A Enxada e a Lança
13. Ao redor do lago Chade
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Ao redor do lago Chade
Com o ressecam ento do Saara, o Chade tornou-se um polo natural de atração para os grupos hum anos que se deslocavam , no correr dos séculos, rum o ao sul, e para aqueles que viviam nas terras altas dos Cam arões e nos planaltos da Nigéria.
O grande lago tam bém se enxugara. Não era m ais, com o cerca de vinte m il anos antes, o Mega-Chade, do tam anho do Cáspio, nem se estendia, com o entre 3500 e 3000 a.C., por 330.000km 2, tendo suas águas a altura de 332m acim a do nível do m ar. Ainda não se reduzira, contudo, à sua atual superfície, entre 11.000 e 25.000km 2, quando, após 2000 a.C. e sobretudo na parte final do segundo m ilênio anterior à nossa era, se acentuaram essas m igrações.
O lago secularm ente contraía-se do norte para o sudoeste. Na área setentrional, instalou-se o deserto de dunas (o grande erg) desde Agadés até a depressão do Jurab — no passado distante, a parte m ais funda do Mega-Chade.
O deserto, que descia em cunha até quase a beira do lago, foi separando cada vez m ais, à m edida que se escoava o últim o m ilênio a.C., os territórios a leste e a oeste do Chade. Essa separação tam bém se produzia no sul do lago, cuj as m argens vinham recuando das proxim idades dos m ontes Mandara. A cunha de extrem a aridez, ao norte, e os pântanos, os alagadiços e a densa vegetação aquática, ao sul, deviam dificultar os contatos entre os grupos hum anos que iam
ocupando as duas bandas. Assim se explicariam1 as grandes diferenças entre os povos dos dois lados do lago Chade: na parte ocidental, falam -se as línguas chádicas (da fam ília afro-asiática de Greenberg) e expandiram -se instituições do tipo cidade-estado; no lado do nascente, os idiom as pertencem ao grupo saariano (da fam ília nilo-saariana) e viria a desenvolver-se um a estrutura política unificadora, com vocação im perial.
Desde m uito antes, o hom em não devia ser um estranho ao sul do lago. Talvez algum as pequenas coletividades de caçadores e colhedores — seriam os gueguêis eternizados nas lendas? — j á vivessem em suas m argens m eridionais, que não eram obviam ente as de hoj e, m as então, com o agora, sofriam am plas variações na extensão e no traçado.
O Chade m uda de praias da m anhã para a noite, de dia para dia, conform e o rum o e a força dos ventos e até m esm o as fases da lua — nele tam bém se verifica o fenôm eno das m arés —, e am plia-se e retrai-se de m ês para m ês, de estação para estação, de ano para ano, de década para década, de século para século, a acom panhar a inconstância do clim a. Sendo extrem am ente rasa a bacia em que se situa, basta que as chuvas sobre ele ou nas cabeceiras do Chari e do Logone lhe acrescentem à altura um a ou duas dezenas de centím etros, para que sua área se expanda consideravelm ente. Com apenas dois m etros de profundidade m édia e seis nos pontos extrem os, o seu tam anho depende do balanço entre a intensidade da evaporação que sofre e o volum e das águas recebidas dos rios e dos céus.
Anualm ente, então com o agora, as águas, na época das cheias, transbordavam e ganhavam as terras baixas, só deixando enxutas as elevações. E foi sobre estas, naturalm ente, que se levantaram as prim eiras aldeias estáveis, as prim eiras m oradas de grupos que iriam substituir e absorver os caçadores e colhedores nôm ades. Com o os tesos não estivessem , em m uitos casos, a pouco m ais de um ou dois m etros acim a da planície, seus habitantes aprenderam a depor sobre eles quantidades de argila, para aum entar-lhes a altura, tapar e corrigir as depressões, e, assim , erguer as casas ao abrigo das enchentes. Com a continuidade da presença hum ana, essas colinas sem iartificiais foram -se elevando, até atingir vários m etros.
Pela cidade de Bam a, no nordeste da Nigéria, passa um a extensa linha geom orfológica, tida com o um a antiga praia do Chade. Talvez por ali peram bulassem , desde um passado m uito rem oto, grupelhos hum anos que viviam da pesca e da m ariscagem no lago e do abate dos anim ais que lhe buscavam as m argens. Dessa gente escassa e nôm ade não se encontraram até agora sinais reveladores. Em com pensação, ali pertinho, a uns 2,5km a noroeste,
sobre um côm oro de m enos de três m etros de altura, Graham Connah 2 localizou os vestígios de um a série de vilarej os, a denunciarem ocupação interm itente desde o fim do segundo m ilênio até talvez os últim os séculos antes de Cristo.
Desse sítio, a que se deu a designação de Borno 38, desenterraram -se m achados de pedra polida, pedaços de vasos, tigelas e potes de cerâm ica, fragm entos de m ós e trituradores de pedra, pontas de osso e dois ou três exem plares de um instrum ento sem elhante a um a faca, obtido pelo aguçar da om oplata de um anim al. Os obj etos de pedra denunciavam intenso uso. Quando se gastavam ou partiam , os seus donos davam -lhes outro destino — ao transform arem um m achado em m artelo, por exem plo —, para tirar o m áxim o proveito de um a m atéria-prim a escassa. Pois não há pedra na planície ao sul do lago: os pedaços de rocha ou os utensílios j á acabados tinham de ser trazidos de longe, provavelm ente dos m ontes Mandara.
É possível que os habitantes de Borno 38 j á conhecessem a agricultura e criassem gado. Quando m enos, tinham com o um a das bases de sua alim entação o sorgo selvagem , que triturariam nos alm ofarizes de pedra.
Das atividades pecuárias, desde essa época, nas proxim idades do lago Chade,
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há indícios m ais claros noutro m onte, bem m ais ao norte, o de Kursakata, cuj os m oradores possuíam bois e gado m iúdo. Mas ali a terra não seria cultivada, ou os grãos, a inferir-se do m inguado núm ero de trituradores encontrados, teriam pequena im portância na dieta.
Ao redor do lago Chade
A cerâm ica de Kursakata possui sem elhanças e diferenças em relação à de Borno 38. E outros elem entos revelados pela arqueologia sugeririam serem grupos distintos os que ocupavam os dois sítios. Em Kursakata, a contrastar com Borno 38, não se acharam m achados de pedra polida nem instrum entos de osso, m as lá havia figurinhas de anim ais em barro, m iniaturas de potes e contas de cerâm ica. Achou-se tam bém um fragm ento de ferro.
A ocupação de Kursakata deu-se, ao que parece, entre o início do prim eiro m ilênio a.C. e parte do prim eiro m ilênio da nossa era. Mais recente, em bora m ais longa, foi a perm anência do hom em noutro m onte, próxim o à aldeia de Daim a, no extrem o nordeste do Bornu, na Nigéria, a uns cinco quilôm etros da fronteira com os Cam arões. A arqueologia pôde reunir vestígios m ateriais de
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quase toda a sua história, um a história que se prolonga por m ais de 18 séculos.
Os prim eiros conj untos de cubatas talvez tenham surgido por volta de 550 a.C. Os habitantes e seus descendentes fabricavam com osso arm as e utensílios — arpões com farpas bilaterais, pontas de flechas, pequenas espátulas em pregadas possivelm ente para trabalhar o couro. Possuíam m achados, m ós, trituradores e outros instrum entos de pedra, os quais, tal com o em Borno 38, eram utilizados e reutilizados até o extrem o lim ite. A pedra vinha de longe: de m ais de um a centena de quilôm etros. A de grão grosso, com que se faziam os alm ofarizes, era trazida de Hadj er el Ham is, um a grande penha que em erge dos sedim entos à m argem do lago Chade, e de Gréa, nas proxim idades dos m ontes Mandara. Da vertente oriental dessas m ontanhas e da região de Maroua provinham as rochas de grão fino, para o fabrico dos m achados polidos.
A abundante presença de alm ofarizes indica a m oagem de cereais, m as não prova, em bora o sugira, que j á se conhecesse a agricultura e se cultivasse o sorgo nas argilas gordurosas, férteis e escuriças — o firki — que se estendem ao sul do lago Chade. Os grãos deviam constituir parte substancial da com ida diária, com plem entada pelo pescado e pela carne da caça e dos anim ais dom ésticos. Criavam -se cabras e bois. Sobretudo bois.
De seu convívio com o gado, os prim eiros habitantes de Daim a deixaram pequenas im agens de argila: vaquinhas sem pernas. E de barro cozido fizeram tam bém ornam entos para os lábios, o nariz e as orelhas, braceletes, pequenos bastões em form a de salsicha e m iniaturas de potes, as quais talvez fossem , com o as figurinhas de bois, brinquedos de crianças. Seus vasos e tigelas de cerâm ica, verm elhos brunidos, apresentavam decoração m uito variada, com caneluras, picotes, ponteados e estam pagem em esteira.
Tal qual a gente de Borno 38 e Kursakata, os habitantes de Daim a enterravam dentro do vilarej o os seus m ortos: de lado, fletidos ou em posição fetal m uito contraída, as m ãos sobre a face ou sob a cabeça. A im itar o sono — diz Graham
Connah.5 E continuaram a fazê-lo por m uitos séculos, enquanto se m odificavam , por influxo forâneo e evolução interna, os seus m odos de vida.
Em algum m om ento, Daim a adquiriu o conhecim ento do ferro. É possível que este lhe tenha chegado, j untam ente com as pedras que ia buscar ao sul, dos m ontes Mandara. Em Nok, j á se trabalhava o m etal desde o século VI a.C., e dali e de outros pontos a técnica deve ter-se gradualm ente transm itido, de aldeia em aldeia, de grupo em grupo. Pode perfeitam ente ter chegado às m argens do Chade no princípio de nossa era.
De início, Graham Connah, do exam e das datas obtidas por radiocarbono para o ferro recolhido nas cam adas m ais baixas do m onte, inferiu que se tivesse, em Daim a, com eçado a trabalhar o m etal entre os séculos I a.C. e I d.C. Posteriorm ente, S.G.H. Daniels exam inou a série de datas e propôs que se situasse nos séculos V ou VI de nossa era o aparecim ento do ferro na área. Os testes de radiocarbono tinham , porém , sido feitos a partir de ossos, e os ossos têm
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a tendência para produzir, nesse tipo de exam e, datas recentes. Por isso, Connah preferiu m anifestar-se cauteloso diante de um resultado que punha tão tarde o recebim ento do ferro por um a gente que, vivendo relativam ente próxim a a com unidades que conheciam o trabalho no m etal e num a região onde inexistia a pedra, devia m ostrar-se aberta para acolhê-lo. Mais tarde, estudando as datas proporcionadas pelo radiocarbono às profundidades do depósito, o m esm o Connah sugeriu, num retorno à sua posição original, que as peças m ais antigas de
ferro encontradas em Daim a estivessem em uso por volta do ano 50.7 Essa hipótese viu-se reforçada pelas escavações feitas em Magda Mound, a uns 14km de Daim a. As evidências do trabalho no ferro ali localizadas foram tidas, em
testes de radiocarbono, com o dos séculos I ou II a.C.8
O que parece certo é que o início da m etalurgia coincide, em Daim a, com a passagem da construção de cabanas de m adeira e palha para a de m oradias em barro, com base circular. O osso, com o m atéria-prim a, cai paulatinam ente em desuso. E desaparecem os m achados de pedra polida, em bora persistam as m ós e os trituradores de pedra.
A cerâm ica revela continuidade e m udança: novas form as de vasos — globulares, alguns de fundo chato ou com pernas — som am -se às antigas. E novos m otivos ornam entais aparecem e im põem -se. As pequenas im agens de bois decrescem em núm ero. Surgem outras figurinhas das m ãos do oleiro: anim ais selvagens, com o o que se tem por um a lebre, e estranhas form as eretas, que tanto parecem hom ens quanto bichos. Tornam -se presentes pequeninas bolas em cerâm ica, e insinuam -se, ao lado dos enfeites para orelhas, nariz e lábios, as prim eiras contas de barro cozido. Continuam a fazer-se m iniaturas de potes e bastões em form a de salsicha.
Encontraram -se em grande abundância fragm entos de cerâm ica. Muitos deles tinham a borda aparada e tersa, para serem reem pregados, a substituir provavelm ente a pedra, em raspar, alisar e brunir a m adeira ou o barro. Alguns apresentavam um furo. E outros tinham form a circular. Com pedaços partidos de cerâm ica cobriam -se tam bém os pisos das casas: os cacos eram enterrados em pé, dispostos em espinha de peixe ou em zigue-zague. Um desses pavim entos dataria de cerca de 650, sendo o m ais antigo de todos os que se conhecem na
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África Ocidental.
Ao longo do tem po, aum enta a im portância dos cereais. Nas vilas, abrem -se m uitas covas de boca arredondada, para arm azenar os grãos. Deviam , tal com o hoj e, ser cobertas por um a cam ada de palha. E ficar protegidas do gado m iúdo, que se introm etia no vilarej o e ia com er e beber às portas das casas, quando por elas não entrava livrem ente. Em bora o boi continuasse a predom inar, am pliaram -se, e m uito, o núm ero e a im portância dos caprinos, o que se deduz não só do volum e das ossadas que a arqueologia recuperou, m as tam bém da proliferação de figurinhas de barro com a form a de cabras, de ubres grandes e cheios, e de pernas longas, com o a correr. As im agens de cabra pronto se tornariam m ais frequentes do que as de boi.
As estatuetas de argila tornam -se, entretanto, m ais variadas. As escavações devolvem -nos im agens m uito toscas de seres hum anos, um peixe, um a cabeça de gazela, um a criatura sem elhante a um porco, com grandes protuberâncias nas costas. Prevalece um a intensa estilização. Mas, aqui e ali, sopra o realism o: neste boi com um grande cupim e cuj o rabo se agita para a frente, com o a espantar as m oscas.
De barro, continua-se a m oldar m uita coisa: enfeites de orelha, nariz e lábio, pequenas bolas, braceletes (com um a decoração a sugerir que se buscava im itar, na m atéria abundante, os ornam entos de m etal), travesseiros ou apoia-nucas, cam painhas, contas, o m odelo de um a canoa (provavelm ente a representação de um barco de papiro, em tudo sem elhante aos que até hoj e percorrem o lago Chade), e fusos, a indicarem o uso do algodão, e vasos, tigelas e potes, de paredes m ais grossas, com um picotado geom étrico.
Os fusos foram encontrados nas cam adas de ocupação m ais recente. Nas m esm as cam adas, havia tam bém cachim bos de barro. Ora, acredita-se que Daim a deixou de ser habitada perm anentem ente — ainda que possa ter abrigado m ais tarde, de form a esporádica e transitória, pequenos grupos hum anos — por volta de 1150, data que pode ser estendida até o final do século XIII, tendo em
vista a forte erosão sofrida pelo alto do côm oro. 10 Essas datas não se aj ustam à presença dos cachim bos, pois o tabaco só aparece na África após a descoberta da Am érica, de onde foi trazido. Quanto à m aconha, em bora tenha sido introduzida na África, no correr do prim eiro m ilênio da nossa era, pelos árabes, através da Etiópia, da Som ália ou das cidades-estado da Azânia, e se tenha rapidam ente difundido entre os bantos e os coissãs, não ganhou, ao que tudo
indica, a África Ocidental senão em nosso século.11
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Supôs-se que os cachim bos encontrados em Daim a — e tam bém m ais a
leste, nos m ontes saôs dos vales do Chari e do Logone — servissem para que se fum asse um a variedade de datura, com o fazem os cotocos do sexo m asculino até
a
hoj e. No caso de Daim a, se não se aceitar essa hipótese, restaria conj ecturar-
se14 que os cachim bos tivessem sido deixados num a das ocupações tem porárias após o século XVI e que os resíduos das várias ocupações tem porárias se tivessem m isturado, pela alternância da deposição e da erosão, aos das últim as presenças perm anentes ou, com o parece m ais provável, sem iperm anentes. O quadro que se tem é o da perda paulatina da atração do m onte sobre os grupos hum anos: os resíduos seriam m enores à m edida que dim inuíam os seus habitantes ou que ele passava a ser m orada sazonal, e decresceriam ainda m ais quando a elevação só de raro em raro voltou a servir de pouso.
Antes que tal sucedesse, Daim a experim entou um a fase de relativa prosperidade. É o que nos contam as suas sepulturas. Nas cam adas m ais recentes, os m ortos, enterrados das m ais diversas m aneiras — fletidos, contraídos ou estendidos —, apresentam -se, ao contrário dos que os antecederam , com os colares, braceletes, brincos e ornam entos labiais que usavam em vida. Esses enfeites não eram apenas de barro cozido, m as de cobre, bronze ou latão, ferro, cornalina, quartzo, vidro, ovo de avestruz e conchas — e, entre as conchas, cauris, provenientes, portanto, da costa oriental da África ou das Maldivas.
Esses bens exóticos, esses bens de luxo, ou as m atérias-prim as de que eram feitos, chegavam de longe, de fora da região do firki. Eram , com certeza, produtos do com ércio. Trocavam -se talvez por m arfim , peles de leopardo, plum as de avestruz, sorgo e gado.
Da últim a fase de ocupação de Daim a procedem os enorm es potes de grossas paredes de barro, nos quais facilm ente cabe um hom em acocorado. Quando, em nossos dias, alguém descobre parte de um deles a aparecer à flor da terra, im ediatam ente o desencava, pois o utiliza para guardar cereais, arm azenar água, conter a tinta em que se m olham , inteiras, as peças de tecido. Em outros pontos do Bornu, com o Gilgil e Kala, e m ais para leste, na região do baixo Chari e do baixo Logone, usavam -se esses potes, num período histórico que falta, por m ais recente, à sequência de Daim a, para inum ar os m ortos. Ao sul do Chade, os potes são conhecidos com o as j arras d’água dos saôs, ou sôs, os lendários gigantes que substituíram os gueguêis e que eram tão altos que as aves de rapina vinham fazer ninho em seus cabelos.
“Saô” cham aram Jean-Paul Lebeuf e Masson Detourbet15 ao povo que vivia, antes da islam ização, nos côm oros sem iartificiais ao sul do lago Chade. Saôs seriam , assim , os habitantes de Daim a e os que à sua cultura deram seguim ento. O term o é usado pelos da terra para designar a gente que nela vivia antes dos
canem bus, e F.W.H. Migeod 16 ainda conheceu, em 1922, pessoas que se diziam saôs e ouviu cinco palavras que o chefe de Ngala lhe assegurou pertencerem ao idiom a que falavam . Para Migeod, “saô” não nom eava um povo, m as várias tribos distintas, sendo o vocábulo com o qual os canúris se referiam a todos os
antigos habitantes do sul do Chade. Pensa do m esm o m odo Dierk Lange,17 para quem as lendas sobre os saôs seriam a fase final de um processo em que eles se transform aram , de populações que viviam em cidades am uralhadas ao sul do lago, num a gente m ítica. “Saô” significaria originariam ente vila ou a m uralha que a cingia, estendendo-se depois a seus habitantes.
Apesar de obj etar-se que o term o abarcaria um a situação étnica por dem ais
heterogênea para ter um significado histórico preciso,18 a palavra “saô” expressa um a realidade entre as populações que a em pregam e é-nos útil para nom ear os portadores das culturas que se desenvolveram nas planícies ao sul do lago Chade e sobretudo nas elevações sem iartificiais que as interrom pem .
Alguns dos outeiros nos Cam arões e no Chade são m aiores do que os do nordeste da Nigéria. Podem atingir quase um quilôm etro de com prim ento e algum as poucas dezenas de m etros de altura — Daim a, com pare-se, estende-se por 250m e eleva-se, no ponto m áxim o, a 10,65m — e apresentar restos de m uralhas, som brej adas de fícus e acácias, m uralhas de barro a cuj a m assa se m isturavam ossos, conchas, pedaços de cerâm ica e de ferro para lhe dar consistência. A estabilidade dos m uros era assegurada, ao que parece, pelo sacrifício de m oças e crianças, enterradas vivas em suas bases. Com esse rito estabelecia-se o vínculo entre a com unidade e o solo que o paredão
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circundava.
Com o construtores de m uralhas passaram os saôs à tradição. Na boca do povo, seriam eles os responsáveis por todas as existentes ao sul e ao sudeste do lago Chade. Até m esm o a de Kano.
Esses construtores de m uralhas pertenceriam possivelm ente à m esm a cultura dos derradeiros habitantes estáveis de Daim a. Talvez fossem um grupo novo, que se som ou às com unidades de caçadores, pescadores e pastores que ali j á viviam lado a lado, o que explicaria a variedade de sepultam entos nas últim as cam adas de Daim a. Na área do Chari e do Logone, a m em ória coletiva refere-se, aliás, a várias m igrações, e os construtores de m uralhas teriam prevalecido sobre um a população anterior, a quem corresponderiam certas sepulturas alongadas, em que o m orto era deitado de costas, a cabeça apoiada num travesseiro de argila, o corpo ornado de pingentes de osso ou de terracota, de colares de cornalina, quartzo, vidro, ovo de avestruz ou barro. A seu lado, punha-se um vaso de gargalo estreito, com água para o finado, um vaso cuj a rolha, de barro cozido, m uitas vezes representava um a cabeça hum ana.
Distinto era o m odo de inum ação daqueles a quem se atribuem os m uros à borda dos grandes tesos. Colocavam seus m ortos em grandes e grossas urnas de barro — os cham ados potes d’água dos saôs —, que podiam ter de um a m etro e m eio de altura, apresentavam a boca larga e a base pontuda e se decoravam com picotes e incisões em form a de espinha de peixe ou zigue-zagues. Sentava-se o cadáver dentro do vaso, as pernas contra o peito, os braços a envolverem as canelas, o queixo a apoiar-se nos j oelhos; e ao lado da figura enrodilhada, tendo nela seus m elhores ornam entos, dispunham -se carvão, um a bilha d’água e cabaças de com ida. Um segundo grande pote, com o m esm o form ato do anterior, era colado, boca contra boca, ao que continha o defunto, com o a criar sobre ele um a estreita abóbada. Vaso e corpo desciam ao solo na posição vertical. Às vezes, o cadáver era acocorado diretam ente sobre a terra, e se
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punha, a cobri-lo, um só dos grandes potes.
A fatura das urnas funerárias era bem m ais grosseira do que a dos recipien-tes de uso dom éstico. As vasilhas caseiras tinham em geral a pança am pla e a base afinada ou redonda, podendo apresentar a boca larga e reforçada ou term inar em gargalo. Moringas, panelas e tigelas eram recobertas de verniz negro ou verm elho, ou de ligeiro vidrado. Não se pintavam os vasos, m as recebiam eles variadíssim a decoração incisada em espinha de peixe, zigue-zagues, rede, ponto de arroz e picote. Os talhos podiam tom ar todo o boj o ou som ente a borla da vasilha, ou ainda atravessá-la em faixa, na parte m ais larga.
As m esm as form as e ornatos repetiam -se nas m iniaturas de potes, tão com uns em Kursakata e em Daim a. Abundam tam bém os boizinhos de barro, e bonecos, e pequenos hom ens a cavalo, nos quais ainda se veem as m arcas das m ãos
infantis que os m oldaram . 21
De argila, os saôs fizeram tudo: m uralhas e casas, panelas, quartinhas, pontas de flecha, brinquedos, j oias, fusos, fornos, trem pes, esculturas de antepassados e estatuetas de anim ais, guizos, apitos e tam bém — arrisca-se — m oedas. Pelo m enos é isto o que j á se im aginou serem pequenas peças de cerâm ica, em form a de triângulo, estrela, m eia-lua ou ouriço, m uitas delas com furo no
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m eio.
Se fizeram ou não m oeda com o que tinham de m ais abundante, em pregaram a m esm a argila para fabricar j oias. De suas m ãos, para serem usados com o pingentes, saíram pássaros de papo estufado, triângulos cobertos de incisões, peixes que parecem saltar. E anéis, colares, brincos e pulseiras, profusam ente escarificados. Fam oso é um bracelete grosso, pesado, que se fecha com duas cabeças de um m am ífero aquático, ou de um peixe, cinzeladas no barro.
A m esm a ornam entação intensa e variadíssim a aparece nos pequenos pesos das redes de pescar e nos fusos, a revelar um a conduta artística que abom inava a uniform idade e a indicar um excepcional gosto pelo ato de fazer.
O alto nível de criação que podia atingir o oleiro saô m ostra-se nas estátuas de antepassados, desenterradas, em 1948, do que seria um santuário, em Tago. A m aior delas m ede 36cm de altura, m as foi m oldada com tal intenção de grandiosidade, que parece um a figura enorm e, de rosto voltado para o céu, a boca aberta com o se cantasse, os braços colados ao corpo, m as num seguro m ovim ento para a frente, de oferenda ou expiação, o peito am plo, atravessado em x por um colar que talvez sim ule um a serpente.
Estátua de antepassado, no Santuário de Tago (barro, 36cm de altura)
O corpo é um bloco com pacto e vigoroso, sim plesm ente sugerido. Nele se insere um pescoço alongado, a sustentar a cabeça m inuciosam ente trabalhada, com o forte nariz que principia no alto da testa, os olhos cortados fundos nas pálpebras salientes, os lábios carnudos, as orelhas acabanadas a m arcarem o fim do rosto e a quase fazerem voar esta expressão, que parece de extrem a angústia, m as será talvez a de um hom em que adora.
Essa im agem de ancestral foi encontrada, de pé, a olhar para o oriente, sobre fragm entos do que seria um a urna funerária. Estava cercada por quatro bolas de argila, a indicarem os pontos cardeais, e tinha por com panhia, um a de cada lado,
duas outras estátuas m enores, que se supõe serem igualm ente de antepassados.23 A breve distância, em arco, viam -se num erosas figuras m ais toscas, presum ivelm ente dançarinos m ascarados, ou m onstros, que podem bem descender das estranhas estatuetas eretas, entre hom em e bicho, encontradas em Daim a. Perto da im agem do ancestral havia tam bém grande quantidade de pequeninas cabeças de cerâm ica.
Pequenas cabeças hum anas, feitas pelos saôs (barro, 9 a 12cm de altura)
As estatuetas de dançarinos — com suas m áscaras de boi, hipopótam o, carneiro e outros anim ais não identificáveis — foram feitas com m enos cuidado e com m aterial m ais grosseiro. Em vez da argila pura em que se m oldaram as figuras dos antepassados, nelas encontram os um solo m al cozido, com pedrinhas e outras im purezas.
As dim inutas peças de terracota, a representarem cabeças hum anas, talvez sej am a parte form alm ente m ais rica da herança saô. Pensa-se que eram
m odeladas quando do nascim ento de crianças ou da m orte de adultos.24 Algum as se utilizariam com o tam pas para as bilhas onde se punha a bebida dos m ortos. Outras serviriam de ex-votos, colocados nos santuários ou enterrados ao pé de árvores santas. Outras, finalm ente — com o indicariam a existência nelas de um orifício ou a face posterior polida —, seriam levadas no pulso ou penduradas ao pescoço. Quem sabe se cada um a delas — a exem plo do que sucede com as pequenas placas de ouro, a figurarem o rosto hum ano, que os
axantesb c e os baulês trazem ao peito — não continha tam bém a alm a de um
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hom em ?
Têm de 3 a 12cm de altura essas cabeças de barro, em m uitas das quais o que parece enfeite seria talvez o essencial da peça. O valor do ornam ento de tal m odo se im põe sobre a representação hum ana, que podem praticam ente desaparecer as sim ulações de olhos, nariz e boca, em favor da precisão da tatuagem .
É espantosa a variedade de form as. Num a peça, a cabeça term ina em tridente, os olhos são dois sulcos estreitos e fundos, e a boca é quase um bico. Esta outra tem o form ato de ferradura, toda estriada, em que apenas afloram olhos e boca. Naquela, um a pequena elevação, cortada por traço forte, descreve a boca, o nariz é ligeiram ente sugerido e os olhos são dois pontos; tudo isto se desenha na m etade superior de um pequeno ovo, e, da sim plicidade de linhas com que se insinua o rosto, nasce, para o alto, um arco de incisões precisas, lem brando um canitar am eríndio.
Em m uitas, a profusão de escarificações ou o exagero das form as — a boca enorm e, as pálpebras saltadas, o nariz que se confunde com um a crista — tiram do sem blante toda a expressividade. Mas em outras — com o nesta, lim pa de enfeites, um a superfície achatada da qual se ergue ligeiram ente o volum e da face e em que olhos e boca, com tanta delicadeza esculpidos, quase revelam o choro — lê-se espanto, apelo, êxtase ou terror.
Não se esgota aqui a arte desses hom ens. Foram tam bém anim alistas. No barro, os bichos são m aciços, suas form as quase que apenas sugeridas. Em alguns — com o nos hipopótam os, de tronco roliço, coberto de incisões suaves, dispostas com o espinhas de peixe, a aventarem os caniços que se acum ulam na parte m eridional do lago Chade — tudo é repouso. Em outros — com o nos porcos-espinhos — tudo lem bra m ovim ento. Já no bronze — tom ando-se esta palavra para significar tam bém o latão e qualquer outra liga de cobre —, as im agens são delicadas e realistas, com o o dem onstram os pingentes com cabeça de gazela, com crocodilos, lagartos ou patos.
De bronze e tam bém de ferro, os saôs fabricaram m uitas j oias (anéis, braceletes, brincos, peitorais, colares) e num erosos utensílios de caça e de trabalho. Figuram em seu testam ento obj etos de m arfim , osso, cornalina, quartzo e nácar. Nada, porém , que se sobreponha, em quantidade e qualidade, ao que deixaram no barro.
Esta era a m atéria-prim a que tinham aos pés, enquanto o cobre e o estanho, por exem plo, provinham de longe: o prim eiro, possivelm ente de Ouaza, Madagali, Agadés, Takedda (a m oderna Azelik?) ou Hofrat-en-Nahas, e o segundo, do planalto de Bauchi.
É de im aginar-se que esses construtores de vilas am uralhadas controlassem o sul e o sudeste do lago Chade, até que, a partir do século XIII, com eçaram a sofrer os efeitos do expansionism o de Canem . Deram -lhe duro com bate, m as, no fim do Quinhentos, estavam com pletam ente derrotados. Muitos foram reduzidos a escravos, outros fugiram para longe ou se desm oralizaram nos esconderij os das ilhas do lago. A m aioria continuou provavelm ente onde sem pre vivera: persiste nos atuais cotocos, por exem plo, que se expressam num a língua chádica e alardeiam a ascendência saô, e nos canúris, surgidos do am álgam a dos
canem busd com outros povos, entre os quais se sobrelevam os que habitavam o sul do lago Chade.
Os próprios canem bus seriam o resultado da aglutinação de grupos de língua nilo-saariana, vindos do nordeste, pastores de cam elos, ovelhas e cabras, com os pescadores instalados na orla do lago e com os agricultores, criadores de bois e caçadores, nas terras que vão perdendo a um idade à m edida que das águas se afastam . Entre essas diversas gentes haveria cooperação e conflito, alguns grupos procurando im por-se sobre os outros. Venceram aqueles a quem os autores
e
árabes cham am zagauas e que se têm com o nôm ades cam eleiros negros, sem elhantes aos tubus do Tibesti. Seus descendentes lhes prolongariam o m odo de vida e o nom e, até hoj e, no Uadai e no Darfur. E a eles se atribui a fundação
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do reino de Canem .
A m ais antiga referência aos zagauas dever-se-ia a Wahb b. Munabbih, um a autoridade do século VIII. O polígrafo persa Ibn Kutay ba, no seu Livro do conhecim ento, atribui-lhe a notícia de que zagauas seriam um a das sete raças do
Sudão. 27 28 Quem os pôs pela prim eira vez no Canem foi, porém , Al-Yakubi. Em 872. Diz que não tinham cidades e que m oravam em cabanas de caniços. Diz m ais: que form avam dois reinos. E que, ao lado desses dois reinos, havia um outro, Malal, adversário de Canem , cuj o soberano se cham ava My wsy (palavra que se tem lido com o Maí Uasi).
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Cem anos m ais tarde, a urbanização pouco avançara. Al-Muhallabi, citado por Yakut, m enciona duas cidades zagauas, Manã e Tarásqui, com casebres de varas. Do m esm o m aterial seria o palácio do rei.
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Não é distinto o retrato esboçado, século e m eio depois, por Al-Idrisi. Manã
(ou Matã) seria um vilarej o, de com ércio insignificante. Anj im i não seria m aior, e dela diz ser habitada por gente vil e desprezível. Por m uito povoada tinha um a cidade à qual dá o nom e de Zagaua, m as anota que nela pouco se m ercadej ava. A sua gente cobria-se com peles, enquanto que os soldados do rei viviam em Manã, andavam nus e eram m aj oritariam ente arqueiros.
Al-Muhallabi conta-nos que os zagauas veneravam seu rei com o a um deus. Acreditavam que o soberano não com ia. Para m anter esta crença, o rei tom ava as refeições em segredo. Os alim entos eram trazidos às escondidas ao palácio; se alguém se encontrava por acaso com o cam elo que os transportava, era im ediatam ente m orto. Não se ocultava, porém , que o rei se servia, com os íntim os, de um a bebida feita de sorgo e m el.
O m onarca vestia-se de calças de lã leve e usava, a cair do om bro esquerdo, um pano fino, de lã ou seda, enquanto que a m aior parte de seus súditos apenas cobria as vergonhas com um pedaço de pele.
A autoridade do soberano era com pleta. Tinha o poder de escravizar quem bem quisesse, pois, afinal, era o rei quem determ inava o destino dos zagauas, quem lhes trazia a chuva e a seca, a vida e a m orte, a saúde e a doença.
É bem possível que os chefes zagauas tenham adotado dos agricultores sob seu com ando — e deviam ser num erosos, pois Al-Muhallabi refere que todas as terras férteis eram cultivadas, principalm ente com sorgo, m acunde e trigo — o conceito e as form as da cham ada realeza sagrada. Não se coadunaria, com efeito, o tipo de vida nôm ade com um chefe apartado ritualm ente de seus súditos, deles distante com o um deus, em seu m istério.
E se os zagauas não fossem originalm ente nôm ades? E se “zagaua” fosse o
term o aplicado ao conj unto dos povos que viviam sob o rei de Canem ? 31 E se fosse um grupo local que se transform ou num a aristocracia e subm eteu os
dem ais à disciplina de form as de poder características do estado m onárquico? 32
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E se “zagaua” correspondesse em árabe ao “saô” canúri? O singular em árabe
poderia ser “zagho” ou “sagho”, que se contraíra em “saô”. Nesse caso, zagauas e saôs seriam a m esm a gente — os aborígines, os negros pré-islâm icos que habitavam a região do lago Chade, a gente do sul (“kanem ”, em teda e canúri) — e um outro quadro estaria diante de nós: o de estados surgidos entre povos sedentários, posteriorm ente em polgados por tribos do deserto.
Se era um term o genérico, “zagaua” talvez se endereçasse com m aior probabilidade a nôm ades do Sudão Central. Isso se deduz dos autores árabes, nos quais os zagauas aparecem quase sem pre vinculados ao cam elo e
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frequentem ente, com o em Al-Idrisi, a se deslocar com seus rebanhos entre o
Saara e o Sahel. Mas figuram tam bém com o senhores de cidades e de um ou m ais reinos.
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A tese de que os zagauas estariam na origem de Canem j á foi contestada. Não constam eles de nenhum a fonte canúri, cuj as tradições atribuem o surgim ento de Canem a um herói árabe, Saife ibn Dhi Yazan. Este seria o m esm o neto de Sum afa Axua, o Saife que, no Iêm en, na m etade do século VI, após o falecim ento de Abrá, subiu ao trono com o apoio persa e dele desceu, m orto,
quando os colonos etíopes se rebelaram . Na história canúri,36 seu filho, Ibrahim , em igra para o Sudão Central e se torna o líder de um grupo de nôm ades, os m agum is, que viviam ao nordeste do lago Chade. Com o chefe dos m agum is, Ibrahim e seus descendentes teriam conquistado, em grande parte graças a alianças m atrim oniais, a suserania sobre os vários grupos nôm ades e sedentários da região. A vinculação genealógica da aristocracia m agum i a um herói árabe do Iêm en seria, porém , um fato relativam ente novo — posterior à conversão de Canem ao islam ism o — e destinada a conferir nova legitim idade à linhagem
f
reinante, à cham ada dinastia Sefaua, que iria durar até 1846.
Tudo se altera conform e as leituras e as interpretações que se façam dos autores árabes e das fontes canúris, dentre as quais se destaca o Divã dos sultões
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de Bornu, m eia dúzia de páginas em que, desde possivelm ente a prim eira
m etade do século XIII, os cronistas da corte com eçaram a fixar concisam ente, além das tradições da dinastia, os principais acontecim entos de cada reino.
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Assim , para alguns, os Sefauas continuariam os zagauas, em bora fossem
um a nova estirpe real, de fé m uçulm ana. Para outros,39 os zagauas pouco ou nada teriam a ver com o surgim ento do estado de Canem , tendo sido expulsos da
região quando esse com eçou a tom ar corpo. Há quem pense40 que os dois reinos, o zagaua e o m agum i, conviveram , por m uito tem po, lado a lado, até que o segundo derrotou o prim eiro — e em favor da tese poder-se-ia invocar Al-
Masudi,41 que, escrevendo no século X, distinguia entre os zagauas e Canem .
Existe quem considere42 a persistência da realeza do tipo divino entre os Sefauas com o um a prova de que, em bora sob a liderança m agum i, Canem incluiu os zagauas entre seus form adores, devendo-se a presença atual dos zagauas no Uadai e no Darfur a um a m igração posterior de grupos que se recusaram a
islam izar-se. E não falta ainda quem diga43 que os m agum is não eram o grupo nôm ade cuj a liderança assum iram os epígonos de Saife ibn Dhi Yazan, m as, sim , a linhagem patrilinear dos Sefauas: eles seriam os descendentes de todos os reis da dinastia.
No substrato de quase todas essas visões há algo com um : a im posição de um grupo, local ou forâneo, sobre os dem ais, graças à superioridade que lhe davam o conhecim ento do ferro e o uso do cavalo. Talvez essa suprem acia tivesse sido prim eiro conquistada, não tanto pela atividade m ilitar, quanto pela força do com ércio. Os zagauas transacionariam com o ferro e serviriam de interm ediários entre o deserto, o Sael e a savana. Úteis aos nôm ades e aos sedentários, que confinavam uns com os outros ao nordeste do lago Chade, eles se teriam tornado essenciais para dirim ir, por neutros, as disputas que ali se travavam . De conciliadores e j uízes acim a dos hom ens e de suas dem andas,
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fizeram -se sagrados.
É possível que a verdade sej a outra e que se tenham erigido em senhores com o cam eleiros. Desde cedo, eles participariam do com ércio transaariano, a
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fornecer escravos ao Magrebe e ao Egito. Al-Yakubi refere-se ao tráfico no
século IX, m as não nos diz com o eram obtidos os cativos. Mais tarde, Al-
Muhallabi46 afirm aria que o rei dos zagauas tinha autoridade tão absoluta sobre seus súditos que podia fazer escravos quem deles quisesse. Talvez tenha com eçado assim : a fazer escravos pelas arm as, do alto dos cam elos. Depois, a arrebanhá-los dentre as populações que lhe estavam subm etidas. Mais tarde, a buscá-los entre os vizinhos e em terras distantes. Mudara-se do deserto para o
Sael e a savana. E, ao fazê-lo, desceu do drom edário e m ontou no cavalo.47
Era pequeno, do tam anho de um pônei, o cavalo que os cam eleiros encontraram na savana sudanesa. Escanchavam -no em pelo, pois ali ainda não chegara a sela com estribos. Nem o freio. Apesar disso, o em prego do cavalo am pliaria a eficiência dos exércitos, ao facilitar o deslocam ento das tropas, a perseguição e a captura dos inim igos em debandada e o prear dos escravos, a principal m ercadoria com que os zagauas participavam do com ércio a distância, através do Saara, por cam inhos desde há m uito conhecidos. Cam inhos com a outra ponta no Egito, na Tripolitânia, na Tunísia. Passando pelo Fezzan e o Kawar, por Gate e pelo Air.
O Sudão Central não tinha ouro nem m arfim . Pelo m enos, em quantidades expressivas. Ouro e m arfim eram itens m enores de sua pauta de exportação, com o m enores, em bora m ais im portantes, eram o alm íscar, a pedra-um e, as ceras, as peles e as plum as. Depois que Canem passou a ter, no fim do século X ou início do XI, algum controle sobre o Kawar, ou talvez apenas sobre Bilm a, adicionou o natrão, usado para coalhar o leite e curtir o couro, aos produtos que m andava para o norte. E o sal, aos que fornecia às terras m eridionais.
A m ercadoria de m aior m onta era o escravo. Vendido para servir com o soldado, criado, trabalhador do cam po, concubina ou eunuco, no norte da África. As m ulheres dos arredores do lago Chade eram fam osas, entre árabes e arabizados, pela doçura e pela beleza. E os eunucos, m uito cotados.
Os escravos não serviam , entretanto, apenas com o artigo de exportação. Era com eles que, em Canem , se pagavam tributos e se alcançavam aliados. Num a região pouco povoada, com o a que se estende a leste do lago Chade, a escravaria era indispensável à m ontagem dos exércitos, ao am anho da terra, ao cuidado dos cavalos, dos cam elos, das cabras e dos bois, aos trabalhos m ais hum ildes. E, sem ela, não se podiam cum prir, nos oásis do Kawar, as duríssim as corveias das m inas de sal.
O escravo era obtido pelo sequestro, pela em boscada, pelo ataque de surpresa a pequenos vilarej os e pela guerra. Tanto para adquirir trabalhadores e soldados quanto para lograr m ercadoria de troca, dependiam os nobres de Canem da violência arm ada. E ali, com o em outras partes da África (e do m undo), a guerra tornou-se um m odo de produção.
A sede de escravos favoreceu a expansão de Canem para o sul. Regularm ente, as suas tropas atacavam os povoados agrícolas. Os m ais próxim os foram rapidam ente subm etidos e seus habitantes incorporados ao grosso da população canem bu. Outros, m ais apartados, acom odaram -se à vassalagem , a fim de se protegerem dos assaltos dos escravagistas. Contra os que ficavam ainda m ais longe, m uitas vezes a centenas de quilôm etros do centro de poder de Canem , é que iria exercer-se a atividade predatória do hom em a cavalo.
A dependência do escravo tornou ferozes as relações de Canem com os vizinhos. Gana e Mali, exportadores de ouro e, portanto, centros de poder interessados em que reinassem a paz e a colaboração entre as fontes do m etal am arelo e as praças em que era com ercializado, buscavam am pliar, por m eio de sistem as de aliança e vassalagem , as grandes zonas de influência que eram os seus im périos. Canem , ao contrário, antagonizou constantem ente os sulistas, e entre eles não surgiram estados que o im itassem , nem súditos que lhe fortalecessem os exércitos. Suas tropas tinham de ser engrossadas por escravos e sua força dependia do êxito na guerra. Assim tam bém se explica por que o islão se propagou ao sul de Gana e do Mali, m as continuou ausente nos territórios
próxim os a Canem e Bornu até o século XIX.48 Não havia interesse em propagar a fé entre outros povos, por ser interdito escravizar um islam ita.
Na m etade do século XI — sabem os por Al-Bakri49 — Canem não era m uçulm ana: seus habitantes contavam -se entre os idólatras. É provável, no entanto, que, j á então, a crença islâm ica principiasse a difundir-se, a partir das pequenas com unidades de m ercadores que deviam m orar em Manã e em outras cidades canem bus. Al-Bakri m enciona, por exem plo, que em Canem vivia um grupo de om íadas que conservava os usos e os costum es dos árabes. O próprio com ércio através do Saara era um bom transm issor do islão, pois os m oslins predom inavam nas cáfilas e entre os habitantes dos oásis onde elas se detinham .
A palavra do islam e não saiu apenas da boca dos m ercadores. Veio tam bém com m issionários, hom ens que se acreditavam no dever de propagar a fé. Alguns deles eram xerifes, ou descendentes do Profeta, e andavam por terras distantes, com seus turbantes verdes, a rezar, a pregar, a curar, a dirim ir dúvidas e conflitos, a receber parte do quinto dos butins de guerra, conform e se deduzia do Alcorão.
Muham m ad ibn Mani seria um desses m issionários. A ele atribui-se o ter, no fim do século XI, convertido, ou confirm ado e fortalecido na crença
g
m uçulm ana, Hum é, que as fontes locais e, indiretam ente, alguns autores
árabes 50 têm com o o prim eiro m aí, ou rei de Canem , a abraçar o islão. Ibn Mani talvez j á tivesse pregado o seu credo e lido o Alcorão a três antecessores de Hum é, com o se depreende do m ahram (ou carta de privilégio) concedido à sua
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fam ília. Nele lê-se que Ibn Mani viveu em Canem sob três reis, antes que
subisse ao poder Hum é.
É possível, portanto, que Al-Um ari52 tivesse razão, quando, escrevendo no século XIV, afirm ou que o prim eiro soberano de Canem a tornar-se m aom etano
fora o Haj i al-Osm ani. h Ou Bulu, ou Hu, segundo as fontes locais. Tanto esse prim eiro m aí islam ita quanto seus im ediatos sucessores — ou único sucessor, caso Hu tenha sido o prim eiro converso e a ele se seguido som ente Abd-al-Dj alil — não se teriam dado inteiram ente à fé, nem teriam cortado de todo os laços com as crenças tradicionais. Com o reação a esse estado de coisas, certos grupos de fiéis se teriam congregado em torno de um ram o dissidente da linhagem real,
ou de um a nova estirpe, os Sefauas, para im por o governo do islão.53
Voltem os a Al-Um ari. Diz ele que o país, após a conversão de Canem , passou ao poder da casa de Dhi Yazan. Dos sefauas, portanto. E só após a conversão. Por sua vez, o Divã dos sultões de Bornu, no seu parágrafo 11, após m encionar o m aí Abd-al-Dj alil, afirm a que até então se contara a história dos Bani Duku, e que doravante se narraria a crônica dos Bani Hum é, que professam o islam ism o. Dos
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sefauas, portanto. De um a nova dinastia, cuj o fundador foi Hum é.
Hum é seria, assim , j á m uçulm ano, quando ascendeu ao poder. Usurpador, ele
i 55
teria deslocado os Bani Duku (ou Duguas, em canúri). Sugeriu-se que os duguas seriam um a estirpe real que, envolvida de m odo intenso no tráfico transaariano, substituíra no m ando os zagauas, ainda no século IX. Para Dierk
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Lange não teria havido troca: zagauas e duguas seriam a m esm a gente, “dugua” significando “pagãos”. Ainda que seus últim os reis tivessem sido m aom etanos.
Não seriam , os duguas, pagãos, m as talvez fossem m uçulm anos de fraca observância, contrastando com os sefauas, estritos e zelosos. Dunam a, o sucessor de Hum é, por exem plo, fez três vezes a peregrinação a Meca. Na terceira, afogou-se no m ar Verm elho. Dele diz-se que possuía cem m il cavalos em seus exércitos — núm ero redondo a indicar certo exagero. Suas tropas usavam o litham , o véu que, descendo do turbante, cobre a parte inferior do rosto. Com o entre os berberes. E por berberes há quem faça os ancestrais dos sefauas.
Mas esse é outro enredo, de sinal contrário, proposto por Dierk Lange. Segundo ele, a conversão de Hu fora acom panhada por forte m ovim ento de fervor religioso, que teria afetado o culto da pessoa real e desorganizado a preia de escravos. As conversões em m assa im pediam que se pudessem recrutar cativos no interior do reino e até m esm o nas áreas lim ítrofes. O rápido progresso do islam ism o am eaçava, assim , os fundam entos do poder de Canem . E foi para pôr as coisas de novo em seu lugar que os sefauas, aliados aos berberes e aos pagãos tubus — interessados todos no aum ento do fluxo de escravos para o norte da África — se apossaram do poder.
Hum é seria berbere. Ou de origem berbere. Com o seu nom e, com um entre os berberes até hoj e, parece indicar. O que explicaria certa passagem do Divã (no §16), em que se declara que, até o m aí Salm am a, descendente de quarta geração de Hum é, nenhum sultão nascera negro: todos eram verm elhos com o os beduínos. Não há que tom ar a afirm ação m uito a sério, pois, em outros estados sudaneses que se islam izaram , as tradições propendem a tornar brancos os seus prim eiros governantes, para vinculá-los ao Profeta e a seus discípulos. A brancura dos antepassados de Salm am a poderia pertencer à m esm a esfera lendária que o fazia descendente de Saife ibn Dhi Yazan.
Lange acredita num refluxo do islão, após a ascensão dos Sefauas. Reintroduziram -se os ritos que cercavam a figura divina do soberano. Ele voltara a só falar aos súditos oculto por um a cortina, dentro de um a espécie de gaiola — e assim procederão os sultões de Canem e Bornu até o século XIX. O papel da rainha-m ãe se reafirm ara, conform e tradições locais e contra preceitos m uçulm anos. E a escravaria voltara a cruzar em grande núm ero o Saara.
A reação anti-islâm ica, se realm ente existiu, teria durado até Dunam a Dibalem i, um fervoroso m uçulm ano. Este m aí reinou na prim eira m etade do século XIII, de quando se data a verdadeira aventura im perial de Canem . Com o controle do Kawar, o com ércio do sal e do alúm en aum entaria em im portância. Mas, para garantir o livre trânsito dessas m ercadorias, e tam bém dos escravos, do estanho de Bauchi, do cobre de Takedda, dos cavalos do norte da África, do couro tratado das savanas, dos panos, das espadas, do m arfim , das peles, das plum as, das contas e dos utensílios de ferro, era essencial algum a form a de dom ínio sobre os oásis do Fezzan, parada obrigatória das caravanas que faziam o percurso norte-sul, da Tunísia e da Tripolitânia para Canem , e vice-versa, bem com o a viagem de leste para oeste, entre o Egito, de um lado, e o Mali e Gao, de outro. Dunam a Dibalem i m archou, por isso, contra o Fezzan, derrotou os berberes que com andavam Zawila, o grande centro distribuidor de escravos, e num a nova capital, Traghen, pôs um hom em de sua confiança, possivelm ente
um tubu. 57
Durante todo o seu reinado, Dunam a Dibalem i não deixou que descansassem os braços de seus hom ens nem os cascos dos cavalos. Talvez tenha im posto sua autoridade sobre boa parcela da região a oeste do lago, o Bornu. E, com certeza, intensificou os ataques aos povos sulistas, exclusivam ente, ao que parece, para obter escravos, pois não lhe interessaria, por isso m esm o, expandir naquele rum o o im pério e o Islão. Pela fé, entretanto, em preendeu m ais de um a vez a guerra santa contra as tribos do Sael e do deserto. E pela fé, foi em peregrinação a Meca e deixou, em outras terras, obras pias: a ele atribui-se a criação, no Cairo, da m adrasa (ou colégio religioso) de Al-Rashiq, para uso dos estudantes canem bus.
Internam ente, Dunam a esforçou-se por propagar o islam ism o. Com êxito. Pois, sob ele, a nova crença se espalhou pelo povo. Em bora sem desm anchar inteiram ente a subm issão dos espíritos a antigas convicções, em blem as, ritos e usos. Com o o provaria a séria crise político-religiosa que Dunam a desencadeou, ao resolver abrir — e portanto destruir — o m une, um obj eto sagrado e secreto, fonte da força do rei sobre a natureza e os hom ens, talism ã essencial à felicidade do povo e à vitória sobre os inim igos. A eficácia do m une residia em ser oculto o
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seu conteúdo. Ao descerrá-lo, Dunam a Dibalem i com eteu sacrilégio e atentou
contra um dos fundam entos de seu poder.
É possível que, ao fazê-lo, quisesse destruir um rem anescente do paganism o, cortar de vez os laços com a religião tradicional. Mas os ulem ás, ao que consta, não viram o ato desse prism a: interpretaram a abertura do talism ã com o um a profanação. Sob o islam e, o m une ter-se-ia transform ado em saquina, isto é,
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“um a indicação da onipotência de Deus preservada num obj eto inanim ado”. E
para os pagãos e aqueles que do m aom etanism o tinham apenas a roupagem , quebrava-se a força divina do m aí, negava-se a própria razão de ser do rei. Mudou-se, com isso, a m aneira de olhá-lo, de respeitá-lo e de tem ê-lo. Com o
escreveu Ibn Furtua,60 im am e e cronista de um m aí do fim do século XVI, Idris Alom a, do m une se evolou algum a coisa que despertou nos hom ens poderosos o desej o e a am bição do m ando e do prestígio. Muitos deles, entre os quais filhos do rei, agruparam -se em facções que lhe eram hostis. E os tradicionalistas instigaram contra o m aí os tubus, que viviam em várias partes de Canem e no Bahr-el-Ghazal. A guerra civil disso resultante durou m uito tem po: “sete anos, sete m eses e sete dias”, nas palavras de Ibn Furtua.
Dunam a Dibalem i não m orreu em Anj im i, ou Dj im i, a nova capital, que, ao
nordeste do lago Chade, j substituíra, pouco após a ascensão dos Sefauas, a antiga cidade real, Manã (bem m ais ao norte, a cam inho de Bilm a). Morreu e foi sepultado em Zantam , a 140km a oeste do lago, bem no centro de Bornu. Isto, por volta de 1248.
É possível que tivesse sido obrigado pelos azares da guerra a ali refugiar-se. Talvez estivesse a m eio de um a das viagens que os m aís faziam pelos seus dom ínios, para recolher tributo e arregim entar soldados. Quem sabe se ali não foi acalm ar inquietações ou revoltas? A conquista datava de pouco e não se afasta a ideia de que Bornu, antes de ser parte do im pério sefaua, tivesse sido um reino
independente. 62 Suas antigas elites tenderiam , assim , a resistir ao novo j ugo.
Se Cadaik l e Ibrahim Nicale, sucessores de Dunam a, foram assassinados — o
m
que indicaria a continuação da luta interna —, tanto eles quanto Bir (ou Osm ã), que se seguiu ao prim eiro e ao outro antecipou, parecem ter sido soberanos fortes, que asseguraram a estabilidade dom éstica e prosseguiram a política de
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expansão e conquista.
De Cadai, que teria reinado entre aproxim adam ente 1249 e 1277, diz-se ter consolidado o controle sobre o Fezzan e feito a guerra no sul do Chade. Foi ele quem enviou, entre os presentes de em baixada ao califa Al-Mustansir, de Túnis, um a girafa — “anim al de form a estranha e disparatada”, com o anotou Ibn
Khaldun, 64 e que deve ter causado tanto pasm o, curiosidade e adm iração quanto as que chegariam m ais tarde à corte da China e aos paços de Florença. Ibn Khaldun acrescenta que o rei de Canem era o senhor de Bornu.
Bir “possuiu a terra” — com o se diz no Divã — e faleceu pacificam ente em Anj im i. Seu sucessor, Ibrahim , governava, na passagem do século, um país de aparência tranquila. Tanto assim , que se perm itiu fazer a peregrinação a Meca.
Substituiu-o, em 1315, Abdala ibn Cadain e reinou por vinte anos. Depois dele, irrom peu a grande crise. Quatro de seus sucessores encontraram a m orte nas guerras contra os saôs. O governador do Fezzan tornou-se independente, sob a estirpe de Banu Nasur. E dos lados do Bahr-el-Ghazal e do lago Fitri ressurgiram antigas am eaças.
Houve, entretanto, um quarto de século de trégua. Durante o reinado de Idris
o
ibn Ibrahim , entre c. 1342 e 1366. Seu irm ão e sucessor, Daúde, talvez dando prosseguim ento à política de Idris, tentou recuperar a influên-cia sobre a região que se estendia a leste de Canem , ou pelo m enos ali conter os avanços dos bulalas, senhores do lago Fitri. A guerra desatou-se. E Daúde veio a m orrer, em
1377, num a das cam panhas contra o m alique ou rei bulala Abd-al-Dj alil. p
Os bulalas eram , ao que parece, na sua essência, canem bus. Tom aram o nom e
da linhagem que os com andava e que se tinha, na anotação de Heinrich Barth,65 com o descendente de um filho de Dunam a Dibalem i. Talvez fossem um ram o
dos Sefauas, excluído da sucessão,66 que soube congregar os grupos derrotados por Dunam a, ou por Cadai, ou por Bir, os tradicionalistas que reagiram à abertura do m une e à política de islam ização e que se haviam refugia-do além das m argens do Bahr-el-Ghazal. Esses grupos, ao estabelecerem um reino independente na região do lago Fitri, não teriam rom pido — segundo um a
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hipótese — os vínculos com os habitantes de Canem , m uitos dos quais podem
ter continuado a reconhecê-los com o senhores.
No últim o quartel do século XIV, o país bulala estirava-se, ao norte, até o Borkou e o Air, e passara a controlar grande parte do com ércio transaariano. Possuía — diz-se — 333 m ercados. E seus exércitos dispunham de m ais cavalos
do que os Sefauas. 68 E de cavalos m aiores, das raças de Dongola, trazidos pelos árabes que se deslocavam do alto Nilo e que se som ariam aos bulalas nas lutas
contra os Sefauas, 69 ou im portados do norte da África, com o j á com eçara a
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fazer Dunam a Dibalem i. É possível que tivessem tam bém chegado, com os
anim ais, a sela, os estribos e os freios.
Se assim tiver sido — e das novidades partilhariam os Sefauas —, a arte da guerra sofreu, então, grande m udança. Pois a sela com estribos perm itiu que se transform asse um a infantaria m ontada em cavalaria. Podia-se, doravante, carregar em m assa o inim igo, com bater com lança e espada do alto dos cavalos. Estes passariam a ser protegidos pelo lifidi (um a cobertura de pano acolchoado, que am ortecia o im pacto das setas), enquanto os cavaleiros se am paravam em grandes escudos, capacetes de ferro e cotas de m alha. Todas, inovações vindas, por dem orados cam inhos, do Mediterrâneo, e as duas últim as só ao alcance de alguns poucos.
A cavalaria era, porém , apenas parte das tropas, que se com punham sobretudo de soldados a pé. Apenas parte, em bora cada vez m ais im portante, de exércitos indisciplinados e incoesos, que tiravam seu poder m ais do núm ero do que de qualquer outra coisa. À frente vinha a cavalaria, os anim ais vestidos de acolchoados, os ginetes com cotas de m alha, capacetes de m etal ou turbantes, escudos e lanças em plum adas. Era a nobreza que ia à guerra, e atrás dela, a enorm e chusm a de infantaria plebeia — os arqueiros, os lanceiros, os atiradores de azagaias e facas. Os guerreiros soavam as arm as contra os escudos e cantavam , a bater os pés, com o a espantar com o ruído o inim igo, um ruído a que se acrescentavam os ruflos de incontáveis tam bores e o canglor das trom betas.
A suprem acia dos exércitos bulalas logo se fez sentir. Entraram Canem adentro. E oito m aís seguiram Daúde na m orte, a tentar deter o invasor.
Vindos de leste, novos inim igos som aram -se aos j á existentes: grupos árabes
q
(prováveis antepassados dos atuais xouas aproveitaram -se do estado de guerra e confusão para, com extrem a agressividade, atacar os canem bus e escravizar até
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m esm o aqueles que eram m uçulm anos.
A pressão bulala foi-se tornando intolerável. Os m aís não podiam concentrar frente a ela todas as suas forças. Tinham de com bater os árabes e os tubus. Deviam assegurar seus dom ínios sobre o Bornu e conter as inquietações nos territórios vizinhos, sobre os quais se vinham paulatinam ente derram ando. Ao sul, continuavam a com bater os saôs. Pois não podiam deixar de fazer guerra aos pagãos, um a vez que assim produziam a m ercadoria essencial — os escravos — à troca por cavalos com o norte da África, cavalos sem os quais não lograriam enfrentar eficientem ente os m últiplos inim igos.
A estes agregavam -se os dissidentes dom ésticos — tinha havido um a guerra de sucessão, após a m orte de Idris ibn Ibrahim , entre seus filhos e seu irm ão Daúde, que conquistara o poder, e tornaram -se depois frequentes as lutas entre os dois partidos — bem com o os que, no interior de Canem , faziam causa com um com
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os bulalas. Esse seria o sentido de certa passagem de Al-Macrisi, o qual, escrevendo no início do século XV, afirm a ter o povo de Canem se erguido
contra os m aís e apostatado. E tam bém o daquele trecho do Divã73 em que o rei Um ar ibn Idris (que exerceu o m ando aproxim adam ente entre 1382 e 1387) perguntou aos ulem ás o que devia fazer diante da difícil situação m ilitar em que se encontrava, tendo esses lhe respondido: — Abandona este lugar, Canem , de onde desapareceram os aliados.
Um ar reuniu os seus bens e exércitos, e partiu para Caiga, no Bornu. A m enos que isso tenha ocorrido uns vinte anos antes, no reinado de Daúde — com o relata
Ibn Furtua. 74 Ou que a corte se tenha transferido para o oeste do lago Chade
ainda m ais cedo, em bora os exércitos do m aí continuas-sem em Canem . 75
Parece claro que os Sefauas, ao abandonar o Canem pelo Bornu, fizeram um a escolha entre a terra de seus antepassados e um a nova fronteira. Trocaram o Sael pela savana. Já que não tinham condições m ilitares para conservar os dois espaços que até então ocupavam , decidiram -se pela região de m elhores solos e m ais úm idos, de pastos m ais frescos e em cuj os arredores havia novas fontes de escravos. Entre o Bahr-el-Ghazal que ressecava, ao deixar de ser alim entado pelas águas do Chade, que abaixavam e recuavam , e o Kom adugu Yobe, que, por aquela época, fluía continuam ente entre as suas m argens, optaram por este. E pelas oportunidades com erciais que ficavam além dele, num a Hauçalândia cuj as cidades, desde talvez a m etade do século XIII, cresciam com o centros m anufatureiros e m ercantis. O ouro, que se descobriria em Zam fara e em Kangom a, aum entaria ainda m ais a disputa pelo controle da recolha e da distribuição de bens na am pla área entre o lago Chade e o rio Níger. Am eaçados pela expansão com ercial do Mali e dos m ercadores m andingas, os Sefauas
elegeram defender prioritariam ente suas posições ocidentais, no Bornu, 76 de onde partiam rotas transaarianas para a África do Norte e o Egito, sem passagem por Canem .
Os Sefauas m udavam para longe o centro do reino, m as dele conservavam as estruturas e as hierarquias. Pois Canem , com o outros estados do Sudão, era m ais um dom ínio sobre grupos hum anos do que sobre territórios. Suas fronteiras não eram delim itadas e sofriam alterações de ano para ano.
O reino com preendia m uitos povos distintos, tendo um cerne canem bu, em Canem , e canúri (o resultado da aglutinação de canem bus e saôs) no Bornu. Muitas tribos, vilas ou grupos nôm ades continuaram a m anter, após conquistados, seus chefes tradicionais, os bulam as, subordinados em geral a representantes do m aí, com andantes m ilitares que, em grande parte, eram príncipes da casa real. Essa classe m aína, ou dos príncipes, cresceu em força, com a am pliação do poder sefaua, um a vez que os novos povos dom inados passaram a ser entre ela divididos, com o ci, ou um a espécie de feudo — um feudo sobre pessoas e, através das pessoas, sobre as terras que estas cultivavam .
Tam bém se davam cis aos m ais im portantes servidores da corte: o arginom a, o m ustrem a (ou chefe dos eunucos), o ierim a, o tegom a e o cirom a (herdeiro presuntivo do trono). Esses dignitários, que vinham da fase anterior à conversão ao m aom etanism o, form avam a classe dos cogem as e conviviam com os funcionários tradicionais do islão: vizires, cádis, cazins etc. O prestígio desse
últim o grupo aum entou com o tem po, m as se ignora se recebia cis.77
Havia quatro grandes com andantes em chefe, sediados na corte e responsáveis, em princípio, pelas partes do im pério que ficavam na direção de cada um dos pontos cardeais. Esses com andantes e m ais oito próceres form avam
o grande conselho, que aj udava o rei a governar. 78
Muito influentes e poderosas eram a rainha-m ãe, ou m agira, e a rainha-irm ã, acim a das quais só existia o m aí, recluso, m isterioso, quase divino.
Tão logo os Sefauas transm igraram para Bornu, os bulalas fizeram -se senhores do espaço anteriorm ente ocupado por Canem , ainda que m antendo sua capital ao norte do lago Fitri. Da nova posição, continuaram a fazer guerra aos Sefauas, que nela perderam m ais dois soberanos. Finalm ente foram contidos, no início do século XV, pelo m aí Osm ã ou Bir ibn Idris.
Osm ã reinou durante três décadas. Que não foram de paz. A expansão do Bornu exigia constantes inj eções de novos escravos e estes tinham de ser buscados na guerra. Um a vez por ano, o m aí prom ovia um a cam panha contra os vizinhos pagãos. Pelo m enos é o que nos diz Leão Africano, que escreveu sobre
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Bornu, no início do século XVI. Segundo ele, os m ercadores que vinham da
África do Norte trocar cavalos por escravos tinham frequentem ente de esperar m uitos m eses e até um ano, antes que o sultão lograsse reunir o núm ero de cativos necessários para pagar os anim ais que traziam . Estes anim ais deviam m orrer com facilidade no Bornu e tinham de ser constantem ente substituídos. A um preço alto: de quinze a vinte cativos por corcel. E, em bora Leão Africano fale da riqueza do m aí em ouro — de ouro eram os arreios de seus cavalos e as correntes de seus cães —, acrescenta que o Sefaua não gostava de pagar em m etal e preferia usar com o m oeda o escravo. A caça ao hom em continuara, portanto, a ser a base do com ércio exterior canúri e essencial ao poder do estado.
A essas cam panhas m ilitares periódicas devem ser som adas as batalhas que o m aí teve de travar contra os árabes, que assolavam o norte do Bornu. E tam bém as lutas que lhe opôs o caigam a, o com andante em chefe da região sul, o senhor de Caiga, ao disputar-lhe a autoridade. O caigam a talvez fosse o titular de um posto reservado à classe m aína e talvez, antes da m udança com pleta do m aí para Bornu, ali gozasse de plena liberdade de ação, à frente dos exércitos m ais aguerridos de Canem , um a vez que tinha sob seu cuidado a fronteira dinâm ica do im pério. Com a chegada de Um ar e sua corte, choques de com petência tornaram -se inevitáveis e conduziram a um conflito que voltaria a repetir-se m ais tarde. A disputa entre m aís e caigam as caracterizaria os reinados seguintes, havendo os caigam as logrado vencer e depor dois soberanos. É possível que com o caigam a alinhassem as antigas aristocracias locais, insatisfeitas com o novo tipo de dom ínio que lhe era im posto pela presença próxim a e constante do m aí.
Os caigam as procuraram explorar as rivalidades entre os descendentes de Idris ibn Ibrahim e os de seu irm ão Daúde. Em vinte anos, nove reis se sucederam : de um a e de outra linhagem . Sem pre com luta aberta. Até que, por
volta de 1465, subiu ao poder Ali Gagir (ou Ali, o Pequeno). Era da estirpe de Idris e é tido tradicionalm ente com o um dos m aiores soberanos de Canem .
Ali Gaj i destruiu de vez o que restava do poderio da casa de Daúde e im pôs a paz interna, a sua paz, entre os Sefauas. Atacado pelos bulalas, ao noroeste do lago Chade, venceu-os de form a nítida, abrindo, assim , o cam inho para seu filho
e sucessor, Idris Catagarm abe, s que deu com bate aos bulalas em pleno antigo território de Canem e chegou a reocupar, por duas vezes, a cidade de Anj im i.
Apesar dessas vitórias, não se sentiram os Sefauas tentados a regressar às plagas de seus ancestrais. Sua aventura tinha, desde há m uito, outra direção. Tanto que se afastaram ainda m ais da antiga capital e tam bém da região dos caigam as. No rum o da Hauçalândia. Para fazer frente à com petição dos songais. Em todos os planos. Até m esm o no ideológico. Com o o m ostraria ter-se Ali Gaj i proclam ado califa, possivelm ente com o resposta a igual decisão do Ásquia
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Ao se transferirem para o Bornu, os Sefauas teriam vivido prim eiro ao sudoeste do lago Chade, na região do firki. Em cidadezinhas com o Caiga, Yedi, Marte e Garu Kim e (ou Wudi). Talvez m udassem periodicam ente de capital, vagueando pelas suas terras, com o os negachis etíopes da dinastia salom ônica, ou se instalando, conform e os azares das lutas sucessórias, naquelas partes onde se sentiam m ais apoiados e m ais fortes.
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O firki e seus côm oros sem iartificiais não seriam , contudo, o m elhor hábitat para um a elite que assentava grande parte de seu poder no cavalo e no cam elo, um a elite acostum ada à areia, às grandes dunas interrom pidas por planuras argilosas. Havia que fugir às inundações, que causavam dano aos cascos dos cavalos, e à tsé-tsé. E Ali Gaj i, sentindo a urgência de um a m orada perm anente, onde sua autoridade se tivesse por bem definida, foi instalar-se ao noroeste do lago, em Garoum élé, tendo talvez construído o conj unto de palácio e fortaleza
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cuj as ruínas ainda hoj e se veem . Em Garoum élé, contudo, pouco tem po ficou.
Transferiu-se para o vale do Yobe, para dentro da forquilha form ada pela confluência desse rio com o Gana, para Birni Gazargam u, um a cidade que fundou, a controlar o prim eiro grande curso d’água ao sul deserto e a m eio cam inho entre o Chade e a Hauçalândia.
De Birni Gazargam u (ou Kars Kum o), cercada por forte m uralha de terra, Ali Gaj i com andou, até a m orte, em 1503, um reino bem m enor do que o dos seus antepassados, porém m ais seguro e estável. Não decorreriam m uitos anos e seus descendentes fariam de Bornu um grande im pério, tendo por centro, até 1809, quando os fulas a invadiram e ela foi abandonada por seus habitantes, a cidade a que deu form a e vida.