A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 4 de 35

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A Enxada e a Lança

Prefácio à 1ª edição

 

Espero que este livro sej a útil. Só o escrevi com o pensam ento e o obj etivo de entregar ao leitor um m anual — sim ples, claro, direto, em bora em otivam ente interessado — que lhe servisse com o introdução ao conhecim ento da África. Por isso, este volum e não contém , se tanto, um a dezena de ideias m inhas: traz o que aprendi nos outros. Nele reuni e com pendiei m uitos e m uitos dias de aplicadas leituras, para responder à instigação que m e fez, há uns 15 anos, Carlos Lacerda, num j antar em Madri, em casa de Lídia Besouchet e Newton Freitas.

Discutíam os a guerra civil em Angola. Acesam ente. Pois Carlos e eu sustentávam os pontos de vista opostos na m atéria, com o naturalm ente coincidíam os ou nos contrariávam os em tantas outras. De repente, lá estava eu a falar de lubas e lundas, de am bundos e ovim bundos, de congos e quiocos, e de suas estruturas de convívio e obediência, para am igos perplexos, por ignorarem m eu cuidado por tais assuntos. Foi quando Carlos m e invectivou, com a paixão e o desbordam ento que punha em tudo: que eu escondia saber aquelas coisas; que tinha a obrigação de não guardá-las para m im , de pô-las no papel, de contribuir para dissolver a ignorância que no Brasil se tinha da África, ainda que da África todos ou quase todos, pelo sangue ou pelo espírito, parcialm ente viéssem os; que, ao não fazê-lo, eu descum pria m eu dever social com o escritor. Respondi-lhe haver um a am pla literatura em francês e em inglês sobre história africana, ao alcance da curiosidade brasileira, e tentei esquivar-m e com o argum ento de que eu era um poeta e escrevinhador de dom ingo, um diletante, um am ador da cultura. Carlos Lacerda não se dobrou e, com Mário de Andrade — ai de m im ! — com o exem plo e palm atória, lá foi hipotecando os m eus futuros fins de sem ana, as m inhas horas m enos cansadas, num ofício de diplom ata que m e foi sem pre trabalhoso e absorvente.

É provável que ele sentisse estar a reacender em m im o que fora, na adolescência, m ais que um nam oro. Meu interesse pela África surgiu nos m eus 16 anos, com o deslum bram ento de Casa-grande e senzala. Não m e lem bro quem m e indicou esse livro, dentre os m eus professores: se Carlos Haroldo Porto-Carreiro de Miranda, que m e ensinou a estudar com m étodo e proveito, se Joaquim José da Fonseca Passos, se Marina de Vasconcellos, que m e fez adquirir as obras de Arthur Ram os, se Herbert Parentes Fortes, a quem devo estantes de sugestões de leituras e o acesso a Nina Rodrigues e a Manuel Querino. Volta-m e ainda agora a surpresa em ocionada com que acom panhei as aventuras do chachá Francisco Félix de Souza nas páginas de Os africanos no Brasil, com que vi se enlaçarem as revoltas baianas dos m alês à guerra santa de Usum an dan Fodio, com que pressenti a com plexa intensidade das relações desenvolvidas pelo tráfico negreiro entre as costas africanas e brasileiras do Atlântico. Ao rapazote que tinha o m eu nom e parecia evidente, com o continua a ser às m inhas barbas brancas, não se perm itir o verdadeiro conhecim ento do m ais longo e profundo processo de nossa história — a escravidão — sem que se saiba de que tipo de travej am entos políticos e econôm icos, de arcabouços sociais, de m odos de vida e de estruturas de crenças foram retirados os negros trazidos com o cativos para o Brasil.

Não deixei de ler um só dos livros que sobre a África fui encontrando em livrarias e bibliotecas, durante os anos que m ediaram entre o prim eiro contato com Gilberto Frey re e o m eu ingresso na carreira diplom ática, não por vocação, m as para tirar desforra de Rio Branco, que vedara à feiura de m eu pai — a história vem em Balão cativo, de Pedro Nava, e não a conto de novo — a realização de um desej ado futuro. Meu pai não pudera ser diplom ata; eu m e fiz um deles. Até m esm o para que se cum prisse um belo poem a, “Oração silenciosa”, que ele escreveu quando nasci.

A diplom acia continuou, sem que eu nada fizesse por isto, a endereçar-m e à África. Estive na independência da Nigéria, em 1960. No ano seguinte, passei um m ês na Etiópia. Viaj ei, depois, por Gana, Togo, Cam arões, Angola, Costa do Marfim e o que se cham ava Daom é. Visitei o Senegal, a Serra Leoa, a República Dem ocrática do Congo, o Gabão, o Quênia. Refiz itinerários. Desem barquei na Gâm bia, na Libéria e no Sudão. E fui, entre 1979 e 1983, em baixador na Nigéria e na República do Benim . Vi com o se repetiam as paisagens nos dois lados do oceano e com preendi por que os africanos tão prontam ente se assenhorearam das terras brasileiras, ainda que delas não tivessem a propriedade e nelas trabalhassem com o escravos.

Durante a perm anência na Nigéria, de que guardo gratidão enternecida, pude confrontar, sem pressa ou afoiteza, a palavra escrita com o dia vivido. Cresceu em m im o entendim ento do que lera e m udou-se a inteligência do que ainda ia ler. Tornaram -se m enos im precisos os significados de certas palavras, de certos gestos, de certos j ogos, de certas festas, de certos costum es e de determ inadas instituições, e m ais perceptíveis os seus ecos no Brasil e o ir e vir das ressonâncias por sobre as águas do Atlântico. Fortificou-se em m im a convicção de que a história brasileira não radica som ente nas m igrações am eríndias e na chegada portuguesa. Jam ais saberem os o que realm ente fom os, se não a desfiarm os pelo m enos desde Afonso Henriques, na praia ocidental da Península Ibérica, e desde Nok e a expansão dos bantos, no continente que a nós tem os defronte.

Por isso, com ecei este livro do com eço. E, com o tinha de parar em algum m om ento, escolhi para ponto final aquele que im ediatam ente antecede a descida da costa africana pelos portugueses e o seu acham ento das terras que viriam a ser o Brasil. Mais um as poucas dezenas de anos e os prim eiros escravos vindos diretam ente da África baixariam dos conveses às praias brasileiras, trazendo não só os corpos m achucados com que contribuíram para form ar o nosso povo e para ocupar a m etade de um continente, m as tam bém , na ilusória nudez de sua hum ilhante m iséria, as form as de ser, pensar e fazer com que cim entaram os alicerces daquilo em que nos vam os tornando ao longo do tem po e nos singulariza no m undo.

Cada um deles tinha na carne e na alm a a história de sua nação, ainda que este a não soubesse recitar de cor, ou aquele quase a ignorasse de todo. Pois o passado se entranha no que som os e nas form as de nossa vida, e o passado que eram (e que se busca narrar neste livro) foi o que im pediu que se desum anizassem e o que proj etaram num futuro que, m esm o escravos, não perderam . Esse passado, por ter sido deles, é nosso, que os continuam os — um passado em que é difícil deslindar m ito e realidade, sobretudo no am plo espaço dos séculos em que a história era ainda poesia.

A im aginação foi sem pre o húm us do j ardim de Clio. No caso da África, antes do século XVII, é particularm ente válido o definir-se a história com o o adivinhar do passado. Dele, abstraídas a Etiópia, a franj a sudanesa infiltrada pelo Islão e as cidades-estado do Índico, áreas que conheceram a escrita e nos deixaram alguns poucos docum entos — poucos, m uitas vezes tardios e tam bém contam inados por lendas —, sabem os apenas o que nos devolve um a arqueologia que m al arranhou as im ensas extensões africanas, o que anotaram , a partir do século IX, viaj antes e eruditos árabes e, m ais tarde, os portugueses e outros europeus, bem com o o que nos chegou das tradições e das crônicas orais dos povos negros. Se, nos textos em que se profetiza às avessas, ainda que fundados sobre o registro, o depoim ento e a m em ória escrita, o rigor de quem os com põe não afasta de todo o m ito e deixa que ele frequente a narrativa e nela se im iscua, é porque é tam bém im portante contar, ao lado do que se j ulga ter realm ente sucedido, as im aginações que se fizeram fatos e os fatos que se vestiram de im aginário, porque se incorporaram ao que um povo tem por origem e rastro, e, por isso, o m arcam , definem e distinguem . Oraniã, Xangô, Tsoede, Cibinda Ilunga aparecem com o personagens neste livro de história porque pertencem iniludivelm ente à realidade dos iorubás, dos nupes e dos lundas e quiocos. Eles estão aqui com o Eneias e sua viagem de Troia ao Lácio, e com o Reia Sílvia, a loba, Rôm ulo e Rem o, nos com pêndios sobre história rom ana, cuj os autores os sabem m itos, m as não ignoram que fecundaram um destino.

A escassez e a fragilidade dos dados com que se busca descortinar o passado africano im põem um a prosa entrem eada por advérbios de dúvida. Hipóteses de m aior ou m enor duração veem -se contrariadas ou suplantadas por outras, para de novo voltarem , ligeiram ente diferentes, à flor das águas, e outra vez subm ergirem . A im precisão dos testem unhos e a volubilidade das suposições aguçam o interesse e o sonho, e não apenas naqueles, com o Henry Adam s, para quem os fatos são falsos, quando contradizem o que sopra a beleza. Se é verdade que toda narrativa histórica é um a aproxim ação hipotética de acontecim entos que o autor não viveu — o papel escrito, em bora pareça neutro, é quase sem pre parcial e, com o as tradições que a m em ória coletiva guarda e adultera, tam bém m ente, dissim ula, cala e ilude, além de ser lido de m odo distinto de geração em geração —, esse relativism o se acrescenta, ao tratar-se da África, pois os m enos obscuros dos testem unhos de sua antiguidade são os obj etos e as im agens de cerâm ica, bronze, latão, m adeira ou pedra, a indicarem o alto nível de m estria técnica e a agudeza de sensibilidade e inteligência que lhes deu origem .

Não faltará, por isso, quem estranhe tantas notas com indicações de fontes, neste volum e de vaticínios sobre o passado. Quis deixar claro onde os colhi, em bora sem abusar das referências e registrando, em geral, som ente um dos autores de quem recebi a inform ação. Evito, assim , que se tom e por fantasia m inha o resultado de investigações e conj ecturas de outros e lhes rendo reconhecim ento e hom enagem , além de estender um convite à leitura de seus trabalhos.

Nas notas de pé de página, o leitor esbarrará com antropônim os, topônim os e etnônim os com grafias distintas das que figuram em m eu texto. Escrevo para o leitor com um de língua portuguesa. É natural, portanto, que siga a regra vernácula e aportuguese, se possível, as palavras. Isto sucede quase sem pre com os nom es das personagens históricas ou lendárias: ortografo Toaziê em vez de Toha Zie ou Tohaj iy e, Quisra por Kisra, Pianqui no lugar de Piankhy, porque escrevo Fídias, Catão e Carlos Magno. Conservo, porém , Ibn Khaldun, por ser esta a grafia habitual, e a m aior parte dos nom es árabes, um a vez que form as com o Muham ed, Abdul, Ibrahim , Malik ou Hussain são correntes em textos em idiom a português. Ponho Gana, Songai e Zim babué e não Ghana, Songhay e Zim babwe, Cartum e não Khartoum , pela m esm a razão que Inglaterra em vez de England, e Bordéus no lugar de Bordeaux. Mas m antenho Kano, com o uso Kentucky e Ohio, e tam bém Sanj e y a Kati, Bab-el-Mandeb, Ekiti, Bahr-el-Ghazal e Uitkm ost, não só porque j am ais ganharam — ao contrário de Quíloa, Queto, Mogadixo e Tom buctu — grafia portuguesa, m as tam bém para evitar que nesta fiquem dificilm ente reconhecíveis. Prefiro Oió a Ay ot, Ey o, Ay aux, Ailleaux, Aillot ou outra feição que tom e o topônim o que figura nos m apas m odernos da Nigéria com o Oy o. Ponho iorubá e não Yoruba, ibo e não Igbo, xona e não Shona. E uso j alofo, que tem bom foro no português desde o Quinhentos, deixando de lado Wolof, Ouolof ou Uolofo. Dos antropônim os e etnônim os, dou em notas algum as das variantes m ais com uns.

Minhas hesitações na grafia de certos nom es — sobretudo quando há deles, no nosso idiom a, várias form as, com o auçá, auça, hauçá, haussa, haússa, haussá e ussá — som aram -se a repetidas m udanças no texto, em busca de concisão e clareza, para dar ainda m aior trabalho a Alay r Furtado Osório, Maria d’Aguiar Am orim e Maria da Graça Candeias da Gam a, que repetidam ente o datilografaram . Agradeço-lhes o cuidado e o carinho com que aj udaram a preparar estas páginas para a im pressão. E tam bém a Octávio de Andrade Queiroz Neto, m eu sobrinho, pelos m apas que desenhou para o volum e.

Ainda que os m apas m ostrem algum a vez a totalidade da África e indiquem áreas e lugares ao norte do Saara, este livro se restringe à parte negra do continente e aos povos que viviam ao sul do grande deserto. Não que negue a im portância fundam ental que teve o Egito no desenvolvim ento das culturas núbias, nem a influência do Magrebe e da Líbia na expansão do islam ism o e de novos m odelos políticos no Sael e na savana sudanesa, m as a história dos egípcios, líbios e berberes, das colônias fenícias, gregas e rom anas, e dos árabes e arabizados pertence a um outro universo: o do Mediterrâneo. Para os povos do norte da África, as paisagens além do Saara e a oeste do m ar Verm elho sem pre estiveram distantes e sem pre foram exóticas. Com o distantes e exóticas para os brasileiros, ao interrom per-se, no fim do século XIX, o dem orado convívio com a outra m argem do Atlântico, se foram tornando as terras de tantos de seus avós, enroupadas de preconceito, infâm ia e rem orso. E de saudade e m ito.

Lisboa, em 29 de m arço de 1990.