A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 9 de 35

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A Enxada e a Lança

5. Nok

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Nok

 

Ao acelerar-se, no segundo m ilênio antes de nossa era, o ressecar do Saara, as populações que o habitavam foram -se lentam ente deslocando na direção das m argens do que viria a ser o grande deserto, ou se refugiaram em certas áreas onde o verdor persistia, com o as m ontanhas e os vales alim entados pelos uedes que delas provinham . Era assim no Tibesti, no Tassili des Aj j er, no Hoggar, no Fezzan, no Air e no Adrar m auritano. Com o agravam ento do clim a e o uso excessivo das regiões de refúgio, foram elas se deteriorando. O corte sistem ático de árvores para lenha, as coivaras, o pastar e o pisoteio continuado de rebanhos cuj o núm ero continuam ente aum entava — tudo contribuiu para que, ao longo do tem po, se reduzissem as zonas de abrigo, até que se restringiram a certos recantos de incessante um idade, com o os oásis.

O êxodo das populações saarianas foi lento e inconstante — só perceptível da distância dos séculos. Quando a m aior parte do Saara j á era estepe árida, é provável que tenha havido m igrações súbitas e dram áticas, durante estiagens particularm ente duras ou prolongadas. Bandos de hom ens, m ulheres e crianças, após dois ou três anos sem chuvas ou de precipitações m al distribuídas, viam -se obrigados a percorrer grandes distâncias, em busca de pastos para os rebanhos ou de restos de cerrado onde se ocultasse a caça. Supõe-se que alguns grupos, fugidos da seca, tenham , passado esta, retornado às terras de origem , de onde novam ente em igrariam os seus filhos. Pois o ressecar do Saara fez-se progressivam ente, em vaivéns, oscilando as fronteiras do deserto da m esm a form a que avançam e recuam , em nosso tem po, os lim ites do Sael.

À m edida que se reduzia a um idade nas terras e que se retraíam os lagos e se enxugavam os rios, os anim ais escasseavam , as pastagens decaíam , a pesca deixava de oferecer sustento seguro e estável. Caçadores, pastores e pescadores cam inhavam , no desenrolar das gerações, para o sul e para o norte, atrás dos anim ais selvagens, das grandes m anchas de relva e de águas m ais piscosas. Tornavam -se, ao m esm o tem po, m ais receptivos às novas técnicas agrícolas, que com eçavam a difundir-se, ou a desenvolver-se, em toda a grande faixa ao sul do Saara.

No cam inho para o norte, os saarianos cedo esbarraram com os berberes, que desciam da costa m editerrânica na direção do deserto. Os dois grupos se m iscigenaram e confundiram .

Os saarianos que se voltaram para o sul do deserto instalaram -se na am pla savana sudanesa, desde o Senegal até a República do Sudão. Ali, especialm ente entre a curva do Níger e o m édio Senegal e ao redor do lago Chade, o cultivo do sorgo e a abundância de pescado devem ter favorecido o crescim ento da população.

Algum as coletividades com eçaram a descer o Níger e o Benué, a instalar-se em suas m argens ou não m uito longe de suas águas. Form aram pequenas aldeias, com roçados ou gado. Nelas, polia-se com habilidade a pedra, m oldava-se e cozia-se o barro e provavelm ente se esculpia a m adeira. A produção de alim entos era bastante para perm itir razoável divisão do trabalho e o surgim ento em brionário de organizações políticas.

O núm ero dos hom ens continuou a crescer. Mas, ao contrário do Nilo, onde a área fértil ou fertilizável se achava restrita às m argens do rio, nas grandes extensões adj acentes ao Níger abundavam os terrenos ferazes, para leste, para oeste, para o norte e para o sul. Os excedentes populacionais foram -se espraiando, a m ultiplicar os núcleos agrícolas pelas terras afora. O Níger não estava, em sua m aior parte, lim itado pelos desertos, m as por am plíssim os cam pos arborizados, que não opunham obstáculos à ocupação hum ana e favoreciam a fragm entação das com unidades, quando estas ultrapassavam o núm ero de pessoas que as terras ao redor podiam alim entar. Ou quando, no seio do vilarej o, surgia um conflito entre grupos rivais.

Pouco a pouco, os hom ens que viviam nas savanas ao sul do Saara foram acrescentando a bagagem trazida das culturas aquática e pastoril. Aperfeiçoaram o cultivo da terra e dom esticaram novos vegetais. Melhoraram os utensílios de trabalho. Tornaram m ais sólidas as casas. A cerâm ica evoluiu e se enriqueceu até chegar à escultura em barro cozido. E, uns cinco ou seis séculos antes de nossa era, o ferro com eçou a incorporar-se aos m ateriais com que lidavam .

Na década de 1930, descobriu-se, num a m ina de estanho, na cidadezinha de Nok, no planalto de Jos, na Nigéria, um a pequena cabeça de m acaco em terracota. Em 1943 ou 1944, outra escultura de barro, com características sem elhantes à anterior, foi encontrada num vilarej o próxim o, Jem aa. Tratava-se de um a cabeça hum ana, de testa am pla — com o se o cabelo tivesse sido raspado até quase a m etade do crânio —, sobrancelhas m arcadas, olhos em form a de m eia esfera, com a pupila perfurada, orelhas apenas sugeridas, lábios grossos, o superior, arregaçado, quase a tocar as narinas, a boca aberta, antecipando um grito. A expressão da face é tensa e alerta, entre assom bro, dor e m edo.

A cultura Nok e o início da m etalurgia na África Ocidental

 

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Bernard Fagg foi o prim eiro a estudar essas peças — e descobriram -se depois centenas delas, desencavadas de um a vasta área que se estende desde Kagara, a noroeste, bem acim a do rio Kaduna, até Katsina Ala, a sudeste, abaixo do Benué, num a faixa de uns quinhentos quilôm etros de extensão e de 160km de largura. A m aior parte dos achados tem -se verificado no planalto de Jos, m as é possível que o território coberto pelo que se cham a cultura de Nok abranj a toda a região que vai do encontro dos rios Níger e Benué até quase o lago Chade.

A fatura das terracotas, m esm o a das encontradas nos contextos m ais antigos, revela o dom ínio de um a técnica com plexa. Eram obtidas em elevada tem peratura, ao contrário da cerâm ica de uso dom éstico — bem m ais tosca, por sinal, nos m esm os depósitos — e talvez em covas, que funcionariam com o

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fornos, ainda que delas não haj a sinais, um a vez que seria extrem am ente difícil cozer essas estátuas de barro em fogo aberto, nos grandes tam anhos e no grau de dureza que apresentam .

Não iniciariam , assim , um a tradição. Corresponderiam ao classicism o de um a cultura, situada entre cerca de 900 a.C. e os séculos II ou III de nossa era, num a região de antiquíssim a ocupação hum ana e na qual lentam ente se foram derram ando novas m igrações. Datariam , com efeito, de antes de 39000 a.C.

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carvões encontrados em Nok, em associação com artefatos acheulenses.

Já se cham ou a atenção para a possibilidade de que existam terracotas m ais antigas e com características sem elhantes fora da área em que se recuperaram as esculturas de Nok. E aventou-se a hipótese de que estas tenham sido

precedidas por im agens em argila crua ou em m adeira, 4 das quais não sobraram vestígios, dada a rapidez com que se deterioram am bos os m ateriais, sobretudo nos trópicos.

Frank Willett 5 argum enta em favor de resultarem as terracotas de Nok de um a longa tradição de escultura em m adeira. Enquanto a escultura de barro se faz por adição, o processo de trabalhar a m adeira é exatam ente o contrário: retira-se do bloco o que se necessita para chegar-se à form a nele pressentida ou sonhada. Com o barro não ocorre o que se passa com a m adeira: esta delim ita a futura form a, sem pre que se usem , é claro, peças inteiriças. Daí que as im agens em lenho tendam ao cilindro e ao cubo. Ora, m uitas terracotas de Nok revelam form as básicas que seriam de esperar-se se fossem peças de m adeira. Willett m enciona o tratam ento dado a porm enores na feitura do rosto, com o a barba e a boca a se proj etarem em bloco, linhas incisivas a m arcarem os dentes e a borda dos lábios.

As esculturas de Nok variariam em tam anho, desde os 9cm de altura até pouco m ais de l,20m . Já se acharam , com efeito, um a cabeça com 36cm de altura e um fragm ento de cerâm ica com cerca de 8cm de largura, representando a m etade de um olho. As m eras dim ensões das figuras são suficientes para atestar o dom ínio que os artistas de Nok tinham sobre o barro e o seu cozim ento.

Os corpos das terracotas eram m oldados de m odo sim plificado, quando não grosseiro. Sim ples cilindros, nos quais braços e pernas eram apenas sugeridos, sob fieiras de contas m arcadas no barro. Há exceções, com o a delicada figura de hom em , com apenas 10,6cm de altura, resgatada em Bwari: de j oelhos, os pezinhos unidos, um a das m ãos sobre a coxa esquerda, a outra posta atrás da cabeça, está coberta de colares, braceletes, pulseiras, a cintura envolvida por um a larga faixa de m içangas.

Dava-se toda a ênfase à cabeça. Era trabalhada com inventiva e rigor, oscilando entre o naturalism o e a abstração. Cilíndricas, esféricas ou cônicas, revelam excepcional sentido do que há de im previsto e dram ático nas feições hum anas. Cada rosto é, por assim dizer, individualizado. Até as cabeças m ais estilizadas ficam à beira do retrato. Com o se cada figura traduzisse a visão em ocionada de um ser hum ano vivo.

Terracota. Kafin Kura, Nok, c. 500 a.C.-c. 200 d.C. 36cm de altura

A tentação do realism o revela-se em certo gosto por reproduzir deform idades físicas. E, num caso, o de pequenina cabeça, de arcos ciliares salientes e olhos fundos, de bochechas cheias e lábios em bico, a soprar, parece que o artista captou, com perfeição, um tocador de pífaro ou de trom pa a fazer a sua m úsica.

Mesm o quando se aproxim avam do realism o, os escultores de Nok não fugiam de certas m atrizes. Os olhos, arregalados e atentos, tinham a pupila perfurada. A pálpebra superior era um traço reto horizontal, ou ligeiram ente encurvado. A inferior, um arco, ou o vértice de um triângulo m uito aberto. A sobrancelha, m arcada em relevo, com pletava geralm ente o círculo de que o olho era um segm ento. Um a saliência desenhava o contorno das pálpebras, tal com o ainda hoj e se observa na escultura em m adeira dos iorubás. E não só as pupilas dos olhos eram m arcadas por um furo através do barro; tam bém as narinas, a boca e os ouvidos. As orelhas, aliás, pareciam não encontrar bem o seu lugar na cabeça esculpida: colocam -se algum as vezes m uito abaixo ou m uito atrás de seu sítio norm al.

O m odelo apresenta variações regionais. Distingue-se o estilo de Jem aa do de

Abuj a, e estes, do de Katsina Ala. 6

De todos, o m ais naturalista, com proporções que se aproxim am das do m odelo hum ano, é o de Jem aa, ao qual pertencem a terracota ali descoberta em 1943 ou 1944, e outra peça fam osa, e belíssim a, a cabeça em tam anho natural, achada em 1954, em Kafin Kura. Am bas encontram -se no Museu de Lagos. A últim a contém todas as convenções da arte Nok. Mas estas só fazem ressaltar a vida do rosto, a sua intensa hum anidade. Com os olhos em triângulo, o fuste nasal estreito, achatando-se na ponta, para dar lugar a narinas largas, a boca aberta, de lábios salientes a sobressair da face, vacila-se entre considerá-la um estilizado retrato ou o fruto de certa busca de um a face hum ana ideal, não alterável pelo passar do tem po nem pela fugacidade das em oções. O penteado que ostenta — um a série de coques, cheios e bem arm ados — indica o refinam ento a que haviam chegado os hom ens e as m ulheres de Nok. Seus cabelos se arranj avam em form as variadíssim as e extrem am ente elaboradas. Tinham o gosto das barbas e dos bigodes. E a paixão dos enfeites. E isto se reflete tam bém nos dois outros estilos, o de Abuj a e o de Katsina Ala.

Distinguem o estilo de Katsina Ala as cabeças em cilindros m uito alongados, com a haste do nariz m arcada e forte, desde a testa até a expansão das ventas, e a boca de lábios grandes e cheios.

O de Abuj a caracteriza-se pela face com o que achatada, ou raspada. De perfil, quase não se notam as saliências do nariz e dos lábios. De frente, as feições são, em geral, pouco m arcadas. Predom inam o penteado e os ornatos.

Pode dizer-se que a gente de Nok vestia-se de contas. Veem -se, em algum as terracotas, encachos que deviam ser feitos de couro e m içangas. Ou sim plesm ente de fieiras de contas. Num erosos eram os colares a lhes descerem do pescoço, e as argolas e as pulseiras a lhes encherem os braços. Um a escultura está envolta até os pés pelo que pode ser um pano ou um a pele; outra usa um capuz, que se prolonga nas costas até abaixo da cintura. Am bas são exceções. A regra é que se cubram de contas.

Nas escavações, toparam -se contas de quartzo e estanho em abundância. O quartzo era trabalhado em form a de cilindros, com a aj uda de sulcos abertos em pedras m uito duras. Cortava-se o cilindro em pequeninos e furavam -se as contas

assim obtidas com um instrum ento de ferro. 7

Pois os hom ens de Nok conheciam o ferro. Desde a m etade do prim eiro m ilênio antes de Cristo. É o que nos dizem os testes realizados, pelos m étodos de radiocarbono, com elem entos recolhidos de escavações na área coberta pela cham ada cultura de Nok, escavações nas quais se encontraram terracotas associadas a utensílios de ferro, a restos de fornos, a pedaços de tubos pelos quais os foles sopravam o ar para dentro das fornalhas, e a escória de m inério. Dentre as prim eiras datas obtidas, as m ais antigas, referentes a achados em Taruga, um

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vilarej o a sudeste de Abuj a, situavam -se no século III a.C. Investigações

posteriores am pliaram para o século V9 e para o século VI a.C., ou m esm o para

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os séculos VII ou VIII a.C., a antiguidade do trabalho do ferro e da escultura

em barro cozido que o acom panha.

Para fundir o ferro, em pregavam um pequeno forno de poço raso. Faziam no chão um buraco arredondado, com pouco m ais de m eio m etro de circunferência e outro tanto de profundidade. Prolongavam para cim a a cavidade com um m uro

cilíndrico de barro, em cuj a base abriam os orifícios para os tubos dos foles.11 Com o ferro obtido, produziam lâm inas, pontas para lanças e flechas, argolas para braços, pulsos e tornozelos.

Nos depósitos correspondentes à cultura de Nok, localizaram -se tam bém m achado e obj etos de pedra. Julgou-se, por isto, que se estava diante de um a cultura de transição entre o Neolítico e a Idade do Ferro. Mais recentem ente, porém , em decorrência de escavações que puseram à luz locais onde os vestígios do uso do ferro não se m isturam com m achados de pedra nem com m icrólitos, passou-se a acreditar pertencerem os utensílios líticos a estratos de ocupação m ais antiga do que aqueles em que se m oldaram as estátuas de barro cozido. É possível tam bém que persistissem , com o arcaísm os, certas técnicas de trabalho na pedra em plena época dos m etais, à qual corresponderia a fase de m ais intensa criação da gente a que ligam os o nom e de Nok.

Muito se discute sobre com o teriam tido acesso à fundição do ferro. Alguns 12 supõem que possam tê-la novam ente inventado, m esm o sem o conhecim ento prévio das técnicas m etalúrgicas m ais sim ples do cobre e do bronze. Contavam , para isso, com um fator favorável: a abundância de m inério de ferro a céu aberto, nas terras lateríticas da região, um m inério que não necessitava, para fundir-se, das altas tem peraturas exigidas pela hem atita ou outros m inérios de rocha dura do Oriente Médio. Podia ser, assim , trabalhado em fossas sem elhantes às utilizadas para o cozim ento da cerâm ica, pelo m enos para obter-se o m etal im puro que alguns ferreiros africanos produzem pelos seus m étodos tradicionais. Não se encontraram , porém , até agora, provas de que a cerâm ica

tivesse sido cozida em fornos ou covas, na Nigéria, antes de Nok.13 Nem m esm o em Nok.

Outros querem crer que Nok tenha recebido de Méroe o uso do ferro. Este lhe teria chegado pelas rotas que, passando pelo Cordofã e o Darfur, iriam do Nilo ao lago Chade, ou até, m ais a noroeste, a grande curva do Níger. Haveria, porém , que conciliar as datas m ais antigas do ferro em Méroe com as de Taruga. Em Méroe, em bora se fundisse o ferro, em dim inuta escala, desde os séculos VI ou VII a.C., esse trabalho só se tornou m ais frequente após o IV a.C. Seria, portanto, contem porâneo da m etalurgia de Nok. E necessitaríam os recuar bastante o seu início no tem po para perm itir que a técnica percorresse as am plas estepes e savanas entre o Nilo e o planalto de Jos. Sobretudo porque, na fase inicial, o fabrico do ferro devia ser um a atividade esotérica. Tal com o sucedera entre os hititas, um segredo bem guardado. Restos da tradição de m istério sobreviveram , aliás, por toda a África, onde o ferreiro ou forj ador goza de situação de prestígio — o m ani, ou rei do Congo, era m em bro da fechada corporação que trabalhava o ferro —, se confunde m uitas vezes com o m édico-feiticeiro, ou é, por tem ido e desprezado, posto, com o entre os fulas, abaixo dos servos e escravos.

Um a terceira corrente advoga para o ferro de Nok origem norte-africana. Os fenícios, que com eçaram a instalar-se na costa m editerrânica da África nos séculos XII ou XI a.C., teriam transm itido as técnicas da fundição do ferro aos berberes. Elas teriam descido o deserto, na direção do sul, pelos roteiros que ligavam o golfo de Sidra ao Fezzan ou ao Tassili des Aj j ers, e destes ao Hoggar e ao Adrar dos Iforas, e dali à grande curva do Níger; ou do Hoggar ao Air, e do Air às savanas do norte da Nigéria; ou do Fezzan a Dj ado e ao Tibesti. Ou teriam vindo pelas sendas que unem o Marrocos ao Adrar m auritano, e este ao delta interior do Níger. Por cam inhos onde os oásis e os poços d’água eram m ais frequentes, graças aos m aciços m ontanhosos.

Nessas várias rotas do deserto, acum ula-se m ais de m eio m ilhar de desenhos rupestres de carros puxados por cavalos. Carros sim ples: sobre o eixo das duas rodas, um a pequena plataform a triangular presa a um a haste a cuj a ponta se atrelavam dois cavalos. Estes geralm ente se apresentam , na tradição

m iceniana, 14 em galope estendido (os m em bros posteriores e anteriores na distensão m áxim a, e os cascos sem tocarem a terra), a sim ular velocidade e voo.

Indicam essas figuras que os hom ens que as fizeram usavam carros puxados por cavalos ou os viam ser utilizados por outros. Os desenhos nem sem pre balizariam cam inhos — um a vez que se encontraram im agens de carros em

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lugares inacessíveis a eles e até m esm o a burros ou cam elos —, nem

indicariam rotas com pletas a vincularem as duas grandes praias do deserto. As vias frequentadas seriam bem m ais curtas, fracções dos grandes roteiros que hoj e traçam os sobre o m apa, e uniriam com unidades sedentárias ou

sem issedentárias,16 que viviam nos oásis, j unto aos leitos dos uedes e nas elevações onde o ressecam ento era m enor.

Com efeito, nada dem onstra se terem realizado, na Antiguidade, por essas zonas m enos difíceis que outras do deserto, viagens sistem áticas de com ércio desde os litorais m editerrânicos até as savanas do Sudão ocidental. E m uito m enos com carros puxados por cavalos.

Esses veículos, que se difundiram pelo norte da África a partir da m etade do segundo m ilênio a.C., eram extrem am ente frágeis. Não suportavam m ais do que um a só pessoa — e é com um a só pessoa que eles figuram nos desenhos rupestres. Deviam partir-se com facilidade, sobretudo ao rodar sobre os chãos difíceis do Saara. Os cavalos que os puxavam — dois quase sem pre, tendo sido

encontradas, no Fezzan, incisões de veículos com quatro cavalos,17 as quais

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confirm ariam a afirm ação de Heródoto de que a gente daquela região ensinou

aos gregos com o atrelar quatro anim ais num a carroça de quatro rodas — não tinham condições físicas para atravessar o deserto. Necessitavam de m uita água e de m uita forragem . Sem ferraduras, as patas do anim al feriam -se facilm ente e não suportavam longas distâncias. Além disso, o sistem a de atrelagem , com o varal preso a um a coleira m óvel no pescoço, ao dificultar-lhes a respiração, lim itava o percurso que os cavalos podiam fazer sem revezam ento e repouso, até m esm o na som bra e em boas estradas.

Os carros que se desenham nas rochas do Saara seriam utilizados na guerra, na preia de escravos, na caça, com o sím bolo de status e em corridas desportivas — o que explicaria a frequência com que são representados os anim ais em galope estendido. Não podiam esses carros aguentar senão carga m uito pequena. E os cavalos, por escassos e difíceis de m anter, certam ente gozavam de um prestígio

que os afastava do uso no transporte de m ercadorias. 19

Não obstante, certos desenhos m ais toscos e m ais destruídos pela ação do tem po, existentes nas rotas entre o Marrocos e a Mauritânia, j á foram lidos com o

carroças de carga, 20 puxadas por cavalos e bois, fazendo supor que a troca de sal do deserto por cobre m auritano ou pelo ouro do Sudão ocidental fosse praticada no prim eiro m ilênio antes de nossa era. Mas, com o diria Fernão Lopes, tam bém “aqui desvairam alguns autores”: há os que pensam que Cartago se abastecia de ouro de Uângara; os que j ulgam que o m etal am arelo só chegava ao Mediterrâneo, vindo da África Ocidental, de raro em raro; e os que sustentam que não houve, antes da difusão do cam elo, com ércio algum de ouro entre as

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duas m argens do Saara Ocidental.

As carroças de carga, se existiram , fariam som ente viagens curtas. Um pouco m ais longe podiam ir os bois de fardo, capazes de ficar sem beber por três,

quatro, cinco, ou até m esm o — quem sabe? — oito dias. 22 E os asnos, ainda m ais resistentes à falta d’água do que os bois, e m ais sóbrios, e m ais frugazes, e m ais duros. Seria tem erário, porém , arriscar-se, deserto adentro, com um a tropa de j egues.

Na Antiguidade, as ligações diretas entre os litorais do Saara foram feitos incom uns, de se contarem pelos dedos no fluir das gerações. Por isso, ganharam

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espaço na m em ória e nos livros. Heródoto, por exem plo, conta a história de

cinco j ovens nasam onianos que resolveram , por aventura, explorar o deserto. Munidos de água e alim entos, saíram de suas terras, j unto ao golfo de Sidra, e viaj aram m uitos dias, para sudoeste, até que encontraram algum as árvores. Colhiam frutos, quando foram atacados por negros baixinhos, que os levaram , por território alagadiço, até um a cidade ao lado de um rio que corria de oeste para leste. No rio — seria o Níger? — havia crocodilos.

O Saara só passou a ser atravessado regularm ente depois que o cam elo, nos prim eiros séculos de nossa era, se tornou habitual entre os nôm ades do deserto. Veloz, capaz de ficar sem água durante dez a quinze dias, com cascos esparram ados que não sofrem a areia fofa nem o chão de pedra dos desertos, resistente às grandes viagens, apto a suportar cargas de 150 a 200kg, o drom edário daria às tribos do Saara a possibilidade de fazer o com ércio de um a de suas m argens à outra e de controlar m ilitarm ente os oásis, os poços, as ralas pastagens e as sendas das caravanas.

O m ais provável é que, antes da dissem inação do cam elo, as aproxim ações entre o Mediterrâneo e os povos do Sael se realizassem indiretam ente, através dos habitantes do deserto, entre os quais avultavam os garam antes.

Esses garam antes viviam no Fezzan, no Saara central, ao sul de Trípoli. Viviam num vale estreito — um a fileira de oásis. Ali praticavam a agricultura e o pastoreio. E, cedo, devem ter-se organizado, com núcleo na cidade de Garam a (a atual Germ a), num estado que, com preendendo tribos sedentárias e nôm ades, acabaria por dom inar todo o Fezzan e por fazer tributários os povos vizinhos.

Heródoto, que visitou a África do Norte por volta de 450 a.C., diz que os garam antes perseguiam , em carros puxados por quatro cavalos, os velozes

“etíopes trogloditas”. 24 De suas palavras e de certos desenhos rupestres com guerreiros de túnica dórica e plum a líbica na cabeça, a dar com bate, do alto de carros, a hom ens a pé caracteristicam ente negros, inferiu-se que os garam antes

seriam berberes ou m estiçados, 25 26 e talvez os ascendentes dos atuais tuaregues.

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Deviam ser fortes nas arm as. Tácito os tinha por invencíveis. Não o eram : o

rom ano Cornélio Balbo os derrotou em 19 a.C., e Valério Festo, definitivam ente, em 69. Tornaram -se, então, um estado cliente de Rom a.

Bons com erciantes, controlavam o tráfico de carbúnculos, um a pedra tida em alto apreço e que não se sabe ao certo qual sej a. Suspeita-se que corresponda a um a espécie de calcedônia. O carbúnculo era o m ais fam oso item das trocas dos garam antes com Cartago e com Rom a, em bora tam bém lhes fornecessem alm íscar, ovos e plum as de avestruz, peles, m arfim , anim ais selvagens para os j ogos do circo e escravos. Alguns creem que tam bém ouro.

Não há indícios de que fossem buscar esses produtos no Bilad al-Sudan. Nem de que tenham estendido a autoridade até o sul do deserto. Os bens do Sael e da savana chegavam -lhes, possivelm ente, após passar de m ão em m ão, de grupo em grupo, pelas populações dos oásis e pelas tribos nôm ades que percorriam as áreas m enos ressequidas do Saara. Nesse processo de continuadas trocas, em que cada grupo aprendeu a m anter sob controle o trânsito de estranhos pelo território que tinha por seu, filtraram -se através do deserto novas técnicas e novas arm as, cuj as vantagens não passariam despercebidas a povos sob contínua am eaça de escaram uça e guerra — arm as de cobre e de ferro.

Ray m ond Mauny 28 foi dos prim eiros a propor ter havido no Saara ocidental um a Idade do Cobre. A arqueologia confirm ou-lhe as suspeitas e as da srª B. Crova, que, em 1912, encontrara, na Mauritânia, um a m achadinha e um a ponta de flecha daquele m etal. Em 1968, Nicole Lam bert, ao escavar um a gruta onde se abrigavam m orcegos, em Guelb-Moghrein, próxim o a Akj ouj t e à rota que, vindo do delta interior do Níger e passando pelo Adrar m auritano, leva ao Marrocos, viu-se no que era um a galeria de m ina de cobre. Os achados que lá fez foram datados do século V a.C. Posteriorm ente, em outro sítio perto de Akj ouj t, Lem dena, ela encontrou vestígios de m ineração e fundição de cobre,

entre os quais fragm entos de um forno e tubos de fole (tuy ères).29

Pesquisas ulteriores aprofundaram no tem po o conhecim ento do cobre no sul do Saara. Há sinais de que era fundido, em Guelb-Moghrein, desde o século VIII

a.C. 30 E aventou-se a hipótese de que o m ineral fosse trabalhado em Agadés e Azelik (quiçá a Takedda de Ibn Batuta, fam osa pelas m inas de cobre), j á dois m il anos antes de nossa era, em bora ainda não se procedesse à redução do

m inério.31 A escória ali recolhida revelou-se, porém , solo vitrificado e

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levantaram -se dúvidas sobre o que se acreditava serem fornos cilíndricos. Só

por volta do século IX a.C. são m ais claras as evidências do trabalho do cobre na

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região de Azelik e, uns cem anos m ais tarde, em vários pontos nas proxim idades de Agadés. Reaquecia-se e m artelava-se o cobre, para se fazerem pequenos pinos, lâm inas e pontas de flecha. Que se exportavam . Do m esm o

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m odo, talvez, que o m inério de cobre, qual sucedia em Akj ouj t.

Na Mauritânia, o cobre continha alta proporção de ferro — descartado com o ganga. Mas que pode ter sido trabalhado. E o foi, parece, em Assabat el

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Maddahia, a trezentos quilôm etros a nordeste de Akj ouj t, por volta de 500 a.C.

São da m esm a época sinais de que o ferro era produzido no Air. 36 E de um forno

em Do Dim m i obteve-se um a data do século VII a.C., 37 a atestar com o era antiga a fusão do ferro ao sudoeste do Saara. Os dados corroborariam a tese de que ali se conheceu desde cedo a m etalurgia do cobre, m as não indicam que tenha antecipado a do ferro, nem que haj a esta se desenvolvido a partir

daquela.38

Sabe-se pouco, portanto, sobre os inícios do trabalho do ferro ao sul do Saara. E este pouco não perm ite que se descarte um a só das hipóteses que alim entam o assunto. Entre elas, a de que, m uito em bora tenha recebido do Mediterrâneo ou da Ásia o conhecim ento do ferro, a África subsaariana tenha criado e

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desenvolvido um a tecnologia autônom a, distinta da eurasiana.

Com o quer que tenha sido — o ponto de interrogação continua enorm e —, o ferro alterou substancialm ente as vidas dos que passaram a conhecê-lo. Tornou-se m ais fácil, com m achados de ferro, derrubar as m atas; com enxadas de ferro, revolver o solo; com a foice de ferro, ceifar o sorgo. Os instrum entos de caça e pesca fizeram -se m elhores. Esfolavam -se com m aior facilidade os anim ais. Abriam -se nos troncos das árvores as grandes canoas. E, com as arm as de ferro, aum entaram o poder de destruição dos guerreiros e o poder de centralização de seus chefes.

Ekpo Ey o40 indaga se não se deveria à vantagem concedida pelas arm as de ferro a certa gente de Nok a uniform idade da escultura em barro e do estilo de vida por ela revelada, num a tão am pla área geográfica. E, ao insinuar que talvez houvesse, nessa am pla área, algum tipo de unidade política ou religiosa, pergunta quem seriam as personagens que as terracotas de Nok buscaram retratar. Heróis m íticos? Ancestrais? Reis? Chefes de linhagens? Indicariam , cobertos de adornos e de contas, que a sociedade j á atingira elevado grau de hierarquização?

São perguntas sem resposta. Quando m uito, pode-se conj ecturar que os responsáveis pela cerâm ica de Nok viviam em aldeias de casas de taipa, e que suas aldeias eram centros de com unidades agrícolas. Cultivavam o sorgo, o m ilhete, o inham e, o dendê, a abóbora estriada, o elim i ou ako. Esta oleaginosa, o dendê e a abóbora estriada são plantas características do sul da Nigéria, m as se acredita que a região onde se desenvolveu a cultura de Nok fosse então bem m ais úm ida e m ais arborizada do que atualm ente. De qualquer form a, a abóbora está representada em terracotas, e das escavações se retiraram nozes de dendê e sem entes de elim i. Um fragm ento de cerâm ica parece ser parte de um a vaca. E

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um a estatueta de barro m ostra um a m ulher com um a cesta de ovos. Quanto ao

com ércio, se os vilarej os da gente de Nok ficavam longe de qualquer das rotas transaarianas conhecidas, não se pode apartar a possibilidade de que interm ediassem nas trocas entre a floresta e a savana.

Há toda um a história por revelar-se nos am plos espaços que rodeiam a região coberta pela cultura de Nok. Seus coetâneos e vizinhos na geografia com eçam a ser descobertos, em Yelwa, em Kagogi, em Daim a, em Zária. Em Yelwa,

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trabalhava-se o ferro no século II de nossa era e se faziam terracotas com a

pupila perfurada, tal qual em Nok, nisto se esgotando as sem elhanças. Em Hani,

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na atual República de Gana, o ferro era fundido pela m esm a época. Em Rim ,

em Burquina Faso, pelo m enos cem anos antes. 44 Em Jenné-Jeno, na República

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do Mali, desde 250 a.C. Talvez algum dia venham os a conhecer os que, no

escoar do tem po, perm itiram , com seus legados, a existência de Nok, bem com o aqueles que lhe deram seguim ento. Quem sabe se não foi de Nok que o ferro se

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expandiu para boa parte do leste e para o sul da África?

Nada faz supor que tenha a arte de Nok desaparecido subitam ente, no fim do século II de nossa era. Até agora, no entanto, não se encontraram terracotas m ais recentes. Talvez porque os azares das escavações não nos tenham feito topar nenhum a delas. Talvez porque os artistas de Nok tenham m udado de m eio de expressão e regressado à m adeira. Não há esquecer: a duração dos restos de cerâm ica é praticam ente infinita, m as o barro cozido é, no uso diário, m atéria frágil. O contrário se passa com a m adeira: corrom pe-se com facilidade, ao longo dos anos, e só o constante cuidado faz com que sobreviva aos séculos; no correr da vida de um hom em , é, porém , m ais durável e de m ais côm odo, fácil e descuidado m anej o.

Contra essa tese trabalha a hipótese de que a cerâm ica dos dacacaris — habitantes atuais da m esm a área de Nok e que, com o seus vizinhos, as nações tive, j al, ham e num ana, preservam os penteados das estátuas de barro

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desenterradas do planalto de Jos — derive diretam ente daquela antiga cultura. E um a outra: a de que tenha havido, com a deterioração do am biente e o abaixam ento na direção do sul da linha da floresta, um deslocar equivalente dos povos que, com o os de Nok, estavam habituados a viver em cam pos cobertos, em zona de transição entre a savana e a m ata. Eles teriam vindo estabelecer-se onde

hoj e vivem os igalas, os nupes e os grupos setentrionais dos iorubás e dos ibos. 48

Têm -se, aliás, estabelecido conexões entre a arte de Nok e a arte da fase clássica de Ifé, que se situava, no Iorubo, entre a savana e a floresta. Segundo Frank Willett, a escultura de Ifé defluiria da de Nok, ou as duas teriam

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antepassado com um . E argum enta: tanto Nok quanto Ifé produziram terracotas quase do tam anho natural do hom em ; am bas tratavam de m aneira sem elhante, m uito sim plificada, troncos, braços e pernas; num a e noutra, o cabelo aparece em anéis; suas figuras ostentam grande quantidade de contas e os arranj os dos colares são m uito parecidos; os artistas daquela e dessa m ostravam enorm e interesse pelas deform idades e pelas doenças; e, se o naturalism o de Ifé não encontra correspondência na reprodução do rosto hum ano em Nok, nesta os anim ais eram figurados com extrem o realism o — elefantes, cobras e até m esm o carrapatos.

São débeis e vagos esses traços de aproxim ação estilística entre Nok e Ifé. A m aioria deles pertence às características gerais da arte africana. E m ais im portantes que as sem elhanças são as diferenças: na textura das superfícies, na m odelagem das cabeças, na curvatura das testas e das faces, no desenho dos olhos, dos narizes e das orelhas — e, sobretudo, na expressão e no espírito que anim am o todo. A tensão, entre angústia, espanto, expectativa e m edo, das cabeças de Nok, cede lugar, em Ifé, a um a serenidade que é quase distanciam ento e pureza.

Separam o fim de Nok do início de Ifé m uitos séculos. Durante esses séculos, as form as, as ideias e os processos desenvolvidos em Nok devem ter exercido influência sobre a arte dos que lhe eram vizinhos e, através deles e de seus sucessores, sobre outros povos, entre os quais o de Ifé. Não se está diante, porém , de um a derivação direta; e, se esta houve, Ifé representa um a ruptura da tradição de Nok.

Tão am pla foi a área sobre a qual, ao longo de um m ilênio, se estendeu a cultura de Nok, que m uitos de seus traços, alguns recebidos de outros povos que lhe foram anteriores ou coetâneos, devem ter-se dissem inado pela África Ocidental e nela se diluído. Não se resiste à tentação de procurá-los, hoj e e num passado m ais recente. Assim , aproxim am -se das pequenas terracotas de Nok as peças em pedra-sabão, os nom olis, criadas pelos sapes, sapés ou sapis, de Serra Leoa, e os paliteiros, saleiros e colheres de m arfim que eles faziam , no século

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XVI, de encom enda para os portugueses. E confrontam -se as cerâm icas de

Nok com as esculturas iorubanas, a buscar coincidências na ênfase nos olhos, que acabam , no Iorubo, por esbugalhar-se, na sim plificação das orelhas, na expressão tensa e quase m isticam ente atenta. No caso das m áscaras da sociedade gueledê, os olhos possuem o m esm o form ato, de m etade de círculo ou triângulo aberto, característico de Nok. Mais: a pupila é igualm ente perfurada, e sem qualquer necessidade funcional, um a vez que a m áscara não se coloca sobre o rosto do dançarino, m as, sim , no alto da cabeça.