A Enxada e a Lança
15. Zimbabué
15
Zim babué
Na m etade do prim eiro m ilênio de nossa era, à extensa área entre os rios Zam beze e Lim popo j á haviam chegado os povos bantos e, com eles, a agricultura, o pastoreio e a m etalurgia. Presum em -se, com efeito, bantos ou abantuzados os grupos que se englobam na cham ada cultura de Gocom ere — da caverna na encosta ocidental da m ontanha do m esm o nom e, a trinta quilôm etros ao norte de Forte Vitória.
A cultura de Gocom ere é caracterizada por um a cerâm ica parecida com a do início da Idade do Ferro na Zâm bia e no Maláui. Predom inam os vasos boj udos, de paredes grossas e cozedura im perfeita, decorados, no estreitar-se da parte superior, m uitas vezes em gargalo côncavo, com um a banda de caneluras, que pode ser acom panhada por um a série de relevos em form a de hasta. O colo ou o rebordo da vasilha recebia, em diagonal, num erosas linhas de ponto, sem elhantes às que se obteriam ao se im prim ir no barro m ole as pontas dos dentes de um pente. Tam bém num erosas eram as tigelas rasas, quase sem enfeites, reduzindo-se a decoração a um a linha de pontos estam pados na argila.
Em Mabveni, nos níveis m ais baixos da Acrópole de Zim babué, em Gocom ere e em Malapati, acharam -se vestígios de aldeias, datadas, respectivam ente, dos séculos II, IV, VI e IX, com casas feitas de pau a pique e daga — cascalho m isturado a argila verm elha ou am arela, a esterco de vaca e a cupinzeiros triturados, para form ar um a pasta com a qual se erguem paredes e m uros tão bem -acabados, que apresentam um a superfície dura, lisa, quase polida e de grande resistência à ação do sol, das chuvas e do tem po.
Em Mabveni, por exem plo, encontrou-se um a pilha de daga, que se tem identificado com o um depósito de cereais, sem elhante aos que até hoj e existem . Teria sido construído com estacas e argam assa sobre um a base de m adeira apoiada em quatro pedras, de m odo a im pedir que os roedores pudessem chegar ao silo. Os habitantes de Mabveni j á conheceriam , assim , a agricultura, e disto, ou, pelo m enos, do fato de que j á apanhavam os cereais silvestres, dão testem unho os alm ofarizes que ali se descobriram .
A coleta e a caça devem ter tido im portante papel em suas vidas. Pelos restos de ossos, sabe-se que m atavam o búfalo, a im pala, o boi-cavalo e a zebra. Criavam caprinos e ovinos. Nesses prim eiros tem pos, o gado vacum , corrente ao norte do Zam beze, era raro ao sul do rio, onde não faltavam o carneiro e a cabra. Só m ais tarde, a partir do século VIII, com eçou o boi a ocupar posição de destaque nos rebanhos.
Em Mabveni e em Gocom ere, o carneiro está representado no barro. Nas duas estações arqueológicas, desenterraram -se tam bém estatuetas de seres hum anos, feitas de argila, bem com o fios de cobre e contas de ferro, cobre, vidro e conchas — estas duas últim as a insinuarem esporádicos contatos com erciais com o litoral.
Nos depósitos gocom eres são raros os fragm entos de ferro, em bora abundem as escórias e as bocas de forj a (tuy ères). Só se deviam fazer de ferro pequenas peças: pontas de flechas, contas, navalhas e anzóis.
Lentam ente, essa cultura expandiu-se para o sul. Os depósitos de Malapati j á se encontram sobre o rio Nuanetsi, e os achados da fazenda Happy Rest, do outro lado do Lim popo.
Para o nordeste, próxim o às m ontanhas de Inianga (ou Inhanga) e nas vizinhanças das cabeceiras do rio Mazoé e de seus afluentes, desenvolveu-se, entre os séculos IV e XI, um a cultura afim à gocom ere, talvez sua irm ã e
contem porânea. É possível que seu território se estenda Moçam bique adentro. 1
Essa cultura tom ou o nom e de Zíua, da fazenda onde se acharam os prim eiros exem plos im portantes da cerâm ica que a caracteriza, um a cerâm ica do tipo da de Gocom ere, desta se diferenciando por m elhor cozida e por apresentar decoração m ais requintada e rebordos m ais variados e elaborados. Com o tem po, os vasos de barro zíuas tornaram -se, porém , m ais sóbrios.
Cavernas, túm ulos e restos de vilarej os deixaram aparecer não apenas obj etos de cerâm ica, m as tam bém artigos de cobre e ferro, contas de conchas, um fragm ento de cauri, grãos de m ilhete. E encontraram -se vasos de barro de fatura zíua m ais recente em quatro dos m ais antigos sítios de onde se retirava ouro: Golden Shower e Three Skids (no vale do Mazoé), Hot Springs (no vale de Save)
e Three Mile Water, perto do Qué-Qué.2
Tudo indica que nenhum a das m inas sej a anterior ao século IX ou tivesse com eçado a ser explorada depois do século XI, período que coincide com a
prim eira notícia árabe — a de Al-Masúdi 3 — sobre o com ércio de ouro entre Sofala e o interior. Talvez os habitantes da área j á catassem , desde antes e de form a esporádica, o ouro. Talvez j á nos séculos VIII ou IX figurasse o ouro nas trocas com os barcos que desciam a costa em busca do m arfim e paravam em
4
Chibuene e outros pontos da baía de Vilanculos. E talvez tenha sido esse com ércio o que estim ulou a busca sistem ática do m etal am arelo.
Zim babué e o m onom otapa
Mais de m il m inas de ouro anteriores à chegada dos europeus j á foram descobertas entre o Zam beze e o Lim popo, e tam bém em Botsuana e no Transvaal. Deviam ser m uitas vezes m ais num erosas.
As j azidas eram exploradas a céu aberto ou em escadas. Escavava-se o terreno num a extensão não m ais larga do que o veio, a qual se ia posteriorm ente am pliando e aprofundando em form a m ais ou m enos de V. Soltava-se o cascalho por m eio do contraste entre o fogo e a água ou com ponteiros de ferro. O m inério
era depois m oído e lavado, para separar o ouro. 5 Os esqueletos encontrados em algum as dessas antigas m inas fazem supor m ão de obra fem inina e j ovem , entre
6
18 e 25 anos.
Tam bém m ineradores ou traficantes de ouro eram , ou se tornaram , os grupos de im igrantes que, entre os séculos IX e XI, vieram ter às cabeceiras e ao sul do rio Lúndi. Talvez proviessem das ricas pastagens de Angola e do norte de
Botsuana, 7 e traziam com eles rebanhos bovinos, que guardavam , em grandes currais, no centro de suas aldeias.
O boi tinha entre eles enorm e im portância. E não apenas com o bem econôm ico. Além de figurinhas de barro a representá-lo, encontraram -se ossos do anim al em alguns túm ulos e identificaram -se sepultam entos de seus chifres
8
em vasos de cerâm ica. Tudo sugere que talvez fosse ele obj eto de culto.
Acredita-se 9 que esses grupos j á conheciam a ordenha da vaca e usavam o leite com o um dos seus m ais im portantes alim entos. Pertenciam a um a cultura a um só tem po agrícola e pastoril, que teria talvez absorvido as novas técnicas de criação de gado desenvolvidas pelos povos nilóticos. Essas técnicas ter-se-iam propagado na direção do sul, ao longo das duas m argens do lago Tanganica, e depois se estendido pela parte m eridional da República Dem ocrática do Congo,
pelos planaltos de Angola, pelo norte de Botsuana e pelo alto Zam beze. 10
Dos nilóticos, ou talvez, antes deles, dos cuxitas, esses grupos, com o outros de bantos orientais, adotaram vários traços de cultura. Pelo m enos é o que pensa
Roland Oliver,11 que m enciona a form a que tinham de m orar e de ocupar a terra. Enquanto os bantos que são pescadores e plantadores de bananeiras e de inham es residem geralm ente em casas quadradas, com telhados de duas águas, a enfileirarem -se ao longo da praia, do rio ou da estrada, os bantos pastores e cultivadores de cereais habitam predom inantem ente casas de planta redonda, em form a de colm eia ou com paredes cilíndricas e tetos cônicos, apoiados num poste central, casas que se j untam , por fam ílias, em recintos m urados e espalhados livrem ente pelo cam po.
12
Outra hipótese é a de que essa gente que se instalou nas cabeceiras e ao sul
do rio Lúndi e se difundiu pelo planalto não tenha vindo do oeste nem do norte, m as do sul: da outra banda do Lim popo. Ela seria descendente de grupos bantos que teriam atravessado o rio, nos prim eiros séculos de nossa era, e se estabelecido nas terras férteis e irrigadas do Drakensberg. Possuíam um as poucas cabeças de gado bovino, as quais, num am biente favorável, pronto se m ultiplicaram em grandes m anadas. Tam bém os hom ens cresceram em núm ero. E com seus rebanhos voltaram a ocupar o Lim popo, retornando assim ao norte, com um a nova cultura, na qual o boi tinha posição predom inante.
Eram tam bém agricultores. Cultivavam o sorgo, o m ilhete, o m acunde e vários tipos de feij ão, nos solos ricos onde ergueram m uitas de suas aldeias, algum as vezes nas vizinhanças de m inas de ouro.
Um a das form as que tom ou esse novo tipo de cultura foi pela prim eira vez identificada em Leopard’s Kopj e, a 24km a oeste de Bulaway o, e daquele lugar tom ou o nom e. Ali, ela sobrepõe-se a um a indústria m ais antiga, aparentada à gocom ere.
Da cerâm ica gocom ere, a de Leopard’s Kopj e distingue-se por ser m ais sim ples. Apresenta grande núm ero de copos, tigelas e vasos boj udos, de gargalos direitos ou côncavos, decorados com barras form adas por incisões de cristas, ondulações ou linhas diagonais. Mais tarde, surgirão novos m odelos — tigelas rasas ou travessas — e o vasilham e se m ostrará m uito m ais bem -acabado, com a face exterior adm iravelm ente polida. O colo dos potes passa a receber um novo tipo de ornam entação: um a banda de triângulos som breados.
No barro m oldavam -se tam bém boizinhos e pequenas figuras de m ulheres, m uito estilizadas, sem cabeça e sem braços, m as de nádegas enorm es. A esteatopigia sugere um com ponente coissã — m uito possível, quando se considera que os bantos se devem ter m iscigenado com populações hotentotes e bosquím anas que encontraram no planalto.
Os grupos da cultura de Leopard’s Kopj e conheciam o ferro e com ele faziam pontas de flecha, enxadas de lâm inas sim ples, contas e braceletes. Usavam m içangas de vidro, im portadas do litoral, e adornos de fio de cobre entrançado. Moravam em cabanas de base circular, de j unco, m ais frágeis do que as de Gocom ere e apenas parcialm ente rebocadas de argila. Cada um a delas tinha de 3 a 3,60m de diâm etro. O piso era de terra batida, e o teto, de colm o. Distribuíam -se ao redor de um curral central, onde se guardava o gado e se enterravam os m ortos — tal com o se observou em Bam bandy analo, im ediatam ente ao sul do Lim popo.
Até ali, e talvez até m ais adiante, estendeu-se para o sul a cultura de Leopard’s Kopj e. Para o norte, com preendia o sudoeste do planalto. Seus vilarej os procuravam m uitas vezes as cristas das serras ou as colinas rochosas e protegiam -se atrás das fragas, cuj os intervalos eram enchidos de pedras. Com pedras em pilhadas, seus habitantes form avam socalcos nos declives dos m ontes e neles dispunham suas roças.
A partir do fim do século XII, aum entaram os contatos desse povo com as cidades-estado do litoral do Índico. Am pliou-se a m ineração do ouro. E o com ércio deve ter contribuído para acentuar a hierarquização da sociedade e consolidar o poder de um a classe dirigente, fundada, de início, na posse de m aior
núm ero de cabeças de gado do que o detido pelo com um das gentes. 13 O aum ento dos rebanhos ter-se-ia dado assim em favor de um pequeno grupo, cuj a riqueza crescia rapidam ente com cada novo anim al produtivo. Quanto m ais vacas se tivesse, m ais veloz era o ritm o de investim ento natural e m ais depressa se acrescentava a riqueza. Um grande rebanho significava, em condições clim áticas relativam ente estáveis, um rebanho ainda m aior a curto prazo. A vaca era um bem de capital, e um sistem a pastoril relativam ente sedentário facilitava a concentração da riqueza e do poder.
Da existência de um a classe dirigente diferenciada do resto do povo, por ter m ais gado e controlar o com ércio, dá prova, no centro das escavações feitas em Mapela, um grupo de casas construídas de m odo distinto das dem ais: com um piso grosso e paredes e cornij as de daga espessa, forte e lisa. Essas m oradas dos privilegiados ficavam no topo achatado dos alcantis.
Para baixo, a descer as encostas até o vale do rio Cháchi, um a série de terraços, sustentados por m uros de pedras, abria lugar para a construção de choças e m ultiplicava os pontos de defesa. As obras datariam dos séculos XIII e XIV, quando Mapela devia ter um a população considerável, sob forte controle político, capaz de fornecer a m ão de obra organizada para quebrar, arrancar, m over encosta acim a e am ontoar tam anha quantidade de pedra.
Os achados de Mapungubué confirm am e reforçam esse retrato. Mapungubué é um m onte alcantilado na m argem m eridional do Lim popo, a 1.600m da confluência deste com o Cháchi. No alto dessas escarpas de m ais de sessenta
m etros de altura, vivia, desde o fim do século XI ou início do XII, 14 um punhado de nobres, ou um rei e sua fam ília. Eram respeitados e obedecidos pela m assa da população, cuj as choupanas se erguiam na plataform a sul do m onte ou no vale que se estende a seus pés até o rio.
Sugeriu-se que Mapungubué fosse, além de um em pório do ouro, do m arfim e do cobre — o vale do Lim popo é rico deste m inério —, um lugar sagrado, um centro ritual de im portância. Até bem pouco, a gente que por ali vivia o
reverenciava com o tal.15
A elite, que exercia o poder político, intercedia j unto ao invisível, m onopolizava o com ércio e controlava o grosso do gado, m orava em casas sólidas de daga, m uitas com pátios e varandas. Vivia de form a distinta e apartada da m assa. Quando um dos seus m orria, era enterrado em posição contraída, argolas de cobre a lhe ornarem braços e pernas. Com três esqueletos, encontraram -se contas de ouro e braceletes de fio do m esm o m etal, bem com o restos de obj etos de m adeira chapeados de ouro: apoios de cabeça, bastões, tigelas. E tachas de ouro, que serviam para fixar a folha m etálica na m adeira.
Para nordeste, desenvolveu-se um a outra cultura, estreitam ente aparentada à de Leopard’s Kopj e e dela tendo a m esm a origem , a de Gum any e. A esta cultura, atribuem -se as fam osas ruínas do Grande Zim babué, 27km a sudeste de Forte Vitória.
Ali, próxim o às águas de um dos afluentes do Lúndi, o Mtilikwe, num a área não afetada pela tsé-tsé, de solos férteis e leves, facilm ente cultiváveis, e que, ao contrário da m aioria das terras circunvizinhas, m antém , graças às névoas úm idas e às chuvas frequentes, o seu verdor o ano inteiro, ergue-se um m onte apenedado. Entre os grandes m atacões de granito que o encim am , abrigou-se, até o século IV, um grupo de agricultores, pertencente à cultura gocom ere.
Depois de abandonado, o outeiro só voltou a receber a presença hum ana perm anente no século X ou XI, quando um bando, sem elhante em seus costum es à gente de Leopard’s Kopj e, nele se instalou, em pequenos conj untos de cubatas de varas, rebocadas de barro, com um curral ao lado. Suas roças ficariam possivelm ente no vale, logo abaixo.
Na com unidade, faziam -se vasos de cerâm ica, sem decoração ou m uito pobrem ente ornam entados, bem com o tigelas hem isféricas. Obras de qualidade irregular e m á cozedura. E m oldavam -se estatuetas hum anas estilizadas e boizinhos, estes bastante realistas. Um deles apresenta enorm es chavelhos.
Alguns pensam 16 que a religião estaria na base do Grande Zim babué. O outeiro poderia m esm o ter sido escolhido por ser um lugar sagrado, talvez um
centro de invocação das chuvas17 e dos ancestrais — se, com o tudo indica, seus
habitantes pertenciam à nação xona, a que até hoj e dom ina a região.
Os atuais xonas conhecem um deus suprem o, Muári, com quem os hom ens com uns não se com unicam diretam ente. Os espíritos dos m ortos podem , porém , falar com o criador e é por m eio deles que lhe chegam as preces e os rogos dos hom ens. Tanto as alm as dos fam iliares, a que cham am vadzim u, quanto as da tribo, os um ondoros (m hondoro), ancestrais das dinastias reinantes, servem de interm ediários entre os vivos e a divindade, e com o tal são venerados. Venerados e glorificados no alto das colinas.
Não é im possível que a pequena aldeia no cim o do outeiro deva seus prim eiros im pulsos de crescim ento diferenciado ao prestígio religioso de seus chefes, m édiuns de invulgar força, e ao poder dos um ondoros que invocavam . As oferendas e os tributos dos povos vizinhos — em gado, cereais, sal, m arfim , cobre e ouro — teriam criado os grandes excedentes que perm itiram o com ércio a distância, um com ércio de bens supérfluos e de luxo, que tinha por endereço os privilegiados m oradores do alto do m onte.
Aqueles que se opõem a esta teoria 18 traçam um enredo diferente. A religião pouco ou nada teria a ver com a ascendência que assum iram na área os dirigentes de Zim babué. O grupo da cultura de Gum any e que se estabeleceu no outeiro sabia fazer a guerra e, graças às suas arm as e aos seus grandes rebanhos, assum iu liderança incontrastável na região. Com o boi, com prava esposas, cuj os parentes iam engrossar-lhe os núm eros, som ava sequazes, cim entava alianças e várias form as de dom ínio. Cedo, com eçou a cobrar taxas de passagem aos que transacionavam com o ouro de Leopard’s Kopj e e com as m ercadorias do Índico. Mais tarde, assum iu o controle das rotas entre os cam pos auríferos, os rios e a costa m arítim a.
Há m esm o quem pense 19 que foi o com ércio a distância o principal estím ulo na form ação do Grande Zim babué. Quer os am uralhados e a entidade política de que eram o centro tivessem tido origem religiosa ou m ilitar, o dom ínio do fluxo de m ercadorias entre o planalto e a costa determ inou o crescim ento do Grande Zim babué. Não que as transações a distância afetassem a econom ia de subsistência da m aior parte da população. Mas acrescentavam riqueza e pom pa ao poder dos chefes e lhes perm itiam distribuir entre os que lhes prestavam obediência artigos de luxo altam ente valorizados, com o os panos coloridos da Índia e as contas de vidro.
Em favor da tese de que o poder dos dirigentes do Grande Zim babué não se assentava na força m ilitar, m as na ascendência religiosa, argum enta-se que pouco existe no outeiro que sugira um a concentração de hom ens arm ados. Os m uros de granito no cim o da colina podem ter tido inicialm ente obj etivo m ilitar. Podem ter sido cidadelas. Podem ter sido construídos para guardar os m oradores de ataques inim igos. Mas, se assim foi, esse tipo de proteção m ais tarde se fez desnecessário. Pois as edificações posteriores se assentam no vale aberto e suas entradas são vulneráveis, não apresentando — nem elas, nem as do outeiro —
baluartes, am eias ou seteiras. 20
Nem disto necessitavam — atalha D.N. Beach.21 Zim babué exercia a ofensiva na área, e m uralhas e fortes são erguidos, de m odo geral, para a defesa, pelos que se sabem m ilitarm ente m ais fracos, pelos que se consideram am eaçados por rivais, no caso inexistentes.
Para controlar os cam inhos do com ércio, o Grande Zim babué detinha um a boa posição geográfica. Ficava perto da principal área produtora de ouro e na linha m ais curta e direta entre ela e a costa: descia-se o Mtilikwe até o Lúndi e por ele ganhava-se o vale do Save, o litoral e, no litoral, Sofala.
No século XI, Zim babué não era m ais que um vilarej o, m enor do que m uitas das outras povoações da cultura de Leopard’s Kopj e. Mas assistia à cristalização de um a reduzida classe dirigente. A m enos que essa lhe tenha vindo de fora. Ao lem brar que m uitas das características de Zim babué j á estavam presentes em
Mapungué, quando de seu abandono nos m eados do século XIII, T.N. Huffm an22 sugeriu que a elite que nessa vivia se tivesse transferido para o norte. Por isso, diz
ser Mapungué a prim eira capital de Zim babué.23
Na região, a incipiente técnica de em pilhar pedras para arrim ar socalcos, dividir cam pos de cultivo, erguer currais e cercas de defesa, evoluíra para perm itir que se fabricassem , com blocos de granito m ais ou m enos retangulares, m uralhas, algum as delas im ponentes, que cercavam e escondiam grupos de cabanas de daga e sapé, onde vivia a pequena elite governante. Os m uros de
24
pedra, ao que tudo indica, sim bolizavam autoridade e prestígio.
No princípio, as paredes de pedras soltas, sem argam assa, apenas ligavam entre si m atacões de granito que existiam no alto do outeiro. Depois, as am uradas foram -se desenvolvendo livrem ente, a cercar grandes recintos. Erguidas sobre bases rochosas, subiam m uitas vezes por cim a das fragas ou se debruçavam sobre o precipício, que, para o lado m eridional, caía de 91m de altura.
O m aterial para a construção desses m uros era abundante. Com o descascar natural dos dom os de granito, am ontoavam -se no solo lascas de lados paralelos, de 7 a 18cm de espessura, que se cortavam no com prim ento desej ado. O processo de esfoliação da rocha podia ser acelerado com cunhos e m artelos, para am pliar fraturas, ou aquecendo-se a pedra com fogo, para em seguida
25
esfriá-la com água.
Os toscos paralelepípedos assim obtidos eram colocados em fieiras, e estas, um as sobre as outras, não tinham qualquer m assa a ligá-las. Com o as pedras fossem de tam anhos distintos e não sofressem aparos e cortes que as tornassem m ais regulares, as linhas horizontais que form am são im perfeitas, desiguais, ondulantes. Dão, contudo, ao se aj ustarem o m elhor possível entre si, certa im pressão de acabam ento aos lados de paredões que podem ter de 1,22 a 5,20m de espessura. O espaço entre as duas faces era preenchido com pedras de todo irregulares — e assim se form ava um a base larga, capaz de dar grande estabilidade a m uros que geralm ente se elevavam até o dobro da grossura.
Num certo ponto, erguia-se pequeno trecho do paredão até a sua altura definitiva. Depois, o m uro era estendido em escada, na direção do com prim ento, de m odo que os trabalhadores não necessitavam de andaim es para chegar à parte m ais alta da obra. E, assim , ia a m uralha a cam inhar à vontade pelo terreno, sem obedecer a plano específico, m as apenas a um a determ inada intenção. Todos os m uram entos são curvos: não se veem linhas retas, nem ângulos. E, quando um a parede encontra outra, a esta não se liga: entre elas ficava um pequeno espaço aberto, m uitas vezes preenchido por pedras soltas, colocadas no sentido vertical. As portas tinham em geral patam ar acim a do nível do solo; na parte superior, um dintel sustentava o m uro, que passava ininterrupto por cim a da abertura.
Pássaros em pedra-sabão (37cm e 42,5cm de altura)
No início do século XIII, os donos do poder concentravam -se na colina. O conj unto de m uralhas que os abrigava tem sido cham ado de Acrópole, e nele se distinguem dois grandes recintos: o da extrem idade ocidental e o da extrem idade oriental.
O prim eiro, cercado por anel de pedra de uns nove m etros de altura, com torreões e m onólitos a encim á-lo, continha cerca de 14 cabanas circulares, de paredes grossas de daga. Ali não m orariam , portanto, m ais de cinquenta adultos.
No segundo, onde provavelm ente se realizavam os ritos sagrados, devia haver várias plataform as e terraços, em que se inseriam toscos m onólitos, talvez em honra e m em ória dos grandes m ortos. Alguns m onólitos eram coroados por figuras de pássaros, lavradas em pedra-sabão.
As esculturas, com cerca de quarenta centím etros de altura, arrem atavam fustes de pouco m enos de um m etro. Delas encontraram -se sete com pletas e a parte inferior de um a oitava. Cada pássaro — seriam gaviões, abutres, papagaios, falcões, algum a outra ave de rapina? — apresenta desenho ou elem entos de decoração que o diferenciam dos dem ais, com o a m arcar-lhe a singularidade. Apesar disto, podem ser classificados em dois tipos: no prim eiro, o pássaro m ostra-se agachado, com as pernas dobradas, a cabeça em ângulo reto em relação ao longo pescoço; no segundo, as pernas são direitas e a cabeça estira-se para o alto, o traço inferior do bico a continuar a linha vertical do pescoço.
26
Naquele, a ave não possui cauda; neste, o rabo abre-se em leque. A fatura das
im agens é rude, com o se as aves não aspirassem a voar. São figuras tesas, nas quais nada insinua a plum agem , as garras se am olecem em dedos e apenas os bicos, que não se distinguem do rosto, sugerem ferocidade.
Em nenhum a outra parte — a não ser em Sakoam bé, em Madagáscar — encontraram -se esculturas sem elhantes a essas. Contribuem elas para distinguir o Grande Zim babué dos dem ais conj untos de circos de pedra que se espalham entre o Zam beze e o Lim popo. É o m aior de todos e talvez o m ais antigo. E é possível que deva a origem ou o prestígio a um a caverna natural que se abre, sob um grande m atacão de granito, im ediatam ente a leste e um pouco abaixo da Acrópole. A caverna serve de caixa de ressonância e j oga a voz hum ana sobre o
27
vale. Por isso, supôs-se que tenha sido a sede de um oráculo.
Em algum m om ento do século XIII as construções em pedra desceram do outeiro para o vale ao sul da Acrópole. Os prim eiros desses am uralhados tinham função sem elhante à das cercas de varas que separam e protegem , na África banta, grupos de cubatas de gente da m esm a fam ília. Dois deles, porém , destacam -se pela im ponência: um recinto de planta circular e um grande paredão que ficou incom pleto.
O recinto de base redonda tem espaço para cinco casas. Casas construídas inteiram ente de daga, sem m adeira ou vergas a sustentarem o barro, exceto na abertura das portas. Levantavam -se as paredes com o se m olda um j arro, e com as m ãos batia-se levem ente na argila m olhada, de m odo a fazer aflorar à superfície os seus grãos m ais finos e a lhe dar um acabam ento liso e polido. Essas paredes, de 20 a 46cm de espessura, circundavam espaços de três a seis m etros de diâm etro, algum as vezes divididos em dois côm odos. Assim construídas, não podiam erguer-se a m aior altura — ficavam entre os 76 e os 121cm — nem suportar o peso de um teto cônico de sapé. Este era possivelm ente sustentado por um poste central de m adeira e por um anel de pilares de lenho a acom panhar a parte externa da parede. Nas cabanas m aiores, podia haver um segundo anel de pilares, na parte de dentro. O chão era de barro, alisado da m esm a m aneira cuidadosa que os m uros. E sobre ele m oldavam -se leitos de daga e tam bém bancos sem icirculares, fornos e plataform as, estas últim as para servirem de
apoio a vasos e utensílios dom ésticos.28
Próxim o ao recinto circular, com eça, com o um grande arco, o paredão incom pleto, que se destinava talvez a envolver grupos de cabanas e pátios que se foram espalhando para sudeste. A m eio cam inho, o longo m uro de pedra se interrom pe inexplicavelm ente. Sugeriu-se que o agrupam ento se tivesse m om entaneam ente em pobrecido, não m ais podendo prosseguir a obra. Ou que houvesse resolvido cercar um a área m uito m aior e abandonado o que vinha
fazendo.29
Qualquer que tenha sido o m otivo, o fato é que a gente de Zim babué, um pouco m ais tarde, com eçou a erguer, ao norte do recinto circular, um a outra m uralha, m uito m ais alta e m uito m ais larga, que viria a rodear tanto o paredão incom pleto quanto o recinto de base redonda.
Já agora os pedaços de granito eram cuidadosam ente afeiçoados em retângulos de tam anhos sem elhantes e dispostos em fileiras horizontais, regulares e uniform es. As faces do m uro inclinavam -se ligeiram ente para trás, de m odo que a base da parede era bem m ais larga do que o topo, e isto aum entava a estabilidade e a resistência de um a construção na qual não se em pregava nenhum tipo de cim ento.
À m edida que a m uralha se curvava do oeste para o sul e do sul para leste, tornava-se m ais alta e m ais larga. O trabalho dos canteiros fazia-se m ais perfeito: as pedras eram m ais bem aparelhadas e j ustapostas em linhas ainda m ais corretas. E quando a m uralha se aproxim a do paredão incom pleto, em vez de a ele se unir, o envolve e duplica o seu arco. Form a-se, assim , a cham ada Passagem Paralela — estreita e inexplicável.
Peter G. Garlake 30 alvitra a possibilidade de que as am bições arquitetônicas dos construtores da m uralha exterior não tivessem cessado de crescer à m edida que avançava o trabalho. Eles teriam propositadam ente im pedido que se viesse j untar a nova obra, tão apurada, ao antigo paredão, pequeno e im perfeito. Passaram por fora dele e, se não o dem oliram , foi porque necessitaram de seu abrigo ou quiseram evitar a confusão que isto causaria.
A m uralha alcança, então, sua altura e largura m áxim as. Sobe a 9,6m . E no alto de sua quase perfeita face exterior, vê-se, num a extensão de m ais de cinquenta m etros, um belo friso de duplos zigue-zagues.
Essa grande m uralha elíptica de pedra — a m aior estrutura da África subsaariana, anterior aos europeus — possui 240m de circunferência, com 5,10m de espessura m édia na base, e altura m édia de 7,20m . Nela abrem -se apenas três entradas (ao norte, ao oeste e ao nordeste), que seriam talvez cobertas por
31
alpendres de m adeira.
A sudeste, entre a m uralha exterior e o paredão incom pleto, levanta-se a m ais consum ada construção do Grande Zim babué: um a torre com m ais de nove m etros de altura, em form a de cone truncado, sobre um a base de 5,5m de diâm etro. Geom etricam ente, é quase perfeita. As pedras que a form am são bem aparelhadas e se dispõem , direitas, sem cim ento, em anéis horizontais de grande precisão. A torre não tem porta, nem qualquer parte oca, sendo inteiram ente cheia de pedras. Ignoram -se sua função e seu significado, m as a existência, frente a ela, de um a grande plataform a sem icircular, de 4,6m entre os pontos extrem os, parece indicar a im portância que teria nesse conj unto de edificações, no qual se incluem o recinto circular, o paredão incom pleto e a m uralha exterior, e ao qual se dão os nom es de Tem plo, Ruína Circular, Grande Recinto e Construção Elíptica, em bora os xonas lhe cham em Mum bahuru — “a casa da grande m ulher”.
Não é ele, porém , o único m onum ento do vale. Vários outros, bem m enores e a reproduzir-lhe as características — paredes curvas de pedras bem -talhadas, dispostas em fileiras regulares, plataform as, restos de casas de daga e torres cônicas — distribuem -se entre a Construção Elíptica e a íngrem e colina que sustenta a Acrópole. Som ados, todos esses circos de pedra, que constituem o Grande Zim babué, abrigariam apenas entre cem e duzentos adultos. Se tiverm os em conta que num espaço várias vezes superior ao dos recintos m urados deviam viver os hom ens com uns a serviço da elite, podem os im aginar ser m uitíssim o m aior a população total do Grande Zim babué. Ela foi estim ada, inicialm ente,
32
entre 1.000 e 2.500 adultos. Depois, à m edida que se foi tom ando
conhecim ento da área ocupada ao redor das m uralhas por casinholas de daga apertadas um as contra as outras, os núm eros foram crescendo: para 5.000,
33
11.000 e, finalm ente, 18.000 pessoas.
A im agem que se tem é a de um a cidade apinhada de gente. Os am uralhados não se viam , com o agora, cercados de verdor. Mas de um m ar de tetos de palha,
34
quase a se confundirem . David N. Beach im aginou o vale tom ado de barulho,
desde a m adrugadinha até o anoitecer. Com fum aça a sair de toda parte. Cheio de m oscas. De detritos nos espaços vazios. A contrastar sua prom iscuidade com a vida espaçosa da pequenina elite abrigada nos am uralhados. Há indícios de que houvesse até m esm o diferenças de dieta: os privilegiados com eriam
principalm ente carne de vaca; a plebe, bode, carneiro e caça.35
Planta do Grande Recinto ou Construção Elíptica: 1 = entradas; 2 = recinto de
base redonda; 3 = passagem paralela; 4 = torre cônica; 5 = plataform a
Bem m enores eram os dem ais zim babués, ou zim baués, que se distribuíam pelo planalto entre o Zam beze e o Lim popo, chegando até m esm o, em Manhiquene, à planície costeira de Moçam bique. Contam -se cerca de 150 ruínas (além das poucas que se localizam no Transvaal e na Botsuana). Deviam os zim baués ser, porém , m ais num erosos, um a vez que m uitos recintos am uralhados foram destruídos nos últim os cem anos.
João de Barros 36 — a quem se deve um a das prim eiras descrições dessas construções de pedra, talvez a do próprio Grande Zim babué — afirm a que “sy m baoé quer dizer corte”. E parece que estava certo, em bora posteriorm ente se houvesse sugerido que a palavra seria um a contração de dzim ba dzem abwe, que, em xona, significa “casas de pedra”, ou então de dzim ba woy e, “casas
venerandas”.37 Com efeito, em xona, o term o dzim bawe equivale a “corte”,
“casa de chefe” ou “túm ulo de chefe”.38
Cada ruína contém de um a cinco recintos — um a possui nove — parcial ou totalm ente m urados. Os paredões são bem m ais baixos e m enos largos do que os do Grande Zim babué: têm , em m édia, 2,5m de altura e a m etade disto de espessura. Nenhum recinto abrigava m ais de oito cabanas — o que faz com que o núm ero de habitantes adultos de cada zim babué fosse m uito reduzido: entre dez e trinta. Fora dos am uralhados, acum ulavam -se as cubatas, num erosas, a form arem a verdadeira vila ou cidade.
É provável que alguns dos recintos m urados abrigassem o representante provincial do soberano que m orava no Grande Zim babué. Outros fariam parte de com plexas redes de senhorios e obediências. Muitos seriam centros de poder autônom os, capitais de reinos derivados do Grande Zim babué.
Os zim baués localizavam -se, em geral, em terras férteis, j unto a colinas graníticas, das quais se retirava a m atéria-prim a para seus m uros, e em pontos de fácil acesso a rotas com erciais que dem andavam a costa. Quase todos acom panham o contorno do planalto, com um a concentração a nordeste, para os lados do rio Mazoé, e a sudeste, por onde descem os afluentes do Lúndi e do
Save. Mas há exceções, com o Manhiquene, em Moçam bique.39
Ali o solo é sáfaro; chove pouco; não há rios; a água é difícil. Não existindo granito no local, os construtores de Manhiquene ergueram , a partir do século XII, seus m uros baixos — de pouco m ais de m etro e m eio de altura — com blocos de calcário bem afeiçoados e dispostos em fieiras horizontais regulares. E assim cercaram um só recinto, de 64m de diâm etro.
Esse zim baué sugeriu a Peter S. Garlake um a sedutora hipótese:40 os am uralhados se localizariam na linha de expansão m áxim a da tsé-tsé, em sítios que perm itissem o controle da transum ância. Na seca, a m osca recuava e os rebanhos desciam a chapada, reduzindo a pressão sobre a relva e a água do planalto. Ao voltarem as chuvas e, com elas, a tsé-tsé, reconduzia-se o gado às terras altas, onde a m osca não chegava.
Argum entou-se, porém , que Manhiquene seria um caso especial, um zim baué situado em área im própria para a lavoura e, por isso, dependente da pecuária. E, do estudo do entorno de vários recintos am uralhados, inferiu-se que a localização destes não seria determ inada pela cata do ouro, pelas rotas com erciais ou a transum ância pastoril, m as sobretudo pela fertilidade da terra e qualidade dos
pastos. E, naturalm ente, pela existência de granito. 41
A teoria de Garlake com bina bem , no entanto, com a im portância do boi entre os m oradores dos zim baués. Era a carne bovina o alim ento predileto da m inoria dom inante, com o o com provam as ossadas nos restos de cozinha das ruínas do Grande Zim babué, de Lekkerwater, de Harleigh e de Ruanga. A carne seria assada ao fogo ou à brasa, o que explicaria a escassez de panelas para cozinhados e a ausência de alm ofarizes nos circos de pedra.
De acordo com essa tese, a criação de gado para o abate — a contrastar com o m odelo tradicional africano, em que o boi só é m orto em ocasiões especiais ou quando atinge avançada idade — seria um a das principais características da vida econôm ica dos zim babués. Mas não a única, pois agricultura, pastoreio, m ineração do ouro e com ércio a distância se entreteciam para dar-lhe consistência. Nessas com unidades, forj ava-se o ferro; trabalhavam -se o cobre e o ouro; fiava-se e tecia-se o algodão; faziam -se recipientes de esteatita. Em sua cerâm ica, m uito fina e pintada de diversas cores, destacavam -se vasos globulares de gargalos altos.
Do século XIII até m eados do XV, as atividades com erciais do Grande Zim babué e de outros recintos am uralhados foram m uito intensas. Constante seria a troca de alim entos e cerâm ica com as populações vizinhas. Da Zâm bia e talvez de Chaba viriam lingotes e fios de cobre para adornos. Dali e de outras partes, o sal. O ouro e o m arfim seguiriam até a costa, que, de volta, enviaria tecidos coloridos da Índia, ornam entos e outros produtos de prestígio.
No Grande Zim babué, o com ércio deixou poucos traços espetaculares. As contas de vidro deviam ser ali com uníssim as e foram encontradas em profusão, ao lado de porcelana chinesa do século XIV, de um fragm ento de faiança persa do século XIII, de vidro sírio do século XIV — o m esm o tipo de artigos de luxo com uns em Mogadixo, em Quíloa e noutras cidades-estado do Índico.
Provavelm ente, o Grande Zim babué tornara-se o m ais im portante entreposto do ouro no planalto, se é que de seu com ércio não teve, por algum tem po, o virtual m onopólio. De lá, o m etal am arelo descia para Sofala, e de Sofala velej ava para Quíloa, cidade cuj a expansão cronologicam ente acom panha o apogeu do Grande Zim babué. O ouro deste fez a fortuna de Quíloa e talvez tenha
vinculado m ais do que se im agina os dois em pórios. 42 Am bos cresceram ao m esm o tem po e foram contem porâneos no declínio.
Após a construção da Torre Cônica, só se levantaram no Grande Zim babué m uros toscos de pedra não convenientem ente aparadas e dispostas ao deus-dará, para obstruir passagens e dividir espaços dentro da Construção Elíptica, ou para cercar áreas fora dela. Passara o auge do Grande Zim babué.
Para explicar sua decadência e posterior abandono, levantaram -se várias
hipóteses. Roger Sum m ers,43 por exem plo, propôs que isso se devera a um a drástica redução nas águas do Save, com o prej uízo de seu papel com o via de acesso do litoral ao interior. Com o o Zam beze se tornara, consequentem ente, a rota prioritária, o papel com ercial do Grande Zim babué foi m inguando, até
perder toda a im portância. Mendes Corrêa44 relem bra que j á se atribuiu o declínio daqueles am uralhados à tsé-tsé, cuj a área de propagação passara a incluí-los. A fim de evitar que o gado fosse dizim ado, teriam os seus habitantes
45
preferido deixá-los de vez. A tese de Garlake é outra. Por m ais que fossem
bons o clim a e o terreno, havia gente dem ais, num a econom ia da Idade do Ferro, concentrada j unto às m uralhas de pedra. Os pastos foram sendo destruídos pelo excesso de gado. Os solos, esgotados pela continuidade das lavouras. As m atas, arrasadas para a obtenção de lenha. A caça, expelida para longe. A exaustão ecológica tornara o Grande Zim babué extrem am ente vulnerável. Qualquer crise — o m alogro seguido de duas ou três colheitas, a falta de chuvas, a interrupção do com ércio, um a epidem ia — era capaz de abalar-lhes os fundam entos. A solução, em sociedades desse tipo, é quase sem pre a de trocar por outras as terras esgotadas. E foi o que fez, na m etade do século XV, o soberano do Grande Zim babué.
46
Assim dizem certas tradições. Dizem que faltava sal no Grande Zim babué e
que o rei, cansado de com er o produto extraído do esterco de bode — e o sal, no caso, talvez significasse todas as privações que a com unidade passara a enfrentar —, resolveu abandonar o território. Cham ava-se Niatsim ba Mutota este rei, e foi para o norte, estabelecendo sua nova capital na área do Dande, entre os rios Mazoé e Huny ani.
Há quem ponha em causa o relato 47 e, em bora sem negar que o estado xona
caranga, b que ali se instalou, derive do Grande Zim babué, não aceite um a sim ples transm igração da corte de Mutota para a m argem do planalto frente ao Zam beze. Quem assim pensa não acredita que Mutota tenha sido o últim o rei de Zim babué e duvida até m esm o de sua existência histórica: ele seria tão som ente o sím bolo personificador da fundação do novo reino. O que teria havido, ao longo do tem po, seria a criação, por dinastias carangas vinculadas ao Grande Zim babué, de vários centros de poder planalto afora. Essas linhagens ter-se-iam deslocado gradualm ente na direção do norte, em busca de pastagens lim pas de gado, de solos ainda frescos, de terras m ais próxim as às grandes m anadas de elefantes, ao ouro aluvial dos afluentes do Zam beze, às j azidas de sal e de cobre. No Dande, a dinastia a que se liga o nom e de Mutota teria suplantado pelo m enos três outras estirpes de chefes xonas carangas, que ali a antecederam , e posteriorm ente se im posto sobre os m icroestados xonas e não xonas que existiam ao seu redor.
A capital de Mutota, ou dos prim eiros reis conhecidos com o m onom otapas, cortava o cam inho que unia a costa do Índico a Ingom be Ilede, cidade que, sobre o rio Zam beze (além da forquilha com o Cafué), se transform ara em forte concorrente do Grande Zim babué. Se as tradições têm algo de verdade, Mutota, ou quem este nom e representa, pode ter m udado o seu centro do m ando, não tanto em dem anda do sal, m as para perseguir o predom ínio m ercantil, em bargar o trânsito do seu com petidor e controlar os cam inhos que levavam a Angoche,
48
em pório que com eçava a rivalizar com o de Sofala.
Ingom be Ilede — “o lugar onde as vacas dorm em ” — ficava num pequeno outeiro, j unto ao rio, próxim o ao desem bocadouro da torrente de Lusitu. Um pouco além , a j usante da garganta de Batoca, abria-se o vale de Guem be, com suas num erosíssim as m anadas de elefantes. Para o sul, na outra m argem do Zam beze, erguia-se o fértil chapadão de Urungué, com seus depósitos de cobre.
O outeiro de Ingom be Ilede fora habitado no início do segundo m ilênio, m as depois o abandonaram . No decorrer do século XIV, voltou a sentir a presença hum ana e logo se fez sede de im portante com unidade, que explorava o sal, cultivava o sorgo e talvez a m apira, criava bois, cabras e cães, tecia o algodão, m anufaturava fios e j oias de cobre e m oldava um a bela cerâm ica, polida de grafite e com finos pontos im pressos.
A m esm a gente ocupou a chapada de Urungué e ali, no centro da região cuprífera, construiu, entre outras vilas, a de Chedzurgwe, cuj a superfície tem m ais de sessenta acres. Seus habitantes caçavam , lavravam a terra e m antinham bois. A base econôm ica de Chedzurgwe era, porém , a m ineração, o trabalho e o com ércio do cobre.
Ingom be Ilede gozava de posição excepcional para controlar o intercâm bio de bens que se faziam nas duas m argens do Zam beze e rio abaixo. Trocava o sal, que extraía de j azidas ao lado do Lusitu, pelo m arfim do Guem be e pelo cobre de Urungué. Este era reduzido a lingotes de 3 a 4kg em form a de um H com pernas e braços m ais abertos (ou de pás de um m oinho de vento, com o m elhor os descreveu, em 1512, o degredado português Antônio Fernandes), ou era transform ado em fio, braceletes e j oias, e assim descia o Zam beze, j untam ente com as presas de elefante, ou ganhava o planalto. De Ingom be Ilede, o Grande Zim babué receberia cobre e sal, m andando-lhe de volta ouro e ferro. Da costa, Ingom be Ilede obtinha m içangas e tecidos, artigos que de novo escam bava por cobre e m arfim .
O com ércio devia ser privilégio de pequena elite, facilm ente identificada nos túm ulos que se abriram no outeiro. Neles encontraram -se 11 esqueletos que se distinguiam dos dem ais pelos adereços que os acom panhavam na sepultura. Os m ortos eram enrolados em tecidos de algodão, tinham pernas e braços cobertos de fio de cobre e ferro, e traziam ao pescoço colares de ouro e de contas de vidro. Na sepultura m ais rica, acharam -se braceletes de fio de ouro torcido e um colar de nove conchas m arinhas, um a das quais presa em chapa de ouro batido. Junto a quatro das ossadas, havia cruzes de cobre e rodelas de fio do m esm o
m etal, além de ferram entas para trabalhá-lo, com o m artelos e tenazes.49
Durou relativam ente pouco tem po a prosperidade de Ingom be Ilede, pois, ao que parece, produziu o desej ado efeito a decisão de Mutota de trasladar-se ao Dande. No fim do século XV, o outeiro era abandonado. E cerca de cem anos
m ais tarde, Chedzurgwe passava à esfera de poder de Monom otapa. 50
Monom otapa, m unhum utapa ou m uene m utapa, “o senhor dos cativos”, “o senhor de todos os vencidos na guerra”, “o senhor de tudo”, “o senhor dos m etais”, “o senhor das terras devastadas” ou “o senhor da pilhagem ”, ou ainda m wana m utapa, “o filho da cativa” ou “o filho da terra” — e todas estas
acepções 51 têm sido oferecidas ao que significava basicam ente rei — foi o nom e por que se tornaram conhecidos Mutota, caso ele tenha tido carne e osso, e os m onarcas que lhe sucederam .
Desses, j á se disse que pertenciam à categoria dos cham ados reis divinos. Com unicavam -se com os um ondoros através de m édiuns que os serviam . De suas pessoas dependia o bem -estar do reino e, por isso, quando neles declinava a saúde ou am ortecia a virilidade, obrigavam -nos a com eter suicídio. Não apareciam em público, exceto em poucas ocasiões, e falavam de detrás de um a cortina ou de um a j anela, para não serem vistos. Os súditos só se aproxim avam deles de rastros, a bater as m ãos e a olhar de banda. Estavam sem pre rodeados por um bom núm ero de pessoas a lhes recitar louvores, e, se eles tossiam , elas tam bém tossiam , e, se espirravam , nisto e em tudo o m ais os im itavam .
52
D.N. Beach não encontrou sinais na religião dos xonas nem nos antigos
relatos portugueses de que o m onom otapa tivesse caráter divino. E afirm a que as descrições que o fazem falar de onde não o vissem , ser seguido pela celebração em voz alta de suas virtudes e im itado no tossir e no espirrar, referem -se às suas audiências form ais. No dia a dia, andava com seus guardas no m eio do povo, passeava e ia à caça livrem ente. Mas — pergunta-se — não persistiriam no cerim onial solene da corte, tal com o o conhecem os no século XVI, os traços de um a época, talvez recente, em que o rei vivia recluso e era sagrado? Ou teria sido esse protocolo absorvido de outros povos, para altear a condição do soberano?
O poder do m onom otapa era, em teoria, absoluto, m as, na prática, lim itado pelo dos m édiuns de que se valia, pelos costum es, pelo consenso popular e pela ação política dos grandes chefes e dos funcionários.
Estes eram num erosos. Antônio Bocarro,53 escrevendo na prim eira m etade do Seiscentos, destaca, entre eles, o governador dos reinos, o com andante dos exércitos, o m ordom o-m or, o chefe dos m úsicos, o braço direito do rei, o chefe dos sacerdotes, o m édico real, o guardador das portas.
Na cúpula da adm inistração form avam as nove esposas do m onarca. As duas
54
principais, a nehanda e a m azarira, eram suas irm ãs ou parentes próxim as. Com elas, ao assum ir o poder, praticava o incesto. Mas, depois, um a e outra se transform avam em rainhas rituais e com funções políticas. Um a terceira, a nabuíza, vivia carnalm ente com o m onom otapa. As dem ais, que podiam até ser hom ens, ligavam -se ao soberano por casam ento sim bólico e funcionavam com o
m inistros de estado.55 “Esposa do rei” seria, portanto, um título de grandeza, e quem o detinha possuía vassalagem própria, controlava terras, cobrava tributos. Dentre as dam as das cortes privadas dessas rainhas form ais, recrutavam -se as concubinas do m onom otapa, e delas lhe vinha a m aioria dos filhos.
A corte do m onom otapa era um grande conj unto de casas de barro e sapé, cercado por alto m uro. De estacas, com o no Dande, ou de pedra, conform e esta fosse, ou não, escassa. Pois a capital m udava de sítio, de vez em quando, o rei acom panhado por sua m ãe, suas m ulheres, cortesãos, funcionários de estado e grande núm ero de paj ens, filhos de chefes tributários e que eram a um só tem po aprendizes, serviçais e reféns.
Os m em bros da corte e a nobreza ostentavam saias e túnicas de seda e de algodão estrangeiros, m uitas vezes bordadas a ouro, e abundantes braceletes e colares. Alguns punham sobre as roupas peles de leopardo e de gato selvagem , que se arrastavam pelo chão com o grandes caudas. Os hom ens usavam o cabelo o m ais longo possível, de m odo a poder arranj á-lo em form a de chifres. A plebe cobria a nudez com tangas de pele de anim ais ou de entrecascas de árvores. Quanto ao m onom otapa, vestia-se com sim plicidade: usava um a bata de algodão
com um , tecido localm ente, por se tem er — diz-nos João de Barros56 — que a fazenda vinda de m ão de forasteiros pudesse “ser inficionada dalgum a m á cousa que lha faça dano”.
O estado não era unitário, m as um sistem a de senhorio e obediên-cias, a envolver num erosos régulos e chefes. O m ando direto do m onom otapa talvez se circunscrevesse à área lim itada aproxim adam ente pelos rios Zam beze, Luenha,
Mazoé, Huam be e Dande e pela cordilheira de Unvucué. 57 Dois terços desse espaço corresponderiam a terras baixas do vale do Zam beze. Do que ficava no planalto, de clim a fresco, e até m esm o frio, e de bons solos sobre os quais não rareava a chuva, vinha tam bém a m aior parte do ouro. Era ali o coração do reino: Mocaranga.
Fora dessa região form ada por vale e platô, e possivelm ente até m esm o nas suas bordas, os povos e territórios tributários variavam conform e a riqueza, o prestígio e a capacidade de ação m ilitar de cada m onom otapa. As fronteiras do que se poderia cham ar um pequeno im pério, m as era sobretudo um a zona de influência, m oviam -se constantem ente.
Os régulos subm etidos ao m onom otapa reuniam -se na capital, um a vez por ano, em m aio, para a cerim ônia da Lua Nova. Durante sete dias, o rei se encerrava com os um ondoros, enquanto os tam bores ressoavam sem parar. No oitavo dia, o m onom otapa abandonava sua reclusão e um dos chefes era
58
ritualm ente sacrificado. Em seguida, do fogo real, perm anentem ente a arder,
eram retirados tições, que m ensageiros levavam pela terra afora. Duarte
59
Barbosa, cuj o depoim ento data do início do século XVI, conta-nos que cada aldeia, à aproxim ação do em issário do m onom otapa, devia apagar os seus fogos, para os reacender com o lum e real. Se a isto se recusasse, era considerada insubm issa e contra ela se fazia a guerra.
Outra cerim ônia da m aior im portância verificava-se em setem bro: a visita do m onom otapa aos túm ulos reais. Na ocasião, um m édium era possuído pelo pai do rei, de quem im itava a voz e os gestos, e com ele o soberano se aconselhava.
O m onom otapa tinha acesso aos ancestrais, senhoreava sobre os exércitos e cham ava às suas m ãos as riquezas da terra e do com ércio, que redistribuía com o m unificente provedor. De cada par de presas de elefante, um a era, por direito, sua. E todo o ouro que se encontrasse em seus dom ínios lhe pertencia. Ninguém podia extrair o m etal am arelo sem consentim ento do rei — escreveu, em 1506,
60 61
Diogo de Alcáçova. E, um século m ais tarde, frei João dos Santos afirm aria que, se um súdito do m onom otapa descobria um veio aurífero, im ediatam ente convocava testem unhas para provar que não o tinha tocado. Marcava o local da descoberta com um galho de árvore e abandonava a área. Se dela retirasse ouro, era condenado à m orte.
Quem quer que fosse ver o rei, para fazer-lhe um pedido ou subm eter-lhe um a pendência, devia levar-lhe um presente. Dos régulos a ele subm etidos, o m onom otapa recebia ouro, m arfim , gado, cobre, tecidos, alim entos. Frei João
dos Santos62 assevera que a produção de um dos cam pos em cada aldeia era
63
devida ao rei, enquanto que João de Barros escreve que sete dias de trabalho,
em cada trinta, a ele pertenciam . Enorm es deviam ser as lavouras do m onom otapa, e com os cereais delas colhidos não só retribuiria os serviços de
64
seus súditos com o acudiria aos necessitados e aos aflitos.
As terras que cultivava e os grandes rebanhos de que era senhor som avam -se à corveia, ao tributo e ao com ércio para perm itir ao m onom otapa, com sua generosidade — ao presentear sobas, funcionários e cortesãos com bois e carne, grãos, panos, colares, porcelana, vidro e outros bens de luxo provenientes das cidades do Índico —, consolidar obediências, assegurar alianças e dem onstrar força e riqueza.
Seu m ando devia ser m uitas vezes contestado. Na últim a década do século XV, por exem plo, um grande entre os grandes, Changa — que, segundo um a
versão, 65 era um favorito do rei e, com o se fosse ele, governava e adm inistrava a j ustiça; segundo outra, era seu genro ou parente de sangue; e, segundo um a
terceira,66 lhe guardava os rebanhos nas terras im ediatam ente ao sul do núcleo do reino — rebelou-se contra o poder central. Após elim inar o m onom otapa e 22 de seus filhos, assum iu o poder e nele perm aneceu por quatro anos, até que um
sobrevivente da prole real, Quesaringo c (ou Cacuio Com unhaca ou Chisam arengu), de tudo tirou desforra: com bateu Changa ou Changam ira, m atou-o e reconquistou as terras que tinham sido dos seus. Não destruiu, porém , a linhagem Changam ira. Esta continuou senhora de algum a porção do planalto —
67
talvez no próprio nordeste — e iria reaparecer na história, na segunda m etade
do século XVII, a chefiar o im pério Rózui.d
Antes do eclipse de m ais de cem anos, os descendentes do Changam ira continuaram a guerra contra o novo m onom otapa. Até por volta de 1547. E nela foram assistidos por um reino que se localizava no sudoeste do planalto, Guruusua. Os portugueses deram -lhe o nom e de Butua (ou Abutua), m as tam bém lhe cham aram Tórua, Tóroa, Tóloa ou Tógua, por ser assim conhecida a dinastia que ali reinava.
Tórua, m ais do que o estado do m onom otapa, sucedeu ao Grande Zim babué, se é que dele não foi a natural continuação. A cultura dos am uralhados de pedra estendera-se, nos séculos XIV e XV, para oeste, com o provam os zim babués ali existentes, e ali com eçara a desenvolver form as novas. Com o declínio do Grande Zim babué, o eixo do poder talvez se tenha deslocado para essa região,
e 68
habitada por gente que falava o dialeto calanga da língua xona. Pode-se conj ecturar que os próprios senhores de Zim babué se tenham m udado para Butua — não quer Tórua dizer “estrangeiros”? e não há tradições que vinculam a
69
dinastia à fase áurea da ocupação da Acrópole e da Construção Elíptica? —; ou
im aginar que um a facção dissidente lá se foi recolher e fundar um novo reino; ou supor que um governante local se aproveitou do enfraquecim ento e da decadência do antigo centro do poder, para fazer-se independente.
Com o quer que tenha sido, na passagem do século XV para o XVI, Butua era um estado cheio de força. Seu soberano era tão poderoso — afirm a Antônio Fernandes, o degredado português que prim eiro entrou em contato com o
70
m onom otapa — quanto este, com quem estava sem pre em guerra. Era
abundante o ouro que se tirava de suas terras, “ao longo dos rios de água doce”, e
71
num erosíssim os os seus rebanhos. A acreditar-se em João de Barros, ficavam
dentro de seus territórios os am uralhados do Grande Zim babué. As esposas do rei que ali m oravam , sob o cuidado de um funcionário da corte, o sim bacaio, não seriam , no entanto, m ulheres do m onom otapa, com o escreveu o cronista, m as, sim , do m am bo ou rei tórua, e não há sinal de que este tenha sido, com o afirm a Barros, tributário daquele.
Em Butua, as construções de pedra características da cultura do Grande Zim babué tom am nova direção. Os grandes m uros de granito, erguidos à m aneira zim babueana, passam a sustentar, nas encostas dos m ontes, plataform as e terraços cobertos de daga, sobre os quais se levantam cabanas ligadas um as às outras por paredes de estaca e barro. Esses m uros são bem construídos, em bora sem atingir a m onum entalidade dos altos paredões do Grande Zim babué, e apresentam vistosa decoração de blocos de dolerita azul arrum ados em xadrez, zigue-zague ou espinha de peixe. De todos os sítios onde foram localizadas suas ruínas, o m ais im ponente e, até agora, m ais antigo é Cam i (ou Kham i), que teria sido a capital do reino. Suas prim eiras construções talvez datem do fim do século
XIV. 72
Por essa época, a cultura de Zim babué tam bém se difundira para o nordeste, o leste e o sudeste. As construções em pedra em Manica, em Barué, em Teve, em toda a orla do planalto e até m esm o m ais ao sul, nas terras baixas, j á próxim o à baía de Inham bane, disto dão prova. Onde não havia granito, os zim babués eram feitos de xisto ou de calcário. Algum as tradições vinculam esses am uralhados a um rei m ítico, que se im pôs sobre as áreas ao derredor e nelas introduziu novos costum es.
No fim do século XV e início do XVI, outras estruturas políticas ter-se-iam superposto às que existiam na região, m uitas delas em torno dos zim babués. A história oral dos xonas reclam a, para as dinastias que então ali passaram a prevalecer — e algum as persistem até hoj e — um a origem m onom otapa. Assim
no Barué, que tinha por herói fundador Macom be, f o neto de um m onom otapa. Assim em Teve, cuj a estirpe real entroncaria num filho do m onom otapa. Assim , em últim a análise, em Manica, pois sua linhagem dirigente, a Chicanga, derivaria dos Macom bes de Barué.
Manica tinha por centro um a passagem natural entre as m ontanhas, a unir Sofala ao interior. Ali havia im portante cam po aurífero, fazendo do reino não apenas um interm ediário do com ércio a distância, m as tam bém um fornecedor do m etal am arelo. Sem elhante era a função de Teve, que abastecia Sofala de ouro, m arfim e produtos agrícolas. E a de outros reinos, fossem xonas ou não. Com o os vários pequenos estados tongas — palavra que parece referir-se a
diferentes povos de línguas bantas73 — ao sul do baixo Zam beze. Com o o reino Rundo, de origem m aláui, na m argem esquerda do rio, defronte a Tete, fam oso pela qualidade de suas arm as e utensílios de ferro, pelos seus algodoais e pelos seus tecelões. Os panos que produzia eram trocados por ouro no planalto, e com o ouro se adquiriam na costa contas de vidro e outros artigos de prestígio.
Cada um desses num erosos centros de poder procurava am pliar a sua fatia de com ércio com o litoral e com o sertão, bem com o m anter o controle das rotas com erciais que os cortavam . Em conj unto, eles im pediam o livre acesso aos m ercados do Índico, tanto de Butua quanto de Mocaranga. E, se com petiam entre si, tinham de enfrentar a pressão expansionista dos grandes reinos do interior. O m onom otapa parece, por exem plo, sem pre ter aspirado a atingir o litoral. Não se terá estendido o seu dom ínio até o m ar, a não ser esporadicam ente, nem do Zam beze ao Lim popo, com o asseveraram tantos escritores portugueses do século XVI, os m esm os que relatam incessantes guerras, por eles qualificadas de revoltas, dos xonas orientais, dos tongas e de outros povos contra o m onom otapa. O vasto im pério das crônicas quinhentistas pode ter sido um a criação da propaganda do próprio m onom otapa, a procurar convencer os novos senhores do com ércio do Índico de que dele era a soberania sobre as terras entre os dois
grandes rios, sobre os cam pos auríferos e as rotas que levavam ao interior.74 O seu dom ínio era bem m ais restrito. Não deixava, porém , de ser um grande e poderoso rei.