A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 29 de 35 · parte 1/3

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A Enxada e a Lança

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

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Na passagem do século XV para o XVI aum entara a pressão m uçulm ana contra a Etiópia. A noroeste do altiplano, onde, após a j unção do Nilo Azul com o Nilo Branco, o longo rio se dobra em S, os territórios que tinham sido Nobácia, Macúria e Alódia se haviam fragm entado. Aos grandes reinos cristãos sucedera um a chusm a de centros de poder: alguns bem estruturados e a dom inar territórios de certa m onta, com o Dotauo; outros, bem m enores, sob príncipes e senhores da guerra; e outros, finalm ente, reduzidos ao espaço da cidadela ou do fortim , de onde chefetes m ilitares cobravam tributo aos felás e atacavam as caravanas e os barcos que desciam ou subiam o Nilo. Essa m ultiplicidade de pequenos estados facilitara a tarefa dos árabes de Abdala Jam a, que, após destruírem Soba, foram reunificando grande parte da antiga Alódia e incorporando a seus dom ínios até m esm o territórios que tinham feito parte de Macúria. Nisso estavam , quando

foram atacados pelos funj es. a

Quem eram esses funj es, que se estavam tornando um forte poder m ilitar no Nilo Azul e na Gezira (nom e que se dá às terras dentro da forquilha form ada pela confluência daquele rio com o Nilo Branco)? Eles se diriam , m ais tarde, descendentes dos om íadas, m as, se corria neles sangue árabe, este se diluíra com o tem po. Já houve quem lhes colocasse a origem na Eritreia, na Som ália, no

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Cordofã, em Bornu e entre os nilóticos do sul do Bahr al-Ghazal, e quem , m ais recentem ente, sugerisse serem eles os apfuny s ou bony s, os antigos habitantes

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das áreas hoj e ocupadas pelos xiluques. Seriam gente da terra, legatária da cultura núbia, da qual teriam sido a últim a fronteira. Expelidos pelos xiluques, cederam a estes a m argem esquerda do Nilo Branco, atravessaram a Gezira e foram instalar o centro de seu poder no Nilo Azul. Os que não aceitam essa tese

relem bram não haver um a tribo ou um a língua funj e. 3 E põem no alto Nilo Azul, no sopé do altiplano etíope, o lugar de procedência dessa casta de senhores, que desceu o rio e se im pôs sobre os que viviam à sua m argem . Desde as m ais

antigas notícias, j á estavam islam izados e falavam árabe.4

As prim eiras palavras que conhecem os sobre os funj es devem -se a um

viaj ante, David Reubeni, que, em 1522, os visitou em Senar. 5 Reinava Um ara

b

Duncas, precisam ente aquele que inaugura, segundo as tradições com piladas na

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Crônica dos funj es, a lista de seus poderosos soberanos. Reubeni deixa-nos a ideia de um estado com m uitas cidades, um a j ustiça rigorosa e um senhor bastante rico, pois diz que o rei possuía num erosos cavalos e ótim os cam elos, incontáveis rebanhos de bois e de carneiros, além de ouro em pó.

Se Reubeni, em vez de descer o rio e rum ar para o Egito, tivesse cruzado a Gezira e, após atravessar o Nilo Branco, seguido para oeste, pelas extensões ressequidas do Cordofã, acabaria por chegar às m ontanhas do Darfur e encontrar um outro rei, que tinha da adm inistração da j ustiça conceito em tudo diferente daquele do m onarca funj e. Enquanto este punia com a m orte a m aioria dos crim es, ainda que m enores, o soberano do Darfur seguia norm as, consubstanciadas num livro, o Kitab Dali, segundo as quais a cada infração ou delito, por m ais grave que fosse, correspondia, não a perda da vida, nem um a pena corporal ou a exclusão da sociedade pelo cárcere ou o exílio, m as m ultas

em gado e em tecidos.7

Sobre os inícios do reino do Darfur nada se sabe. Suas tradições e genealogias, com postas provavelm ente à luz dos interesses dos que o governariam a partir do início do século XVII, falam de um a gente daj u, que teria vindo do leste e se instalado ao sul do m aciço de Jebel Marra. A tentação é fazer dela núbios ou grupos im pregnados da cultura núbia e vinculá-la aos achados de Ain Farah — às ruínas de tij olos verm elhos e com colunas em form a de L, nas quais, desde A.J.

Arkell, 8 se têm identificado um m onastério e igrej as coptas, e aos cacos de cerâm ica de estilo núbio, decorada com sím bolos cristãos (cruz, peixe, pom ba), ali encontrados por um a visitante.

A história tradicional fala, em seguida, dos tunj urs, que se diziam árabes vindos de Túnis e ocuparam o norte de Jebel Marra. É possível que os dois estados se

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tenham desenvolvido, por algum tem po, sim ultaneam ente, antes que os tunj urs suplantassem , sem luta, os daj us. Se eram m uçulm anos, não tiveram força para im por a fé às populações que dom inaram , nem a constância do zelo para conservá-la em si próprios.

A África em 1500

 

Na m etade do século XV, o rei tunj ur Saúc foi deposto por um m eio-irm ão, Dali, aquele que estabeleceu ou consagrou a série de norm as j urídicas, sem qualquer traço de islam ism o, que persistem no livro que guarda o seu nom e. O estado de que foi senhor poderia ser o Gaogá que Leão Africano disse ter visitado

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entre 1512 e 1514 e que rivalizava em im portância com Songai e Bornu.

Gaogá ficava a m eio cam inho entre o Nilo e o lago Chade, tinha parte de seu território coberta por m ontanhas e retirava sua precária prosperidade do com ércio com o Egito. Leão assegura que ali viviam cristãos m onofisistas, m as não se alonga sobre o tem a. E a própria im precisão de seu relato desam arrou discordâncias sobre a identidade de Gaogá: alguns reconhecem neste nom e o estado bulala; outros, os dom ínios do caigam a; este pensa que seria o Canem , depois que se separou de Bornu; aquele o tem por sim ples fantasia de Leão Africano ou por m á notícia que do reino recebeu.

Nem Leão nem Reubeni viaj aram pelo Nilo a contracorrente, até os Grandes Lagos. Não nos falam , por isso, dos reinos que ali existiam , com o Buganda, Bunioro e Ancolé, nem dos m icroestados bantos que iam , onde hoj e é o Ruanda, caindo nas m ãos dos tútsis.

Mais para o sul, ao redor do últim o dos lagos com pridos e profundos que acom panham a extensa fratura tectônica que corta o leste da África, os Firis talvez j á tivessem lançado as bases dos reinos m aláuis. E nas terras que se levantam na outra m argem do Zam beze, um visitante poderia ser acolhido em m uitas cortes: na do m onom otapa, na do rei de Butua, na dos Changam iras, em Teve, no Barué, em Manica, nos pequenos estados tongas.

Se descesse o planalto, na direção do oriente, repetiria os cam inhos trilhados pelo ouro e o m arfim até Sofala, passando pelas pequenas feitorias e pelos ainda m enores e m ais precários postos de aguada e tráfico das cidades-estado m ercantis que acom panhavam as costas do Índico, com o Angoche, Moçam bique, Quíloa, Mafia, Zanzibar, Pem ba, Mom baça, Gedi, Melinde, Lam u, Manda, Pate, Brava, Merca, Mogadixo. E, se atravessasse o canal de Moçam bique, iria ter às Com ores e contataria os prim eiros reinos m algaxes.

A oeste dos lagos Tanganica e Maláui, no Chaba ou Catanga, talvez j á existissem alguns estados lubas. E talvez, m ais para ocidente, Cibinda Ilunga j á houvesse chegado a Lunda, para ali criar um poder centralizado sob um m onarca divino.

No m édio Cuango e no Cuanza, havia reis, e alguns poderosos, com o o angola a quiluanj e, o m esm o se passando no planalto de Benguela, entre os ovim bundos. E m ais ao norte, onde vivia o m anicongo. O poder deste ia até o rio Congo ou Zaire. Além da outra m argem , situava-se Loango. E, subindo as águas, os vários reinos da floresta, entre os quais o dos tios, tequês ou anj icos, ao norte do lago Malebo, e o dos bolias, j unto ao lago Mai Ndom be ou Leopoldo II.

Tam bém em plena floresta surgira o reino do Benim , m as este ficava m uito m ais alto no m apa, a oeste do rio Níger, j á no golfo da Guiné. E, ali próxim o, erguiam -se Owo e os pequenos centros de poder edos. Para ocidente, podia-se passar de um a cidade-estado a outra cidade-estado iorubana — de Akure a Ondo, de Ondo a Ilexá, de Ilexá a Ifé, de Ifé a Ij ebu-Ode, e desta aos obados egbas, e dali a Savé, e de Savé a Queto, de Queto a Ilobi, de Ilobi a Ilaro, de Ilaro a Isheri e Ifony in. Para o norte, estendia-se a savana, e nela iria destacar-se o reino iorubano de Oió-Ilê. Acim a dele, a oeste do Níger, havia os estados baribas de Bussa, Nikki Illo e Wawa. Para o nascente, sobre o rio, m andavam os nupes.

Quem descesse o Níger até abaixo da confluência com o Benué, iria ter aos reinos igalas, dos quais o m ais im portante era o de Idah. Se preferisse prosseguir Benué acim a, chegaria aos estados ebiras e à terra dos j ucuns. E, se resolvesse cam inhar até além do planalto de Jos, daria com os birnis hauçás, com Zazau (ou Zária), com Kano, com Katsina, com Gobir e, bem m ais distante, para leste, com a forte m uralha de terra de Birni Gazargam u, a sede do reino de Bornu. Na outra m argem do lago Chade, era o dom ínio dos bulalas.

Ao prolongar-se o cam inho de retorno de Bornu à Hauçalândia, podia-se atingir a bacia do Volta, o ouro do Lobi, Gonj a e seus m ercados da cola e os grandes cam pos auríferos (os m ais ricos de toda a África Atlântica) do país acã. Sobre esse ouro e essa cola assentar-se-iam os reinos que se desenvolveram na m etade m eridional da República de Gana e no leste da Costa do Marfim .

É provável que, desde m uito, m ercadores m andingas viessem até a m argem da floresta trocar ouro por sal, tecidos e cobre. A expansão para o sul das linhas do com ércio teria sido estim ulada pelo crescim ento, desde o século XIV, da procura de ouro nos países árabes do Mediterrâneo, para pagar as im portações de prata e de outras m ercadorias europeias e adquirir os bens de luxo da Índia e da China. Era em grande parte com ouro africano que a Europa satisfazia às suas necessidades de cunhagem de m oeda.

Os uângaras ou diulas foram -se estabelecendo, ao longo das rotas que frequentavam , em pequenas colônias, as quais, em alguns casos, se transform aram em im portantes entrepostos. Talvez j á no século XIII, ou m esm o

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antes, alguns deles j á vivessem e m ercadej assem nos cam inhos que ligavam

Jenné à borla da floresta. Eles teriam fundado, a 15 dias de viagem de Jenné,

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Bobo-Dioulasso (nom e que significa “povoação diula no país bobô”) e, a outra quinzena de m archa, Kong, entre os senufos, e, m ais para leste, Bouna (ou

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Buna), de onde não era difícil atingir Lobi e Bigu (ou Begho).

Bigu ficava a sudoeste do cotovelo m eridional do Volta Negro. Na savana. A pouca distância do início da floresta. Na atual região de Brong-Ahafo, da República de Gana.

O local era, havia m uito, ocupado. Tanto assim que Merrick Posnansky ali encontrou, em 1975, os restos de um a fundição de ferro, datados, pelo m étodo do

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radiocarbono, do século II de nossa era. Novecentos anos m ais tarde — isto

nos diz a arqueologia —, Bigu era um a povoação de bom tam anho, onde o

com ércio talvez tivesse algum a im portância. No século XIV16 ou, pelo m enos,

nos m eados do século XV,17 a cidade, possivelm ente a capital de um reino, j á fornecia ouro e cola ao Mali, cola que buscava nas m atas a sul e a sudeste, ouro que produzia localm ente e que obtinha de Lobi e do país axante.

Na m etade do Quatrocentos, Bigu apresentava um a praça central, o m ercado,

de onde saíam quatro bairros: num deles habitavam os brons,e um povo acã cuj o ancestral teria subido do m undo subterrâneo; no outro m oravam os uângaras; no terceiro viviam os ferreiros, tam bém m andês, e outros artesãos; e o quarto seria

com posto por gente de várias origens.18

É possível que Bigu — caso Bigu ou Begho sej a a m esm a Bitu do Esm eraldo

de Situ Orbis e do Tarikh al-Fattash19 — representasse a fronteira m eridional do m undo m andinga, o lim ite da área de influência, por m ais esgarçada que esta fosse, do m ansa do Mali. Não significa isso que Bigu estivesse sob o com ando de um m alinquê. Provavelm ente tinha um rei brom , e os uângaras, ainda que lhe controlassem o com ércio, eram ali hóspedes. Em Bigu, porém , ficava a últim a de suas grandes colônias, o m ais afastado de seus grandes entrepostos na direção do Atlântico. Só m ais tarde, os diulas deslocar-se-iam ainda m ais para o sul, floresta adentro, até as praias da atual República de Gana, onde os encontraram , em 1471, os portugueses.

Não é de excluir-se que os uângaras, em bora detendo, até a chegada dos hauçás, o m onopólio do fornecim ento de ouro e cola às cidades m ercantis do norte, dependessem dos acãs, para abastecer-se na floresta e nos riquíssim os cam pos auríferos que se estendiam da m argem ocidental do rio Com oé à m argem oriental do Ankobra. Um outro estado brom , o de Bono, a m eia centena de quilôm etros a sudeste de Bigu, a beirar as grandes m atas, retiraria, com efeito, riqueza e poder desse com ércio.

As escavações realizadas onde foi a sua capital, Bono-Mansu, revelaram que

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ela j á existia no com eço do século XIV ou do século XIII. E o exam e da genealogia da fam ília real de Bono, tal com o preservada pelos chefes de Taky im an, que reclam am a ela pertencer, colocaria seu prim eiro soberano na

m esm a época22 23 ou, segundo outros cálculos, no início do século XV.

A consolidação de Bono com o im portante m ercado do ouro coincidiu, portanto, ao que tudo indica, com a de Bigu. Mas Bono pronto se tornaria tam bém um grande produtor do m etal am arelo, cuj a extração e tráfico seria apanágio dos reis. Estes deixaram fam a de riqueza e poder, um poder que parece ter-se infiltrado pela floresta, com o controle dos cam inhos que levavam aos garim pos e às m inas e com a conquista de m uitos dos cam pos auríferos. Os soldados, feitores e escravos do rei de Bono, nesse esforço pioneiro, devem ter difundido tam bém os m odelos políticos da terra de onde vinham . E não apenas floresta adentro, m as igualm ente ao longo de sua borda oriental, de onde essas ideias se espraiaram pela grande cunha de savana que se estende ao longo das praias, desde o oriente da República de Gana até a fronteira da Nigéria. Nessa área, não distante do m ar, vários eram os pequenos reinos que apregoavam derivar de Bono.

A busca do ouro deve ter estim ulado a penetração das m atas pelo acãs das savanas do norte. Deve tam bém ter favorecido a sedentarização de grupos acãs que nom adizavam na floresta, com o caçadores e recolhedores, e que se renderam à agricultura. O ouro, ao ser trocado por escravos — e Duarte Pacheco Pereira deixa claro que os uângaras usavam a m oeda hum ana para em

Toom (assim os m andês cham am os acãs) obter o m etal am arelo24 —, perm itiria aos chefes de linhagens e aos hom ens m ais em preendedores desbastar a m ata, a fim de nela instalar novas aldeias, com suas terras de lavoura, para as quais procuravam atrair colonos livres e aum entar, assim , o núm ero de seus seguidores.

Ivor Wilks 25 propôs com o hipótese — e apenas com o hipótese — esse enredo para o surgim ento dos prim eiros estados na floresta acã, um enredo segundo o qual os colonos acabavam por transform ar-se em súditos de quem , com a força de seus escravos, abrira a m ata para o cultivo. O pioneiro e distribuidor de terras passava a receber dos colonos parte da colheita e de tudo o que produziam , bem com o outros tributos que se foram m ultiplicando com o tem po. Quanto aos escravos, tornaram -se eles os serviçais e hom ens de confiança de quem se fazia régulo: seus guarda-costas, seus m úsicos, seus m ensageiros, seus m ercadores.

Essas estruturas de poder consolidaram -se e am pliaram -se, a partir da região de Adanse e Am ansie, na m edida em que alguns régulos conseguiram arregim entar crescente força de trabalho, tanto livre quanto escrava, para desbravar e povoar áreas da floresta, para batear o ouro em novos cursos d’água, para escavar novas m inas. Daí a fom e de escravos, para os trabalhos auríferos e para a derrubada das m atas, de que se deram conta os prim eiros europeus desem barcados na depois cham ada Costa do Ouro, e com tal presteza, que os portugueses, em m enos de um a década, desenvolveram o bom negócio de trazer cativos do Benim e do Congo, para trocá-los pelo m etal am arelo. Eustache de la Fosse, que esteve na região no fim de 1479 e início de 1480, conta haver com prado escravos na Libéria e os revendido com facilidade e lucro na Costa do Ouro. Quando ele lá se encontrava, ancoraram dois barcos portugueses, com

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m ais de duzentas peças trazidas do Sul.

A troca era feita não só com a gente de Adanse e os uângaras que vinham ter ao litoral, m as tam bém , e talvez de m odo m ais frequente, com os pequenos estados com o Asebu, Fetu, Aguafo e Fante, que serviam de interm ediários entre o m ar e a floresta. Antes que o com ércio com os europeus se estabelecesse, é m uito possível que esses reinos e os que repartiam o território a leste do rio Ankobra até o estuário do Mono se dedicassem a fornecer sal e peixe seco às regiões do interior.

Subia-se o Volta. E para leste, acim a da confluência do Oti, ia encontrar-se o reino de Nanum ba. E, além dele, à m argem esquerda do Volta Branco, o estado de Dagom ba. E, depois, o de Mam prúsi. E, a nordeste, j á próxim o ao Níger, Gurm a. Para oeste e noroeste, ficavam os reinos m ossis, entre os quais se destacaria Uagadugu. E, ao norte, Songai, o grande im pério, a controlar os portos caravaneiros de Gao, Jenné, Tom buctu e Ualata e a exercer distintas form as de com ando desde o m édio Senegal até a Hauçalândia e desde Tagaza até a fronteira m óvel dos m ossis.

A expansão de Songai dera-se, para ocidente, a expensas do Mali. O velho e poderoso im pério só não se reduzira de m odo ainda m ais dram ático, porque conservara as am plas possessões de sudoeste, cuj os lim ites no Atlântico passaram a ser as bocas dos rios Gâm bia e Grande. Nesses territórios, o m ansa do Mali exercia o dom ínio através de prepostos, os farins, e de reis vassalos, sob os quais se alinhavam num erosos chefes m enores. Dentre os detentores do poder, com o aqueles que os portugueses conheceram com o o batim ansa, o casam ansa e o nium im ansa, um , logo, se destacaria: o farim de Gabu ou Cabo, ou Caabu m ansaba.

Dizem as tradições que Gabu teria sido fundado por um dos m aiores generais

do Sundiata, Tiram acã Taore.f Vassalo do Mali, Gabu foi-se expandindo ao norte

do rio Grande e estabelecendo o que se cham ou de um subsistem a im perial,27 por senhorear vários reinos, entre os quais alguns poderosos, com o o de Casa, no qual m andava o casam ansa, que deu nom e ao rio. Muito em bora, j á no fim do século XVI, o farim de Gabu com andasse de fato quase toda a Senegâm bia, e a Guiné-Bissau, e parte da Guiné-Conacri, tinha de ser instalado no poder pelo m ansa do Mali e de viaj ar para isso, em hum ildade, até sua capital.

Direta ou indiretam ente, o soberano do Mali continuara a deter o controle das m inas de Buré e Bam buk e de outras fontes de ouro, com o as do baixo Geba e

Corubal (na Guiné-Bissau), que Teixeira da Mota28 supôs estivessem abandonadas desde a m etade do século XV, pois delas não deram notícia os portugueses quando lá chegaram . Se dessas últim as o m ansa não retirava m ais ouro — e é possível que o fizesse, sem que disto tom assem conhecim ento os recém -vindos —, seus súditos, na busca do m etal am arelo, j á haviam estendido as fronteiras de sua área de influência até às m argens do país acã.

Não só no ouro fundavam os reis m andingas o que lhes restava de poder. Sua riqueza vinha tam bém do sal — sobretudo da foz do Gâm bia. E da agricultura, em terras férteis e bem regadas. Do arroz abundante. Do algodão, que se fiava e tecia. E da pesca. E da caça, sem -núm ero nas m atas ciliares, e nos cam pos cobertos, e nas estepes, e nas savanas, onde paravam os elefantes.

Quando Ibn Batuta visitou o Mali, entre 1352 e 1353, o im pério com preendia o Futa Jalom , em cuj as pastagens no alto das m ontanhas foram instalar-se, um século m ais tarde, vários grupos de fulas. Os m ais im portantes e num erosos talvez fizessem parte da m igração arm ada descrita por um autor do fim do

século XVI e com eços do XVII, o cabo-verdiano André Donelha. 29 Segundo lhe contaram seu pai e m uitos velhos da terra, aí por volta de 1450, um chefe fula, Dulo Dem ba — possivelm ente fugido da região de Macina, para pôr-se ao largo das perseguições dos songais — atravessou o Senegal, encam inhando-se para o sul. Suas tropas eram tão num erosas, que o capitão André Álvares de Alm ada, ao escrever, no final do Quinhentos, o Tratado breve dos rios de Guiné do Cabo

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Verde, ainda ouvia o forte rum or dos cascos de seus cavalos, de seus cam elos e das boiadas que as acom panhavam . As lendas (talvez rem iniscentes do vau que tiveram de fazer para atravessar o Gâm bia) dizem serem os seus exércitos tão copiosos, que, levando cada guerreiro um a pedra para depositar no rio, este teve

suas águas interrom pidas pelo espaço de um a légua,31 no local que ficou conhecido com o Passo dos Fulos. Dulo Dem ba não desfrutou, contudo, das terras

a que chegara, pois foi vencido e m orto pelas tropas de vários régulos beafadas, g ao m enos nom inalm ente vassalos do m andim ansa, por se subordinarem ao farim de Gabu.

Os derrotados refugiaram -se, então, no alto do Futa Jalom . E, ali, um de seus

líderes, Tengueláh ou Tem alá, tendo logrado aliar aos fulas outros grupos que se opunham ao dom ínio do m ansa ou dos que em seu nom e exerciam a j ustiça, cobravam tributos e recrutavam soldados, levantou-se em arm as e, no últim o

quartel do século XV,32 desceu do platô, de volta ao Gâm bia. Tam anha era a

m assa hum ana a acom panhá-lo, e ao seu filho Coli Tenguelá,i que, ao transpor o rio, este tem porariam ente secou — conform e se lê no trecho em que o cronista

João de Barros33 se refere ao conflito travado, quando reinava em Portugal d. João II, entre o m andim ansa e Tenguelá e o “incêndio de guerra” que este últim o estendeu pelo Futa Jalom .

Após ocupar o alto Gâm bia e quase cortar as ligações entre a capital do Mali e suas províncias atlânticas, Tenguelá invadiria o reino de Diara, então tributário de Songai, ali conhecendo, entre 1511 e 1513, a derrota e a m orte. Coli reuniu os exércitos vencidos, incutiu-lhes novo ânim o e m archou sobre o vale do Senegal, para subm eter as fragm entadas chefias do Tacrur e fundar um novo reino. De

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sua capital, Any am -Godo, o “Grão Fulo” da dinastia Denianquê governará o

Futa Toro até 1776. 34

Por volta de 1500, o Tacrur devia sofrer fortes pressões de um pequeno im pério que lhe ficava a oeste, o Jalofo, e que dom inava a costa desde o rio Senegal até o Gâm bia.

Burba cham ava-se quem era dele o rei dos reis, m as, j á então, pouco poder exercia sobre os estados integrantes do im pério, em bora estes lhe enviassem tributos anuais. Veneravam -no, é bem verdade, com o um ser sagrado, ritualm ente acim a dos dem ais reis, e contra ele nenhum dos seus vassalos nom inais m ovia a guerra, ainda que a fizessem continuam ente uns contra os outros. E assim continuaria a ser na m etade do século XVII, quando Francisco de

Lem os Coelho escreveu a sua segunda Descrição da costa da Guiné. 35

O território j alofo tinha estado na esfera de dom ínio ou de influência do Mali

até o século XIV, quando um rei cham ado Andiadiane Andiaj ek se tornou o prim eiro burba e conseguiu im por-se sobre vários grupos j alofos e sereres. O im pério constituiu-se de cinco reinos: o Jalofo propriam ente dito, com sua capital, onde vivia e m andava o burba, a uns trezentos quilôm etros do Atlântico, e o Ualo, o Caior, o Baol e o Sine, todos ao longo da costa. Os quatro prim eiros eram form ados predom inantem ente por populações da etnia j alofa; o quinto, por sereres. Mais tarde, a eles acrescentaram -se novos dom ínios. Na m etade do Quatrocentos, o burba assenhoreou-se dos pequenos estados m andingas da m argem esquerda do Gâm bia e, uns cinquenta anos depois, o rei de Sine unificou sob seu com ando, dando origem a um a outra unidade do im pério j alofo, as chefias sereres de Salum .

Reis, nobres e com erciantes praticavam o islão. Tal com o ocorria nos estados m andingas vizinhos, à exceção de Gabu, que preservou rigorosam ente a crença nos antigos deuses. Entre as classes profissionais (ferreiros, curtidores, tecelões, j oalheiros, m enestréis, m úsicos), a gente m iúda que lavrava os cam pos e a escravaria, só uns poucos, e talvez na superfície, aderiram ao credo de Maom é. A m aioria continuava a sacrificar às divindades tradicionais. E Valentim Fernandes descreve um a das m aneiras que tinham de fazê-lo: “Os y dolatras em Gy loffa tom ã hu~a panella de barro velha, e lançã nella sangue de galinha e peñas e agoa çuj a e a cubrê e põem a dita penella am tre portas em hu~a casinha feita de palha e coberta e em derredor m uy farinha de arroz e outras cousas e

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alli fz~e cada m anhãa sua oraçã e cerim onias.”

Quanto m ais se avançava para o norte, na faixa instável em que se confundem e dividem o deserto e o Sael, e que se prolonga desde as praias atlânticas até os contrafortes etíopes, m aior era a presença do islam e. Nessa área, dom inavam os azenegues, os tuaregues, os tubus, os árabes, os senhores do cam elo, que conviviam com a aridez e os oásis. Muitos construíram estados. Outros nom adizavam constantem ente, a levar, com seus rebanhos, as tendas que os abrigavam e as estruturas de parentesco e aliança, m ando e obediência por que se regiam .

Móveis tam bém eram num erosos outros grupos políticos de pastores, com o, por exem plo, os fulas bororos, na África Ocidental, os m assais, na África Índica, os herreros e os hotentotes, no sul do continente, a tornarem ainda m ais difícil a dem arcação, no m apa, de fronteiras — fronteiras que eram , m esm o no caso dos estados com longa história, m ais hum anas do que geográficas, m enos definidas pelo espaço do que pela fidelidade dos grupos que os com punham .

O viaj ante que regressasse, após vários anos, a um conj unto de povoações na periferia de um desses im périos, reinos ou cidades-estado poderia, aliás, encontrar um a situação inteiram ente distinta daquela que antes presenciara: o bando de aldeias talvez tivesse trocado de suserano, ou se independizado, ou se partido em dois ou três grupos autônom os, ou se fundido com outros vizinhos para form ar um a nova grei; e um agrupam ento social sem governo centralizado e gerido por chefe de linhagem , por um conselho de anciães, por sociedades secretas ou por um corpo de titulados a que só tinham acesso os hom ens de riqueza e êxito, podia ter-se voltado em realeza sagrada, com um rei em que se repetiam os rituais que cercavam o m ansa, o negachi, o m aí, o alafim , o m uata ianvo, o m onom otapa ou o soni, m algrado não ter ele com o súditos m ais do que uns poucos m ilhares de indivíduos. Esses câm bios tanto se processavam com rapidez quanto m uito lentam ente, dependendo das circunstâncias e dos estím ulos. Algum as vezes, decorriam de m udança de habitat e de troca de atividade econôm ica predom inante.

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Vej a-se o caso dos ij ós, que ocupam as três grandes paisagens do delta do

Níger. Ali, do oceano para o continente, sucedem -se: prim eiro, um a crista de parcéis, restingas e ilhas, algum as bastante grandes, de solos arenosos, em geral acim a do nível alto das águas; depois, um a am pla área baixa, inundada diariam ente pela pream ar e coberta por espessos m anguezais; e, finalm ente, um a região tam bém cortada, com o a anterior, pelos m últiplos dedos do rio e por riachos, córregos, furos, lagunas e pântanos, porém de água doce e só subm ersa pelas m arés num curto período do ano.

É nessas terras de água doce que as tradições põem a origem de várias com unidades da parte oriental da área diariam ente alagada. Os ij ós que as habitavam tinham , com o unidade política, ainda que integrassem grandes clãs ou ibes, a aldeia. Entre eles, não havia poder m aior que o da assem bleia local, a am agula, em que tom avam parte todos os adultos do sexo m asculino. Presidia o

aj untam ento o m ais velho de todos, ou am aocosovei, l exercendo um outro, m ais

m

novo, o ogulasovei ou porta-voz, o papel de, quando necessário, líder executivo da com unidade. Praticava-se, portanto, um a espécie de dem ocracia direta, na qual os chefes de linhagens deviam ter certa força, pois detinham o controle das terras cultiváveis. O ibe não apresentava instituições políticas próprias. Mantendo a tradição de um antepassado e de um a cultura com uns, possuía, contudo, um sum o sacerdote (o pere) do deus do clã, um deus que se sobrepunha à divindade de cada povoação. O pere m arcava os grandes festivais e arbitrava as disputas entre as várias aldeias de seu ibe.

A agricultura era a principal atividade econôm ica desses ij ós. Pescavam eles, sem dúvida, e m uito, vivendo, com o viviam , à beira de num erosas águas. E caçavam . Era, porém , das roças de inham es, de bananeiras, de feij ões, de quiabos e de dendezeiros que retiravam a base de seu sustento.

Distinta seria a situação dos grupos ij ós que se deslocaram , antes provavelm ente do século XIII, desses territórios para aqueles que eram invadidos todos os dias pelas m arés. Foram habitar tesos que levantaram no m eio do alagadiço, com solos não apropriados à agricultura e onde as águas salobras não deixavam crescer senão m anguezais. De roceiros que tam bém sabiam usar os anzóis, as arm adilhas de cestaria e os venenos, passaram a pescadores e a produtores de sal, que extraíam sobretudo das raízes dos m angues. Dispunham tam bém , é verdade, de nozes, bananas silvestres e outros alim entos vegetais que lhes forneciam as m atas. Mas tinham de depender dos ij ós da parte superior do delta para se alim entar de m odo m ais diferenciado e rico.

Pronto estabeleceu-se o com ércio entre a região dos m anguezais e a de água doce. E não tardou m uito para que as canoas do sul do delta com eçassem a traficar tam bém com os ibos, bem m ais ao norte, e a ir trocar em Aboh, em Onitsha e até m esm o no reino igala de Idah, peixe seco, sal e m arisco por

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tubérculos, legum es, frutas e anim ais. Duarte Pacheco Pereira deu testem unho

desse m ercadej o, nos prim eiros dias do século XVI, entre a boca do rio Real (seria o Bonny ?) e o sertão. Contou-nos com o as grandes alm adias, “todas feitas de um só pau”, traziam do norte, “de cem léguas e m ais”, inham es, vacas, cabras e carneiros.

Além das transações ao longo do Níger, outras se verificaram , dentro e fora do delta, na linha de leste a oeste. Podia-se viaj ar facilm ente, pelas águas internas que acom panhavam o litoral, até Ughoton, o país ij ebu, Eko (a futura Lagos) ou o estuário do Volta. Alguns dos itens desse com ércio seriam os grandes barcos feitos de um só tronco, em áreas onde havia árvores m aiores do que os m angues, com o nos territórios habitados pelos ij ós, apóis e arogbos, os vasos de cerâm ica itsequíris, os corantes vegetais e artigos de luxo — os panos de Ij ebu, as m içangas, o cobre, os obj etos de latão e bronze provenientes do Benim ou de

Igbo Ikwu39 e usados com o insígnias de chefes e sacerdotes im portantes.

A aldeia dos ij ós dos m anguezais continuou pequena. Geralm ente não

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ultrapassava as 1.500 alm as. Mas sua população perdera a hom ogeneidade,

pois as várias linhagens que abrigava não pertenciam m ais a um só ibe: tinham convergido de diferentes lugares para aquele m esm o sítio. Num a área de alagados, o poder das linhagens sobre a terra perdera a razão de ser e as áreas em que se exercia a pesca não eram susceptíveis de dem arcação rígida entre as fam ílias, sendo exploradas por todos os habitantes do vilarej o. Com o esses não tinham m ais um ancestral com um — cada linhagem honrando o seu próprio —, a assem bleia deliberativa deixou de ser presidida pelo hom em m ais velho da com unidade, passando o seu com ando a recair no m em bro m ais influente de um a única linhagem , aquela a que coubera o principal papel na fundação do povoado. O am aocosovei foi substituído pelo am anianabo, um a espécie de “senhor da terra” onde a aldeia fora estabelecida.

Outros cultos e instituições surgiram ou se transform aram , para m elhor

entretecer essa população heterogênea e aprofundar a solidariedade.41 Novos

n

deuses suplantaram o deus do ibe, com o Am aquiri, a terra que suportava a aldeia, e com o Am atem esuo, que encarnava a com unidade e o seu destino. Em favor da coesão do grupo, passaram a atuar tam bém duas sociedades, por cim a do quadro das linhagens: a de dançarinos, Eguine ou Seguiapu, cuj as m áscaras representavam os espíritos das águas, e a de guerreiros, Peri Ogbo. Essas associações contribuíam para a aculturação e a assim ilação dos indivíduos vindos de fora, dos im igrantes que se tornavam im prescindíveis a com unidades nas quais crescia a im portância do com ércio e se acirravam as disputas com outras aldeias pelas áreas de pesca. Era com eles que se aum entava o núm ero dos com batentes e dos que rem avam as alm adias de m ercadej o ou guerra.

Havia m esm o quem cuidasse de reprim ir os que não se aculturavam . Assim , em Elem Kalabari (ou New Calabar), um a sociedade de vigilantes, Caronogbo, percorria à noite o vilarej o e m atava aqueles que falassem com sotaque

estrangeiro. 42 Associações sem elhantes — com o a de Curonasauo, em Nem be (ou Brass) — existiam em outros pontos da região sul-oriental do Delta, não só para prevenir infiltrações de concorrentes e inim igos, m as tam bém para atuar

contra im igrantes e escravos que não apagavam suas diferenças.43

Todos os ingredientes para a concentração do poder apresentavam -se nessas aldeias da zona diariam ente inundada pelas m arés. O próprio am anianabo era um em brião de rei. E os reis surgiram , desde pelo m enos o início do século XV, em alguns pontos do sudeste do Delta. Em Bonny, em New Calabar, em Okrika, em Nem be.

É possível que tenha havido, em alguns casos, contágio de fora, que a ideia da m onarquia tenha chegado via Oere ou Warri, um pequeno estado itsequíri, cuj o prim eiro rei as tradições dizem ter sido Iginua, um filho do obá Olua, do Benim . A história oral acrescenta, sintom aticam ente, que foram ij ós os que rem aram as canoas que conduziram Iginua e seus acom panhantes até as terras onde iriam

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fundar o novo reino.

Em Nem be ou Brass, diz-se, por exem plo, que refugiados de sangue real ali chegaram , provenientes de Oere, por volta de 1460, substituíram por um dos seus o chefe local, possivelm ente um am anianabo que detinha tam bém funções rituais sem elhantes às do pere da região de água doce. Esse chefe j á seria, entretanto, um a espécie de rei ou árbitro de várias povoações unidas em torno de Nem be. Com os itsequíris, veio tam bém um a nova divindade, Ogidiga, que tom ou sob sua proteção toda a área e à qual se subordinaram , com o “esposas” e “filhos”, os deuses das várias aldeias que passaram a form ar, ou j á form avam , o pequeno estado de Nem be.

As lutas pelo controle do com ércio e das zonas de pesca — sangrentas, pois os ij ós eram reputados piratas e caçadores de cabeças — terão criado os estím ulos para que alguns povoados, em várias áreas do sudeste do delta, aum entassem de população e se im pusessem sobre os vizinhos. Pela guerra, na qual as flotilhas de

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canoas exerceriam o papel da cavalaria, pela aliança ou pela assim ilação.

Essas dim inutas cidades-estado, surgidas de aldeias que, ao crescerem , haviam reduzido as povoações vizinhas a satélites de escassa im portância, bem com o as com unidades agrícolas e os vilarej os autônom os regidos por form as desconcentradas de poder, e os grupos nôm ades votados à pastorícia ou à caça e à coleta, cobriam no m apa da África um espaço tão am plo quanto aquele em que se esgrafiavam os im périos e os grandes reinos. Ou ainda m aior.

Muitas das povoações agrícolas eram tam bém centros com erciais. Com o entre os ibos, a cuj as constelações de aldeias e aldeotas correspondiam outros tantos sistem as de m ercados, que se tinham ao m esm o tem po por terrenos neutros, protegidos pelos deuses e nos quais se prom ovia todo tipo de encontros. Tam bém am parados pelas divindades — e lem bre-se aqui a instituição do eze unri — eram os que m ascateavam ao longo dos cam inhos e dos rios.

Por volta de 1500, os ibos j á deviam ser m uito num erosos. Grande parte da densa floresta pluvial entre o Níger e o Cross, de solos pobres e ácidos, estaria em rápido processo de devastação, sendo substituída por roças e, depois de esgotadas as terras, por vegetações secundárias. O m eio era difícil, m as o hom em sobre ele se im pôs, tal qual o fizera no delta do Níger e em tantas outras partes da África. Com o m ais para o norte, por exem plo, entre o rio Gâm bia e as lagoas da Costa do Marfim .

Ao longo daquele litoral — quase sem pre baixo, pantanoso, cortado por rios, riachos, furos, lagunas, rias, recifes, ilhas e restingas, e frequentem ente coberto por m anguezais, que o m ar inunda, quando, nos m eses de estio, dim inui a vazão dos cursos d’água —, vários povos que não conheciam o governo centralizado e praticavam a dem ocracia direta das assem bleias aldeãs, e alguns poucos que j á tinham régulos e estruturas de poder baseadas no m odelo m andinga, e outros cuj os chefes de linhagens ou líderes religiosos estavam em vias de se fazerem reis, tam bém buscaram dom esticar o m eio que lhes coube e abrir as m atas para o cultivo do arroz nas áreas alagadas.

Os balantas,o p q r s os diolas, os felupos, os baiotes, os banhuns, os beafadas, os

landum as,t u v w os bagas, os nalus os pepéis e tantos outros grupos, entre os quais aqueles a que os portugueses cham aram sapes ou sapés (e que j á se distinguiam

x

nos que se têm por seus descendentes linguísticos, com o os bulons ou xerbros, os

tim enés,y z aa os lim bas e os quissis), não eram só agricultores e pescadores. Integravam um a rede m ercantil que vinculava a linha da costa, desde os séculos

XI ou XII, ao tráfico transaariano.46

Os beafadas dos rios Geba, Corubal e Grande, por exem plo, desciam as praias do litoral para obter a m alagueta, sobretudo no sul da Libéria, a cola e outros produtos da floresta. Iam trocá-los ao norte com os banhuns, que os levavam Casam ansa e Cacheu acim a, até os m ercados m andés. Dali, através do Sael e do Saara, a noz-de-cola chegava ao Magrebe e a pim enta-m alagueta, pelo m enos

desde o início do século XIII, 47 à Europa.

Arroz, peixe seco, m oluscos, sal, tecidos de algodão, ferro e cobre eram , além da m alagueta, da cola, do m arfim , da pedra-um e e de algum ouro, os principais artigos desse com ércio que se fazia ao longo da costa e pelas águas dos rios. Em grandes canoas escavadas num só tronco de árvore. Com rem adores exím ios,

bb

com o os crus, da Libéria e da Costa do Marfim , e com o os bij agós, do

arquipélago que lhes guardou o nom e. Saíam os bij agós de suas ilhas, em longas em barcações adornadas na proa com a cabeça esculpida de um boi, para piratear o continente.

Outros desses povos deixaram lem branças m enos ferozes. Com o os sapes, a

alguns dos quais (os antepassados dos bulons e dos quissis)48 se atribuem as esculturas em esteatita denom inadas nom oli, pom do e m ahei-y afei, que se ligariam , no passado, ao culto dos m ortos.

Já no Manuscrito “Valentim Fernandes”,49 com posto no início do século XVI, se indicava que os tim enés da Serra Leoa, quando alguém m orria, costum avam “fazer m em oria delle”. Se era um notável, esculpiam -lhe um ídolo. Se hom em com um , talhavam para ele um a im agem de pau. No Manuscrito não se m enciona a m atéria do ídolo que guardaria a lem brança ou, m ais possivelm ente, a essência do hom em de qualidade. Essa m atéria não era, porém , pela distinção que se estabelece, a m adeira. Poderia ser a pedra. E talvez o texto se refira ao nom oli — se é que os tim enés tam bém faziam nom olis, e disto se duvida.

Continuar: parte 2 de 3