A Enxada e a Lança
6. Axum
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Axum
Quando, por volta de 1500 a.C., os navios da rainha Hatshepsut se detiveram nas enseadas da Eritreia, encontraram povos cuxitas que j á exerciam a pastorícia e praticavam a agricultura. Essa gente seria responsável pelas gravuras e pinturas rupestres dissem inadas pelo norte da atual Etiópia, bem com o, talvez, pelos m ais antigos dos m onólitos em form a de falo que se encontram no país. Deles, alguns chegam a atingir três m etros e m eio de altura.
Os cuxitas cuidavam do gado m iúdo e do gado bovino — este desenhado na pedra sem corcova e com chifres m uito longos. Cultivavam o tef, o niger, o
sorgo, o m ilhete Eleusine. Há quem pense1 que tam bém j á conheciam o trigo e a cevada. Moldavam a cerâm ica. E não se afasta a hipótese de que soubessem fundir o cobre e o bronze.
Havia provavelm ente, desde essa época, contatos entre as m argens do m ar Verm elho. O Bab-el-Mandeb tem apenas 32km . E o arquipélago de Dahlak, ao largo de Maçuá (ou Massaua), fica defronte às ilhas de Farasan e Kam aran, próxim as à m argem arábica, facilitando assim a passagem dos barcos de um a a outra costa. Estudos feitos j unto ao rio Gash (nom e que tom a o Mareb, antes de desfazer-se em delta nas areias do Sudão) e em Tiham a, no sudoeste da Arábia, revelam que o norte do altiplano etíope, por volta de 1000 a.C., m antinha intensas relações com aquelas duas áreas e era influenciado tanto pelo Grupo C e por
Querm a quanto pelo sul da Península Arábica. 2
Os que cruzavam o m ar Roxo não estranhariam a outra banda. O sul do m ar Verm elho e o golfo de Aden separam planaltos sem elhantes: o iem enita do etíope e do gala-som ali, o segundo e o terceiro divididos entre si pela grande falha tectônica ocupada pelo rio Awash e pelos lagos que se sucedem até o Tana. Na parte africana, os planaltos, cortados por grandes fendas, apresentam três m il m etros de altitude m édia, e sobre eles se erguem dram áticas m ontanhas.
Do outro lado, são tam bém frequentes as áreas acim a dos três m il m etros. Essas terras elevadas fazem com que as chuvas das m onções ali desabem sobre solos férteis, que os iem enitas desde cedo aprenderam a valorizar, protegendo-os em terraços nas encostas e os irrigando artificialm ente. Para isto, construíam grandes açudes e com plicadas redes de canais.
Num a agricultura próspera, a que se som ava a criação de gado, tanto nos chapadões e nos vales úm idos das terras altas quanto nas estepes baixas — e criavam -se bois, ovelhas, cabras, cavalos e cam elos —, assentava-se a vida econôm ica. Os excedentes da produção agropastoril perm itiam , desde havia m uito, a especialização do trabalho, e nas vilas e cidades, com suas casas de pedra e lenho, às vezes esguias e com vários andares, proliferavam as m anufaturas de couro, tecidos, m adeiras e m etais. Os iem enitas conheciam o cobre, o bronze e, desde possivelm ente os inícios do prim eiro m ilênio a.C., o ferro.
Suas cidades tornavam -se centros com erciais, em pórios do incenso e das especiarias. E os estados que se desenvolviam na parte sul-ocidental da Península Arábica — Main, Catabã, Sabá, Hadram aute e outros m enores — procuravam controlar as rotas com erciais terrestres e m arítim as e expandir suas frotas. Sabeus e m ineus fizeram -se notáveis m arinheiros, num Índico cheio de velas.
Obra de m uitos séculos e de m uitos povos — sum érios, babilônios, indianos, cingaleses, m alaios, persas, indonésios, chineses, árabes —, form ara-se o longo cam inho m arítim o do com ércio a distância, desde a China até Suez. Aperfeiçoaram -se os barcos. Descobriu-se com o fazer uso do fenôm eno das m onções, para cruzar o oceano, para sair m ar aberto, a navegar longe dos litorais, sem ver terra. Criaram -se grandes portos, alguns dos quais se tingiram de lenda, com o Coçair e Ezion-Geber, este fundado por Salom ão, no golfo de Acaba, para, a partir dele, atingir Ofir. E os egípcios, cuj as em barcações, na segunda m etade do segundo m ilênio a.C., ultrapassaram Guardafui e atingiram provavelm ente Socotorá, puseram -se a com petir com os habitantes das costas ocidental e m eridional da Arábia pelo controle do tráfico interm ediário entre a entrada do golfo Pérsico e Suez.
Às gentes da Arábia do Sul não escapou, desde cedo, a im portância que tinha, para o dom ínio desse com ércio, a posse das duas m argens do Bab-el-Mandeb. Conheciam as costas da Eritreia e não ignoravam que ali se obtinham m arfim e peles, ouro, plum as e outros produtos exóticos, com m ercado certo em qualquer dos lados para onde se m ovessem os navios. Bons navegadores e excelentes com erciantes, afeitos à audácia e à aventura, os iem enitas com eçaram , por volta do século VII a.C., a criar entrepostos e a estabelecer colonos nos litorais da Eritreia.
Talvez inicialm ente se tivessem instalado, com esperança de breve regresso, em feitorias ou estações de caça. Seriam grupos m uito pequenos. À m edida que as oportunidades se revelaram favoráveis, esses grupos cresceram , sem intenções de retorno. Provinham de diferentes pontos da Arábia do Sul, m uitos
deles a falar distintos dialetos de um a língua com um . 3 E foram subindo o planalto, de feição e clim a sem elhantes aos da terra natal. Eram m uitos deles agricultores acostum ados às glebas das m ontanhas, e nelas com eçaram a fixar-
se, entre os cunam as-barias e os cuxitas agôsa da Eritreia e do Tigrê.
Etiópia
Não deve ter havido m igração m aciça, nem , m uito m enos, dom ínio m ilitar do Iêm en sobre as terras que lhe ficavam defronte, na outra m argem das águas. É possível que os pequenos estados da Arábia do Sul tenham estim ulado a criação de algum as colônias, olhado para elas com interesse e as apoiado em m om entos difíceis. Podiam até m esm o considerá-las com o prolongam entos à distância do espaço sobre o qual eram soberanos. Não há indícios, porém , de que representassem elas o resultado de um a política de expansão e conquista daqueles reinos. Seriam , antes, a expressão de iniciativas espontâneas de grupos ligados pela linhagem ou pela tribo, que se instalavam entre os indígenas, com o estrangeiros, clientes ou senhores, e lhes transm itiam a cultura e a organização social que traziam da Arábia do Sul.
Com o tem po, os elem entos de origem iem enita cresceram em núm ero, não só por força dos filhos, netos e bisnetos dos prim eiros im igrantes e de seus m estiços com gente da terra, m as tam bém pelos reforços que continuaram a vir da outra banda do m ar Verm elho. Deles, em breve, não m ais se distinguiriam os agôs sem itizados, que se fizeram tam bém propagadores das técnicas, dos costum es, das crenças e dos idiom as sul-árabes, e que contribuíram para incutir na cultura recebida fortes traços cuxitas.
Nesse processo de som a e m istura de culturas, a Etiópia recebeu do Iêm en as casas de pedra, o uso da escrita, as técnicas do represam ento de águas, da irrigação artificial e da disposição das lavouras em terraços com socalcos na encosta das m ontanhas, outras práticas agrícolas e novos vegetais, com o, talvez, o
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trigo e a cevada. Recebeu tam bém o ferro, que lhe pode ter chegado igualm ente de Méroe. E a m ula, com o anim al de carga. E o arado, que perm itiu m elhor lavrar os férteis solos vulcânicos dos planaltos e, com m enos trabalho, estender consideravelm ente as áreas cultivadas. Talvez, porém , os cuxitas j á conhecessem de antes o arado. Eles podem tê-lo adquirido dos egípcios, do
m esm o m odo que o trigo e a cevada, antes das m igrações sem itas.5 Talvez. Neste, com o em tantos outros pontos da história antiga da África, é difícil estabelecerem -se “os lim ites do certo, do provável e do duvidoso”, com o preconizavam , na Enciclopédia, Diderot e D’Alem bert.
Por volta do século V a.C., existiriam várias pequenas unidades políticas no planalto da Eritreia e em Tigrê. Form aram -se provavelm ente em torno de núcleos de im igrantes iem enitas ou de elites locais sul-arabizadas. Alguns desses m icroestados, senhores das rotas de acesso aos produtos africanos ou detentores de santuários religiosos de especial prestígio, im puseram -se sobre os dem ais. Cresceram . Tornaram -se reinos. Com o o que deve ter existido no norte de Tigrê, onde se encontraram — em Haúlti e em Azbi-Dera (ou Addio Galam o) — inscrições nas quais alguém se diz Mlkn, ou rei, e Mkrb (m ucarribe), que foi o título do soberano de Sabá, na Arábia do Sul, até o fim do século V a.C., e que significava “príncipe-sacerdote” ou “príncipe-sacrificador”. Esse reino do norte do Tigrê não deve, contudo, ter sido um estado unitário. Muito provavelm ente seu chefe era o prim us inter pares de um aglom erado de unidades políticas m ais ou
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m enos autônom as, com a m esm a cultura e idêntica organização social.
Os achados da arqueologia m ostram enorm es sem elhanças entre as inscrições e os m onum entos do norte da Etiópia e os da Arábia do Sul da m esm a época. As escavações revelaram que, no Tigrê, se adorava Alm acá, o deus lunar representado pelo disco a repousar no crescente. E que tam bém se rendia culto a Astar, a Naura, a Dat-Him ian, a Dat-Badan e a toda a guirlanda de divindades que frequentavam as im aginações e os ritos dos hom ens da Arábia do Sul.
Em Yeha, a cinquenta quilôm etros a leste de Axum , encontraram -se várias inscrições em língua e caracteres sul-arábicos, bem com o os restos de um tem plo em cantaria, com pedras m uito bem talhadas, de m odo a se aj ustarem um as às outras. Ergue-se o tem plo sobre um a base piram idal de oito degraus, e tem a form a de retângulo, com cerca de 18,6m por 15m . O que ainda está de pé atinge uns nove m etros de altura. Suas fachadas receberam tratam ento idêntico ao dado aos edifícios de Marib, a capital do reino de Sabá, cuj o tem plo tam bém se elevava de um a plataform a em degraus. Seu plano diferia, porém , do dos
santuários sul-arábicos.7
Na m esm a área, em Grat-Beal-Guebri, desencavou-se outra construção im ponente, que se tem por um palácio, com sinais de haver sido destruída pelo fogo. Trata-se de um a série de pilares sobre alto terraço, a lem brar as construções do Iêm en. Tam bém de form a e estilo a recordarem Sabá são os frisos com relevos de cabritos m onteses, que se veem não só em Yeha, m as igualm ente na região de Melazo, logo ao sul de Axum .
Ali, em Haúlti, além de pilares sem elhantes aos de Grat-Beal-Guebri, acharam -se algum as esculturas em pedra de m ulheres sentadas, com as m ãos a repousarem nos j oelhos. Só um a delas está quase com pleta. É de fino calcário branco e m ede 82cm de altura. Veste roupa de talhe sim ples, em bora inteiram ente pregueada, e tem ao peito um tríplice colar, do qual se pendura, à frente, um a espécie de escudo, e atrás, um contrapeso em form a de trapézio. A cabeça redonda, de cabelos em pastilhas, a sim ular o encaracolado, m ostra orelhas cuidadosam ente desenhadas, o contorno dos olhos em forte relevo, m açãs do rosto cheias, lábios finos estendidos no que parece um sorriso. Ignora-se se esta e as outras im agens sem elhantes representavam rainhas ou deusas. Talvez fossem esculturas de Astar e se sentassem em tronos, ou reproduções em pedra de altares processionais, com o o que Henri de Contenson desencavou j unto com essas estátuas.
Tem o trono 140cm de altura. É um nicho de 67cm de largo e 57cm de profundidade, colocado sobre um a base grossa, a qual, por sua vez, se firm a sobre quatro patas de touro, duas voltadas para a frente e duas para trás. Decoram o dossel e as bordas frontais frisos de cabritos-m onteses, cuj as cabeças, com grandes chifres recurvos, olham para um a “árvore da vida”, situada no ponto central e m ais alto do dossel. Nas faces externas laterais do nicho, há dois baixos-relevos. À prim eira vista, parecem idênticos. Não o são inteiram ente. Em cada um dos lados, veem -se duas figuras hum anas de perfil: um a, pequenina, com um a túnica lisa até os tornozelos e um a capa sobre os om bros, apoia-se num com prido bastão, e tanto pode ser hom em quanto m ulher; a outra, m uito m aior, é um hom em de nariz aquilino e barba pontiaguda, traj ando calção bufante e um a espécie de m anto. Num a das cenas, ele segura com as duas m ãos o que parece ser um a ventarola. No outro relevo, além da ventarola, a m ão direita sustenta um a clava, e o braço esquerdo está enfeitado por quatro argolas. Neste m esm o lado, sobre a figura pequenina lê-se em sabeu “Rafash”. E sabeus são não apenas o friso de cabritos m onteses, m as tam bém os pés de
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touro.
De tipo bem conhecido na Arábia do Sul é igualm ente a m aioria das piras de pedra para queim ar incenso que se encontraram em Yeha, Melazo, Matara, Azbi-Dera e outros sítios da Etiópia. Sobre um a base piram idal, assenta-se um cubo decorado com m otivos arquitetônicos, a im itar um palácio, tendo por ponto focal quase sem pre o sím bolo divino do disco a pairar sobre o crescente. Afastam -se do m odelo os altares de incenso que se revelaram em Gobochela: de
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form a cilíndrica, firm am -se sobre pedestais cônicos. Estas piras cilíndricas e quase todas as em form a de cubo pertenceriam a um a fase posterior da história etíope, quando as influências do Iêm en j á haviam sido absorvidas, assim iladas e reelaboradas.
A partir do século III a.C., torna-se claro ter havido um a evolução na cultura do norte da Etiópia, com o se ela se tivesse paulatinam ente apartado da iem enita. A língua, por exem plo, vai-se afastando do sul-arábico e, tanto na grafia — m enos geom étrica e m ais rudim entar — quanto na fala, aproxim a-se do que viria a ser o gueze. Na cerâm ica, que fora até então m edíocre, im põem -se,
talvez sob o influxo de Méroe, 10 novos tipos de vasos: de argila negra ou rubra, com superfícies vidradas e incisões ornam entais preenchidas com um a pasta branca ou, em alguns casos, verm elha.
Esse desenvolvim ento cultural próprio, a indicar que se havia esm aecido o convívio entre a Etiópia e o Iêm en, talvez se explique com a política ptolom aica de converter o m ar Verm elho num lago greco-egípcio, com o prim eiro passo para o controle do com ércio do Índico. Ptolom eu II, ou Filadelfo, fundara ou revigorara os portos de Arsinoe, Kosseir, Berenice, Ptolom aïs Theron, Soterius Lim en e Adúlis. Seu filho, Ptolom eu III (que reinou entre 247 e 221 a.C.), favoreceu especialm ente o últim o ancoradouro, dentro do golfo de Zoula, a ponto de transform á-lo no m ais im portante do m ar Verm elho. Ali em barcavam -se m arfim , chifres de rinoceronte (m eizinha m ágica contra tudo, a com eçar pelos envenenam entos), carapaças de tartaruga, couro de hipopótam o, obsidiana,
m acacos e escravos. Com o afirm ava Plínio, o Velho. 11
Os árabes não logram conter a investida do Egito ptolom aico. Perdem o predom ínio que detinham nas águas do m ar Roxo. Retraem -se. As atividades m ercantis m udam de m ãos, ao m esm o tem po que se expandem com vigor. Os Ptolom eus vinculam com ercialm ente o m ar Verm elho ao Mediterrâneo. E vão m uito além do Bab-el-Mandeb. Na segunda m etade do século II a.C., Eudoxo de Cízico j á atingira, do Egito, a Índia. Gregos, egípcios e rom anos só ganhariam , no entanto, os am plos espaços do oceano Índico depois que Hípalo, nas prim eiras décadas de nossa era, se apossou do segredo do regim e das m onções.
À troca de parceiros com erciais correspondeu o desvio, da Arábia para o Mediterrâneo, das fontes de inspiração da Etiópia. Em bora fundada solidam ente nas m atrizes cuxitas e nas herdadas do Iêm en, a cultura etíope passou a ter no helenism o um m odelo a seguir.
A arqueologia revela-nos o aum ento, nesse período, dos obj etos e utensílios de bronze e ferro. De ferro: argolas, tesouras, espadas, punhais, anéis. De bronze: tornozeleiras, pulseiras, brincos, m achados, enxós, buris, foices, achas, punhais, facas, agulhas, alfinetes, contas, panelas, sinetas. E um as peças curiosíssim as, a que se tem dado o nom e de “m arcas de identidade”. São achatadas e vazadas, com desenhos geom étricos ou de um anim al (cabrito, touro, leão, pássaro), em cuj o contorno se inscrevem signos alfabéticos, nom es próprios escritos num a língua entre o sabeu e o gueze. Assem elham -se àqueles broches de aram e que se faziam no nordeste do Brasil, com pondo com as letras do nom e de um a pessoa a form a de um anim al, de um avião, de um navio, de um polígono, de um a flor. Seriam m onogram as, um a espécie de selo pessoal. Som ados aos ex-votos em terracota (bois, j avalis, leopardos, galinhas-d’angola) que se acharam em Haúlti, revelam quão hábeis eram os anim alistas da época, ao aliar a percepção da realidade ao form alism o decorativo.
Parte desse m aterial — e anéis, brincos, contas, fios para colares e outras j oias de ouro — foi retirada de depósitos subterrâneos, de túm ulos em form a de poço, que parecem ser característicos da época. A abundância e a qualidade dos obj etos sugerem o desenvolvim ento da vida urbana no norte da Etiópia. Ainda que dependessem econom icam ente das atividades agrícolas e pastoris que se desenrolavam a seu redor, pequenas cidades com o Haúlti, Melazo, Matara e Yeha tornavam -se progressivam ente núcleos de ativo artesanato e com ércio. E cresciam .
Um a delas desenvolveu-se m ais depressa que as dem ais: Axum . Ou Aksum . Ou Aguaxum o. Ficava na parte ocidental do planalto do Tigrê, num a área de solos bem regados e de fácil acesso ao m ar Verm elho e ao Nilo. Talvez fosse a cabeça de um reino pequenino ou tão som ente — com o sugeriu Joseph W. Michels — um centro religioso, sendo quem cham avam rei, no início, apenas o líder eleito de um a espécie de federação de m icroestados. Disso discorda Stuart Munro-Hay, que dá a Axum um a dinastia que se teria im posto m ilitarm ente
sobre os outros centros de poder.12 O fato é que Axum , no início de nossa era, a todos suplantou, passando, em seguida, a expandir-se. Rapidam ente. Com um a rapidez que j á foi com parada à de Rom a, ao assum ir a ascendência sobre o
Lácio. 13 Em pouco tem po, Axum tornou-se um im portante em pório do m arfim e de outros artigos africanos. Dos altos planaltos do Tigrê, a dom inar os vales dos rios Mareb e Tacazé, os axum itas controlavam o tráfico do interior para o m ar Verm elho e interm ediavam entre o Nilo e Adúlis.
Não se sabe ao certo quando o autor do Périplo do m ar Eritreu visitou Adúlis. Julgava-se que no fim do século I ou início do II, até que se reabriram as dúvidas,
ao em purrar-se a data para cem anos m ais tarde14 ou trazer-se para a m etade do prim eiro século de nossa era. O que parece claro é que Adúlis era então um dos m ais im portantes portos do m ar Verm elho. Com efeito, o Périplo com eça por Muos Horm os, no Egito; m enciona, a seguir, Berenice; depois, Ptolom aïs, “um
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pequeno em pório” sem ancoradouro, aonde só se chegava em pequenos botes; e dali até o Bab-el-Mandeb, só cita um porto, Adúlis, e neste se dem ora.
O navegante grego (ou egípcio helenizado) inform a-nos de que ali se im portavam fazendas de algodão do Egito, m usselina da Índia, linho e outros tecidos de diferentes qualidades e origens, vidro, barras de cobre, m achados, enxós, adagas e pontas de lança de ferro, copos de bronze, obj etos de ouro e prata, azeite de oliva, algum vinho da Síria e da Itália. Dali saíam m arfim ,
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carapaças de tartaruga e cornos de rinoceronte. A três dias de viagem de
Adúlis para o interior, ficava Coloé (Matara? Kohaito?), o prim eiro m ercado de m arfim , e a cinco dias de Coloé, erguia-se a m etrópole dos axum itas, para a qual
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— assim nos diz ele — se trazia todo o m arfim obtido além do Nilo, através do
distrito de Cieneum . O Nilo do Périplo talvez fosse o rio Tacazé, e Cieneum , a
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região de Senar, no Sudão Oriental. Mas não só de tam anhas distâncias vinha o
m arfim , pois m anadas de elefantes podiam ser ocasionalm ente vistas a pastar
nos arredores de Adúlis. 19
O Périplo não refere quem seriam os m ercadores que operavam no porto. Eram possivelm ente eritreus, etíopes, egípcios, gregos, rom anos, árabes, persas, sírios, indianos e j udeus. Estes últim os talvez se apoiassem em correligionários instalados não só na costa, m as no próprio altiplano.
A herança cultural desses j udeus precocem ente estabelecidos na Etiópia teria sido preservada sobretudo pelos falachas, que viviam ao norte do lago Tana, em Begender, Sem ién e Dem bij a, e dissem inados por várias cidades da Etiópia, onde m oravam j untos em pequenos guetos, desprezados pelos cristãos, na com panhia
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dos quais não podiam com er e em cuj as casas estavam proibidos de entrar.
As tradições fazem deles um a das tribos perdidas de Israel. Ou os descendentes de um grupo de j udeus que não seguiu Moisés, viaj ando na direção oposta. Ou a progênie dos cam aradas de Menelique, o filho de Salom ão e da rainha de Sabá, que o acom panharam à Etiópia. Ou a posteridade dos j udeus que fugiram para o Egito na época do cativeiro na Babilônia. E houve quem visse neles o resultado da catequese da antiga colônia j udia de Elefantina.
O m ais provável é que j udeus e conversos ao j udaísm o tenham chegado à Etiópia vindos da Arábia do Sul. As tradições das com unidades j udaicas na Península Arábica afirm am que refugiados hebreus j á se haviam ali abrigado desde a época da destruição do prim eiro tem plo. Que chegaram em núm eros consideráveis após o ano 70, quando o segundo tem plo foi arrasado pelos rom anos, tem -se por certo. E antes de 70, deviam existir, dissem inados pela Arábia, núcleos de fiéis do m osaísm o. Tendo pouco profundas as raízes, fácil era para eles m udar de exílio, encam inhar-se para um a nova terra da prom issão. Nada m ais natural do que participarem da aventura iem enita na Eritreia e no Tigrê. Desem barcaram em pequenos grupos, com os outros im igrantes. E prosseguiram , na Etiópia, o processo, iniciado na Arábia, de conversão das populações que os cercavam . Este proselitism o fez com que o Antigo Testam ento e práticas j udaicas im pregnassem a vida etíope, talvez até m esm o antes da
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introdução do cristianism o.
Tam bém a religião m osaica possui um a história de catequese. O j udaísm o expandiu-se não apenas pela m igração dos antigos habitantes da Palestina, m as tam bém pela conversão das gentes entre as quais se fixaram , na diáspora. Foi assim na Arábia do Sul, cuj a cultura pré-islâm ica se em bebeu fortem ente de elem entos j udaicos. Foi assim no Cáucaso. Foi assim na África do Norte, sobretudo entre os berberes do sul da Tunísia e da Tripolitânia. Das cidades do Mediterrâneo, desde o Marrocos até Cirene, o credo e os costum es j udeus foram sendo adotados pelos povos vizinhos. Entre os berberes, converteram -se tribos inteiras ao m osaísm o. E lhe perm aneceram fiéis até as invasões m uçulm anas, contra as quais resistiram . Ainda no fim do século XV, havia com unidades m osaicas no interior do Magrebe, sobrevivendo, em redutos de difícil acesso, ao
cerco islam ita.22
As crenças dos falachas derivariam de um j udaísm o que parou no Pentateuco. Os que as transm itiram deviam viver isolados, na Arábia ou na própria Etiópia, desde antes do início de nossa era. Com efeito, os falachas desconhecem o Mishnah e o Talm ude babilônico e hierosolim itano, não observam o Chanucá (ou Festa das Luzes) nem usam filatérios. Possuem em gueze — pois ignoram o hebraico — livros canônicos e apócrifos do Velho Testam ento, além de outras obras curiosíssim as, com o os Mandam entos de Sabá (Tezaza Sanbat), em que o sábado j udaico é personificado num a divindade, filha de Deus e m ediadora entre
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Ele e os hom ens. Muitas dessas obras têm por fonte livros cristãos e pelo
m enos um a, A m orte de Moisés (Mota Muse), origem islâm ica, 24 o que se coaduna com o intenso sincretism o que caracteriza a fé dos falachas. Dos cristãos receberam , por exem plo, o m onasticism o. E suas práticas religiosas estão tingidas de cores pagãs, com o o dem onstra a adoração de Sabá, a quem oferecem carne, bebida e incenso.
Quer através de j udeus e de conversos, quer de iem enitas cuj as crenças sincréticas estavam penetradas de m osaísm os, tradições do Antigo Testam ento espalharam -se provavelm ente pela Etiópia m uito antes que a Bíblia ali fosse traduzida. Um a dessas tradições, que se desenvolveu, no Oriente Médio, num intrincado e rico ciclo de lendas, está na base do m ito nacional etíope, cuj a form a se im obilizou no Kebra Negast ou Glória dos reis. Esse livro tom ou form a escrita em gueze no início do século XIV, m as a história que conta, da rainha de Sabá,
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devia ter voga desde tem pos m uito antigos na Etiópia.
Narra-se no Kebra Negast — e nas telas que os artistas abexins pintam até hoj e, segundo m odelos tradicionais e dividindo o enredo em 44 quadrinhos — com o, através de um rico m ercador etíope, de nom e Tam arim , a rainha de Sabá, que vivia num a aldeia próxim a ao sítio onde se ergueria Axum , soube da sabedoria de Salom ão e com ela tanto se im pressionou, que “o am aua sem o uer, e todas as cousas q~ delle tinha ouuido lhe erão agoa a quem tem sede” — com o está na transcrição que fez da lenda, nos prim eiros anos do século XVII, o j esuíta
Pero Pais.26 Desej osa de conhecer o rei dos j udeus, a rainha partiu para Jerusalém , levando enorm e carga de riquezas. Receberam -na com pom pa e j úbilo. E lá se dem orou sete m eses, a ver as obras de Salom ão e a ouvir-lhe as palavras. Ao anunciar ao rei seu desej o de regresso, pelo coração deste passou o sentim ento de que talvez o Senhor lhe houvesse trazido dos confins da terra aquela m ulher cheia de beleza e saber a fim de que dela tivesse um filho. Convidou-a para um banquete, durante o qual lhe serviu com idas excessivam ente condim entadas. E pediu-lhe, quando ela se preparava para retirar-se, que não se fosse, que dorm isse no palácio. A rainha acedeu, m as o fez j urar que não usaria da força contra sua virtude. Salom ão prestou o j uram ento, sem pre que a rainha não tocasse, durante a noite, em nada do que a ele pertencia. Pouco faltava para com pletar-se a arm adilha. O soberano m andou pôr um a garrafa d’água no quarto da etíope. E instalou-se num leito defronte ao dela, onde fingiu dorm ir. Quando a rainha de Sabá, aflita de sede, tom ou nas m ãos a garrafa, Salom ão lhe agarrou o braço e a acusou de faltar à palavra em penhada. Vencida, a rainha cedeu. E o pintor etíope m ostra-nos os dois soberanos no m esm o leito, envoltos num a colcha carm esim com bordados de ouro. O rei sonha: um sol resplandecente, que ilum inava a terra de Israel, dela partia para a Etiópia, onde ficava para sem pre.
Do am or de Salom ão e da rainha de Sabá nasceu um m enino, que tom ou o nom e de Menelique. Ao se fazer hom em , quis conhecer o pai. A rainha m andou-o a Jerusalém e com ele o pedido de que Salom ão o sagrasse rei da Etiópia, a fim de rom per-se de vez o antigo costum e de sobre os abexins só reinarem donzelas, às quais se vedava o casam ento. Salom ão, que im ediatam ente reconhecera o filho, atendeu ao pedido e fez Menelique rei, com o nom e de David. E quando, desesperançado de retê-lo em Jerusalém , com eçou a preparar o regresso do filho à Etiópia, cham ou os grandes da terra e ordenou a cada um que lhe desse o prim ogênito, para integrar o séquito de Menelique. Os j ovens, inconform ados em deixar para trás a Arca da Aliança — a caixa de pau de cetim , revestida por dentro e por fora de puríssim o ouro, na qual se guardavam as duas pedras em que Moisés recebera os dez m andam entos —, decidiram , em segredo, roubá-la. Do plano, nada disseram a Menelique. Mas o cum priram . E em desabalada carreira, “com tanta velocidade com o se voarão”, de m odo “q~ os carros hião leuantados da terra hu~ couado e os anim ais hu~ palm o, e do sol os cobria hu~a nuvem , q~ os acom panhaua” — com o escreve Pero Pais. A viagem fazia-se entre m ilagre e m ilagre. Num só dia, sem cansaço, sede ou fom e, cum priram o percurso de treze. E os exércitos de Salom ão, que os perseguiam , tiveram de voltar, desanim ados, o grande rei tristem ente convencido de que se cum pria a vontade de Deus. Ao pôr os pés no Egito, os fugitivos descansaram . Estavam perto da Etiópia, perto das águas do rio Tacazé. E só então revelaram a Menelique que tinham com eles a Arca da Aliança. Logo depois, encontravam o “m ar dos m ares, o m ar da Eritreia”, e este os acolheu com a alegria de grandes ondas, sobre as quais passaram “seus carros aleuantados do chão no ar com o Aues”. A fuga term inara. Chegavam , felizes, às terras da Etiópia, onde, até hoj e, em cada igrej a existe um a cópia em pequeno da Arca da Aliança, o Tabot, venerado nos altares e carregado, com unção, pelos padres m onofisistas, nas procissões dos dias santos.
Quanto ao m ito, deu ele legitim idade, pelo m enos desde o início do século XIV, à m onarquia etíope. As constituições de 1931 e de 1955 o consagram , ao afirm arem que “a Dignidade Im perial ficará perpetuam ente ligada à linhagem (...) que descende sem interrupção da dinastia de Menelique I, filho da rainha da Etiópia, a rainha de Sabá, e do rei Salom ão de Jerusalém ”. Explica-se nele com o a gente da Abissínia se transform ou no verdadeiro povo de Deus, na nação escolhida, pois para lá se m oveu, no sonho de Salom ão, a divina presença, a grande luz de que o sol é m etáfora, e para lá se transferiu, pela vontade do Senhor, a Arca da Aliança.
Mil anos depois da época em que se situa essa história, era outra a fonte da legitim idade do rei de Axum . Ele se tinha por descendente direto, filho ou encarnação de Marém , o deus invencível, nos textos gregos assim ilado a Ares. Im pusera-se com o senhor incontestável sobre a sua nobreza. Fizera vassalos os reis, régulos e chefes dos povos vencidos, ou os substituíra por outros de sua confiança. Tornara-se o rei dos reis. De sua base de Axum , expandira os espaços subm etidos a seu poder e se voltara à tarefa de unificar o norte da Etiópia.
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No Périplo do m ar Eritreu afirm a-se que os litorais africanos do m ar
Verm elho, desde a terra dos m oskhophagoi (ou com edores de vitelos) até Berbera, eram governados por Zoscales, m esquinho, cúpido, m as hom em reto e versado em grego. No texto não se diz que era o soberano dos axum itas — e por
isto j á se aventou que fosse tão som ente um rei vassalo daquele, 28 a com andar as províncias costeiras, as terras que se estendiam , j unto ao m ar, de Ptolom aïs,
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ao norte, ao Bab-el-Mandeb. A tendência geral, contudo, é a de identificá-lo
com Za Hecale (ou Ze Haquile), que figura nas listas dos reis de Axum .
Que Za Hecale soubesse grego não é de se estranhar. Desde os Ptolom eus, o grego im pusera-se no m ar Verm elho com o a língua do com ércio. E continuara a predom inar no Egito rom ano. Do litoral, expandiu-se para o interior e im pôs-se na corte. De outro m odo não se explica o estarem em grego quase todas as inscrições dos prim eiros reis de Axum .
O Périplo não indica até onde iam os dom ínios do reino para o interior. Infere-se que até além do rio Tacazé.
Subm etidos os territórios que se alongavam de Axum ao litoral, o reino passara a expandir-se para oeste e para o sul. Mas não se descuidara do m ar Roxo. Pois era nele que iam desem bocar as m ercadorias que os axum itas traziam dos sertões da África, e era do controle exercido sobre os portos que o soberano de
Axum retirava grande parte de seu poder. Kobishchanov30 j á sugeriu, aliás, que o fortalecim ento do reino abexim se deveu em grande parte ao policiam ento exercido pelos axum itas contra os piratas ribeirinhos e os blêm ios, que atacavam os navios que costeavam o m ar Verm elho. Ao procurar proteger o próprio com ércio contra a pirataria, Axum atraiu as boas graças dos rom anos, cuj os interesses com os dele coincidiam . Os rom anos viram com clareza a conveniência de um estado forte no sul do m ar Verm elho, capaz de tom ar sob sua responsabilidade a segurança do tráfego m arítim o e, em últim a análise, a proteção das fronteiras do im pério naquela parte do m undo. Devem ter aj udado e apoiado Axum .
Ao com bater a pirataria, Axum consolidou seu poder sobre o litoral africano do m ar Roxo. Em breve, expandiria sua influência sobre as praias que lhe ficavam defronte.
No fim do século II, tornou-se intensa a luta pelo controle da Arábia do Sul, a envolver Sabá, Hadram aute, Catabã e Him iar. Gedara, rei de Axum , e seu filho,
Uazeba,b foram im portantes atores nessas guerras, nas quais as alianças se faziam e desfaziam , para evitar que um daqueles estados se tornasse hegem ônico. Prim eiro, os axum itas se aliaram aos him iaritas contra os sabeus e os handanitas. Depois, j untaram -se aos sabeus e ao Hadram aute contra o Him iar. Mais tarde, ao tentar conter o fortalecim ento de Sabá, de novo deram guerra a esse reino e aos him iaritas que a ele se som aram . E m ais adiante, Uazeba enredar-se-ia na contenda pelo trono de Sabá, tom ando partido por um dos pretendentes, à testa de um a grande coalizão sul-árabe.
No decorrer das lutas, Axum incorporou ao seu dom ínio parte do Iêm en e assenhorou-se do Bab-el-Mandeb. Seus territórios sul-árabes expandiam -se ou se encolhiam , conform e os azares da guerra, m as se esforçava sem pre por m anter a porta do m ar Verm elho em suas m ãos.
Se, a leste, Axum tinha de ver-se com Sabá e o Him iar, a oeste enfrentava Méroe. Os contatos entre os dois estados, o que decaía e o que se exaltava, deviam ser antigos. Os poucos obj etos m eroítas que se encontraram em Axum e os tam bém reduzidos obj etos axum itas localizados em Méroe não atestam a intensidade das relações, m as não é de crer-se que os dois reinos tivessem coexistido lado a lado, por tantos séculos, sem com ércio e conflito. Muito possivelm ente, à m edida que Axum se expandia para oeste, esbarrava com a resistência m eroíta. As respectivas rotas de com ércio devem ter-se cruzado m uitas vezes. E, quando Méroe se debilitou, os axum itas tiveram de assum ir a proteção dos cam inhos que partiam do Nilo contra as acom etidas dos nobas, ao sul, e dos blêm ios, ao norte.
Grande j á devia ser o poder de Axum no fim do século III. Ou, pelo m enos, a fam a desse poder. De outra form a, não incluiriam os Kephalaia do profeta Mani o reino de Axum entre os quatro grandes im périos do m undo, j untam ente com Rom a, a Pérsia e a China. Na verdade, Axum estava longe de om brear-se com os outros três: não passava de um poder m enor, de im portância localizada e que se fazia valer no j ogo conflituoso entre Rom a e a Pérsia. Era essa um a antiga contenda, na qual os rom anos continuavam os gregos, e os sassânidas, os aquem ênidas. Perseguiam -se os m esm os obj etivos: o dom ínio do tráfego com ercial entre a Europa e a Ásia, entre o Mediterrâneo, de um lado, e a Índia e a China, de outro, e o acesso direto, a um só tem po, à origem e ao escoadouro
das m ercadorias.31
Em bora não fosse um a potência do porte de Rom a e da Pérsia, Axum com portava-se com o tal. Tanto que com eçou, sob o reinado de um certo Endibis (ou Endubis), na segunda m etade do século III, a cunhar m oedas. De ouro, prata e bronze. Isso talvez tenha obedecido a razões de prestígio, m as é m ais provável que resultasse das exigências de um com ércio externo em grande desenvolvim ento, que se acostum ara ao dinheiro m etálico com o m eio de troca e reserva de valor, tanto assim que se encontraram , em escavações no norte da Etiópia, m oedas rom anas, sabeas e indianas dos séculos II e III.
As m oedas axum itas continham legendas em grego, idiom a corrente na corte, em bora não tão im portante quanto o gueze ou geês — o etíope antigo, de que derivam o am árico, o tigrina e o tigrê. O gueze j á se afastara m uito do sabeu. Passou a ser escrito da esquerda para a direita, ao arrepio da tradição sem ítica, talvez por influência greco-rom ana. As palavras se separaram um as das outras por um traço e, posteriorm ente, por dois pontos verticais. E, de um a grafia consonantal, chegou-se, no século IV ou V, a um verdadeiro silabário, com a anotação das vogais. Em bora se presum a a influência indiana nessa m udança do
alfabeto, 32 33 a nova escrita parece ter sido um a criação autenticam ente abexim .
De fora, dos gregos, os axum itas receberam o sistem a num érico e os principais
algarism os. 34
As m oedas tinham gravados os nom es dos reis. Por elas sabem os com o se cham avam alguns dos que exerceram o m ando no fim do século III e no início do século IV: Endibis, Afilas, Uazeba, Ousanas e Ezana.
Este últim o é o prim eiro soberano sobre o qual se conhece algum a coisa. Deve ter chegado ao poder entre 325 e 330, estendendo-se o seu reinado até por volta
de 360.35 Com o negachi, naj achi ou negus — título do m onarca axum ita —, reclam ava autoridade sobre o norte da Etiópia, sobre o Him iar, Raidã, Sabá, Salhem , Habachate, Siam o, Bej a e Casu. Sobre terras da Arábia do Sul, sobre os desertos ao norte da Eritreia, sobre Méroe e o Cuxe, caso a este se refira a palavra Casu. Méroe j á fora, com efeito, subm etido pelas arm as abexins, ou se esvaía de fraqueza. Sobre parte do Iêm en, porém , a soberania talvez fosse m ais nom inal do que real. Os reis iem enitas que o negachi tinha por vassalos não lhe contrariariam a pretensão, interessados, com o estavam , em contar com a guarda axum ita contra o expansionism o persa.
Não se sabe se Ezana com bateu na Arábia. Parece ter-se dedicado sobretudo a pacificar as regiões assoladas pelos nobas e pelos blêm ios. Forçou várias tribos blêm ias a abandonar o território por elas ocupado tradicionalm ente e as fixou próxim as de seus olhos e de sua espada, talvez em Begender (ou “terra dos bej as”), na m argem oriental do lago Tana.
Muito em bora o nom e de Ezana sej a habitualm ente vinculado ao início do cristianism o na Etiópia, ele sacrificava aos antigos deuses de sua gente. Na corte, adoravam -se as divindades trazidas da Arábia do Sul, com o Alm acá e Astar, e tam bém outras, que se im puseram na própria Abissínia: a trindade form ada por Marém , Beer e Meder. Marém era, ao m esm o tem po, o deus do céu (daí ter absorvido o sím bolo da lua crescente encim ada pelo disco solar), o deus tribal dos axum itas, o deus invencível da guerra (e por isto foi assim ilado a Ares, nas inscrições gregas), o deus da fam ília real, o pai divino do soberano de Axum e o
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deus de que o rei era a encarnação viva. Beer era o deus da terra — ou talvez
o deus do m ar.37 Meder seria outra divindade da terra, um a divindade fem inina
sem elhante à deusa-m ãe dos ritos agrários.38 A esses deuses ofereciam -se anim ais, em espécie e em efígie: cabras, ovelhas, vacas. A Marém , o m aior dos deuses, o rei dos deuses, o negachi im olava touros e seres hum anos. E lhe erguia tronos de pedra, para agradecer-lhe as vitórias m ilitares.
Estela em Axum . Etiópia (21m de altura)
O sangue hum ano — diz a tradição — era tam bém derram ado em sacrifício a um deus-serpente, Arue, que prim eiro reinou sobre a Etiópia. Este deus-serpente talvez integrasse o corpo de antigas crenças cuxitas, que continuaram vivas nas cam adas populares — crenças em espíritos benéficos e m aléficos, espíritos das fontes, dos rios, das árvores, das m ontanhas.
Generalizada, ao que parece, era a fé na vida após a m orte. Corte e plebe cultuavam os ancestrais. Tinham -se por lugar sagrado as sepulturas dos reis, e em honra dos soberanos e dos chefes m ortos talvez se erguessem as altas estelas que se espalham pelo norte da Etiópia.
Algum as não passam de pedras debastadas, pontudas, tendo na base um altar com um a espécie de bacia, para conter o sangue ou o vinho dos sacrifícios. Outras eram cuidadosam ente trabalhadas, apresentando as faces lisas e o topo em form a de arco. Outras podiam conter inscrições e m ostrar, com o a de Matara, no topo arredondado, o disco a encim ar o crescente. Outras, enfim , eram profusas e rigorosam ente ornam entadas, a sim ular, com exagero no núm ero de andares, os edifícios esguios de vários pavim entos e num erosas j anelas, que ainda se veem na Arábia do Sul.
As m ais altas e as m ais bem talhadas das grandes estelas encontravam -se na cidade de Axum . De um a plataform a m onum ental subiam sete enorm es obeliscos, dos quais só um continuou de pé. Este tem 21m de altura. Na base, m ostra um a porta falsa, com im itação de aldraba e fechadura. E, para cim a, apresenta m ais nove andares, m arcados por saliências cilíndricas, a reproduzirem o que seria a ponta das vigas de sustentação dos assoalhos, e pelas j anelas. O que m ais im pressiona nessa estela — e tam bém na que os italianos, em 1937, levantaram do solo onde estava caída e colocaram em Rom a, na Piazza di Porta Capena, m as devolveram à Etiópia em 1998 — é sua leve verticalidade. De estreita espessura, m al se afina a cam inho do céu. Parece um a adaga de ponta arredondada.
Ignora-se qual o significado dessas altas e delgadas lâm inas de pedra a arrem edar edifícios. Se eram m onum entos funerários, ligados ao culto dos ancestrais ou do rei divinizado, podiam representar a m orada dos m ortos.
Tam pouco se sabe para que serviria a enorm e laj e, sustentada por grossos pilares, que fica ali próxim a. Dá-se a esta espécie de m esa gigantesca o nom e de Nefas Mawcha. Pesa cerca de duzentas toneladas. E tem 17,3m de com prim ento por 6,5m de largura e por m ais de um m etro de espessura. Cedeu terra adentro, quando sobre ela caiu a m aior de todas as estelas — um a estela com 33,5m de altura, 13 andares e 750 toneladas, provavelm ente o m aior bloco de pedra j am ais
cortado, esculpido e posto de pé no m undo antigo.39
Neville Chittick, 40 após escavações que efetuou na cidade de Axum , sugeriu que Nefas Mawcha fosse um túm ulo. Um túm ulo a m ais na rede de catacum bas por ele descoberta sob as estelas gigantes. E à qual acrescentaria, na im ediata vizinhança, o que cham ou de Sepulcro da Falsa Porta, um a tum ba subterrânea escavada no granito e ligada a um a estrutura acim a do chão, a representar um tem plo ou um palácio.
Tudo isso im plicava grande conhecim ento das técnicas de cortar e trabalhar as rochas duras: o basalto azulado, o basalto negro, o granito, os m árm ores branco e verde. Havia que arrancar das pedreiras m onólitos im ensos, de várias centenas de toneladas, e depois transportá-los até o local onde seriam levantados. Da qualidade com que se esculpia a pedra, dá testem unho, no século VI, um m ercador de Alexandria, Cosm as, apelidado Indicopleustes, ao descrever, na sua Topografia cristã, um trono talhado num único bloco de excelente m árm ore
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branco. Cosm as viu o trono, ao lado de um a estela, em Adúlis. O padre
Francisco Álvares veria, m il anos depois, vários deles, j unto à igrej a de Santa Maria de Sion (a Mariam -Tsion dos etíopes), na cidade de Axum . Ali, sobre “poiais de cantaria m ui bem lavrada” — para usar as palavras da Verdadeira
inform ação das terras do Preste João das Índias 42 — “estão 12 cadeiras de pedra, tão bem -feitas com o se fossem de pau, com seus assentos e estâncias dos pés”. Disseram ao padre que nelas se sentavam os 12 j uízes que serviam ao rei. Mas a tradição sustenta que apenas dez se destinavam aos j uízes, cabendo um a ao bispo ou abuná e outra ao próprio soberano. Nesses tronos, de que hoj e só restam os socos de pedra inteiriça, tom ariam , pois, assento o rei e o conselho de notáveis m encionado nas lendas. Ou tinham eles uso m ais alto do que o hum ano? Estariam reservados aos deuses, com o os que se consagravam a Marém , após as grandes vitórias?
Aos hom ens pertenciam os palácios a que se dão os nom es de Enda Sem on, Taakha Mariam e Enda Michael. Deles, pouco m ais subsiste além dos alicerces, a revelarem , dentro de um quadrado, num erosas habitações. Enda Sem on tinha 35m de lado; Enda Michael, 27m ; Taakha Mariam , 120 x 80m .
Tronos, catacum bas, as altas estelas e esses três grandes palácios datariam dos
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séculos III e V. O norte da Abissínia com eçava, por essa época, a pontuar-se
de outras religiões que não a de herança sabeia. Com o aum ento da im portância de suas rotas África adentro e de seus portos no grande arco do com ércio a distância que se alongava do Suez até a China, m ercadores, m arinheiros, artesãos, soldados e escravos foram trazendo para a costa e para o altiplano os cultos às divindades egípcias, greco-rom anas, persas e bram ânicas, e a Jeová, e a Mitra, e a Buda. Trouxeram tam bém — e de bem perto, do outro lado do m ar Verm elho — um sincretism o de crenças pagãs com um m onoteísm o indefinido. Nesse sincretism o, que se desenvolvera num a Arábia tom ada por forte inquietação religiosa, as tradições bíblicas ocupavam im portante lugar.
A dissem inação, nos m eios urbanos e nas classes nobres tingidas de helenism o, de um sentir m onoteísta, ainda que vago, e das histórias do Antigo Testam ento, em bora adulteradas, deve ter facilitado o avanço do cristianism o e contribuído para diluir a oposição à nova crença.
Já devia haver alguns cristãos na Etiópia — gregos, egípcios, árabes, levantinos — ao com eçar o século IV. Se não os houvesse, não faria sentido a história que
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Rufino, um m onge rom ano, ouviu da boca de Edésio, em Tiro. Este contou-lhe
que partira, m eninote, daquela cidade, em com panhia de seu irm ão m ais velho,
Frum êncio, c com destino à Índia — possivelm ente à Índia Menor, nom e que então se dava ao sul da Arábia. Quando o navio em que viaj avam foi abastecer-se d’água num a enseada do m ar Verm elho, viu-se atacado pelos nativos, que a todos m ataram , m enos os dois rapazes, vendidos com o escravos ao rei de Axum . Ali, ganharam a confiança do soberano, que fez Edésio seu escanção e Frum êncio tesoureiro e encarregado da correspondência. Ao m orrer o rei, os dois irm ãos foram alforriados, m as a rainha, regente, lhes pediu que perm anecessem na corte, a fim de auxiliá-la na adm inistração do país e na educação dos príncipes. Frum êncio com eçou a procurar cristãos com o eles, entre os m ercadores estrangeiros que frequentavam a corte, para, j untos, erguerem igrej as e difundirem a fé. Ao atingir o príncipe herdeiro a m aioridade, os dois irm ãos deixaram a Etiópia. Edésio tornou-se presbítero da Igrej a de Tiro. Frum êncio foi ter a Alexandria, onde, após inform ar o eparca Atanásio do favor em que era recebido o cristianism o pela fam ília real de Axum , pediu-lhe que indicasse um bispo para a Etiópia. Atanásio resolveu consagrar o próprio Frum êncio, e este regressou à Abissínia por volta de 330. Diz a tradição que, ao retornar, ele batizou o rei e a fam ília real.
Ainda que só bem m ais tarde iniciassem a tarefa de aglutinação e catequese, é provável que tenham Frum êncio e Edésio, desde a chegada à corte de Axum , ali encontrado alguns poucos cristãos. De outro m odo, seria difícil explicar-se com o dois rapazolas separados de seu m undo perm aneceram fiéis ao Cristo e guardaram a doutrina que haviam aprendido em Tiro. Frum êncio, que ganhara a confiança do rei e, depois, da regente, pôde organizar os cristãos num a com unidade, num a igrej a. E iniciar a evangelização. De início, entre os estrangeiros. Mais tarde, entre a própria gente de Axum , j á tocada pelas ideias m onoteístas.
Não houve, ao que parece, da parte da rainha, de seu filho, Ezana, ou da nobreza, hostilidade ao proselitism o contido e discreto de Frum êncio. A fé cristã ganhara prestígio depois que Constantino a fizera a religião do Im pério Rom ano. Por sua vez, o centro de poder do Im pério deslocara-se para o Mediterrâneo oriental, com a fundação, em 330, de Constantinopla, a Nova Rom a, na m argem norte do estreito de Bósforo. É lógico supor-se que o soberano axum ita, desej oso de garantir sua posição de poder no sul do m ar Verm elho, am eaçada pelos persas e seus aliados árabes, procurasse não se indispor com os rom anos, que favoreciam os cristãos.
Daí a converter-se e a batizar-se há um a boa distância. Assim tam bém entre a tradição e a realidade. Nos livros antigos e na iconografia etíope, Frum êncio
figura frequentem ente ao lado de um rei, Abrá,d e de um irm ão gêm eo deste,
e
Asbá, com o os responsáveis pela introdução do cristianism o na Etiópia. As duas últim as personagens não aparecem , porém , num a só inscrição ou m oeda da
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época. Com o, curiosam ente, Ezana e seu irm ão Sezana não figuram nas listas tradicionais dos reis. É possível que, j á então, tal com o sucederia m ais tarde, os reis m udassem várias vezes de nom e: tinham um na infância, outro ao subir ao trono e podiam , depois, escolher ainda outros, para com em orar algum feito ou
m arcar um a passagem especial em suas vidas. Assim , diz-nos Pero Pais,45 o rei de seu tem po, “tendo por nom e de bautism o Suseñeos, q dizem he~ de hu m artir, quando o j urarão por Em perador, se cham ou Malâc Çaguêd; e agora se cham a Seltân Çaguêd, q quer dizer o poder adoura, ou faz reuerencia”. Abrá e Asbá poderiam ser, assim , nom es sim bólicos, significando, respectivam ente, “o que
fez a luz” e “o que trouxe o am anhecer”. 46
Identificam -se Abrá com Ezana e Asbá com Sezana. Mas nem o rei nem seu irm ão devem ter-se apressado em se revelar publicam ente cristãos. Nas inscrições que deixou na pedra, Ezana celebra Marém e lhe agradece as vitórias. Era de Marém que defluía sua legitim idade. Abj urá-lo, antes de corte e povo terem sido conquistados pela nova fé, era um ato político im pensável. Não se exclui, contudo, que Ezana j á tivesse aderido ao cristianism o, quando de um
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episódio que narra o eparca Atanásio em sua Apologia.
O im perador rom ano Constâncio II aderira à doutrina de Ário, que negava a unidade e a consubstancialidade das três pessoas da Santíssim a Trindade. Atanásio, que se opunha ao arianism o, passou a sofrer a hostilidade do im perador. Este o dem itiu das funções e com eçou a perseguir os seus sequazes. Um deles era Frum êncio. Por isso, Constâncio II escreveu um a carta ao rei Ezana e a Sezana, a pedir-lhes, um tanto desabusadam ente, que m andassem Frum êncio de volta ao Egito. Na m issiva, o im perador afirm a que os serm ões “blasfem os” de Frum êncio corrom piam o clero de Axum e contam inavam o seu povo, e prom etia um novo bispo, naturalm ente ariano.
O rei de Axum fez olhos cegos à carta de Constâncio. E fechou os ouvidos à em baixada que, sob a chefia do bispo Teófilo Indúsio, lhe trouxera novas palavras do im perador. Caso acreditasse em Cristo, Ezana seria m onofisista. E, se ainda não se havia convertido, não tinha por que tom ar partido nas querelas cristãs. Alta, porém , era a sua estim a por Frum êncio, a quem os abissínios até hoj e
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cham am Abá Salam á, o “Pai da Paz”. Ou o “Revelador da Luz”.
O im perador não escreveria aos reis de Axum , se não contasse o cristianism o com um considerável núm ero de adeptos na Etiópia. Tanto assim , que j á no fim
do século IV eram num erosos os que dali peregrinavam até Jerusalém .49 Isso não significa, contudo, que o cristianism o tivesse conquistado o povo. Devia continuar a ser um credo de estrangeiros e estrangeirados, fossem nobres ou escravos. E talvez gozasse de m enor aceitação que o m onoteísm o sincrético que se desenvolvera na Arábia, a j untar j udaísm o, cristianism o, m aniqueísm o, m itraísm o e outras crenças. Os próprios reis de Axum talvez tenham aderido àquele credo sincrético, antes de se renderem à fé cristã.
Na fam osa inscrição de Ezana sobre a cam panha em Méroe contra os nobas, invoca-se “o Senhor do Céu e da Terra, a Perfeição, que reina por toda a eternidade”. É a ele que o rei deve a vitória, e não m ais a Marém , a m enos que o deus invocado correspondesse a um a nova concepção, na qual o “senhor dos céus” axum ita se confundia com o do sincretism o árabe. É possível, porém , que o Senhor do Céu e da Terra fosse o deus cristão, e o texto, propositadam ente dúbio, a fim de não despertar conflitos religiosos. Esses escrúpulos, com o tem po, apagaram -se. Tanto que as m oedas de Ezana, a partir de certo m om ento, passaram a exibir a cruz, a atestar a conversão do rei.
Para alguns, 50 o Ezana que louvou na pedra o Deus único, após ter reverenciado Marém , e que pôs em seu dinheiro o sinal da cruz, não seria o m esm o Ezana que conhecera Frum êncio, m as um outro rei de igual nom e, separado do prim eiro por três, quatro ou cinco soberanos. A ser isso verdade, a adoção oficial do cristianism o pelo rei axum ita só se teria dado na segunda m etade ou no fim do século V. Cem anos ou m ais após as canseiras de Frum êncio.
Stuart Munro-Hay 51 rebateu essa tese, com fortes argum entos num ism áticos. As diferenças em peso, conteúdo de ouro e tipo de inscrições entre as m oedas de Ezana e as da segunda m etade do século V afastam a possibilidade de que tenha ele vivido naquela época. As m oedas de ouro que trazem gravado o nom e de Ezana com o disco a encim ar o crescente e algum as das que m ostram a cruz tinham o m esm o peso, a seguir o padrão m onetário rom ano-bizantino. Outras, todas com o sím bolo cristão, apresentam peso m enor, acom panhando, assim , a reform a m onetária rom ana de 324, quando Constantino, o Grande, instituiu o solidus de ouro puro. Essa m udança no peso da m oeda etíope, som ada à consistência com que Axum seguiu o padrão rom ano-bizantino, indicaria que a conversão pública de Ezanas se verificou em m eados do século IV, dando razão à história tradicional.
Ao fazer seu o Deus dos cristãos, Ezana transform ou o cristianism o na religião oficial da Etiópia. A fé continuara restrita, no entanto, à cidade de Axum e aos centros populacionais ao longo das rotas caravaneiras. A conversão am pla do norte da Etiópia dar-se-ia som ente com a chegada, lá para o fim do século V ou início do VI, de grupos de m issionários sírios — dos quais os m ais fam osos foram Abá Meta, os Justos e os Nove Santos.
Julga-se geralm ente que esses religiosos vieram ter à Abissínia para fugir das perseguições desatadas contra os m onofisistas após o concílio de Calcedônia, em 451. Pois eram m onofisistas — adeptos da doutrina segundo a qual em Jesus havia apenas um a natureza, a divina, um a vez que esta absorvera a hum ana. Talvez tenham vindo diretam ente da Síria. Talvez vivessem na Arábia do Sul e tenham ali escapado, quando das aflições por que passou o cristianism o, durante
o reinado de Du Nouas. g52 53 Mas há quem prefira ver no advento dos m issio-nários sírios um a iniciativa do próprio m onarca de Axum , interessado na evangelização com o força unificadora do reino.
Diz-se dos Nove Santos que introduziram na Etiópia a liturgia e a m úsica religiosa e traduziram para o gueze os Livros Sagrados. É possível que Frum êncio
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j á tivesse iniciado a tarefa de verter a Bíblia para o etíope antigo, m as seria
com os Nove Santos que os Testam entos tom ariam form a em gueze, a partir de originais gregos e sírios, em vez de alexandrinos. As traduções retêm textos apócrifos que não m ais existem com pletos no original, com o o Livro de Enoch, a Ascensão de Isaías e o Apocalipse de Esdras.
Os m issionários sírios espalharam -se pelo norte da Etiópia. Onde havia um tem plo dedicado aos deuses tradicionais puseram um santuário cristão, adaptando o antigo edifício ou sobre ele construindo um novo. A vida ascética por eles levada teve profundo im pacto j unto às populações rurais e lhes apressou a conversão.
Criaram -se vários m osteiros. A Abá Meta atribui-se a fundação de Debra
Líbanos. A Apa Miguel Aragaui,h o m ais fam oso dos Nove Santos, o estabelecim ento, num dos altos de Axum , de Debra Dam o, a que deu um a regra baseada na de São Pacôm io. Apesar disto, o m onasticism o etíope vai ser
m arcado pelo m odelo sírio, em vez de pelo copta.55
Desde essa época, o m osteiro com o que predom ina na estrutura da igrej a abexim . Mas é possível que o fascínio pela caridade por m eio da oração e do sacrifício individual, no silêncio e no isolam ento, tenha precedido a chegada de Abá Meta, dos Justos e dos Nove Santos. Nada m ais natural, pois a conversão da Etiópia coincide com o instante histórico em que m ais alto se tinham os exem plos dos ascetas, tanto em sua form a solitária — exaltada por Santo Antônio —, quanto na com unitária — instituída por São Pacôm io. E vizinhas da Etiópia ficavam as terras do Egito, da Síria, da Arábia e da Ásia Menor, onde m ais era intensa a voga do ascetism o.
A tradição põe nos tem pos do rei Ezana e seu irm ão Sezana num erosas igrej as, cavadas ou recortadas na pedra, existentes no Tigrê. E situa nos reinados de
Calebei j 56 e de Gebra Mascal várias outras. Retratam elas — bem com o as que continuariam a ali construir-se, em idêntico estilo ou de fisionom ia sem elhante, durante m ais de um m ilênio — a m esm a prevalência da m editação ascética sobre as obras no m undo, com o m eio de atingir-se a salvação. E exprim em certa m aneira de ser e adorar que é bem de Bizâncio e dos ritos cristãos orientais, cuj os m onastérios e igrej as procuram altear-se da terra e afastar-se do com um da vida.
Assim com o os anacoretas, as velhas igrej as de Tigrê vão ocultar-se em cavernas, no m ais longe das m ontanhas. E com o os estilitas a em poleirar-se no alto das colunas, colocam -se na proa dos penhascos. Nisto seguiam tam bém um a tradição local, pois os tem plos dos pagãos etíopes situavam -se geralm ente em lugares elevados. Quase todas essas velhas igrej as são de difícil acesso e isoladas das aldeias. Algum as só podem ser atingidas após dura escalada. E noutras sobe-se por escadas de corda, lançadas de portais abertos na rocha.
Tal com o ocorre nas m ais antigas igrej as urbanas da Etiópia — nas quais avultam as influências da arquitetura do Mediterrâneo oriental, a form a de basílica e, algum as vezes, a abside sem icircular —, nos tem plos e cenóbios do Tigrê aparece clara a m esm a linha de tradição que fez escavar na pedra as m oradas dos hom ens e dos deuses, em toda a área do Oriente Médio, e que deixou, entre outros exem plos igualm ente fam osos, Petra, na Jordânia, e Gorem e, na Capadócia.
Algum as poucas igrej as ou refúgios de m onges do Tigrê resultam da am pliação de cavernas preexistentes. Em vários casos, recortaram -se, no fundo da cova, absides e abóbadas, arcos e pilares. Outras igrej as foram escavadas na parede da m ontanha ou num a grande saliência de rocha, tendo, no interior, o aspecto, a um só tem po m onum ental e recolhido, de um tem plo rom ânico europeu. Um terceiro tipo traz em si as prom essas do que viriam a ser as assom brosas igrej as de Lalibela. Nos tem plos desse tipo, três dos lados proj etam -se para fora da m ontanha de que foram recortados, tal qual um a igrej a com o fundo colado na penha. E, finalm ente, há casos em que se com binam o corte, o escavar e o desbaste da pedra com a construção corriqueira. Partes do tem plo são lavradas na rocha, e certas paredes são edificadas à m aneira tradicional axum ita: vigas de m adeira alternando com cam adas de pedra.
De m adeira e de pedra — a m adeira a form ar a gaiola da casa, a com por a m oldura das portas e das j anelas, a sustentar os tetos e a form ar os assoalhos, e as pedras, j á então cim entadas entre si por argam assa, a encher as paredes — os axum itas foram construindo as cidades e as vilas com que iam consolidando o seu poder e o expandindo para o sul e o sudoeste, para além das nascentes do rio Tacazé e para o lago Tana, na direção do Nilo Azul. No século VI, pelo que narra
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Cosm as Indicopleustes, j á havia um governador axum ita para os agôs, na
região entre Tigrê e o Tana, encarregado de velar pela grande viagem anual de m ercadores, que, enquadrados por funcionários do rei, dem andavam o sudoeste,
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com gado em pé e barras de sal e de ferro, para trocar pelo ouro de Sassu, um a região localizada possivelm ente no Nilo Azul.
Essa era um a das pontas da grande rede com ercial axum ita. Outras ficavam na Pérsia, no Ceilão, no norte da Índia, na Núbia, no país dos blêm ios, onde — isto nos diz Cosm as — os axum itas adquiriam esm eraldas para vender aos indianos. Levavam -nas provavelm ente, com outras m ercadorias, em seus próprios navios até a Índia. Em navios que um contem porâneo de Cosm as, Procópio Cesarense, descrevia com o feitos de pranchas am arradas com cordas, sem uso de pregos para firm á-las ou de piche para vedar-lhes as frestas. Tais barcos não deviam suportar cargas pesadas, m as tinham condições de fazer
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longas viagens.
Esse com ércio era essencialm ente de artigos de luxo, cuj o alto valor com pensava o transporte a distância. Em Axum , devia ser m onopólio do rei, negócio de estado, apanágio da nobreza. O poder do soberano tinha nele um dos seus assentos, e outros nos seus incontáveis rebanhos e na num erosa escravaria. Certa atividade m ercantil estava m ais ao serviço do com um das gentes: a que se fazia em torno do sal, que vinha do deserto da Dancália, das barras e utensílios de ferro, dos tecidos rudes, da cerâm ica, dos alim entos.
Rico era o rei. E rica tornara-se a aristocracia. Cosm as Indicopleustes conta que viu na Etiópia um palácio de quatro torres. Devia apoiar-se sobre um a base robusta, que lhe aum entava a altura e realçava a im ponência. Não teria, contudo, m ais de dois ou, quando m uito, três andares, pois a espessura dos m uros e a sim ples argam assa de argila que lhes ligava as pedras não suportariam um m aior
núm ero de pavim entos. 59 A im pressão de quem o visse era de força e grandeza, com as paredes em cam adas, a alternarem horizontalm ente reentrâncias e saliências, e com as pontas de m uitas das grossas vigas de m adeira que com punham o arcabouço do prédio a sobressaírem do m uro, contrastando vigorosam ente com os blocos de pedra.
A m ansão ou castelo de Dongour, no lim ite ocidental da cidade de Axum , em bora date de um século após a viagem de Cosm as, m ostra com o seria a
residência de um alto m em bro da nobreza etíope.60 As construções ocupam um quadrilátero irregular com um a área de três m il m etros quadrados. Alguns restos de paredes chegam a cinco m etros de altura. O edifício teria m ais de quarenta salas e pátios internos, em torno de um pavilhão central, com sete com partim entos, a que se tinha acesso por três escadarias.
Crê-se que Cosm as Indicopleustes esteve na Etiópia quando ali reinava Calebe.
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Por volta de 520 — arrisca Jean Leclant. Entre as duas cam panhas m ilitares
axum itas contra o rei j udeu de Him iar, Du Nouas.
No século IV, Axum perdera o controle sobre grande parte do Iêm en. Em 370,
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o rei him iarita Assad Abucaribe converteu-se ao j udaísm o. E vinculou-se às tribos árabo-j udaicas dos oásis do Hij az e aos j udeus da Síria e da Mesopotâm ia. Sua conversão não deixava de ter um sentido político: unia-se aos aliados da Pérsia contra Bizâncio, identificado com os cristãos. Ele e alguns de seus sucessores não se consideravam vassalos do negachi e se deram à tarefa de unificar o Iêm en e de estender seu poder sobre a Arábia Central. Pouco a pouco, tornaram -se rivais de Axum com o interm ediários no com ércio a distância e com o potência política e m ilitar na área.
Se havia intensas rivalidades religiosas entre cristãos m onofisistas, cristãos ortodoxos, cristãos nestorianos, j udeus, m onoteístas sincréticos e pagãos, o conflito perm anente entre Constantinopla e a Pérsia só os acentuava. Os j udeus alinharam com os persas; e os cristãos, excetuados os nestorianos, com os bizantinos. Para estes, o controle do m ar Verm elho, ou pelo m enos o livre acesso às suas águas, era essencial, posto que os sassânidas lhes haviam fechado a rota da Índia pelo golfo Pérsico e pelo Tigre e o Eufrates. Se Bizâncio, para atingir esse obj etivo, se apoiava em Axum , o Him iar buscou pactar com os sassânidas. O conflito religioso deu substância espiritual e agudizou o choque de interesses entre axum itas e him iaritas.
Em 517, subiu ao trono do Him iar um novo rei: Du Nouas. Substituía ele um soberano de quem se diz ter sido cristão e protegido de Axum . E inverteu-lhe a política. De form a drástica. Passou a interceptar o tráfico entre Constantinopla e Axum , a dificultar a vida dos com erciantes bizantinos e abexins, a perseguir os iem enitas de fé cristã. Sobretudo os m onofisistas, que identificava com Axum .
Diante da crescente hostilidade, Tom ás, bispo m onofisista de Naj ran, foi ter a Axum , queixar-se ao rei abissínio. Este não dem orou em reagir. Seus exércitos atravessaram o m ar, deram com bate a um Du Nouas surpreso e talvez ainda pouco firm e no poder, e lhe infligiram um a derrota que só não foi com pleta porque o him iarita logrou refugiar-se nas m ontanhas.
Vitoriosos, os axum itas regressaram à pátria, deixando no Iêm en algum as tropas de ocupação. E m uito cam po livre a Du Nouas, que se pôs a explorar com habilidade o desconforto dos pagãos, dos sincretistas e dos nestorianos, diante da suprem acia m onofisista e do dom ínio de Axum . A correlação de forças m udou-se em seu favor e ele disto extraiu im ediata vantagem . Cercou Zafar, onde estacionava o m aior núm ero de soldados abexins. E lhes propôs que saíssem honrosam ente da cidade e em barcassem de volta à Etiópia. Os que cederam à em baixada foram trucidados à traição, durante a noite. Os que perm aneceram na cidade viram -se encerrados num a igrej a e queim aram com ela.
Algum as áreas do Iêm en não aderiram a Du Nouas e continuaram a lhe opor resistência. Assim Muhvan, com o porto de Moha ou Muza. Assim Asharan, j unto ao Bab-el-Mandeb. Assim , a cidade de Naj ran. Du Nouas deu-lhes im piedoso com bate. Em Naj ran, m assacrou os m onofisistas — para escândalo e revolta dos cristãos do Oriente. E estendeu, feroz, a perseguição religiosa ao Hadram aute, a Marib, ao Haj arã. Num erosos cristãos fugiram da Arábia do Sul. Muitos foram ter à Etiópia.
Desta feita, os abexins não reagiram com presteza. Talvez porque estivessem envolvidos num a guerra intestina — quem sabe se nas lutas pela sucessão das
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quais em ergiu, com o rei, Calebe? Neste caso, a cam panha de 517 teria sido
em preendida não por ele, m as por seu pai, Tazena.63 Sej a. De qualquer form a, os anos não apagavam a indignação cristã nem o interesse de Constantinopla em afastar de cena Du Nouas.
O patriarca de Alexandria pressiona Calebe a vingar os m ártires cristãos. Justino I, im perador de Bizâncio, propõe-lhe um a ação m ilitar conj unta. Os refugiados iem enitas reúnem -se e, sob o com ando de um aristocrata de grande
prestígio, Sum afa Axua, m põem -se à disposição do rei abexim . Calebe j unta um num eroso exército e apresta a esquadra que o transportaria ao outro lado do m ar Verm elho. Bizâncio m anda-lhe navios, a m aioria dos setenta barcos utilizados na invasão. Esta só se daria por volta de 520.
Um ano antes, os exilados iem enitas sob as ordens de Sum afa Axua haviam partido dos litorais etíopes e desem barcado no sul do Him iar, onde ocuparam um a fortaleza na m ontanha e com eçaram a receber o apoio das populações m ais próxim as. Os soldados que Du Nouas enviou para fazer face a esse foco de rebelião não conseguiram debelá-la. Mas fizeram falta na costa, quando as forças de Calebe desem barcaram .
Foi curta a cam panha. Logo num dos prim eiros em bates, à beira-m ar, um soldado axum ita m atou o rei Du Nouas e, para disto fazer prova, lhe cortou a cabeça. Daí por diante, as tropas etíopes pouca resistência encontraram . Viram -se rapidam ente senhoras de toda a Arábia do Sul.
Antes de voltar a Axum , para — assim diz a tradição — recolher-se a um m osteiro e nele term inar piedosam ente os seus dias, Calebe procurou reorganizar a igrej a e o estado iem enitas. Restaurou e reconstruiu tem plos. Colocou cristãos em todas as posições de m ando. Fez rei Sum afa Axua, em bora na posição de vassalo e constrangido por um poder paralelo — o conselho form ado pelos chefes das tropas axum itas sediadas na Arábia do Sul.
Axum reassum ia, assim , o controle de am bas as m argens do sul do m ar Verm elho. O que talvez explique as duas m issões diplom áticas — se é que foram duas e não apenas um a — enviadas pelo im perador Justiniano, o Grande, a Calebe, em torno de 531. Um dos em baixadores cham ava-se Juliano; o outro,
Nono ou Nonosus. Da viagem deste últim o, há ressonâncias em Gibbon.64
O em issário im perial — conta-nos Gibbon — desem barcou em Adúlis e gastou 15 dias para chegar, através de tortuosos desfiladeiros, a Axum . No cam inho, viu quinhentos elefantes selvagens. A capital era grande e populosa, e nela havia altos obeliscos. O rei abexim recebeu-o ao ar livre, sentado num a carruagem puxada por quatro elefantes e rodeado de nobres e m úsicos. Vestia linho e trazia nas m ãos um leve escudo e duas azagaias. Usava abundantes colares e braceletes de ouro, com pérolas e pedras preciosas. Nono entregou a Calebe um a carta de Justiniano, com a proposta de um a aliança m ilitar contra os persas e um proj eto de desvio da rota da seda, segundo o qual os axum itas tentariam adquirir aquele produto diretam ente da Índia, trazendo-o em seus barcos, pelo m ar Verm elho, até os m ercados de Bizâncio. Lida a m ensagem , Calebe, a m ostrar sua aceitação do pacto com Justiniano, brandiu as arm as e anunciou guerra im placável aos sassânidas.
Ficou nas am eaças — acrescenta Gibbon. Os axum itas não atravessarão os desertos para dar guerra aos persas. Nem o plano de diversão do tráfico da seda se realizará, pois, a essa altura, os iranianos j á se tinham estabelecido nos principais portos frequentados pelos m ercadores da Índia, onde lhes com pravam toda a carga que traziam , e com eçavam a se assenhorear do com ércio a
distância no Índico Ocidental. Kobishchanov65 sugeriu ter o rei axum ita tentado cum prir o com prom isso assum ido com Bizâncio, enviando agentes ao sul da Índia e ao Ceilão. Estes teriam regressado convencidos da inutilidade do esforço.
Não só Axum e Constantinopla deixaram de unir-se m ilitarm ente, num a ofensiva contra os sassânidas, com o seus interesses nem sem pre coincidiram . Axum não desej ava rom per com a Pérsia, nem que esta o tivesse com o inim igo, em bora lhe cortasse o acesso pelo m ar Verm elho à retaguarda dos dom ínios bizantinos. Ao im perador rom ano do Oriente não convinha, por sua vez, que Axum se fortalecesse m ais do que devido, nem que detivesse por m uito tem po o com pleto controle da entrada do m ar Roxo.
Daí ter Bizâncio tentado atrair Sum afa Axua para sua esfera de influência. Este, porém , foi, entre 525 e 535, derrotado por um etíope, Abrá, que não se sabe bem quem era — se antigo escravo de um m ercador de Adúlis, se sim ples soldado, se com andante de tropas, se o m ais prestigioso dos chefes m ilitares abexins, ou se parente do negus ou seu representante no Iêm en.
Abrá ocupa o trono e desfaz os dois esforços m ilitares axum itas para corrigir a usurpação. Consolida-se no poder. E entende-se com Bizâncio. Para afastar-se de Axum , abj ura o m onofisism o e adota o cristianism o ortodoxo, favorecido por Constantinopla. Não se desliga, entretanto, de todos os vínculos com a Etiópia: continuará a considerar-se vassalo do sucessor de Calebe, Gebra Mascal, ainda que apenas nom inalm ente. Tornara-se de fato o rei do Him iar e tentará expandir seus dom ínios e sua esfera de influência sobre o resto da Arábia. Ao que parece, com o apoio ou a com placência bizantina.
Abrá m orre, por volta de 558. Ou bem antes. Um neto de Sum afa Axua, de
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nom e Saife, disputa o trono aos filhos do usurpador e recorre aos persas. Estes não deixam escapar a oportunidade. Intervêm no conflito e colocam Saife no poder. Os colonos etíopes, que apoiavam os filhos de Abrá, inconform ados, revoltam -se e m atam o neto de Sum afa. De novo m anda a casa de Abrá. Mas não por m uito tem po, pois, antes de term inar o século, as tropas sassânidas ocupam todo o sul da Arábia e o incorporam ao im pério do padixá. Axum a tudo assiste sem m over-se. Talvez por saber quão infrutíferas tinham sido as vitórias de Calebe. Talvez por se haver resignado a ser apenas um poder africano. Talvez por não se sentir com forças para opor-se à m áquina m ilitar iraniana.
Quando Abrá procurou estender os seus dom ínios na Arábia, conduziu um a expedição contra Meca. É possível que os bizantinos o tenham em purrado nesse rum o. Ou que o tenha m ovido o desej o de, conquistando Meca, onde estava a Caaba, transform ar Saná, com sua catedral, no m ais im portante centro religioso da península.
Era num eroso o exército de Abrá — diz a tradição. E nele ia um elefante, que o rei m ontava, ou, provavelm ente, m uitos desses anim ais, que os axum itas haviam aprendido, talvez com Méroe, a treinar para a guerra. Ao chegarem as tropas à vizinhança de Meca, o paquiderm e que levava o rei aj oelhou-se e não m ais quis m over-se. Vieram , então, bandos de pássaros e lançaram sobre os soldados invasores m ilhares de pedras certeiras, que os reduziram — lê-se na sura CV do Alcorão — a “ervas m astigadas”.
Os m uçulm anos cham am “Ano do Elefante” àquele em que se deu a investida de Abrá contra Meca. No m esm o ano, dizem (sem tom ar em conta os lustros que separariam os dois fatos), nasceu Maom é.