A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 21 de 35

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A Enxada e a Lança

17. Ifé

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Ifé

 

Os povos que hoj e habitam ao sul, a sudoeste e a sudeste da confluência do Níger com o Benué, ou, na proxim idade do encontro das águas, sobre esses rios, parecem viver naquela área há vários m ilhares de anos. Pelo m enos é isso o que indica a glotocronologia. O iorubano, o edo, o igala, o idom a, o ibo, o ij ó, o nupe, o ebira e o gbari — línguas da subfam ília cua da fam ília níger-congo — teriam , com efeito, com eçado a diferenciar-se há m uitíssim o tem po. A separação do iorubano do idom a dataria de seis m il anos; a do iorubano do ibo, do edo e do ij ó,

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de cinco m il; a do iorubano do igala, de dois m il. Além disso, a atestar a antiguidade da ocupação do território pelas gentes que nele se encontram , cada um desses idiom as se ram ifica em grande núm ero de dialetos, m uitos deles ininteligíveis entre si. O processo de diferenciação dialetal teria principiado há

dois m il anos. 2

No prim eiro m ilênio de nossa era, esses povos, que cultivavam o sorgo e o m ilhete, nas savanas do norte, e os inham es, o dendê, os feij ões, o quiabo e o akee, nas florestas do sul, devem ter desenvolvido instituições políticas baseadas nos laços de fam ília. Cada vilarej o dividia-se possivelm ente em várias linhagens, cuj os chefes eram escolhidos pela idade ou pela proxim idade genealógica com o grande ancestral. E um pequeno grupo de aldeotas, pouco distantes um as das

outras, form aria aquilo que Ade Obay em i 3 cham ou de m iniestado: sem capital urbana ou governo centralizado, com pouco território e pouca gente.

Talvez não fosse o m iniestado de então m uito diferente daqueles que se retrataram em nossos tem pos. Se esta conj ectura se aproxim ar da situação verdadeira, o que vinculava os diversos povoados num a unidade que se reconhecia com o tal era, em m uitos casos, a crença num antepassado com um . Noutros, o m iniestado resultaria do congraçam ento voluntário de diferentes linhagens, podendo haver distinção entre os prim itivos habitantes da terra e os im igrantes.

Nos m iniestados que chegaram às vésperas de nossos dias, os cabeças de linhagem determ inavam a alocação e o uso da terra e m uitos dos com portam entos sociais. Mas havia outras instituições que, com binadas, davam form a e rum o à vida coletiva.

A população m asculina era, por exem plo, dividida em grupos de idade, que podiam ser apenas três — os j ovens, os adultos e os velhos — ou com preender processos de solidariedade m ais com plexos, com laços especiais entre os que haviam com partilhado os ritos de acesso à vida adulta. As funções sociais repartiam -se entre os grupos, cabendo aos m ais velhos as religiosas, j udiciárias e de decisão política.

Em m uitos dos m iniestados havia associações de detentores de títulos, a reunirem os hom ens de m aior m érito da terra. A capacidade, o engenho e a energia m ediam -se de acordo com a riqueza. Os de m aior m erecim ento eram os que possuíam m aior núm ero de inham es em seus celeiros e de anim ais dom ésticos em seus cercados — podendo assim custear as grandes festas ligadas à concessão de novos títulos. Estes títulos form avam um a hierarquia e, para se chegar aos m ais altos, tinha-se em geral de galgar os m ais baixos.

Linhagens, grupos de idade, associações de titulados e sociedades secretas — estas a zelarem pela ordem e a observância dos costum es — possuíam suas atribuições e seus poderes cuidadosam ente balanceados, de m odo que as decisões eram tom adas por consenso dos principais segm entos da aldeia-estado.

Em m uitas dessas coletividades políticas podia haver um chefe, que era m ais um sím bolo da unidade do grupo do que um titular do poder. Esse chefe — olu, obá ou aloj a entre os iorubás, etsu entre os nupes, onu entre os igalas, ovie ou ogie entre os edos, oche entre os idom as — era escolhido dentre algum as fam ílias, m as devia geralm ente ter passado pelos diversos estam entos de idade e degraus das associações de titulados. No caso de com unidades form adas por prim itivos habitantes da terra e im igrantes, o chefe saía de um grupo ou do outro. Se devesse pertencer ao segundo, o líder dos considerados “donos da terra” detinha certas prerrogativas políticas e religiosas, que podiam dar ao sistem a o feitio de um a chefia dual.

O obá, etsu, onu, ovie ou qualquer outro nom e que tom asse, era geralm ente o hom em m ais rico do m iniestado. Ou nele pronto se tornava, pelas oferendas que recebia e pelas taxas que cobrava dos que passavam por suas terras ou nelas pretendiam fazer com ércio. Controlava o m ercado, bem em frente à sua casa, o centro da principal aldeia.

Se, ou porque fosse de fácil acesso aos povoados da vizinhança, ou ficasse num a frequentada rota com ercial, ou recebesse m ercadorias em abundância e de especial qualidade, o m ercado crescia de tam anho e para ele afluíam num erosos negociantes e artífices estrangeiros, as antigas instituições de aldeia-estado m ostravam -se insuficientes para reger as novas relações surgidas do aum ento da urbanização e da natureza heterogênea dos novos grupos que ali se fixavam . Pouco a pouco e insensivelm ente, a aldeia-estado transform ava-se em cidade-estado. O poder do chefe aum entava. Muitas vezes ele assum ia o m onopólio do com ércio com os forasteiros. E quase sem pre reforçava os seus atributos religiosos, consolidava a sua posição de interm ediário entre os hom ens e as forças sobrenaturais, sacralizava-se.

A grande forquilha do Níger-Benué

 

Muros de barro alteavam -se e fossas abriam -se ao redor do que deixara de ser um sim ples povoado, não só a fim de protegê-lo, m as tam bém , tal com o se dera com o birni hauçá, para dar abrigo, em caso de ataque arm ado, às populações agrícolas que viviam nos vilarej os circunvizinhos. E a área sob influência da nova cidade crescia, quer por adesão, quer pela força.

Quando um poder agressivo se expandia num a determ inada zona, era natural que vários m iniestados procurassem federalizar-se ou am algam ar-se em unidades m ais fortes, para fazer-lhe frente. Viam -se assim obrigados a transform ar suas estruturas políticas.

Em alguns casos, as novas form as de m ando podem ter surgido da invasão de um grupo de guerreiros, que se im pôs pelas arm as, passando a receber, com o classe dom inante, tributo e obediência. Historiadores do porte de Roland Oliver e

J.D. Fage4 pensam ter sido este o principal m odelo da form ação das m onarquias divinas entre os m ossis-dagom bas, os baribas, os nupes, os j ucuns, os igalas e os próprios iorubás. Os seus reinos teriam surgido da interação entre povos autóctones e im igrantes do norte, im igrantes a cavalo que se im puseram m ilitarm ente com o aristocracia privilegiada, trazendo na bagagem novas instituições políticas e um novo conceito do rei. Se assim tiver sido, o acam pam ento m ilitar precedeu o m ercado. E não foi em torno deste, m as da cidadela, que surgiu a capital do novo reino.

A tese levanta-se sobre as tradições desses povos — tradições que podem , é verdade, ser, ao m enos parcialm ente, inventos tardios, destinados a fortalecer a coesão, o prestígio e o orgulho do grupo ou da nobreza que os com anda. Elas atribuem a fundação dos vários estados a heróis vindos do norte e do leste, e, às vezes, precisam que chegaram do vale do Nilo, da Arábia, de Bagdá ou de Meca. Raram ente aludem elas a feitos de arm as desses líderes lendários, talvez em consequência de um processo de ocultação ideológica, para que não se funde na violência e na conquista a legitim idade dos novos costum es e da nova dinastia. É certo que em Daura se guarda um a espada que a tradição diz ter estado nas m ãos

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de Baiaj ida, m as sua lâm ina m atou a serpente do poço e não a gente hauçá, a m enos que o m onstro, significativam ente cham ado Sarqui, servisse de em buço

para um rei deposto6 e a ação libertadora do forasteiro vestisse, para a conveniência da nova ordem , o assalto arm ado. A gratidão, assim , substituiria a derrota com o fundam ento da suj eição política.

Tam pouco referem as tradições, a não ser em alguns casos, que os fundadores de reinos tenham chegado a cavalo. De Baiaj ida, diz-se que entrou em Daura

m ontado, m as se discute se num corcel, num m ulo ou num j um ento.7 E, se Oraniã trouxe o prim eiro equino ao Benim , este de nada lhe deve ter servido m ilitarm ente na floresta e não terá sobrevivido por m uito tem po ao m eio hostil. É possível que o silêncio das tradições orais se deva à desnecessidade de insistir o narrador no que lhe parecia óbvio: que guerreiros vindos do norte e do nordeste estavam indissoluvelm ente ligados ao uso do cavalo. Mas é tam bém possível, e até m esm o provável, que esse anim al só tenha assum ido sua grande im portância nos exércitos da savana algum tem po m ais tarde e não estej a na origem dos

estados.8 No Iorubo, por exem plo, a presença do cavalo só se faria notar no

século XVI. 9

Entre algum as das gentes ribeirinhas do Níger e do Benué, e com m ais consistência entre os baribas de Borgu, circulam , no entanto, as histórias de um

a

herói a cavalo: Quisra. Ele seria o chefe de um pequeno clã de Meca, que se recusou a aceitar Maom é. Derrotado por este, atravessou o Saara até chegar ao Níger. Em alguns lugares, com o Bussa, Nikki e Illo, seus descendentes são tidos

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com o fundadores de reinos; em outros, com o sim ples visitantes.

A lenda de Quisra é sem elhante a certa narrativa sobre a introdução da

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m onarquia entre os iorubás. Odudua, filho e príncipe herdeiro de um dos reis

de Meca, Lam urudu (ou Nim rod?), apostatara do islam ism o e tentara im por o culto dos ídolos com o religião do estado. A inconform idade dos m uçulm anos rebentou num a guerra civil, durante a qual Lam urudu foi m orto e seus filhos e aderentes expulsos da cidade. Odudua, perseguido pelos inim igos, veio dar, com dois de seus ídolos e sua gente, em Ilê Ifé, nas florestas do Iorubo, onde fundou um reino.

Outra tradição, recolhida pelo erudito fula Muham m ed Bello, sultão de

Socotô, 12 conta que os iorubás descendem dos banis canaãs, da tribo de Nim rod, e que, expelidos do Iraque, atravessaram o Egito e a Etiópia, até chegarem ao sudoeste da Nigéria.

Em outras versões,13 os iorubás vieram de Medina, ou de m ais perto — da terra dos nupes ou da Hauçalândia. Ou ainda, de um lugar incerto, do outro lado de um a vasta extensão de água, que vadearam ou venceram com canoas e no m eio da qual criaram solo firm e.

Esta últim a história é rem iniscente de um m ito iorubano, segundo o qual o m undo, e não apenas a m onarquia, foi criado em Ilê Ifé, o um bigo do universo, a fonte de todas as coisas, o lugar de onde os hom ens se espalharam sobre a terra.

Na variante m ais divulgada do m ito, diz-se que Olodum aré ou Olorum , o deus suprem o, lançou, do céu até as águas ou pântanos que lhe ficavam abaixo, um a corrente, pela qual fez descer Odudua, com um pouco de terra num saco ou num a concha de caracol, um a galinha e um dendezeiro. Odudua derram ou sobre a água a terra, e nesta colocou a palm eira e a ave. A galinha com eçou im ediatam ente a ciscar o solo e a espalhá-lo, aum entando cada vez m ais a extensão da terra. Daí o nom e que tom ou o lugar onde isto se deu: Ifé, o que é vasto, o que se alarga.

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Pierre Verger, com o conhecim ento íntim o do universo iorubano, opõe-se ao

conceito de ser Olodum aré um deus celeste. Olodum aré m ora no além , Orum , que os prim eiros pesquisadores da religião e da cosm ogonia iorubanas — a m aioria deles m issionários cristãos — identificaram com o céu. O erro teria passado de autor a autor, de livro a livro. Olodum aré não estaria, porém , no céu, m as talvez num m undo subterrâneo. Nem do céu teria vindo Odudua, m as, sim , de Orum , o outro lado, o infinito, o longínquo, o desconhecido.

Se Odudua foi realm ente um a personagem histórica, de quem a tradição guardou o nom e, deve ter sido apenas o líder de um grupo que im pôs sobre Ilê Ifé um novo regim e político, de chefia centralizada e dinástica. Talvez tenha vindo da confluência do Níger com o Benué. Ou da Hauçalândia. Ou de Canem . Ou de Borgu. Ou de Nupe. Ou das savanas im ediatam ente ao norte de Ilê Ifé. Ou

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de Orum , de lugar ignorado, que não se explica nem se discute. E, se veio do oriente, este ficaria bem próxim o de Ifé, em Oke Ora, o m onte Ora, a poucos quilôm etros a nordeste daquela cidade.

As lendas dizem que foi no m onte Ora que Odudua e seus com panheiros tiveram a prim eira m orada na terra. E que dali saíram para dar com bate aos ibos ou ubos, ou “aborígines”, que seriam sem elhantes à gente de Odudua e dela

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falariam a m esm a língua. Certas tradições asseguram , aliás, que os líderes dos

ubos, com o Obatalá e Oreluere, chegaram a Ilê Ifé com Odudua.

Obatalá ou Orixalá é o m ais im portante dos orixás iorubanos. Foi o prim eiro a ser criado por Olodum aré, e a ele o deus suprem o deu a tarefa de form ar o m undo. Pouco depois de sair de Orum , Obatalá, porém , em bebedou-se e caiu em profundo sono. Odudua, vendo-o naquele estado, roubou-lhe o saco da criação, que continha a terra, e foi ter com Olodum aré, a quem contou o que se passava. Este confiou-lhe, então, o encargo de que se descuidara Obatalá. E foi assim que coube a Odudua ser o criador e o rei do m undo. E foi assim que principiaram a inim izade e as contendas entre ele e Obatalá. O orixá preterido não ficou sem consolo: Olodum aré incum biu-o de afeiçoar no barro o corpo dos

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hom ens.

A leitura do m ito pode ser feita em abono da tese de que Odudua e Obatalá seriam chefes de distintas com unidades, culturalm ente sem elhantes, existentes na área de Ifé, e Orum ila, o hierofante, Ogum , o ferreiro, Elesij e, o curandeiro, e Aj e, o m ercador, líderes de grupos profissionais de um a aldeia-estado que se transform ava em cidade-estado e com eçava a absorver os vilarej os vizinhos. Mas pode tam bém favorecer a precedência de Obatalá e dos ubos, com o “donos

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da terra”, sobre Odudua e sua gente. O que o m ito diria é que Ifé antecedeu a

chegada de Odudua, que ali j á existia um reino (os nom es de seus soberanos persistem , com efeito, nas tradições e nos ritos) e que um grupo de guerreiros bem organizado e bem arm ado dele tom ou posse, m as, após a vitória, teve de acertar-se com os seguidores de Obatalá e lhes conceder papéis de relevo no governo. A história de Odudua não seria, assim , um m ito da criação do m undo ou do estado, m as contaria com o term inou um período e com eçou outro, na

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evolução política do Iorubo. Ou, m ais sim plesm ente, com o se processou um a

m udança de dinastia.

Ilê Ifé era habitada possivelm ente desde o século VI, a data m ais antiga fornecida até agora pelo m étodo de radiocarbono a m ateriais recolhidos de

escavações na cidade.20

Por m uito tem po, naquela região, haveria apenas pequeninas aldeias dedicadas à agricultura de subsistência. Os m ercados seriam inexpressivos, a cobrir som ente a im ediata vizinhança. Lentam ente, contudo, Ifé foi-se tornando um centro de atração e aglutinação, talvez devido à fundição do ferro.

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Robin Horton aventurou a hipótese de ter Ifé crescido graças a sua especial

situação geográfica. De Gao, o rio Níger flui no sentido sul até próxim o o início da floresta, ao norte de Ifé, quando im bica para leste. A m ata tropical arqueia-se ali na direção do cotovelo do rio. Ao sul, na m esm a linha do m eridiano de Ifé, o litoral tam bém se encurva no rum o da cidade. Ifé ficaria, assim , na rota m ais curta entre o alto Níger e o sistem a de vias aquáticas que, na costa, com suas lagunas, canais, restingas e furos, ata o delta do Níger a Cotonu.

Nessa posição, Ifé pôde tornar-se um entreposto dos produtos da savana, da floresta e do litoral. Dali, era fácil fazer viaj ar Níger acim a, até Gao, os artigos do sul — os inham es, o peixe seco, o dendê, as pim entas, a noz-de-cola, as gom as, as m adeiras, o ouro, o m arfim , as canoas e o sal — ou levá-los, após atravessar o rio, até as cidades hauçás. É possível que, ao norte, os principais parceiros com erciais de Ifé tenham sido os nupes e tam bém os uângaras que vivem , há séculos, isolados, pouco abaixo das corredeiras de Bussa. Ao sul, o m ercadej o se faria sobretudo com a gente de Ij ebu, próxim a à grande lagoa.

Um dos m ais rentáveis artigos desse com ércio talvez fosse o escravo. O escravo que tanto interessava à gente do norte e que se tornara m oeda de com pra do cobre, do latão, das arm as, dos tecidos e dem ais bens de luxo que Ifé dem andava. E de escravos seriam as im agens em bronze ou terracota de hom ens

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am arrados e am ordaçados, de que há tantos exem plos em sua arte.

Outro artigo de venda certa, m as valor m enor, eram as contas de pedra e de vidro. Desde cedo, lado a lado com im portante indústria do ferro, desenvolvera-se em Ifé o seu fabrico. As pedras m ais em pregadas eram a cornalina, a ágata e o j aspe. Quanto às m içangas de vidro, não se pode deduzir dos cadinhos cobertos

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de pasta vítrea, desenterrados de depósitos do fim do século XI ao XIV, se eram obtidas derretendo-se vidro im portado ou se se fazia o próprio vidro a partir de seus ingredientes básicos. Produziam -se contas verdes, brancas, verm elhas, castanhas e de variados tons de azul. As azuis de form a tubular, conhecidas com o

segi, eram as de fabrico m ais com um e de m ercado m ais certo. 24 Foram encontradas até m esm o em Koum bi Saleh.

Depois que se verificaram as m udanças políticas associadas a Odudua — no

século VIII? 25 ou dois a quatro séculos m ais tarde? —, deve ter-se tornado ainda m aior a prosperidade de Ilê Ifé. Em bora m antendo-se sem pre dentro dos lim ites de um a cidade-estado, Ifé tornou-se o centro espiritual dos iorubás. É possível que j á o fosse antes, havendo quem pense que deveu seu crescim ento — e talvez até a sua origem com o cidade — sobretudo à condição de im portante centro religioso. Em vez de desenvolver-se a partir da cidadela ou do m ercado, Ifé teria crescido de um santuário, concentrando-se no seu rei, ou oni, o tem plo e o

palácio.26

Tida com o o centro espiritual dos iorubás, Ifé talvez tenha, durante m uito tem po, recebido tributo e hom enagem de vários outros estados cuj as dinastias reclam avam a descendência de Odudua e m antinham possivelm ente certa form a de vassalagem em relação ao oni.

Contam as lendas que, em certo m om ento, os filhos ou netos de Odudua receberam em Ifé coroas de contas com franj as que cobrem o rosto — adês — e saíram terra afora a fundar novos reinos. Estes prim eiros reinos, dos quais viriam a sair outros, teriam sido seis, sete, 16 ou 26. A lista varia de versão para

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versão, a de Sam uel Johnson incluindo Owo, Queto, Benim , Ila, Save, Popó e

Oió. Ij ebu-Ode, Ilexá, Ondo, Ake, Akure e Ado Ekiti figuram entre outros reinos cuj as pretensões a terem sido criados pelos príncipes de Ifé possuem bons argum entos a sustentá-las.

É perfeitam ente possível, argum enta Robert S. Sm ith, 28 que as lendas expressem a história verdadeira e que, tal com o sucedeu com a expansão norm anda na Europa, tenha um grupo de elite extrem am ente vigoroso e ativo im posto, no espaço de um a ou duas gerações, o seu dom ínio e novas estruturas políticas sobre grande parte do Iorubo. Que esses reis tenham saído de um a só fam ília tam bém não pareceria inverossím il. A história está cheia de casos sem elhantes, e Sm ith lem bra o da Casa de Hauteville.

Outros29 não veem m ais razão para dar com pleto crédito às narrativas tradicionais. Aceitam -nas, contudo, com o a indicar ter sido possivelm ente em Ilê Ifé que a instituição da m onarquia do tipo divino prim eiro se instalou no Iorubo,

dali se difundindo para o resto da região. E houve quem acrescentasse: 30 quer se dem onstre ou não ter sido Ifé a fonte de novas dinastias, m uito provavelm ente era de lá que provinham as coroas — e outros obj etos de contas — usadas pelos reis iorubanos, antes da chegada dos europeus. O que não se pode apurar é se foram ali conferidas por um rei suserano a um rei espiritualm ente tributário. Provavelm ente, sim . Pois os rituais de instalação de novos obás em vários estados do Iorubo e no reino de Benim davam ênfase aos vínculos com Ifé: certas insígnias eram , em alguns casos, enviadas ao oni para serem reconsagradas.

Não haveria, no caso, laços estritos de dependência política. As relações entre o oni e os dem ais reis seriam sem elhantes às existentes entre pai e filhos num a

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fam ília africana — com o advoga I.A. Akinj ogbin, na sua discutida teoria da

com unidade ebi.

Entre os iorubás, com o entre seus vizinhos ocidentais, os aj as, b e outros povos africanos, o vínculo social era o sangue. Um indivíduo pertencia a um a fam ília — ebi, em iorubano — e só por causa dela, a um estado. Este era visto com o um a versão am pliada da fam ília, e o rei, com o um pai. Quando vários reis invocam um antepassado com um — no caso, Odudua —, há entre eles um a relação de irm ãos. E entre eles e aquele que ocupa o trono do ancestral de todos — o oni de Ifé —, o laço entre filhos e pai. Era à luz desse parentesco perpétuo entre reis e reinos que cada estado olhava o vizinho. Nenhum reino dependia, pois, de outro. Todos eram filhos adultos. Mas tinham deveres m útuos e sobretudo para com o reino-pai. Deveres sagrados, que podiam , se não cum pridos, desatar sobre os faltosos a indignação ou o castigo dos antepassados.

Os prim eiros visitantes portugueses parecem ter bem com preendido as relações entre o oni e os dem ais obás da Casa de Odudua. Duarte Pacheco

Pereira32 escreve que o “Hooguanee” — geralm ente identificado com o oni de Ifé — era considerado entre os negros com o o papa entre os europeus. João de

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Barros, a partir do testem unho de um em baixador de Benim em Lisboa e de

João Afonso de Aveiro, diz sobre o Ogané — Oguene é o nom e que tem em edo o rei de Ifé — frase quase idêntica. E acrescenta: ao ascender ao poder um novo soberano, este enviava m ensageiro ao Ogané, para com unicar-lhe a m orte do antecessor e pedir-lhe que o confirm asse com o rei.

Ainda hoj e, o oni de Ifé sustenta sua condição de prim eiro entre os reis do Iorubo e de pai de todos eles. Mas, com o fortalecim ento, sobretudo a partir do século XVI, dos outros estados iorubanos e o declínio econôm ico e político de Ifé, essa condição passou a ser contestada e negada. Muito em bora Ifé continue a ser o núcleo do universo, a fonte original de todas as coisas, o lugar onde surge a

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m anhã, a cidade sagrada.

Para negar ao oni a prevalência que teria tido no passado — e que ainda hoj e m uitos lhe dão —, desenvolveram -se, em Oió, em Ilexá e em Ij ebu, tradições segundo as quais ele não descenderia de Odudua, m as de um escravo deste, encarregado de cuidar do palácio quando os príncipes saíram a fundar novos reinos. Em algum as versões, ele teria sido um cativo que se destinava ao

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sacrifício.

A história oral de Ifé diz outra coisa. Diz que Odudua foi o prim eiro oni, seguido por seu filho m ais velho, Obalufom , e depois, por seu filho caçula, ou neto, Oraniã. E depois, por Obalufom II. Certas variantes dão Obatalá com o segundo, terceiro ou quarto oni.

Além de reinar em Ifé, Oraniã teria sido o prim eiro obá de Benim e o prim eiro alafim de Oió, reino que teria fundado em plena savana e cuj a capital ficava antigam ente no extrem o norte do planalto iorubano. De Oko, sua m orada após a criação de Oió, Oraniã, segundo algum as versões, regressou a Ifé, onde teria m orrido e sido enterrado no lugar em que se ergue o obelisco cham ado Opa Oraniã, ou “caj ado de Oraniã”.

O “caj ado de Oraniã”. Obelisco de granito, seis m etros de altura

 

Nenhum túm ulo foi encontrado nas proxim idades do obelisco de granito, de seis m etros de altura, com 125 cravos tacheados em form a de um tridente cuj as pontas se unissem no alto da vertical. E o m onum ento pode ser bem m ais antigo do que a época em que as tradições põem a história de Oraniã. Talvez tanto ele quanto certos tam boretes desentranhados do quartzo e algum as toscas esculturas em pedra de anim ais e de seres hum anos ou deuses — entre as quais as im agens

de Olofefura e Idena, esta últim a com cerca de um m etro e bastante realista36 — pertençam à fase pré-clássica da grande arte de Ifé.

Foi esta arte adm irável o que deu fam a a Ifé.

Tem ela causado pasm o, dúvidas e interrogações, desde que Leo Frobenius, em 1910, desenterrou do bosquete de Olocum , o deus do m ar, 14 cabeças em terracota, de um a serenidade e lim peza de form as e de um a verdade à vida, que as colocam no nível da escultura clássica grega e do Renascim ento italiano. Na m esm a ocasião, o sacerdote de Olocum m ostrou a Frobenius — que a adquiriu por seis libras esterlinas, um a garrafa de uísque e um copo, m as foi obrigado pelas autoridades britânicas a devolvê-la — a fam osa cabeça em bronze da divindade do m ar. Esta escultura haveria de cercar-se de um outro m istério, ao se descobrir, em 1949, que a im agem existente em Ifé era um a cópia m oderna, havendo o original desaparecido sem que se saiba com o. Em pobreceu-se assim o acervo da escultura antiga de Ifé, constituída por um núm ero relativam ente grande de peças de cerâm ica e por apenas 27 obras em bronze, ou m elhor, em latão ou em cobre quase puro.

As im agens em terracota, sendo m uito m ais num erosas do que as em ligas de cobre, apresentam tam bém m aior variedade de form a e estilo. Entre elas destacam -se as figuras hum anas, de m odelado realista, com elaboradas coroas de contas e panos à volta do corpo (presos à cintura, nos hom ens, acim a dos seios, nas m ulheres), cheias de colares, braceletes e tornozeleiras. Têm em regra 2/3 do tamanho natural, mas podem alcançá-lo ou ser bem menores. A cabeça, com o usual na escultura africana, corresponde a 1/4 da altura do corpo, e este recebe um tratam ento sim plificado, ou até m esm o tosco.

Já as cabeças m ostram -se m aravilhosam ente acabadas. Quer quando fazem parte de um a figura inteira, quer quando concebidas com o peças isoladas, com o cabeças com pletas em si m esm as, a se apoiarem sobre a base dos pescoços. São de um realism o que pressupõe o retrato.

Não é isto, entretanto, o que as isola de todo o resto da arte subsaariana. Na arte subsaariana, há tam bém um a vertente realista, que vem de bem longe, com o o dem onstram certas peças de Nok, e chega ao nosso tem po, nas m áscaras gueledês (em algum as das quais, quando raspadas da pintura, se reconhecem iorubás que passam pelas ruas de Porto Novo ou Lagos), nas m áscaras quiocas, na im aginária luba. O que faz a escultura de Ifé ím par na África negra são os cânones a que obedece esse realism o. A técnica, a form a, o conteúdo, o sentido de m edida e equilíbrio, a visão intelectual da face hum ana — tudo, ou quase tudo, poderia inseri-la na extensa tradição que vem do Egito, se afirm a na Grécia e se prolonga em Rom a e na Itália renascentista.

O escultor teve provavelm ente diante de si m odelos vivos. Mas os seus olhos viram através das lentes da inteligência sensível, que “subm ete as form as

naturais a um esquem a intelectual de proporções e m edidas com parativas”.37 O entendim ento que o escultor tem de um rosto hum ano ideal, de com o é ou deve ser a face da beleza, dirige-lhe, assim , a m ão, ao retratar o m odelo: ele m entalm ente seleciona, corta e acrescenta traços às feições da pessoa cuj a im agem se propõe reproduzir.

Esse tipo de realism o intelectual, consolidado em tradição e norm a, gera um a arte que tende à uniform idade, pois há um esquem a ideal a ser seguido. Na m aioria das terracotas de Ifé, o rosto hum ano é de um perfeito equilíbrio, distante, com o se fora de um deus, das agruras e defeitos hum anos, im óvel na m ais profunda serenidade.

Os olhos estão abertos e sem pupila. As linhas das pálpebras são fortem ente traçadas e, nos cantos dos olhos, a da pálpebra superior se superpõe à da inferior. O contorno dos lábios é assinalado em leve relevo. Cavam -se fundos os cantos da boca. O pescoço está m arcado por ranhuras. As sobrancelhas parecem raspadas: apenas sugeridas. A testa é em geral saliente. Em alguns exem plares, as feições estão inteiram ente cobertas por delicadas estrias, que descem verticalm ente do toucado ou do nascim ento dos cabelos e se arredondam no queixo. Provavelm ente representam escarificações, m as, aos olhos de hoj e, acentuam e dão ritm o ao m odelado do rosto e distribuem , atenuando, o derram ar da luz sobre a sua superfície.

A fidelidade às regras da com posição faz com que essas cabeças hieráticas pareçam todas análogas. Nenhum a ri. Nenhum a parece, se vista com pressa, m ostrar qualquer em oção. Dão a ideia, ao prim eiro olhar, de estarem todas apartadas do m undo, num a quietude indiferente. No entanto, não há duas iguais.

Algum as são de fatura m edíocre. Outras, apenas corretas. Ou bem -feitas, e frias. Mas m uitas são aquelas em que soprou com intensidade a beleza. Nas quais se sente, no barro, a suavidade da pele, o ser que respira, sonha e espera. Nelas, em sem blantes de aparente desapaixonado alheam ento, o escultor recolheu a tensão de um m odelo, o ar cism arento de um outro, a m elancolia de um terceiro, a altivez desse, a arrogância daquele, a com penetrada seriedade de um adolescente.

Tal com o sucedeu com a estatuária grega, as esculturas de Ifé chegaram ao nosso tem po descoloridas. Eram , porém , pintadas, com o revelam os restos de tinta verm elha, preta e branca que em dim inutas partes de algum as delas ainda

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persistem .

Essas im agens de um a beleza delicada e serena constituem a m aior parte, e a m ais divulgada, do acervo de Ifé. Os seus autores conheciam , contudo, outro tipo de realism o, com o se pode verificar por algum as das esculturas desencavadas das terras da fam ília Obalara, nos subúrbios da cidade. Num a delas, um velho obeso abre a boca, a deixar ver os dentes e a língua, num gesto que não se sabe se de m aldade, espanto ou horror. Traz ele, pendurada ao pescoço, um a corrente com pequena caveira. Num a outra terracota, retrata-se um hom em evidentem ente afligido por doença: olhos em papuçados, lábios inchados, um grande bócio no pescoço.

Faziam -se tam bém em Ifé representações extrem am ente sim plificadas e estilizadas da cabeça hum ana. Cones com olhos e boca toscam ente desenhados e dois pontos a fingir de nariz. Cilindros de barro, com protuberâncias no alto, a sim ularem toucado ou cabelo, dois furos por olhos e um traço fundo com o boca. Havia ainda um estilo m isto, a com binar a cabeça em form a de cone com feições realistas.

Poder-se-ia supor serem essas im agens pobres as precursoras da grande escultura de Ifé. Mas não. Devem ser dela contem porâneas. Pois a esta conclusão nos conduz certo vaso encontrado nas terras da fam ília Obalara, no qual se representa em relevo um altar, com um a cabeça naturalista e duas

sim plificadas. 39

Os artistas de Ifé m oldavam tam bém no barro cabeças de anim ais, que serviam de tam pa a vasos de uso religioso. Carneiros, leopardos, elefantes, hipopótam os, extrem am ente estilizados e ornam entados, trazendo na testa a insígnia que se supõe, nas im agens hum anas, indicar a realeza: um a espécie de roseta saliente, form ada em geral por vários discos concêntricos, que vão dim inuindo de tam anho e term inam em botão, e da qual se levantava um a espícula enfeitada, um tufo ou penacho, ou ainda um a placa a rem atar em rosácea. Os difusionistas apertam os olhos para ver no em blem a um a ressonância dos existentes nas coroas da Núbia e de Méroe e, m ais para dentro do tem po, do uraeus do Egito dinástico.

Figura sedestre de Tada, fim do séc. XIII/séc. XIV. Cobre, 53,7cm de altura

 

Nas cerâm icas, o em blem a está sem pre partido. Mas pode ser visto inteiro nas esculturas em m etal, praticam ente todas naturalistas, no m ais puro e refinado estilo clássico de Ifé.

As cabeças em cobre, bronze ou latão apresentam -se em tudo sem elhantes às de terracota. São transcrições destas em outro m eio, no qual as linhas se cavam e acentuam — porque a luz, em vez de ser absorvida pelo barro, é refletida pelo m etal, salientando, por contraste, as som bras. Desse m odo, a suavidade se transform a em força.

Se excetuarm os, entre as poucas peças até agora encontradas, dois cetros de bronze encim ados por cabeças hum anas de rude fatura, um vaso com um a figura fem inina enrodilhada, de barroquism o parecido ao das testas de anim ais de cerâm ica, e um casal — seriam rei e rainha? — de braços dados e pernas enroscadas, ela entre aborrecida e cheia de tédio, e am bos ao nosso lado no m undo, todas as dem ais esculturas em m etal parecem ser retratos idealizados. Concisos, serenos, puros, adm iravelm ente equilibrados. E fundidos de m odo quase sem pre im pecável.

A m aioria das peças foi vazada em latão ou num a liga de cobre, zinco e chum bo. Um as poucas, em bronze. E outras, em cobre quase puro. O sistem a usado era o da cera perdida, utilizando-se látex para m odelar a figura.

De todas essas esculturas em m etal, a m aior até agora encontrada é a estátua sedestre que se venerara no vilarej o nupe de Tada, no banco direito do rio Níger. Tem sido ela atribuída aos artistas de Ifé, em bora haj a quem disto discrepe e lhe dê por origem outro centro criador, na área da con-fluência do Níger com o

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Benué, entre gentes j ucuns, igalas ou nupes.

Muito em bora seu rosto estej a bastante estragado pelas lavagens com água e areia do rio a que era a im agem periodicam ente subm etida — a fim de favorecer a fertilidade das m ulheres de Tada e dos peixes de que vivia a póvoa —, nele ainda se pode sentir a inconfundível serenidade das esculturas de Ifé. O realism o dessa estátua situa-se, porém , m uito m ais próxim o do ideal grego. Não só as proporções entre cabeça, tronco e m em bros correspondem às da realidade, m as tam bém o seu j ogo de form as está longe da tradicional sim etria africana. Diante dela, com o diante de um a escultura grega, o olhar se dirige, antes de m ais nada, ao corpo. A um corpo cheio de tensão interna. Ali está um hom em sentado sobre a perna esquerda, que, dobrada, se cinge inteiram ente ao solo, da coxa ao tornozelo, enquanto o j oelho direito se levanta, para que a planta do outro pé, que não m ais existe, se apoie no chão. Tam bém faltam a essa im agem de cobre de m ais de m eio m etro de altura a m ão esquerda e o braço direito. Este devia proj etar-se para a frente, de todo separado do tronco, a acentuar, num equilíbrio perfeito, o repouso do corpo sobre o seu lado esquerdo. Na form a parada, está em potência o m ovim ento. É possível que a escultura em terracota haj a, com o

quer Frank Willet,41 antecedido o bronze. A fundição em m etal teria com eçado, assim , quando a m oldagem do barro j á atingira a perfeição. E é tam bém possível que as im agens em liga de cobre estivessem reservadas à fam ília do oni e a

algum as outras m ais chegadas ao poder.42 Em virtude talvez de ser o cobre m atéria escassa, im portado de longe. Talvez. Pois nada se sabe ao certo sobre a arte de Ifé. Sobre quando com eçou e com o term inou. Por quem , para que e para quem foi feita.

Ao contrário do que sucede com outras áreas da África, o presente e o passado próxim o pouco nos aj udam a responder a essas perguntas. Não existe, com efeito, no Ifé de hoj e e de ontem , qualquer traço de sobrevivência da tradição escultórica naturalista. Ou da fundição de ligas de cobre. E não deixa de ser estranho que um a arte e um ofício a ela associados desapareçam sem deixar rastros, após terem produzido um excepcional conj unto de obras-prim as.

Seriam essas esculturas trabalhos dos ubos, da época de Obatalá, que m oldava

as figuras hum anas no barro,43 e anteriores, portanto, às m udanças políticas a que a lenda associa o nom e de Odudua? E, neste caso, não faria sentido aproxim ar de nós no tem po o advento de Odudua, situá-lo no século XVI, quando

se extingue a arte de Ifé? 44 A conquista da cidade por um grupo estrangeiro, que sobre ela im pôs um novo regim e político, um a nova cultura e um a nova estirpe m andante, explicaria o desaparecim ento de sua arte realista, da técnica de fundir o cobre e suas ligas e da m anufatura de m içangas de vidro, caída em tam anho esquecim ento que os cadinhos nela utilizados eram tidos localm ente, em nossos dias, por tam bores, e as contas e a pasta vítrea, por m inério ou por algo que

nascia naturalm ente do solo. 45 A vinculação entre Ifé e os reinos iorubanos seria, então, bem m ais recente, com o indicariam os adês, tão distintos dos toucados e diadem as, com sua roseta saliente, que cingem as testas das fam osas esculturas em barro e em m etal. Quanto às estrias verticais que lhes cobrem os rostos, hoj e desconhecidas dos ifés, poderiam ser lidas com o as escarificações que distinguiam um a antiga e abolida realeza.

Chega ao nosso tem po este rum or: o da m atança de todos os artistas, depois que conspiraram com alguns cortesãos, para esconder a m orte de um oni m uito am ado. Um toreuta — diz-se — teria feito a im agem do falecido rei e a colocado no trono. Descoberto o truque, o príncipe herdeiro ordenou a execução de todos

os escultores.46

A história pode até ser verdadeira, m as não explica o ter-se extinguido em Ifé um a lição artística, um m odo de fazer que j á se dissem inara por outros pontos do Iorubo, com o o dem onstram os achados de Ikirun e Irê, nas proxim idades de Oshogbo, de Idanre, perto de Ikare, e sobretudo de Owo, no extrem o oriental do m undo nagô. Antes que ali se encontrassem esculturas m odeladas segundo os cânones de Ifé ou com eles guardando forte afinidade, tudo parecia cercar de ineditism o a arte naturalista que surgira e se findara na cidade de Odudua. Por algum tem po, e desde que a im aginação de Frobenius se incendiou com a crença de haver descoberto a Atlântida em plena floresta africana, chegou-se a atribuir as terracotas e os bronzes de Ifé a um artista rom ano, a um renascentista italiano ou a um português que teria ido bater, não se sabe por que azares, naquelas bandas.

O próprio m om ento em que floresceu a arte de Ifé desm ente essas fantasias. Graças aos m étodos do radiocarbono e da term olum inescência, tem sido ela datada do século XI ou XII ao XIV ou XV. Mas não se afasta a hipótese de que

possa ter tido início ainda antes, 47 nem a de que sej a produto de apenas um século e pouco, dada a unidade de estilo que apresenta. O pioneiro dos estudos da

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arte nigeriana, Kenneth Murray, não hesitou em sugerir que os bronzes fossem

obra de um só escultor, enquanto que William Fagg viu neles pelo m enos cinco

m ãos diferentes. 49

Que a m aior parte das esculturas de Ifé ou as m elhores dentre elas tivessem sido produzidas no espaço de duas ou três gerações, não seria de estranhar-se. Afinal, toda a tragédia grega desenvolveu-se no século V a.C., e nos 150 anos entre o início da carreira de Brunelleschi e a m orte de Miguel Ângelo corre a história do renascim ento florentino. Mais curto ainda foi o florescer das artes em Ouro Preto. E, em outras áreas do m undo, a um período de intensa criatividade seguiu-se o silêncio ou a repetição flácida e em pobrecedora. É possível tam bém — dada a tendência conservadora das culturas africanas e a cristalização das form as na sua arte, com , m uitas vezes, as m esm as im agens a se repetirem incessantem ente ao longo do tem po — que o realism o de Ifé, tão logo atingido, se tenha estabilizado com o m odelo ideal, passando a reproduzir-se, sem alteração,

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desde o século XII até o XVI.

Com o Ifé chegou a esse realism o, do m esm o tipo que o m editerrânico, é um outro problem a, para o qual não há resposta segura. Talvez pela evolução de um a escultura de cerâm ica de tam anho natural, que vinha desde Nok: ao fazer a cabeça hum ana nas dim ensões aproxim adas às da realidade, os artistas cada vez m ais se sentiram tentados a reproduzir as proporções do m undo real, idealizando-as em norm a, pela reiteração.

Não se pode excluir, num a sequência de hipóteses, a do estím ulo externo. Assim com o a brida, a espora e a sela, com o o pássaro no alto dos guarda-sóis reais e o islam ism o atravessaram o deserto, nada im pediria que tivessem chegado às m ãos de um a confraria de artistas, em Ifé, um a ou m ais esculturas vindas do Egito ou da África do Norte, e que os tivessem tocado profundam ente e convertido a um sistem a novo de form as e a um a distinta visão do rosto hum ano. Não foi certa m áscara fangue, de propriedade de Vlam inck, com o im pacto que causou em Derain, Picasso e Matisse, um dos com eços da arte m oderna europeia e do seu afastam ento dos ideais gregos? Por que não poderia ter ocorrido fenôm eno sem elhante, em bora com resultado oposto, em Ifé?

Com o quer que haj a sido, para o firm ar do realism o m uito terá aj udado a função que talvez exercessem essas esculturas em Ifé: a de im itar o rosto hum ano em sepultam entos secundários ou em outras cerim ônias religiosas, nas quais os m ortos voltassem ao convívio dos vivos.

Kenneth Murray 51 52 supôs — e Frank Willet retom ou a ideia — que as cabeças em bronze, cobre ou latão fossem cravadas em postes ou toscos corpos de pau — sem elhantes, acrescento, aos dos santos de roca do Brasil. Nos pescoços das esculturas existem , com efeito, buracos pelos quais poderiam passar os pregos, enquanto que furos m enores, a acom panhar a linha do cabelo, perm itiriam que se fixassem nas cabeças as coroas e os em blem as de ofício. Se é que ali não se prendiam chinós, do m esm o m odo que bigodes e barbas, em linhas de orifícios, que lhes reproduziam o desenho, na parte inferior do rosto.

Essas esculturas talvez representassem retratos de onis e cortesãos. Talvez sim bolizassem a continuidade de várias funções do estado, independentem ente da m orte individual de quem as detinha. Talvez fossem im agens de reis divinizados ou de deuses hum anizados.

Bem m ais evidente é o caráter sacro das peças em cerâm ica. E m aiores são os indícios de com o eram usadas.

As escavações arqueológicas em Ifé (sobretudo em Lafogido, em Woy e Asiri e na propriedade dos Obalaras) perm item que se com ponha o seguinte

cenário: 53 nas casas, havia pequenos pátios internos e abertos ao sol, com o chão calçado com fragm entos de cerâm ica e seixos brancos, dispostos em espinha de peixe, a form arem desenhos geom étricos que dirigiam a vista para o centro do terreno; ali ficava um pote enterrado, ou apenas sua boca, que devia servir para receber libações; num dos lados do pátio ou em dois lados opostos, erguiam -se um ou dois altares, estruturas baixas e sem icirculares, sobre as quais se coloca-riam possivelm ente as cabeças de cerâm ica. Em Lafogido, nas orlas do pavim ento, encontraram -se 14 j arras enterradas, com tam pas de cabeças de anim ais (carneiros, hipopótam os, elefantes, com a roseta real em suas testas), todas a olharem para o centro da área. Sob o pátio havia indícios de um túm ulo, m as o local não pôde ser escavado, por haver o oni proibido o prosseguim ento dos trabalhos, a fim de evitar que fosse violado um sepulcro real.

Rosto com escarificações em form a de bigode de gato. Ifé, séc. XII a XV.

Terracota, 12,5cm de altura

 

Na propriedade dos Obalaras, as terracotas, ao que tudo indica, não estavam ligadas à realeza. Seriam im agens dos antepassados, deuses lares, talvez. Reverenciadas m esm o depois de partidas, eram postas no centro de um a casinhota de m adeira, coberta de sapé, num dos lados do pátio revestido de pedaços de cerâm ica. Pertinho das terracotas, acharam -se quarenta caveiras hum anas e m uitos vasos rituais. Esse tipo de pátio, dedicado a um deus, continua a existir até hoj e no Iorubo. Não só nos palácios, m as tam bém nas m oradias particulares. Com o antigam ente em Ifé. E a form a sem icircular dos altares persistirá no reino do Benim . Quanto aos pisos de fragm ento de cerâm ica, j á eram usados em Daim a, antes do século IX, e serão vistos no Benim , em Queto, pelo Iorubo afora, parecendo ser um a característica m uito difundida da arquitetura da África Ocidental. Em Ifé, calçam som ente pátios e passagens descobertas dentro de cada com pound, ou conj unto m urado de casas de gente da m esm a fam ília.

As casas, que se acum ulam um as contra as outras e m uitas vezes se interconectam , possuem quartos de tam anhos distintos, abertos em geral para pátios e varandas. Nas varandas, então com o agora, passava-se a vida da fam ília. Ali cozinhava-se, fiava-se, tecia-se, faziam -se esteiras, conversava-se e, na estação seca, dorm ia-se. As salas m aiores possuíam im plúvio, calçado tam bém com pedaços de cerâm ica.

A cidade era cercada por um a série de m uralhas concêntricas. As que se presum em m ais antigas deviam elevar-se a uns quatro ou cinco m etros, com cerca de dois de espessura. O centro dessa série de barreiras circulares era o

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palácio do oni, com o a indicar que nele a cidade teve com eço.

Esta, no passado, seria bem m aior do que atualm ente, e é possível que a contração revele o declínio de Ifé com o núcleo m anufatureiro e entreposto m ercantil. O seu papel nos contatos entre a savana e a floresta talvez tenha passado a ser exercido, a partir do século XVI, por Oió, enquanto que o com ércio com o sul assum ira novas feições com a chegada dos portugueses à costa e o

im pulso que deram ao Benim e a Ij ebu. 55 Isso não dim inuirá, porém , a im portância religiosa e, consequentem ente, política de Ifé. Na Rom a dos iorubanos, os obás continuariam a ir buscar os sím bolos que os legitim avam , e cada um dos orixás conhecidos tinha perm anentem ente um chefe a seu serviço.