A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 26 de 35

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A Enxada e a Lança

22. Benim

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Benim

 

Os edos ocupam , há m ilhares de anos, a região a oeste do Níger, lim itada, ao norte, pelas rudes colinas onde vivem os igalas e os igbirras; ao sul, pelas florestas e alagados dos ij ós e itsequíris; a leste, pelo país ibo; e ao poente, pelas terras iorubanas.

A área que habitavam era coberta de florestas, e nela se desenvolveram , ao

longo dos séculos, num erosos m iniestados — no conceito de Ade Obay em i1 —, cada um deles um grupo de vilarej os, sem capital urbana ou governo centralizado, com pequena população e dom ínio sobre escasso território.

O poder repousava nas linhagens, nos grupos de idade, nas associações de titulados e nas sociedades secretas, sendo inicialm ente o chefe de cada um desses m iniestados apenas um sím bolo da unidade do grupo. Com o tem po, deve ter-se am pliado, porém , a força desse chefe, o ovie ou ogie. E, desde cedo, as linhagens com eçaram a perder a im portância política, talvez em decorrência da abundância de terra em relação ao reduzido núm ero de habitantes. Os direitos ao solo deixaram de estar investidos nas fam ílias e se fizeram atributo da totalidade

de cada aldeia.2

O que viria a cham ar-se Benim era apenas um desses num erosos m iniestados edos, m uitos dos quais guardaram a independência até o século XIX.

Os trabalhos arqueológicos de Graham Connah3 revelaram , onde hoj e fica a cidade do Benim , a existência anterior de vários vilarej os, separados por m uros

de terra socada, com o se fossem favos de colm eia. 4 Com o aum ento populacional e o expandir das roças e das construções, verificou-se entre eles um a espécie de conurbação: as aldeias j untaram -se um as às outras, em bora cada qual procurasse m anter seu chefe e sua estrutura social.

Os m uros, m eândricos e intrincados, são baixos dem ais — alguns não chegam a dois m etros, em bora uns poucos atinj am dez — para terem todos função defensiva. Deviam dem arcar lim ites. E indicariam que a cidade se form ou pela j unção de diferentes viletas, que m antinham , enquanto possível, suas identidades,

m as acabaram por subordinar-se a um com ando central. 5 A m aioria dessas divisórias precederia a construção das duas m uralhas que envolvem a cidade, ou pelo m enos da interior, que se tem com o da m etade do Quatrocentos. A externa, m ais antiga, talvez date de antes do século XIV.

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Escavações posteriores, a cargo de Patrick J. Darling, m ostraram que a cidade atual ficava na periferia de um a das várias colm eias ou conj untos de

m uros entrelaçados,7 que cobrem um a área de cerca de 6.500km 2, nos dois lados do rio Ikpoba. Para esses 16.000km lineares de iy a (nom e dado pelos edos ao com plexo de divisórias de terra), o radiocarbono não nos deu senão seis datas:

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três m odernas e três antigas, um a para cada século entre o XIII e o XV.

Supõe-se que o m esm o processo de agregação responsável pela cidade do Benim se tenha repetido nas outras colm eias. Cada um a delas pode ter sido um m icroestado, com seu rei. Depois foram -se fundindo, por aliança ou conquista, a m ais forte im pondo-se sobre as dem ais. O adensam ento de alguns m uros, a conter um a rede de outros, m ais baixos ou m ais estreitos, contaria essa história e a da transform ação de aldeam entos contíguos em viletas, e de vilarej os em cidades e reinos. Tanto entre os que falavam o benim quanto entre aqueles que tinham por idiom a o esan ou ishan (tam bém pertencente ao grupo edo), a hierarquização dos vilarej os dentro das colm eias — com o chefe de um deles a centralizar, am pliar e aprofundar o seu poder — teve por sequência provável a com petição entre os vários m icrorreinos, cada qual procurando dom inar m ilitarm ente os dem ais e obter escravos para aum entar sua população e suas

tropas. 9

Sugere a construção dos iy as que existiam na área, antes do século XIV, autoridades suficientem ente fortes para orientar esse tipo de trabalho coletivo.

Essa im pressão robusteceu-se com a descoberta, 10 no fundo de um poço, na cidade do Benim , dos restos de 41 m ulheres sacrificadas ritualm ente. Os esqueletos datariam do século XIII e perm item inferir-se que a cidade j á seria então um im portante centro religioso — e talvez tam bém político. Mas não estaria isolada, pois Uroho, Idogbo, Irhirhi, Oka e Okhunm wun — para ficar em

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poucos nom es — com ela disputariam a prim azia.

Quem seriam os chefes que m andaram construir as prim eiras iy as do Benim e atirar em poços as vítim as im oladas? Talvez aqueles a quem a tradição cham a ogiso, ou “rei do céu”, ou talvez outros, que os precederam e cuj os títulos ignoram os.

A lista dos ogisos com eça com Igodo. Seu filho, Ere, teria criado as insígnias reais: a espada cerim onial, o tam borete, o leque redondo de couro, os colares e tornozeleiras de contas e um a coroa de decoração m uito sim ples. Teria tam bém favorecido os carpinteiros e os escultores no m arfim e na m adeira, com ele se iniciando o fabrico das cabeças de pau que se colocavam nos santuários dos

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ancestrais.

Trinta e um ogisos — núm ero que talvez sej a apenas um a aproxim ação —

sucederam -se no poder. Alguns deles teriam sido m ulheres. E o últim o, Ouodo, a foi deposto e proscrito, por débil e m au adm inistrador, e por haver,

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sacrilegam ente, ordenado a execução de um a m ulher grávida.

Seguiu-se um curto período sem reis. Talvez um a fase em que a escolha deixara de fazer-se dentro de um a só fam ília, para dar-se entre todos os

chefes. 14 b Mas o experim ento não teve êxito, porque Eviã, eleito para o governo,

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ensaiou im plantar um a nova dinastia e fazer seu filho, Ogiam uem , rei. Abriu-se, então, a disputa entre os vários chefes, que afinal resolveram recorrer a um a estirpe estrangeira, para que dela lhes viesse um soberano cuj o carism a fosse suficientem ente forte para im por e assegurar a paz.

Essa é, hoj e, a tradição m ais corrente.15 Segundo ela, os senhores em luta recorreram a Odudua, o grande líder que im pusera sobre Ilê Ifé a m onarquia divina. O rei iorubano, para testar se os que lhe pediam um filho eram capazes de dele cuidar com carinho, m andou-lhes sete piolhos, de quem deviam tom ar conta e devolver, passados três anos, a Ifé.

Os solicitantes cum prem o desej ado. E convencem Odudua, que não chega, porém , a enviar-lhes o príncipe que queriam , pois m orre antes de fazê-lo. Deixa, contudo, instruções expressas a seu filho e sucessor, o oni Obalufom , para que despache à terra dos edos Oraniã.

Oraniã era o caçula de Odudua, ou talvez seu neto. Partiu para onde o cham avam , com vários cam aradas, entre os quais Ogiefa, um m édico-feiticeiro.

E instalou-se fora da cidade, em Usam a, onde se casou com Erinuinde, d a filha de um chefe edo.

Diante da oposição que lhe m oviam e desgostoso com as querelas locais, Oraniã, depois de alguns anos, resolveu renunciar à chefia. Após dizer que aquela era um a terra da vexação, ilê ibinu — e por este nom e passou a ser conhecido o que até então se cham ara Igodom igodo —, Oraniã declarou que só um filho do lugar, crescido nos seus m istérios, poderia governá-lo. E partiu de volta a Ifé,

deixando com o rei, ou obá do Benim , seu filho Eueca. e Sob os cuidados de um preceptor, Ogiefa. Deixou tam bém o adê, ou coroa de contas e franj as que cobrem o rosto, com o sím bolo de um novo conceito de m onarquia e de um a nova m aneira de governar. E, possivelm ente, novas arm as e novas técnicas de com bate. E o cavalo, a crer-se na tradição.

Não há evidências de que o cavalo j á fosse conhecido no Benim entre o final do século XII e o início do XIV, época em que se supõe tenham sucedido as m udanças associadas ao nom e de Oraniã. Mas o fato de a história oral m encionar ter sido ele quem trouxe o prim eiro equino ao Benim serve de suporte

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aos que advogam que o relato tradicional encobre a tom ada do poder por

estrangeiros, que se im puseram , a cavalo, sobre as populações rurais.

Tanto a agressão arm ada quanto a convocação de um príncipe estrangeiro para servir de árbitro nas disputas locais aparecem com o raiz de dinastias africanas. O cavalo, porém , se, no Benim , foi figurante na instalação dos obás, pronto perdeu toda a im portância bélica. O m eio era-lhe hostil e só a custo de m uitos cuidados lograva nele sobreviver. Anim al de prestígio, usavam -no os reis e a nobreza nas grandes cerim ônias. Mas estava ausente da vida diária e das

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cam panhas m ilitares. Tanto que os obás sequer sabiam m ontá-los: tinham de

ser sustentados na sela por dois servidores, que m archavam a pé, um de cada

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lado do anim al. Num m apa, acom panhado de duas ilustrações com cenas

africanas, gravado possivelm ente nos últim os anos do século XVI por Baptista

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van Doetechem , m ostra-se um a m aneira ainda m ais esdrúxula de usar o

cavalo no Benim . Na gravura, veem -se três nobres, que, em vez de escarrancharem -se no lom bo dos equinos, vão sentados de lado em selas que m ais parecem bancos. Para corrigir o precário equilíbrio, cada um deles se apoia com as m ãos nos om bros de dois servidores, a acom panharem a passo, um atrás do outro, o anim al, que um terceiro fâm ulo puxa pelas rédeas.

Refletindo ou não a verdade histórica, o relato sobre Oraniã e Eueca ilum inaria

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aspectos essenciais das relações entre o obá e os edos. O poder do obá

assentar-se-ia na sua condição de estrangeiro, distinto dos dem ais edos, divino ou próxim o à divindade, filho de Odudua — por um a espécie de parentesco perpétuo — e irm ão dos que reinavam sobre Owo, Oió, Queto, Savé e tantos outros estados. Não era com o os dem ais edos, com o os dem ais hom ens. Era um ser à parte. Mas era um edo, pois Eueca nascera de Erinuinde, um a m ulher da terra, vira à luz no Benim e ali se criara, convivendo com sua realidade e com seus m istérios, em bora a receber os ensinam entos de Ogiefa.

Assim se explicaria por que, apesar de ser a espinha de suas instituições políticas sem elhante à das m onarquias divinas dos iorubás, elas se desenvolveram , no Benim , de m odo distinto. Tom aram feição própria. Pois tiveram de acom odar-se e adaptar-se às estruturas sociais dos edos, bem m ais sem elhantes às das com unidades ibos do que às das iorubanas.

A unidade política era a aldeia agrícola. Que talvez, desde cedo, j á possuísse a estrutura básica que apresentava no século XIX. Sua população m asculina j á seria, portanto, dividida em três grupos de idade: os j ovens ou irogae, os adultos ou iguele e os velhos ou edion. Estes eram os repositórios das leis da terra, da história e da honra do vilarej o. Vinculavam o presente ao passado e ao eterno, através dos anciãos que os haviam precedido e de cuj os túm ulos cuidavam . E era no santuário dedicado a seus antecessores que se reuniam , sob a presidência do hom em m ais idoso da aldeia, ou do m em bro m ais velho do m ais antigo dos grupos que a form avam , para conduzir os negócios da com unidade e j ulgar as disputas nela surgidas. Tinham o poder de legislar, isto é, de alterar os costum es, m as só o faziam sob o im pacto de forte crise.

Ao líder desse conselho, o odionuere, cabia orientar as tarefas dos outros grupos de idade. Os adultos ou iguele portavam as arm as e executavam os trabalhos coletivos de m aior responsabilidade. Os m ais sim ples recaíam sobre os j ovens, que, por exem plo, levavam à cabeça os tributos anuais ao obá.

Essa estrutura não se extinguiu nem m esm o nas aldeias onde, no curso do tem po, o chefe se tornou hereditário, com o nom e de onogie. Instituiu-se nelas um a espécie de chefia dual, ocupando-se o odionuere, que continuava a presidir o conselho dos anciãos, da organização dos grupos de idade e dos assuntos internos do vilarej o, enquanto que ao onogie com petiam as relações externas, o levantam ento dos tributos e os vínculos com o obá. Em geral, havia entendim ento e cooperação entre os dois chefes, m as conflitos podiam surgir, caso um deles

fosse personalidade particularm ente forte.21

O onogie descendia, em alguns casos, de um irm ão m ais j ovem de um obá, ou de um favorito deste, m as tam bém podia ter-se com o pertencendo a um a estirpe de chefes anteriores à chegada de Oraniã.

Estes chefes antigos, rem anescentes da época dos ogisos, devem ter-se dividido, no período de reform as sim bolizadas por Oraniã, entre os que as aceitavam , com o preço a pagar-se pela paz interna, e os que as repudiavam , desej ando que os obás fossem apenas árbitros entre os benins (ou binis), m as não lhes alterassem as instituições e os costum es políticos.

O processo de conflito e acom odação — com os representantes do antigo regim e, sobretudo os chefes cham ados uzam as ou ozam as, a controlar cada passo do obá, na tentativa de tutelá-lo, e este a esforçar-se para rom per os constrangim entos e im por-se com o soberano dotado de poderes sobrenaturais — faz a história dos prim eiros reinados dos descendentes de Oraniã e persiste sim bolicam ente até hoj e, num ritual que integra as cerim ônias anuais em m em ória do pai do m onarca. Trava-se um a batalha fingida, na qual os uzam as, após lhe m ostrarem desafiadoram ente as coroas que usavam na época dos

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ogisos, são derrotados pelo obá. Essa teatralização talvez denuncie o que

buscam encobrir as tradições orais: a conquista estrangeira ou a com petição arm ada entre as várias colm eias de iy as, com a im posição do chefe de um a delas — um adventício para os dem ais — com o único rei.

O poder ainda seria dos uzam as na época de Eueca e de seus filhos e

sucessores, Evacuaem e Erim iem . f Pois atribui-se àquele a criação de um conselho hereditário de fazedores de reis, com posto precisam ente pelos uzam as. E era um deles, o olia, quem punha a coroa em cada novo obá. Não chega a disfarçar-se, portanto, que a essência do m ando estava em m ãos de uzam as.

O obá continuava ligado à terra de origem . Tanto assim que Eueca ordenou que, após sua m orte, lhe levassem os restos para Ifé. O costum e persistiu até 1888, cada terceiro obá de Benim sendo sim bolicam ente inum ado na cidade do oni. Cabe o advérbio, porque é possível que só a cabeça ou talvez apenas chum aços de cabelo e aparas de unhas do cadáver fossem m andados, num a

caixa de cortiça, a enterrar em Ifé.23 De volta, o oni enviava ao Benim um a cabeça de bronze, ou m elhor, de latão.

Tam bém em Ifé o novo obá ia obter legitim idade. Tão pronto assum ia o m ando, despachava um a em baixada ao Oguene — nom e que tom a no Benim o rei de Ifé —, com o pedido de que este o confirm asse no poder. Em sinal de

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assentim ento — conta-nos João de Barros —, o Ogané, que é com o o cronista

ouviu a palavra, “lhe m andava um bordão e um a cobertura da cabeça, da feição dos capacetes de Espanha, tudo em latão luzente, em lugar de cetro e coroa, e assim lhe enviava um a cruz do m esm o latão para trazer ao pescoço”. Um a cruz de Malta, sem elhante à que usavam os em baixadores do Ogané.

A cruz no pescoço aparece, na escultura benim , em personagens com bigodes de gato sarj ados no rosto. Sendo essas m arcas tidas pelos edos com o nupes e

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tendo João de Barros colocado a ocidente a m orada do Oguene, Alan Ry der, propôs que este não fosse, naquela época, o oni de Ifé, m as um soberano nupe ou igala. Os edos teriam , assim , recebido suas novas instituições da confluência do

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Níger com o Benué, em vez do Iorubo. Em obra posterior, em bora sem abandonar a tese, Ry der a relegou a um a nota de pé de página. E nela não insistiu

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em textos m ais recentes. Houve, contudo, quem o fizesse, com novos

argum entos em favor de um Ogané rei dos igalas.28

Ainda que se choque contra a história oral e os ritos políticos do Benim , a teoria de Ry der pôs em foco as antigas conexões entre iorubás, benins, nupes e igalas, bem assim o parentesco cultural que entre eles se entreteceu ao correr do tem po. As tradições atestam que esses liam es vêm de longe, pois nelas Xangô, o orixá

iorubano, é gerado por Oraniã num a princesa nupe.29

Não se pode excluir de todo que o obá do Benim devesse respeito, no século XV, a um Ogané que seria um soberano nupe ou um dos descendentes de Oraniã,

instalado na Velha Oió. 30 Esta, porém , ficava, da m esm a form a que Ifé, a noroeste do Benim e não a leste, onde, conform e o em baixador beninense relatou a d. João II de Portugal, tinha assento o Oguene. Menos lícito ainda seria descartar-se a história tradicional e os costum es recentes, que fazem do Oguene o oni de Ifé, ainda que Ifé fique a oeste do Benim .

É possível que os portugueses — apesar de sem pre atentos a tudo que dizia respeito a localizações geográficas e do interesse que lhes provocou o relato sobre o Ogané, identificado por eles com o Preste João, por causa da cruz de Malta — tivessem confundido os pontos cardeais. Ouvido m al. Ou trocado, na transm issão da narrativa, oriente por ocidente.

É tam bém possível que, ao referir-se ao oriente, o em issário beninense tivesse em vista a direção do nascer do sol — na África Ocidental, o interior —, em contraposição ao poente, que se dá no m ar. Desse m odo, teria querido indicar que

a cidade do Oguene ficava para o interior e não no rum o do oceano. 31

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Outra hipótese: Ifé é conhecida com o a terra “de onde vem a luz”,

expressão que os portugueses podem ter interpretado com o o oriente, em vez de o lugar de onde tudo surge, o um bigo do universo, a cidade sagrada.

E com o tal era Ifé considerada no Benim , nos séculos XIX e XX, por um rei que ostentava e ostenta o título iorubano de obá e que anualm ente recebia em giz as m arcas faciais dos nagôs, riscos que lhe eram , logo depois, apagados do rosto,

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ao m esm o tem po que se sacrificava um a novilha — cerim ônia a sim bolizar a

transform ação em edo de um rei estrangeiro.

Em bora pertencesse à terceira geração dos descendentes de Oraniã nascidos no Benim , Euedo, que sucedeu a seu pai, Erim iem , era tido com o adventício. Desde cedo, deve tê-lo preocupado essa situação, bem com o a persistência do poder dos uzam as, no m eio dos quais vivia. Não propriam ente com o soberano. Mais com o árbitro ou um prim us inter pares.

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Conta-nos o historiador tradicional do Benim , Jacob Egarevba, que Euedo,

ainda antes de ser coroado, planej ou m udar-se de Usam a, onde se instalara Oraniã, para o quarteirão em que haviam vivido os ogisos. De nada inform ou os uzam as. Cerca de um a hora após a coroação, saiu de Usam a, com um a galinha branca pendurada ao pescoço. No cam inho, teve de enfrentar constante oposição. E, ao entrar na cidade, viu diante dele, em arm as, a dizer-lhe que voltasse para Ifé, a sua terra, Ogiam uem , o portador do m esm o nom e daquele que provocara a cizânia entre os chefes benins e o apelo a Odudua.

Ogiam uem devia ser o principal chefe da cidade, pois controlava o cem itério dos ogisos. Teve de ser batido duas vezes, antes de ceder lugar a Euedo e de conform ar-se com a condição de sim ples chefe tributário.

O obá instalou-se onde até hoj e se ergue o seu palácio, construído no terreno onde ficava o cam po-santo dos ogisos. Assum iu, assim , o controle do culto dos antigos reis, culto que pôs nas m ãos de um iorubá com o ele, o ogiefa, tornado sacerdote dos deuses da terra e da boa fortuna real. De Ogiam uem recebeu tam bém o tam borete dos ogisos e outras de suas insígnias. Fez-se sim bolicam ente

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herdeiro dos antigos reis edos e não apenas de Oraniã.

A ação de Euedo j á foi qualificada de verdadeiro golpe de estado nos

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uzam as. O obá isola-se deles, no novo palácio, para o qual cria, tirada da plebe,

um a nova hierarquia de chefes. Proíbe os uzam as de se sentarem na sua

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presença, de conferirem títulos e de usarem espadas cerim oniais. Procura im por-se, portanto, com o única fonte de poder.

Em bora logre tornar-se a autoridade suprem a e reduzir a força dos uzam as, estes continuaram a reter boa parcela de influência e prestígio. Viviam fora das m uralhas da cidade e, em suas aldeias, eram praticam ente senhores absolutos, sendo-lhes apenas vedado aplicar a pena de m orte, atributo do obá. Nem eles, nem seus súditos pertenciam ao rei, enquanto que os chefes de palácio — criados para lhes fazer frente — eram propriedade do obá.

Essa nobreza de palácio dividiu-se, desde Euedo, em três confrarias. A prim eira, Iuebo, era form ada pelos cam areiros, encarregados do vestuário e das insígnias do obá, bem com o, posteriorm ente, das finanças e do com ércio do reino. O seu chefe era o uvangue. Constituíam a segunda, de nom e Iueguae, os criados dom ésticos do obá. E a terceira, Ibiue, os que se ocupavam do harém e da prole do soberano, sob a liderança do osodin. Cada associação tinha funções bem definidas e habitava parte separada do palácio.

Euedo m uda o nom e do reino para Ubini. E lhe am plia m ilitarm ente os lim ites.

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Isto, na segunda m etade do século XIII. Ou, talvez, cem anos depois.

O sucessor de Euedo, Oguola, teve de enfrentar a hostilidade de Udo — cidade m urada a uns 48km a oeste do Benim e que lhe disputava a prim azia na área. De início, a política de Oguola parece ter sido defensiva e conciliadora. Mandou cavar fossas ao redor do Benim . E contratou casam ento com um a das filhas de

Acpanigiacom ,g 39 rei de Udo. Diz a tradição que a m oça arrepiou carreira antes de chegar ao Benim e que, em consequência, se desataram as hostilidades entre os dois soberanos. Oguola tom ou a iniciativa do ataque, durante o qual Acpanigiacom foi m orto e Udo tom ada. Os chefes de Udo foram conduzidos ao Benim e lá executados.

Cabeça de cerâm ica do altar de Iguega. Benim , fim do séc. XV – início do séc.

XVI

 

Se houve a guerra, a vitória não foi com pleta, pois há m em ória de outros conflitos, ao longo de duzentos anos, entre Benim e Udo. Este era um reino independente e disputava a hegem onia local, no início do século XVI, quando foi de fato conquistado.

O que tornou fam oso Oguola não foi, porém , a vitória sobre Udo. Foi um pedido que fez ao oni de Ifé. Pediu-lhe um escultor que soubesse trabalhar o m etal, a fim de que se produzissem no Benim as im agens de latão ou bronze que

lhe vinham de Ifé. O oni m andou-lhe Iguega,h que criou escola e foi deificado.

No santuário em sua m em ória, no bairro em que se concentram , ainda hoj e, os escultores, existem várias cabeças de terracota, no estilo que agora se considera com o o m ais antigo do Benim . A cabeça é achatada, as bochechas am plas, as narinas afogueadas, o nascim ento do nariz m arcado por um a linha profunda, que une os dois olhos, desenhados em relevo e m ais rem iniscentes das esculturas de Nok do que das im agens de Ifé, as orelhas pequeninas e m alfeitas, apenas o traçar de um a espiral. Os cabelos caem em pequenas cam adas que se superpõem . No m eio da testa veem -se duas fortes sarj as verticais e, nas sobrancelhas, três ou quatro incisões em form a de garras. O pescoço está oculto por altos colares de contas. Tudo com posto de linhas fortes, e de tudo ausente a suavidade das form as de Ifé. A nítida diferença de estilo entre essas obras (de que há tam bém exem plo em bronze) e a estatuária de Ifé torna difícil aceitar-se

a teoria am plam ente difundida — e que tom ou form a com William B. Fagg 40 — segundo a qual, quanto m ais naturalista um a escultura benim , m ais antiga seria, por m ais próxim a de sua fonte, Ifé, representando a estilização um afastam ento, no tem po, dessa influência. A escultura do Benim seria, assim , um a extensão m odificada ou um a derivação da de Ifé. Com o a rom ana o foi da grega.

Quando se com param os dois conj untos de obras, as diferenças tornam -se ainda m ais flagrantes. Ifé buscou o retrato pessoal, ainda que idealizado. No Benim , a cabeça hum ana é estandardizada e sim bólica. O realism o, no Benim , tom ou outra direção, que encontrará seu esplendor nas placas de bronze, com cenas de corte, de batalhas e caçadas, e descrições de ritos e festivais, bem com o nos seus galos e leopardos, nas im agens de corpo inteiro de m úsicos, m ensageiros, escravos e hom ens a cavalo.

Esse realism o está patente, desde o fim do século XV — pois, em bora as tradições afirm em que a escultura em ligas de cobre com eçou cem ou duzentos anos antes, no obado de Oguola, nenhum a foi encontrada com essa idade —, no gosto pela transcrição m inuciosa das coisas que cobrem e cercam o hom em : capacetes, colares, tecidos, plum as, cotas de m alha, espadas, escudos, arneses, arcabuzes, troncos e folhas de árvores. O m etal é extrem am ente trabalhado, com um a invenção prodigiosa de texturas e contrastes. O próprio espaço enche-se de flores.

Apesar de não se distinguirem uns dos outros nas feições — exceto, aqui e ali, pelo enfeite de um a barba —, os guerreiros que a escultura do Benim nos m ostra conhecem o sangue e a grandeza; e podem ser ferozes, olhar-nos cheios de assom bro ou am eaçadores. O flautista de saiote bordado tem o ar feliz e parece tocar a sua m úsica. O rosto da rainha-m ãe, sob o barrete pontudo, é doce e com passivo. O caçador está atento e tenso, à espreita das aves no alto das ram agens. A arte do Benim im ita a vida, busca perpetuar o hom em que age e se em ociona.

Já se fizeram inventários das diferenças estilísticas entre as esculturas de Ifé e do Benim . Já se apontou, por exem plo, a ausência de pupilas, com uns nas im agens do Benim , nas cabeças de Ifé, e a falta, naquelas, dos orifícios onde,

nestas, se colocavam cabelo, bigode e barba. 41 Assim é. Im porta, porém , m uito m ais frisar que, enquanto a arte de Ifé, pelo sentido de m edida e equilíbrio, pela serenidade das form as, pela econom ia de m eios, se inscreve na linha do que na Europa se denom inou ideal clássico, a do Benim pertence à vertente do barroco.

Placa com guerreiro e auxiliares. Benim , séc. XVII. Bronze, 53,5cm de altura.

 

A principal diferença estaria, portanto, na própria m aneira de m odelar as figuras: suave, rasa, a evitar os contrastes, em Ifé; dram ática, escavada, a acentuá-los, no Benim . Olhos, bocas, orelhas são sublinhados, nas esculturas do Benim , por linhas altas e grossas, e cada volum e do rosto e do corpo com o que se destaca dos dem ais. É um a escultura de fortes saliências e de fundos recessos, que, sob a luz, acentuam o contraste entre o claro e o escuro, intensificam as som bras e dão ênfase à intenção de m ovim ento de algum as figuras.

São tão distantes os dois estilos, que pouco parece indicar ter tido a arte do Benim a sua fonte em Ifé. Quer Iguega tenha realm ente existido ou apenas sim bolize o processo pelo qual o Benim recebeu da cidade sagrada dos iorubás a escultura em m etal, os edos acolheram som ente a nova técnica, conservando-se fiel, contudo, às suas tradições artísticas. Aprenderam o m étodo da cera perdida, m as continuaram com ele a produzir as form as que dantes com punham na m adeira, na argila e no m arfim .

A questão com plicou-se com a análise dos processos de fundição de várias

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peças de Ifé e do Benim , que se revelaram distintos.

Nos exem plares benins exam inados, a m odelagem fez-se com cera de abelha, sobre um núcleo de barro contendo palha e fibras vegetais, para torná-lo poroso e capaz de absorver os gases produzidos pelo m etal fundido. Um a arm adura de fios de ferro saía do núcleo, atravessava o m olde de cera e unia o centro a um invólucro tam bém de argila, palha e fibras.

Nas peças de Ifé, a m odelagem foi feita com látex, produzindo-se geralm ente um a superfície m uito fina e filigranada. Não se usou a arm adura de fios de ferro, para ligar o núcleo ao invólucro. E este não continha palha e fibras, m as partículas de carvão.

Se essa diferença nos m étodos de fundição se revelar generalizada, crescerão as dúvidas sobre a história oral que faz provirem de Ifé o realism o e a técnica da cera perdida, pelas m ãos do escultor Iguega — nom e que, de resto, não é iorubano e soa m ais com o edo, em bora pudesse ter sido adotado por seu

portador, depois que este foi viver no Benim .43

As dúvidas não excluem as influências de Ifé sobre Benim — a partir da substituição das cabeças de m adeira, que se punham nos túm ulos dos antepassados, pelas de m etal. Nem elim inam o papel que Iguega ou outros escultores de com unidades vizinhas possam ter exercido no desenvolvim ento da arte em m etal no Benim . Ou em sua gênese.

Toda a área que vai da Costa do Marfim aos Cam arões conheceu, desde cedo, a fundição do cobre e suas ligas. E não são de afastar-se certa m obilidade dos artistas e a difusão de suas ideias, de suas técnicas e de suas form as, nesse largo espaço. Seguindo as grandes trilhas do com ércio.

A atividade m ercantil deve ter tido, desde o início, certa im portância no Benim . Pois as atividades agrícolas não explicariam o rápido crescim ento, em poder e riqueza, da cidade e das áreas rurais que a ela se subordinavam .

A agricultura era, na verdade, pobre. Em terras de floresta, que, após três ou quatro anos de uso, perdiam a fertilidade. Cultivava-se sobretudo o inham e, base da alim entação dos edos. E tam bém a pim enta de rabo, o m elão, a cola, o dendê, os feij ões, as anileiras e o algodão. Criavam -se cabras, carneiros e galináceos. Os roçados de inham e eram cuidados pelos hom ens. Os dem ais trabalhos agrícolas cabiam às m ulheres. As árvores de cola e os dendezeiros pertenciam coletivam ente à aldeia.

A cidade do Benim situava-se num ponto favorável ao encontro dos m ercadores. Por ela passavam o peixe seco e o sal, que, procedentes da costa, seguiam para as savanas do norte. Do interior para o litoral baixavam o inham e, o dendê, os feij ões, os anim ais de criação. E de leste para oeste, e do oeste para leste, pelos cam inhos na m ata, no cerrado e na savana, e tam bém pela série de lagoas, furos e canais costeiros, que se estende desde o Volta até o Níger, iam e vinham não só esses produtos, m as tam bém as contas, os tecidos e o cobre, que se iam buscar talvez até m esm o no litoral do Congo.

O Benim transform ou-se num em pório de todos esses artigos — do cobre incom um e raro, só acessível aos grandes da terra, ao inham e de consum o quotidiano. Com o tem po, o com ércio tornar-se-ia a atividade principal de sua gente, e as transações com os estrangeiros fizeram -se m onopólio do obá.

O Benim com prava e vendia o que outros produziam . As contas de cornalina, provenientes do alto Benué. As segis ou contas azuis, fabricadas em Ifé. Os tecidos m anufaturados nos países do norte e sobretudo no Iorubo e na Ibolândia, e que predom inavam sobre os de feitura local. Grande parte dessas fazendas seria tingida no Benim , com o índigo que ali se plantava. Outra viria pronta de fora, com o, m ais tarde, as peças de Ij ebu, azuis ou de listras azuis e brancas, um tipo de pano da costa que seria exportado, a partir da segunda m etade do século

XVIII, em grande quantidade para o Brasil. 44

A expansão m ilitar benim vai processar-se na direção das rotas do com ércio e teria tido o propósito de controlá-las, quando não o de dom inar outros em pórios, com o Aboh e Onitsha, na Ibolândia, Eko (ou Lagos), no Iorubo, os portos fluviais dos igalas e os em barcadouros dos ij ós, que haviam criado, j unto ao m ar, pequenos reinos, para proteger o com ércio do sal e do peixe seco.

As atividades m ercantis do Benim exigiram de seus filhos que fossem fundar colônias em partes distantes. Diz, por exem plo, a tradição que os gás, que vivem do outro lado do rio Volta, na atual República de Gana, se originaram em

im igrantes do Benim ou do delta do Níger.45

Para facilitar as trocas, criou-se m oeda: barras e aram es de cobre, m anilhas de cobre e de suas ligas, talvez j á então pedaços de ferro em form a de arco. Além dos cauris.

A principal consequência do predom ínio do com ércio na vida do Benim terá sido, no entanto, o fortalecim ento do estado centralizado, a concentração do poder num obá que se fazia divino e de quem todos os benins se tornavam sim bolicam ente escravos. O obá a todos possuía. Com exceção dos uzam as e dos que a eles se subordinavam .

 

Obá usando um alto colarinho de contas. Benim , séc. XVI. Bronze, 28cm de

altura

 

O processo de consolidação do obá com o senhor quase absoluto foi dem orado e torm entoso. Pois as vitórias de Euedo sobre os uzam as não se revelariam definitivas. Após a m orte de Oguola, seguiu-se século e m eio de obás tím idos ou débeis, que perm itiram a ressurreição parcial do poder dos uzam as. Esses obás

cham aram -se Edoni, Udagbedo e Oem ,i j todos filhos de Oguola, e Egbeca e

Orobiru, filhos de Oem .

Oem era belo e inteligente. Após cerca de 25 anos de reinado, ficou paralítico das pernas. E, com o um obá não pudesse ser um hom em enferm o ou defeituoso, pois isto se refletiria na vida de seus súditos e na prosperidade geral do reino, procurou esconder a doença. Descoberto por um dos chefes, ordenou-lhe a

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m orte, provocando a revolta dos outros, que, liderando o povo, o lapidaram .

A sucessão de Orobiru foi, m ais que qualquer outra, tum ultuada e cruenta. O rei ainda vivia, quando seus dois filhos, Ogum , o prim ogênito e herdeiro, e

k

Uvaifiocum , foram banidos da cidade. Sabedor do falecim ento do pai, Ogum enviou ao Benim o irm ão, a fim de averiguar se os chefes desej avam , ou não, que ele voltasse para assum ir o obado. Uvaifiocum , porém , m entiu aos chefes: disse-lhes que não via o irm ão desde o início do exílio. E, por isso, os chefes sentaram Uvaifiocum no tam borete real. Ogum arm ou-se, retornou em segredo

à cidade e m atou o usurpador.47

Seguiu-se um banho de sangue, em que os responsáveis pelo banim ento de Ogum e os que apoiaram Uvaifiocum foram passados pela espada. Pôs-se fogo em boa parte da cidade.

Tudo isso poderia indicar um a m udança dinástica, que a história da luta entre irm ãos disfarçaria, ao m esm o tem po que dava legitim idade à nova estirpe

real. 48 O Benim talvez tivesse sido tom ado, na m etade do século XV, por um grupo estrangeiro, se é que não em polgou o poder um a linhagem edo, anti-iorubana, que se enriquecera e fortalecera fora dos m uros da cidade ou apesar do desfavor do obá.

Se estrangeiro, Ogum bem poderia ser o rei de Udo, que dali veio conquistar o

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Benim , trazendo consigo, e só então, as influências de Ifé e, talvez, a

vassalagem sim bólica ao oni.

l

Com a ascensão de Ogum , que adota o nom e de Euare, o Benim passa por profundas m odificações políticas. Instaura-se nele quase que um a autocracia, tem perando-se o poder do rei apenas com as consultas que faz a um conselho de estado. E com a oposição dos uzam as e da cidade.

O conselho de estado era form ado pela nobreza de palácio (Egaevbo n’Ogbe), instituída por Euedo, e pelo conj unto de chefes da cidade (Egaevbo n’Ore), forj ado por Euare.

O Egaevbo n’Ore reunia aqueles poderosos que quase sem pre se tinham oposto aos obás, ou os haviam controlado. Com sua criação, Euare talvez tivesse querido aplacar a cidade, ou ganhar o seu apoio contra o palácio, que favorecera Uvaifiocum . Ou talvez, se verdadeira a hipótese de que representara um a restauração edo contra a dinastia iorubana, buscasse nos chefes benins da cidade a base que o sustentaria. Com o quer que tenha sido, o cabeça do Egaevbo n’Ore, o ij ase — o m ais im portante dos chefes da cidade — tornar-se-á, com o tem po, o principal com andante m ilitar do Benim e, talvez por im pregnação de seu papel histórico, o líder da oposição leal ao obá.

Nenhum desses chefes — com exceção dos uzam as — passava autom aticam ente título e prerrogativas a seus filhos. O obá os designava ao sabor da vontade e lhes podia aum entar o núm ero e m odificar-lhes a precedência.

Euare am pliou consideravelm ente o elenco de chefes, que tinham não só funções na capital, m as tam bém nos vilarej os ou grupos de aldeotas de que eram feitos senhores. E foi adiante: procurou associar todos os hom ens livres — isto é, todos os evien-oba, ou “escravos do obá” — ao serviço do palácio.

Os filhos de um evien-oba tinham de vir à cidade do Benim e incorporar-se a um a das três associações que serviam ao obá. Depois, a m aioria retornava às suas terras de origem , onde perm anecia vinculada ao palácio. Estabelecia-se assim um estreito liam e entre a casa do obá e cada um a das aldeias do reino. Se, por exem plo, um dos servidores do rei se tornava um dos m ais antigos da associação de palácio a que pertencia, tinha-se autom aticam ente com o m em bro

do conselho de anciães de sua vileta. 50

Cada evien-oba passou, com Euare, a receber escarificações, de m odo a se distinguir dos estrangeiros e dos escravos de verdade. Conta a tradição, no entanto, que essas m arcas foram instituídas pelo obá, a fim de que facilm ente se identificassem os benins que fugissem para outras plagas, insatisfeitos com o novo regim e. Pois o governo de Euare deixou m em ória de im popularidade, talvez derivada das m odificações políticas que pôs em vigor e que devem ter alçado alguns e deprim ido outros. Um a nova nobreza pode ter deslocado parte da antiga. E esta últim a, descontente, desertou da cidade.

Euare introduziu novos sím bolos reais, com o as contas de coral (em vez das m ulticoloridas da coroa de Oraniã) e o pano de flanela escarlate, que se am arrava à cinta. E procurou reforçar o princípio da prim ogenitura na sucessão real, ao indicar com o herdeiro seu filho m ais velho e ao dar-lhe o título de edaiquem . Este vivia, com o os uzam as, fora da cidade, em vilarej o próprio.

Euare m udou para Edo o nom e do país, em hom enagem a um escravo que lhe salvara a vida e assim se cham ava. O m ais provável é que ele haj a restaurado a

denom inação m ais antiga, que a gente da terra dava a si m esm a.51

Para ela e para si próprio, reconstruiu a capital, que havia parcialm ente destruído, ao se apossar do poder. Fez a grande avenida que separa o palácio da cidade, e nesta dispôs, em bairros diferentes, as corporações de ofícios, dedicadas prim ordialm ente a servir ao obá. De sua iniciativa foi tam bém a construção da m uralha e do fosso, com 11.600m de circunferência, que cercam a parte interior da cidade e form am a m ais im portante fortificação do sul da

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Nigéria. Do fundo da vala ao alto do que resta do antigo paredão pode haver

m ais de 17m .

A m uralha era um a exigência, até m esm o por tem or de represálias, de um estado que se acentuara com o m ilitarm ente agressivo. Euare, com efeito, é o prim eiro dos cinco grandes obás conquistadores, num a época em que o rei ainda tom ava a direção dos exércitos. Mais tarde, isto lhe seria vedado.

Conta-se que as tropas de Euare capturaram 201 cidades e aldeias, sobretudo no norte do país edo, onde, a fim de fugir de seu avanço, m uitas com unidades se refugiaram nas m ontanhas. Euare entrou tam bém com seus soldados pelas terras a ocidente do Níger, onde viviam ibos. E pelo Iorubo adentro. O grosso da ação m ilitar dirigiu-se, porém , contra m icrorreinos que ficavam dentro de um raio não m uito superior a 150km . E parece ter tido características ferozes, pois dela restam fundas m arcas nas tradições dos vencidos: seus antigos chefes, m ortos pelos benins, transform aram -se em heróis deificados (ou ihon). Dentre eles, poucos teriam tido condições de opor m ais do que a coragem ao avanço de Euare, pois este form ara um exército eficiente, num eroso — talvez engrossado pelos escravos que suas canoas iam buscar na costa — e capaz de tom ar cidades-estado im portantes com o Akure e Owo.

Owo ficava no lim ite oriental do Iorubo, a m eio cam inho entre Ifé e Benim . Seu prim eiro rei — assim diz a tradição — fora Oj ugbelu ou Asunlola, o caçula de Odudua. Saíra ele de Ifé e, com seus apaniguados, instalara-se em Upafa. Seu filho m udou-se prim eiro para Oke-Im ade e depois para Okiti-Asegbo, próxim o ao centro da atual cidade de Owo. É provável que na área existissem vários m iniestados, que acabaram por ser absorvidos por aquele que a história oral afiança ter sido fundado por Oj ugbelu e que tinha por sede um vilarej o conhecido pelo orixá que nele se adorava, Owo ou Ogho.

Em 1969, escavações em preendidas por Ekpo Ey o num pequeno bosque sagrado próxim o ao palácio de olouo (ou rei de Owo) revelaram várias esculturas em terracota no estilo de Ifé e algum as com afinidades com Benim .

Ekpo Ey o53 identificou um a terceira m aneira — num a cabeça de hom em barbado, com o cenho franzido, por exem plo —, que não deixa de estar próxim a, porém , de certas peças m ais realistas e m enos idealizadas de Ifé, com o a do velho obeso de boca aberta e a do suj eito de olhos em papuçados e grande bócio.

Até m esm o as peças que, pela serenidade e pureza de linhas, m ais se aproxim am de Ifé parecem trair um a fatura local. Assim , certas cabeças de adolescentes, de faces nédias e testas abauladas, apresentam traços m ais arredondados e m arcados do que as de Ifé, num rebuscam ento sutil que lem bra Ingres. Se foram m oldadas em Owo, seriam um a indicação adicional, a som ar-se às terracotas encontradas em Ikirun, Irê e Iranre, de um a influência bem m ais extensa do estilo de Ifé no Iorubo, e retirariam do isolam ento a arte que se fez na cidade de Odudua.

Pequena cabeça com parte de torso. Igbo laj a, Owo. Terracota, 9,2cm de altura

 

As cabeças em cerâm ica de Owo não usam coroas, com o as de Ifé, m as sim ples barretes. E, no conj unto de terracotas, há um a insistência no tópico das oferendas aos deuses. Que podem tom ar form as m edonhas: um cesto cheio de cabeças cortadas, por exem plo.

Certos tem as e m otivos — o leopardo, o peixe-gato, o rosto com serpentes ou enguias a lhe saírem das narinas — revelam a clara influência do Benim , um a influência que não se esgota na escultura e se rastreia nos títulos de nobreza de Owo, nos traj es de seu rei e na coroa de coral que ele porta — de coral, com o no Benim , e não de contas coloridas, com o no resto do Iorubo.

Em torno da cidade de Owo ergueu-se um sistem a de três m uralhas e fossos. E ao redor do palácio do rei — dos m aiores do Iorubo, com cerca de cem pátios internos — construiu-se tam bém um m uro de barro, de 7 a 14m de altura. Para proteger essa fortificação das chuvas, derram avam -se sobre ela, anualm ente,

m ilhares de potes de azeite de dendê.54

As m uralhas talvez não existissem quando Owo foi tom ada pelos benins, se é que estes algum a vez a conquistaram , com o asseveram as suas tradições e as de Owo negam . Com o quer que tenha sido, Owo foi, apesar de estado iorubano, um a província cultural do Benim . Com o tantas outras cidades-estado entre os urrobos, os ij ós ocidentais e os ibos da m argem direita do Níger.

A influência do Benim sobre outros povos, que lhe copiaram as instituições políticas, deveu-se não apenas à sua m áquina m ilitar, m as sobretudo ao prestígio de sua fam ília real, tida com o portadora de poderosíssim a força m ágica. O obá do Benim prom ovia e am parava candidatos ao m ando nos estados vizinhos. E m em bros de sua linhagem faziam -se reis de outras gentes. Muitas vezes, por decisão direta do obá.

Foi assim , por exem plo, com Euare, que enviou um filho ilegítim o ao litoral, para reinar sobre Ughoton, cidade onde se adorava Olocum , o deus do oceano. A decisão foi tom ada na m esm a época em que os portugueses com eçavam a

frequentar as costas ao sul do Benim e as suas m ercadorias a subir o interior.55 O obj etivo da m edida deve ter sido — j á que o rei possuía o m onopólio do com ércio com os estrangeiros — o de controlar o incipiente, m as prom issor, m ercadej o que surgia no litoral. Ughoton (a Hugató de Duarte Pacheco Pereira e a Gató de João de Barros) corresponderia às esperanças benins e se transform aria no grande porto das trocas com os lusitanos.

Iniciativa sem elhante teria um filho de Euare, o obá Olua, que fez de seu

prim ogênito o rei ou olu dos itsequíris,m nas florestas pantanosas da foz do rio Benim . Esse reino tom ou o nom e de Warri, Oere ou Ugueri.

A expansão do Benim contrasta com o fato de não haver j am ais o obá controlado toda a nação edo. Mais da m etade dela só ocasionalm ente a ele esteve subm etida ou lhe prestou respeito. Os edos das m ontanhas do norte, por exem plo, nunca perderam a independência, preservando a estrutura política dos m iniestados. Em com pensação, o que viria a cham ar-se de im pério do Benim contaria, entre súditos e vassalos, com iorubás, ibos e ij ós.

O núcleo do im pério talvez j á tivesse, ao m orrer Euare, as dim ensões que lhe deram os prim eiros visitantes portugueses: “oitenta léguas de com prido e

quarenta de largo”,56 57 isto é, cerca de 385km de linha de costa, ou de oeste a leste. E sua capital j á seria a m aior cidade de todo o golfo da Guiné.

No fim do Quinhentos, um visitante holandês, possivelm ente Dierick

Ruy ters,58 a descreveria com o enorm e, cortada por um a avenida sete ou oito vezes m ais larga do que a rua Warm oes, em Am sterdã, e m uito reta, apesar de longuíssim a. Dela saíam num erosas ruas laterais, tam bém largas e com pridas, nas quais se alinhavam , assim com o na avenida central, casas coladas um as às outras, ou separadas entre si por pequenos espaços.

O holandês teve a atenção im ediatam ente voltada para a varanda que havia em frente de cada casa, e para o im plúvio entre seus quartos. Estes eram pequenos e escuros — usados apenas com o dorm itório, ou com o depósito, ou ainda com o santuário dos deuses e dos ancestrais. A vida passava-se ao ar livre e nas varandas que se abriam para os pátios interiores. Podia haver um ou vários pátios e im plúvios num a só m orada, dependendo de seu tam anho e da riqueza do dono. As casas eram de barro socado, com a superfície finam ente polida. Tinham cobertura de palha e, m uitas delas, pavim ento de pedaços de cerâm ica — à m aneira de Daim a e de Ifé — e de seixos de quartzo.

O palácio do obá pareceu a Ruy ters interm inável, e a outros holandeses, que

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transm itiram suas im pressões, sessenta anos depois, a Olfert Dapper, do tam anho da cidade de Harlem . Era com posto por num erosos prédios, nos quais viviam o rei, suas m ulheres e as três ordens da nobreza de palácio. Com suas fam ílias, agregados, servidores e escravos.

Desde Euare j á se devia distinguir entre o reino do Benim e a crescente área sob sua suserania ou influência. Entre o reino e o im pério. Aquele abrangia tão som ente o espaço dentro do qual o obá era reconhecido com o o único árbitro da vida e da m orte. Som ente ele podia condenar alguém à pena capital, porque dele provinha, em últim a análise, a vida.

Isso era válido tam bém nas aldeias pertencentes aos uzam as, cuj os súditos não eram “escravos” do obá, m as de seus senhores. Eram evien-uzam a e não, com o os dem ais, evien-oba. A distinção deveria ser m ais flagrante na época de Euare, quando, apesar de todos os esforços para reduzir-lhes a influência, os uzam as ainda detinham grande poder.

Delineava-se, j á então, com o consequência do confronto entre o obá e os edos — representados pelos uzam as e, depois, tam bém pela nobreza da cidade, o Egaevbo n’Ore —, o com plexo sistem a de controles e contrapesos, pelo qual um ser que perdia, ao entronizar-se, a condição de sim ples hom em , para fazer-se deus ou a encarnação de um deus, tinha de seguir m anobrando politicam ente a fim de im por o seu querer e consolidar o seu m ando.

A situação não apresentava a sim plicidade de um a estrutura binária. Pois, se o palácio se opunha à cidade e dela era separado pela grande avenida central, palácio e cidade estavam envolvidos pela m esm a m uralha protetora. E as corporações de ofícios, em bora estabelecidas na cidade, em bairros especiais e com andadas por seus próprios odionueres, se subordinavam , não ao Egaevbo

n’Ore, m as aos grupos de nobreza do palácio.60 Ao serviço do palácio pertenceriam , aliás, ao m enos sim bolicam ente, todos os súditos do obá, por m ais distante que dele m orassem .

Os nobres da cidade eram designados pelo obá e não transm itiam hereditariam ente os seus títulos. Hom ens ricos e de influência com pravam suas posições, quando não se im punham à escolha do obá. Representavam o povo — e a cada um dos quatro dias da sem ana edo, um dos quatro egaevbos n’ore criados por Euare tinha de cum prir o m esm o rito “de dar com ida ao dia” que, no interior do palácio, o obá executava. Com essas cerim ônias purificadoras, renovavam -se quotidianam ente os poderes m ísticos do rei. E se firm ava a interdependência

entre o obá e os edos. 61

A nobreza da cidade fora retirada do vulgo para fazer frente ao Egaevbo n’Ogbe, ou nobreza do palácio, que era essencialm ente cortesã. Mas que estava vinculada, assim com o o Egaevbo n’Ore, ao conj unto do reino. Pois os titulares de um a e de outra controlavam , em nom e do obá, quase todas as unidades tributárias em que se dividia o estado. Com exceção das poucas que pertenciam aos uzam as. E que deviam ser m ais num erosas, na época de Euare.

Os m em bros das duas ordens de nobreza eram senhores do que se poderia im propriam ente cham ar de feudos, através dos onogies ou odionueres. Cada um dos titulares do Egaevbo n’Ogbe ou do Egaevbo n’Ore dispunha de vários feudos, espalhados pelo território do reino, e, do tributo que recolhia, ficava com um a parcela. Esses nobres podiam recrutar, em seus feudos, trabalhadores e soldados. E nessas terras pôr escravos, para aum entar suas fortunas. Em com pensação,

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cabia-lhes defender, j unto ao obá, a gente que nelas vivia.

Se, m ais tarde, sem pre foi difícil aos obás im por-se sobre essas duas nobrezas, m uito m ais o deve ter sido na época de Euare, quando tinha ainda de haver-se com o poder dos uzam as.

Foi contra estes que Euare favoreceu o princípio da prim ogenitura na sucessão real, para que os uzam as deixassem de fazer o obá, isto é, de escolher dentre os irm ãos ou filhos do rei quem o substituiria no m ando, e passassem a ter sim plesm ente o papel cerim onial de confirm ar o edaiquem .

A realidade desm anchou esse desej o. Morto Euare, o obado passou para seu filho m ais velho, Ezoti, que só perm aneceu 14 dias no poder, assassinado que foi por um a seta envenenada. Mandou-se Ocpam e, irm ão de Ezoti, buscar o único filho deste, Ouere, para ser ungido obá. Mas Ocpam e, que am bicionava o poder, fez sepultar vivos, a cam inho do Benim , o j ovem príncipe e sua m ãe. A verdade foi conhecida e ordenou-se a banição de Ocpam e.

Os chefes foram por Olua, o segundo filho de Euare, m as Olua não quis ser rei, por tem or de Ocpam e. Sua irm ã m ais velha, Edelej o, assum iu o título de edaiquem e foi cham ada ao Benim , para ser feita obá. Na estrada, foi acom etida por um a enferm idade fem inina, que não encontrou cura. Por causa disso, os uzam as e os egaevbos decretaram que m ulher algum a, doravante, poderia reinar. E convenceram Olua a aceitar o poder.

Olua reinou por sete anos e deixou reputação de pródigo e bondoso. Mas seu filho m ais velho, Iginua, fez-se tem ido e odiado pelos benins, por ser m au conselheiro do rei. Entre outras perversidades, a ele se atribui o ter convencido Olua a m andar prender um ingrato a um tam borete com um longo prego, que lhe atravessou o corpo desde o alto da cabeça. Ao suplício dava-se, no Benim , o nom e de ububã.

Sabendo que Iginua não teria condições de ser aceito com o sucessor, Olua o sagrou rei dos itsequíris. E com o o enviasse à costa acom panhado por grande núm ero de filhos de chefes, estes últim os, insatisfeitos com a ausência que lhes era im posta, não perdoaram o obá e não lhe deram trégua.

Falecido Olua, não se escolheu por algum tem po um novo rei, ficando o governo nas m ãos dos uzam as e dos egaevbos. A experiência não deu certo. Pelo que se trouxe do exílio Ocpam e, feito obá, por volta de 1480, com o nom e de

Ozolua.63 Durante seu reinado, guerreou sem cessar, até ser m orto por seus próprios hom ens. Seu filho Esigie com pletará a obra política de Euare.