A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 12 de 35 · parte 1/3

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A Enxada e a Lança

8. Os reinos cristãos da Núbia

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

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Os reinos cristãos da Núbia

 

Quando Ezana, rei de Axum , im pôs sua provisória paz sobre o Cuxe, grande parte do que fora o território m eroíta havia caído sob o controle dos nobas ou sofria constantes incursões dos blêm ios. Estes últim os de tal m odo atorm entavam a fronteira m eridional do Egito, que o im perador Diocleciano convidou outros nôm ades, os nobatas — talvez um ram o dos m esm os nobas, ou seus aparentados —, para protegê-la. Isto nos conta Procópio, um historiador rom ano do século VI,

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no seu De bello Persico.

Blêm ios e nobatas sabiam , a essa altura, em pregar o cam elo com o instrum ento de guerra. O drom edário era, desde m uito, levado pelos árabes aos

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cam pos de batalha. Na segunda m etade do século IX a.C., j á havia, nas tropas que Gindibu, o árabe, opôs ao rei assírio Xalm aneser III, contingentes de cam eleiros. E os vem os, dois séculos m ais tarde, em relevos do Museu Britânico, a dar com bate à cavalaria de Assurbanipal. Cada cam elo ia m ontado por dois hom ens: o prim eiro a segurar-lhe as rédeas e a bater-lhe no pescoço com um a vara; o segundo, arm ado de arco, a disparar flechas contra os adversários. Só bem m ais tarde — e desta form a participarão na batalha de Magnésia, em 190 a.C. — é que os soldados cam eleiros passariam a usar longas lanças e com pridas

espadas, para do dorso de seus altos anim ais golpear os inim igos.3

Não era fácil lutar de cim a de um cam elo. Nem este oferecia as m esm as vantagens do cavalo com o anim al de guerra. Se o lanceiro, no seu drom edário, podia atacar de um a posição m ais elevada, estava tam bém m ais exposto, com o alvo, aos arqueiros adversos. Por isso m esm o, m uitos dos cam eleiros desciam das selas para com bater a pé.

Essas lim itações não chegam a com prom eter o valor do cam elo com o anim al de guerra, nas zonas áridas. Ele dava aos nôm ades atacantes a possibilidade de agir de surpresa, de m over-se com rapidez e de, term inado um assalto, refugiar-se rapidam ente no deserto, sem tem or de ser alcançado pela cavalaria inim iga.

Talvez os blêm ios chegassem , de seus abrigos no deserto, trazendo, ao lado dos cam elos em que viaj avam , os cavalos nos quais davam com bate. Antes de iniciar-se o ataque, passariam dos prim eiros para os segundos, e seria com o cavaleiros que m uitos deles com bateriam , outros apeando dos drom edários para atuar com o infantes. A técnica de com binar cam elos e cavalos era antiga na Arábia e fora em pregada pelos nabateus, aliados dos rom anos, no assalto a

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Jerusalém , em 67.

Talvez da Arábia tenha a África aprendido certas form as de utilizar o cam elo. Antigo na Som ália, este não era desconhecido do Egito faraônico. Não com eçou, contudo, ao que parece, a ser efetivam ente utilizado com o anim al de m ontaria e

carga senão com os Ptolom eus. 5 Terá sido por essa época (dos m eados do século III ao início do século II a.C.), quando as cáfilas passaram a transportar as m ercadorias entre o Nilo e os portos do m ar Verm elho, que os drom edários se foram tornando num erosos nos desertos orientais do sul do Egito e da Núbia, trazidos provavelm ente pelos m esm os com erciantes de incenso e caravaneiros nabateus de Petra que em barcavam suas m ercadorias em portos da Arábia, com o Leuce Com a, por exem plo, para depositá-las na m argem africana, em cais com o os de Muos Horm os e Berenice, que serviam a Tebas. Não se fazia m ais do que prolongar até o Nilo, após curta viagem m arítim a, as rotas com erciais que, apoiadas no cam elo, vinham de Petra ou das regiões produtoras

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de incenso de Dufar, Hadram aute e Mara.

Ao m esm o tem po que se fazia indispensável às ligações entre os portos do m ar Verm elho e o vale do Nilo, o drom edário com eçava a ser adotado e criado pelos nôm ades do deserto ao leste do grande rio. E não apenas com o anim al de carga, m as sobretudo para o em prego no saque e na guerra.

Senhores dos cam elos e das técnicas para bem utilizá-los, os blêm ios e os dem ais nôm ades do deserto passaram a fustigar as caravanas, desorganizando o tráfico entre Méroe e o Egito e introduzindo a instabilidade nas rotas entre o Nilo e os litorais do m ar Verm elho. Em breve, cresceram em audácia. E passaram a hostilizar, com frequência e êxito cada vez m aiores, as populações agrícolas e pastoris do vale. Diante da feroz constância dos ataques blêm ios, os rom anos, em 289, recuaram a fronteira do im pério para a Prim eira Catarata. E procuraram proteger-se com os escudos de outros nôm ades.

A decadência de Méroe fora acom panhada, assim , pela crescente expansão do poder dos blêm ios, dos nobas, dos nobatas e de outros povos cuj os nom es não nos chegaram ou nada nos dizem . Pouco a pouco, foram -se instalando, no território m eroíta, em posições de m ando, grupos nôm ades.

Os reinos cristãos da Núbia

 

Aos intrusos, que talvez fossem sem elhantes à prim itiva gente da terra, ou talvez correspondessem a um retorno à superfície de populações cuj a cultura fora soterrada pela aristocracia m eroíta, têm sido atribuídos os túm ulos em form a de dom o, espalhados aos m ilhares desde Senar, ao sul, até Tanqasi, ao norte.

Alguns deles foram escavados. Nos cem itérios não reais de Méroe. Em Ushara. Em Tanqasi, a j usante de Napata e defronte à necrópole de Kurru, no outro lado do Nilo. Neles encontrou-se um novo tipo de cerâm ica, crism ada de Alua e afim da que desde tem pos im em oriais se m olda no Sudão: j arros grandes e grosseiros, com o porongos, de gargalo longo e estreito e corpo bulboso, trazendo m uitas vezes, na parte inferior, im pressões das esteiras sobre as quais eram feitos. Acharam -se tam bém alguns obj etos. Poucos. Mais raros ainda, os im portados.

Alguns m ortos estavam em posição contraída. Outros, estendidos. A prática de colocá-los sobre leitos e a form a em dom o dos túm ulos recordam Querm a. Mas com um a elite que talvez ainda não conhecesse ou não prezasse a riqueza suntuária. Num dos m aiores túm ulos de Tanqasi, havia apenas quatro potes de

Alua, algum as contas e dois anéis de prata. 7 Isso não exclui — pouquíssim o foi até agora explorado — que outras tum bas possam ser m enos pobres e até ricas. Os grandes dom os de Shendi, com trinta a quarenta m etros de diâm etro, cinco deles cercados por m uro baixo de pedra, podem revelar-se tum bas de régulos. E quem sabe se outras não se localizam na região de Soba, que viria a ser a capital

de um grande reino? 8

Talvez essa gente m orasse nas cidades de palha a que se refere a estela de

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Ezana. E desprezasse as construções de pedra dos m eroítas, as quais, sem uso, se fizeram em ruínas. Seus líderes seriam frugais e ásperos. Contariam a riqueza pelo gado. E m arcariam a im portância pelo tam anho dos túm ulos.

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Shinnie datou dos séculos IV e V os túm ulos de Tanqasi e os classificou em

três grupos 11 — altos, m édios e baixos. Quase todos são feitos de terra de aluvião, originalm ente coberta por um a cam ada de cascalho, e m uitos apresentavam um revestim ento de pedra j unto à base. No grupo dos altos incluem -se aqueles entre seis e dez m etros. O dos m édios com preende os que se situam entre dois e quatro m etros. Os baixos são quase rasos: alguns deles dificilm ente se distinguem do solo, enquanto outros aparecem achatados com o um prato de borco.

Mais para o norte, na Núbia Inferior, nem m esm o os grandes túm ulos feriam a

paisagem . W.B. Em ery, 12 que, com L.P. Kirwan, prim eiro os explorou, em 1931, tom ou-os com o acidentes do terreno, com o um a sequência de pequenos m ontes cobertos de vegetação agreste e rasteira. Seu com panheiro pensou o m esm o: que

eram acum ulações m aciças de areia form adas pelo vento.13 Estavam em Balana, próxim o ao Nilo e à fronteira atual do Sudão com o Egito. Mas não foi ali que iniciaram as escavações. Fizeram -no na outra m argem , em Custul (ou Qostol), onde havia o m esm o tipo de m ontículos.

Logo encontraram um a câm ara funerária, com m uitos restos hum anos e j arras de barro características da cultura a que George Andrew Reisner cham ara, em 1907, Grupo X. Com a continuação dos trabalhos, puderam com preender a estrutura do túm ulo. Havia um a ram pa, que descia de leste para oeste, da superfície do solo até o nível, bem m ais baixo, da porta da tum ba. Antes de chegar à tum ba, a ram pa desem bocava num a espécie de larga plataform a retangular, e na parede desta ocultava-se, com adobe, um a porta de m adeira, enquadrada por um m arco de pedra talhada. Na ram pa, havia vários esqueletos de cavalos, asnos e drom edários. E restos de belas selas e arreios. Junto aos anim ais, talvez porque deles cuidassem , vários hom ens tinham sido sacrificados.

Coroa de prata com engastes de cornalina. Balana, Núbia

 

O cenário fez-se m ais nítido, quando abriram o m aior dos túm ulos de Custul. Na ram pa, encontraram ossos de j um entos, de quatro cam elos, de nove cavalos e de duas ovelhas, além de selas e arneses. A plataform a tinha, em cada extrem idade, um aposento cortado na pedra. Num deles, achou-se um hom em com um a espada de ferro e um tam bor cilíndrico, e no instrum ento se insculpira um a flor de lótus ladeada por dois olhos m ísticos, da tradição egípcia. Talvez a personagem fosse o responsável pela cavalariça do grão-senhor para quem se erguera o túm ulo, pois tinha ao lado os ossos de seis cavalos, com belíssim os arream entos de prata. Na segunda sala, na outra ponta da plataform a, viram -se os restos de dois hom ens, de dois cavalos e de cinquenta cães. Estes levavam ao pescoço coleiras de pelo trançado e guizos de bronze.

Bloqueava o acesso à câm ara funerária um a falsa parede de adobe, a dissim ular a porta de m adeira com m oldura de arenito. E lá dentro havia seis salas, com tetos em abóbada, construídos com tij olos cozidos. Algum as das salas serviam de depósito para j arros de vinho, para utensílios dom ésticos, para arm as e para j oias e obj etos de valor.

Depois de investigarem sessenta túm ulos em Custul, Em ery e Kirwan voltaram -se para os de Balana. Lá estava a prim eira câm ara m ortuária não saqueada. Atrás da porta, à qual duas lanças de ferro com cabo de prata vedavam o acesso, depararam o dono do túm ulo, arm ado de lança e espada, trazendo braceletes de prata m aciça e um a m eia luva do m esm o m etal, destinada a proteger a m ão do roçar da flecha, ao distender e disparar o arco. Usava coroa de prata, engastada de cornalina, à m aneira de Bizâncio, com relevos, em estilo m eroítico, de bustos da deusa Ísis, e encim ada por sim ulações de plum as.

Maior interesse ainda apresentava um a outra coroa, que estava na cabeça de quem talvez fosse um rei, num a outra tum ba não saqueada. Era de prata com pacta, sem elhante, pelo desenho e pela decoração, às que se veem nos relevos das pirâm ides e dos tem plos de Méroe e Naga. Nela alinha-se um a série de falcões, a ostentarem a dupla coroa faraônica, e sobre o grosso aro recortam -se uraeus encim ados pelo disco de Rá. Do que devia ser a frente do diadem a, proj eta-se pequena cabeça de carneiro, de longos chifres encaracolados, sobre a qual se levanta um a m eia-lua, com engastes de cornalina. Da m eia-lua sobem , com as pontas a term inar tam bém em cornalinas, o que seriam as plum as de Am on.

Essa coroa, com o tantas outras que se vinculam ao que hoj e se denom ina cultura balana (em vez de Grupo X), é belíssim a. Além de ser belíssim a, dá-nos um a pista sobre aquele que a usava. Há, com efeito, nas paredes de um tem plo construído pelo im perador Augusto em Kalabsha, a m enos de duzentos quilôm etros ao norte de Balana, um a incisão que nos m ostra um a Vitória alada a pôr um a coroa idêntica na cabeça de um cavaleiro vestido à rom ana, com m anto e cota de m alha, a lança a perfurar o inim igo. Junto ao desenho, lê-se, em grego,

que Silco, rei dos nobatas, triunfou sobre os blêm ios.14

O cavalo do rei ostenta sinos no peito e arneses elaborados, com o os que se desencavaram dos túm ulos de Custul e Balana. Nos túm ulos, havia restos de selas de m adeira, cobertas de couro verm elho e com o alto do arção revestido de prata. Os peitorais e as retrancas das selas eram form ados por um a sequência de discos do m esm o m etal. De prata eram tam bém os cordões artisticam ente entrançados de que se faziam os cabrestos e as rédeas. E as cabeças de leão, com línguas de m arfim e olhos de granada ou de lá-pis-lazúli, que ornavam a testa e as fontes do anim al. Ao redor do pescoço do cavalo, dispunha-se um cordão, com grossos nós a separarem num erosos chocalhos.

A m ontaria era pequena. O cavaleiro dom inava o m ais indócil dos corcéis, graças a freios poderosos e desapiedados, de ferro e prata, que apertavam , com o um a pinça de base circular, a queixada do anim al, quando quem o m ontava lhe puxava a brida. O guerreiro usava colete de couro duro, escudo circular do m esm o m aterial, alj ava, arco, lança e espada.

O que em prim eiro lugar nos sugerem esses túm ulos é a crença num a vida após a m orte, com o m esm o form ato da que se extinguia. Por isso, os chefes e os notáveis enterravam -se acom panhados de suas m ulheres e servidores, de seus cavalos, cam elos e cães, de seus obj etos de valor e estim a.

Esses túm ulos dizem -nos m ais: pertenciam provavelm ente a um a aristocracia m ontada, a um a classe m ilitar cuj o prestígio se assentava no cavalo. Ainda que o cam elo lhe tivesse dado originariam ente o poder, era no dorso do cavalo, de requintados e ricos arreios, que ela exibia sua força e prosápia.

Contam -nos tam bém os túm ulos que as elites que dom inaram a Baixa Núbia, entre o final do século IV e o final do século VI, estim avam o luxo e recebiam os seus m odelos de bom gosto não só da herança m eroíta, m as tam bém do com ércio com os m undos egípcio, sassânida e bizantino. Havia neles artigos de fabrico local e im portados, vidros, vasos de prata, lâm padas e incensórios de bronze, fragm entos de tapetes, j oias de berilo, am etista, coral e cornalina, j ogos de dados e m óveis de ferro e de m adeira. Num a arca, com incrustações e painéis de m arfim , desenham -se cenas e figuras das m itologias rom ana e egípcia. Em vários obj etos, há cruzes, a revelarem a influência do Egito cristão. Dele vinham as lâm padas de bronze em form a de pom bas e talvez a m aior parte das peças im portadas.

O que se m ostra em m aior abundância, tanto nos túm ulos da nobreza quanto nos vilarej os e nos cem itérios da plebe — não existem indícios de um a classe interm ediária —, são os vasos de cerâm ica. Os que se faziam no torno do oleiro apartaram -se bastante dos m odelos m eroítas e seguiam a inspiração da terra sigillata, do fim do Im pério Rom ano. Ânforas, j arras, tigelas, potes e copos eram averm elhados, lisos ou com ornatos m uito sim ples. Já a cerâm ica feita à m ão, e m ais popular, em nada se diferençava da que m oldavam as m ulheres no período m eroítico.

Onde o horizonte arqueológico m eroíta foi substituído pela cultura balana, nota-se a decadência das vilas e cidades. A ocupação torna-se m enos densa. As aldeias e os cem itérios perdem tam anho e se afastam nas distâncias. Pequenas casas de dois côm odos e de paredes finas de pedra e tij olos passam a apoiar-se contra as construções m aiores e m ais sólidas do período anterior. As m oradas dos ricos e os edifícios públicos deterioram -se. Outros, principalm ente tem plos, são postos abaixo.

Até agora, só se encontrou um a exceção a essa regra: Qasr Ibrim . Ali, durante a época balana, construíram -se, ao longo de ruas bem traçadas, prédios robustos, de plano quase quadrado, com quatro, cinco, seis, até oito salas na parte térrea, e sinais de que deviam possuir um pavim ento superior. As paredes eram rebocadas e pintadas de branco, com decorações em azul, am arelo e verm elho. As fundações eram profundas, e m uitas casas apresentavam depósitos subterrâneos, aos quais se tinha acesso por alçapões de m adeira. É possível que estes edifícios fossem prim ordialm ente alm oxarifados, em bora tam bém pudessem servir de

m oradia. 15

Esse tipo de construção, que talvez se repetisse em outras partes — quem sabe se em Faras e Jebel Adda, sob os prédios cristãos? —, não desm ancha a certeza da decadência na arquitetura. Ficaram para trás os tem pos em que se erguiam os santuários de Naga e de Mussauarat-es-Sofra. E em que se esculpiam na pedra as im agens dos deuses. Estes deixaram de frequentar, nos baixos-relevos, a com panhia dos reis, das rainhas e dos outros donos da vida, porque os baixos-relevos se ausentaram das paredes dos tem plos, tem plos que deviam ser tão insignificantes, que hoj e não os percebem os.

Seriam os que repousavam nos grandes túm ulos balanas gente estrangeira, vinda dos oásis do sudoeste e distinta da que vivia antes na Núbia? Ou seriam sem elhantes aos que, a partir do século I a.C., repovoaram o vale do Nilo entre Maharraca e a Segunda Catarata? Ou seriam descendentes de segm entos das elites da antiga Querm a, que, inconform ados com o processo de egipcianização, abandonaram as m argens do rio e foram continuar alhures um rum o próprio de cultura? Se assim tiver sido, tom aram sua desforra quase dois m il anos depois, ao novam ente assum ir o com ando do povo de que saíram e ao só m anter, dos valores m eroítas, os em blem as do poder real, e destes, os sím bolos aparentes, m as não os m ais profundos, com o provaria o terem restaurado o túm ulo em form a de dom o, o sepultam ento em posição contraída e o sacrifício de servos e anim ais para acom panhar o m orto em sua nova existência.

Não se sabe se todo o território coberto pela cultura balana, desde Shellal, na região da Prim eira Catarata, até Sesibi, logo ao norte da Terceira, obedecia a um só rei, ou se estava dividido em vários principados. O m ais provável é que houvesse, pelo m enos durante algum tem po, vários régulos a com petir pelo poder, nobatas e blêm ios. E talvez a cultura balana envolva tanto uns quanto outros.

Se os nobatas, que se puseram , com o clientes, a serviço de Rom a, ocuparam a m aior parte da Baixa Núbia, não conseguiram im pedir que os blêm ios se apossassem do Dodecaschenos. Os choques entre os dois grupos só term inaram com a vitória de Silco, o rei nobata. O conflito diluiu-se algum as vezes diante de interesses com uns — com o quando da tentativa do Egito cristão de suprim ir o culto de Ísis e transform ar em igrej as os tem plos dedicados à deusa. Nobatas e blêm ios som aram forças e de tal form a castigaram as guarnições do sul do Egito, que os bizantinos, em 453, para pôr fim à insegurança nas fronteiras da Tebaida, concederam que Filas continuasse a abrigar o Tem plo de Ísis e que a im agem da deusa pudesse, em certas ocasiões, ser conduzida às terras do sul, para nelas ser adorada. Só quase cem anos m ais tarde é que Justiniano determ inaria a destruição dos Tem plos de Ísis, a rem essa das estátuas que continham para Constantinopla e a expulsão dos sacerdotes pagãos.

A ordem do im perador destinava-se a apressar, ou consolidar, a conversão da Núbia ao cristianism o e a conduzir para a órbita do Im pério Rom ano do Oriente os três estados em que se havia dividido o vasto território desde a Prim eira Catarata até bem abaixo da confluência do Nilo Branco com o Nilo Azul. Ao norte, ficava Nobácia, cuj a capital era Faras (para os antigos, Pachoras). Mais abaixo, onde o Nilo faz um grande S deitado, ou sej a, entre a Terceira Catarata e o uede Hawad (a m ontante da j unção do Nilo com o Atbara), espraiava-se Macúria ou Macurra, com a capital em Dongola. Ao sul, estava Alua ou Alódia, cuj o centro político era Soba, rio acim a de Cartum .

Justiniano desej ava extinguir o paganism o dentro e nas vizinhanças de seus dom ínios. A intransigência cristã cerrava e destruía tem plos, quando não os voltava em igrej as, e proibia os antigos ritos e até m esm o a livre divulgação das ideias pagãs. Ficou célebre, a propósito, a decisão de Justiniano de m andar fechar, em 529, a Academ ia platônica e outras escolas filosóficas de Atenas. Sua política não se esgotava, contudo, no veto e na proibição. Buscou expandir a fé. E enviou m issionários aos confins do im pério e aos estados que com ele lindavam .

João, bispo de Éfeso, conta, em sua História eclesiástica, 16 com o Justiniano, que era ortodoxo, e a im peratriz Teodora, apaixonada m onofisista, com petiram para que prim eiro chegasse à Núbia a versão do cristianism o que cada um deles professava. Am bos prepararam separadam ente em baixadas ao rei da Nobácia. E am bos enviaram instruções ao governador bizantino do Alto Egito para que delas cuidasse e as conduzisse às terras núbias. Teodora, que havia escolhido com o evangelizador o m onge Juliano, instruiu expressam ente aquela autoridade a reter, a todo custo, os enviados m elquitas de Justiniano e a só deixá-los partir depois que os m onofisistas tivessem chegado à corte nobata.

Assim foi. Juliano chegou a Faras em 543 e converteu o rei nobata, a nobreza e o povo. Este talvez j á contasse com alguns cristãos, que haviam adquirido a fé no com ércio com o Egito, ou que de lá a tinham trazido e de outras partes de onde em igraram .

Em Faras, sob a catedral que substituiu um antigo palácio, desencavaram -se os restos de um edifício em tij olos crus, anterior ao século V. Kasim ierz

Michalowski17 assevera tratar-se de um a igrej a cristã. E é possível que o sej a. De qualquer form a, há, nos cem itérios do cham ado Grupo X, lâm padas a óleo com m otivos cristãos, cerâm ica m arcada pela cruz e alguns enterros desacom panhados de obj etos e oferendas, a atestar que o cristianism o j á havia chegado, ainda que em pequena escala, antes de Juliano, à Núbia.

Quando, após dois anos de trabalhos, Juliano deixou a Nobácia, sua obra foi continuada por Teodoro, bispo de Filas. Este nom e figura num a inscrição em copta na igrej a de Dentur, com o o do dignitário que deu a certo padre Abraão a cruz que se colocou num antigo tem plo, ao transform ar-se em casa de Cristo. Isto deu-se em 22 de j aneiro de 559 ou de 574. Era rei Eirpanom e, talvez o prim eiro

m onarca a subm eter-se ao cristianism o na Núbia.18

Se os catequistas de Justiniano não lograram êxito na corte de Faras, j á conquistada pelos m onofisistas, foram plenam ente aceitos em Macúria, que abraçou as doutrinas do concílio de Calcedônia. Os dois estados, politicam ente rivais, passaram tam bém a hostilizar-se em m atéria religiosa.

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O cronista João de Biclarum diz ter sido em 569 ou 570 que o rei e a corte de

Dongola se renderam ao cristianism o de feição m elquita. Mas não conta — quem o faz é de novo João de Éfeso — que Dongola procurara bloquear a expansão para o sul da fé m onofisista.

Longino, que j á havia servido em Faras durante algum tem po, voltou de Bizâncio em 578, e dois anos depois seguiu para Alódia. O rei de Macúria fez tudo para detê-lo. Para iludir a vigilância, Longino valeu-se do socorro dos blêm ios, que o levaram , por rotas distantes do rio, até Soba. Ali, ele encontrou alguns cristãos, adeptos da heresia de Halicarnasso, para a qual o corpo de Jesus era incorruptível. Corrigiu-lhes o erro, pregou aos pagãos e logo se viu cercado de fiéis.

A conversão da Núbia deve ter sido rápida. Vivia-se, no Mediterrâneo Oriental, sob a aparência de conflito, crise e cism a, um m om ento de intenso entusiasm o religioso, um clim a de apaixonada procura da verdade e de desej o de propagação da fé por todos os m eios possíveis. Um a época de extrem ado ardor, na polêm ica e no exem plo. Em que a dedicação e o desprendim ento dos evangelizadores — sobretudo dos m onofisistas, m uitos dos quais im itavam aquele chefe deles, Tiago Baradai, que se vestia de m endigo — atraíam os incréus e incendiavam de fervor e desej o de superação os devotos.

O cristianism o chegava à Núbia no m esm o instante em que as perseguições de Justiniano faziam com que toda um a hierarquia m onofisista se contrapusesse, cidade a cidade, à estrutura oficial da igrej a saída do Concílio de Calcedônia. A evangelização da Núbia é, pois, contem porânea do estabelecim ento, pelos m onofisistas, de um a igrej a paralela. Talvez tam bém por isto, porque a controvérsia anim ava a com petição, cedo toda ou quase toda a Núbia estava entregue à fé de Cristo.

Não que a gente de Nobácia, Macúria ou Alódia com preendesse m uito bem as sutilezas do debate teológico sobre as naturezas de Jesus. Im pôs-se o m onofisism o ou a ortodoxia bizantina, conform e quem chegasse prim eiro, ou conform e as conveniências políticas dos soberanos. Não se exclui até que possa ter havido em alguns m om entos m udanças de fidelidade. Ou indecisões sobre o que m ais conviria a um rei: se guardar distância ou aproxim ar-se de Constantinopla.

Em bora antim elquitas, os m issionários de Teodora tam bém se expressavam em grego. Em consequência, os recém -conversos dos m onofisistas podem ter lido prim eiro em grego, e só depois em copta, as Escrituras, e o grego será um dos idiom as de sua liturgia.

Os m onofisistas recebiam os bispos do patriarca alexandrino, que, na m aior parte dos casos, era adversário do im perador. Mas não deixaram , apesar disto, de im pregnar-se do pensam ento político e da prática de estado de Bizâncio. Se nenhum dos reinos núbios se transform ou em dependência de Constantinopla ou lhe seguiu cegam ente a política, todos se bizantinizaram , ao m esm o tem po que se fortaleciam com o estados e com o sociedades. Os reis núbios copiaram os pom posos títulos de Bizâncio e a estrutura elaborada de sua corte e de seu serviço público.

A m ontagem de um a burocracia tornou-se possível porque, com o cristianism o, se recuperou, na Núbia, o uso da escrita, perdido desde o fim de Méroe. Quando isso se dá, após um hiato de trezentos anos, não é em m eroíta que se grafa, m as em grego, em copta e — o que é m ais im portante — em núbio antigo, que sintom aticam ente adotara com o form a escrita o alfabeto grego m odificado, na sua form a copta, com a adição de três signos novos.

Sugere-se que o núbio fosse a língua dos nobas ou dos nobatas e que estes a tivessem trazido dos desertos do sudoeste. Ou se pensa que a falavam os talvez parentes dos nobatas que reocuparam a Núbia Inferior nos prim eiros séculos do segundo m ilênio de nossa era. Outra hipótese é a de que o núbio fosse o idiom a utilizado, desde tem pos im em oriais, no vale do Nilo, da Prim eira à Quarta Catarata, só se exprim indo em m eroíta os habitantes da estepe de Butana e as elites e os servidores de Méroe. O povo, no resto do im pério, discorria em núbio, que, no entanto, não tinha form a escrita. Assim sucede hoj e no norte da

República do Sudão, onde se fala o núbio, m as se escreve em árabe. 20

O cristianism o deve ter funcionado com o polo de coesão política, num a sociedade form ada provavelm ente por grupos com línguas e culturas distintas. Deve tam bém ter servido de nova fonte de legitim idade para os m onarcas núbios. Pois se abandonara o conceito de rei divino. O túm ulo do soberano, fosse pirâm ide ou dom o, perdera o significado de suprem a expressão de um poder que se prolongava além da m orte e no qual se confundiam o hum ano e o divino. Deixam de distinguir-se, por isso, aos olhos de hoj e, essas tum bas das dem ais. O rei continuava a ser, porém , am parado pela fé. Por um a nova fé. E a adoção do princípio de que o súdito segue obrigatoriam ente a religião do rei (cuj os regio ej us religio) reforçaria os sistem as de poder, que se vinham até então apoiando principalm ente na disciplina, na eficiência e na fidelidade de um a classe arm ada.

Os núbios eram bons guerreiros. Possuíam excelente cavalaria e arqueiros tem idos. Quem disso nos deu testem unho foram os próprios árabes, senhores tam bém dos cavalos e dos arcos, os árabes cuj o avanço para o sul e para o deserto foi contido, durante alguns séculos, pelos reis cristãos da Núbia.

No fim de 639, os exércitos m uçulm anos invadiram o Egito. Na região do delta, houve resistência, m as o resto do país pouco ou debilm ente se opôs aos atacantes. A sem i-inexpugnável Alexandria acabou tam bém por render-se, em novem bro de 641, com a condição de que as forças bizantinas só a evacuassem quase um ano depois. A m ais grega das cidades egípcias seria reconquistada em 645 pelas tropas de Constantinopla, para ser de novo perdida, e desta vez definitivam ente, no ano seguinte. Em pouco tem po — duas dúzias de m eses — os árabes se apossaram do celeiro do m undo m editerrânico, para ali sucederem , com o senhores, a outros senhores: prim eiro os persas, depois os gregos, e os rom anos, e os bizantinos, e novam ente os persas, e outra vez os bizantinos.

Para os árabes, a conquista era um ato de fé, e a guerra, um a form a de oração. Mas o fervoroso arroj o e a extrem a fortaleza e m obilidade de tropas acostum adas às duras cam panhas do deserto não explicam inteiram ente com o levaram de vencida, em tão curto tem po, a m áquina bélica bizantina. Foram favorecidas pelo divórcio entre o poder e o povo, entre as cidades gregas e o cam po copta, entre os governantes m elquitas e os governados devotadam ente m onofisistas. Encontraram m assas desacostum adas à luta m ilitar, por séculos de dom ínio estrangeiro. Chegaram a terras onde era profundo o rancor causado pelas perseguições das hierarquias políticas e religiosas do Im pério Bizantino contra o clero e os seguidores do m onofisism o.

Esses ressentim entos haviam -se renovado e agudizado, nos anos que precederam a invasão árabe, quando os coptas se viram acossados violentam ente pelos m elquitas, em consequência da reconquista bizantina do Egito, em 626. Durante o período sassânida — tão breve, pois se passara entre 617 e aquele ano — os m onofisistas tinham saído da som bra ou da clandestinidade e experim entado novam ente o gosto de ver seu clero retom ar as igrej as urbanas, os bispados e até m esm o a sé patriarcal. A am argura da queda e o ressurgir das perseguições, ainda m ais ferozes, após 626, tornaram inevitavelm ente o bizantino o inim igo m ais claro do copta, que não tinha por que a ele se aliar contra um novo invasor.

Não há m aiores indícios de que os cristãos m onofisistas tenham auxiliado os m uçulm anos ou com eles se confraternizado. Para os coptas havia, porém , apesar das incertezas, nova esperança. É sintom ático que, m al o últim o soldado bizantino abandonava, em 642, Alexandria, um patriarca m onofisista era reconhecido pelos árabes com o o chefe da Igrej a cristã no Egito.

No próprio desenrolar do avanço para o sul, os árabes ultrapassaram , em 641, a Prim eira Catarata. Chefiava um exército de vinte m il hom ens Ucba ibn Nafi, irm ão por parte de m ãe de Am re ibn al-As, o general que conquistara o Egito. As tropas árabes encontraram , contudo, tal com o teria sucedido, algum as décadas antes, com as forças sassânidas — se é que estas ultrapassaram realm ente as

fronteiras da Núbia21 —, um adversário determ inado e coeso.

Os núbios estavam tam bém tom ados pelo zelo religioso e seus soldados se assem elhavam aos m aom etanos, no saber usar o deserto com o refúgio e com o base para rápidas, precisas e eficazes incursões m uito adentro das linhas de frente do inim igo. Eram cam eleiros exím ios. E, firm es nas selas de seus corcéis, capazes de arrem eter com violência o adversário, persegui-lo im placavelm ente na vitória, ou dele fugir, velozes, quando inferiorizados. Seus arqueiros deixaram fam a, nos escritos árabes: seriam ligeiros e capazes de reter o avanço da cavalaria adversária com a m ultiplicação dos disparos, suas setas furando m uitas vezes as couraças, cotas de m alha e coletes acolchoados dos islam itas. Um

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cronista, Al-Baladuri, louva-lhes a rapidez e a pontaria: procuravam acertar

sobretudo os olhos dos inim igos. Com tal eficácia, que os árabes cham aram aos núbios “os destruidores de pupilas”. (Não se perdera, assim , nas terras ao sul do Egito, a habilidade no m anej o do arco — a m esm a que perm itira ao rei de Cuxe, no final do século VI a.C., desafiar, com um a bazófia, a am bição de Cam bises II,

o rei dos persas. 23 O deus Apedem eque segurava um arco na m ão. E com arco e alj ava eram enterrados os chefes balanas.)

Continuar: parte 2 de 3