A Enxada e a Lança
11. Mali
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Mali
Várias das antigas rotas transaarianas iam ter ao cotovelo do Níger. Ali, logo a j usante do lugar onde o rio subitam ente abandona a direção nordeste e im bica para o sul, erguer-se-ia Gao. E de Gao alcançava-se com facilidade, para o ocidente, Gana e Tacrur; para o oriente, seguindo a linha dos paralelos, Takedda, com suas m inas de cobre e sal, e Bilm a, de onde se extraía a pedra-um e. De Bilm a, ganhava-se o Fezzan; e do Air, o lago Chade.
Por todos esses roteiros, cedo com eçaram negros e berberes a transportar para m ercados distantes o ouro, a pim enta-m alagueta, o âm bar, o alúm en, o sal, o cobre, as tâm aras, os tecidos, os artefatos de couro. E cavalos, que frequentem ente se perm utavam por escravos.
Tudo isso se vendia e com prava onde hoj e é Gao e onde os pastores vinham trocar suas reses pelo grão cultivado no banco direito do Níger e no leito do uede Tilensi, que desem boca na m argem esquerda do longo rio. Os berberes trariam tam bém os rebanhos a beber e pastar nos ribeiros, igarapés e alagados que se m ultiplicam na curva do Níger e nos quais cresce, com abundância, um capim aquático, o borgu.
Já devia haver na área num erosos vilarej os agrícolas e alguns pequenos em pórios do com ércio transaariano — ou, quando m enos, estações de repouso das cáfilas, onde se perm utavam cereais pelas barras de sal —, quando os sorcos ou bozos com eçaram a rem ar rio acim a, desde a região de Dendi, na fronteira da Nigéria com a República do Benim .
Barqueiros hábeis, vivendo da pesca e dos recursos do rio, os sorcos foram , pouco a pouco, graças à m obilidade de suas pirogas, assenhoreando-se das
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com unidades de agricultores (os dás ou dôs) e de caçadores (ou gôs), estabelecidas às m argens do Níger. O poder daqueles senhores das águas aum entou enorm em ente depois que atingiram a região de Bentia, ao norte de Tillabéry, onde abundavam os hipopótam os, aos quais os sorcos davam m orte com seus arpões. A área, até o lago Debo, era então bastante m ais propícia do que hoj e à agricultura, produzindo colheitas que não deixariam de tentar os aguerridos canoeiros.
Em breve, os recém -vindos, da posição de senhores, m isturavam -se com os vassalos dás e gôs. E davam origem ao conj unto de povos que se conhece sob o
nom e de songai. b1 É a isto que alude a lenda, quando diz que os pescadores, os lavradores e os caçadores reconheceram a autoridade de um chefe com um , Farã Maca Botê. Farã era o nom e de um dos principais clãs dos sorcos, o outro cham ando-se Fono.
É possível que, j á no século VII, esse chefe, traço de união entre o divino e o hum ano, vivesse em Cuquia, logo acim a das cataratas de Labezenga. Ali, o deserto praticam ente tocava a m argem do rio e eram intensos os contatos entre os songais e os nôm ades berberes. E do com ércio, da interação e do conflito entre grupos tão distintos podem ter surgido os estím ulos — tal com o sucedeu em Gana — para o desenvolvim ento de um a estrutura política m ais forte e m ais coesa.
Essa transform ação está ligada a um a nova dinastia, a dos Zás ou Diás. Narra-se que dois irm ãos de origem árabe vieram ter a Cuquia, onde o m ais velho, Zá
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Alaiam ã, m atou um dragão fluvial, que aterrorizava os songais e lhes im punha leis odiosas. Graças a isso, o estrangeiro foi alçado ao poder.
Para alguns, Zá Alaiam ã pertenceria à diáspora de Méroe, de que fala Al-Masudi. Para outros, o seu nom e seria um a adulteração da frase árabe “o que
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veio do Iêm en”. Maurice Delafosse o crê um berbere lenta. Mais verossím il é supor-se que Alaiam ã pertencesse a um a outra linhagem sorca, que destruiu, pela força das arm as, a que detinha o m ando. Sintom aticam ente, é com um arpão — o instrum ento por excelência dos sorcos — que ele m ata o anim al m ítico.
A ascensão da dinastia Zá verificou-se entre os séculos VIII e IX, na m esm a época em que Gao se afirm ava com o im portante entreposto do com ércio transaariano.
A cidade talvez tenha com eçado a desenvolver-se no banco esquerdo do Níger, próxim o ao local onde a este se une o vale relativam ente verde do uede Tilensi, um cam inho m enos duro pelo Saara adentro. Por ele se chegava às m ontanhas do Adrar dos Iforas e a Tadm ekka, o grande m ercado do deserto, nó das pistas caravaneiras que vinculavam o Níger ao Magrebe, à Líbia e ao Egito. Tadm ekka
era para Gao o m esm o que Audagoste para Gana. 4
As m ercadorias vindas do norte ou do leste passavam , em Gao, dos cam elos para as pirogas dos sorcos, que m onopolizavam os transportes ao longo do Níger e expandiam a zona de influência songai rio abaixo e rio acim a. De suseranos de agricultores e caçadores, os Zás tornaram -se chefes de um rico em pório e de vasta rede m ercantil, por onde passavam o ouro, o sal e o cobre.
Pronto a corte transferiu-se de Cuquia para um a nova cidade, na m argem direita do Níger, bem em frente a Gao, a fim de m elhor controlar o com ércio a distância. Mas Cuquia não perdeu inteiram ente as prerrogativas de capital. Ali os reis continuaram a ser investidos, com todos os ritos tradicionais.
Os im périos do Mali e de Songai
No início do século XI, Gao designava, na realidade, duas cidades. Da m esm a form a que Gana. Na m argem esquerda do rio ficava a vila dos m ercadores, onde eram num erosos os m uçulm anos. Na m argem direita, a do zá.
Este vivia provavelm ente sem irrecluso em seu palácio. Usava, com o a nobreza e os m ercadores, túnica e turbante — um turbante talvez parecido ao dos tuaregues, isto é, a envolver-lhe tam bém o queixo e a lhe ocultar a parte baixa do rosto. O povo cobria a nudez com tangas de pano ou de couro.
Por essa altura, as canoas, feitas de frágeis troncos de palm eiras, com eçaram a ter com o rivais, no com ércio e na guerra, os cam elos e os cavalos. Estes últim os eram m ontados em pelo, o que lhes reduzia a eficiência nas batalhas, em bora perm itisse que fossem ágeis os exércitos songais. Ao saírem da beira-rio para ganhar o Sael e as savanas, os canoeiros voltaram -se rapidam ente em destros ginetes.
Outras m udanças se faziam , sob o influxo do com ércio. A m ais im portante, sem dúvida, a conversão ao islam ism o de grande parte das classes dirigentes de Gao. Conversão autêntica, em m uitos casos. Apenas superficial ou de conveniência, para m elhor exercício das atividades m ercantis, em outros.
Do início do século XI, dataria a adesão do Zá Cossoí,d o 15° de sua dinastia,
ao credo de Maom é. 5 As tradições o apontam com o um verdadeiro devoto, m as é possível que alguns de seus sucessores fossem m uçulm anos apenas de aparência e se conservassem fiéis às antigas crenças e ritos, ou as m isturassem aos preceitos do Alcorão. Do povo, sabe-se que por m uito tem po perm aneceu
irredutivelm ente anim ista. 6
De qualquer m odo, o país songai ligou-se ao m undo do islão. Não só ao Magrebe, m as tam bém à Andaluzia. Diz-se, por exem plo, que o califa om íada de Córdoba enviava um exem plar do Alcorão a cada rei que assum ia o poder em Gao. E foram m ãos andaluzas as que gravaram algum as das estelas tum ulares, com palavras em árabe, encontradas, em 1939, em Sané, a 6km de Gao. Nelas leem -se epitáfios de reis e outros m em bros da fam ília real, m ortos entre 1100 e
1265.7 Os reis de Gao teriam sido, assim , dos prim eiros soberanos negros a se fazerem islam itas, nisto talvez se antecipando até m esm o a Tacrur.
A form ação deste últim o estado, que ocupava am bas as m argens de parte do
baixo e do m édio Senegal, deve datar dos prim eiros séculos da era cristã. 8 Ficava num a zona de contato não só entre o deserto e a savana, m as tam bém entre o litoral atlântico e o interior. Suas pirogas desciam o rio e depois subiam a costa, em busca do âm bar cinzento, da gom a de acácia e do sal. Iam até Aulil, no Trarza. De regresso, os barqueiros vendiam , rio acim a, o sal. E com pravam ouro. Ouro, escravos, gom a, âm bar, lã, cobre, contas — eis algum as das m ercadorias que alim entavam o com ércio com as cáfilas cam eleiras que, pela rota do Atlântico ou pela de Audagoste e Azogui, vinculavam o Tacrur ao Marrocos. Outros cam inhos, ao longo do Sael, o uniam a Gana e ao Níger.
No Tacrur, cultivavam -se os m ilhos m iúdos. E criava-se gado. Talvez aí pela m etade do século IX, essas atividades j á estivessem divididas entre os dois povos
que com punham o reino: os sereres,e agricultores sedentários que form ariam a
base dos tucolores, 9 e os pastores nôm ades, possivelm ente fulas. A m enos que os
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tucolores fossem tam bém fulas que se sedentarizaram e se m esclaram aos povos que j á viviam no m édio e baixo Senegal, ou que os fulas fossem o
resultado do casam ento entre berberes e tucolores. 11
Os fulas falam o m esm o idiom a, aparentado ao serere e ao j alofo, que os tucolores. Podem ser citadinos ou nôm ades. Neste últim o caso, criadores de gado, procuram preservar sua identidade, ao viver entre gente agrícola. Distinguem -se dos outros habitantes da África Ocidental por serem , de regra, m ais esguios, de cor entre averm elhada e negra, e apresentarem lábios pouco grossos, narizes aquilinos e cabelos m enos encaracolados. É possível que tenham vindo do Saara — e costum a-se apontar a sem elhança de seus penteados em crista com os que se veem , em figuras de hom ens associados à criação de bovinos, nas pinturas rupestres do grande deserto.
Por volta do século XI, talvez para escapar do controle de Tacrur, os fulas com eçaram a dispersar-se pelas cam pinas sudanesas, sem perder a independência e as características que lhes são próprias. No século XV, m uitos deles se instalaram nas m ontanhas do Futa Jalom e na região de Macina, no delta interior do Níger, onde se constituíram em poder político. Não interrom peram , porém , o avanço terra afora, que os levou até o planalto de Adam aua. De então para cá, se alguns se urbanizaram e outros se fizeram senhores de im périos e de grandes e pequenos reinos, a m aioria continua a cuidar de seu gado e a levá-lo de um a pastagem a outra, ao longo da am pla faixa do Sael e das bordas da savana, desde o Senegal até os Cam arões.
Fulas ou berberes podem ter sido os forasteiros que, segundo a tradição, fundaram a prim eira dinastia do Tacrur, a de Diáogo. Ela reinou provavelm ente nos últim os séculos do prim eiro m ilênio de nossa era e foi derrocada, antes que esse term inasse, pelos Manas, um a fam ília pertencente, ao que consta, ao clã que governava o estado vizinho de Diara.
Essa linhagem soninquê m anteve-se senhora de Tacrur durante trezentos anos.
A ela pertencia possivelm ente Uar-Jabe ibn Rabis f tido com o o prim eiro rei tucolor a converter-se ao islam ism o, na terceira ou quarta década do século XI, antes, portanto, da eclosão alm orávida. Esse soberano cum pria com tal fervor e zelo seus deveres de islam ita, que, cedo, a m aior parte de seus súditos acolheu Maom é. O islão, no Tacrur, não adm itia, ao que parece, m aiores concessões aos
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credos tradicionais. Era m ilitante. Im punha-se pela pregação ou pela força.
Com erciantes ativos, os tucolores estenderam rapidam ente um a rede de entrepostos, nos quais exerciam a catequese. E, ao m esm o tem po que procuravam controlar o tráfico do ouro, davam guerra aos m andingas, para com os prisioneiros abastecer de escravos as caravanas m agrebinas.
Manufaturavam o couro e talvez o algodão. Qual a gente da cidade de Taranca, ao sul do m édio Senegal (ou Futa Toro), onde, j á no século XI, em cada
casa havia um algodoeiro. 13 É possível que a planta lhes tenha vindo do
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Magrebe, ou do Sudão, ou da Etiópia e do Egito. Com a fibra, tecia-se, em
Taranca, um a fazenda grossa, m uito apreciada, que Al-Bakri conheceu com o shaggiuy y a–t ou chiguía e que talvez fosse a m esm a alchezeli que Cadam osto encontrou no Senegal, no século XV, a m esm a chige com prada por Barth, em
Tom buctu, quatrocentos anos depois. 16
Desde m uito, Tacrur se transform ara em im portante alternativa aos m ercados de Gana, para as cáfilas do ouro. O espocar do m ovim ento alm orávida deu-lhe ainda m aior realce. Os m uçulm anos tucolores cedo se aliaram aos sequazes de Abdula ibn Yasin, não só por fervor religioso, m as tam bém pelo interesse em destruir o inim igo com um , Gana. Já em 1056, o rei Labi ou Laba, filho de Uar-
Jabe, acom panhava com suas tropas as do em ir Yahia ibn Om ar,17 na cam panha contra os insubm issos j udalas, da qual saíram alm orávidas e tucolores derrotados.
O fim do século XI e a centúria seguinte m arcariam a expansão de Tacrur. As fronteiras do reino seriam levadas até Barisa, im portante centro distribuidor de ouro e que pertencera à esfera de influência de Gana. A cidade-estado de Sila tam bém se viu obrigada a suj eitar-se a Tacrur.
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Na m etade do século XII, Al-Idrisi descreve o rei de Tacrur com o um sultão
poderoso, conhecido por sua firm eza, severidade e espírito de j ustiça. Diz, do país, que era seguro e tranquilo, e, de sua capital, que era um im portante centro m ercantil, aonde vinham ter com erciantes de Marrocos, com lã, cobre e contas de vidro.
Mas não só Tacrur crescia, possivelm ente em detrim ento de Gana. Outros estados afirm avam -se e expandiam -se no Sudão Ocidental. Com o Diafunu, que se dilatou para o norte, a expensas dos azenegues e destes adotou a cultura. Ou com o Sosso, que, ao invés, refugou o islam ism o e reagiu contra os m odos de vida dos nôm ades do deserto.
Os sossos, segundo os relatos tradicionais, viviam originalm ente na região m ontanhosa de Kulikoro, ao norte da atual Bam ako. Diariso cham ava-se a prim eira dinastia que sobre eles reinou. No século XII, quando os sossos j á haviam deixado de ser vassalos de Gana, essa estirpe foi substituída no poder por
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um clã de ferreiros, os Cantes. Estes j untaram Kaniaga aos antigos territórios dos sossos e, de um a base m ais am pla, com eçaram a expandir-se pela zona de influência de Gana e tam bém a dom inar, um a após outra, as chefias m andingas ou m alinquês. Essa política im perial alcançou o seu ápice e recebeu o seu castigo durante o reinado de Sum anguru Cante, fam oso, nas lendas, não apenas por sua crueldade e por seu poderio m ilitar, m as tam bém por ser um grande feiticeiro e por haver inventado a m arim ba e o dan, um a viola de quatro cordas usada pelos griots, dieli ou bardos que recitam a história e a transm item através das
gerações. 19 Teria sido Sum anguru Cante quem , em 1203 ou 1204, pilhou a capital de Gana e praticam ente a expeliu da história.
As conquistas sulistas dos sossos têm m aior im portância. Porque revelam um deslocam ento do Sael para a savana do centro econôm ico e político do Sudão Ocidental. Por isto devem ter sido responsáveis a desordem criada, no Sael, pelas contínuas e im previsíveis arrem etidas dos berberes e a deterioração das pastagens e cam pos de lavouras, que se seguiu às guerras alm orávidas. Um outro fato terá sido, porém , decisivo: o relativo esgotam ento das m inas de ouro de Bam buk, que perderam a prim azia para as de Buré, m ais a sudeste, no alto Níger. Com a m udança das fontes do ouro, estenderam -se para o sul as rotas com erciais
que ligavam o Sudão ao Magrebe. 20
Na expansão para o sul, os sossos tiveram de haver-se tanto com grupos de estrutura ainda frouxa e de frágil poder (e que serviram de reserva de escravos para Gana, Tacrur e outros estados da orla do Saara) quanto com organism os políticos m ais sólidos. Uns e outros eram m andês. E entre eles, no planalto entre o
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alto Senegal e o alto Níger, Al-Bakri, no século XI, só distinguiu dois reinos, Dô
e Malel.
Talvez este Malel — para Al-Idrisi 22 um a cidade-estado — j á fosse o Mali. E sugeriu-se que Dô — para Al-Bakri um extenso reino — correspondesse ao
estado sosso.23 O núcleo dos sossos não ficaria ao norte de Bam ako, m as, sim , na área onde os encontraram os europeus: no alto Níger e no Futa Jalom . Se assim foi, em vez de descer o m apa, eles se expandiram para o norte, até Gana.
Muitos outros m icroestados deviam existir na área e escaparam aos autores árabes. A necessidade de proteger os roteiros do ouro, o aum ento do com ércio e o contato com o m aom etanism o contribuíram provavelm ente para desenvolver os m ecanism os de m ando. Grupos de vilarej os achegados passaram a se vincular no que hoj e se cham a kafu e a reconhecer a autoridade religiosa e política de um chefe, o m ansa, senhor da terra e da chuva, liam e entre sua gente e o divino. A cada chefia corresponde, na tradição, um clã nobre dos m andingas, com o o
Traoré, o Câm ara, o Conate, o Queita. h
Ao clã dos Queitas pertenciam os sucessivos chefes de um pequeno conj unto de aldeotas, próxim o à confluência do rio Sancarani com o Níger. Reclam avam eles com o ancestral Bilali Bunam a, o com panheiro negro de Maom é e o prim eiro alm uadem do islão, que teria vindo de Meca e se estabelecido no país m andinga. Dizem as tradições que seu neto estabeleceu a dinastia. Esse neto,
i
Latal Calabi, pode ter sido a prim eira personagem da lista de chefes queitas a
pertencer à história e não m ais à lenda.24
Do filho de Latal Calabi, Lailatul Calabi,j conta-se ter sido o prim eiro chefe a fazer a peregrinação a Meca — o que indicaria a precoce islam ização da área.
De seu bisneto, Nam adi Cani,k diz-se que era um grande caçador e que se tornou
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rei de um grande país, a estender-se desde o Sancarani até Buré. Isto, no fim
do século XI ou início do século XII.
Os Queitas seriam possivelm ente líderes de sociedades secretas de caçadores, de hom ens acostum ados ao trato das arm as, afeitos ao desafio do perigo, treinados para enfrentar, na perseguição dos anim ais selvagens, privações e fadigas, habituados a tom ar decisões rápidas e a enfrentar a m orte. Unidos por um culto esotérico, a solidariedade entre eles sobrepunha-se às de clã, linhagem e condição social. Acreditava-se que os caçadores se com unicavam com os espíritos da floresta, que tinham poder sobrenatural sobre os anim ais, que conheciam as ervas que curavam ferim entos e doenças. Eram eles que forneciam a carne em épocas de penúria e protegiam as aldeias contra as arm as inim igas.
Foi possivelm ente nas associações de caçadores que os Queitas — com o se conta na história de Nam adi Cani — recrutaram a base de seus exércitos. Devem , além disso, ter-se aproveitado da vizinhança das m inas de Buré para, através do com ércio e dos tributos de passagem , se fortalecerem e am pliarem o núm ero de vilarej os e de pessoas que os reconheciam com o m ansa.
No início do século XIII, quando os sossos am pliavam a conquista dos territórios m alinquês, o m ansa queita cham ava-se Naré Fam agã e tinha entre
seus filhos — de acordo com a história oral 26 — um aleij adinho. Curado m ilagrosam ente com a aj uda de um ferreiro, o m enino, de nom e Sundiata ou
Mari-Jata,l transform ou-se num grande caçador, atraindo sobre si o ciúm e e o
m edo de seu irm ão, Dancarã-Tum a, m que sucedera ao pai na chefia. Para escapar ao irm ão, Sundiata fugiu com um grupo de sequazes (talvez m em bros da associação de caçadores de que era m estre) para Mem a, um pequeno estado soninquê, que algum as lendas dizem ter sido fundado, no delta interior do Níger,
ao sudoeste de Tom buctu, por um chefe dos escravos reais de Gana.29 Em Mem a, Sundiata destacou-se com o soldado. E de Mem a, pode ter participado, com seus hom ens, das hostilidades contra os invasores sossos, iniciadas pelo clã dos Câm aras, na m argem direita do Níger.
Sum angaru Cante ia, porém , levando de vencida os m ansas m andingas. Derrota Dancarã-Tum a. Massacra os Queitas, de cuj a fam ília Sundiata é o único sobrevivente. A este, então, seu povo o cham a. E ele, com seus seguidores, reforçados pela cavalaria que lhe cede o rei de Mem a, regressa ao Sancarani. Suas tropas engrossam -se, ao aproxim ar-se da terra natal, com novos contingentes m andingas.
Sundiata com eça a bater os sossos. E lhes inflige a grande derrota em Quirina, ao norte da m oderna Bam ako, por volta de 1230.
Essa batalha é apresentada, nas sagas m andingas, com o um a pelej a entre dois grandes m agos. Sundiata teria tido a vantagem de saber que Sum anguru era invulnerável às arm as de ferro, m as não ao esporão de um galo branco, e, graças a isto, pôde vencê-lo.
Enquanto dava com bate aos sossos, Sundiata ia reunindo sob o m esm o m ando os vários clãs m alinquês. A unidade de chefia e a concentração de forças devem ter sido, aliás, as razões de êxito dos m andingas — e isto reconheceram os seus chefes, os quais, após a vitória de Quirina, se reuniram em Curucã Fuga, para selar fidelidade ao Sundiata, com o rei dos reis, e traçar as norm as que regeriam a nova organização política.
Cada um desses chefes continuou a exercer o governo local, m as todos cederam o título de m ansa — ou m andim ansa — a quem na guerra os com andara. A Mem a, o aliado saracolê, concedeu-se um estatuto especial. O seu rei terá tam bém direito de ser cham ado m ansa e seus dom ínios m anterão a autonom ia dentro do im pério que se com eçava a criar. O do Mali.
Batidos em novos com bates, os sossos se refugiaram no Futa Jalom ,
espalhando-se m ais tarde pelas costas da Guiné. 30 Mas quem sabe se, em vez de em igrar para a periferia do que fora o seu im pério, não se recolheram eles às terras de onde tinham com eçado a expandir-se?
Nas m ãos do Mali fica todo o antigo im pério de Gana (exceto o extrem o setentrional, controlado pelos berberes), e o país sosso, e as águas do alto Níger, do Gâm bia, do Senegal e dos rios que lhe são tributários, e tam bém a Casam ansa, e ainda Bam buk e Buré. Pela prim eira vez, um m esm o poder dom ina os m ananciais do ouro, os portos caravaneiros do Sael e os cam inhos que levam de uns aos outros.
Diz a tradição que Sundiata transferiu-se, em seguida, para a sua nova capital,
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Mani, talvez a m esm a cidade que Ibn Batuta visitou, no século XIV, e a que
cham ou Mali. Mas onde ficava essa Mali de Sundiata e de Ibn Batuta? Não se sabe. Houve quem sugerisse que à m argem esquerda do Níger, a m eia distância
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entre Segu e Niam ina, e quem propusesse que deveria esconder-se sob a atual
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Niani, no rio Sancarani. Esta é a localização m ais favorecida, em bora se
avente tam bém que pudesse situar-se m ais ao norte, na confluência do Sancarani
com o Níger, 34 35 ou entre Bam ako e Niam ina, ou em algum ponto à m argem
direita do alto Gâm bia. 36 É possível que tenha havido m uitas Malis, antes e depois, um vez que a capital do reino era onde o m ansa estivesse vivendo no m om ento, de m odo que a cidade de Ibn Batuta pode não ter sido aquela que serviu de m orada ao Sundiata, quando da luta pela unificação m andinga. Essa
Mali ficaria na região do Kri, no alto Koba, e teria por nom e Dacalaj ã.n Nela, segundo os bardos m andês, Sundiata passou a infância e foi para lá que retornou,
após o exílio.37
As pesquisas arqueológicas realizadas em Niani não esclareceram a questão, em bora ali se tenham encontrado restos de um a cidade com o a descrita por Al-
Um ari, 38 na prim eira m etade do século XIV: esparram ada, sem m uros e sem construções de pedra, com casas de barro cobertas de palha. Mas essa devia ser a econom ia de todas as cidades do im pério m andinga e não apenas a de sua capital.
Sundiata m orreu ferido acidentalm ente por um a flecha ou, conform e outra
versão, afogado no rio Sancarani. Sucedeu-lhe o filho, Mansa Uli, o que devia ser, ao m enos superficialm ente, m uçulm ano, pois fez a peregrinação a Meca, quando no Egito reinava o m am eluco Baibars (1260-1277).
O islão j á tinha, havia m ais de cem anos, boas raízes entre os m andingas. Mas, em bora Sundiata pertencesse a um a linhagem que adotara o m aom etanism o e com andasse m uitos m oslins, a im agem que dele nos dão os bardos m alinquês é a de um rei m ágico, que retirava sua força da natureza e dos antepassados, um hom em estreitam ente ligado à religião de seu povo.
Já se propôs que Sundiata tivesse nascido islam ita e se reconvertido às crenças tradicionais durante o exílio em Mem a. Com essas crenças, teria guerreado os sossos. Obtida a vitória, ele aparece, porém , conform e as tradições orais, vestido de m uçulm ano, na conferência de Curucã Fuga, pois teria retornado ao islam ism o, pelo m enos nas form as exteriores de com portam ento, para não m ais ser visto com o chefe e sacerdote de um grupo, m as com o o soberano de um a confederação de estados. O islão não estava, com o as religiões tradicionais,
ligado a um a nação, a um grupo, a um clã: era universal.39
A viagem a Meca de Mansa Uli pode ter-lhe sido ditada por exigência de um a profunda fé. Ou ter sido m ero expediente político, para estabelecer m elhor diálogo com os estados m uçulm anos do outro lado do Saara e para am pliar seu prestígio entre os islam itas do Mali. E não só entre esses, pois tanto os m aom etanos quanto os pagãos acreditavam que a estada em Meca fortalecia o baraca, o poder propiciatório do rei, sua capacidade de influir favoravelm ente sobre a terra e sobre o clim a, sobre as colheitas e sobre o gado, sobre a fertilidade das m ulheres e o bem -estar do povo.
Foi possivelm ente durante o reinado de Uli que os m andingas tiraram a
independência a Gao, reduzindo-a à vassalagem . 40 Ualata, Tom buctu e Jenné passaram ao controle do Mali, assim com o parte das rotas que conduziam ao Tuate, às j azidas de sal de Tagaza e às m inas de cobre de Tadm ekka.
Mansa Uli teve um sucessor m edíocre, seu irm ão Uati;p e este, herdeiro ainda pior, um outro irm ão, Califa, que — conform e nos conta Ibn Khaldun, a quem
devem os a genealogia dos m ansas e um a breve história do reino do Mali 41 — se divertia a atirar flechas contra os súditos — o que talvez signifique: a enfeitiçá-los. Acabou deposto e m orto por um a revolta popular.
Ao trono subiu, por breve tem po, Abu Bacre, q neto do Sundiata por um a de suas filhas. Deve ter chegado ao poder graças aos funcionários e guardas da corte, entre os quais havia m uitos escravos e libertos.
Nesse período, provavelm ente nos tem pos de Califa, dois príncipes, Ali Colom
r
e Salm ã Nari, que, forçados, viviam j untos ao m ansa, com o reféns e com andantes de tropas, conseguiram escapar de toda vigilância e fugiram para Gao, cuj a soberania restauraram . Pouco depois, contudo, Gao era reconquistada
s
para o Mali por Sacura, um liberto da fam ília real, que usurpara o poder dos Queitas.
Sacura revelou-se um grande soberano. Restabeleceu a ordem interna. Vergou as tentativas de secessão. E novam ente am pliou os dom ínios e a esfera de influência do Mali.
A ele atribui-se o ter avassalado o rei soninquê de Diara, um estado vizinho e rival de Tacrur, no Sael. Durante os séculos XII e XIII, Diara resistira ao expansionism o tucolor e acabara por prevalecer sobre o antigo adversário. Talvez este j á lhe estivesse subordinado, quando Diara se incorporou ao im pério do Mali. É possível, contudo, que tenha sido com o tributário do m ansa que o rei de Diara se im pôs ao Tacrur.
Com todos os grandes portos caravaneiros do Sael sob seu controle, desde a foz do Senegal até o cotovelo do Níger, Sacura j ulgou-se suficientem ente firm e no poder para fazer a peregrinação a Meca, em busca talvez do reconhecim ento religioso ou político de um a legitim idade que não lhe dava o sangue. Partiu. Visitou o Cairo. Fez suas orações na cidade sagrada. Mas foi assassinado, quando vinha de regresso, por nôm ades do Saara.
O poder retornou à linhagem tradicional, com Mansa Gao ou Cu,t filho de Uli, neto do Sundiata. Depois, foi rei Muham ed.
Talvez tenha sido Muham ed o soberano do Mali que intuiu ser possível chegar à outra m argem do oceano e pressentiu que as águas salgadas que banhavam as costas de seu im pério deviam term inar noutras praias. Sonhou a Am érica, portanto, a ser verdadeira a história. Quis saber, para usar as palavras do canto VIII de Os Lusíadas, “que fim tinham (os m ares) e onde estavam as derradeiras praias que lavavam ”.
Aprestou esse m ansa duzentas pirogas e as fez ao m ar. Só um a voltou, para dizer com o as dem ais tinham sido sorvidas pela correnteza. Inconform ado, m andou preparar um a frota de duas m il canoas, a m etade das quais com água e provisões. E partiu ele próprio num a delas. Nada m ais se soube da expedição. Desprovidas dos flutuadores que davam estabilidade às em barcações indonésias, as canoas do Mali tinham inevitavelm ente de perder-se no alto-m ar.
Antes do em barque, o rei transferiu o poder a Mansa Musa, filho ou neto de
Abu Bacre, e foi Musa quem , anos depois, no Cairo, narrou essa aventura.u
As estadas de Musa na capital egípcia, a cam inho de Meca e de regresso da viagem devota, puseram o seu nom e e o de seu país na boca de todo o m undo árabe e espalharam sua fam a até m esm o na Europa. Ele esteve no Cairo em 1324, e j á em 1339 o Rex Melli aparece no m apa-m úndi do m aiorquino Angelino Dulcert — vestido à europeia, com cetro e coroa. Com cetro e coroa, e longas barbas encarapinhadas, tendo na m ão direita um a grande pepita de ouro, que parece m ostrar e oferecer a um azenegue a cam elo, ele está desenhado no m apa que Abraão Cresques, tam bém de Maiorca, fez, por volta de 1375, o cham ado Atlas Catalão de Carlos V da França.
Sua fam a era a de um rei riquíssim o, a do senhor do ouro. Construiu-a a insensatez com que esbanj ou m ais de um a tonelada desse m etal no Cairo, na cidade santa e ao longo da rota entre o Mali e Meca.
Mansa Musa preparara m eticulosam ente a sua peregrinação. Deve ter levantado tributos especiais do im pério, em m antim entos, cavalos, drom edários e ouro. Quando teve tudo disposto, pôs-se em m archa, acom panhado por m ilhares de pessoas — grandes da corte, soldados, escravos — e com cem cam elos aj ouj ados de m etal am arelo.
Ao aproxim ar-se do Cairo, o m ansa enviou, com o presente, a anunciar sua chegada, cinquenta m il dinares (cada dinar teria quatro gram as de ouro) ao sultão Al-Malik al-Nasir. Entrou depois na cidade, solenem ente, m ontado a cavalo, precedido por quinhentos escravos, cada um deles com um bastão de ouro.
No Cairo dem orou-se três m eses. Distribuiu presentes. Deu incontáveis esm olas. Com praram , ele e seu séquito, tudo o que os deslum brava nos m ercados cairotas, onde foram sistem aticam ente enganados pelos vendedores, que lhes cobravam quatro ou cinco vezes o que valiam os artigos. De tal form a foi o derram e de ouro, que o m etal se desvalorizou, durante m uitos anos, no Oriente
Próxim o, em relação à prata.43
De volta dos lugares santos, novam ente no Cairo, os m andingas continuaram a gastar. O m ansa endividou-se, alguns dos credores o acom panhando ao Mali, para recolher o que lhes era devido.
Musa era senhor de um extenso im pério, cuj a prosperidade e bem -estar ficavam m uito aquém , contudo, do que sugeria a sua pródiga ostentação. O ouro que levara provinha possivelm ente dos arm azéns onde ele e seus antecessores haviam acum ulado os tributos das regiões auríferas e os im postos derivados do com ércio a distância.
Esse com ércio era essencial ao estado, à corte, ao rei. Pouco ou nada influía, entretanto, na vida sim ples das populações. Com as taxas do tráfico de ouro, cobre, sal, escravos, tecidos, m arfim , tâm aras, âm bar, peles, plum as, noz-de-cola e alúm en, o m ansa com prava no Magrebe os cavalos necessários aos seus exércitos, adquiria os tecidos e os outros artigos de luxo com que presenteava a aristocracia arm ada e os chefes vassalos, e dava, com pom pa e prodigalidade, provas de seu poder.
Enquanto isso, quase todos os seus súditos — fossem eles m andês, tucolores, saracolês, bam baras, j alofos ou songais — viviam em vilarej os, em casebres de barro socado, a cultivar o m ilhete, o sorgo e o arroz, sem outro auxílio que não o da vara de furar ou o da enxada curta; a cuidar dos bois, das cabras, dos cam elos; a pescar nos rios e nas praias do m ar; a tecer o algodão e a lã; a fazer cestas, potes, obj etos de m adeira e couro; a fundir o ferro em pequenos fornos. Do tráfico transaariano só se beneficiava do sal, que lhe era indispensável. O com ércio que lhe interessava era o que fazia chegar o peixe seco e os cereais às regiões que não os produziam .
A própria capital só diferiria das aldeias pela sua extensão, pelo palácio do rei, tam bém de argila socada, pelas m esquitas e pelo m ercado. Ali o islam e era a religião predom inante e a gente andava vestida. No resto do im pério, o m aom etanism o era em geral credo de poucos — da nobreza, dos com erciantes, de algum as com unidades que haviam abandonado de vez as crenças tradicionais e deixado de fazer sacrifícios aos deuses da natureza e aos antepassados.
Onde o islão se im pusera, chegaram os turbantes e os longos cam isolões à m arroquina. E, com seu uso, a tecelagem da lã e do algodão. Nas outras partes do im pério, a nudez cobria-se com sim ples tanga de couro.
As cáfilas traziam do Mediterrâneo os artigos de luxo e alguns com erciantes, letrados e doutores da fé, que em breve se adaptavam ao novo m eio am biente. Pelo Mali não se difundiam nem as ideias, nem a arte, nem as técnicas, nem os costum es florescentes no Magrebe e no Egito. As novidades ficavam restritas a dim inutas elites, nos grandes centros urbanos.
Até m esm o as novas arm as, os novos usos bélicos, indispensáveis ao crescim ento do poderio de um im pério essencialm ente m ilitar, dem oravam a atingir o Mali. A sela — usada pela cham ada cultura balana, da Núbia, desde o século IV — e o estribo — conhecido pelos árabes, que o tom aram dos persas, desde o fim do século VII — só têm seu uso com provado, no Sudão Ocidental, no
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início do Trezentos. Justam ente no Mali. Ao com eçar a ser em pregada pelos
m andingas, a sela com estribos teria causado um a verdadeira revolução na arte da guerra, na África Ocidental.
Com a sela e os estribos, vieram outras técnicas de luta, com preendendo as cargas pesadas, com ginetes arm ados de lanças longas e de espadas, e protegidos por capacetes de ferro e cotas de m alha. Os anim ais, pouco m aiores do que pôneis, que se criavam no Sudão Ocidental, não tinham a robustez nem a altura que as novas táticas exigiam . Redobraram -se, por isso, as im portações de corcéis do norte da África e talvez de Dongola e do Egito.
As com pras de cavalos no outro lado do deserto deviam ser consideráveis.
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Nelas se gastavam im portantes som as — avisa Al-Um ari, e estim a em dez m il
hom ens a cavalaria m ansa.
Esta cavalaria, com binada com o grande núm ero e a precisão de seus arqueiros, deu ao Mali um a considerável vantagem sobre os vizinhos — quando m enos a de lhes ditar as regras dentro das quais tinham doravante de com bater. Os arqueiros disparavam em m assa as flechas, abrindo o ataque, e depois a cavalaria se lançava sobre as fileiras inim igas. No Mali, ao que parece, havia tam bém arqueiros m ontados a cavalo.
É bem verdade que o cavalo j á devia ter, desde a época do Sundiata, grande im portância m ilitar para os m andingas. Era utilizado, porém , para dar m aior m obilidade aos soldados, para perseguir e aprisionar adversários, para que de seus dorsos se arrem essassem azagaias. Com o advento da sela de estribos, os m alinquês puderam introduzir nas batalhas a carga de cavalaria, rápida, im petuosa, violenta e desm oralizadora.
Não acolheram , contudo, outros instrum entos e m étodos de guerra que se desenvolviam em torno do Mediterrâneo, nem há indícios de que tenham m elhorado, sob a influência árabe, a qualidade de arm as que j á possuíam e fabricavam . Im portavam espadas, capacetes e cotas de m alha.
Em sua viagem , Mansa Musa deve ter percebido o isolam ento do Mali, sua posição m arginal no m undo m uçulm ano, sua tim idez diante da novidade e da m udança. Daí o em penho em expandir a cultura islâm ica no im pério e em desenvolver o diálogo político com o Egito. Este logo com preendeu a im portância do Mali com o parceiro com ercial e com o fonte de ouro, após o esgotam ento das m inas da Núbia, e favoreceu os contatos. O Cairo tornou-se um centro de atração para os m uçulm anos do Mali. E ponto final das caravanas que saíam do Sael com ouro, alúm en, cobre, escravos; e porto de partida das cáfilas que levavam para o Sudão Ocidental tecidos, vidros e tam bém escravos, pois desenvolvera-se no Mali, após a viagem de Mansa Musa, o gosto por m am elucos e por m oças e castrados turcos e etíopes. Estabeleceu-se, portanto, um com ércio de escravos
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com duas direções.
Musa procurou tam bém am pliar os contatos com os reinos de Fez, de Tlem cen e de Túnis. Ao sultão m arinida Abul Hassan, de Fez, que em 1337 conquistaria Tlem cen, Musa enviou um a em baixada, a prim eira de um a série entre o soberano m arroquino e o m ansa m andinga. Essas relações diplom áticas duraram apenas trinta anos e se findaram quando o Mali e Fez se viram igualm ente atorm entados pelas disputas dinásticas e pela guerra civil.
Mansa Musa m andou ulem ás sudaneses estudarem em Fez. E dali e de outros pontos do m undo árabe convocou xerifes, letrados, j urisconsultos e artistas, para virem viver e trabalhar no Mali. Devem ter sido relativam ente poucos os que atenderam ao convite. Alguns o acom panharam na viagem de regresso de Meca, atraídos pela perspectiva de um m ecenato generoso. Desses, a história guardou o nom e do poeta e arquiteto andaluz Abu Ishaq Ibrahim al-Sahili, que m orreu em Tom buctu, em 1346, e lá foi sepultado.
De Al-Sahili diz-se que construiu ou am pliou as m esquitas de Gao e de Tom buctu, em pregando tij olos pela prim eira vez naquela parte do m undo. Há
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quem isto conteste, alegando que am bos os edifícios eram anteriores ao reinado de Musa. Ao andaluz a tradição atribui o ter criado um novo estilo arquitetônico, dito sudanês, com suas torres em form a de pirâm ides truncadas, suas pequenas j anelas, seus extensos terraços. Essas, porém , eram as form as correntes da antiga arquitetura m editerrânica — com um no sul do Marrocos — e, quando m uito, Al-Sahili teria adaptado a prédios m ais am biciosos e solenes o
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tipo norm al da habitação saeliana.
Qualquer que tenha sido o papel do andaluz, tudo parece indicar um a grande preocupação de Mansa Musa em fazer, de alguns de seus vilarej os, cidades, construindo m esquitas e prédios públicos e favorecendo a instalação de com unidades cosm opolitas. Tom buctu e Jenné m uito deveriam ao im pulso que ele lhes deu.
A um a distância de quase quinhentos quilôm etros um a da outra, essas duas cidades — a prim eira, logo a noroeste do cotovelo do Níger, a beirar o deserto, e a segunda, sobre o rio Bani — terão seus destinos vinculados, com plem entando-se em suas funções: aquela com o porto do com ércio transaariano; esta com o centro produtor e arm azenador de produtos agropecuários e com o entreposto de trocas com a savana, o cerrado e a floresta.
Tom buctu despontou com o cidade no século XII, a partir provavelm ente de um acam pam ento de tuaregues islam izados que transum avam entre Arauane e o lago Debo, no rio Níger. Jenné (ou Dj enné) vinha de m uito antes. Desde pelo m enos o século IX.
A arqueologia 49 revelou, a três quilôm etros da atual Jenné, em Zoboro ou Jenné-Jeno (“antiga Jenné”, em songai), restos de um a cidade que teria origem no século III a.C. Desde o início, seus habitantes conheciam o ferro. Criavam bois. E há evidências de que j á praticavam um a agricultura de vazante, no século I de nossa era, de quando datam os sinais de arroz, da espécie Ory za glaberrim a, ali encontrados. Essa form a de cultivo intensivo, aproveitando ao m áxim o as várzeas e, na época da estiagem , as áreas abandonadas pelas águas, perm itiu não só o rápido increm ento das populações circunvizinhas, m as tam bém a exportação de excedentes de arroz, sorgo e m ilhetes.
O com ércio deve ter sido, desde o início, atividade im portante em Jenné-Jeno e nas outras cidades e aldeias da região — só no raio de um quilôm etro havia 25 delas —, pois iam buscar a boa distância o m inério de ferro de que careciam . E no m ercadej o do arroz, do peixe seco e do óleo de peixe com o deserto, a savana e a curva do Níger assentou-se o desenvolvim ento da área. Jenné-Jeno transform ar-se-ia tam bém em interm ediária das trocas, a curta e a m édia distâncias, de ferro, cobre, grãos, m el, índigo e sal, antes que surgisse o tráfico transaariano.
Este, ao que parece, fez bom uso da rede m ercantil que encontrara funcionando ao longo do Níger e que tinha na canoa o principal instrum ento. Os habitantes de Jenné-Jeno rem avam as m ercadorias Níger acim a e Níger abaixo, percorriam os seus afluentes e costeavam os seus lagos, com erciando tam bém com os produtos de seus artesãos, que trabalhavam o barro, a palha, o couro, a m adeira, o algodão, as contas, o ferro, o ouro e o cobre. Pois Jenné-Jeno crescera e nela se diversificaram e especializaram as ocupações.
No início do século IX, a cidade cobria 33 hectares. As casas de barro e planta redonda ou quadrangular eram separadas por estreitas passagens. Um a m uralha de tij olos cilíndricos, com dois quilôm etros de circunferência e de 3,6m de espessura na base, cercava o setor residencial, talvez para protegê-lo das cheias.
A m ais antiga m esquita de Tom buctu
Cem anos depois, com eça o declínio. E Jenné-Jeno vê-se abandonada. Talvez no século XIII, de quando dataria tam bém sua conversão ao islam ism o. Talvez um pouco m ais tarde. Por volta de 1400. É possível que o êxodo tenha com eçado com a fundação nos arredores, pelos m uçulm anos, de um a outra cidade, não poluída pelas práticas pagãs, a atual Jenné, e que a esta, ao crescer com o centro
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com ercial, tivesse term inado por esvaziar a prim eira.
No século XIII, Tom buctu e Jenné tornaram -se tributárias do Mali e cidadelas do islam ism o. Mansa Musa reconheceu-as com o tal e, ao retornar de Meca, apressou-se em m andar construir ou reform ar a grande m esquita de Tom buctu e deu ordens para que se desenvolvessem nessa cidade e em Jenné as m adrasas, escolas onde se estudavam a religião e o direito, seguindo possivelm ente os m odelos rigorosos dos teólogos e j uristas m aliquitas de Fez.
No decorrer do século XIV, acelerou-se o crescim ento de Tom buctu e de Jenné. Os árabes banu-salaim anes haviam invadido o Saara Ocidental e de tal form a caçavam as caravanas, que os itinerários que levavam a Ualata com eçaram a ser m enos frequentados. As rotas principais desviaram -se para o oriente e Tom buctu tornou-se o grande porto transaariano. Tinha a vantagem de estar na borda do deserto e ter um cais sobre o Níger.
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O sal — escrevia Valentim Fernandes, no início do século XVI — era descarregado do lom bo dos cam elos em Tom buctu e passava para alm adias, que subiam o rio até Jenné. Ali era trocado por ouro e levado à cabeça por fieiras de escravos à região das m inas. Quebrado em pedaços, que se faziam m enores de m ão em m ão, o sal era distribuído pela savana, chegando até m esm o à floresta.
Pois da floresta acãv (hoj e Gana e Costa do Marfim ) e de Lobi, no Volta Negro, passara a vir tam bém o ouro, em quantidades cada vez m aiores.
Os m ercadores soninquês e m andingas — os fam osos uângaras ou diulas — entravam pela savana e pela m ata, para trocar o sal por ouro e outros produtos. Um dentre estes foi-se tornando cada vez m ais procurado: a noz-de-cola, que, m astigada, refresca a boca, além de ser um efetivo estim ulante. O gosto por essa noz, cuj a árvore cresce nas florestas da África Ocidental, rapidam ente se difundiu entre as populações da savana e do Sael e se estendeu à África do Norte. Era um artigo de luxo, cuj as propriedades m edicinais o m undo do islão apreciava. Sendo um estim ulante não condenado pelo m aom etanism o, sua
dem anda tendia a aum entar com a expansão da fé. 52
Os m ercadores soninquês e m andingas foram estabelecendo, ao longo dos cam inhos m ais frequentados, estações de repouso e de arm azenagem dos artigos que com pravam e vendiam , ou se radicando em vilarej os distantes. Onde aportavam , punham pequena m esquita e davam a conhecer, pela pregação e o exem plo, um rudim entar islam ism o.
A catequese geralm ente caía no vazio e quase nunca ultrapassava aqueles que, com o escravos ou clientes, viviam ao lado dos m ercadores. Os diulas eram aceitos pelas populações das aldeias em que se fixavam , ou pelos vizinhos dos povoados que estabeleciam , com o m ais um grupo de im igrantes, com costum es, crenças e tradições próprias, não diversos de outros que — e isto é com um na África — ali m oravam há algum tem po, a pouca distância dos habitantes m ais antigos, ou até m esm o nas próprias cidadezinhas destes, sem com eles se m isturarem e sem cederem da determ inação de conservar suas identidades e seus m odos de vida.
Os diulas vendiam sortilégios, rezavam para chover, m inistravam m ezinhas aos doentes. Se tudo isso lhes valia a reputação de fortes feiticeiros, a fé que pregavam esbarrava contra um a antiga religião de cam poneses, contra crenças que perm itiam um diálogo direto com os deuses e os antepassados, contra ritos essenciais às colheitas e à fertilidade dos rebanhos.
Diante da resistência firm e, constante e silenciosa das religiões tradicionais, o islam ism o, ao contrário do que ocorreu em outras partes do m undo, irradiou-se lentam ente pelas savanas do Sudão Ocidental. Mesm o em cidades m ercantis, onde a presença m aom etana era dom inante, os cultos tradicionais se preservaram , à vista de todos ou sob em buço.
O im pério do Mali não tinha organização distinta da de seu antecessor, o de Gana. Não era um estado unitário nem hom ogêneo. Com preendia as m ais diversas form as políticas, desde reinos e cidades-estado a aldeias que obedeciam a conselhos de anciães. A extensão e a diversidade dos territórios que lhe pagavam tributo e lhe forneciam tropas, exigiam do rei dos reis um a am pla tolerância para com as peculiaridades de cada parcela do im pério e vetavam , por isso m esm o, um a política de forçada islam ização.
Não parece haver dúvida de que Bam buk e Buré estavam dentro da esfera de influência do Mali. Sobre os m ineradores de ouro, contudo, o m ansa j am ais conseguiu im por um governo direto — que lhe daria o controle da produção do m etal am arelo —, nem m uito m enos a crença em Alá. Todas as vezes que os reis do Mali tentaram islam izar aquelas áreas de seu im pério, toparam em cheio com a resistência dos habitantes, refletida na queda da produção do ouro, que podia
estancar com pletam ente.53
A propagação do islam ism o não era aj udada pela força das arm as. A conquista m ilitar não trazia a conversão do gentio, um a vez que os exércitos do m ansa não se form avam de m uçulm anos em guerra santa, m as de contingentes em que deviam predom inar os anim istas. Com efeito, grande parte das tropas era constituída de escravos. E não apenas dos esquadrões levantados pelo próprio m ansa, m as tam bém daqueles que lhe forneciam os governadores de província e os reis e chefes vassalos. Da cavalaria, com posta por aristocratas m andingas ou dos povos tributários, não se diria que fosse ardentem ente m aom etana.
Fiel seguidor do Profeta foi, sem dúvida, Musa — que faleceria em 1337, após
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um quarto de século de reinado —, e foram -no seus sucessores, o filho Maga
(ou Magã)w e o irm ão Sulaim ã.
O acesso de Maga ao poder deve ter criado um a crise na fam ília real, por haver preterido o seu tio Sulaim ã. A isto talvez se deva o ter sido tão curto o reino de Maga, pois o m ansa m orreu, ou foi m orto, talvez em consequência da ação de
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Sulaim ã, passados apenas quatro anos de sua investidura.
A controvérsia sucessória possivelm ente se alastrou pelas províncias,
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enfraquecendo o im pério. Tanto assim que os m ossis lograram atacar e pôr a saque Tom buctu.
Se recebeu realm ente um im pério em crise, a prim eira tarefa de Sulaim ã, com o novo m ansa, terá sido a de fazer voltar a ordem ao Mali. Isto conseguiu em breve tem po, bem com o reforçar o dom ínio sobre áreas de hesitante vassalagem e estendê-lo a novos territórios. Em seu reinado, o im pério, que tinha por eixo o rio Níger, com preendia todo o espaço que ia, no litoral atlântico, desde entre Aulil e a foz do Senegal até a Casam ansa, e no extrem o leste, desde Tadm ekka até Cuquia. Ao norte, os lim ites ultrapassavam o Sael e penetravam no deserto, para dentro deles incluir Audagoste, Tichit e Ualata. Ao sul, a linha de fronteira boj ava, para abranger o Futa Jalom , o Buré e o alto Sancarani, m as depois repentinam ente se encolhia, a acom panhar, a algum a distância, o encurvado leito do Níger.
No interior desse m apa, todos pagavam tributo ao m ansa e o reconheciam com o rei dos reis — inclusive certas tribos de azenegues m eridionais. Para o sul, porém , no rum o das m inas cada vez m ais prom issoras de Lobi e do país acã, os
exércitos do m ansa não logravam fazer avanços duradouros. Os dogons y continuaram insubm issos nas difíceis escarpas de Bandiagara. E para leste e sudeste, no rum o da Hauçalândia e dos rios form adores do Volta, os soldados m andingas tinham de haver-se com os belicosos m ossis, donos, tam bém eles, de num erosa cavalaria e arqueiros tem íveis. Por outros cam inhos, as tropas do Mali iam dar em cam pos cobertos ou carrasquentos, onde a tsé-tsé j á se fazia presente, im pedindo o uso do cavalo e lhes retirando, assim , a vantagem que poderiam ter sobre a resistência dos donos do terreno.
Sulaim ã continuou a política m odernizadora de Musa, ao se esforçar em expandir o islam ism o nas terras do Mali. Com o seu irm ão, m andou construir m esquitas, favoreceu as escolas corânicas, atraiu para as suas cidades hom ens santos e sábios m uçulm anos, deu exem plo pessoal de devoção, zelo e piedade.
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Procurou ser um rei islam ita — e o grande viaj ante Ibn Batuta, quando, entre 1352 e 1353, andou pelo Mali, assim o viu: a fazer suas preces, a com parecer, com toda a pom pa e m aj estade, aos ofícios religiosos das sextas-feiras e aos festivais islâm icos. Os fiéis estavam todos de branco. E Sulaim ã vinha, a cavalo, precedido pelo cádi e por outros dignitários m aom etanos, que gritavam : “Deus é grande!” e “Há um só Deus, que é Alá!”.
Era m uçulm ano, m as não pôde deixar de ser tam bém um rei tradi-cional, e em torno dele m antinha-se a atm osfera que cercava a m onarquia divina, da m esm a form a que nas orações coletivas m uçulm anas se im iscuíam ritos anim istas. Ibn Batuta os presenciou. Viu, durante os festivais islâm icos, os bardos ou griots, os corpos cobertos de palha, os rostos ocultos por m áscaras de m adeira, figurando pássaros de bico verm elho, a dançarem e a recitarem as glórias do reino — a fazerem provavelm ente os gestos que vinculavam o m ansa a seu povo,
aos ancestrais e à terra. 57
O m ansa estava acim a de todos. Era m ais do que hum ano e, por isso, com ia em segredo. Jam ais alçava a voz ou se dirigia diretam ente aos súditos: um intérprete e bardo, o dieli, repetia em voz alta o que o rei lhe m urm urava. Diante dele só se chegava de roj o, descalço, vestido de roupas velhas ou de farrapos. E se o m ansa, por interm édio do “língua”, ao súdito se dirigisse, este j ogava areia sobre a própria cabeça e as próprias costas.
De m anto verm elho e boné dourado, envolto num turbante de brocado de ouro, Sulaim ã dava audiências. Sentava-se em alm ofadas de seda, sob um guarda-sol encim ado por um pássaro de ouro, do tam anho de um falcão. Cercavam -no os chefes m ilitares, a pé e a cavalo, a trazerem , nas ocasiões m ais solenes, alj avas de ouro e prata, espadas de ouro, lanças de ouro e cristal. À sua volta dispunham -se tam bém os altos funcionários, e grande núm ero de paj ens, soldados, escravos, e m úsicos com tam bores, trom pas, xilofones e m andolins de duas cordas. Traziam -se para j unto do rei duas éguas ricam ente aj aezadas. E dois carneiros,
para cortar o m au-olhado. 58
Todo esse cerim onial lem bra o de Gana e se reproduzirá pela África, onde o
guarda-sol, provavelm ente de origem egípcia59 — quem sabe se inovação trazida pelo Mansa Musa de sua viagem a Meca —, será um dos m ais insistentes sím bolos da realeza.
Com o o gana, o m ansa exercia pessoalm ente a autoridade e tinha a palavra final na adm inistração da j ustiça. Os súditos m uçulm anos eram j ulgados pelos cádis, de acordo com as leis do islão. Os anim istas, pelos seus chefes e segundo as norm as tradicionais de cada povo. Os abusos das autoridades eram punidos, e punidos os atos dos m alfeitores. E com tal energia, que a ordem e a segurança, em tem po de paz, eram com pletas em todo o território do im pério. Ibn Batuta viaj ou de Ualata a Niani, com apenas três com panheiros. Sem qualquer escolta. E nada de m au lhes sucedeu, pois ninguém no Mali, segundo ele, tinha o que
tem er dos ladrões ou dos bandidos. 60 O poder do m ansa e o dos que em seu nom e governavam exerciam -se de form a efetiva.
Devia ser intrincada a estrutura social e política de um im pério tão heterogêneo quanto o Mali. No ápice da pirâm ide estava o m ansa, e depois dele a linhagem real, e num círculo m ais largo, o clã dos Queitas. Vinha em seguida a nação m andinga, e após ela, todas as outras. Nas nações, distinguiam -se as fam ílias reais e a nobreza, os hom ens livres, os que pertenciam a castas profissionais (com o os bardos, os ferreiros, os carpinteiros, os curtidores), os servos e os escravos.
Os estados subordinados continuavam geralm ente sob as dinastias tradicionais, os filhos dos chefes obrigados a perm anecer j unto ao m ansa, na condição de reféns cercados de honrarias. Ao lado de cada chefe, funcionava um representante do poder central.
Em alguns casos, o governo se fazia de form a direta, através de m em bro da fam ília do m ansa ou de escravo da corte, que assum ia todas as prerrogativas de um chefe. Isto se dava sobretudo nas localidades de grande im portância estratégica ou com ercial — com o Ualata, por exem plo. Ali, o m ansa não apenas tinha a defender o correto fluxo do com ércio, m as tam bém o seu m onopólio de im portação de cavalos, arm as e m etais, sobre o qual assentava parte de seu poder.
Só o m ansa provavelm ente podia com prar cavalos, desta form a im pedindo que se form assem , dentro do im pério, tropas de cavalaria capazes de rivalizar com a sua. Os chefes vassalos dependiam dele para obter anim ais de guerra, com o dele dependiam os com andantes de sua própria cavalaria, os poderosos fararij as, que o rei dos reis cultivava com presentes e distinções honoríficas. Dava-lhes corcéis, roupas finas, ouro, arm as de qualidade. E lhes prem iava os feitos m ilitares com a autorização para que usassem calças largas. Quanto m ais am plas as calças, que se apertavam nos tornozelos, m aior a im portância de quem
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as usava.
A cavalaria era a arm a dos hom ens livres. O grosso das tropas de arqueiros seria com posto de escravos. Ou a totalidade delas, com o possivelm ente nos regim entos que respondiam de m odo direto ao m ansa.
De escravos form ava-se a guarda pessoal do soberano. Escravos eram m uitos, e dos m ais im portantes, funcionários da corte. Forasteiros, sem laços com as fam ílias da nobreza, vinculados apenas ao dono, tinham eles condições especiais para preencher os ofícios políticos de absoluta confiança do rei. Suj eitos inteiram ente a quem se tinha pelo m ais poderoso de todos os hom ens, transform avam o cativeiro em poder e, quando o rei era na realidade um fraco, tutelavam -no e por interm édio dele exerciam o m ando. Em m om entos de crise — e o vim os com Sacura — podiam até m esm o assum ir a condição de m ansa.
Em circunstâncias norm ais, os escravos da corte eram usados pelo soberano para contrabalançar e neutralizar a força da nobreza e dos fararij as. E não apenas os escravos, m as certos elem entos das castas profissionais, com o os ferreiros e os bardos. Os ferreiros, em bora desprezados com o gente inferior, eram tem idos pelo m isterioso convívio com o fogo e os m etais e porque os consideravam m estres da m agia e do vaticínio. Dentre os bardos, depositários da história do im pério e da sabedoria tradicional, um era escolhido com o dieli ou porta-voz do m ansa, e pronto se voltava em conselheiro e confidente.
Esses escravos e hom ens de casta, em bora não se libertassem da baixeza de suas origens, passavam a form ar nas classes dom inantes. Eram poucos, se com parados com a grande m assa de cativos. Havia os escravos soldados. E os que serviam a um hom em livre de pequena im portância, e m uitas vezes am anhavam a terra lado a lado com o dono, a cuj a fam ília frequentem ente acabavam por se incorporar, através do casam ento. Havia os que trabalhavam nas glebas da nobreza e dos altos funcionários. E os que m ourej avam nas grandes plantações do m ansa. Muitos escravos eram reunidos em aldeotas, sob as ordens de um feitor, tam bém escravo, com a única obrigação de fornecerem ao soberano determ inada quantidade anual de peixe, ou certo peso de cereais, ou um núm ero fixo de cabeças de gado. Desse m odo, podia o m ansa alim entar os seus exércitos, bem com o a num erosa corte que se j untava ao seu redor, ociosa e intrigante.
Para o am biente de insídia e conj ura m uito contribuía o não existirem regras aceitas por todos para a sucessão do soberano. Dois sistem as pareciam com petir e colidir: um , patrilinear, e outro, fratrilinear. Tanto o filho quanto o irm ão do m ansa, que em idade lhe seguia, aspiravam igualm ente ao poder. E o derrotado, se aparentava conform ar-se e recolher-se à som bra, ali se punha a conspirar com os antigos prosélitos e os novos descontentes, pronto para em polgar o poder.
Os descendentes diretos de Mansa Musa j am ais se acom odaram à derrota de Maga. Há, com efeito, indícios de que, pelo m enos um a vez, tram aram a
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derrocada de Sulaim ã. Com este m orto, em 1360, depressa se puseram em
arm as.
Casa, z filho de Sulaim ã, havia subido ao poder. Mas contra ele levantou-se Jata, ou Mari-Jata, filho de Maga; e, da guerra que se deu, saiu vitorioso. Na luta, Casa entregou a vida.
De Jata, diz Ibn Khaldun63 ter sido péssim o governante, tirano e pródigo. Teria ele vendido a com erciantes egípcios a grande pepita de ouro, que se guardava quase com o um obj eto sacro — talvez a m esm a na qual o gana prendia as rédeas dos cavalos. Durante seu reinado, m andou um a em baixada a Fez, e entre os presentes incluiu um a girafa, que causou tanta adm iração e curiosidade na capital m arroquina quanto, em Florença, no Quatrocentos, a que o sultão do Egito enviou a Lourenço de Médicis, ou a que, por volta de 1414, foi ter às m ãos do im perador da China.
Jata faleceu, de doença do sono, entre 1373 e 1374. Sucedeu-lhe o filho, Musa II, que foi rei apenas na aparência, pois em vez dele m andou um poderoso m inistro, cuj o nom e, Mari-Jata, poderia indicar tratar-se de pessoa da fam ília real. Esse esforçou-se para reorganizar o im pério e deve ter tido algum êxito em novam ente reduzir à obediência m uitas das províncias sublevadas. Não conseguiu, porém , subj ugar a rebelião de Gao, que, por essa época, se separou do Mali e se fez de novo independente.
Tam bém j oguete dos altos funcionários da corte seria o sucessor de Musa II, seu irm ão Maga II. Em 1388, apenas um ano após se ter tornado m ansa, foi ele
assassinado, subindo ao trono Sandaqui,aa um vizir que se casara com a m ãe de Musa. O usurpador foi-se tam bém de m orte violenta, nas m ãos de um m em bro do clã dos Queitas.
A confusão faz-se geral. No m eio dela — isto afirm a Ibn Khaldun, que nos
conta a história dos descendentes de Mansa Musa64 — um estranho, vindo das terras do sul, m as pertencente à linhagem do Sundiata, assum e, em 1390, o poder, com o nom e de Maga.
As guerras intestinas haviam enfraquecido o im pério. Outras províncias seguem o exem plo de Gao, e os inim igos externos rom pem as fronteiras do Mali.
Os m ossis voltam a fustigar toda a região da grande curva do Níger. De novo pilham Tom buctu. E, em 1480, atacam Ualata. Do norte, os tuaregues acossam incessantem ente Tom buctu e as cidades vizinhas, até que, em 1433, se tornam senhores do grande porto caravaneiro. Os songais avançam com seus barcos rio acim a, arrebatando ao Mali o controle das águas e lhe tom ando as terras adj acentes.
Jenné — cercada por rios e canais, que a tornavam quase inexpugnável — retom a a independência. E a m aioria dos reinos soninquês, quando o século ia a m eio, rom pe os vínculos de vassalagem com o m ansa. Mais tarde, Diara tam bém se liberta, sob a liderança de um a nova dinastia, os Diauaras. Com os novos reis, que se sentavam entre os seus com o se fossem hom ens do povo, inteiram ente despidos de m istério ou cerim oniosa pom pa — “um rei”, diziam , “não necessita de qualquer outro ornam ento que não os de sua autoridade e
realeza”65 —, Diara cresce com o ponto de destino das cáfilas e com o centro do com ércio transaariano.
No Tacrur, que se desliga do Mali, por ser vassalo de Diara, as dinastias se sucedem e entre si convivem e com petem . Os Manas, que eram soninquês, são substituídos, no início do século XIV, pelos Tondions, um a m istura de sereres e m andês, e esta nova dinastia, cem anos m ais tarde, cede lugar aos Lam -Term es e aos Lam -Tagas, fulas ou fulas m iscigenados com berberes. O Futa Toro sofre pressões de todos os lados e clãs de guerreiros, geralm ente de origem estrangeira, im põem -se sobre o que fora o Tacrur, doravante fragm entado em num erosas e pequenas chefias.
Para o im pério do Mali com eçava o ocaso. Seu declínio será lento, ao longo de todo o século XV. Perdida a obediência dos soninquês, dos tucolores, dos songais e de outros povos que dele faziam parte, o Mali foi se reduzindo, ao norte, às suas antigas dim ensões de país dos m alinquês. Para o sudoeste, continuou a expandir-se, a esforçar-se para conservar o controle sobre o com ércio do ouro, da cola e do sal — este a ter por fonte não m ais as m inas do deserto, e sim as praias do Atlântico. A unidade que o Sundiata dera aos m andingas vai custar a perder-se: não deixará de existir senão j á nos últim os dias do século XVI, e sobre um território bem m ais am plo do que o tradicional, pois não se perderam as áreas colonizadas pelos m alinquês nos rios Gâm bia e Casam ansa. Mesm o ao norte, sobre os bancos do Níger e do Bani, o m ansa conservará, por algum tem po, entre os bam baras, m uitos vassalos.