A Enxada e a Lança
24. O reino cristão da Etiópia
24
O reino cristão da Etiópia
Quando, em 1270, Iecuno-Am elaque ascendeu plenam ente ao poder, o reino cristão que se tinha com o continuador de Axum abrangia pouco m ais do que as regiões de Tigrê, Lasta, Angote, Am ara e talvez parte de Begender. Ao sul, seus lim ites acom panhavam a linha setentrional do planalto de Xoa; a oeste, iam até o lago Tana e o alto Nilo Azul; a leste, paravam na borda das terras altas. Ao norte do platô eritreu e nas planícies sobre as quais se debruçava, nom adizavam as tribos bej as. A noroeste, do outro lado do rio Tacazé, ficavam os falachas. E para o sul, nas m ontanhas que se seguiam às m argens m eridionais do lago Tana, o reino pagão de Goj am . Mais abaixo no m apa, ao sul da garganta do Nilo Azul, localizava-se o estado de Dam ote. E para leste, os principados m uçulm anos de Xoa, Ifate e Adal. Ao sul do rio Awash, havia outros estados dom inados pelos islam itas: Hadia, Xarca, Dauaro e Bali.
Esses e outros centros de poder bem m enores constituíam sério óbice à expansão abexim . Seus exércitos topavam outros exércitos. E seus colonos, que iam fundar com unidades cristãs em terras dos pagãos, deles sofriam hostilidades ou se faziam vassalos.
Os vilarej os e pequenos m onastérios cristãos, m esm o quando pagavam tributo e prestavam hom enagem a um rei infiel, neste provocavam desconfiança e tem or. Eram form ados por gente estranha, que adorava um deus desconhecido e que tinha a protegê-la, em bora a distância, um m onarca poderoso. Ao rei de Dam ote, Motelam i, não terá escapado o perigo que os estabelecim entos cristãos dos am áricos representavam para a m anutenção do controle que exercia sobre o planalto de Xoa. Por isso, segundo as tradições cristãs, m andou destruir, por duas vezes, na prim eira m etade do século XIII, as aldeias e os m osteiros cristãos que se espalhavam por Xoa.
Dam ote era um antigo reino pagão, de língua cuchita, sobre o qual pouco se
sabe. Devia ser poderoso, pois sua fam a foi ressoar na prosa de Ibn Khaldun, 1 que cham ou seu rei de grande chefe, a controlar um poderoso im pério. O núcleo do estado ficava ao sul do Nilo Azul, entre as fontes do Awash, a leste, e talvez Didessa, a oeste. Descendo o m apa, talvez se estendesse até a região do
2
Innary a. Sua área de dom ínio era, contudo, bem m ais am pla, com preendendo, no século XIII, todo o planalto de Xoa.
Xoa pontilhava-se de colônias cristãs, dedicadas à agricultura e ao com ércio, na sua parte ocidental, e de assentam entos m uçulm anos, sobretudo de natureza m ercantil, na orla oriental. Esses enclaves de estrangeiros serviam a interesses que nem sem pre coincidiam com os do soberano de Dam ote, que m uitas vezes lhes terá dado guerra. Com o sucedeu no reinado de Motelam i.
Talvez para vingar os agravos aos cristãos de Xoa, um príncipe zaguê, cham ado Zena-Petros, dirigiu um a expedição m ilitar contra o Dam ote. Foi vencido e m orto.
Mais tarde, Iecuno-Am elaque, o prim eiro rei da dinastia salom ônida (que, para subir ao trono, dependera do apoio dos am aras e das com unidades cristãs de Xoa), atacou Dam ote e expulsou suas forças de grande parte do planalto. Com isso, am pliou o território abexim e obteve o controle das rotas de com ércio que passavam por Xoa e iam ter às áreas fornecedoras de escravos e m arfim e produtoras de ouro. O ouro vinha sobretudo da região do Innary a. Em pequena quantidade, ao que parece.
As vitórias de Iecuno-Am elaque deslocaram o poder do rei de Dam ote m ais para o sul, m as não asseguraram a transferência para a suserania abissínia de todos os territórios que ele controlava. Isso só seria conseguido m ais tarde, depois que Ám eda-Sion, em 1314, ascendeu ao poder.
Em 1316 e 1317, Ám eda-Sion ordenou várias expedições m ilitares contra Dam ote e Hadia. Após haver reduzido estes dois estados à vassalagem , voltou-se contra o Goj am , que tam bém subm eteu, e posteriorm ente contra os falachas. Essas guerras am pliaram de form a considerável o território sob o dom ínio do negachi ou hati (que era outro nom e dado ao soberano abexim ), aum entaram suas fontes de riqueza e m ultiplicaram os seus exércitos. A desafiá-lo, restavam os m uçulm anos instalados na parte oriental de Xoa e nos reinos do sul, e fora de seu controle perm aneciam os islam itas das costas da Eritreia. O m ais perigoso dos adversários dos abissínios era Ifate, que tam bém perseguia um a rota de expansão e conquista. Desde 1285, quando Om ar Ualasm a anexou o sultanato de Xoa, o poder de Ifate só fizera am pliar-se. Sua gente assum ira o controle dos cam inhos caravaneiros e do com ércio a distância entre o planalto e o porto de Zeila.
A política de contem porização com os m aom etanos, adotada por Iagba-Sion, favorecera Ifate, que pôde consolidar seus ganhos territoriais e estender sua área de influência. Em detrim ento dos interesses com erciais dos cristãos.
A dilatação do poder islam ita não podia deixar de ser vista com o am eaçadora por Ám eda-Sion, da m esm a form a que os êxitos m ilitares dos abissínios, em Dam ote e Hadia, inquietavam Ifate e os outros estados m oslins. Esse tem or m útuo, se j á grande, tornou-se m aior e se tingiu de zelo religioso, em virtude das perseguições que o sultão m am eluco do Egito, Al-Nasir Muham ed ben Calaun, m oveu contra os coptas.
Ám eda-Sion assum iu a proteção dos cristãos do Egito, que viam suas igrej as incendiadas e suas vidas e propriedades em perigo. O rei abexim enviou, em 1321, um a em baixada de protesto ao Cairo. Fez saber ao sultão que, se este não cessasse de flagelar os coptas, retaliaria contra os m aom etanos da Etiópia e castigaria com a fom e o Egito, ao m udar o curso do Nilo. Esta bravata, retom ada dois séculos m ais tarde por Afonso de Albuquerque (que sonhou cortar um pequeno m onte e derram ar suas terras sobre o Nilo, quando este ainda corria nos
dom ínios do negachi, de m odo a desviá-lo para outras bandas que não o Cairo), 3 bem com o a am eaça de envenenar o rio em suas fontes, frequenta com insistência as relações entre o Egito e a Etiópia. Era um arreganhar de dentes que se esgotava na careta, m as que foi algum as vezes levado a sério. Já em 1093, por exem plo, quando a enchente do Nilo foi particularm ente baixa, os egípcios m andaram um a em baixada à Abissínia, a fim de persuadir o negus a liberar
m ais volum e de água, a partir do lago Tana. 4 O soberano etíope não pôde atender ao pedido: não tinha com o fazê-lo. Isto sabia certam ente Al-Nasir. E por lhe estar bem claro no espírito que o negachi não m antinha qualquer controle sobre o fluxo e o volum e das águas do Nilo, m andou de volta, sem satisfações, os em issários
abissínios.5
As atitudes do sultão m am eluco contra os coptas podem ter incentivado o
soberano de Ifate, Haquedim ,a a passar de um a política de escaram uças, ataques localizados e penetração lenta para a de guerra aberta. Ele m anda invadir os territórios cristãos que lhe ficavam ao lado, queim ar-lhes as igrej as e obrigar clero e fiéis à apostasia. De rem ate, captura um em baixador abexim que voltava do Cairo e lhe dá m orte.
Esse últim o ato oferece a Ám eda-Sion o pretexto de que precisava para atacar. As tropas abissínias invadem o Ifate, desbaratam as forças m uçulm anas e m atam Haquedim .
A guerra, contudo, não term ina. O filho de Haquedim , Deradir, com anda a
b
resistência, apoiado pelas tribos pastoras da planície, sobretudo os verj is e os
gebels. 6 Mas é, finalm ente, vencido. As forças de Ám eda-Sion ocupam a capital do Ifate. Os abexins instalam guarnições m ilitares em vários pontos do território e
colocam no governo um irm ão de Haquedim , Sabredim .c O Ifate torna-se vassalo do rei cristão.
A vitória perm itiu a Ám eda-Sion voltar os seus cuidados para o Tigrê, onde o governador da província de Interta se com portava, desde os tem pos de Iagba-Sion, com o um rei independente. Com o se fora o herdeiro de Axum . Ám eda-Sion desbarata as forças de Interta, captura o governador insubm isso e coloca no m ando provincial, prim eiro, um a de suas m ulheres, Bilém -Sabá, apoiada por tropas vindas de outras partes do reino, e depois, em 1328, um filho, de nom e
Bar-Seguede, d que viria a ter tam bém o com ando das províncias litorâneas.
As províncias litorâneas com preendiam provavelm ente toda a região entre o Tacazé e o m ar Verm elho. Nelas se incluía a faixa costeira, habitada pelos saos e predom inantem ente m uçulm ana. E eram m uçulm anos os que controlavam o com ércio entre a Etiópia e o pequeno sultanato do arquipélago de Dahlak.
As ilhas de Dahlak haviam reconquistado a independência e a m antinham habilm ente, a j ogar com a rivalidade entre a dinastia rasulida do Iêm en e os sultões m am elucos do Egito pelo dom ínio das rotas com erciais do m ar Verm elho. Em bora tivessem perdido para Zeila a suprem acia com o entreposto com ercial na região, continuavam a ser im portante centro de trocas. E vinculavam -se a um colar de pequenas com unidades islam itas, que atravessava a planície desértica e subia o altiplano.
Ám eda-Sion, havendo conquistado as rotas m ercantis para Zeila, não podia perm itir que lhe escapassem as que conduziam a Dahlak. Além disso, preocupava-se com o perigo da presença m aom etana nas costas da Eritreia. Seu desassossego aum entou com a suspeita de que os m oslins tivessem colaborado com o governador de Interta na resistência às tropas reais. Estas m overam -se Eritreia adentro e subm eteram os islam itas. O próprio soberano com andou o
7
exército. Com o consta deste texto: “Eu, o rei Ám eda-Sion, fui até o m ar da Eritreia. Quando lá cheguei, m ontei num elefante e entrei no m ar. Tom ei do arco e das lanças, m atei m eus inim igos e salvei o m eu povo.”
A realidade era m enos enfática. Mal o rei ou os seus generais se retiravam de um a área islam ita que por eles fora assolada, os m uçulm anos voltavam a organizar-se e a conspirar contra o poder do negachi. Muitas vezes, as guarnições cristãs ficavam isoladas num m eio hostil, quando não as fustigavam incessantes guerrilhas.
Os próprios chefes m oslins que Ám eda-Sion deixava, com o vassalos, no com ando das terras m uçulm anas tornavam -se depressa intérpretes do descontentam ento de sua gente. Isto, quando não eram , desde o início, rebeldes encobertos.
Sabredim , que fora feito sultão de Ifate por Ám eda-Sion, não escapou desse destino. Montou ele cuidadosam ente um a verdadeira guerra santa contra o negus, com a finalidade não apenas de reconquistar o com ando do com ércio entre Zeila e o altiplano, m as de extirpar de vez a presença cristã da Etiópia, com a conquista do próprio núcleo do reino abexim . Deve ter tido por m entores vários líderes religiosos, dentre os quais um certo im am e, que se refugiara em Ifate, após ter
aj udado a sublevar Hadia. 8
O governante de Hadia, Am ano, instigado por esse pregador islam ita, recusou-se a ir à corte do negus, pagar-lhe o tributo devido. A este ato de hostilidade, Ám eda-Sion deu pronta resposta, ao invadir Hadia, saquear suas cidades e vilarej os, prender Am ano e fazer escrava grande parte de sua gente. Senhor absoluto da área, Ám eda-Sion passou, desde então, a dela retirar consideráveis contingentes de soldados para seus exércitos.
Com o dom ínio de Hadia, o negachi cortava o acesso direto dos m oslins a um a das m ais im portantes fontes supridoras de escravos de alta qualidade, entre os quais os eunucos que se vendiam a alto preço no outro lado do m ar Verm elho.
A queda de Hadia deve, por isso, ter contribuído para apressar o j ihad que se gestava em Ifate. Sabredim procurou arm ar um a grande liga islâm ica, da qual faziam parte Dauaro, Xarca, Adal, Bali, Fatagar e os num erosos xeques nôm ades da Som ália. É possível que tenha contado tam bém com os agôs j udaizantes de Uagara, Dâm bia e Begender, pois não teria sido por acaso que esses povos se levantaram em arm as contra o negus no exato m om ento em que se deu início à guerra santa.
A intenção de Sabredim era atacar o reino abissínio em três frentes: Angote, Am ara e Xoa. Em bora poderosíssim os, os exércitos m uçulm anos não tiveram tem po, porém , de executar os planos de invasão. Ám eda-Sion fora advertido do perigo e, tão logo Sabredim , no início de 1332, acom eteu as guarnições instaladas em Ifate e na fronteira — a queim ar as igrej as que encontrava, a escravizar o clero, a prender os m ercadores, fossem cristãos ou m aom etanos, que trabalhavam para o negus, e a confiscar os bens que a este pertenciam —, deixou as tendas que tinha arm adas em certa parte de Xoa e foi direto, com suas tropas, na direção de Ifate. Tom ou a cidade, que de novo pôs a saque. E seguiu em pós de Sabredim , fugido para Dauaro. A cam panha durou oito m eses e foi extrem am ente difícil para as tropas etíopes, que tinham de fazer guerra ao inim igo num m eio que a este era fam iliar e para elas desconhecido e hostil. Tropas acostum adas ao fresco e úm ido altiplano m oviam -se com aflição pelas terras desérticas das encostas e do sopé do planalto de Harar, a ressentir o calor, a falta d’água e um a lum inosidade que as cegava. Apesar de tudo isso, os exércitos de Ám eda-Sion foram levando todos os adversários de vencida. Sabredim foi capturado em Dauaro, cuj o rei, Haidera, tam bém foi preso. Nas m ãos do negus caiu tam bém o senhor de Xarca. E em ação foi m orto o régulo de Adal. Um após outro, os chefes da guerra santa subm eteram -se à clem ência e à
e
fúria do negus. Um irm ão de Sabredim , Jam aldim , que vivia com o refém na corte do negachi, foi por este instalado com o sultão de Ifate. E com ele novam ente a roda da história fez o m esm o giro. Pois, sob o acicate da pregação de um im am e cham ado Saleh, Jam aldim , aliado aos chefes islam itas de Mora e Adal e a várias tribos nôm ades, levanta-se contra o negus. Ám eda-Sion volta com suas tropas a Ifate, captura o sultão, destrói a sua capital e as cidades circunvizinhas, incendeia m esquitas, pilha, destrói e escraviza.
A vitória dos abexins é, pelo m om ento, com pleta. Os lim ites da Etiópia cristã são estendidos até a orla do altiplano, ao longo do rio Awash. E ficam garantidas as grandes rotas do com ércio entre o planalto e Zeila. Deixa de haver perigo de serem cortadas as vias de com unicação até o m ar.
O negus passa a ser rei de reis m uçulm anos, que lhe reconhecem a suserania. Sua fam a espraia-se pelo m undo árabe. De Ám eda-Sion, disse um
contem porâneo, o historiador Al-Um ari, que tinha sob ele 99 reis.9 O núm ero é evidentem ente fantasioso, m as nele Al-Um ari incluía os sete reinos m oslins da Etiópia, que se som avam aos territórios cristãos e às grandes áreas pagãs, para dar a im agem de um grande im pério.
Este im pério com preendia não apenas povos de religiões diferentes, m as tam bém de costum es e idiom as distintos. Estendia-se sobre sedentários e nôm ades, sobre habitantes das altas m ontanhas, dos fundos vales, dos chapadões e das planícies, sobre gente que tanto falava línguas e dialetos do grupo cuchita (com o o bej a, o agô, o sidam o), quanto do grupo sem ita (com o o gueze, o tigrê, o tigrina, o argoba, o gafate, o gurangue, o harari e o am árico). Além do árabe, de uso com um nas rotas com erciais que iam ter ao m ar Verm elho.
O sistem a feudal do gult foi-se im pondo nos novos territórios conquistados pelo negus. Mas o seu im pério era sobretudo um conglom erado de principados sem iautônom os, sob o governo de m em bros das fam ílias que, antes da conquista abexim , ali exerciam o m ando. Nas unidades políticas m aiores, que englobavam frequentem ente esses principados, havia um governador, nom eado pelo rei dos reis.
De cada um desses centros, o negachi recebia tributo. E de cada um esperava aj uda m ilitar, em tem po de guerra. Nos períodos de norm alidade, o chefe local governava com o lhe aprazia, em bora em nom e do rei. E acabava por reproduzir, em escala m enor, a estrutura da corte do negus.
Esta, se teve, no início do reinado de Ám eda-Sion, um a sede fixa, em
10
Teguelate, no Xoa, pronto voltou a ser itinerante. A capital m ovia-se, a seguir o
rei, de um a região para outra. O enorm e conj unto de tendas, em que viviam m ilhares de pessoas, um dia se desm anchava, e a m ultidão se punha a cam inho — os cortesãos e os outros nobres, o clero, as m ulheres, as crianças e os soldados, com os servos e os escravos a carregarem a enorm e bagagem de seus am os e os tesouros do rei, e a tangerem o inum erável gado.
Nessa capital itinerante estavam presentes todos os povos do im pério, que nela m elhor se conheciam e se m esclavam . O grande espaço circular coberto de tendas tinha assim um a função unificadora. Maior ainda porque se deslocava de um território para outro, conform e a situação das colheitas, as am eaças externas e os sinais de insubm issão interna, que m uitas vezes se diluíam com a sim ples proxim idade da presença do negus e de suas arm as.
Mal se instalava num determ inado sítio, o rei com eçava a receber a visita e a hom enagem dos vassalos. A capital enchia-se de gente que desej ava ir prostrar-se diante do soberano. Para ela afluíam tam bém os m ercadores, pois o rei era o m aior de todos eles.
O negachi controlava um a enorm e rede com ercial. Num erosos eram os seus agentes, que negociavam com o Egito, o Iêm en e o Iraque, que forneciam escravos dom ésticos aos países árabes, m andavam m arfim para a Índia, o Egito, a Grécia e a Itália, traficavam com o ouro e a prata, im portavam dam ascos e outros tecidos finos, abasteciam o litoral do Índico com as frutas e os cereais do altiplano etíope. Assim , se a capital era um a representação viva da presença e da força do rei, um centro de harm onização de interesses divergentes e um acam pam ento de exércitos, assum ia tam bém a feição de gigantesco m ercado.
Para as populações circundantes, a chegada do rei trazia m ais problem as do que vantagens. Elas viam -se obrigadas a alim entar e a prestar serviços a um a enorm e quantidade de gente e a suportar a em páfia dos poderosos e a ofensa de costum es estranhos. Todo o seu sistem a de vida ficava subitam ente alterado.
Ao desfazer-se a cidade de tendas e ao partir para outro rum o, voltavam às suas terras os nobres e agregados que tinham ido ficar j unto ao negus. Acom panhavam -no, porém , m uitos deles, alguns com o novos validos. E com ele iam novas m ulheres, e novos escravos, e sobretudo novos soldados. Os que retornavam aos seus pagos, levavam na bagagem novas ideias e novos hábitos, e ficavam reforçados, na m aioria das vezes, em sua lealdade ao rei. Os que este acom panhavam cresciam em prestígio e em poder. E se tornavam vínculos entre a corte e a terra de onde saíam .
Com o rei cam inhava um a parte substancial de seus exércitos, as tropas de elite do negachi. Cada regim ento, que tinha um nom e sim bólico, com o “o ferrão
11
da abelha” ou “o chacal”, procurava superar os dem ais em bravura e
eficiência. Seus chefes eram m uitas vezes am igos íntim os do negus, quando não seus parentes. E os soldados se recrutavam entre os que m ais se distinguiam nas tropas provinciais.
Além desse núcleo de elite, o exército do rei era form ado por um a série de contingentes organizados num a base regional, com guerreiros oriundos dos territórios recém -conquistados, com o os regim entos de Coram , Baria, Goj am , Gondar, Dam ote e Hadia. Essas tropas eram constituídas em geral por prisioneiros de guerra e por escravos que se faziam soldados e podiam ascender a altos postos e ao convívio com o soberano.
O exército do rei devia ser m uito grande, o m aior de toda a Etiópia. Graças a ele, Ám eda-Sion pôde im por-se sobre os senhores feudais e apagar os arreganhos de independência dos governadores das províncias, os quais, em caso de conflito, reforçavam com suas tropas as forças do rei. Cada chefe com andava os seus hom ens e cada grupo se som ava aos da sua região, form ando assim divisões que tom avam o nom e de cada um a das províncias cristãs de que faziam parte: Tigrê, Lasta, Am ara e Xoa.
A principal força de Ám eda-Sion residia no enorm e núm ero de hom ens a pé e a cavalo que podia pôr em com bate. Ia-se à guerra arm ado de arco e flecha, de escudos e de lanças curtas e longas, lanças de m adeira com ponta de ferro. Poucos possuíam espadas. E nisto estavam em inferioridade em relação às tropas m uçulm anas de Ifate, que norm alm ente tinham por arm as, além do arco e da lança, espadas e adagas de aço.
Ám eda-Sion procurou, com o tem po, corrigir parcialm ente a desvantagem . Criou um grupo de guerreiros dotados de espadas — arm a que im portava dos países árabes — e outro de soldados que carregavam escudos e tinham por incum bência proteger os arqueiros e os que disparavam setas com um a espécie
de balestra. 12
Os islam itas não detinham apenas a suprem acia na qualidade das arm as. Ocupavam um espaço geográfico m uito m aior do que o do reino cristão. E eram provavelm ente m ais num erosos. Estavam , entretanto, dispersos em enorm es espaços, enquanto que os abexins dom inavam um núcleo central coeso, m oviam -
se em linhas internas m ais curtas 13 e podiam concentrar-se com relativa rapidez num a só frente de ação, o que lhes perm itia dar com bate a um inim igo após outro, antes que os aliados de qualquer um deles tivesse tem po de vir em seu socorro.
Com o se isso não bastasse, predom inavam a desunião e a desconfiança entre m oslins. Dividiram -se em num erosos pequenos estados, a que se som avam os grupos nôm ades, com seus xeques. Quando não estavam unidos contra os cristãos, os nôm ades fustigavam os sedentários. Não lhes davam tréguas, nem descansavam as arm as nas guerras entre tribos, no que eram im itados pelos principados islam itas. Os abexins valiam -se disso e se aliavam a uns contra os outros. Não fosse o negus um im portante cliente e parceiro com ercial de m uitos dos m ais prósperos m ercadores m aom etanos.
Assim se explica o êxito de Ám eda-Sion contra os islam itas, m esm o quando estes form aram , em 1332, a form idável liga chefiada por Sabredim . O negachi m oveu-se rapidam ente, com todo o peso de suas forças, contra Ifate. Depois, derrotou um a um os aliados do sultão. Ou fez com que m udassem de lealdade.
No seu deam bular, o negus não tinha com ele apenas a corte e o exército, m as tam bém a Igrej a. Acom panhava-o um a chusm a de clérigos, tendo à testa o abuná, ou bispo m etropolitano, que continuava a ser designado pelo patriarca copta de Alexandria e a ser um estrangeiro, um egípcio. Isto fazia com que a relação entre o abuná e os cleros secular e m onástico nem sem pre fosse fácil. Muito m enos, a entre o bispo e o negachi. Assim , por exem plo, logo após a chegada, em 1337, do novo abuná Jacó, desencadeou-se um sério conflito entre ele e Ám eda-Sion.
As raízes da briga eram antigas. Sem pre causaram espécie aos bispos de Alexandria os hábitos m atrim oniais dos etíopes e sobretudo de seus reis. Muito em bora a Igrej a copta consagrasse a m onogam ia, os neguses costum avam ter m ais de um a m ulher legítim a e m uitas concubinas. Ám eda-Sion não escapava à regra.
O clero secular, sobretudo o conj unto de sacerdotes ligado à corte, fazia vista
f
grossa à irregularidade. Mas os m onges, não. E o abuná Jacó, logo após assum ir o posto, não buscou o convívio e a aliança da clerezia cortesã, m as j untou-se à grita dos m onges contra a falta do rei.
Já Beselote-Micaelg (um discípulo de Jesus Moa, ligado a m atriz m onástica distinta da de Tacla Haim anote, a do m osteiro de Debra Gol, e que iniciara um outro m ovim ento de regeneração da Igrej a, com batendo a poligam ia e o costum e de viverem m onges e freiras sob o m esm o teto) havia denunciado Ám eda-Sion com o pecador, não só por ter este três esposas, m as tam bém por se haver casado com a m ulher de seu pai, Uidim -Reade. Beselote-Micael foi, por isso, açoitado e expulso para Tigrê, onde faleceu.
Beselote-Micael não ficara sozinho na denúncia. Tam bém Filipos, o abade de Debra Asbo (que depois se cham ará Debra Líbanos), e outros discípulos de Tacla Haim anote ergueram desafiadoram ente a voz contra a poligam ia real. Foram , a seu tem po, castigados e sofreram o exílio.
O abuná Jacó chegou à Etiópia após a m orte de Beselote-Micael. Desde logo, tentou persuadir o rei a fazer-se m onógam o. Não se vendo satisfeito, excom ungou Ám eda-Sion, que, em resposta, perseguiu e desterrou os aliados do bispo e a este quis intim idar com a am eaça de expulsão.
Se o abuná Jacó não logrou convencer Ám eda-Sion a abandonar a poligam ia, teve algum êxito em seus esforços para reform ar a Igrej a e expandir a fé. Estruturou as principais ordens m onásticas e delim itou o território de ação de cada um dos seus líderes, sobretudo nas áreas conquistadas ao gentio. Criou a função de echegé, ou “cabeça de todos os m onges”, para a qual designou Filipos, o abade de Debra Asbo, antes que este fosse trilhar o cam inho do degredo. O echegé devia ser sem pre um abissínio e se tornou a segunda pessoa na hierarquia religiosa, logo após o próprio abuná. Com o tem po, passou a ser escolhido pelo negus, e era tam bém o abade de Debra Asbo.
Jacó convocou m onges e padres para servirem nos territórios recém -conquistados e ali erguerem novos m onastérios e novas igrej as. O rei lhe apoiou o em penho catequético, doando am plos tratos de terra às m issões religiosas e exigindo de seus novos vassalos que as aj udassem e protegessem . Caso um m osteiro ou um a com unidade cristã sofresse hostilidade ou perseguição por parte da gente que a circundava, pronto a esta chegava o castigo do negus.
O apoio do estado favoreceu, sem dúvida, a instalação de com unidades cristãs em quase todo o território do im pério, m as se constituiu tam bém em óbice a um a ainda m ais am pla propagação do cristianism o, visto pelos povos subm etidos com o um a crença que servia aos interesses do conquistador. Em m uitas áreas, não se abateu, entre a população rural, a força dos sacerdotes das religiões tradicionais, que continuaram a se opor à fé cristã. Som ente um a parcela dos
14
povos subm etidos ao negachi chegou a converter-se.
Apesar disso, o intenso trabalho dos m onges e o apoio político e m ilitar que lhes deu o rei, a quem não escapava a im portância do cristianism o com o elem ento unificador e diferenciador de um im pério cercado por religiões hostis, consolidaram e expandiram o núcleo cristão da Abissínia e fizeram com que se evangelizassem am plas áreas pagãs, j udaizantes ou ainda tenuem ente islam izadas. Nesses territórios, foi decisiva a atividade de vários m onges que haviam sido banidos por Ám eda-Sion para terras distantes, por com partilharem as críticas de Beselote-Micael, de Filipos e do abuná Jacó. A adversidade aum entou-lhes o zelo catequético.
Enquanto isso, onde outrora fora Axum , no Tigrê e na Eritreia, um outro
h
m ovim ento m onástico tom ava form a. Dera-lhe início Euostateus (ou Eustacius), um m onge nascido por volta de 1273, em Geralta, no Tigrê. Ali recebeu ordens, m as foi posteriorm ente para Seraé, na Eritreia, onde se fixou, reunindo ao seu redor num erosos discípulos.
No início, o grupo m anteve excelentes relações com Ám eda-Sion e com o abuná Jacó, que se encontrou com Euostateus, quando a cam inho da corte. Paulatinam ente, porém , foi-se abrindo um fosso entre a nova com unidade e as hierarquias religiosas etíopes, em virtude não apenas da austeridade e do rigor que aquela defendia, m as tam bém por algum as teses que sustentava e que tinham origem nas tradições nortistas de apego ao Antigo Testam ento e na preservação de fortes ingredientes m osaicos existentes no cristianism o
15
axum ita.
Euostateus recom endava a seus m onges que fossem econom icam ente autônom os das populações que serviam . Cada m osteiro devia ter seus roçados, seus currais, suas oficinas, de m odo a não depender das doações dos fiéis e a poder recusar os presentes do rei e da nobreza. Ele pregava estrita fidelidade aos ensinam entos de Cristo e criticava acrem ente os vícios do clero e a m ornidão dos fiéis. Reclam ava contra a poligam ia e fez-se adversário do tráfico de escravos, que não concebia fosse praticado por cristãos. Onde ele m ais se distanciou dos dem ais coptas etíopes foi, entretanto, na sua ênfase em reviver as práticas do
Antigo Testam ento, sobretudo a observância do sábado. 16
Euostateus preconizava que se guardassem , com o sabbath, dois dias: o sábado e o dom ingo. Nisso acom panhava o com portam ento das prim eiras com unidades cristãs, com portam ento que sobreviveu em algum as das igrej as orientais e que
17
fora o dos coptas do Egito. Posteriorm ente, porém , a Igrej a de Alexandria
m udou de posição e passou a condenar, com o j udaizante, que se guardasse o sábado. Essa atitude, ao que parece, não foi im ediatam ente aceita pela Igrej a
i
etíope. Tanto assim que, no fim do século XI, o bispo Sauiros pedira ao patriarca Cirilo II que escrevesse aos abissínios, a instar-lhes que deixassem de obedecer
18
aos costum es do Antigo Testam ento.
Euostateus não acatava a doutrina de Alexandria com relação ao sabbath. E, ao assum ir um a postura nacionalista, de independência frente ao patriarcado copta, com eçou a isolar-se, com seus discípulos, do resto da cristandade abissínia, que havia, no correr do tem po, feito sua a posição alexandrina.
A pequena com unidade de Euostateus, excom ungada pelo abuná, com eça a ser perseguida. Seu m estre vê-se forçado a se autoexilar, com m uitos dos seus, pouco após a chegada de Jacó. Sai da Etiópia, vai ter ao Cairo, onde é hostilizado pela hierarquia copta, e depois à Terra Santa. Muda-se, m ais tarde, para Chipre e para a Arm ênia, onde m orre, possivelm ente em 1352.
Após seu passam ento, seus seguidores voltam à Etiópia e se j untam à pequena congregação que lá ficara, sob o com ando do abade Absadi. Fundam Debra Mariam , que será a m atriz de um a ordem m onástica extrem am ente bem organizada e ativa em todo o norte da Etiópia. E sobretudo na Eritreia.
Pouco a pouco, cria-se um a cadeia de grupos m onásticos, que tom ará o nom e
j
de Sete Discípulos de Euostateus. Gebra-Iesus instala a com unidade em Begender. Duas outras surgem no norte de Tigrê. E as outras quatro ficam em Seraé e Ham asén. A cham ada “casa” de Euostateus — em contraposição à “casa” de Tacla Haim anote — assum e, assim , um a fisionom ia regional, nortista, o que lhe dá grande coesão.
Desses m onastérios sairiam as m issões que pregarão aos bariask e aos
cunam as, l aos pastores nôm ades entre o planalto eritreu e o m ar Verm elho e aos falachas. Dentro de suas paredes, ganharão força os discípulos de Euostateus, os quais, na m etade do século XV, serão seguidos pela m assa de fiéis da Eritreia. O centro da “casa” passa a ser o m osteiro de Debra Bizém , fundado em 1390.
Muito tem po decorrera desde a m orte, em 1344, de Ám eda-Sion e o acesso ao
m
poder de seu filho Saífa Arade. Terá este sina sem elhante à do pai, pois m arcarão o seu reinado a disputa religiosa e a guerra contra os islam itas.
Conta-se que, ao subir ao trono, teria feito um acordo com o abuná Jacó e assum ido os com prom issos de cham ar de volta os m onges exilados e de m anter um a única esposa. Cum priu a prim eira parte do trato, m as não a segunda, pois casou-se, com o seu pai, com três m ulheres.
Diante do protesto do abuná e dos m onges, foi rigoroso e hábil. Se devolveu Jacó ao Egito e deportou os m onges recalcitrantes para o sul do im pério — onde viriam a exercer im portante papel evangelizador —, conseguiu astuciosam ente dividir os m osteiros. E, após lhes quebrar a unidade, logrou pacificá-los em seu favor. Os m onastérios renderam -se ao rei. Ao próprio echagé Filipos não perm itiram os seus com panheiros que entrasse em Debra Asbo, por causa de sua querela com o negus. Fecharam -lhe a porta, m uito em bora fosse ele o abade do
19
m osteiro.
A coesão dos cristãos, ainda que em sacrifício da pureza da fé, fazia-se necessária, pois de novo a am eaça m uçulm ana despontara em Ifate.
Governava o país um filho de Sabredim , Ali, que não ousara levantar a cabeça enquanto fora rei Ám eda-Sion. Com a m orte deste, j ulgou equivocadam ente que podia reconquistar a independência. E fez frente ao novo negachi.
Faltou-lhe, contudo, o apoio dos seus. A lem brança do castigo m ilitar que Ám eda-Sion havia infligido aos m uçulm anos estava ainda viva. A guerra fora feita inteiram ente em território islam ita, que lhe sofrera os estragos. Estes seriam ainda m aiores, caso se deflagrasse um novo conflito arm ado, pois as fronteiras dos cristãos passavam agora quase rente a Ifate.
Fácil foi, pois, a Saífa Arade desm antelar a insurreição. Prendeu Ali e todos os seus filhos, exceto um , Ahm ad, que pôs no governo de Ifate. Oito anos m ais tarde, m andaria libertar Ali e recolocá-lo no poder.
Ahm ad, tachado de colaboracionista, foi afastado, com seus filhos, das posições de m ando de im portância. E abriu-se a cisânia na estirpe de Ualasm a. Com um a inversão de posições, um a vez que dois dos filhos de Ahm ad,
Haquedim e Seadedim , n se tornaram os cam peões da causa islâm ica e passaram a acusar Ali e seus filhos de serem vassalos dos cristãos. Seadedim nascera na corte do negus. E Haquedim nela viveu. Talvez por isso m esm o alim entassem tam anha hostilidade aos cristãos. No exílio, entre gente de outra fé, teria aum entado neles o zelo religioso. É possível, contudo, que a posição que vieram a adotar lhes tivesse sido im posta pelas condições políticas. A pecha de colaboracionistas, herdada do pai, lhes vedara as posições de m ando em Ifate. Os que a brandiam contra eles eram , porém , vassalos do negachi. Não podiam , por isso, os filhos de Ahm ad dar com bate a Ali com o apoio cristão. Buscaram suporte entre os que não se conform avam com a suprem acia abexim .
Haquedim foi reunindo sob sua liderança os descontentes. Quando sentiu que o núm ero de seus com andados era bastante, declarou guerra ao avô. Ali recorreu à aj uda dos cristãos. Mas esta não im pediu que suas tropas fossem batidas. Haquedim entrou triunfalm ente em Ifate e soube ser m agnânim o com o avô. Manteve-o no governo da cidade.
Isso se deu por volta de 1363. Pouco depois, Haquedim instalaria sua capital em Wahae, na terra de Sawa. Ninguém sabe ao certo localizar esses dois topônim os, m as se presum e que a sede do novo sultão, Haquedim II, ficasse a
20
leste da borla do planalto de Xoa. O centro do poder m uçulm ano deslocava-se,
assim , para leste, para longe das bases m ilitares dos cristãos. Descia para as terras quentes do Adal. Punha-se, pela distância e inclem ência do clim a, ao abrigo das sim ples expedições punitivas do negus.
Além disso, Haquedim passava a controlar as rotas com erciais para Zeila, podendo, portanto, infligir graves prej uízos aos abissínios. Ao m esm o tem po que j ogava com os interesses dos m ercadores dos reinos m uçulm anos vassalos do negus, procurava explorar-lhes as oscilações de fidelidade, naturais em gente que vivia num a área lim ítrofe entre duas crenças e dois sistem as de poder hostis. Em Ifate, Fatagar e Bali, eram com uns os renegados, os que passavam de um a fé para outra, até m esm o m ais de um a vez no correr da vida.
Do Adal, Haquedim proclam ou a guerra santa contra os cristãos. E desataram -se os com bates.
Por essa época, os coptas sofriam novas perseguições por parte dos m uçulm anos, no Egito. O sentim ento anticristão ressurgira entre os m oslins em consequência da tom ada de Alexandria, em 1365, por Pierre de Lusignan, rei de Chipre. Em retaliação às perseguições contra os coptas — ou, quem sabe, na vã esperança de aj udar o rei cipriota no seu ataque ao Egito — Saífa Arade teria m ovido um poderoso exército no rum o do vale do Nilo. Ao alcançar o rio, soube que as tropas de Lusignan j á haviam evacuado Alexandria e, diante das grandes perdas que o deserto causava entre os etíopes, deu volta atrás. Outra versão registra que o regresso dos exércitos abexins à sua terra se deveu a um a em baixada que o sultão do Cairo enviara a Saífa Arade para negociar a paz. E um a outra diz que a m issão diplom ática, da qual faziam parte Johannis, arcebispo copta de Jerusalém , e o bispo Annas, teria sido m andada pelo patriarca Marcos, por ordem do sultão, para instar a Saífa Arade que parasse de m altratar os m oslins, os quais, vendo-se am eaçados em suas vidas e seus bens, haviam
apelado ao Cairo.21 Consta que os em baixadores foram forçados a perm anecer na Etiópia.
Dez anos durou a guerra santa de Haquedim . Só term inou com a m orte deste,
em com bate, em 1373 ou 1374. O rei abexim j á era outro, Niuaj a-Mariam , o que ascendera ao poder em 1371, após o falecim ento de Saífa Arade, seu pai.
Breve foi a trégua. Pois Seadedim pronto reacendeu o zelo m uçulm ano. Com o apoio dos xeques, dos j urisconsultos, dos derviches, dos cam poneses e dos pastores, dos sedentários e dos nôm ades, m uitos ligados por pactos de m orte, o irm ão de Haquedim II proclam ou o j ihad contra o negus e os cristãos. Fez-lhes, porém , um outro tipo de guerra. Atacava certas áreas de Dauaro e de Bali, m atava, queim ava e destruía, levantava o butim de escravos e de gado, e depois abandonava o cam po, em vez de se fixar no território vencido. Regressava ao Adal ou ia esconder-se em outras terras. Deixava passar o tem po e volvia ao ataque à m esm a área ou a um outro ponto sob o dom ínio cristão.
Tal estratégia deu-lhe tem po, m as não lhe assegurou a vitória. O sucessor de
Niuaj a-Mariam , um outro filho de Saífa Arade, David, p que subiu ao poder em 1380, sediou sua capital e concentrou os seus exércitos em Tobia, no nordeste de Ifate, e em Tilq, no Fatagar. Dali e das guarnições estacionadas em Bali, Dauaro e Hadia, não deu descanso a Seadedim .
Em 1403, as tropas etíopes j á com batiam no centro do planalto de Harar, onde por várias vezes derrotaram os m uçulm anos. Seadedim viu-se obrigado a fugir para Zeila, m as os cristãos o perseguiram , sitiaram a cidade, tom aram -na e deram m orte ao Ualasm a. Seus dez filhos atravessaram o m ar Verm elho e foram refugiar-se no Iêm en.
David teve de fazer frente a outras am eaças ao im pério. Os falachas, por exem plo, em bora m uitas vezes vencidos pelas arm as cristãs, não se tinham subm etido de todo. O centro de sua resistência havia-se deslocado m ais para o norte.
Ali, em Sem ién, chegou um m onge, Cózim os, que havia renegado a fé cristã. Ele j untou-se aos falachas e para eles traduziu o Antigo Testam ento. Robustecidos nas suas crenças, os falachas levantaram -se contra o negus e saíram a queim ar igrej as, a m atar clérigos e fiéis, chefes e funcionários da coroa. O rei David m andou contra eles o governador de Tigrê, que os venceu e colocou no m ando, com o governador de Sem ién e de parte de Dâm bia, um poderoso chefe falacha
que se opusera à rebelião, Bet-Aj ir.22
David desenvolveu tam bém , com o o seu pai, um a política de proteção aos cristãos que sofriam interm itentes hostilidades no Egito. Por essa época, j á era relativam ente grande o núm ero de abexins que viviam nos m osteiros do Egito e da Terra Santa. E crescia o núm ero dos peregrinos que dem andavam Jerusalém e que eram m uitas vezes, em sua dem orada viagem , obj eto de perseguições e vexam es. Quando não se viam sim plesm ente reduzidos à escravidão.
É provável que o negachi — tal com o sucedia com os soberanos cristãos da Europa e com os reinos cruzados em relação à Etiópia — alim entasse a esperança de um a grande liga anti-islâm ica. E desej asse j untar forças aos cristãos que davam com bate, no Mediterrâneo Oriental, aos infiéis.
Num dos m om entos de tensão entre m uçulm anos e coptas ou entre os peregrinos etíopes e as autoridades egípcias, David ordenou aos seus exércitos que descessem do planalto e assolassem as terras de islam itas que, desde o século XIII, estavam na esfera de influência do Egito. Isso se teria dado em 1381 e as forças do negus teriam chegado ao território de Assuã. O obj etivo do ataque
23
talvez fosse garantir as rotas para Alexandria e para Jerusalém .
Graças à intervenção do patriarca copta Mateus, os abexins voltaram às suas m ontanhas. E cinco anos m ais tarde, quando Barcuque, o fundador de um a nova dinastia m am eluca no Egito, os Burj is, estava firm e no poder, restabeleceram -se as boas relações entre o Cairo e a Etiópia. O negus m andou para o sultão 21 cam elos carregados de presentes. Entre outras coisas, vários castiçais cheios de
24
pepitas de ouro do tam anho de ervilhas.
Aos soberanos etíopes não escaparia ser o cristianism o o que dava coesão ao estado, o que fazia dele um reino especial, o braço arm ado do povo escolhido, o sucessor de Israel, isolado no seu orgulho e na sua força. Qualquer ruptura na unidade religiosa podia, assim , afetar a segurança do estado. Daí a preocupação que David deve ter tido, desde que ascendeu ao poder, com a expansão da cham ada “casa” de Euostateus, na Eritreia e nas áreas periféricas do norte do im pério.
Três eram os seus grandes m osteiros: Debra Mariam , Debra Bizém e Dequi Jita. De cada um deles dependiam num erosos m onastérios m enores e conventos de religiosas. A seus m em bros, os bispos não faziam padres, pois os consideravam hereges. Por isso, cada com unidade era chefiada por um irm ão leigo, que conferia o hábito m onástico aos noviços. Não quer isso dizer que não houvesse padres em algum as congregações euostateucianas, um a vez que m uitos sacerdotes aderiam ao que era o em brião de um cism a.
O crescim ento da “casa” de Euostateus deveu-se em parte à vacância do bispado m etropolitano. Por dez anos, a Abissínia ficara sem abuná egípcio, sem um com ando central que assegurasse a observância das norm as da Igrej a de Alexandria.
q
Quando, em 1398 ou 1399, chegou à corte o abuná Bartalom eus, sua prim eira preocupação foi a de restaurar a unidade dos cristãos, pelo com bate aos que se aferravam às antigas tradições j udaicas e à observância do sábado. Pediu, então, aj uda a David, para que forçasse os euostateucianos a regressar à ortodoxia alexandrina.
Em 1400, o rei m andou vir à sua presença os principais líderes da “casa” de Euostateus. Doze com pareceram à corte, em Am ara. Entre os quais, Filipos, o abade de Debra Bizém , que se tornou o sím bolo deles todos. Diante do negus, defenderam os princípios que os guiavam . E, com o se negassem à apostasia, foram postos a ferro, por ordem do abuná, e levados prisioneiros à ilha de Haiq.
O rei cuidou em não se deixar envolver no processo. Nem nas perseguições que a ele se seguiram . O abuná e o abade de Debra Hay q tom aram a direção do com bate aos heterodoxos. Alguns dos euostateucianos abj uraram , incapazes de resistir aos m aus-tratos e às vexações. A m aioria, porém , ficou firm e. E a seita continuou a ganhar terreno, até m esm o em Am ara, onde Filipos de Bizém e os seus haviam causado profunda im pressão j unto ao clero e à nobreza. As hostes de Euostateus se alim entavam do nacionalism o etíope, que se fortalecia na luta contra os m uçulm anos e com eçava a ver em Alexandria a fonte de um a im posição estrangeira.
Tão logo se soube da derrota e da m orte de Seadedim em Zeila, o rei David deu ordem para que se libertassem Filipos de Bizém e seus com panheiros. Crescera, ao redor do negachi, o núm ero dos que favoreciam os discípulos de Euostateus. É até possível que a pressão em favor deles se tenha exercido pelos m ilitares de Saraé e de Ham asén que se encontravam na corte, de volta das cam panhas do Adal.
Com o quer que tenha sido, a partir de 1404, David proíbe as perseguições aos euostateucianos. Podem eles livre e abertam ente guardar os dois dias sagrados: o sábado e o dom ingo. E reocupar seus m osteiros. As teses de Alexandria, contudo, deveriam continuar — e assim o ordena o rei — a prevalecer na corte e nas igrej as e m onastérios que não pertenciam à “casa” de Euostateus.
Tratava-se de satisfazer ao m esm o tem po aos dois partidos. E a am bos se descontentou. Os ganhos foram , contudo, para os adversários do abuná Bartalom eus, que ficou desprestigiado. A tolerância real para com a observância do sábado fez com que esta prática, antiga nas tradições etíopes, se fosse de novo im pondo, paulatinam ente, por toda a parte. Renasceram , à sua som bra, os costum es do Antigo Testam ento que os bispos egípcios tanto, e com tam anha
25
constância, e por tão longo tem po, haviam com batido. As diferenças de práticas religiosas que separavam secularm ente a Igrej a da Etiópia da de Alexandria, com o a circuncisão no oitavo dia e as prescrições dietéticas do Pentateuco — os cristãos abissínios não com iam porco, lebre, coelho, peixe sem
26
escam as, lagosta, caranguej o e outros “m anj ares vedados na lei” — tom aram
m aior força e se im puseram até os nossos tem pos.
r
Em 1412, faleceu David. Subiu ao poder Teuodoros, seu filho. Que só reinou pelo espaço de um ano. Pois m orreu nas m ãos dos islam itas.
Com o auxílio do soberano do Iêm en, os filhos de Seadedim tinham regressado ao planalto do Harar. Um deles, Sabredim II, investiu-se do antigo título de rei de Adal e, quase que im ediatam ente, com eçou a guerrear os cristãos, cuj o em penho em evangelizar pela força o Harar, transform ando as m esquitas em igrej as, havia provocado o rancor e o desej o de desforra das m assas m oslins.
No início, foram exitosas as cam panhas m ilitares de Sabredim II. Mas, passados alguns anos, sua tentativa de reconquista dos territórios islam itas que haviam sido incorporados ao im pério abissínio foi contida pelos exércitos do negus.
s
Este era então Ichaque, tam bém filho de David. Introduzira ele várias novidades na organização das forças arm adas, que confiara a um m am eluco, Altum buga, exilado do Alto Egito. Outros m am elucos estabeleceram na Etiópia, a seu m ando, oficinas para o fabrico de cotas de m alhas e de espadas. E um a
copta reestruturou para ele o sistem a de cobrança de im postos. 27
Por sete anos reinou Ichaque, que tam bém perdeu a vida a lutar contra os Ualasm as. Isto, em 1430. Sabredim II j á estava m orto desde 1418. Em seu lugar
com andava os m uçulm anos seu irm ão Jam aldim .t A guerra continuara quase sem tréguas, ao longo de todo esse tem po. Com os etíopes a resistirem , em seus enclaves, e tendo m uitas vezes que abandonar posições.
Após a m orte de Ichaque, debilitaram -se os cristãos, que com eçaram a ser batidos em várias frentes. Jam aldim atacou com dureza a região fronteiriça. Sobretudo as forças m ilitares abexins sediadas em territórios onde podia contar com a solidariedade dos m uçulm anos. Seu irm ão e sucessor, Ahm ad Badlai, que ascendeu ao poder em 1432, continuou a contar com o favor das arm as. Consta
28
que logrou recuperar Bali para o islam e.
Senhores do Harar, os Ualasm as perseguiam um a política expansionista para o ocidente e para o oriente. Buscavam anexar as províncias m aom etanas do im pério abexim e subm eter o interior do Chifre da África, desde o planalto até Zeila. Foram , de início, m uito aj udados em seu intento pelo caos político que se instalou na corte do negachi, onde vários partidos disputavam a sucessão de Ichaque.
Morto este, subira ao trono seu filho Indirias, cuj a vida se extinguiu em poucos m eses. E, em bora houvesse outros filhos de Ichaque a pretender o poder, a nobreza, o clero e o exército foram buscar um irm ão do antigo rei, Hisba-
u
Nagne, e o coroaram . A escolha não foi unânim e, pois j á então se apresentara
com o candidato um outro irm ão de Ichaque, Zara-Jacó. v E m esm o depois de decidida a disputa em favor de Hisba-Nagne, os partidários de Zara-Jacó parecem ter continuado a atuar em seu favor.
Três anos depois, Hisba-Nagne faleceu. Abriu-se nova contenda, desta feita
w
entre os partidários de um filho de Hisba-Nagne, Mirca-Nagne, os adeptos de um filho de Ichaque, Salm um , e os que favoreciam Zara-Jacó. Consta que Salm um pôs, por brevíssim o tem po, a coroa na cabeça. Que logo passou para Mirca-Nagne. E que deste caiu, quando se lhe foi a vida, após alguns m eses de poder.
Seus seguidores apressaram -se em colocar no trono seu filho Bedla-Nagne, um a criança. Mas, a essa altura, tornara-se m ais forte o partido de Zara-Jacó,
29
que o foi buscar no m onte Guixém e o fez rei. Em 1434.
Zara-Jacó foi entronizado aos 35 anos. Tinha fam a de hom em de saber e de vontade. Segundo a tradição, fora educado, em Axum , por um m onge do Tigrê — quem sabe se um discípulo de Euostateus? —, antes de ser m andado, aos 14 anos, para o m onte Guixém , por seu irm ão, o rei Teuodoros. No m onte, com o tantos outros príncipes, ter-se-ia aprofundado nos estudos teológicos, exercitado nas artes e na poesia, aprendido os truques e as m alícias da política de corte.
As próprias circunstâncias que cercaram o seu acesso ao trono o terão aconselhado a revestir-se de todos os atributos form ais que lhe conferissem legitim idade. Foi, por isso, a Axum e lá ficou durante três anos, a fim de cum prir a cerim ônia da tonsura, ou da “renovação das leis e das instituições do reino”. Ele teria, assim , som ado à cerim ônia da unção, instituída talvez por lecuno-
30
Am elaque, os rituais da tonsura, m uito m ais antigos, pois datariam de Gebra Mascal. Ao restaurar ou reinventar essa tradição, Zara-Jacó com o que se fazia
descendente dos antigos reis axum itas, cuj o poder continuava.31
Segundo a crônica de Baida-Mariam ,x foi este rei levado à “casa de tom ar votos”, para onde trouxeram um búfalo e um leão, que ele devia m atar com suas m ãos. Tal com o fizera seu pai, Zara-Jacó, Baida-Mariam ordenou a um de seus
hom ens que abatesse o búfalo, m as não tocasse no leão.32 33 O padre Pero Pais,
quase dois séculos m ais tarde, lerá num livro que se encontrava em Axum e em que se descrevia a coroação do negachi, que este cravava pessoalm ente no leão — e não no búfalo — a sua lança, após o que se soltavam os num erosos anim ais dom ésticos e selvagens que para ali tinham sido trazidos, “a gente do array al m atando por festa os que podia alcançar”. Em seguida — e aqui se regressa à crônica de Baida-Mariam — o soberano adotava um novo nom e, ao tirar por sorte o que lhe devia caber dentre os escritos em três tabuinhas que lhe eram apresentadas.
Quando da entronização de Susênios, em 1608, Pero Pais estava presente. Mas não se cum priram todos os passos da cerim ônia tradicional, porque o rei, que j á se inclinava para o catolicism o rom ano, considerou alguns deles com o “superstições gentílicas”. Não se m atou o leão. Nem o búfalo. Não se soltaram as feras, os bois, os carneiros e as avezinhas à perseguição do populacho. O j esuíta reconheceu, porém , as prescrições do livro nos gestos com que se ungiu o rei e no m odo com o o tonsuraram , o cabelo que lhe tiravam sendo queim ado, e as cinzas, postas num a pedra, que cobriam com outra. Tudo entre m úsicas, altas
34
palavras e cânticos.
A recuperação de Axum com o centro espiritual do reino e a reinvenção dos ritos tradicionais de investidura do negachi serviam adm iravelm ente à política centralizadora de Zara-Jacó. Foi um rei-sol. Queria que a vida do im pério girasse em torno dele e de sua corte, a cuj a peram bulação pelas terras da Etiópia procurou, sem êxito, dar fim , ao erguer um a nova capital em Debra-Birhan, no
Xoa. 35
Para im por-se com o vontade absoluta, deu batalha às pretensões da nobreza fundiária, dobrou as veleidades de poder dos vários ram os da fam ília real, reduziu à m ais estrita obediência os régulos e chefes vassalos. Quando um seu cunhado, o sultão de Hadia, se levantou contra ele, esm agou-o im piedosam ente.
A fim de que a nobreza não se fortalecesse, pôs as províncias sob o com ando de governadores que lhe eram estritam ente fiéis. Prim eiro, sob suas filhas — e não sob os filhos, para não acordar nestes a am bição do m ando. E m ais tarde, sob funcionários que tudo lhe deviam e que a ele diretam ente prestavam contas. Para aj udá-lo no com ando do im pério, criou o cargo de prim eiro-m inistro, betudete ou betuadade. Após ter nessa função dois hom ens de confiança, que lhe falharam , dividiu o cargo em betuadade da direita — que era o principal — e betuadade da esquerda, e os ocupou com duas filhas.
Estabeleceu num erosas colônias m ilitares por todo o im pério, form adas sem pre por contingentes que eram inteiram ente estranhos às regiões onde se instalavam . E, com o obj etivo de fortalecer o dom ínio sobre as terras que iam ter ao m ar Verm elho e faziam face às ilhas de Dahlak, uniu o planalto eritreu num a só unidade adm inistrativa e a entregou à confiança de um funcionário que tom ou o nom e de bahir-negash ou barnagais. Graças ao crescim ento de seu poder nessa região, pôde Zara-Jacó, em 1464 ou 1465, vencer e pilhar as ilhas de Dahlak e Missiua. Com isso, reservou-se o controle do com ércio naquela área, que procurou expandir, ao m andar escavar um porto m ais profundo em Girar, próxim o à atual Massaua (ou Maçuá).
A consolidação do poder do negachi sobre a parte setentrional de seu im pério e os litorais do m ar Verm elho que lhe ficavam adj acentes era um a consequência natural da política anti-islâm ica por ele perseguida. Com o tantos outros neguses antes e depois dele, Zara-Jacó sentia-se envolvido e constantem ente am eaçado pelos poderes m uçulm anos. Para contê-los, percebia ser-lhe essencial a incessante am pliação dos lim ites daquela Cristandade insulada e o seu acesso ao m ar, ainda que o m ar fosse m oslim .
Herdara ele a guerra contra os Ualasm as, que continuaram , durante 11 anos de seu reinado, a assolar-lhe o sudeste do im pério. Os êxitos de Badlai, sultão do Adal, haviam convencido os islam itas de que lhes seria possível levar a guerra santa até m esm o ao altiplano etíope. Zara-Jacó lhes destrói esta esperança, pois, em bora tarda, a vitória lhe chega finalm ente em 1445, na batalha de Gom it, em Dauaro, na qual Badlai perdeu a vida.
Zara-Jacó não se aventurou, contudo, a tentar reaver os territórios que David, Teuodoros e Ichaque haviam conquistado e depois perdido no Harar. Largando-os aos m uçulm anos, preferiu fortalecer um a linha de fronteiras que os m antivesse a distância.
A derrota de Badlai e as hostilidades aos islam itas que a ela se seguiram agravaram ainda m ais as j á tensas relações entre o rei etíope e o sultão m am eluco do Egito. Com o seu pai, David, Zara-Jacó se tinha por protetor dos cristãos egípcios e procurava atuar em favor deles j unto ao governo do Cairo.
Em 1440 ou 1441, o patriarca copta Johannis XI escreveu um a carta ao negus, na qual o inform ava de que a fam osa igrej a de Al-Magtas havia sido dem olida, por ordem do sultão. Logo que recebeu a m ensagem , Zara-Jacó m andou construir um a igrej a com o m esm o nom e (Debra Mitm aq) e enviou um a enérgica m issiva ao sultão Jacm aque, na qual considerava inaceitáveis as perseguições aos cristãos e a profanação e a destruição de igrej as, com o consentim ento ou a indiferença das autoridades egípcias. Lem brou ao sultão que na Etiópia havia num erosíssim os m aom etanos, que viviam livrem ente e livrem ente praticavam a sua fé. E am eaçou m udar de com portam ento em relação a eles e até m esm o divertir o curso do Nilo, caso não cessassem no Egito os vexam es contra os coptas e não fossem reconstruídas as igrej as postas ao
36
chão.
O cairota m andou ao rei abexim um em baixador, com um a resposta insatisfatória, na qual dizia, entre outras coisas, ser extravagante a proposta da reconstrução das igrej as destruídas. Zara-Jacó reteve por quase quatro anos o em issário do sultão, só o soltando depois que Jacm aque prendeu o patriarca Johannis, m andou açoitá-lo e o am eaçou de m orte, caso não cortasse todas as com unicações com a Etiópia, exceto as que expressam ente perm itisse.
Não devia escapar a Zara-Jacó que Jacm aque tinha sobre ele poderes de pressão bem m aiores do que o hipotético desvio do Nilo. No Cairo estava o patriarca copta, e dele — e, em últim a análise, do sultão — dependia o abuná. Se este m orresse e o governante m uçulm ano do Cairo não desse consentim ento para que outro bispo egípcio o substituísse, deixaria de haver ordenações de novos padres na Abissínia, cuj a própria identidade política com eçaria a se ressentir da m íngua de clero.
Zara-Jacó com eçara o seu reino, sob este aspecto, de form a feliz. Após a m orte do abuná Bartalom eus, fora este substituído por dois bispos m etropolitanos, Micael e Gabriel, que trouxeram com eles um outro prelado, de nível m ais baixo, o epíscopo Johannis. Micael foi m andado para Am ara e Gabriel para o Xoa, e com eçaram a m ultiplicar a ordenação de novos padres.
A expansão do clero não produzia efeitos, contudo, entre os adeptos de Euostateus, que continuavam a não receber as ordens sacerdotais. Os seus m osteiros eram dirigidos e form ados por irm ãos leigos, aos quais se j untavam padres que haviam aderido às posições da “casa”.
Ao espírito centralizador e uniform izador de Zara-Jacó, a divisão da Igrej a etíope entre alexandrinos e euostateucianos causava inquietação e repulsa. Por isso, tão pronto se viu livre da guerra contra os islam itas, convocou um concílio, que se reuniu em 1450, na nova igrej a de Debra Mitm aq, para forçar a reconciliação entre os dois grupos.
É possível que j á tivesse, ao subir ao trono, um a posição em favor das teses de Euostateus e que estas continuassem , desde a época do rei David, a ganhar terreno no seio da corte. A resistência alexandrina, entretanto, prosseguia forte, apoiada nos dois abunás e em toda a “casa” de Debra Asbo, à qual pertencia o echegé, ou “cabeça de todos os m onges”.
Em benefício da hom ogeneidade religiosa do im pério, Zara-Jacó não hesitou em dobrar os abunás e os seguidores de Tacla Haim anote. Ele próprio presidiu o concílio e fez com que a disputa se decidisse em favor de Euostateus, da observância dos dois sábados e das outras teses nacionalistas. Com isso, devolveu-se o prestígio à im itação do Antigo Testam ento e se apartou oficialm ente a Igrej a etíope da Igrej a egípcia. O afastam ento foi acentuado, após 1458, pela ausência de um abuná na corte. Mortos Gabriel e Micael, não se pediu ao patriarca de Alexandria um novo bispo, para substituí-los.
Depois do concílio, os discípulos de Euostateus acolheram a ordenação sacerdotal, com o que se am pliou a capacidade evangelizadora de seus m osteiros. Num m om ento de expansão da Igrej a. Da qual cuidou zelosam ente o próprio rei.
Zara-Jacó construiu num erosos tem plos. Apoiou econom icam ente os m onastérios, concedendo-lhes enorm es tratos de terra. Obrigou cada fam ília a ter um padre confessor. E cada igrej a a possuir um a biblioteca. Mais: exigiu que a instrução religiosa, com a leitura de trechos do Antigo e do Novo Testam ento,
37
fosse parte integral dos ofícios religiosos. O território do im pério foi dividido
em várias partes e a cada um a delas devia dedicar-se um m osteiro. Ao de Debra Asbo, o rei m udou o nom e para Debra Líbanos.
Dificilm ente a expansão de fé cristã podia dar-se nas regiões onde dom inava o islam e. Bem m ais propícias à catequese eram as áreas pagãs. E para elas se endereçaram os esforços dos m osteiros.
Havia, porém , um a retaguarda por cuidar. Pois m uitas com unidades que se diziam cristãs, apenas o eram na superfície, e nelas persistiam as crenças tradicionais. Os agôs, por exem plo, m antinham a devoção pelos antigos deuses cuchitas, pelos espíritos das m ontanhas, dos rios, dos lagos e das árvores.
Contra esses pagãos encobertos baixou a ira do rei. Zara-Jacó decretou a pena de m orte contra quem consultasse feiticeiros ou oferecesse sacrifícios aos deuses. Mandou destruir e queim ar as casas dos xam ãs, e tatuar com os nom es do Pai, do Filho e do Espírito Santo a testa de todos os súditos. Assim com o os seus braços direitos, com esta frase: “Neguei ao diabo m aldito, eu, escravo de Maria, m ãe do Criador de todo o m undo.” E o esquerdo, com esta outra: “Neguei ao
38
diabo suj o e vão, e a Cristo adoro.” E ordenou que se inscrevesse o sinal da
cruz nas roupas, arm as e arados de sua gente. 39
Durante os 34 anos que reinou, Zara-Jacó favoreceu de todas as form as a Igrej a. Não apenas porque isso lhe convinha politicam ente, m as sobretudo porque era um verdadeiro devoto. Autor de pelo m enos sete obras de cunho religioso, ele estim ulou a literatura m onástica, a hagiografia e as disputas teológicas, a produção de m anuscritos ilum inados, a pintura de dípticos e de m urais nas igrej as, o fabrico das cruzes e dos báculos de desenho elaboradíssim o, a m úsica sacra e a poesia.
Foi um tirano esclarecido, de m ão de ferro. Im placável contra os inim igos e contra aqueles que suspeitava que o fossem , a ninguém poupava. Muito m enos a própria fam ília, que tentou, m ais de um a vez, depô-lo.
Entre 1450 e 1453 houve um a revolta contra ele, im ediatam ente reprim ida. Com o de costum e, os im plicados devem ter tido as m ãos e os pés cortados, ou os olhos vazados ou arrancados, se é que não foram chicoteados com um requinte que os levava frequentem ente à m orte. A regra do açoite era esta: deitava-se a vítim a no chão, de barriga, e se prendiam seus punhos a duas estacas, enquanto cada tornozelo era am arrado com um a tira de couro, e dois hom ens puxavam por essas tiras, para levantar do solo quem ia ser supliciado; dois outros algozes, com suas chibatas, o zurziam de cim a para baixo e de baixo para cim a, a cortar a
40
carne até os ossos.
Um a das causas dessa insurreição abortada terá sido a política de Zara-Jacó de favorecer econom icam ente os m osteiros, por m eio da doação de terras e do privilégio que concedeu a m uitos deles de cobrar e reter im postos. Toda a tributação recolhida em Xoa, que anteriorm ente ia para a nobreza e os contingentes m ilitares ali estacionados, passou, por exem plo, para o m onastério de Debra Líbanos. Outro m otivo forte de descontentam ento da nobreza seria naturalm ente a form a sistem ática pela qual o negus a ia despindo de poderes, que concentrava em sua pessoa.
Quando seu reinado j á chegava ao fim , Zara-Jacó teve de enfrentar novas insurreições, envolvendo m em bros da própria fam ília real, que viviam na corte. Sob a acusação de que consultavam feiticeiros e sacrificavam aos deuses pagãos, várias de suas esposas e de seus filhos, além de num erosos nobres, foram j ulgados publicam ente e condenados ao açoite, em consequência do qual m uitos
m orreram . Entre estes figurava a rainha Sion-Mogesa,y m ãe do futuro rei Baida-Mariam . E com o, no prim eiro aniversário do falecim ento da rainha, esse infante
e um escravo de nom e Meari-Cristos z cum priram privadam ente os ritos da saudade, o negus os m andou aprisionar. Mas libertou o filho, logo depois.
Tudo isso indicaria que a luta pela sucessão se abrira m uito antes da m orte de Zara-Jacó. Foi vencida por Baida-Mariam , cuj o governo, em m uitos sentidos, tom aria rum o contrário ao do pai.
No m esm o dia em que subiu ao poder, em 1468, Baida-Mariam m andou libertar todos os presos políticos. E logo fez com que fossem punidos os cortesãos e clérigos que lhes haviam , no passado, trazido a ruína, ao caluniá-los com o bruxos ou adoradores dos deuses pagãos. Invertiam -se as situações: os perseguidos sob Zara-Jacó voltavam ao poder, e os que com ele m ais m andaram desciam ao ergástulo. Ou eram apedrej ados, açoitados ou supliciados até a m orte.
Se Zara-Jacó tentara sedentarizar a corte, instalando-a em Debra-Birhan, seu filho a fez de novo vaguear de província em província. E nestas, aboliu o sistem a de governo por delegados do negus, restaurando o poder da nobreza. Com o tem po, isso enfraqueceu o im pério, que perdeu o com ando único, enquanto, consequentem ente, os senhores feudais m ais fortes construíam suas esferas de dom ínio pessoal.
As consequências desastrosas dessa política só seriam sentidas bem m ais tarde. No prim eiro m om ento, reinou a euforia no im pério. E para m ostrar que se distanciava do déspota que fora seu pai, Baida-Mariam , três sem anas após ter subido ao trono, apresentou-se de rosto descoberto, sem o véu que usualm ente,
com o a outros reis africanos, lhe cobria a parte inferior da face.41
No plano religioso, seu com portam ento traçou-se tam bém na direção oposta à de Zara-Jacó. Este se m antivera distante de Alexandria e ficara sem abuná os dez últim os anos de seu reinado. Com o tinham sido copiosas as ordenações feitas por Gabriel e Micael, a Etiópia por algum tem po não ressentira os efeitos da ausência de um abuná. A escassez de padres só se tornaria flagrante j á no final da vida de Baida-Mariam .
Em 1477, convocou ele um novo concílio, no qual voltaram a enfrentar-se os euostateucianos e a “casa” de Tacla Haim anote. Os nacionalistas e j udaizantes advogaram o rom pim ento de todos os vínculos com a Igrej a de Alexandria e solicitaram do negachi a designação de bispos etíopes, que pudessem ordenar sacerdotes. Argum entaram que os coptas egípcios se haviam apartado da verdadeira fé, que praticavam atos im puros, ao não seguir à risca as prescrições do Antigo Testam ento, e não guardavam o sábado.
O abade de Debra Líbanos opôs-se veem entem ente a que a Igrej a etíope se dissociasse de Alexandria, em nom e do princípio da Sucessão Apostólica. Só os padres consagrados por um bispo designado pelo patriarca copta tinham realm ente o poder de prestar os sacram entos. E lem brou com o a ira de Deus caíra sobre a Etiópia, na época do patriarca Iosefe (830-849), quando os abexins
expulsaram o abuná egípcio e escolheram um nacional com o bispo. 42
Muito em bora a corrente contrária a Alexandria fosse m aj oritária, Baida-Mariam decidiu em favor da subordinação ao patriarca copta. Não pôde, contudo, m andar em issários ao sultão cairota e ao patriarca, a pedir-lhes que lhe m andasse um abuná, porque m orreu em 1478. Só dois ou três anos m ais tarde, chegaram à corte, onde reinava, m enino de oito ou nove anos, o seu filho
aa 43
Isquindir, os bispos Ichaque e Marcos, e dois epíscopos.
No plano m ilitar, continuaram as pressões de sem pre. O sucessor de Badlai, Muham ed, dera aos etíopes, é bem verdade, um a longa trégua. Chegara m esm o a pagar tributo ao negus. O sossego que isso trouxera à fronteira sudeste perm itira a Baida-Mariam fazer guerra aos falachas e aos dobas, um grupo islam izado, possivelm ente de origem afar, que habitava as m ontanhas ao nordeste de Angote e hostilizava as caravanas.
Os nôm ades afars e som alis expandiam -se cada vez m ais ao longo dos lim ites orientais da Etiópia. E subiam de suas terras áridas para os planaltos cultivados da Abissínia. A pressão que exerciam era especialm ente sensível ao leste de Xoa.
Ali, após a derrota de Badlai, não seriam os Ualasm as os que conduziriam a luta. Eles haviam passado provisoriam ente à posição de m eros sultões nom inais, pois vários em ires cheios de zelo religioso tinham assum ido o poder real nas regiões que com andavam e estavam ansiosos para lançar-se em guerra santa contra os cristãos. O m om ento propício chegou com a m orte de Muham ed. Lada Usm an, o governador de Zeila, preparou-se para a guerra, em 1471. Mas Baida-Mariam cortou-lhe a iniciativa, atacou o exército adalita e aprisionou m uitos de seus em ires.
Foi-lhe a vitória inconclusiva. As tribos afars que continuavam pagãs j untaram -se às m uçulm anas e fizeram da região entre Xoa e o Harar um grande cam po de com bate. Em 1473 ou 1474, dois exércitos abexins derram aram -se sobre a área e am bos conheceram a derrota.
Isquindir deu prosseguim ento à luta. Inicialm ente, com algum êxito, pois chegou a pôr a saque a capital adalita. No seu regresso, porém , sofreu vários reveses e viu m inguarem as suas tropas. Até a sua m orte, aos 22 anos, a dar com bate, num lugar que se ignora, a um a vaga tribo de pastores, as arm as etíopes não voltaram a guerrear os em ires de Adal, que se apossaram do terreno.
Isquindir tinha m enos de seis anos, quando foi posto no trono. Do governo, ocuparam -se três regentes: a rainha-m ãe Rom na e dois altos funcionários, o
cabeçada Tesfa-Giorgis bb cc e Ám eda-Micael, um servidor de grande prestígio desde a época de Zara-Jacó, que o havia feito governador da im portante região fronteiriça de Fatagar.
Cedo, Ám eda-Micael concentrou em suas m ãos a totalidade do poder. A rainha-m ãe afastou-se da corte e entrou para um convento próxim o a Debra Líbanos. Tesfa-Giorgis ficou a m aquinar contra Ám eda-Micael, de um a posição subalterna. Ele e vários outros com eçaram , porém , a influenciar o j ovem rei contra a prepotência do regente e, quando Isquindir assum iu sua vontade, fez descer Ám eda-Micael do m ando quase absoluto, m andou-o prender e exilar. Pouco m ais tarde, o velho regente foi executado.
Dentre os cortesãos que provocaram a queda de Ám eda-Micael, figuram Tesfa-Giorgis e Eleni, Ileni ou Helena, a rainha-m ãe. Esta era um a princesa
dd 44
hadia — ou, segundo outra fonte, um a filha do rei vassalo de Dauaro —, provavelm ente a m esm a que se casara, desde 1445, com o negus Zara-Jacó. Seria, na ocasião dos esponsais, um a j ovenzinha, quase um a criança, levada a unir-se ao rei etíope por m otivos políticos, um a vez que seu pai fora um dos
chefes islam itas que aj udaram o rei David na luta contra Seadedim .45 Morto Zara-Jacó, Eleni m anteve o título de rainha da direita na corte de Baida-Mariam , posição, ao que parece, puram ente cerim onial, pois não deve ter sido um a das
esposas do rei, 46 47 em bora j á se tenha pensado o contrário.
Durante todo o reinado de Baida-Mariam , Eleni gozou de considerável prestígio. O negachi a ouvia m uito nos assuntos políticos e a considerava com o se fosse sua m ãe. Por essa época, Eleni deve ter construído um a grande clientela, que utilizou, na ocasião própria, contra Ám eda-Micael e para reem ergir, com o figura política ainda m ais poderosa, na corte de Isquindir, onde assum iu o título de rainha-m ãe, vago desde o afastam ento de Rom na.
O conflito político entre Ám eda-Micael e Eleni afrouxou a coesão do im pério e fez com que se desatassem os laços de disciplina, tanto na corte quanto nas forças arm adas. A insubordinação grassou entre a soldadesca. E a descoordenação tornou-se regra entre as chefias. Perdido por Ám eda-Micael o governo do Fatagar, o com ando dos contingentes de defesa da fronteira fragm entou-se entre pelo m enos sete generais, tornando-a ainda m ais vulnerável ao avanço m aom etano.
O falecim ento de Isquindir, em 1494, acentuou os conflitos e desfez a precária ordem que Eleni e aquele negus apenas saído da adolescência haviam finalm ente e a m uito custo, logrado im por. O exército dividiu-se em duas grandes facções.
Um a, sob o com ando de Tacla-Cristos ee e provavelm ente de base xoana, pôs a coroa num filho de Isquindir, Ám eda-Sion II, que tinha m enos de sete anos de idade. A outra, chefiada por Zesilus e apoiada nos am áricos, foi buscar no m onte Guixém um outro príncipe, ao que parece o irm ão m ais novo de Isquindir, Naode.
Da batalha entre os dois partidos, saiu vitorioso Tacla-Cristos, que m andou vasar os olhos de todos os partidários de Zesilus que haviam perm anecido na corte. A guerra civil continuou, porém , em m uitos pontos do im pério, onde os que acom panhavam Zesilus não depuseram as arm as.
O destino, inesperadam ente, os favoreceu. Pois apenas se tinham passado seis m eses desde que fora posto no trono, e Ám eda-Sion II faleceu, sucedendo-lhe Naode — provavelm ente o m esm o príncipe que as tropas de Zesilus haviam trazido de Guixém .
Naode tinha som ente vinte anos. Foi coroado em Am ara, enquanto que Ám eda-Sion o fora em Xoa. E em Xoa, os sequazes de Tacla-Cristos e os que haviam favorecido Ám eda-Sion organizaram a rebelião contra o novo negus. Naode não facilitou inicialm ente a conciliação, pois perseguiu de form a inexorável os adversários da véspera. Pouco depois, contudo, com o apoio de Debra Líbanos e do clero, procurou convencer parte dos revoltosos xoanos a aceitarem o seu m ando, ao m esm o tem po que deu com bate aos intransigentes. Venceu Tacla-Cristos. Mandou-o cegar. E restaurou a paz interna a lançadas.
A am eaça externa continuara, contudo, a crescer. Enquanto o reino cristão se debatia em crises, com o poder central a debilitar-se, o trono a ser ocupado por crianças ou adolescentes e a guerra civil a tornar-se quase endêm ica, em toda a região sudeste da Etiópia, e especialm ente no Adal, consolidavam -se as novas lideranças, fortes, cheias de ardor religioso e de entusiasm o m ilitar, dos chefes tribais afars e som alis.
Por volta de 1480, um dentre eles assum e a liderança. Mafuz, nom inalm ente general do rei ualasm a, passa a ser conhecido com o im am e. Na época e na área,
48
o título tinha a acepção de “o eleito para conduzir o j ihad”. E, com o condutor
da guerra santa, Mafuz não dava trégua às guarnições cristãs de fronteira,
atacando-as sobretudo na Quaresm a, quando estavam debilitadas pelo j ej um . 49
Nem todos em Adal eram partidários da guerra. Havia quem , em benefício do com ércio, defendesse o entendim ento com o negachi ou, quando m enos, a coexistência com os infiéis. Essa facção alinhou-se com o novo rei ualasm a, Muham ed ibn Azar ad-Din, que subiu ao poder em 1488. Era um partido de base urbana, aristocrático, religiosam ente m orno, que punha acim a de tudo a preservação do com ércio e das rotas caravaneiras que iam do m ar Verm elho ao altiplano.
Aos que assim pensavam opunham -se — num a repetição da receita com que Ibn Khaldun procurou explicar o surgim ento, o apogeu e a queda dos estados — as num erosas tribos nôm ades, que j á não cabiam no deserto, tribos de islam ism o devoto, cum pridor, expansionista e intransigente, para as quais a pilhagem das cáfilas era um a im portante atividade. Essas tribos, que apoiavam Mafuz, foram se revelando cada vez m ais poderosas. O próprio êxito das ações de Mafuz contra a orla do im pério abexim as fortalecia.
Durante os reinados de Isquindir e Naode, não cessou o im am e de fustigar as regiões fronteiriças cristãs e de lá fazer descer abundante butim de escravos e gado. Contava ele com a cum plicidade ou a adesão dos islam itas que ali viviam e que form avam até m esm o, na m aioria dos casos, a m assa das populações da borda sul-oriental do território etíope.
A pressão continuada que exerceu contra as colônias m ilitares do negachi deve ter estim ulado as revoltas que eclodiram , no reinado de Naode, em Dauaro e Bali. O negus derrotou-as.
Logo em seguida, após expurgar seu exército dos contingentes m uçulm anos, nos quais havia perdido a confiança, m andou-o contra Mafuz. Ante a neutralidade do sultão Muham ed, os etíopes lograram im por-se às tropas de Mafuz e conquistar um breve descanso. De pouca duração, aliás, pois foi som ente o prenúncio de um a nova ofensiva m aom etana no Ifate, na qual perdeu a vida, em 1508, o negus Naode.
ff
Com a m orte de Naode, subiu ao trono Lebna-Dengel, que tinha apenas 11 anos de idade. Eleni viu-se de novo regente e procurou dar continuidade à política, que sem pre defendera, de evitar o isolam ento do im pério etíope, por m eio da aliança com os m uçulm anos m oderados. Favorecera ela o entendim ento com o sultão Muham ed, do Adal, em favor do com ércio e da segurança das populações fronteiriças, que viviam no m eio da guerra perm anente, sem garantias de que colheriam o que plantavam ou conservariam o seu gado, obrigadas ao constante deslocam ento de suas m oradas, à fuga e, m uitas vezes, a tingirem -se da religião do adversário ou a praticarem sucessivas apostasias.
Eleni e Muham ed tinham os m esm os obj etivos e logo se entenderam . Mas este entendim ento era precário, porquanto Mafuz e seus seguidores a ele não aderiram . Continuaram a guerra, estim ulados e talvez m esm o m aterialm ente am parados pelos otom anos, que perseguiam a unificação política do Islão e se haviam feito senhores do m ar Verm elho. Suas am bições de expansão pelo Índico iriam , contudo, esbarrar nas de um outro poder, o dos portugueses. Foi para estes últim os, m alogrado o esforço de conciliação com os m uçulm anos, que Eleni se voltou, em busca de aliado seguro contra as am bições turcas.
Desde m uito, os cristãos abissínios deviam provocar curiosidade entre os europeus que rezavam ou lutavam na Palestina. Por sua vez, de volta das peregrinações que faziam a Jerusalém , os etíopes traziam notícias para o altiplano dos cristãos que viviam para além do m undo islâm ico, no qual a Abissínia estava insulada.
Após a conquista de Jerusalém por Saladino, em 1189, aum entou o fluxo de abexins para a Terra Santa. Ali obtiveram eles, em Jerusalém e em Belém , lugares próprios onde se instalaram em pequenas com unidades, a praticar a sua form a de culto copta.
Para os europeus, o antigo m ito do Preste João, do soberano cristão cuj os dom ínios se estendiam do outro lado dos territórios m uçulm anos, passou a consubstanciar-se no negus. Num negus cuj o poderio e riqueza eram certam ente exagerados, de um lado, pelo patriotism o e pelo sentido de insegurança dos peregrinos etíopes, e de outro, pelos devaneios de um a Europa aflita e ansiosa de auxílio, por sobre ela pesar a am eaça islam ita.
A aproxim ação era desej ada pelas duas partes. E, em 1317, um m onge dom inicano, Guillaum e Adam , que havia estado na ilha de Socotorá e fizera várias tentativas para chegar à Etiópia, propôs pela prim eira vez um plano de aliança entre os cristãos da Europa e os abexins, para exterm inar os sarracenos. A ideia ganhou força em alguns espíritos europeus com as notícias, que extravasaram do altiplano etíope, das vitórias de Ám eda-Sion sobre as forças m uçulm anas. As atitudes em defesa dos coptas assum idas por aquele negus e tam bém por Saífa Arade e David, bem com o a am eaça de levar a guerra às terras do Egito feita pelos dois últim os, devem tam bém ter-se difundido entre os europeus que viaj avam pela Palestina e despertado neles toda a sorte de expectativas.
No isolam ento do altiplano — trazidas por m onges e rom eiros abexins que haviam estado ou vivido na Palestina, no Egito e em Chipre, e que tinham até, em alguns poucos casos, percorrido terras europeias —, as novas das cruzadas terão tam bém acordado esperanças.
A percepção de que os cristãos que lutavam contra os m aom etanos no Mediterrâneo Oriental poderiam aliar-se aos etíopes não faltou aos islam itas. Tanto assim que os m am elucos cairotas sem pre se opuseram com rigor a que europeus chegassem à Abissínia. Todos os em pecilhos eram postos para evitar que pudessem prosseguir viagem . Os que insistiam viam -se aprisionados ou tinham destino m ais cruel.
Apesar disso, vários europeus lograram atingir aquelas terras altas sitiadas e ali
50
ficaram a viver. Deles há evidências a partir do início do século XV.
A m ais antiga m ensagem , que se conhece, de um soberano europeu a um negus foi a dirigida por Henrique IV da Inglaterra, em 1400, ao “rei da Abissínia, Preste João”. Nela, Henrique IV, que, antes de ascender ao trono, havia estado na Terra Santa e ali sabido da disputa entre David e o sultão do Cairo, cum prim enta o negachi pelo seu desej o de libertar o Santo Sepulcro do dom ínio infiel e m anifesta a esperança de poder ele próprio retornar à Palestina.
Ignora-se se a carta chegou ao destinatário. Mas, dois anos depois, o negus enviava a prim eira em baixada etíope à Europa. Era dirigida por um florentino, Antônio Bártoli, e com posta por alguns abexins. A partir dela, várias outras percorreram certas cortes europeias, a propor aliança ou a solicitar artífices e técnicos. Sobretudo m ilitares. A m ais conhecida ficou sendo a enviada por Ichaque ao rei Alfonso V de Aragão, em 1427. Talvez tenha sido ela a que, de regresso, foi interceptada, em 1429, pelos egípcios, sendo seu chefe, um persa de nom e Al-Tabrizi, e m ais dois m onges executados em praça pública, no Cairo, pelo crim e de levar arm as ao inim igo. Entre os bens que carregavam havia num erosos uniform es com o sím bolo da cruz e a palavra “Hati” bordados em
dourado. 51
As querelas entre o sultão cairota e o negus Zara-Jacó, assim com o as vitórias que este alcançou contra Badlai, no Adal, causaram grande satisfação na Europa. E facilitaram enorm em ente os trabalhos da em baixada que Zara-Jacó para lá enviou em 1450. Seu chefe era um siciliano, Pietro Rom bolo, que vivia na Etiópia. Foi ela recebida em audiência pelo papa Nicolau V, seguindo depois para Nápoles, a fim de avistar-se com Alfonso de Aragão, que era tam bém rei de Nápoles e da Sicília. Os obj etivos da em baixada seriam os de sem pre: obter técnicos e artífices que pudessem levar para a Etiópia os novos recursos bélicos utilizados na Europa — o canhão e o arcabuz — e as táticas de batalha que de seu uso derivavam .
Tanto o papa quanto Alfonso de Aragão enviaram m issões à Etiópia. Um a, o prim eiro, em 1451. E duas, o segundo, em 1452 e 1453. Não se sabe se todas chegaram ao destino.
De qualquer form a, ao iniciar-se a segunda m etade do século XV, algum as conexões com a Europa haviam rom pido o isolam ento dos etíopes, e a Abissínia, com o o provam o m apa conhecido com o Egy ptus Novelo (c. 1454) e o do frei Mauro (1460), deixara de ser um a terra desconhecida para os europeus. Em bora continuasse a ser o sem ilendário país do Preste João.
Era cristã, m as copta. Irredutivelm ente copta, e copta à sua m aneira. Tanto assim que não deve, ao que tudo indica, ter participado oficialm ente do Concílio de Florença, que se reuniu de 1439 a 1441, para buscar reduzir as diferenças entre Rom a e Constantinopla e assegurar a unidade cristã diante da renascente am eaça m aom etana. Não se exclui, porém , que algum observador abissínio possa ter assistido aos trabalhos do Concílio.
Em 1452, os turcos tom am Constantinopla. E, no início do século XVI, assenhoream -se do Egito e das costas da Arábia e ensaiam o avanço sobre o Índico. Ali encontram , porém , a buscar o com ando das águas e firm es em vários pontos da costa africana, das ilhas do Índico e do subcontinente indiano, os portugueses, que a eles se haviam antecipado.
Para os portugueses, que aspiravam ao dom ínio do Índico, a Etiópia desenhava-se com o parceiro ideal. Desde m uito, Preste João e seus exércitos frequentavam a im aginação lusitana. Tanto que d. João II, em 1487, m andara
52
Pero da Covilhã em busca das terras do Preste, para alcançar um a aliança.
Pero da Covilhã só chegou à Etiópia após seis anos de longa e intricada viagem . De lá nunca m ais sairia, para dizer a seu rei o que fizera e vira. Mas as notícias que deu de Portugal à rainha Eleni influenciaram -na profundam ente e a convenceram de que os portugueses eram os aliados naturais da Etiópia, pois, se ocupassem as costas africanas do m ar Verm elho e do golfo de Aden, cortariam o acesso dos islam itas do Adal a seus correligionários da outra costa e os obrigariam a com bater em duas frentes.
Essa convicção ter-se-ia reforçado com o bom bardeio de Mogadixo por Vasco da Gam a em 1499, com a ocupação da ilha de Socotorá em 1507, com a fugaz tom ada de Zeila em 1517, e com o saque de Berbera em 1518. Mas a vontade da rainha regente j á estava conquistada antes dos dois últim os feitos, pois enviou, em 1509, um a m issão a d. Manuel I de Portugal, chefiada por um certo arm ênio, de nom e Mateus.