus e na esteira de tantos viaj antes e estudiosos do século XIX.
A autoridade derivada da custódia de um a lunga sobrepôs-se, em várias regiões, à dos lem bas, sem , no entanto, elim iná-la ou m esm o substituí-la. A territorialidade da lunga conviveu e com petiu com a estrutura de linhagens, e a boneca, com os poderes do caulim , do pó de m adeira verm elha e do fícus plantado à frente da cubata de cada lem ba.
Alguns dos guardiões de calungas transform aram -se em reis, com o o que teve por título butatu e, senhor das j azidas de sal ao longo do baixo Luhanda, dom inou sobre as terras a leste do rio Cam bo. Em Iongo, entre os rios Lui e Cuango, na Baixa de Caçanj e, outra sequência de reis se im pôs com o título de caiongo ca cupapa, tendo por base de seu poder um a lunga. No rio Moa, os quicungos quia anj inj e foram fortes soberanos. E por todo o sul da Baixa de Caçanj e, os pendes tiveram régulos a que davam o título de quilam ba e que custodiavam lungas.
O grau de centralização desses reinos devia ser bastante reduzido. O papel dos grandes sobas provavelm ente se reduzia aos rituais da fertilidade e à solução dos conflitos entre as linhagens. Sofriam , por outro lado, os guardiães de lungas, constantes pressões e desafios de novos obj etos carregados de força, de novos sím bolos de poder, sobre os quais se assentavam novas estirpes dom inantes, novos tipos de régulos.
Um desses obj etos cham ou-se angola. Era um a coisa de ferro: sino, faca, lâm ina de enxada, ponta de lança, m artelo. Ou apenas um pedaço inform e de m etal. Mas, transform ado em traço de união entre os vivos e os m ortos, nele residia a força do m undo.
A tradição oral assevera que a introdução da angola entre os am bundos
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andongos deveu-se aos sam bas, gente vinda do norte, conquistadores equipados com arm as de ferro de qualidade superior. Os sam bas proviriam talvez das nascentes do Lucala, na província de Um bam ba, no reino do Congo, e seriam governados por reis-ferreiros, com o atestaria o fato de ter sido o seu lendário
fundador, Angola Musuri, quem prim eiro fez instrum entos de ferro. 53
Talvez a história da conquista sej a o disfarce heroico da difusão pacífica do novo sím bolo de poder, que corresponderia ao aum ento da im portância do ferro e à ascendência dos que lhe controlavam o fabrico. O novo em blem a de autoridade contrastava com os anteriores, de caulim , m adeiras, palha, penas etc.,
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e teria com eçado a se im por no século XIII ou no XIV.
A angola diferia substancialm ente da lunga. Enquanto esta estava ligada a um curso d’água e a um determ inado território, aquela era m óvel, podia ser levada para onde se deslocasse a linhagem que a detinha. Deve, por isso, ter, inicialm ente, servido aos interesses que se identificavam com o angundu e o
lem ba. 56
Cada aldeota queria ter sua angola. E esta era guardada por um sam ba. Que era sam ba, ainda que não pertencesse àquela etnia. Sam ba, em virtude de sua função de zelador da angola. Com o tem po, o guardião do em blem a de ferro transform ou-se no verdadeiro chefe da com unidade. E em árbitro, por ser teoricam ente estrangeiro, das disputas locais. Tom ou o nom e de lem ba dia angola (o tio da angola), reduzindo-se o papel do lem ba dia angundu ao de m ero
distribuidor do caulim entre as m ulheres. 57
O processo de m udança e de centralização da autoridade foi-se acentuando. Os detentores do título de angola a quiluanj e, por exem plo, com eçaram , pouco antes do início do século XVI, a ter um a influência política e m ilitar m uito m ais am pla do que os lem bas de que derivavam .
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Quiluanj e quer dizer “conquistador”. E conquistadores devem ter sido,
em bora em pequena escala, esses chefes que se faziam reis. Eles são bem representativos dos consolidadores de vários estados que surgiram com base na angola.
Ao cederem -se pedaços de angola a novas linhagens, estabeleciam -se vínculos de subordinação e parentesco perpétuo entre a que dava e as que recebiam . O angola a quiluanj e, para reforçar ainda m ais a dependência, casava-se com m ulheres de outras estirpes e aos filhos que delas tinha entregava o com ando das linhagens a que pertenciam . O filho do quiluanj e voltava com o senhor à terra de seus tios, à sua fam ília.
Assim estruturou-se o reino andongo do angola a quiluanj e, que sintom aticam ente tinha sua capital próxim a às m inas de ferro do rio Nzongej i,
afluente do Lucala. Controlava ele tam bém as j azidas de sal de Quissam a59 — e sal e ferro foram as bases econôm icas do poder de um estado que posteriorm ente se expandiria por vasto território e seria capaz de m obilizar grandes exércitos.
Bem distinta, em bora no m esm o rum o centralizador, foi a evolução política dos povos que viviam ao sul do Cuanza, no planalto de Benguela. Cham avam -se, e cham am -se, ovim bundos e falam o um bundo. Culturalm ente, estão m uito m ais apartados dos am bundos do que estes dos congos.
Eram sobretudo pastores de bois. Com o, m ais ao sul, os herreros.y Ao
contrário destes e tal qual os ovam bos, z aa bb os nianecas e os ancum bis, que tam bém lhes ficavam abaixo no m apa, os ovim bundos praticavam sistem aticam ente a agricultura. Tinham a caça em altíssim a conta. Possuíam rebanhos num erosos. E distinguiam -se dos vizinhos, por conhecer a ordenha das vacas.
Deviam ocupar desde m uito o planalto de Benguela. E trabalhar o ferro j á no século VIII. Suas tradições citam um certo Feti, que teria sido o prim eiro hom em (isto é, o prim eiro ovim bundo) e que, caçador de elefantes e antílopes, teria chegado, vindo não se sabe de onde, às cabeceiras do Cunene e ali encontrado, a
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sair de touceiras de j unco, as três m ulheres nas quais gerou o seu povo.
Os ovim bundos dizem ser de Feti o túm ulo de chefe existente num local
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fortificado com m uros de pedra, perto das fontes de Cunene. Carvões retirados
dessas ruínas de Feti la Choy a perm itiram atestar que estiveram ocupadas nos
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séculos VIII e XIII por gente que conhecia o ferro.
Essa gente deve ter dado origem ao reino de Culem be, do título do soberano que controlou am plas porções do planalto de Benguela e cuj a capital ficava próxim a às nascentes dos três rios principais que drenam o noroeste da chapada: o Longa, o Cuvo e o Ngango.
Desse estado quase nada sabem os. Exceto que dele terá derivado o reino de Libolo, m ais ao norte, e que nele se desenvolveu um culto guerreiro, um a associação m asculina independente dos vínculos de linhagem , um a espécie de exército em constante vigília, de fraternidade m ilitar cuj os m em bros se ligavam por rigorosos ritos de iniciação, que os faziam invulneráveis às arm as inim igas. Esse corpo arm ado tom aria o nom e de quilom bo e se transform aria num a poderosa e disciplinada m áquina m ilitar.
A palavra “quilom bo” teria o destino de ser usada com várias acepções, a m ais fam osa delas a de habitação de escravos fugidos, em Angola, e a desses refúgios e dos estados que deles surgiram , no Brasil. Derivavam -na geralm ente da raiz lum bu, que, em quim bundo, um bundo e quicongo, significa “m uro”, e por isso se aplicaria a um espaço protegido por cercas, a um cam po de guerreiros. Joseph C.
Miller63 propõe um a derivação m ais direta: quilom bo viria da raiz um bundo lom bo, “circuncisão” ou “sangue”. E relem bra que, no século XIX, um grupo de língua um bunda que m orava nas cercanias de Benguela cham ava quilom bo a seu cam po de circuncisão.
Se assim tiver sido, a associação iniciática de guerreiros a que se deu o nom e de quilom bo poderia ter suas origens nos centros de circuncisão. Ali se teria desenvolvido, entre j ovens de diferentes linhagens, um novo sistem a de coesão e fidelidades, num m undo de pastores que se sedentarizavam . Essa fraternidade nas arm as estaria hipoteticam ente na base do poder do culem be, assim com o as sociedades de caçadores tiveram papel fundam ental na criação dos estados luba e lunda.
Com um a classe m ilitar disciplinada, treinada e coesa pelos rigorosos ritos de
iniciação, o culem be deslocou ou absorveu, ao sul, os bosquím anos e os vátuascc — esta últim a, a designação coletiva para vários povos negros não bantos, e provavelm ente pré-bantos, m uitos dos quais falam línguas coissãs. Eram os vátuas coletores e caçadores, que foram em grande parte refugiar-se no deserto de Moçâm edes. Entre eles talvez se incluam os vacuepes, que corriam infatigavelm ente atrás das zebras até que elas se extenuassem e caíssem em suas
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m ãos.
Ao norte, o culem be topou os libolos, o grupo m ais m eridional dos am bundos. Não se sabe se os dom inou ou os fez tributários, um preposto ovim bundo posteriorm ente se independizando e criando um novo reino. Ou se os libolos, até m esm o para m elhor defender-se, assim ilaram as instituições políticas do Culem be.
De qualquer form a, no estado libolo, os preceitos am bundos, com o o parentesco perpétuo, a sucessão das posições sociais e a força das linhagens, só persistiram na província central de Haco e entre os vassalos lenj es. Em todas as outras partes de um reino que surgiu nas m argens do rio Ngango, afluente m eridional do Cuanza, e que, no m om ento de seu auge, no início do século XVI, se expandira para o norte até as nascentes do Cam bo e as escarpas ao sul da Baixa de Caçanj e, todo o poder provinha do m onarca, cuj o título era hango dia culem be, ou hango, “filho” do culem be.
Excetuadas a província de Haco e a região lenj e, não havia no reino posições vitalícias ou hereditárias. O hango concedia o título de vunga a quem fazia representante de seu m ando e lhe entregava um a insígnia, que retornava ao rei, quando o titulado perdia as funções ou falecia.
Os vungas tinham obrigações especiais para com o soberano. Recolhiam para ele o tributo. Forneciam -lhe tropas. Alguns deviam alim entar a capital. Outros, lim par as estradas que a ela conduziam . Todos sabiam depender do hango, e não de suas posições de parentesco, para m anter-se no poder. E lhe eram fiéis.