A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 22 de 35

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A Enxada e a Lança

18. Igbo-Ukwu

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Igbo-Ukwu

 

Aleste do Níger, na região habitada pelos ibos, não se desenvolveu o estado centralizado, não surgiu o rei. Exceto em algum as pequenas áreas, ao norte, por contágio igala, e, ao sul, j unto ao rio — tal qual sucederia nos territórios ocupados pelos ibos na banda ocidental do Níger —, por influência de Benim .

Na Ibolândia, a regra foi a pequena constelação de aldeotas, dedicadas à agricultura de subsistência, ao plantio do inham e, do dendê, da banana e dos feij ões, à criação de pequenos anim ais (galinhas, carneiros, cabras), à pesca e ao com ércio. As linhagens, os grupos de idade, as associações de titulados e as sociedades secretas form avam as estruturas de poder de cada vilarej o e dos grupos de aldeias, e suas decisões vinham sopradas dos oráculos ou eram tom adas por consenso.

Por ser esse o quadro social e político, m ultiplicaram -se a curiosidade e o espanto, ao se descobrirem — prim eiro por acidente, quando se abria, em 1938, um poço, e depois em escavações sistem áticas, em preendidas, no virar de 1959

para 1960 e em 1963, por Thurstan Shaw 1 — num erosas peças de bronze (cerca de oitocentas), cobre, ferro e cerâm ica, contas de pedra e vidro em abundância (m ais de 150 m il) e alguns restos de tecidos, na cidade de Igbo-Ukwu, próxim a a Awka e a Onitsha.

Cavou-se em três lugares, que passaram a se distinguir pelos nom es dos irm ãos em cuj os com pounds se situavam : Igbo Isaiah, Igbo Richard e Igbo Jonah.

O prim eiro parece ter sido um santuário ou um depósito de obj etos sagrados. O segundo, um a câm ara m ortuária. O terceiro, um a cova na qual se colocou intencionalm ente m aterial m uito variado, ou para ocultá-lo de um inim igo que se aproxim ava, ou porque os obj etos tivessem sido profanados ou perdido o sentido, por m udança de religião, ou porque nada significassem para um grupo invasor, ou talvez, ainda, porque tinham pertencido a alguém que se findara, não se consentindo o seu uso por outrem . Os achados de Igbo Richard perm itiram que se reconstituísse um túm ulo forrado de pranchas de lenho, sobre cuj o chão coberto de esteiras se colocara, sentado num tam borete redondo com tachões de cobre, o cadáver de um hom em ricam ente vestido. Suas costas descansavam provavelm ente contra um a das paredes, e seus braços, estendidos para a frente, com o se estivesse num a poltrona, apoiavam -se em m eias-luas de bronze, ligadas a hastes do m esm o m etal, fincadas no solo. O hom em tinha a cabeça coberta por um a touca de contas azuis, verm elhas e am arelas, sobre a qual se assentava diadem a de cobre. Usava ao pescoço, ao que tudo indica, num erosos colares e trazia sobre o peito um a placa de cobre, em cuj o centro talvez houvesse um a escultura de m adeira. Um par de largos braceletes de contas e tornozeleiras de bronze lhe com pletavam a roupagem . Num a das m ãos segurava um espanta-m oscas, cuj o cabo de bronze rem atava com a figura de um hom em , o rosto cheio de fundas escarificações, escanchado no que seria um pônei ou um asno. Na outra, talvez tivesse um longo bastão, ou haste de um leque sem icircular de cobre, com um a linha de orifícios em sua orla, para que neles se prendessem as plum as. Esse leque, se alongasse o seu cabo num a vara de m adeira, poderia tam bém estar espetado no chão, da m esm a form a que a haste de cobre, ao lado do cadáver, pela qual se sustentava a caveira, m oldada em bronze, de um leopardo. No solo, havia três presas de elefante.

Sobre a cova assim disposta, colocou-se um a cobertura de tábuas grossas, e sobre esse teto, pelo m enos cinco indivíduos, sacrificados ritualm ente, para acom panharem e servirem o grande m orto. Derram ou-se por cim a a terra, que tudo envolveu. E que ocupou o espaço da antiga câm ara, quando a m adeira que a delim itava apodreceu e ruiu.

Dos obj etos desencavados de Igbo Richard, todos de decoração fina e discreta, só o cabo do espanta-m oscas — cuj a superfície se apresenta inteiram ente ataviada, com o se sim ulasse no bronze estar coberta por um tecido grosso, e enrolada em fios, e cheia de contas — foi trabalhado com a m esm a pom posa inventiva que acum ulou form as sobre form as, cada um a delas ornam entada em porm enor, nos bronzes retirados de Igbo Isaiah e Igbo Jonah.

A esm agadora m aioria das peças provém de Igbo Isaiah, do m esm o lugar de onde, em 1938, se desenterraram as prim eiras delas. Foi dali que se extraíram os grandes vasos de bronze a im itarem cabaças redondas cortadas ao m eio, no sentido da horizontal. O m enor tem 25,7cm de diâm etro e 10,9cm de altura. O m aior, 41,9cm de diâm etro e 19,8cm de altura. Este últim o pesa quase 4,5kg. Todos possuem um a só asa, têm a face interna lisa, e a externa, profusa e delicadam ente ornam entada. Com fina rede de losangos; com faixas de flores de quatro pétalas; com cintas em que engenhosíssim as sequências de pequenas alças se alternam no sentido vertical e no sentido horizontal; com granulações; com fieiras de dim inutas espirais, cada um a delas a culm inar num pequeno círculo em relevo.

Vaso em form a de concha m arinha com um anim al (leopardo?). Igbo Isaiah,

Igbo-Ukwo, séc. IX / séc. X. Bronze, 20,6cm de altura

 

Os renques de espirais são o que logo salta aos olhos na decoração dos vasos m enores, em form a de m eia-lua, a sim ularem outro tipo de cabaça — m ais achatada e alongada, e que se corta em vertical, na linha do talo que a unia à árvore, para com ela fazer o recipiente em que se bebe vinho de palm a. Possuem esses vasos tam bém um a só alça, m as m uito m ais trabalhada do que a dos anteriores: alças que sugerem ser feitas de vários fios enrolados frouxam ente. E o corpo dos bronzes, espichando-se num com prim ento que vai de 12,9cm , no m enor, a 18,4 no m aior, contra 8,9cm de largura m áxim a naquele, e 10,2cm neste, recebe um a decoração m uito m ais concentrada: corta-se todo em faixas, na direção m ais longa, por enfiadas de espirais, de linhas em relevo e de linhas em dentes.

Muito m ais originais, com o form a e com o decoração, são três recipientes em form a de búzio. Num deles, o m enor, de vinte centím etros de com prim ento, as voltas da concha são adornadas por faixas de losangos e espirais, com alternâncias entre áreas lisas e nodulosas, e j unto à sua abertura ergue-se um a espécie de gargalo de j arra, sobre o qual está encarapitado um anim alej o, talvez um leopardo. Noutro desses búzios de bronze, de 30,5cm de com prim ento, sobre a superfície m inuciosam ente coberta de losangos, redes, grânulos, linhas de corda, suásticas curvilíneas e m eias-luas, pousam num erosos grilos e m oscas. E no extrem o pontudo da concha, saem de quatro orifícios quatro cobras, cada um a a devorar um a rã, pela cabeça.

O m otivo da cobra a abocanhar um batráquio reaparece em duas bainhas de espada, que fariam sonhar Schm uz-Baudiss e Gallé. A serpente se estira, colada, por todo o com prim ento do estoj o, e, na extrem idade superior, passa por dentro do flange, dá a volta por cim a de sua borda e vai m order a cabeça do anuro. Na outra ponta da sua corda, a cobra possui um a segunda cabeça, a engolir um pangolim , cuj o corpo se encurva em alça, para arredondar o rem ate inferior da bainha.

Os ofídios aparecem com frequência nos bronzes de Igbo-Ukwu. Sobretudo nos castões, nas ponteiras e em certos enfeites cilíndricos, que se presum e fossem colocados na parte m ediana das varas cerim oniais. Nesses adornos de bastões, o artista deixou que se expandisse ao m áxim o o gosto pelo acúm ulo de form as e pela riqueza de texturas. Sobre bossas granuladas, em m eio a anéis perfurados, losangos, linhas dentadas, espinhas de peixe, cordas, triângulos e espirais, pôs rãs, serpes e pássaros de cauda bifurcada, cabeças de hom ens e de m acacos, grilos, abelhas, m oscas, aranhas. Um dos cilindros é feito de duas cobras que o virtuosism o entrelaçou na m esm a rodilha, cobras de duas cabeças e crivadas de um a delirante e quase agressiva ornam entação.

As serpentes seriam tam bém com uns na cerâm ica de Igbo-Ukwu. Um a cerâm ica, por sinal, belíssim a, na qual se revela um extraordinário dom ínio da técnica do cham p levé. Os desenhos são m aiores e m ais abertos do que no bronze, as linhas em relevo, grossas e definidas, m arcando as som bras com precisão, para ilum inar ainda m ais, por contraste, a superfície do vaso.

Um dos m ais bem preservados e m ais bonitos exem plos da cerâm ica de Igbo-Ukwu é este pote de boca larga, de boj o dividido horizontalm ente em duas partes, por quatro sulcos longos e profundos. A parte inferior é inteiram ente lisa. A superior apresenta vários conj untos de am plos círculos concêntricos, entre os quais se dispõem incisões em viés. O vaso tinha cinco alças e, sob cada um a delas, um grupo de círculos concêntricos se alteia em bico de seio. Entre as alças, há form as aplicadas: um cam aleão, a cabeça de um carneiro, duas cobras e um a espécie de placa larga abaulada, com hachuras.

Vaso envolto em rede de cordas. Igbo Isaiah, Igbo-Ukwo, séc. IX / séc. X.

 

Bronze, 32,3cm de altura

 

Bem distintos, em sua serenidade, são outros achados de Igbo-Ukwu: um a peanha cilíndrica de altar, com figuras opostas de um casal; um soco para vaso; dois potes sobre pedestal. Tudo de bronze.

Um dos potes é especialm ente fam oso. E, na claridade de suas form as sim ples — a reproduzirem a m oringa de barro envolta em um a rede de cordas, até hoj e com um na Ibolândia —, a m ais bem pensada e m ais bem -feita obra de Igbo-Ukwu. O que vem os é um vaso boj udo, com discreto atavio de grânulos no rebordo de sua boca larga, e duas faixas de linhas entrelaçadas a lhe correrem pelo colo e pela parte m ais am pla de seu arredondado. Assenta-se num suporte de perfil cônico, ornado por suásticas curvilíneas ou hélices vazadas. Vaso e suporte parecem ser um a só peça, em torno da qual um a corda grossa de bronze se am arra em frouxos nós para form ar um a rede. Esta rede, presa apenas a certos pontos do pescoço do vaso e do pedestal, está claram ente separada da superfície de am bos e sobre eles se solta.

Quem vazou no bronze esse pote com pedestal era m estre de seu ofício. Tanto assim que só as análises de laboratório desm entiram a prim eira ideia de que tivesse sido feito num só m olde. Na realidade, foi fundido em quatro partes separadas: a rede de corda; a boca do vaso; a base do pedestal; o corpo do pote e a parte superior de seu soco. A peça form ada pela quase totalidade do vaso e do seu suporte foi m etida dentro da rede de corda. Finda esta operação, soldaram -se

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a boca do pote e a base do pedestal.

O requinte com que foi fabricada essa obra, o elaborado j ogo de form as de tantas outras, a desbordante im aginação de seus ornatos, a precisão e a delicadeza com que se reproduzem pequenos insetos (grilos, m oscas, aranhas, louva-deuses), “o estranho rococó, a virtuosidade quase Fabergé — poder-se-ia

dizer quase que estilo art nouveau — dos bronzes de Igbo-Ukwu”, 3 tudo indica serem eles o resultado de um longo processo de evolução artística, cuj os passos anteriores desconhecem os. E cuj a descendência tam bém ignoram os, em bora o achado de bronzes sem elhantes aos de Igbo-Ukwu, a cerca de 16km , em Ezira, e datados do início do século XV ao fim do século XVI, j á deem um a prim eira indicação do m uito que se tem por descobrir.

O estilo de Igbo-Ukwu é singular. Diferente. Bem distinto dos de Ifé e do Benim . Com o eram distintos os m ateriais que em pregava. Em Igbo-Ukwu, as peças fundidas são quase sem pre de bronze; e na m aior parte, bronze com forte presença de chum bo. Os obj etos de cobre (pulseiras, tornozeleiras, correntes, peitorais) eram obtidos na forj a, por m artelam ento, torção e repuxam ento. Já em Ifé, todas as esculturas, até m esm o as de cobre, eram fundidas. E a m aioria, de latão, do m esm o m odo que no Benim .

O latão está ausente de Igbo-Ukwu. Com o é a liga m ais com plicada de se obter, dada a dificuldade em isolar-se o zinco, provavelm ente o grosso das obras de Ifé e do Benim foi produzido a partir de latão im portado. A inexistência de trabalhos em latão em Igbo-Ukwu j á foi, aliás, apresentada com o indicação de

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ser o corpo de sua arte m ais antigo do que o de Ifé.

De Igbo-Ukwu obtiveram -se, pelo sistem a de radiocarbono, cinco datações: quatro colocariam os achados num período que iria do século VIII ao XI, e um a,

da m etade do século XIV à m etade do XV.5 Este últim o período foi descartado por Thurstan Shaw, com o possível resultado de contam inação de um a cam ada superior dos depósitos noutra, inferior. Shaw preferiria datar os achados do século

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IX, enquanto que Merrick Posnansky os situaria no século XI, ou m esm o no XII, época em que j á se havia desenvolvido consideravelm ente o com ércio transaariano.

Há os que consideram essas datas precoces 7 e os que acreditam que os tesouros de Igbo-Ukwu fariam m ais sentido histórico se situados no século XV ou

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XVI. Argum entam com os restos de tecidos e de cabaças encontrados em Igbo-Ukwu e de preservação im possível, por tão longo tem po, em solos ácidos com o os do sudeste da Nigéria; e com as m ilhares de contas de vidro venezianas, egípcias e indianas, que só poderiam ter chegado através do tráfico a distância, incom patível com data tão recuada quanto o século IX; e com a abundância de m anilhas, em tudo sem elhantes, até m esm o na riqueza em chum bo, às que os portugueses usavam no tráfico da Guiné. Relem bram ainda que três das quatro datações m ais antigas provieram de Igbo Jonah e um a de Igbo Richard, não havendo qualquer data para Igbo Isaiah, exatam ente o sítio que se revelou m ais rico em obj etos de bronze — incom paravelm ente m ais rico que os dem ais — e aquele de onde se desenterraram as peças m ais interessantes.

Não há dúvida de que os depósitos pertencem ao m esm o com plexo cultural,

porém isto não im plica serem da m esm a época. Thurstan Shaw 9 sugere que Igbo Jonah — onde há m enos peças fundidas em bronze e bem m enores, m ais leves e pouco elaboradas — sej a m ais antigo do que Igbo Richard, e este anterior a Igbo Isaiah, m as aventa tam bém ser pequeno o lapso de tem po entre o prim eiro e o

últim o. Outros 10 propõem um período m uito m ais longo, a estender-se por cinco ou seis centúrias, com o indicariam os achados de Ezira. Ou um pouco m enos extenso, pois um a nova data foi obtida por radiocarbono para a m adeira do banco

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cuj os restos se encontraram em Igbo Richard: o século XIII.

Os argum entos apresentados contra a datação do século VIII ao XI dos

achados de Igbo-Ukwu foram a seu tem po refutados, 12 em bora sem desfazer de todo as dúvidas. Os restos de tecidos ter-se-iam preservado da atividade das térm itas e das bactérias, m ais destruidoras do que a acidez do solo, em virtude de estarem aqueles panos associados a obj etos de cobre ou bronze. Muito pouco se sabe, por outro lado, sobre a distribuição e produção de contas na Europa, na Ásia e na África, para que possam elas ser utilizadas com o parâm etros de tem po. É m esm o possível que m uitas das contas de vidro de Igbo-Ukwu sej am de fabrico local ou tenham sido m anufaturadas em Ifé e em outras cidades africanas. Quanto à sem elhança das m anilhas encontradas em Igbo-Ukwu com as que os portugueses em pregaram em seu com ércio, ela seria m enor do que as diferenças. As m anilhas de Igbo Jonah são bem m ais delgadas do que as peças que os europeus, a partir do século XV, usaram com o m oeda na África. Quando se sabe que as m anilhas eram fabricadas na Europa especialm ente para alim entar o com ércio da Guiné, é lícito suspeitar-se de que tivessem sido, desde o início, artigos feitos para atender ao gosto africano, cópias de um obj eto que j á era usado e apreciado na África.

Não haveria im pedim ento a que tivessem chegado, antes do século IX, ao sudeste da Nigéria, contas de cornalina da Índia, m içangas de vidro do Egito e de Veneza, barras de cobre e o próprio processo da cera perdida. São bem m ais antigas as rotas transaarianas e no fim do século VIII j á havia alcançado Bagdá a fam a de Gana, a terra do ouro. Contas e bastões de cobre eram artigos suntuários e de alto valor, que iriam trocando de m ãos, em pequeninas quantidades, desde os portos m eridionais do deserto até a m argem da floresta. Dali facilm ente desceriam o Níger até a Igbo-Ukwu.

Não se pode afastar de todo que o m étodo da cera perdida tenha sido recriado na África Ocidental, região rica em látex e em cera de abelha. Afinal, trata-se de um a técnica de fundir m etais inventada em vários lugares apartados uns dos outros e em diferentes épocas. O m ais provável, porém , é que o processo da cera perdida tenha chegado da África do Norte a toda a am pla região entre o Chade e o Senegal, e bastante cedo, com o o confirm a o ter sido praticado em Daim a e entre os saôs. Os seus portadores podem ter sido os artesãos que acom panhavam as caravanas e em pregavam o m étodo para reparar as partes m etálicas dos

arreios dos cam elos.13

Na Nigéria, existem im portantes depósitos de estanho. E j á se sabia trabalhar esse m etal desde a época de Nok. Faltaria, porém — ou assim se pensava —, o cobre, que tinha de ser trazido do longínquo norte.

O cobre era considerado, ao sul do deserto, extrem am ente precioso, por sua

escassez e caráter m ágico.14 Usava-se nos ritos religiosos e nos adornos dos reis e potentados. Para m uitos povos, tinha força de am uleto, favorecendo a fertilidade e conj urando perigos. Daí que se trocasse, nas praias do Saara, por ouro. Para espanto dos árabes, que viam saírem as caravanas de cobre do sul do Marrocos para o país dos negros. Num a delas, que não logrou, no século XI ou XII, efetuar a travessia e cuj os restos se encontraram em Maj abat-al-Kubra, a

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carga era de m ais de duas m il barras de latão.

Durante um bom tem po, conj ecturou-se que o cobre com que se fizeram os bronzes de Igbo-Ukwu teria vindo do Suz, no Marrocos. Ou de Ougarta, no sul da Argélia. Ou de Akj ouj t, na Mauritânia. Ou de Hofrat-en-Nahas, no Darfur. Ou de regiões m ais próxim as: de Takedda (ou Azelik), no Air; de Dkra (provavelm ente Nioro), no atual Mali; de Iseh, a seis dias de viagem de Ilorin. Poderia ter vindo tam bém do sul, pelos cam inhos da floresta ou pelo m ar. De Chaba ou Catanga, onde as m inas de cobre talvez j á fossem exploradas desde o século VII. Ou da bacia do rio Niari, ao norte do baixo Zaire, que seria a fonte do cobre usado pelos

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um pongues, no estuário do Gabão.

Que havia contatos entre Igbo-Ukwu e o m ar parece claro. Basta lem brar-se 17 de que três dos m ais notáveis bronzes de Igbo-Ukwu representam búzios de tritonídeos. De anim ais m arinhos, portanto.

É possível que os ibos, j á por volta do século IX, se dedicassem ao com ércio ao longo do Níger, desde o norte do delta até o país dos igalas, ao sul da confluência com o Benué. E que trocassem o sal e o peixe seco do delta pelos inham es, o dendê, as pim entas, as galinhas, as cabras e os carneiros. Tal com o o

faziam no início do Quinhentos, quando Duarte Pacheco Pereira18 viu as grandes alm adias ij ós, escavadas num só tronco e carregando até oitenta hom ens, virem “de cim a do rio, de cem léguas e m ais” até a boca do Níger.

Essas em barcações podiam vencer consideráveis distâncias, até m esm o no

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oceano, sem pre que não perdessem de vista a costa. Há pouca inform ação sobre o alcance que teriam , m as não seria im possível que viaj assem , com o cobre, do estuário do Gabão até o delta do Níger. Bem m ais longo, da antiga Costa do Ouro até Angola, ou pelo m enos até Loango, ao norte da boca do

Zaire,20 era o percurso que eram capazes de cum prir, no século XVII, os

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canoeiros m inas — isto segundo testem unha da época, Jean Barbot.

O cobre podia tam bém vir por terra, desde o Gabão. Ou de bem m ais perto. Desde o século XIX havia notícias da presença de cobre a leste de Igbo-Ukwu, e

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em quantidade que j ustificava a exploração. E sugeriu-se que fosse retirado,

unido ao estanho, das m inas de Abakaliki. 23 As dúvidas transform aram -se em quase certeza, ao se localizarem depósitos de cobre na Ibolândia oriental e ao se com parar o m inério deles retirado com o dos bronzes de Igbo-Ukwu. Parece, hoj e, provável que a m aior parte do cobre, do chum bo e do estanho utilizados nas

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peças de Igbo-Ukwu foi obtida na região.

Isso não exclui que tam bém se im portasse cobre. Juntam ente com as contas de vidro e cornalina. Cobre, contas, sal, peixe seco, utensílios de ferro e tecidos, eis alguns dos produtos que circulariam entre a savana, a floresta e as áreas baixas e inundáveis do delta. Os itens m ais im portantes de venda ao norte seriam , contudo, os escravos e o m arfim , o m arfim que, na fase final do percurso m ercantil, os árabes encam inhavam aos m ercados da Índia.

Do que não há dúvida é de que o elefante tinha relevo na vida de Igbo-Ukwu. No túm ulo de Igbo Richard, havia três presas do anim al e sobre um a delas, ao que parece, o m orto apoiava o pé. E dos 12 pendentes de bronze de Igbo Isaiah,

quatro são cabeças de elefantes.25

Thurstan Shaw 26 levantou a hipótese de que o hom em sepultado em Igbo Richard fosse um grande sacerdote ou um chefe sagrado. Relem brou que sua tum ba, com soalho, teto e paredes de m adeira, era idêntica às em que se enterravam , até os nossos dias, os ezes unris, de Aguku e de Oreri. Há alguns indícios em favor da tese: a gente de Oreri alega ter vivido antes em Igbo-Ukwu; as profundas escarificações faciais que singularizam os unris e os portadores do título de ozo são idênticas às que se veem em algum as das figuras hum anas nos antigos bronzes; as serpentes enroscadas ou com ovo ou rã na boca fazem parte do estoque sim bólico dos unris, enquanto que a insistência nos m otivos da abelha, da m osca, do grilo e do gafanhoto lem bram que um a das funções dos ezes unris é

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controlar a praga dos insetos.

O eze unri é um alto sacerdote, escolhido, após m anifestar certos sinais de poder espiritual, entre os m em bros do clã Um undri, dos ibos. Ou m elhor: de um clã que vive entre os ibos, m as afirm a não ser ibo e, sim , descender de Undri, o filho m ais j ovem de Eri, um ser celeste, a quem se deveria a introdução da agricultura e do trabalho do ferro, bem com o a fé num ser suprem o: Oquique.

Chi-Oquique. Chineque ou Chucuu.a

A instituição dos ezes unris28 teria surgido no vale do rio Anam bra, próxim o à cidade de Aguleri, de onde os descendentes de Eri se teriam dirigido para o sul e para o norte, no país dos igalas, dos quais os Um undris se dizem irm ãos.

Os Um undris e seu chefe ganharam influência sobre os ibos por seus poderes rituais. O eze unri era interm ediário entre os hom ens e a divindade. Dirim ia disputas. Interpretava as tradições ibos. Favorecia a fertilidade. Respondia pelos ritos do espírito do inham e, Ifej iocu, controlando assim a base da econom ia ibo. Podia lim par um a com unidade das consequências das abom inações que essa tivesse com etido contra a terra ou a ordem tradicional. E concedia os títulos de eze e ozo, que não só investiam de autoridade e prestígio os hom ens bons de cada vilarej o, m as tam bém os tornavam im unes a qualquer ataque corporal. Os ozos podiam , assim , viaj ar livrem ente e exercer tranquilos o com ércio, sem m edo de sofrer qualquer violência. Pois tinha grande peso ser ungido pelo eze unri ou por seus agentes, os ichis, que circulavam por toda parte, m ercadej ando e cum prindo, por m andato, as funções do grande chefe espiritual. A desobediência ao eze unri e qualquer atentado aos ichis e aos ozos tinha, em regra, com o consequência a m aldição de um a com unidade. Um a vez anatem atizada pelo eze unri, sofria um bloqueio ritual e econôm ico: fechavam -se os seus m ercados e passava a ser evitada pelos vizinhos.

Os ichis recebiam pagam ento pelas suas atividades religiosas e j udiciais. Bem com o elevadas taxas dos que desej avam ser ozo. Parte do que recolhiam era enviada ao eze unri, a quem as com unidades ibos que o consideravam a últim a instância religiosa prestavam tam bém um tributo anual.

Seria realm ente um chefe ou um grande sacerdote o hom em enterrado em Igbo Richard? É perigoso deduzir-se, dos sepultam entos elaborados e ricos, que sem pre acolham régulos ou pontífices, e arriscado proj etar no passado distante instituições que ainda há pouco estavam vivas, pois, além de dinâm ica, a história

não se m ove unilinearm ente. 29 Contudo, há que correr os riscos, pois o passado não se extingue de todo e perm anece no presente, e os enredos hum anos parecem lim itados. É longa a vida das instituições, que se encom pridam ainda m ais no tem po, quando assentadas na fé religiosa. Um enterro suntuoso corresponde, na nossa experiência e entendim ento, ao de um potentado, extraia ele a sua condição da fé, da força ou da riqueza; e o existir alguém que busca elevar-se na m orte acim a dos dem ais aponta para um a hierarquização da sociedade.

Se o notável que inum aram em Igbo Richard era um eze unri, poderia explicar-se Igbo-Ukwu. Mas só parcialm ente. Pois, enquanto não se expandirem as explorações arqueológicas na região, continuarem os a ignorar com o surgiu e se desenvolveu a cultura que foi suficientem ente rica e com plexa para perm itir a seus artistas que trabalhassem o bronze e o barro com tão grande m aestria e não m enor im aginação. E nada saberem os sobre por que se extinguiu na área a tradição do trabalho no bronze, um a vez que os ezes unris recentes m andavam buscar no Benim a m áscara de latão que ostentavam ao peito, m áscara em tudo sem elhante à que usa, e da m esm a m aneira, o rei igala de Idah.

Talvez o eze unri de Igbo-Ukwu se tenha deixado desm oralizar com o chefe religioso. Talvez tenha perdido influência, por com petição de outros centros rituais e oráculos. Talvez tenha sido vítim a do expansionism o do Benim . Talvez tenha visto seu território invadido por tropas estrangeiras, das quais nada sabem os, e tenha sido obrigado a sair de suas terras por m uito tem po. Ao regressar, havia a sua gente perdido a técnica do bronze, ou pela m orte dos artistas sem herdeiros, ou pela carência de cobre.

Se sofreram invasão arm ada, pouca ou nenhum a resistência devem ter oferecido os habitantes do santuário. Os unris eram pacifistas: condenavam a violência e repeliam , por sacrílego, o derram am ento de sangue. Para eles, os hom ens tinham um pacto com a terra, Ana ou Ala, que lhes dava todos os alim entos, em troca de não a conspurcarem com o sangue de seus sem elhantes. Transform aram , por isso, as lanças e os cutelos em instrum entos de rito, propiciatórios da concórdia e da fertilidade — o que explicaria as poucas, pouquíssim as arm as, e quase sem pre cerim oniais, encontradas em Igbo-Ukwu.