A Enxada e a Lança
10. Etiópia, a Alta
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Etiópia, a Alta
No últim o quartel do século VI, os sassânidas assum iram o controle do com ércio a distância entre o oceano Índico e o Levante m editerrânico. Deslocaram os bizantinos do m ar Verm elho, de cuj a entrada e principais pontos estratégicos se fizeram senhores, e reduziram o âm bito de ação dos axum itas a escam bos com portos vizinhos e a pequena cabotagem .
Ao longo do tem po, o m ar Roxo fora utilizado e zelosam ente defendido por gregos, egípcios, rom anos e bizantinos, com o rota que contrabalançava o dom ínio aquem ênida e sassânida sobre o golfo Pérsico. Era o m ar Verm elho, para os países m editerrânicos, o eixo do com ércio oriental, que, por outras sendas, ficava inexoravelm ente à m ercê dos persas. Quando estes, afinal, dom inaram o acesso ao m ar Verm elho, condenaram -no ao abandono e ao declínio, pois a política iraniana sem pre fora a de fechar a rota entre o golfo de Aden e o istm o de Suez, para tornar im prescindíveis a via m arítim a do golfo Pérsico e os cam inhos por terra ao sul do m ar de Aral e do Cáspio.
Em bora efêm ero, o dom ínio persa sobre o m ar Verm elho foi de tal m odo efetivo, que debilitou para sem pre o com ércio direto de Constantinopla com o Índico. E com o declínio da presença de Bizâncio, esm aeceu tam bém a de Axum . Pois esta dependia em grande parte daquela e do j ogo de forças entre bizantinos e sassânidas.
A conquista m aom etana de toda a Arábia, da Síria, do Egito, do sul da Ásia Menor e da própria Pérsia consolidaria ainda m ais a vitória do estreito de Orm uz sobre o Bab-el-Mandeb. Sobretudo depois que Bagdá, com os abássidas, no século VIII, substituiu Dam asco com o centro do califado e se tornou o nó de todas as rotas de caravaneiros e navegadores do Oriente Médio. Os cam inhos para as m ercadorias das Índias e para os produtos do Mediterrâneo desem bocavam cada vez m ais no golfo Pérsico.
O expansionism o m uçulm ano isolou Axum de Bizâncio e de quase toda a cristandade, m as, em seus prim eiros séculos, deixou relativam ente tranquilos os etíopes. Contra eles não se fez a guerra santa. Pelo contrário, os contatos iniciais entre islam itas e abexins parecem ter sido em geral pacíficos e até am igáveis. Osm ã, sobrinho de Maom é, exilou-se na Etiópia, por volta de 615, e lá tam bém se abrigaram , durante a hégira, outros partidários do Profeta, cuj o prim eiro alm uadem teria sido um abissínio, Bilali Bunam a. Isso foi na época de um
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negachi que se conhece com o El-Axam e que m ereceu de Maom é, quando este
soube de sua m orte, preces e palavras de afeto.1 Figura o rei axum ita nas hagiografias m uçulm anas, pois, segundo a tradição, se teria convertido ao novo
credo. 2
Não faltaram , porém , conflitos isolados, m esm o quando ainda viviam El-Axam e o Profeta — com o choques no m ar Verm elho entre barcos etíopes e árabes, que disputavam m ercados ou exerciam a pirataria uns contra os outros.
Esses em bates foram , entretanto, escasseando. O m ar Roxo tornara-se árabe, a desaguar com ercialm ente no golfo Pérsico. Era cada vez m enor o núm ero de navios que, de Adúlis e de outros portos abissínios, dem andavam a Índia e o Ceilão. Essas em barcações fizeram -se raras. E deixaram , finalm ente, de velej ar longe das costas etíopes.
O com ércio estagnou-se; os portos perderam m ovim ento; o país em pobreceu, voltado para si próprio. Ao norte, os bej as foram corroendo as fronteiras abexins e criando pequenos reinos em grande parte da Eritreia. Ali dom inaram as m inas
de ouro — com o refere Al-Masudi. 3 Para as que ficavam ao sul, os falachas e os agôs cortaram os cam inhos aos axum itas. Em consequência, o peso das m oedas de ouro foi paulatinam ente decrescendo, até que elas deixaram , no início do
século VII, de ser cunhadas. 4
Voltavam -se em m em ória os tem pos em que Axum estendia seus lim ites pelo Iêm en adentro e influía sobre os destinos da Arábia do Sul. Seu território se contraíra. Mas o reino, em pobrecido e debilitado, m antinha-se íntegro ao sul da Eritreia, no Tigrê, em Lasta e em Angote, no alto do espigão de onde descem os rios para o Nilo e para o m ar Verm elho. É possível que conservasse até m esm o algum dom ínio sobre parte do litoral e que ainda possuísse corsários capazes de ir assaltar o porto de Jedá e de hostilizar os barcos árabes.
Terá sido em represália a ataques axum itas que os sarracenos, no início do século VIII, assolaram Adúlis e ocuparam as ilhas Dahlak, que lhe ficam em frente. Essas ilhas viriam a ser um dos principais centros de contato e com ércio entre a Etiópia cristã e o Islão circundante. Por elas, durante quinhentos anos, passariam da Abissínia para o Iêm en e o resto da Arábia o ouro, o m arfim , o âm bar, o alm íscar, as peles de pantera, os escravos núbios e abexins — principalm ente os eunucos de tez clara, que alcançavam altos preços nos m ercados do m ar Verm elho e do golfo Pérsico.
Nesse longo período, Dahlak m udou m uitas vezes de senhores. Esteve sob dom ínio om íada e abássida. Deve ter voltado, em algum as ocasiões, ao controle do rei etíope, para logo readquirir a independência, em bora m antendo laços de vassalagem ou de estreita e obrigada aliança com a dinastia iem enita de Zebid ou com o negachi cristão.
Os m ercadores árabes de Dahlak e dos portos da Eritreia levavam o sal-gem a
b
— de que eram ricas as planícies desérticas por onde nom adizavam os saôs e os
afarsc — para o altiplano. Ali, ao longo das vias com erciais e nas cidades, foram -se instalando, pelo m enos desde o século IX, com unidades de com erciantes m uçulm anos — iem enitas, iraquianos e conversos das ilhas e do litoral da Eritreia — que gozavam da proteção dos chefes etíopes e lhes pagavam tributo. Tinham esses grupos am pla liberdade para m ercadej ar, m as estavam rigorosam ente im pedidos de exercer publicam ente a fé e de atrair prosélitos. Seus vilarej os, bairros ou entrepostos com erciais sucediam -se cam inho abaixo na direção de Dahlak. E, m ais tarde, na de Zeila, cidade portuária que ganharia im pulso no século X, em território som ali, logo após a baía de Taj ura, no golfo de Aden.
Algum com ércio tam bém se faria com o Egito, pois, m esm o em seus m om entos de escura decadência, o reino cristão da Etiópia j am ais deixou de ter vínculos com o patriarca copta de Alexandria, que consagrava cada novo abuná, ou bispo m etropolitano da igrej a abissínia.
Em bora não haj a testem unhos de que fossem intensas as relações com Macúria e Alódia, deviam elas existir. É bem provável que os abexins, contornando as altas escarpas e as num erosas tribos pagãs que os separavam de seus correligionários da Núbia, chegassem até eles pelo m esm o roteiro usado para alcançar o delta do Egito: através do território bej a, ou pelo m ar, até as proxim idades de Ay dhab, e dali a Cus, sobre o Nilo. Mais curto ainda, para os reinos núbios, era o itinerário até o porto de Suakin, de onde partiam as cáfilas na direção da confluência do Atbara com o Nilo.
Mantinham contatos, portanto, ainda que poucos, o reino cristão da Etiópia e os seus vizinhos. Dentro do grande esquem a de paz im posto pelos árabes, contra o qual a fraqueza de Axum nada podia.
Nas planícies tórridas j unto ao m ar Roxo, os nôm ades cam eleiros haviam adotado o islão. Nos portos e nas águas, os árabes não adm itiam com petidor. Ao norte, os bej as cresciam em força. Só restava aos axum itas o expandir-se para o sul.
O deslocam ento neste rum o do centro de gravidade do reino cristão j á se fazia notar desde o século VII. (Consta, por exem plo, que El-Axam foi sepultado em
Wiqro, cerca de 105km a sudeste de Axum .)5 As m igrações tom aram , porém , m aior volum e e ím peto no século IX, quando fam ílias inteiras, acom panhadas de clientes e escravos — e tam bém de soldados e sacerdotes, para garantir a posse das terras e prom over a conversão do gentio —, se transferiram de Tigrê para Am ara e o norte de Xoa, em busca de solos novos e m ais férteis.
Os antigos habitantes desses territórios eram deles expulsos ou passavam à servidão. Muitos, dobrados pelas arm as, tom avam o destino dos m ercados de cativos. Outros acom odavam -se j unto ou a pequena distância dos recém -vindos e eram por estes culturalm ente assim ilados.
A resistência dos nativos deve ter sido grande. Tanto que a ocupação das novas fronteiras está ligada, na tradição etíope, às cam panhas m ilitares do negachi
Dignaj ã, d que se teriam estendido além do sul do Xoa. A ele tam bém se atribui um am plo m ovim ento de evangelização das terras conquistadas.
Dignaj ã pertence provavelm ente à prim eira m etade do século IX. Da segunda, dataria a fundação da igrej a de Debra Igziaber, no lago Hay q,
e
im putada a um certo rei Delnaode ou Dilnaode. E há um a tradição de que, por essa época, a capital do reino se transferira para perto do m esm o lago. Seria ela a Cabar ou Cubar, de que nos fala, no fim do século IX, o cronista árabe Al-
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Yakubi? Corresponderiam a ela as ruínas de um povoado cristão, descobertas
cinquenta quilôm etros ao sul do lago Hay q? 7
Muitos j ulgam que essa Cubar nunca existiu ou, se existiu, não foi cabeça do
reino; que Cubar seria um a distorção de Gondar8 ou um erro de caligrafia no
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m anuscrito original (“Kubar” por “Ksum ”, ou Axum ). Taddesse Tam rat vota,
no entanto, em favor da possibilidade de que a cidade de Axum tenha, nos
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séculos IX e X, ou m esm o antes, talvez j á no século VII, deixado de ser a
capital do reino, cuj o núcleo de força se deslocara consideravelm ente para o sul. Teria sido, aliás, nos territórios agôs que o estado e a igrej a se refugiaram durante os trezentos e tantos anos de decadência, ali preservando seus valores e ali continuando o constante processo de integração e assim ilação de outros povos,
fossem sem itas, cuxitas ou nilo-saarianos.12
Essa decadência chegara ao fim , na passagem do século IX para o X. Pelo m enos é o que se depreende do texto de Al-Yakubi. Escrevendo nas últim as décadas do século IX, ele diz gozar o país do negachi de alta reputação. Afirm a que ali havia cidades im portantes, onde os árabes iam habitualm ente com erciar. E que o negachi tinha sob ele m uitos outros reis, que lhe pagavam tributo e lhe prestavam vassalagem .
É bem possível que um a vinculação cada vez m aior do m ar Verm elho aos eixos m ercantis do golfo Pérsico tenha aum entado a dem anda dos produtos abexins, ainda que fossem vendidos nos portos e levados m ar afora por outros que não os axum itas, cuj a im portância com o navegadores definitivam ente decaíra. O crescim ento do com ércio teria devolvido, assim , a prosperidade a Axum e lhe dado forças para acelerar a dilatação de suas fronteiras.
Ao se expandirem os lim ites, cresciam as responsabilidades m ilitares do negachi. Sua gente entrava cada vez m ais em áreas hostis e distantes. E ali estabelecia colônias m ilitares e agrícolas. E em preendia vigorosas cam panhas de catequese. E preava os vizinhos, fossem agôs ou sidam as (os prim itivos habitantes do planalto de Xoa). A resistência a esse esforço colonizador e à im posição de um a cultura estranha só tendia a aum entar.
Durante o patriarcado de Cosm as, em Alexandria (933-942), rebenta a guerra civil no reino cristão etíope. Dois príncipes disputam o trono do negachi, dividindo-se entre eles não só as tropas, m as tam bém o clero. O abuná Petros, recentem ente designado por Cosm as, favorece o irm ão m ais novo, que é vencido. Príncipe e bispo exilam -se, e este m orre ausente da sé.
Cosm as considera o novo rei responsável pela m orte de Petros. Tanto ele quanto seus sucessores se recusam a atender aos apelos do negus para que m andem um novo bispo à Etiópia. Sem ter, durante m ais de m eio século, quem lhe ordene padres, a igrej a abissínia vê dim inuir o zelo evangelizador de colonos e soldados. Deixa, além disso, de som ar sua força à do negus.
Foi durante essa fase de desunião e desânim o que os sulistas se sentiram suficientem ente fortes para dar resposta a Axum . A revolta teria sido acesa pela chefe dos banu al-ham wiy y a, povo que não deixou na História senão o nom e. Algum as tradições fazem da líder rebelde um a rainha falacha. Outras, um a filha de Delnaode ou neta de um outro negachi, cham ada Mesobe-Uorque. Essa rainha ficou conhecida com o Judite, Gudit (que significaria “Monstro”) e Esato
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(“Fogo” ou “Fúria”). Ou, ainda, Tardae Gobaz.
Para Conti-Rossini15 a insurreição não foi falacha nem palaciana; teria eclodido entre os sidam as de Dam ote, território que fica im ediatam ente abaixo da curva do Nilo Azul. A luta durou entre 940 e 980, apresentando as características de um feroz m ovim ento contra-aculturativo. As tropas da rainha
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(provavelm ente pagãs, m as às quais podem ter-se som ado agôs j udaizantes) destruíam m osteiros e igrej as e m atavam em m assa os cristãos. O próprio negachi teria perdido a vida, durante um a refrega.
A rainha de Dam ote não só conseguiu recuperar a independência de seu povo, m as levou a desolação a grande parte da Etiópia, reduzindo m om entaneam ente os dom ínios da cristandade a pouco m ais que Tigrê, Lasta, Angote e o norte de Am ara.
A tensão e o sentim ento de abandono que experim entavam os axum itas transparecem na carta que o sucessor do negachi que causara o exílio do abuná Petros escreveu, pouco antes de 980, ao rei George da Macúria, pedindo-lhe a intercessão j unto ao novo patriarca de Alexandria, para que este enviasse um bispo à Etiópia. Dessa feita, o patriarca Filateus atendeu ao rogo.
Com a chegada do abuná, levantou-se o ânim o dos axum itas. E lograram vencer os sidam as e outros rebeldes. Mas não reconquistaram de pronto os territórios sulistas. Ali perm aneceram , por algum tem po, apenas algum as colônias m ilitares que haviam resistido eficazm ente à ofensiva e ao cerco dos sequazes da rainha Gudit.
A contração da esfera de influência axum ita criou um vazio que favoreceu a entrada do islam ism o no sul e no leste da Etiópia. A partir de Zeila, m ercadores árabes e som alis cruzavam as am plas e quentes planícies entre o litoral do m ar Verm elho e os planaltos etíopes, convertiam as tribos pastoras que nelas nom adizavam e estabeleciam entrepostos e vilarej os ao longo de toda a rota.
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Um a crônica árabe assegura que o sultanato de Xoa surgiu na últim a década
do século IX. Ainda que possa não ter sido assim , j á por aquela época os islam itas se haviam fixado na parte oriental do planalto de Xoa e no vale do rio Awash e ali exerciam fecunda catequese. Tanto eles quanto seus correligionários que viviam nos dom ínios cristãos form avam com unidades de crescente riqueza e prestígio e eram os fautores das relações com erciais entre o interior da Etiópia, de um lado, e o Iêm en e o resto do m undo m uçulm ano, de outro.
A expansão e a consolidação da presença m aom etana foram tam bém facilitadas pela conquista fatím ida do Egito, em 969. De sua nova capital no Cairo, o califa Al-Muizz e seus descendentes, aspirando ao dom ínio universal do Islão, deram guerra incessante a seus rivais de Bagdá. E fizeram reviver o m ar Verm elho com o rota alternativa à do golfo Pérsico.
Voltou a engrossar o com ércio pelo estreito de Bab-el-Mandeb. O porto de Ay dhab transform a-se no grande em pório egípcio para as transações com o Oriente, e todo o m ar Verm elho experim enta um a nova fase de euforia. Os fatím idas organizam um a esquadra de guerra para proteger os barcos m ercantes de eventuais ataques abássidas e buscam tecer um a rede de alianças nas costas da Arábia, da Eritreia e da Som ália. Tendiam , com o é natural, a favorecer o estabelecim ento de feitorias e estados m uçulm anos nas costas da África, m as não desdenhavam da cooperação e da am izade dos reis cristãos da Etiópia e da Núbia.
Tanto os fatím idas quanto os seus sucessores, os aiubidas, se esforçaram para assegurar a proteção dos m oslins que viviam nas terras do negachi, para os quais reivindicavam as m esm as facilidades de culto de que gozavam os coptas no Egito. Dispunha teoricam ente o califa do Cairo de excepcionais m eios de pressão, um a vez que tinha sob seu poder o patriarca de Alexandria e a capacidade de influir na escolha de cada abuná a ser enviado para a Etiópia. Todavia, na prática, tudo o que conseguiam os soberanos fatím idas era evitar que os m uçulm anos fossem perseguidos na Abissínia. Pois as prom essas de que lhes seria perm itido construir m esquitas e exercer publicam ente os atos de fé esbarravam na intransigente oposição da nobreza, do clero e do povo etíopes.
Distantes ficavam as cortes do califa e do negachi, Alexandria e a sé do abuná. Este era egípcio e súdito do Cairo, m as, chegado à Etiópia, tinha de agir de acordo com o clero e as realidades locais, sob pena de perder o crédito e até m esm o o posto. Os com prom issos que tivesse por acaso assum ido com as autoridades cairotas, antes de sua escolha, cedo se revelavam de im possível execução.
Sucedeu, por exem plo, que, por volta de 1080, o vizir de Al-Mustansim se em penhou para que fosse nom eado abuná um certo Sauiros, com ele, ao que parece, com prom etido a não obstar a propagação do islam ism o. Ao chegar à Etiópia, Sauiros com eçou a favorecer a construção de m esquitas, alegando que se destinavam aos m ercadores m aom etanos e que em nada prej udicavam os cristãos. Argum entava que a proibição de erguê-las poderia provocar represálias contra os coptas no Egito. Os abexins não concordaram com o raciocínio e cresceram em raiva contra o abuná. Este foi m andado prender pelo rei, e as
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m esquitas que perm itira, destruídas.
Devia ser um com plicado ofício o do abuná. Chegava a um país de costum es desconhecidos, cuj os vários idiom as ignorava e só com o tem po iria dom ar. Tinha de ter presente que os seus, no Egito, estavam sob o j ugo do sultão e que tudo que fizesse podia ter consequências sobre eles. Era pastor de um novo rebanho, m as não podia esquecer o aprisco do qual saíra. Tendia, por isso, a ser um harm onizador. A procurar conter os entusiasm os anti-islam itas dos abexins. A favorecer o entendim ento e a cooperação. O seu lim ite de atividade pacificadora era, entretanto, ditado pela intensidade do fervor abexim e pelas circunstâncias políticas de cada m om ento. Habitava a Etiópia e nela exercia o m inistério.
Não deixava, entretanto, de ser tranquilizador para os m oslins da Etiópia o saberem que podiam , em tem pos de aflição, contar com o apoio do Cairo, da m esm a form a que os coptas egípcios tiravam consolo das fanfarronices do negachi, quando este am eaçava, caso os cristãos fossem incom odados, destruir Meca ou desviar o curso do Nilo.
A sensação de que tinham arrim o externo nos com panheiros de fé devia ser especialm ente reconfortante para os m aom etanos, naquelas ocasiões em que a Etiópia cristã se fechava em si m esm a e, sentindo-se am eaçada, buscava, intolerante, a coesão religiosa.
Assim sucedeu durante e após a guerra generalizada dos m eados do século X. Dela saiu abalado o poder político do negachi, talvez exercendo apenas um a soberania sim bólica sobre num erosos pequenos principados, cuj os destinos reais não governava. Reduzira-se a área do estado cristão e de sua zona de influência. Perdera ele aliados e vassalos. E ao seu redor, vira fortalecerem -se os pagãos e se m ultiplicarem os m uçulm anos.
Para vencer o assédio e o isolam ento, os abexins apegaram -se ao passado e ao que os distinguia inteiram ente dos vizinhos: o cristianism o. A Igrej a etíope passou a encarnar a própria nação.
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Foi nessa época, com o acentua Taddesse Tam rat, que os cristãos abissínios
se autoidentificaram com o povo escolhido do Velho Testam ento. Tinham -se pela segunda gente de Israel, que, ante Deus, substituíra a prim eira, por haver esta rej eitado o Messias.
Com eçaram , então, a recolher nos antigos textos bíblicos os exem plos que sistem aticam ente im itavam , na organização e aparência do estado, nas form as do culto, nos m odos de vida sociais e caseiros. E a estabelecer linhas diretas de descendência e herança entre o povo j udeu dos Livros Sagrados e a nação etíope,
pretensa depositária da Arca da Aliança. 20
Esta — conform e as lendas que receberiam m ais tarde roupagem histórica no Kebra Negast, ou Glória dos reis — teria sido roubada e trazida da Palestina para a Etiópia pelos com panheiros de Menelique, o filho de Salom ão e da rainha de Sabá, reclam ado com o ancestral pelos reis da Abissínia. Havia fam ílias, preponderantem ente form adas por padres m onofisistas, que reivindicavam descender de vários sum os sacerdotes de Israel, assim com o alguns povos abexins se confundiam com as 12 tribos bíblicas. No m onte Sião, em Jerusalém , guardara-se a Arca da Aliança. Sião cham ar-se-ia, a partir do século XIV, o reino cristão da Etiópia.
O convívio com o Velho Testam ento e a fidelidade ao seu texto vinha, porém ,
de m ais longe. 21 E im prim iam feições peculiares ao cristianism o etíope, o qual, ainda que recebesse seus bispos do patriarca alexandrino, m antinha tradições próprias, em m atéria de doutrina e liturgia, que o diferenciavam da Igrej a copta. Os abexins consideravam , por exem plo, im prescindível a circuncisão. Favoreciam a poligam ia, apoiados nos relatos bíblicos. Seguiam rigorosas prescrições de dieta e de lim peza ritual, sem elhantes às de uso entre os j udeus.
A convicção de que eram o novo povo escolhido fez a fortaleza dos etíopes. Não dem orou m uito para que voltassem a ser im portantes supridores do com ércio a distância, cuj as linhas haviam regressado ao m ar Verm elho, graças ao deslocam ento do centro de poder árabe para o Cairo.
Disso tam bém se beneficiaram os m uçulm anos, que, após se espraiarem pelas planícies a leste das terras altas da Abissínia, desde a Eritreia até a grande curva do rio Awash, com eçaram a form ar os prim eiros principados de m ercadores, de todo independentes dos régulos locais, na parte oriental do planalto de Xoa.
Os progressos islam itas coincidiram com um novo período de expansão e conquista dos abexins. Em 1128, j á lindavam estes com os m uçulm anos na orla oriental de Xoa. E invadiram “a terra de Wargih”, m as foram dali expulsos, com o diz a prim eira notícia, que se conhece, de choques arm ados entre cristãos e adeptos de Maom é, no sudeste da Etiópia.
Novam ente poderoso, chefe de um estado a que voltara a riqueza, o negachi retirava o grosso de suas forças das regiões circunvizinhas, sobretudo dos difíceis planaltos de Lasta e Wag, entre os rios Selleri e Tacazé. Ali viviam os agôs, grupos desde havia m uito cristianizados, m as que conservavam o idiom a cuxita e provavelm ente o essencial de sua antiga cultura.
O avanço para o sul do reino etíope trouxe os agôs para o centro dos acontecim entos políticos. Passaram a servir diretam ente ao negachi, com o soldados ou cortesãos, e a se casar nas fam ílias nobres de ascendência axum ita. Ao longo do tem po, o poder de seus chefes não cessou de crescer.
Pouco antes de 1150, um general agô, Mera, Merara ou Morara, de Bugna, em Lasta, levantou-se contra o sogro, o últim o rei axum ita, e o m atou. Assim narra
um a tradição 22 o acesso ao trono de um a nova dinastia, a dos Zaguês. Outras negam qualquer vínculo fam iliar entre Morara e os antigos soberanos: teria havido sim ples usurpação do poder por gente de outro sangue. A versão recolhida
pelo padre Pero Pais, 23 no fim do século XVI ou início do XVII, conta-nos que, ao falecer o negachi Delnaode, tam bém de nom e Arm á, deixou com o aio do filho pequenino e com o regente um senhor m uito poderoso, de nom e Zaguê. Morto o m enino, continuou o tutor a governar com o dantes, m as sem querer fazer-se rei. Teria sido seu filho, quando ele se finou, quem , da posição de poder que j á detinha, se apoderou do trono.
Há um outro possível enredo. 24 Um a das inscrições num trono de pedra em Axum refere-se ao conflito entre o hadani Daniel e o rei axum ita. Aquele tinha este por vassalo — e j á recebera esta suserania na herança do pai. A tentativa axum ita de reconquistar a independência era considerada, na inscrição, com o ato de rebeldia. Pode depreender-se daí que em Axum continuava a haver um negus, m as que tinha deixado de ser o centro do estado etíope. Este possuía outra capital e seu chefe usava o título de hadani, hati, hatsani ou hade. Com o o usariam os negachis zaguês.
Hadani quer dizer “protetor”, “alim entador”. Provém da raiz “hdn” — “dar de
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com er”, “alim entar”, “abraçar”. Kobishchanov sugere que o título correspondesse inicialm ente a um nobre que seria encarregado — j á que o rei não poderia, por m otivos rituais, tocar os alim entos com suas m ãos — de dar de com er ao soberano. Com o tem po, esse titular cresceu em im portância e em poder até tornar-se superior ao negachi. A explicação é engenhosa e sedutora, m as não seriam “protetor”, “alim entador”, “provedor” adj etivos que norm alm ente se dariam a um rei?
Se com o hadani Daniel ou seu pai com eçou a dinastia Zaguê, esta teria assum ido o poder desde o fim do século IX — ou m esm o m uito antes, j á na
prim eira m etade do século VII.26 Sua perm anência no trono não teria sido de apenas uns 150 anos, com o queria Conti-Rossini, m as de m ais de trezentos. Os
dois períodos de duração figuram , aliás, nas tradições etíopes. Pero Pais27 adverte que os etíopes “dizem q faltão m uitos e q isto trahe a verdadeira conta”, que seria de 340 anos.
Quem sabe se o episódio em que se j untam os nom es de Delnaode e Morara não m arcaria apenas o acesso dos Zaguês, que j á tinham desde m uito o controle do verdadeiro centro de poder da Etiópia, ao trono tradicional, enfraquecido e vassalo de Axum ?
De qualquer form a, não há indícios de que a substituição da estirpe de Axum pela dinastia Zaguê tenha provocado grande com oção no país. Houve certam ente resistência. Um a resistência talvez conduzida, no m om ento em que Morara
assum iu o poder, pelo abuná28 e pelo clero. Mas a luta arm ada não deve ter sido m aior do que a costum eira, em cada episódio de sucessão real, entre príncipes rivais. Os agôs j á deteriam o prático controle do estado, quando lhe ocuparam o trono.
A m udança de dinastia gerou, contudo, inevitáveis ressentim entos. E estes só aum entaram à m edida que a nobreza sem ita foi sendo apartada dos cargos e das honras do im pério em favor dos agôs, da gente de Lasta, dos hom ens de Bugna.
Tam bém na Igrej a se sentiam as consequências da política de engrandecim ento dos cuxitas às custas dos sem itas. O clero agô conquistava as m elhores posições da hierarquia, enquanto que os m osteiros m ais antigos eram negligenciados pelos Zaguês, que cobriam de donativos e favores centros m onásticos outrora m uito m enos im portantes, com o Debra Líbanos de Shim ezana. Este m osteiro, controlado por sacerdotes de confiança da nova linhagem , transform ou-se num quase incontrastável centro de poder eclesiástico no sul da Eritreia.
As m ágoas e as queixas de parte da clerezia não chegam a ensom brear a profunda e obstinada devoção dos Zaguês. Todos estes reis dos reis — Morara,
f g h
Tentauidim , Iem ereana-Cristos, Harbé, Lalibela, Neacueto-Leabe e
Ietbarequei — dedicaram -se zelosam ente a expandir a fé e a reconstruir em terras abissínias a glória de Jerusalém .
Iem ereana-Cristos foi ele próprio sacerdote. Ordenara-se antes de subir ao trono e, rei, continuou a rezar a sua m issa. Dele se sabe que m andou no final do período fatím ida do Egito e no início do dom ínio dos aiubidas. E que deve ter sido o prim eiro dos Zaguês a devotar-se com afinco à construção de igrej as talhadas na pedra. A ele atribui-se a que tem o seu nom e, nas proxim idades de Adefa — a nova capital, em pleno Bugna.
Perto de Adefa, seu prim o, o rei Lalibela, m andou escavar na pedra um dos m ais extraordinários conj untos de tem plos que se conhece. Tão extraordinário que o padre Francisco Álvares, ao gastar algum as páginas de sua Verdadeira
inform ação das terras do Preste João das Índias29 a descrevê-lo, tem eu que se tom assem suas palavras por patranhas, que não se desse fé ao que por duas vezes calm a e detidam ente vira.
Lalibela — diz-nos o sacerdote português — quer dizer “m ilagre”. Porque, desde o berço, recebeu os sinais de escolhido. Ao nascer, as abelhas cobriram o seu corpo “e o alim param sem dano nenhum ”. E a tradição nos conta que foi, antes de sua investidura com o rei, levado pelo ar até Jerusalém , onde Jesus lhe apareceu, m ostrou-lhe os lugares santos e as igrej as que ali se erguiam , instando-
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lhe que as reproduzisse na Etiópia.
As igrej as são 11. No local que tom ou o nom e do rei, m as dantes se cham ava Roha. Devem datar do início do século XIII, pois se tem com o certo que pelo m enos entre 1205 e 1225 Lalibela era o negachi da Abissínia.
Um rio — cham ado Jordão — corre entre duas colinas. Num a delas há seis tem plos, entre os quais o do Gólgota, onde num a capela se reproduz o Santo Sepulcro. No outeiro defronte, ficam quatro outras igrej as. E a undécim a está separada das dem ais.
Dizem os antigos textos etíopes que a construção durou 24 anos. E afirm a a lenda que nela intervieram anj os, a trabalhar à noite. O certo é que representam a culm inação de um longo itinerário arquitetônico, que vem das construções subterrâneas de Axum e passa pelas inacessíveis igrej as, recortadas na rocha, do Tigrê.
Em Lalibela, os tem plos não surgiram com o acréscim o e a j unção de m ateriais. Mas cortando-se, cavando-se, desbastando-se a pedra viva, para nela esculpir a igrej a inteira, com abóbadas, naves e abside, pilares, arcos, j anelas, degraus, cornij as e frisos. Os que os fizeram não erguiam volum es sólidos, com o os dem ais arquitetos; criavam espaços vazios. Com todos os ingredientes das basílicas m editerrânicas e de outros santuários cristãos.
Eis a igrej a de São Jorge. Vista do alto, é um a grande cruz grega a superfície plana do telhado, sobre a qual se desenharam , um a dentro da outra, duas cruzes em relevo. Esse bloco de pedra cruciform e m ergulha num am plo vão quadrado que se escavou na rocha. Lá em baixo, em nível m uitos m etros inferior ao solo da colina, está o chão da igrej a. Ela é, portanto, subterrânea, m as se destaca, na espaçosa cavidade, com o um edifício com pleto, com as 12 paredes exigidas por sua planta em cruz, do resto da rocha que, a certa distância, o enquadra.
É difícil ver de longe o tem plo. Pois a sua parte m ais alta quase coincide com a superfície real do terreno onde o cortaram . De perto, é com o um a larga torre que, afundada, fosse erguer-se na savana circundante.
Em São Jorge, predom inam os traços retos e os ângulos: das im itações de traves salientes que cortam , para ornam entá-las, no sentido horizontal, as fachadas; da porta de entrada, que ressalta da parede; das falsas j anelas da parte inferior; do soco em degraus de que se eleva a igrej a, esculpida num só bloco de pedra. Na sobriedade do conj unto há elem entos de graça e voo: as j anelas superiores, ogivais, cuj as m olduras delicadas vão term inar, ao alto, num desatar de volutas e num a cruz.
Há fachadas de igrej as m ais elaboradas. Percorridas por sequências de arcos. Interrom pidas por aberturas em form a de fechadura, de cruz grega ou de suástica. Mas são todas sim ples, quando com paradas aos interiores, com colunas, arcos e abóbadas cobertas de cruzes, laços, palm as, rosetas, estrelas de David, círculos entrelaçados, volutas, ziguezagues, espinhas de peixe, m otivos florais, tudo lavrado na pedra e pintado por cim a. E nas paredes — e são notáveis as das igrej as de Santa Maria e São Mercúrio — espalham -se as im agens de santos e anj os e as cenas bíblicas, expressas num dialeto de Bizâncio, em tudo sem elhante ao que se deu o nom e, no Ocidente europeu, de rom ânico. A precisão e a nitidez do contorno das figuras, o dram atism o hierático de algum as delas e a ingenuidade anedótica de outras aproxim am -nas da pintura catalã dos séculos XII e XIII. Foi, aliás, por essa época que se com eçaram tam bém a pintar, e de form a sem elhante, as igrej as escavadas na rocha, no Tigrê. Algum as das pinturas em pilastras e arcos desses últim os tem plos — note-se de passagem — quase poderiam ser intercam biadas pelas do Panteão Real de Santo Isidoro, em León.
Igrej a de São Jorge, em Lalibela, Etiópia
Os santuários de Lalibela dão prova do intenso fervor religioso da Etiópia sob os Zaguês. Era essa confiante fé que fazia com que cada abissínio aspirasse a rezar na própria Terra Santa. O volum e de peregrinos que a dem andavam aum entou sobretudo depois que Saladino, em 1189, expulsou os cruzados de Jerusalém e entregou aos etíopes a igrej a da Verdadeira Cruz.
Lá iam eles, Egito acim a, em grupos de m ilhares de pessoas, a cantar, a rufar tam bores e a acenar bandeiras. Bem m enor era o núm ero dos que regressavam : os que conseguiam escapar das doenças, das tribos inim igas, dos bandidos e dos m ercadores de escravos.
Os Zaguês foram possivelm ente arcaizantes. Devotos dos costum es antigos, colhiam seus exem plos no passado e buscaram restaurar, em Adefa, a grandeza de Axum . Na época deles, não floresceram apenas a arquitetura e a pintura, m as tam bém a escultura e a ilum inação de livros. Iniciou-se igualm ente um forte m ovim ento de criação literária, cuj o auge m arcará os séculos XIV e XV.
Seus exércitos eram num erosos. Em 1209, Lalibela contava com sessenta m il soldados a cavalo, aos quais se devem som ar os criados e aj udantes que, a pé, os
seguiam . 31
Com suas tropas, provavelm ente enquadradas por contingentes agôs e chefiadas por hom ens bons de Lasta, os Zaguês continuaram , com novo ím peto, a expansão para o sul, pelo Xoa, pelo Goj am , pelo Dam ote. Ao m esm o tem po, delas se serviam para reprim ir qualquer tentativa de rebelião por parte dos insatisfeitos sem itas, e para garantir o acesso às vias caravaneiras entre o sul da Etiópia e o porto de Zeila, pelas quais, desde a m etade do século XIII, passaram a se escoar as exportações abissínias, com os consequentes declínio e desuso das rotas de Dahlak.
Muitas vezes, essas tropas estavam em penhadas nas longas guerras civis que acom panhavam invariavelm ente a sucessão dos reis zaguês. Com o todos os príncipes tinham igual direito ao trono, irm ãos, filhos e sobrinhos, organizados em partidos, disputavam pelas arm as o poder, tão logo falecia o rei, ou m esm o, frequentem ente, com este ainda em vida.
Morara passara o m ando a seu filho Tentauidim . Mas um sobrinho deste, Iem ereana-Cristos, lhe sucedeu. Um prim o de Iem ereana, filho do irm ão m ais j ovem de Tentauidim , seguiu-se no trono, Harbé. Seu direito foi contestado por um irm ão, Lalibela, que, após m uitos anos de exílio e clandestinidade, o venceu, o hum ilhou e o substituiu com o negachi. O sucessor de Lalibela será um filho de Harbé, Neacueto-Leabe. Por pouco tem po, porém , pois foi deslocado do poder pelo prim o Ietbaraque, filho de Lalibela.
As lutas sucessórias não só dividiam e desgastavam as forças zaguês, m as tam bém perm itiam que seus adversários das nobrezas tigrina e am árica, aliando-se a um ou outro partido, procurassem delas tirar vantagens políticas e econôm icas. E tam bém m ilitares, com o o controle de certas áreas de grande im portância estratégica.
Participantes das guerras civis e com contingentes arm ados próprios, os inim igos dos Zaguês só esperavam a ocasião oportuna para se im por sobre um adversário enfraquecido. O m om ento surgiu m al findara o conflito entre Neacueto-Leabe e Ietbaraque.
Durante todo o período da dinastia dos agôs, os sem itas não haviam deixado de conspirar contra ela. Opunham -lhe, sem pre que possível, resistência. As grandes fam ílias de Tigrê e de Am ara, aliadas aos m onastérios tradicionais, com o os de Axum e Debra Dam o, alim entavam a luta clandestina contra os usurpadores zaguês, contra os neguses ilegítim os, que não eram “israelitas”, que não descendiam do rei Salom ão e de Magda, a rainha de Sabá.
Sintom aticam ente, diz-se que o prim eiro texto que dava form a escrita a essa tradição com eçou a ser conhecido na Etiópia, em língua árabe, em 1225. No tem po de Lalibela, portanto. Mas não se consentiu, então, que fosse vertido para o gueze ou outro idiom a etíope, por considerar-se o Kebra Negast contrário à
linhagem no poder. 32 E com o tal os adversários dos Zaguês o utilizaram .
A pregação contra a dinastia reinante fazia-se de form a encoberta ou dissim ulada no Tigrê. Mas assum ia possivelm ente feição m ais franca entre os am áricos, em especial os que viviam no norte do planalto de Xoa, sobre os quais era m enor a vigilância dos agôs.
Os am áricos tinham -se transform ado nos pioneiros da colonização do sul. A eles estava confiada a proteção da fronteira — um a fronteira, de resto, m óvel e im precisa — contra as possíveis investidas dos novos centros de poder m uçulm ano que surgiam e se consolidavam , com o Xoa e Ifate, a sudeste da Etiópia cristã, e que tam bém aspiravam a expandir-se pelos territórios dos pagãos.
Nas zonas de contatos entre os três grupos religiosos podia haver conflitos. A regra, todavia, parece ter sido, por m uito tem po, a cooperação. Pelos dom ínios am áricos passavam os cam inhos que ligavam Adefa às rotas caravaneiras islam itas e ao porto de Zeila. E os interesses dos chefes am áricos tendiam a coincidir com os dos m aom etanos, form ando-se até m esm o alianças m ilitares
entre eles. Iecuno-Am elaque,j que derrocou os Zaguês, tinha na sua cavalaria m uitos m uçulm anos, que deviam gozar de sua confiança e de sua proxim idade, a j ulgar-se por um a pintura em que ele aparece sentado no trono e cercado por
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m oslins e por escravos.
O com ércio enriqueceu os grandes senhores am áricos. Aum entou-lhes o poder político. Fortificou-os m ilitarm ente. Eles podiam arm ar e m ontar a cavalo grande núm ero de soldados, m uitos trazidos dos reservatórios de cativos que eram as tribos sidam as, m ais a sudoeste.
Quando se desatou a luta pela sucessão entre o sobrinho e o filho de Lalibela, vários chefes am áricos tom aram o partido de Neacueto-Leabe. Entre eles, um certo Iecuno-Am elaque, o qual, vitorioso Ietbaraque, foi por este aprisionado. Logrou, porém , escapar da m asm orra e acender a revolta entre os am áricos e as com unidades cristãs de Xoa.
Iecuno-Am elaque seria, segundo diz a tradição, um descendente do últim o rei de Axum , destronado por Morara. É possível que tenha, desde o início da revolta, esgrim ido sua linhagem salom ônica, para contrapô-la à apregoada ilegitim idade zaguê. Não é de excluir-se, entretanto, que esta sua condição só haj a sido posta em relevo quando j á consolidara o poder sobre um reino próprio, que com preendia Am ara e o norte de Xoa.
Ali, a antiga m onarquia salom ônica foi pretensam ente restaurada. E dali, sob as bênçãos do clero, sairiam as tropas para dar com bate ao Zaguê usurpador. Delas deviam fazer parte renitentes sequazes de Neacueto-Leabe e a elas se som ariam , à m edida que avançavam , m uitos dos descontentes com a preponderância agô.
A guerra deve ter sido longa. E prosseguiu m esm o depois que Ietbaraque, em 1268, foi m orto em com bate. Pois as tropas zaguês se retiraram de Lasta para o Tigrê e m ontaram forte resistência em torno de um novo rei, Dilanda. Dois anos depois, porém , Iecuno-Am elaque dom inava a situação em toda a Etiópia. De seus adversários restavam apenas grupos de guerrilheiros e alguns chefes m ilitares recalcitrantes, em baluartes nas m ontanhas.
Muitas tribos de Lasta, fiéis aos Zaguês, foram dispersas ou transferidas para regiões distantes. Outras deslocaram -se para o extrem o norte, fugindo ao vencedor. A m aioria foi reduzida à servidão, após ver assoladas as suas terras e confiscados seus rebanhos e bens.
Iecuno-Am elaque apressou-se em apear das posições de m ando e prestígio os hom ens de Bugna e todos aqueles que, em Lasta, no Tigrê ou em outras partes do reino, haviam dado apoio aos Zaguês. Substituiu-os por m em bros das antigas nobrezas locais ou por chefes m ilitares que se haviam distinguido durante a luta. Alguns deles cedo am pliariam suas áreas de poder, com o o governador de Interta, Ingida-Igzi, cuj a liderança se estendeu por todo o Tigrê.
Para atar fidelidades, o rei dos reis dispunha de um recurso m uito efetivo: a
distribuição de feudos.34 Aos m onastérios, ao clero, aos com andantes m ilitares, aos funcionários e aos cortesãos entregava grandes tratos de terras e os hom ens que neles viviam e trabalhavam . Os senhores dessas terras não tinham delas a propriedade, pois ao negachi pertencia todo o território do reino. Delas retiravam , entretanto, sob form a de tributos em espécie ou de serviços pessoais, tudo aquilo de que necessitavam .
Os cam poneses estavam ligados ao feudo, ou gult. Deviam obediência e trabalho ao senhor, a quem entregavam parte da colheita, e tecido feito em casa, e m el, e sal, e cabeças de gado. Tinham , quando cham ados, de incorporar-se às tropas com que cada nobre ia engrossar os exércitos do rei.
O detentor do gult representava o negachi e, em nom e deste, exercia quase todas as funções de poder. Era, dentro do feudo, senhor absoluto. Após sua m orte, porém , as terras e os servos que recebera voltavam ao trono. Pelo m enos, de início. Pois, m ais tarde, consolidada a nova dinastia, cristalizaram -se as classes dirigentes e os gults se fizeram hereditários.
As doações de terras aos m osteiros tendiam na prática a ser perm anentes — e, na Etiópia, a Igrej a dispôs sem pre de enorm es extensões de terreno, trabalhadas pelos próprios m onges e por incontável núm ero de servos. Além disso, na época de Iecuno-Am elaque, convivia com o sistem a do gult um outro tipo de posse da terra, fam iliar, que passava de pai para filho. Cham ava-se rist esse feudo, só existente nas áreas m ais antigas do reino, e fora, em seu com eço, provavelm ente do m esm o tipo do gult.
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Form ara-se, portanto — e nisto, afirm a Jack Goody, a Etiópia foi um a
exceção em toda a África —, um a estrutura social de tipo sem elhante ao feudalism o europeu. Um cam pesinato am arrado à terra sustentava a Igrej a secular e m onástica e um a nobreza que exercia as funções civis e m ilitares e era tam bém um a classe ociosa, no sentido que a esta expressão dá Thorstein Veblen.
A ascensão de Iecuno-Am elaque não representou apenas a m udança dos donos do poder. Causou um corte cultural na longa tradição de Axum , que os cuxitas da linhagem Zaguê se haviam esforçado em preservar e prosseguir, com a m aior fidelidade possível. Os restauradores da dinastia salom ônica, certos de que possuíam a legitim idade do sangue, não tinham , talvez por isto m esm o, a preocupação de resguardar as form as artísticas e a cultura axum ita. Mantiveram os rituais do estado, m as os im pregnaram de gestos trazidos de Am ara. E de Am ara seriam os costum es da corte.
Esta não tinha m ais lugar fixo. Axum e Adefa — cidades de sólidas casas de pedra — foram substituídas por um a capital itinerante, um cam po de tendas
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ordenado em círculos concêntricos. Sua disposição era sem pre a m esm a, onde
quer que estivesse, para onde a levassem as necessidades de abastecim ento ou defesa.
Procurava-se, para assentá-la, um a cam pina am pla, em que coubessem todas
as tendas 37 e onde houvesse “agoa bastantte pero o exercito e erua pera as
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m ullas e cavallos e j um entos de carga”. Na parte m ais alta do prado, plantava-
se a tenda do rei, que era o centro da capital, e j unto a ela se erguiam as de seus paj ens íntim os. Ao redor da tenda real, havia um a cerca de cortinas, com 13 portas, guardadas por soldados de absoluta confiança. Só se podia chegar ao recinto com a aquiescência do negachi e entrando-se pela porta própria, pois cada um dos 13 ingressos se destinava a determ inados m em bros da corte.
Esta era, portanto, m uito estratificada. E traía suas origens tribais, ao estar dividida rigorosam ente em m etades.
A porta principal era a do soberano. À sua direita, seguindo a circunferência, ficavam seis entradas, e à esquerda, as dem ais. Igual arranj o tinham os acessos de um a cerca m uito m aior, e fortificada, que envolvia, concêntrica, o círculo da tenda real. Em suas 13 portas, dispunham -se 13 m il soldados.
No am plo espaço entre os dois aros, achavam -se as tendas do tesouro real e as habitações da m ãe e das esposas do rei, bem com o os aloj am entos dos que as guardavam e serviam .
A tenda da rainha-m ãe arm ava-se na posição oposta à da porta principal. E desta para aquela, passando pela m orada do soberano, traçava-se a reta que dividia o anel em duas partes. Num a das m etades ficava a rainha da esquerda. Na outra, a da direita e, quando esta havia, um a terceira m ulher, a esposa m ais j ovem da direita.
Do m esm o lado, erguiam -se tam bém as tendas do abuná e do acabéseat, o cabeata ou abade do m onastério de Debra Hay q. Em cada um a das m etades m orava um dos dois principais chefes m ilitares do reino. E nelas havia várias igrej as, tam bém em tendas, igrej as cuj as pedras de altar acom panhavam o rei em seus deslocam entos.
A divisão em direita e esquerda prolongava-se fora do círculo fortificado. Em posições sem elhantes às daqueles a que deviam vassalagem ou obediência, dispunham -se, no espaço aberto, clérigos, cortesãos, tropas, servidores e escravos. De cada lado, havia um a corte de j ustiça e um a prisão. No m eio, erguia-se a igrej a da Justiça, em cuj a frente se punha a j aula com os quatro
leões que, atados a fortes cadeias, viaj avam com o rei dos reis. 39
Com os grandes do reino vivendo em tendas, era natural que a arquitetura etíope sofresse retrocesso. Ainda se construíram um as poucas igrej as de pedra — o próprio Iecuno-Am elaque teria m andado escavar na rocha o Tem plo de Genete Mariam , nas proxim idades de Lalibela —, m as os prédios de plantas redondas, característicos dos am áricos, rapidam ente suplantaram as edificações retangulares. Os m osteiros, em vez de serem , com o outrora, erguidos ou talhados à beira dos penhascos, organizaram -se em conj untos de casas de form a cilíndrica, de pedra e barro, com cobertura de palha.
O em pobrecim ento arquitetônico contrasta com o grande im pulso e a renovada expansão que experim entou o m onasticism o na Etiópia, a partir da segunda m etade do século XIII. Este renascer do espírito de São Pacôm io com eçara ainda sob os Zaguês e pode ser datado da fundação, cerca de 1248, do m osteiro do lago Hay q por Jesus Moa e um grupo de discípulos.
Debra Hay q e seu santo abade logo com eçaram a atrair noviços das fam ílias cristãs de Am ara e do norte de Xoa. E m uitos daqueles que se confirm aram na vocação religiosa dali saíram para form ar suas próprias com unidades m onásticas, em áreas que eram apenas superficialm ente cristianizadas ou de todo pagãs.
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O grande continuador de Jesus Moa foi Tacla Haim anote, ou “Planta da Fé”, a
quem depois santificaram .40 Nasceu por volta de 1215, em Silalish, no atual distrito de Bulga, em Xoa. Desde cedo, pertencendo a um a fam ília de sacerdotes, foi encam inhado para a carreira clerical. Juntou-se, quando j á tinha m ais de trinta anos de idade, a Debra Hay q e ali deve ter solidificado seus conhecim entos da doutrina cristã, da história da Igrej a etíope e das regras e tradições m onásticas. Após nove anos no lago Hay q, partiu para o Tigrê, instalando-se no antiquíssim o m osteiro de Debra Dam o, onde se form ara o próprio Jesus Moa.
Nesse lugar e por essa época, aproxim aram -se dele os prim eiros discípulos. Com alguns, voltou a Debra Hay q e ao convívio de Jesus Moa, que o teria induzido a regressar à terra natal, a pregar a fé.
Tacla Haim anote chegou a Xoa vestido de saber e santidade. Seus conterrâneos devem tê-lo ouvido com atenção, respeito e entusiasm o. E a seu grupo — que com ele andava de um a cidade para outra — logo se som aram novos seguidores.
As com unidades cristãs de Xoa tinham de sua religião apenas as noções essenciais. Com o o resto da Etiópia, eram servidas por um clero secular m al preparado e ordenado aos m agotes — a ser verdadeiro o que conta o padre
Francisco Álvares 41 —, um clero que pouco m ais sabia do que cum prir sofrivelm ente os ritos litúrgicos e ler ou recitar algum as passagens da Bíblia. O ofício de padre transm itia-se de pai a filho e era rem unerado pelo poder público.
No sul do país, não havia, com o elem ento corretor, a presença dos m osteiros. Os m onges eram m uito m ais instruídos do que o clero secular e, celibatários, dedicavam todas as horas da vida à prece, à m editação e à caridade. Gozavam , além disso, de am pla independência em relação ao estado, pois se m antinham com o trabalho próprio e com os produtos de suas terras.
A indigência religiosa de Xoa deve ter inquietado e confrangido Tacla Haim anote. E tam bém o estim ulado a fundar, por volta de 1284, o que viria ser o fam oso m osteiro de Debra Asbo. Ele e os 15 discípulos de que fala a tradição instalaram a nova com unidade num a pequena caverna, escondida num a fraga, nas m ontanhas a nordeste de Silalish.
Os com eços de Debra Asbo — que, m ais tarde, passaria a cham ar-se Debra Líbanos — foram sem elhantes aos de outros cenóbios que então e depois se criaram . Um grupo de m onges, desej oso de espalhar a fé pela oração e pelo exem plo, instalava-se num lugar inóspito ou de difícil acesso, não m uito longe de agrupam entos cristãos. A estes e aos pagãos procurava atrair pelo ascetism o e a santidade. No início, os m onges viviam dos frutos e raízes selvagens. Depois, à m edida que a com unidade crescia, dos roçados que se iam m ultiplicando ao redor do convento.
Muitas dessas com unidades não chegaram a prosperar, destruídas pela hostilidade dos pagãos. Outras cedo ganharam fam a, a elas acorrendo pobres e aflitos, em busca de crença, consolo e aj uda. Ou do m ilagre.
Um forte vínculo form ava-se entre o m osteiro e as populações circunvizinhas. Naquele, crescia o núm ero de noviços. Nestas, consolidava-se a fé. Pela catequese ou pela im itação, os grupos pagãos m ais próxim os acabavam por se converter ao cristianism o.
O renovado entusiasm o pela vida m onástica, num a região de zelosos recém -convertidos, perm itiu que, ainda durante a vida de Tacla Haim anote, m uitos de seus seguidores deixassem Debra Asbo, para ir fundar, em outras partes, novos m osteiros. Estas novas com unidades não se desligavam de todo da casa-m ãe, a cuj o espírito e doutrina perm aneciam fiéis.
Ao m orrer Tacla Haim anote, em 1313, o planalto de Xoa estava virtualm ente conquistado pelo cristianism o. Em sua orla e em suas encostas orientais, bem com o nas am plas áreas que se estendiam até o m ar Verm elho e o golfo de Aden, havia-se im posto, contudo, o islam ism o.
Ali surgira um a série de estados m aom etanos. E estes eram : o sultanato m azum ita de Xoa; e acim a dele, o de Ifate; e m ais para leste, vários principados na região de Harar; e no divisor de águas entre o alto Awash e o alto Shebele, Dauaro; e para oeste, Xarca; e ao sul do Shebele, Bali. Além de Xarca e Dauaro, ficava Hadia — fam oso centro exportador de escravos eunucos —, onde o islão com eçava a influir. No sudoeste do planalto de Xoa, o poder pertencia ao rei pagão de Dam ote.
O Dam ote pagão era o m ais antigo desses estados. Depois dele vinha o
cham ado sultanato de Xoa,42 governado, conform e a tradição, desde o fim do século IX por um a dinastia que se tinha por originária de Meca, cham ada Mazum ita. Se essa linhagem fora algum a vez m ais do que a prim a inter pares num a confederação de pequenos principados islam itas, ela perdera, durante o período zaguê, o controle da unidade do estado, que se desm em brara em vários centros de poder rivais, a perm anentem ente se guerrearem pelo dom ínio do com ércio. Disso aproveitou-se Ifate — que ficava num sítio elevado, em terras férteis que recebiam chuvas todas as noites e nas quais os habitantes plantavam
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cana-de-açúcar e banana — para, sob a liderança de Om ar Ualasm a, que reivindicava descender da fam ília de Maom é, expandir sua influência e seu poder sobre a rota de cáfilas que ia de Zeila até Am ara e Lasta.
Após um a série de intervenções nas lutas dom ésticas dos m uçulm anos de Xoa, Ifate acabou por anexar, em 1285, o território do antigo sultanato, consolidando sua vitória com o m assacre de todos os príncipes m azum itas.
Não é provável que o rei abexim tenha assistido im óvel aos conflitos entre os principados islam itas de Xoa, vizinhos im ediatos da nova fronteira dinâm ica da Etiópia. Há sinais de que Iecuno-Am elaque se introm eteu desem baraçadam ente nas disputas entre os m azum itas, aliando-se a uns, com batendo outros e procurando a todos debilitar. Ao m esm o tem po, buscava im pedir que o soberano de Ifate lograsse pôr sob um a só m ão todos os m uçulm anos im ediatam ente a leste dos dom ínios cristãos em Xoa.
No m esm o ano da vitória definitiva de Om ar Ualasm a sobre os m azum itas, m orria Iecuno-Am elaque. Não houve, por isto, reação im ediata a um êxito político-m ilitar de Ifate que causava dano ao proj eto etíope de controle das rotas com erciais e punha em perigo a expansão m eridional abexim . Na realidade, tanto os m uçulm anos quanto os cristãos tinham o m esm o obj etivo de estender o poder e a influência sobre as regiões ao sul e a oeste do alto Awash, de onde provinha o grosso dos escravos, e tam bém m arfim , e peles, e ouro.
O sucessor de Iecuno-Am elaque, seu filho m ais velho, Iagba-Sion,m não teve condições para continuar as políticas de conquista do Dam ote e de atrito com os m aom etanos, que constituíram o cerne da atividade externa do prim eiro rei da dinastia salom ônica “restaurada”. As fortes contestações ao seu direito ao trono obrigaram -no a voltar-se prioritariam ente para as questões internas e a fom entar a boa vizinhança com os islam itas. Teve ainda de conform ar-se em ver se firm arem no Tigrê, com o verdadeiros soberanos — em bora lhe prestassem hom enagem form al —, Ingida-Igzi e seu filho Tesfana-Igzi, governadores de Interta.
À véspera da m orte de Iagba-Sion, em 1294, ainda se produziam revoltas contra sua perm anência no trono. Com seu falecim ento, abriu-se um período de guerra civil entre os vários pretendentes, sucedendo-se, no curto espaço de tem po
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entre 1294 e 1299 — quando Uidim -Reade ascendeu ao poder —, cinco diferentes negus, nenhum dos quais reinou sobre todo o país.
A principal tarefa de Uidim -Reade — que era irm ão de Iagba-Sion — foi a de consolidar a dinastia e devolver a paz interna à Etiópia. Talvez tenha sido durante seu reino que se im pôs de vez o preceito de recluir no alto do m onte Guixém todos os m em bros m asculinos da fam ília real, exceto o negachi e seus filhos. Morto o soberano, subia geralm ente ao trono seu rebento m ais velho. Os dem ais eram logo aprisionados e conduzidos ao tope do m onte Guixém , para o qual havia um único acesso — um cam inho estreito e íngrem e que levava a um a só porta, onde se colocavam guardas de com provada lealdade. Dali era praticam ente im possível a fuga, pois das orlas da cum eeira do m onte caíam despenhadeiros verticais e profundos.
A instituição do cárcere real de Guixém reduziu consideravelm ente as cizânias que acom panhavam cada sucessão. Mas não as elim inou de todo. Em prim eiro lugar, porque, apesar da consolidação do direito da prim ogenitura, as principais disputas se travavam entre os filhos do rei m orto. Depois, porque, ainda que os irm ãos, os prim os, os sobrinhos e os tios do soberano estivessem afastados da corte e de suas intrigas, era im possível im pedir que a nobreza, o exército e o clero conspirassem em favor de algum deles. Se o soberano m orria sem sucessor direto, havia um consenso ou um a contenda na corte, do que resultava irem as tropas buscar no m onte Guixém o novo rei.
Os de sangue real eram cuidadosam ente guardados em Guixém . Ninguém ali subia sem expressa licença do negachi. Nem por suas portas passava o m enor recado ou carta sem conhecim ento e aprovação de alguns nobres que lá viviam , para cuidar de que nada faltasse aos príncipes e para vigiá-los. Com o bom exem plo do rigor com que atuavam , isto nos conta o padre Pero Pais: “Era tanto o q estes sugeitauão aos Príncipes q nem lhes deixauão fazer m udança no vestido ordinário; e assi, vendo hu delles a hu Príncipe vestido m ais curiosam ente do q se usaua, lhe deo hua bofetada, e reprehendeo asperam ente dizendo, q aquillo m ostraua bem q andaua com o coração inquieto e desej oso de rey nar; e fez-lhe tirar o vestido. Socedeo todauia q, m orrendo daly a pouco tem po o Em perador, foi aquelle Principe escolhido, o q vendo o q lhe deu a bofetada, se affastou cõ m edo, e vergonha do q tinha feito, sem se atreuer m ais aparecer diante delle; m as o Em perador, com o se vio em sua cadeira, o m andou cham ar; e vindo com grande m edo, se lhe lançou aos pees pedindolhe perdão do q com tão grande atreuim ento fizera. O Em perador m andou q se leuantasse, e fez trazer ricos vestidos, e hua m anilha d’ouro, e com palauras brandas lhe disse q não tiuesse m edo, q seruira m uito bem naquillo a seu señr, q se vestisse e pusesse aquela m anilha e tornasse pera seu m ando, porq esperaua q o havia de seruir a elle cõ a
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m esm a fidelidade, q tinha sem pre seruido a seu antecessor.”
Em Guixém ficava a gente de sangue real isolada do m undo. Mas não lhe faltava “m antim ento, pannos dalgodão, m anteiga de vacca, m el pera com er, e fazer vinho”, porque para ela estavam reservados os produtos de m uitas terras ao redor de Guixém , cuj os m oradores tinham ainda a obrigação de lhe fazer e
consertar as casas. 44 Dispunha de criados a seu serviço e de tam anho ócio, que m uitos dentre ela se notabilizaram com o estudiosos da religião, com o poetas em
gueze e com o com positores de m úsica sacra.45
Além de dar estabilidade à dinastia, coube a Uidim -Reade conter o avanço m uçulm ano na fronteira leste. Encoraj ados pelas divisões que, na Etiópia cristã, desde praticam ente o falecim ento de Iecuno-Am elaque, se aprofundavam em guerras intestinas, o sultanato de Ifate em penhou-se em am pliar seus dom ínios e sua área de influência no Xoa Oriental.
No próprio ano de 1299, em que Uidim -Reade se tornou rei, um xeque Muham m ad, tam bém cham ado Abu-Abdala, e que era provavelm ente vassalo do soberano de Ifate, reuniu num erosas tropas para dar início à guerra santa contra os cristãos. A cam panha não teve m aior êxito, em virtude das frequentes deserções em seu exército — provocadas em parte por agentes abexins, m as sobretudo pela inconstância e indisciplina das tribos pastoras que o form avam . Apesar disso, o xeque pôde negociar um a paz vantaj osa com os cristãos, que lhe cederam território para nele se instalar com seus seguidores.
Se, no início de seu reinado, Uidim -Reade não tivera forças para expulsar um invasor com o Abu-Abdala e se vira constrangido a pactuar com ele, depois, pouco a pouco, consolidou o poder m ilitar. E retom ou a iniciativa expansionista, para o sul e para o oeste, aj udado pelo novo espírito de zelo e catequese, difundido pelo renascim ento m onástico de Jesus Moa e Tacla Haim anote.
Quando, pela m orte de Uidim -Reade, em 1314, o trono passou para Ám eda-
o
Sion, o reino cristão da Etiópia estava de novo coeso dentro de suas fronteiras — am pliadas pelo norte do planalto de Xoa — e de novo se orientava para a aventura im perial.