A Enxada e a Lança
1. A paisagem e o homem
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
1
A paisagem e o hom em
A África é um continente m aciço. As linhas de seu contorno são sim ples e precisas. Desenham um litoral sem grandes reentrâncias ou saliências, quase sem golfos, baías, penínsulas, ou pontas estreitas. Ao norte, o golfo de Gabés e o golfo de Sidra ou Sirtes; ao sul, as baías de Delagoa, Walfish e Mossel; no golfo da Guiné, os golfos do Benim e Biafra; j unto a Gibraltar, o cabo Spartel; frente às Canárias, o cabo Jubi; na Mauritânia, o cabo Branco; no Senegal, o cabo Verde; ao sul do continente, os cabos da Boa Esperança e das Agulhas; no extrem o da península da Som ália, o cabo Guardafui.
Mesm o a parte m ais acidentada, a que se volta para o Mediterrâneo, não se com para às m argens europeia e asiática daquele m ar. A concisão da costa norte-africana contrasta com a com plexidade e a exuberância dos litorais m editerrânicos da Europa e da Ásia, a se agitarem e fragm entarem , nervosos, sobre o m apa, enquanto, na m argem sul, há um a aspiração de sim plicidade e repouso.
Algum as poucas ilhas acom panham o traço nítido do contorno africano, ou dele se distanciam : os arquipélagos da Madeira, das Canárias e do Cabo Verde, Fernando Pó, São Tom é, Príncipe, Anobom , Santa Helena, Reunião, as Mascarenhas, as Sey chelles, Mafia, Zanzibar, Pem ba, Socotorá e, m aior de todas, quase um continente, Madagáscar. Não m uitas, portanto, a acentuar a ausência de recortes no litoral. A m aioria, de origem vulcânica. Madagáscar, Socotorá e m ais algum as, prolongam entos do continente.
Pouco acim a do equador, as m assas dispõem -se ao longo dos paralelos, enquanto, para baixo, se arrum am na direção dos m eridianos — o que dá à África um a conform ação equilibrada, pois avançam em sentidos distintos dois blocos de superfícies sem elhantes.
Mas não é esta a divisão que m ais im porta no antigo continente de Gonduana, do qual se desprenderam , segundo Wegener, a Península Arábica, a Índia, a Austrália e o Brasil. O que realm ente faz da África duas Áfricas é o enorm e deserto, a estender-se do Atlântico ao m ar Verm elho. É ele que determ ina no continente duas realidades: a m editerrânica e a subsaariana. O lim ite entre elas tem sido traçado a 22° de latitude norte, linha que atravessa a zona m ais nua e inóspita do deserto.
A im pressão de m ole com pacta confirm a-se, ao olhar-se o interior desse grande continente (30.259.752km 2). É quase todo ele um escudo antigo e estável, um bloco planáltico coeso, só perturbado pelas extensas falhas tectônicas a cortá-lo de sul a norte, para os lados do Índico. Essas fraturas prolongam -se desde o lago Maláui (Malavi, ex-Niassa) até o m ar Morto, passando pela Etiópia, pelo m ar Verm elho e pelo rio Jordão. As linhas da falha ocidental podem ser acom panhadas pela série de lagos com pridos e profundos — dos m ais com pridos e profundos do m undo — que com eça no Maláui e term ina no Alberto (ou Onekbony o). A oriental, m enos nítida e m ais acidentada, descreve um a curva aberta, entre o m eio do lago Maláui e o Turcana (ou Rodolfo). Entre as duas linhas de fratura, está o m aior lago africano, o Vitória ou Nianza (68.100km 2).
Esse sistem a de falhas rasga o cham ado teto da África e contribui para dar ainda m aior em oção a um a paisagem arroj ada, na qual se sai da estreita planície costeira do Índico — larga apenas na Som ália — para as alturas dos vulcões extintos de Kilim anj aro (5.895m ) e Quênia (5.201m ) e dos m ontes Ruvenzóri (cuj o pico culm inante, o Stanley, tem 5.122m ); da floresta tropical para os cum es de neve eterna; dos desertos para os planaltos sobrelevados da Etiópia.
Dram aticam ente dilacerados por fundas fraturas, os altos tabuleiros etíopes sobem , ao norte, a m ais de 4.500m . A sudeste, term inam abruptam ente num alto m uro. A face ocidental, não tão a pique, é m esm o assim um assom bro. O avião que vai de Adis Abeba a Cartum parece voar baixo, pois perm ite à vista distinguir bosques e clareiras. De repente, porém , sem aviso, a terra cai. Cai de enorm e altura, ao longo de paredes que parecem quase verticais. Lá em baixo, m uito em baixo, apenas se reconhecem agora o am arelado das savanas do Sudão e — um risco fino de lápis no papel — o Nilo Azul, com suas m argens verdej antes.
Para o sul, prossegue o planalto, prosseguem as falhas. Estas atingem , em certos pontos, larguras de oitenta quilôm etros e passam de alguns palm os de profundidade para m uitas centenas de m etros. No lago Tanganica, por exem plo, a fundura m áxim a vai aos 1.435m . Em m uitos trechos, pode-se seguir a fím bria da falha por várias léguas, pode-se acom panhar o claro desnível das terras, rastrear sem dificuldade a parede de pedra nua, m arco do deslizam ento de um plano ao outro.
As grandes paisagens africanas
Na parte m ais alta dos planaltos, que ascendem para oeste, estão os grandes lagos — Turcana (8.600km 2), Alberto (5.400km 2), Ruero ou Eduardo (2.150 km 2), Quivu (2.650km 2), Vitória, Tanganica (32.893km 2), Moero (4.920km 2), Maláui (30.800km 2) — e os lagos m enores, alguns deles literalm ente cobertos de flam ingos.
As terras vão baixando, em degraus, na direção do Índico, m as continuam elevadas para o sul, entre as bacias do Zaire e do Zam beze. Os altos terraços, com rios em garganta e grandes quedas-d’água — com o as cataratas de Vitória —, só se abrandam entre o Save e o Lim popo, para novam ente se erguerem , form ando o vasto planalto m eridional, lim itado a leste, sul e oeste por várias cadeias de m ontanhas, entre as quais o Drakensberg. A borda oriental do planalto, a Grande Escarpa, é ab-rupta e im ponente, e acom panha os litorais índicos de toda a África do Sul.
Do outro lado do canal de Moçam bique, levanta-se a ilha de Madagáscar, a reproduzir a geografia da África Oriental. A leste, tiras estreitas de terras baixas, seguidas de altas escarpas. Do centro, cuj a paisagem é em tudo sem elhante à das m ontanhas do Burundi, descem para oeste os planaltos, até se fazerem nas planícies j unto ao m ar.
Em contraste com essa paisagem eloquente, quase todo o resto da África é um chapadão m onótono, de m il m etros de altitude m édia, com um a ou outra elevação a destacar-se — o m onte dos Cam arões (4.070m ), por exem plo, testem unho de forte atividade vulcânica. A enorm e m assa planáltica é dividida em am plas bacias, cercadas por m ontanhas e elevações dispostas em anfiteatro, cuj as partes internas estão, portanto, deprim idas em relação à orla: a do Saara Ocidental, a do Nilo, a do Chade, a do Zaire ou Congo, a da África Meridional.
As planícies costeiras são em geral estreitas. Do lado do Atlântico, elas se alargam no Senegal, na Gâm bia e na Guiné-Bissau. Voltam a expandir-se na Costa do Marfim e no leste de Gana, de onde se prolongam até quase a fronteira dos Cam arões. É esta últim a um a região de litorais baixos e im precisos, cheios de bancos de areia, arrecifes, restingas, lagunas e canais que se entrelaçam . No delta do Níger, a planície costeira continua com o rio e o seu tributário, o Benué, até bem dentro do continente. Mais para o sul, torna a dilatar-se entre Duala e Benguela.
De m odo geral, transposta a faixa costeira, as terras com eçam a subir para o planalto, e as cachoeiras e corredeiras sucedem -se a poucos quilôm etros da foz dos rios. Aqui e ali, o planalto acaba no oceano — um planalto que, no lado ocidental da África, só se alteia no Futa-Dj alon, na região de Jos, nas m ontanhas dos Cam arões, em Angola, na Nam íbia e no extrem o m eridional do continente.
No Futa-Dj alon, em ponto relativam ente próxim o ao Atlântico, nasce o Níger. E segue, lento e am plo, na direção nordeste, para o interior do continente, que percorre em grande arco até lançar-se, m uitos quilôm etros ao sul, no m esm o oceano j unto ao qual surgiu. Em passado rem oto, não chegava ao m ar. Extinguia-se na depressão saariana do Araune, próxim a a Tom buctu, no que hoj e se cham a delta interior ou delta m orto, inundado pelas águas do rio, no verão. Ali j untou-se, por captura ou transbordam ento, a outro curso d’água, nascido perto, e foi engrossar-lhe a torrente na direção sudeste. Isto explica o estranho com portam ento do Níger, ao longo de sua vasta curva (4.160km ): a história de seu cam inhar faz-se ao inverso do andam ento dos dem ais rios de planalto — é largo e vagaroso no curso superior e rápido no inferior.
Mais ao norte, o rio Senegal cum pre um difícil destino. Ao aproxim ar-se do m ar, perde-se em pântanos, alagadiços e braços m ortos. Com o se isso não bastasse, encontra o delta barrado por cordão de dunas litorâneas, e só as logra rom per graças às enchentes que o reforçam .
Mais para oeste, os rios de drenagem interna da grande bacia do Chade, com o o Chari e o Logone, levam para o grande lago as suas águas.
Raso, com dois m etros de profundidade m édia e seis m etros nos pontos m áxim os, o Chade estende-se e contrai-se entre os 11.000 e os 25.000km 2. Sua volubilidade é tam anha, que seu leito pode alterar-se da noite para o dia: um largo trecho d’água, que se atravessa de canoa, esvazia-se em poucas horas e se volta num a terra pantanosa, que com eça em certos pontos a secar e a quebrar-se.
Para a parte deprim ida de outra grande bacia, entre o planalto de Darfur e as m ontanhas da Etiópia, as águas afluem em abundância. Para ali dirigem -se, m eândricos, o Bahr-el-Ghazal, ou “rio das Gazelas”, vindo de oeste, o Bahr-el-Jebel, ou Nilo da Montanha, proveniente dos altos lagos de Alberto e Vitória, e o Bahr-el-Azrak, ou Nilo Azul, descido da Etiópia. O prim eiro j unta-se ao segundo para form arem o Nilo Branco, e este vai ligar-se ao terceiro, ao norte de Cartum . Por algum tem po, então, as águas do Nilo correm divididas ao m eio, tal com o ocorre, no Am azonas, após a j unção do Negro com o Solim ões: de um lado, as águas cinzentas do Nilo Branco; do outro, as esverdeadas do Nilo Azul — até que as correntes se confundem .
Na parte m ais baixa dessa área de convergência de águas, ali onde os form adores do Nilo Branco perdem m etade de seus volum es, nada parece fixo. O Sudd — com o é cham ada — revela-se um verdadeiro labirinto de canais, lagos, charcos, onde o que parece terra pode ser na realidade vegetação flutuante, e tão densa que bloqueia por vezes os cam inhos das águas. Sudd, aliás, quer dizer barragem . De todos os lados, veem -se m assas e m assas espessas de papiros, caniços e outras plantas aquáticas, por entre as quais só com dificuldade logram passar as canoas. No entanto, próxim o a essas águas abundantes está o deserto, com os tabuleiros de pedra e cascalho, as dunas, os relevos erodidos e a escassa vegetação espinhenta.
Mas não é o Nilo, com seus 6.670km de extensão, o eixo do m aior sistem a fluvial da África, e sim o Zaire ou Congo. A bacia do Zaire (3.700.000km 2) só é inferior às do Am azonas e do Paraná-Paraguai. Estende-se desde as m ontanhas e lagos da região das Grandes Falhas ocidentais até o Atlântico, do Bahr-el-Ghazal, no nordeste, ao planalto de Angola, no sul. O centro da enorm e bacia é plano, com cerca de trezentos m etros de altitude m édia. Nas suas bordas em anfiteatro, as terras elevam -se para 1.000 ou 1.200m .
O Zaire e seus afluentes e form adores — o Lualaba, o Ubangui, o Cassai, o Cuango, o Lulua — são rios largos, com enorm e volum e de água, afeitos às inundações. Em toda a vasta região por eles drenada, os pantanais, os alagadiços, os lagos e as lagoas tornam a água ainda m ais presente no conj unto da paisagem .
A parte m ais deprim ida da bacia está logo após as quedas-d’água de Stanley. Dali, o rio cam inha lentam ente até o Stanley (ou Malebo) Pool, onde para, antes de cortar a orla ocidental do anfiteatro. Seu percurso será doravante tum ultuado, pois se contam 32 corredeiras até o lançar-se no Atlântico, por um dos poucos estuários africanos.
Os outros estuários im portantes são os do Gâm bia e do Geba. Quase todos os dem ais rios deságuam no oceano através de deltas ou de difíceis bancos de sedim entos. Uns drenam bacias extensas, com o o Zam beze, que vem dos planaltos de Angola e da Zâm bia e corta pela m etade Moçam bique. Ou com o o Orange, de que é afluente o Vaal: parte das m ontanhas da África do Sul, nas vizinhanças do Índico, para derram ar-se no Atlântico. Outros rios são bem m enores: o Volta, em Gana; o Oguê, no Gabão; o Cuanza e o Cunene, em Angola; o Lim popo, em Moçam bique. Muitos são os que descem , curtos, das m ontanhas para a costa: o Tana, no Quênia; o Rovum a, na fronteira entre a Tanzânia e Moçam bique; o Save.
Tam bém no que diz respeito ao clim a, são as grandes elevações e as falhas tectônicas da África Oriental que introduzem as m aiores exceções num esquem a de relativa sim plicidade.
A form a com pacta da África e seu prolongam ento desde acim a do trópico de Câncer até abaixo do trópico de Capricórnio fazem com que seu clim a se caracterize pela continentalidade e pela tropicalidade. A África é basicam ente tropical. São as latitudes que nos inform am sobre a tem peratura e a pluviosidade, podendo dizer-se que, na m aior parte da África, o afastam ento da linha equatorial se traduz num abrandam ento da tem peratura e no aum ento da duração do período de seca. Vai-se, praticam ente num a sucessão de faixas clim áticas a se ordenarem pelos paralelos, do clim a equatorial úm ido ao clim a tem perado do tipo m editerrânico do extrem o sul do continente. Por outro lado, a am plitude de tem peratura e a inconstância das chuvas aum entam quanto m ais o viaj ante se distancia do oceano e cam inha para o centro da África.
Próxim o à linha do equador, o clim a é quente e úm ido. Durante o ano inteiro, os céus têm nuvens. Não há m ês em que não caiam , grossas e m uitas vezes violentas, as chuvas. Em grande parte da República Dem ocrática do Congo, do Congo-Brazzaville, do Gabão, da Guiné Equatorial, dos Cam arões e do sul da Nigéria, o índice pluviom étrico é superior a um m etro por ano. No m onte dos Cam arões, anotam -se dez m etros de chuvas anuais. Por toda parte, as tem peraturas são altas e pouco variam .
Esse tipo de clim a repete-se m ais ao norte, no golfo da Guiné, para onde os ventos que sopram do sul levam grande volum e de um idade. De Bissau até Gana, nas regiões próxim as ao litoral, as chuvas são abundantes, e pequenas as variações de calor, abrandado, porém , pelas frescas brisas do m ar. A estação seca reduz-se a três ou quatro m eses, e em seu início situa-se o auge do calor. O harm atã sopra do deserto, ressecante. É quente, de dia, e frio, à noite.
Já o resto do litoral, desde o oeste de Gana até as proxim idades de Lagos, na Nigéria, apresenta outras características. Sem relevo que detenha as m onções úm idas, sobre ele decresce a pluviosidade. Estam os diante, nessa área, do clim a tropical sudanês, cuj o dom ínio se alonga, para o interior, até o sul da República do Sudão, e para o norte, até um a linha ondulante que tem por referência o paralelo de Dacar.
Ao sul do equador, o clim a tropical reaparece nas costas do Congo-Brazzaville e tom a a porção m édia da bacia do Zaire até o início dos planaltos de Angola e do Catanga ou Chaba. Do lado do Índico, ressurge no sudeste da Tanzânia, na m aior parte de Moçam bique e no noroeste e centro de Madagáscar.
Em todas as regiões dom inadas pelo clim a tropical há um a estação seca e outra chuvosa. Durante a época das chuvas, nada as distingue das áreas de clim a equatorial: as m esm as nuvens, as m esm as pancadas d’água, a m esm a um idade, o m esm o crescim ento luxuriante da vegetação. O período seco é, porém , m uito nítido e aum enta à m edida que se galgam os paralelos e se cam inha para o interior. No sul do Senegal e do Mali, em Burquina Faso (ex-alto Volta), no sertão da Guiné-Conacri, no norte da Costa do Marfim , em Gana, no Togo, na República do Benim , na m aior parte da Nigéria, nas áreas setentrionais dos Cam arões e na República Centro-Africana, sopra o harm atã. Nos litorais, tanto atlânticos quanto índicos, as brisas m oderam as tem peraturas, que se elevam no fim da estação seca. À noite, pode fazer frio nos grandes chapadões do interior.
Com o afastam ento da linha equatorial, aum enta a duração da seca. A ausência de chuvas chega a ser de oito a nove m eses, na longa faixa que vai de Dacar, no Atlântico, a Massaua, no m ar Verm elho. Em alguns pontos, não chove nunca. Em outros, há perm anente incerteza sobre o advento da estação chuvosa. Quanto m aior é o tam anho do período seco, m aiores são a irregularidade e a inconstância das chuvas. E m ais am pla a possibilidade de que deixem de cair em determ inado ano e de que a estiagem , ao repetir-se nos anos seguintes, possa assum ir as dim ensões de catástrofe.
É o clim a do Sahel, palavra árabe que significa “costa”, “m argem ”, “litoral”. Sael seria, assim , a praia do deserto. Suas fronteiras alargam -se ou se reduzem , de ano para ano, conform e o volum e e a distribuição das chuvas. Se estas são boas, o Sael, com suas estepes espinhentas, conquista terras ao deserto e as perde para as savanas. Se são m ás, o deserto avança para o sul, e o Sael tam bém .
Condições sem elhantes de pluviosidade reaparecem abaixo do equador, na faixa que vai, rente à costa atlântica, de Banana, na República Dem ocrática do Congo, até a Nam íbia, dali se expandindo para o interior, onde vão caracterizar a m aior parte da Botsuana e os trechos m ais baixos da Zâm bia, o nordeste da África do Sul, Zim babué, a proj eção ocidental de Moçam bique, o centro da Tanzânia e o leste de Madagáscar.
Às zonas sem iáridas seguem -se, no aum entar das latitudes, os desertos. A rispidez destes cresce tam bém do litoral para o centro do continente. E há variações de clim a de um para outro. O da Nam íbia, por exem plo, é bem m ais suave que o do Saara. São m enores naquele as am plitudes das tem peraturas entre o dia e a noite. Em am bos, porém , há quase absoluta ausência de precipitações e, quando estas ocorrem , são quase inúteis, por curtas e torrenciais.
Para além dos desertos, nos extrem os norte e sul, há faixas de clim a tem perado de latitude m édia — o clim a suave, de chuvas na estação fria, de tipo m editerrânico, da parte m ais setentrional do Magrebe e das regiões adj acentes à cidade do Cabo, na África do Sul.
Nesse país, a região de Durban apresenta características especiais. Verifica-se ali intensa pluviosidade anual, com m áxim as no período de calor. Não há praticam ente m ês sem chuva, e os verões são quentes e úm idos.
Se as latitudes são os principais condicionadores do clim a africano, as elevações não deixam de exercer o seu papel. Assim , em bora sem alterar profundam ente os regim es clim áticos das regiões m ais vastas em que se encontram , as terras altas os am enizam . Não só são m ais brandas as tem peraturas nos m ontes da Guiné-Conacri, no planalto de Jos (na Nigéria), nas serras dos Cam arões, nos chapadões do Cassai (na República Dem ocrática do Congo) e nas terras altas de Uganda, com o é m ais regular a pluviosidade.
É, contudo, nas grandes elevações da Etiópia, de Ruanda e do Burundi, nos m ontes Quênia e Kilim anj aro, nos planaltos do Catanga, de Angola e do centro de Madagáscar, assim com o nas m ontanhas da África do Sul, que o fator altura prevalece. São essas áreas m uito m ais frescas e com chuvas m ais bem distribuídas. Em algum as regiões, a tem peratura suave é de todo o ano. Em outras, na estação fria chega a haver geadas. No Ruanda e no Burundi, a paisagem tem lem branças suíças.
À m edida que as terras sobem , aum enta o frio. O clim a volta-se em alpino acim a dos 2.500m . No alto dos m ontes Kilim anj aro, Quênia e Ruvenzóri há geleiras.
O m apa das vegetações acom panha fielm ente o dos clim as. Há, na aparência, a m esm a sim plicidade. E constância. A prim eira im pressão é, dentro de cada área, a de m onotonia, de ausência de variações e contrastes. Só de am plos em am plos espaços notam -se distintas form ações de paisagens. São, em geral, vastíssim as as m anchas de florestas ou de cerrados.
Enquanto, na Europa, se percorre de autom óvel, em poucas horas ou até m esm o em m inutos, do início ao fim , um tipo de paisagem , pode ser necessário para isto, na África, m ais de um dia. Daí deriva um a falsa im pressão de ausência de com plexidade. Só o olho desarm ado do leigo não percebe quão diferentes são as floras, que lhe parecem idênticas, da região entre Porto-Novo e Abom é, na República do Benim , e entre Iaundê e Mbalm ay o, nos Cam arões.
Essa enganosa sensação de igualdade, ou, quando m enos, de sem elhança, entre terras tão distantes decorre igualm ente de certa m aneira especial e uniform e de apreciar-se a paisagem africana. Quer se estej a nos cerrados da República do Benim ou dos Cam arões, nas savanas da África do Sul ou nos cam pos abertos do Quênia, vê-se o espetáculo da natureza da m esm a form a que no Planalto Central do Brasil.
Não se trata de tentar descobrir a beleza enquadrada nos lim ites de um a j anela im aginária, com o nos óleos dos prim itivos flam engos. Nem de encontrá-la, dentro de um a extensão precisa, na estreita relação entre um pedaço de céu, um cam po, frondes de árvores e as cores de um a floração inesperada. A beleza da paisagem africana é apreendida nos enorm es espaços, nos céus com pletos, nos verdes am plos, no ar e na luz. Não se está diante de um a luz m editerrânica, nítida, azul. Mas de um excesso de sol, filtrado através da poeira ou da um idade do ar, um excesso de sol que — à m aneira de Reverón, o grande pintor venezuelano — tudo em branquece, am aina as cores, dá lum inosidade aos contornos e dilata ainda m ais a largueza dos céus e das m assas vegetais.
Em geral, cada tipo de panoram a vai-se transform ando lentam ente em outro, sendo raros os trânsitos súbitos da floresta espessa para a savana. Não deixa de haver, porém , certas paisagens m ais curtas. Peculiares. Os pântanos, nas depressões. O Sudd, com suas densas m oitas flutuantes de papiros. As inesperadas interrupções da floresta equatorial, por savanas e cerrados, no baixo Oguê, no Congo-Brazzaville e no litoral da Costa do Marfim . As cam pinas do país
bam iliquê,a nos Cam arões. As m atas ciliares. Os palm eirais do Togo.
Um terço da África pertence aos desertos e aos sem idesertos. O do Saara. O da Líbia. O da Dancália (ou Danaquil), com seus cam pos de enxofre. O da Som ália. O Kalahari (ou Calaári). A Nam íbia. Desertos de pedra e de dunas. Desertos com tufos esparsos de capins acanhados e cactáceas. Em alguns pontos, tam areiras, aloés, acácias, sisal. Em vastas áreas, a estepe sequíssim a. Carrascais. Bacias de sal. E, a servir de portos para os caravaneiros, os oásis.
Ao aum entar a escassa vegetação, entra-se naquele tipo de paisagem que, ao sul do Saara, se cham a de Sael, com sua estepe difícil e pobre.
Pouco a pouco, com o crescim ento da um idade, passa-se para várias form as de savanas (cam pos abertos, com poucas árvores, e cam pos suj os, em que as gram íneas se m isturam com zonas fortem ente arborizadas) e para todas as gradações de cerrados (alguns baixos e ralos, com cactos e arbustos retorcidos, outros quase a se identificarem , de tão fechados, com um a floresta seca, decídua na estação sem chuvas). Em m uitas áreas, com o no Congo-Brazzaville e no noroeste de Angola, há vastas extensões de capim alto e duro, cuj a lâm ina pode atingir m ais de dois m etros de com prim ento.
A estepe sem iárida reaparece no Rift Valley, do Quênia e da Tanzânia, na orla do deserto da Nam íbia e em partes da Botsuana. Nas regiões alagadas do m édio e alto Nilo, surgem as estepes úm idas, que voltam a ocorrer nos tabuleiros da Etiópia, nas terras elevadas do Quênia, de Uganda, do noroes-te da Tanzânia, do Maláui, de Zim babué, da África do Sul e do centro de Madagáscar.
As savanas e os cerrados ocupam , ao norte do equador, o largo cinturão entre a estepe e a floresta, que vai do paralelo 9 ao 20 e, com interrupções a leste, do Atlântico à Som ália. Ao sul do equador, predom inam em Angola, na Zâm bia, no sul da República Dem ocrática do Congo, na Botsuana, em Zim babué, em Moçam bique e na África do Sul.
As dilatadas áreas de savanas, cerrados e estepes são a m orada dos grandes m am íferos africanos: o búfalo, os variadíssim os tipos de antílopes (o elande, o gnu, o cudo, a im pala, as palancas, o guelengue, o sim -sim , o inhacoso, o chango, as gazelas), o elefante, o rinoceronte, o hipopótam o, a zebra, a girafa, o leão, o leopardo, o guepardo, a hiena, os num erosos sím ios. São tam bém diversificadas as espécies de aves, ressaltando-se o avestruz, a cegonha, o flam ingo, o pelicano, a águia-pesqueira. Em nenhum outro continente há tantas espécies de grandes anim ais e em tão considerável núm ero — e é nas savanas que eles se concentram .
Nas florestas pluviais, os anim ais de porte são m enos abundantes: o elefante, o hipopótam o, a pantera, o crocodilo, o porco selvagem , os grandes m acacos, entre os quais o gorila e o chim panzé. Ali predom inam os pássaros, os répteis, os m am íferos arborícolas, os insetos, os verm es, os parasitas.
As florestas pluviais ocupam a bacia do Zaire, o Gabão, a Guiné Equatorial, o leste de Madagáscar, o litoral do Quênia e da Tanzânia, o sul dos países que se estendem da Guiné-Bissau até os Cam arões — excetuados o Togo e a República do Benim , onde são substituídas por um a ourela costeira de palm eirais. Na zona litorânea oriental da África do Sul, registram -se tam bém im portantes florestas.
Na fím bria dessas densas m atas, os abertos se sucedem . Para dentro da floresta, o chão vai se tornando nu ou coberto de detritos vegetais, enquanto as árvores se m ultiplicam em andares de altura, com as copas, em m uitos pontos, a se unirem um as às outras, na confusão de um só teto. Tudo é verde. Só vista do alto, a floresta colore-se de flores. Em contraste, na m aior porção do ano, as estepes, as savanas e os cerrados exibem o predom ínio dos castanhos.
A relativa sim etria com que os estratos de paisagens se organizam , a partir do equador, para o sul e para o norte, torna m uito arbitrárias as divisões regionais da África subsaariana. A m ais aceita é a que distingue a África Ocidental (Mauritânia, Senegal, Gâm bia, Mali, Guiné-Conacri, Guiné-Bissau, Serra Leoa, Libéria, Costa do Marfim , Burquina Faso, Gana, Togo, Benim , Nigéria e Níger), a África Central (Cam arões, Chade, República Centro-Africana, Guiné Equatorial, Gabão, Congo-Brazzaville, República Dem ocrática do Congo, Angola e Zâm bia), a África Oriental (Sudão, Etiópia, Eritreia, Dj ibuti, Som ália, Quênia, Uganda, Ruanda, Burundi, Tanzânia, Maláui, Moçam bique e Madagáscar) e a África Meridional (Zim babué, Nam íbia, Botsuana, África do Sul, Lesoto e Suazilândia).
Seria de propor-se outra divisão, a partir das três faces que o bloco com pacto da África subsaariana apresenta para o m undo: a África do Sael, voltada para o Magrebe, a Líbia e o Egito; a África Atlântica, que realizará com as Am éricas a m aior parte das trocas culturais; e a África Índica, a olhar a Ásia. Com isto, não se faria m ais do que regressar, no que concerne à África Atlântica e à África Índica, à antiga distinção entre Costa e Contracosta, costum eira entre portugueses e brasileiros até o fim do século XIX.
A faixa de savanas ao sul do Sael e o sistem a m ais ocidental de elevações e fraturas que vão da Etiópia ao Maláui estabelecem em T os lim ites entre as Áfricas cuj os litorais estão no Atlântico, no Índico e no Saara.
Essa classificação poderia fazer supor que cada um a das três parcelas m anteve, no passado distante, relações culturais intensas e regulares com as terras que ficam além do oceano ou do deserto. E que foi por elas profundam ente influenciada.
Que houve contatos e influências é bem sabido. Os indonésios im pregnaram Madagáscar de sua cultura. O Islam e expandiu-se pelo Sael com tal força, que se pode dizer ter sido o deserto m ais favorável ao intercâm bio entre culturas do que os m ares. Pois a m arca im posta pelos m uçulm anos à África im ediatam ente ao sul do Saara foi m ais forte e duradoura que o influxo exercido, nas costas orientais do continente, pelos persas, árabes e indianos que as percorreram e ali fundaram feitorias, ou, na orla atlântica, pelos europeus que, antes do século XIX, as frequentavam .
Se o deserto cum priu de certo m odo a função de m ar m editerrâneo e se, desde cedo, se estabeleceram alguns vínculos entre a Ásia e o continente africano, nada desm ente ter sido o isolam ento a característica principal da África subsaariana. Magrebinos, persas, árabes, portugueses, holandeses, franceses e ingleses pouco m ais fizeram , até quase os fins do século XIX, do que caranguej ar os litorais africanos. Os próprios feitos de exploradores com o Mungo Park, Clapperton, Lander, Caillié, Barth, Livingstone, Capelo e Ivens, ou, antes deles, o brasileiro Lacerda e Alm eida, são atos lim itados, que repercutiram sobretudo fora da África, atos cuj a significância decorre j ustam ente do isolam ento africano.
Pela África subsaariana não passaram as grandes rotas do caravaneiro e do navegador. Nela, os contatos com culturas extracontinentais foram , até quase os nossos dias, geralm ente lim itados, esporádicos ou de superfície, sem nada de com parável às trocas intensas, constantes e enriquecedoras que se fizeram , na Antiguidade e na Idade Média, às m argens do Mediterrâneo, na Ásia Menor e ao longo da estrada da seda.
Houve na África um a filtragem da orla dos oceanos e do deserto para o interior. Se os contatos entre africanos e hom ens d’além -m ar se restringiram , por m uito tem po, a espaçados pontos do m apa, não dem oraram a entrar continente adentro os vegetais que estes trouxeram consigo, bem com o as técnicas para seu aproveitam ento. Tal se deu, para citar um só exem plo, com a m andioca. Levada do Brasil, difundiu-se por quase toda a África, onde a farinha e o beij u são produzidos, até hoj e, pelos m esm os processos criados pelo índio sul-am ericano.
O Saara não im pediu as caravanas, m as distanciou a África negra do Mediterrâneo. Foi um a barreira ao trânsito hum ano, desde o acelerar de seu ressecam ento, a partir de 2000 a.C. O Nilo, que poderia ter servido de cam inho de penetração, teve este papel restringido pelas cataratas que o cortam e pela dificuldade de cruzar-se a intrincada vegetação flutuante do Sudd. As altas m ontanhas da Etiópia estorvaram os contatos com a Península Arábica. E o litoral com pacto, com raras reentrâncias e escassos portos naturais, desestim ulou os navegadores.
Em algum as partes, com o na Mauritânia, na Som ália e desde o sul de Angola até as proxim idades do cabo da Boa Esperança, o oceano vai dar em litorais desérticos. Em outras, recifes, bancos de areia, restingas, m angues e fortes ondas de arrebentação dificultam o acesso às praias.
Do lado do Índico, onde há algum as boas enseadas, o regim e das m onções perm itia que os barcos a vela de árabes e indianos fossem ter à África Oriental e dali retornassem a seus portos de origem . Já no Atlântico, os ventos im pediam , por soprarem na direção do sul, que os barcos vindos da Contracosta pudessem subir para o equador e que os provenientes do Magrebe regressassem ao ponto de partida. As em barcações que acudiam do Mediterrâneo tinham ainda de defrontar-se com as calm arias do golfo da Guiné.
Dos litorais para o planalto, o acesso faz-se — tal com o ocorre no Brasil — difícil. O terreno logo se eleva. E os rios se encachoeiram , pois têm geralm ente perfil em form a de escada. Som ente alguns cursos d’água poderiam , aliás, servir à penetração: o Gâm bia, o Senegal, o Níger, o Zaire, o Orange, o Zam beze. Os dem ais correm paralelos à costa ou quase não se aprofundam no interior.
Este estava tam bém guardado pelas florestas intrincadas; pela dura alternância, nos cerrados e savanas, entre seca e inundação; pelas enferm idades que assolavam o recém -vindo: a m alária, a febre am arela, a doença do sono, as am ebíases, a esquistossom ose.
A África esteve, por dem orados séculos, voltada para si m esm a. Quase isolada.
No próprio interior do continente, onde havia m elhores condições de circulação, as grandes bacias, cercadas de m ontanhas em anfiteatro, criaram insulam entos zonais. Algum as regiões, com o o Chade e os Grandes Lagos, possuíam sistem as de drenagem particulares, não se com unicando por via fluvial com outras áreas. Eram poucos e de acanhada extensão os sistem as de cam inhos.
O cam elo, o asno e o cavalo eram frequentes no Sael. Nas savanas que lhe ficavam ao sul — o cham ado Sudão, o Bilad al-Sudan, ou “país dos negros”, com o diziam os árabes —, o burro era o anim al de carga. O boi fazia a sua parte, em algum as áreas. E o cavalo era peça de m ontaria, na paz e na guerra, só m uito raram ente recebendo outro peso que não o do corpo hum ano. No resto da África, o transporte terrestre de bens fazia-se à cabeça das m ulheres e dos hom ens. Viaj ava-se a pé. E a pé cobriam -se grandes distâncias. Mesm o no Sudão, nem todos possuíam j um entos, e m uitos levavam os seus carregos à cabeça.
Junto ao oceano, nas lagoas e nos rios, o transporte era feito por canoas. Algum as delas enorm es. Com o as que viu, no delta do Níger, no início do século
XVI, Duarte Pacheco Pereira, e assim descreveu no Esm eraldo de Situ Orbis: 1 “E nesta terra há as m aiores alm adias, todas feitas de um pau (...); e algu~as delas há tam anhas que levarão oitenta hom ens.” Além de inham es, vacas, cabras e carneiros.
A pequena densidade de população, na m aior parte do continente, tornava-se outro fator de isolam ento. Eram poucas as regiões fortem ente povoadas — o
Ruanda; a Ibolândia, o Iorubo e o país hauçá, b na Nigéria; o Togo e a República
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do Benim ; as terras dos bam iliquês, nos Cam arões; os dom ínios dos quicuios, no
Quênia; o Buganda, em Uganda; a área axanted e o sul de Gana. Os agrupam entos hum anos estavam , em geral, separados por grandes vazios dem ográficos, que coincidiam frequentem ente com as áreas de ocupação m ais difícil: as estepes ressequidas, os carrascais, as florestas cerradas. Ou com os lugares próxim os a m atas úm idas e som brias, onde se m ultiplicava a tsé-tsé.
Sobre a extensa m assa planáltica, as linhagens, os clãs, as tribos e as nações deslocaram -se lentam ente, em busca de m elhores solos e de pastagens m enos pobres. Grande parte da história da África é o relato dessas m igrações. Muitas se verificaram entre pontos distantes, em bora possam ter fluído num erosas gerações entre a partida e a chegada — se é que se pode determ inar onde se iniciou a viagem e se ela atingiu o seu term o. Outras foram de curto percurso, m as ficaram na lenda com o feitos heroicos. Talvez porque significaram com pleta m udança de paisagem — da estepe ou do cerrado para faldas de m ontanha — e radical transform ação dos hábitos de trabalho, de alim entação e de convívio.
O isolam ento não im pediu de todo o com ércio entre povos distintos. O sal era trazido do Saara para as rem otas terras do sul. O peixe seco do Logone, do Chari e do Chade chegava ao centro do Mali. A noz-de-cola, do rio Volta à Hauçalândia. Certas tribos especializavam -se na produção de determ inados artefatos, que iam ser trocados em vilarej os longínquos.
Nas florestas pluviais, nos cerrados, nas savanas, nas estepes secas e nas estepes úm idas, no litoral e nos planaltos, nas depressões e nas m ontanhas, no Sudd e no Sael, o hom em transform ou a paisagem . Desbastou florestas ou nelas abriu grandes clareiras; am pliou savanas com as queim adas; im pôs suas plantações, suas hortas, seus pom ares, por toda parte; cultivou espécies vindas de outros continentes, a m ultiplicar bananais, bosques de m angueiras, m atas de caj ueiros, roças de cacau, m andiocais e renques de m ilho; alterou a superfície das terras em que vivia, para em m ontes postiços enterrar os seus m ortos, proteger-se das enchentes, fazer seus plantios, erguer suas casas.
Os que m enos afetaram o m eio foram os recolhedores e caçadores. Muitas vezes, nem sequer construíam m oradas perm anentes. Um sim ples para-vento os abrigava e, nas clareiras naturais da floresta ou j unto a grandes rochas e árvores da savana, reuniam -se, para os atos de fé e as decisões de grupo. Alguns eram sobretudo caçadores — com o os bosquím anos ou boxim anes (do sul da África),
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os niam bos (da fronteira entre Ruanda, Burundi e Tanzânia) e os dorobos (das m ontanhas do Quênia) —, ou coletores — com o os tindigas (da Tanzânia) e os
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pigm eus (das florestas equatoriais) —, ou pescadores — com o os budum as (do
Chade) e os tuas h (da Zâm bia). Em geral, dedicavam -se a todas essas atividades, com ênfase num a delas. E, às vezes, conheciam um a agricultura rudim entar.
Entre os agricultores, há que distinguir o das savanas do das florestas. Este a fazer abertos na m ata, para o cultivo deam bulante. Ou, em alguns casos, com o entre os quicuios do m onte Quênia e entre os gandas das praias setentrionais do lago Vitória, para as culturas perm anentes. Aquele a praticar a agricultura itinerante, a rotação da terra ou o cultivo continuado. Am bos a em pregar utensílios m uito sim ples: o pau de escavar, a enxada, geralm ente de cabo curto, e a pá. Som ente na Etiópia foi o arado conhecido, antes da influência europeia.
Nos tem pos m ais antigos, predom inava a agricultura deam bulante. Após alguns poucos anos de cultivo, logo que o solo dava m ostras de esgotam ento, era ele abandonado, e ia-se buscar um a nova área para ser trabalhada. Com o havia abundância de terras, o grupo hum ano deslocava-se facilm ente para territórios ainda inexplorados, onde as prim eiras colheitas m ais do que recom pensavam o esforço exercido em desbravar solos virgens.
Posteriorm ente, com o crescim ento das populações, passou-se, em m uitas áreas, a um sistem a de utilização rotativa da terra, em torno de um a aldeia fixa. O grupo hum ano ocupa determ inado espaço. Cultiva parte dele. Quando a fertilidade ali dim inui, abandona-o por vários anos e vai lavrar a parcela adj acente, ainda intocada ou em repouso. Volta-se, m uitas safras depois, ao prim eiro trato, j á descansado.
Desbastada a terra, procede-se à coivara. O solo, enriquecido pela cinza, é trabalhado superficialm ente pela enxada. Depois, o lavrador o percorre, furando-o com o estoque, lançando a sem ente na escavação e cobrindo-a com o calcar do pé.
A terra que revolve e sem eia é em geral pobre e perde rapidam ente a fertilidade. A insolação excessiva sobre o roçado queim a-lhe a m atéria orgânica e m ata os m icro-organism os. O húm us oxida-se. As grandes chuvas lixiviam o solo. E os sais acum ulam -se frequentem ente no subsolo e o tornam im perm eável.
As áreas de terras férteis são exceções: o grande arco do Níger, o altiplano etíope, as planícies inundáveis do alto Zam beze, as m argens setentrionais e ocidentais do lago Vitória, por exem plo. Nelas tornou-se possível cultivarem -se anos a fio os m esm os terrenos. Os bananais de Buganda são perm anentes, graças aos solos vulcânicos que os alim entam . E os dos quicuios, por força da repetida adubagem .
O sistem a de uso continuado da terra é, na África subsaariana, característico das regiões de bons solos, ou daquelas em que há abundância de fertilizantes, ou ainda daquelas de grande densidade dem ográfica.
Neste últim o caso, sem pre que não se pode expandir o espaço cultivado, torna-se necessário aum entar-lhe a produtividade. E o aum ento de produtividade da terra, ligado a técnicas de agricultura intensiva — com o o em prego habitual de esterco e de restos de cozinha, para adubar o solo, a rotação de culturas e o regadio —, pode encontrar-se exatam ente entre os povos m ais fracos, que foram expulsos para espaços circunscritos ou neles tiveram de refugiar-se. Não podendo ter pousios suficientes ou acesso a terras novas, procuraram obter, à custa de m aior trabalho, um a alta produção por unidade cultivada. Assim , por exem plo, os habitantes dos m ontes Mandara, na fronteira entre a Nigéria e os Cam arões, desenvolveram um a agricultura intensiva e cuidadosa, em estreitos e dim inutos tratos de terra, a descer da m ontanha em incontáveis degraus, porque não podiam am pliar a pequenina área em que foram esconder-se de vizinhos
m ais poderosos, grandes preadores de escravos. 3
Em certas regiões desenvolveram -se técnicas bastante com plexas de aproveitam ento da terra. Plantava-se em degraus, para evitar a erosão. Construíam -se enorm es plataform as sobre o terreno alagadiço, para nelas proceder ao cultivo. Nas áreas secas, procurava-se aproveitar ao m áxim o a água e estabelecer sistem as de irrigação.
Se os trabalhos são m uitos, os resultados não se adivinham sem pre favoráveis, num clim a incerto. Cada ano, vive-se a angústia da espera das chuvas. E o que de m elhor se pode desej ar é que estas caiam na época própria e em quantidade adequada. Por isso, a gente da Botsuana, em vez de “bom dia!” ou “boa tarde!”,
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exclam a frequentem ente pula!, ou “chuva!”. E o poder político, em tantas partes da África, está associado à crença de que o chefe possui o atributo de cham ar e controlar as chuvas.
Cada região ou grupo hum ano tem seu cultivo predileto. Nas savanas predom inam os cereais, que se arm azenam em celeiros — celeiros que tom am a form a de enorm es m oringas de barro, com bicos ou saliências em seu boj o, para perm itir o acesso à abertura, no cim o de um gargalo truncado; celeiros cilíndricos; celeiros dos m ais variados form atos; celeiros tão bem construídos quanto as m oradias, e igualm ente im portantes porque abrigam as reservas de alim entos; celeiros cuj as portas, quando existem , são adm iráveis obras de escultura, nas quais se traça a história m ítica do grupo — tal com o ocorre entre
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os dogons do Mali — ou se figuram os antepassados, para que protej am os depósitos de grãos.
Nas savanas dom inam o sorgo e os m ilhos m iúdos. O arroz ocupa terrenos na floresta e na savana, do Senegal à m etade da Costa do Marfim . Para abaixo, até os Cam arões, é o com plexo do inham e e do dendê. No Lesoto e na Etiópia estendem -se os trigais. Por quase toda a parte, plantam -se a banana, o quiabo, as pim entas e os vegetais trazidos do Brasil — o m ilho, a m andioca, o ananás.
O agricultor africano era aberto às inovações. Assim com o m udava de técnicas quando as circunstâncias o exigiam , acolhia com facilidade espécies vegetais que até então desconhecera, sem pre que se revelassem um a boa adição à dieta costum eira ou capazes de substituir com vantagem produtos tradicionais. O m ilho deslocou, em algum as áreas, o sorgo, porque dava duas colheitas por ano. E a m andioca, em bora m enos saborosa e m enos nutritiva que o inham e, instalou-se em áreas por esse dom inada, por ser de m ais fácil plantio e produzir o ano todo. Se o inham e pode ser guardado em celeiro por m uito tem po, a m andioca se conserva na terra até o m om ento de ser consum ida. E tam bém é arm azenada em form a de farinha.
Através das colônias persas e árabes, enquistadas nos litorais africanos do Índico, chegaram os lim ões, a berinj ela e talvez a m anga — a m enos que esta só tenha vindo bem m ais tarde, pelas m ãos portuguesas. Através do Índico ou do norte da África, os árabes trouxeram a cana-de-açúcar e a cebola. Das Am éricas, e principalm ente do Brasil, provieram o m ilho, a m andioca, o tom ate, o am endoim , o tabaco, o cacau, várias espécies de feij ão, o caj u, o ananás, a goiaba e num erosas outras árvores frutíferas, as quais se difundiram sobretudo por interm édio dos ex-escravos brasileiros, que, de retorno à costa da África, se instalaram desde Gana até o Gabão. A presença euro-peia — prim eiro, por m eio do com ércio, e depois, do im pério — fez com que se am pliassem as extensões de cultura destinadas a produtos de exportação, com o o dendê, o café, o cacau, o am en-doim , o caj u e o sisal.
Casas m usguns. República dos Cam arões
Foi, assim , o africano m odificando e crian-do os cenários onde decorreria sua vida. Fundou aldeias, vilas e cidades, reinos e im périos. Aperfeiçoou form as arquitetônicas que vão desde as tendas baixas, de couro e esteiras, dos tuaregues até a igrej a de Lalibela, na Etiópia, a em ergir da pedra onde foi talhada em bloco, passando pelas cabanas de base circular com cobertura cônica de palha, pelas choupanas de risco quadrado ou retangular, pelas casas, encim adas por terraços, do Sael, pelas residências hauçás, de paredes profusam ente cobertas de arabescos, pelos palácios de planta com plexa e m uitas vezes intrincada, pelas m esquitas de tetos em abóbada e altos m inaretes eriçados de estacas.
A m ultiplicidade de estilos é espantosa, em bora a construção se baseie em m ateriais pobres: o colm o, a m adeira, o bam bu, as palm as e o barro. Raram ente, a pedra.
À profusão de m odelos africanos som aram -se, nos últim os séculos, os estilos de fora: da arquitetura árabe e persa, na costa da África Índica; da árabe e berbere, nas savanas sudanesas; das quintas, solares e fortes portugueses; das habitações senhoriais dos colonos europeus nas Antilhas; das casas construídas pelos libertos que retornaram do Brasil para a África Atlântica e ali reproduziram as portas e j anelas, as m eias-m oradas, as m oradas inteiras e os sobrados barrocos e neoclássicos, adaptados, no Maranhão, em Pernam buco, na Bahia, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, às condições dos trópicos; dos edifícios concebidos m odernam ente na Europa e nas Am éricas.
Muitas vezes, num só lugar — com o nos vilarej os dogons, nas escarpas de Bandiagara, no Mali — com prim em -se, lado a lado, form as quase contraditórias. Predom inam , na estrutura de quase todas as casas dogons, os paralelepípedos e os cilindros, aqui e ali surgindo as coberturas cônicas, de palha, dos celeiros. Os tetos das m oradias são horizontais, em terraço. E a clareza geom étrica prevalece no conj unto da paisagem . A casa do chefe-sacerdote distingue-se das outras, contudo, por sua fachada rendilhada. E os santuários, por um a quase recusa das linhas retas, a lem brarem , pela inventiva do desenho e pelas torres sinuosas, as construções de Gaudí.
Santuário dogom . Escarpas de Bandiagara. República do Mali
Tam bém as pequenas m esquitas de Ilorin, no norte do Iorubo, na Nigéria,
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parecem ondular. Com o as casas tradicionais dos iorubás suas paredes acom panham os acidentes do chão e os grossos m uros de barro não hesitam em inclinar-se. Nelas não há nada que sej a duro ou angular. São construções que dão a im pressão de m acieza e dança, com as paredes retalhadas por leves form as geom étricas, arcos dentados, im aginosos zigue-zagues.
Mesquita em Ilorin. Nigéria
Nessas m esquitas, as venezianas abrem -se no próprio barro das paredes. São triângulos, retângulos e losangos, em que as linhas que seriam retas se encurvam e adoçam . O vazio das j anelas é m uitas vezes interrom pido por rústicos cilindros e falsas esferas. Todos os cantos do prédio possuem um a vocação displicente de curvas, para que linhas e volum es ondeiem , entre dengo e serenidade. A precisão da geom etria rende-se ao ritm o, e há um a leveza quase lum inosa nas paredes vazadas.
O interior é fresco e confortavelm ente ensom breado. Com o frescas e cheias
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de som bra eram as pequenas casas dos m usguns, do norte dos Cam arões. Eles faziam , com paredes finas de barro, sem qualquer arm ação ou suporte de m adeira, dom os de secção elíptica, que podiam atingir dez m etros de altura. Juntavam , ao barro, palha cortada em pedacinhos e a seiva pegaj osa das acácias, e depois de am assá-lo longa e cuidadosam ente, com ele, e só com ele, iam
m oldando as finas paredes do alto ovo, com o se fossem oleiros. 5
Na belíssim a construção azul-acinzentada existiam apenas duas aberturas: a da porta, em form a de buraco de fechadura, e a do cim o do dom o, circular, do tam anho de um prato. Esta últim a, só cerrada em dias de m uita chuva, aj udava a arej ar a casa, perm itia que dela se escoasse a fum aça e deixava entrar luz suficiente para abrandar a penum bra.
Os dom os, cuj a superfície exterior era reforçada por relevos em form a de fuste ou de forquilha invertida, uniam -se, por breves m uros, uns aos outros e com punham um anel ao redor de um pátio, no qual ficavam os depósitos de m antim entos e os cercados para os pequenos anim ais dom ésticos.