A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 23 de 35

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A Enxada e a Lança

19. No alto rio Lualaba

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No alto rio Lualaba

 

Ao term inar o prim eiro m ilênio de nossa era, os povos bantos e abantuzados predom inavam ao longo do rio Zaire e de seus afluentes, bem com o nos cerrados e savanas que se estendiam ao sul da grande floresta equatorial. É bem verdade que persistiam aqui e ali grupos de pigm eus, de coissãs e de negros que ignoravam a agricultura, a m etalurgia e o pastoreio, protegidos pelas distâncias que separavam os nôm ades dos sedentários e cada vilarej o destes dos dem ais, num a geografia escassam ente povoada.

Os cultivadores devem ter-se fixado nas terras m ais favoráveis, às m argens dos rios, ao redor dos lagos, no alto dos chapadões, onde a m ata fosse leve e fácil de desbastar-se. Num a dessas regiões, o planalto de Batoca, no sul da Zâm bia, entre os vales do Cafué e do Zam beze, zona de solos férteis e de clim a fresco, de boas pastagens e de pronta aguada, e a que era alheia a tsé-tsé, fixou-se a gente que hoj e identificam os com a cultura de Calom o.

Vivia em aldeias sobre pequenas elevações, cuj a altura aum entava à m edida que casas antigas eram dem olidas para ceder lugar a outras, e que se cavava a área circundante para dela retirar barro para a construção, e que se acum ulavam os detritos e restos de cozinha ao lado das cabanas.

Cada m onte acom odaria um as cem pessoas. 1 Após alguns anos de ocupação, era abandonado, a fim de que as terras ao redor pudessem recuperar a fertilidade. Passado certo tem po, seus m oradores, que se m oviam assim entre

três ou quatro aldeias, 2 voltavam a habitá-lo. Graças a isso, foi possível reconstituir, com base nas escavações feitas num dos m ontículos, Isam u Pati, próxim o à atual cidade de Calom o, a história desses hom ens.

Isam u Pati deve ter sido ocupado interm itentem ente desde o século VII ou VIII até o século XIII. Outros vilarej os da cultura de Calom o podem ser, contudo, m ais antigos.

De início, com o revelam as cam adas m ais profundas das escavações, a aldeia dependia da caça e da coleta de raízes, frutos e grãos. Pouco a pouco, a agricultura foi aum entando de im portância. E tam bém a criação de anim ais — de bois, carneiros, cabras, cachorros e pequeninas galinhas. Só se encontraram até agora provas do cultivo do sorgo, m as é provável que seus habitantes tam bém plantassem m ilhetes, pois se acharam tulhas para guardar cereais e o sorgo não

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se arm azena bem . Com o sorgo, faziam cervej a e um a papa, que era a base de sua dieta.

Moravam em cabanas de estacas e barro socado, com cobertura de palha, e

que se dispunham , m uito provavelm ente, ao redor de um curral.4

De suas m ãos sobraram m uitos obj etos: um a am pla sequência de cerâm ica de boa qualidade — prim eiro, potes sim ples de boj o com barras nos bordos, decoradas com incisões, e depois, vasos globulares, m ais com plexos —; figurinhas de barro, de hom ens, bois e outros anim ais; contas feitas de ovos de avestruz; pontas de lança e de flecha, de ferro; e de ferro, tam bém , navalhas, talhadeiras, lâm inas, agulhas e braceletes, alguns m achados e enxadas, estas últim as em núm ero tão dim inuto, que se pensa que paus lastrados com pedras furadas fossem o principal instrum ento de trabalho da terra.

Eram parcos os enfeites. Em apenas um a sepultura encontrou-se m aior quantidade de braceletes de ferro e de m arfim e contas de conchas, talvez a

sublinhar a im portância social de quem os usava. 5 Um as poucas m içangas de vidro e alguns cauris confirm ariam que, de troca em troca, até o centro da África chegavam os artigos do Índico. De bem m ais perto, proviriam as contas e os fios de cobre desenterrados de várias aldeias pertencentes à cultura de Calom o.

Dos poucos e pequenos obj etos de ferro conclui-se que a m etalurgia, m esm o no século XIII, ainda não se im pusera de todo com o um a força transform adora

da cultura m aterial dos habitantes de Isam u Pati, 6 ao contrário do que se passava com outro povo banto, que vivia m ais ao norte, na depressão de Upem ba, no alto rio Lualaba, no Catanga ou Chaba.

Ali, escavações efetuadas no grande cem itério de Sanga (na m argem setentrional do lago Kisale) e em vários outros sítios arqueológicos revelaram que, no início do XIV, a cerâm ica do tipo quisaliano cedeu lugar a um a outra, a de Mulongo ou da fase A da cultura cabam biana. Esse novo estilo talvez

descendesse diretam ente do Quisaliano7 e não expressasse, portanto, um a ruptura cultural ou étnica. Tanto os que m oldavam o barro à m aneira quisaliana, quanto os que o faziam segundo os novos m oldes, viviam principalm ente da pesca e da caça, num a região de lagos e rios piscosos, de vegetação pouco densa e fácil de ser vencida pela agricultura deam bulante, com pluviosidade suficiente para o cultivo do sorgo e do m ilhete, e com áreas de solo m ais úm ido, onde cresciam os pés de banana e as palm eiras oleaginosas.

Os barros de Mulongo m ais com uns e característicos possuem , com o os quisalianos, a base arredondada, m as a curva de seu perfil é m uito m ais aberta, o que lhes dá a im pressão de achatam ento. O colo dos potes é cilíndrico, decorado horizontalm ente com fortes sulcos paralelos. As bocas são m uito abertas, com um diâm etro quase idêntico ao do boj o do vaso. Alguns dos recipientes podem apresentar-se sem qualquer decoração. Outros são trilobados — j á apareciam nas sepulturas quisalianas — e talvez se utilizassem para levar fogo, sob form a de

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carvão em brasa, nas canoas de pesca.

Nas tum bas cabam bianas havia, além de variados instrum entos e obj etos de ferro e cobre, um a grande quantidade de croisettes. Com o avançar do tem po, esses lingotes de cobre em form a de um H cuj os braços e pernas fossem m ais

abertos, dim inuíram de tam anho e se padronizaram ,9 o que faz supor que fossem usados com o m oeda, hipótese que se fortaleceu com a descoberta, num a cova,

de um bom núm ero de cruzetas am arradas em grupos de cinco.10

A África Central

 

A distribuição das cruzinhas, das j oias e dos utensílios de m etal e de barro varia de um sepultam ento para outro, a revelar, na dessem elhança do conteúdo das tum bas, as diferenças sociais. Desde o Quisaliano, parece claro que o uso do cobre distinguia as pessoas, indicava riqueza, im portância, prestígio e poder. E talvez j á fossem sím bolos de autoridade os agogôs e os m achados cerim oniais com cabos de m adeira enfeitados por pregos grossos, que se encontraram nas sepulturas quisalianas.

Machados idênticos seriam depois em blem as de poder entre os lubas. a E com o a fase B do Cabam biano, a que corresponde a cham ada cerâm ica de engobo verm elho (c. século XVI a c. século XVIII), é sem elhante à cultura recente dos lubas, propõe-se um a linha contínua a ligar os antigos habitantes da depressão de Upem ba aos atuais lubas, cuj as instituições políticas podem ter lá tom ado

form a. 11

A uns 130km rio acim a de Sanga, em Katoto, há outros sinais de hierarquização e m ando. Identificaram -se ali j azigos com inum ações m últiplas, que corresponderiam a personagens im portantes, talvez chefes-ferreiros, e a criaturas que foram sacrificadas para acom panhá-los na m orte. Num caso, duas m ulheres e quatro crianças; noutro, duas m ulheres e um infante. Nas tum bas, havia um m artelo de ferreiro, bigornas, um m achado de guerra e um a porção de

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pontas de flecha e lança. Isso indicaria j á existir em Katoto, num a época

contem porânea pelo m enos ao final do Quisaliano, um a organização política bem m ais centralizada do que a tram a de linhagens, grupos de idade, associações de titulados e sociedades secretas. Um a estirpe j á se teria destacado entre as dem ais, ou sobre elas se im posto — e, sintom aticam ente, um a estirpe de ferreiros, ofício que entre vários povos bantos está ligado à realeza e que, por quase toda a África, onde quem trabalha o ferro é vil ou exaltado, se vincula estreitam ente ao poder sobre a natureza e à m agia. Não seria de excluir-se que o tem eroso desprezo votado aos ferreiros por certos povos, com o os senufos, os m ossis, os fulas e os am áricos, espelhasse a substituição de um a elite afeita aos foles e à forj a por novos senhores do poder.

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Supõe Jan Vansina que, na segunda m etade do prim eiro m ilênio, a

m etalurgia do ferro tenha experim entado, no recesso das florestas do Congo, um grande avanço, graças ao uso de m adeiras duras, as quais teriam perm itido que o m inério recebesse tratam ento a tem peraturas m uito m ais elevadas do que anteriorm ente. Produziram -se assim enxadas de lâm ina m ais larga, pontas de lança m ais com pridas e m achados m aiores. Em consequência, expandiu-se a produção agrícola e am pliou-se a eficácia dos guerreiros.

Com o aum ento da área cultivada e das colheitas criaram -se excedentes de produção que incentivaram o crescim ento e a concentração dem ográficas, a troca de bens agrícolas por artigos das com unidades vizinhas e o surgim ento de m ercados, a divisão e a especialização do trabalho dentro do grupo, e o fortalecim ento daqueles a que se atribuíam forças m ágicas, que eram superiores na guerra ou hábeis árbitros das disputas entre linhagens.

O adensam ento da população deu-se sobretudo nas regiões de contato entre a savana e a floresta, onde era possível beneficiar-se dos recursos de um a e de outra e servir de interm ediário no com ércio entre elas. Os hom ens da floresta adquiriam nas savanas cobre, sal, m inério de ferro, tecidos de ráfia. A gente da savana com prava da floresta artigos de ferro, copal, canoas, tinturas vegetais. Muitas vezes, ao longo dos rios, os pescadores se m udavam em m ercadores. Assim terá sido no alto Lualaba, onde deve ter surgido desde cedo um com ércio a distância, baseado no cobre, com , entre outras áreas, o m édio Zam beze, cuj as águas e canoas iam dar no Índico.

Junto aos lagos e lagunas da depressão de Upem ba, a evolução política foi possivelm ente sem elhante à que se processou em outras regiões da África. Certas aldeias, situadas em pontos de passagem ou próxim as a fontes de recursos naturais im portantes, com eçaram a atrair estrangeiros. A necessidade de controlar e proteger recursos escassos, com o j azidas de ferro e cobre ou depósitos de sal, contra a cobiça alheia, de regular o afluxo de gente de fora, de disciplinar os m ercados, de estabelecer novo tipo de contrato entre pessoas e grupos sem vínculos de sangue e antepassados com uns — todos esses fatores contribuíram para robustecer o poder daqueles que se arrogavam a faculdade de controlar as forças por trás da natureza, de atrair as chuvas, de prom over a fecundidade, de com andar os guerreiros. De árbitro entre os m ercadores, o chefe que se fazia rei passou a m onopolizador do com ércio. E, com a riqueza do com ércio e a afirm ação das arm as, a acum ular escravos e a expandir os efetivos que tinha sob suas ordens diretas e que podia em pregar livrem ente contra os inim igos internos e externos. Quanto m aior fosse o núm ero de indivíduos, livres e escravos, que um rei tivesse sob seu dom ínio, m aiores a sua autoridade e o seu prestígio.

As descobertas arqueológicas de Sanga, Katoto e outros pontos da região lacustre do alto Lualaba confirm ariam a épica nacional luba, que ali põe a

origem do estado. Contam as tradições 14 que às terras do rio Bushim ai, onde

b

havia um a série de pequeninas chefias lubas calangas, veio ter, em certo

m om ento da história, um chefe de nom e Congolo. c Subm eteu ele várias aldeias isoladas, absorveu pequenos sobados e construiu sua capital em Muibele, próxim o ao lago Boia. Mais tarde, proveniente de algum lugar ao leste do Lualaba, chegou às vizinhanças de Muibele um grupo de caçadores, com andado por Ilunga

d

Um bíli. Foi este bem recebido por Congolo, que lhe deu em casam ento duas de suas irm ãs, Bulanda e Mabela. Logo após o m atrim ônio, porém , os cunhados se inim izaram , por haver Ilunga Um bíli tentado im por a Congolo um a nova etiqueta de corte e um novo com portam ento de rei. A briga fez com que Ilunga Um bíli retornasse à pátria. Mas deixou prenhas Bulanda e Mabela. Da prim eira nasceria

Calala Ilunga, e o grande guerreiro.

De início, Congolo usou o sobrinho com o chefe m ilitar, para aj udá-lo a subm eter as gentes que viviam ao sul do reino. Mas, depois, tom ado de invej a ou de suspeita, tentou assassiná-lo. Calala fugiu para a terra de seu pai, de onde regressaria com um forte exército, para infligir derrota a Congolo. Morto, este se deifica, faz-se o senhor das chuvas e assum e a form a de grande cobra verm elha,

que se m anifesta no arco-íris. 15 Cobra e arco-íris serão o sím bolo da realeza,

entre os lubas. 16

Calala Ilunga assum iu o reino. Construiu, com o passaria a ser de praxe para cada soberano, um a nova capital. Em Munza, a alguns quilôm etros de Muibele. E retom ou as cam panhas m ilitares, para a am pliação de seus dom ínios.

Ao período de Congolo dá-se o nom e de prim eiro im pério luba. Com Calala com eça o segundo.

Quando se teria dado tudo isso? Um a interpretação literal das tradições e das genealogias, cotej adas com os docum entos portugueses, aponta para o início do

século XVI, 17 ou algum as décadas antes, com o a época em que a m onarquia se

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im pôs entre os calangas. Congolo teria fundado Muibele entre 1500 e 1550. Há

quem pense, entretanto, 19 não haver elem entos que perm itam estim ar a data em que teria surgido o estado luba calanga, no Chaba, m as que isto se situaria possivelm ente m uito antes do início do século XVI. No século XIII ou m ais cedo ainda. O que se argum enta é que os nom es de seus reis correspondem não a indivíduos, m as a posições políticas e estirpes dentro dessas posições. Seria, assim , im possível estabelecer, nas genealogias, o período aproxim ado de tem po por elas coberto. Congolo não seria um só indivíduo, m as vários reis que usaram com o título o m esm o nom e.

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A ideia-força por trás da m onarquia luba era o conceito de bulópue. Bulópue

era um a qualidade sagrada, que residia no sangue dos descendentes de Calala Ilunga — e tam bém de Congolo — e lhes dava o direito de governar. Essa virtude especial transm itia-se pela linha m asculina, estava restrita aos hom ens, e quem a possuísse devia ser chefe, ainda que chefe subalterno.

O rei era, consequentem ente, um vidie, um espírito da natureza, um ser sagrado, capaz, pela força de seu bulópue, de proteger o país contra o m al, de favorecer a fertilidade das terras, dos anim ais e das m ulheres, de regular as chuvas e de propiciar o êxito da caça. Tudo dele em anava. Tanto assim que, ao ser investido, prendia um novo fogo, e deste fogo todos os súditos vinham tom ar, para acender os de suas próprias casas. Com o outros reis sagrados, o soberano luba não com ia nem bebia em público, a fim de não expor sua condição hum ana. Mas o próprio conceito de bulópue continha a sem ente do que lhe contrabalançava o poder teoricam ente divino: a constante am eaça de que um de seus irm ãos lhe pudesse contestar o m ando.

Na base de tudo estavam as linhagens. Cada linhagem era engrossada por clientes e por escravos dom ésticos e podia form ar, sozinha ou som ada a algum as outras, um a aldeia. Esta aldeia tinha por cabeça, no caso de ser constituída por m ais de um a linhagem , o patriarca daquela que fosse considerada a principal. E um conj unto de aldeias com punha um a chefia, cuj o titular, o quilolo, podia ser hereditário — quando da estirpe dos “donos” ou “senhores da terra” — ou indicado de form a direta pelo rei, ou indiretam ente, pelos governadores das províncias em que se englobavam as chefias. Os governadores das províncias eram nom eados pelo soberano dentre a gente de sangue real, isto é, com bulópue. O rei podia destituir qualquer chefe ou governador, e havia algum as chefias e aldeias que dependiam diretam ente dele.

O rei governava da sua quitenta — a capital que construíra ao assum ir o m ando — por interm édio de um pequeno grupo de funcionários titulados, seus parentes próxim os e que com pravam as posições com grandes presentes. Os dois principais eram o tuíte, ou condestável, e o inabanza, o guardião dos em blem as sagrados reais.

Após a m orte do rei, o tuíte perm anecia na quitenta — área doravante sacrossanta e fora do controle do novo soberano e de seus sucessores —, em com panhia de sua m ulher, a m uadi, que se com unicava com o espírito do m onarca falecido. Quando os guardiões tam bém passavam , seus descendentes continuavam a cum prir-lhes a incum bência.

Era grande a im portância dos m édiuns no culto dos ancestrais-heróis. E estes talvez j á ganhassem a form a das adm iráveis esculturas de m adeira — realistas, serenas, de curvas suaves e doces volum es, cheias de dignidade e, para o nosso olhar, tom adas de m elancolia — que fizeram fam osos os lubas. Já então, talvez, os seus toreutas talhassem elegantes bastões de chefia, travesseiros para o apoio da nuca, tam boretes com as cariátides que tanto viriam a seduzir e influenciar Modigliani, figuras de um boco, isto é, de m ulheres sentadas ou aj oelhadas, com um vaso boj udo sobre as rótulas ou diante das pernas dobradas, vaso que continha a areia branca necessária às práticas divinatórias, areia proveniente da pátria dos antepassados.

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O que acim a se diz sobre os lubas calangas e sobre o estado cuj a criação as

tradições atribuem a Congolo e a Calala Ilunga poder-se-ia aplicar provavelm ente a vários outros reinos lubas, com o os de Canioque, Bena Calundue e Quiconj a. Calundue, que, na época da conquista de Congolo, com preenderia apenas quatro aldeias e seria governado por Bena Basonge, passou depois ao

controle de um a fam ília lunda. f Sobre Canioque, nada de im portante se sabe. E sobre Quiconj a, m uito pouco. O reino foi fundado por Bom bue Um béli e tinha

por base econôm ica o peixe do lago Kisale e o azeite de dendê. 22

O nítido desenho luba da realeza sagrada propagar-se-ia para leste e para oeste. E viria a adquirir grande dinam ism o de difusão e contornos im periais, entre vizinhos próxim os a ocidente, os lundas.

Os lundas viviam da pesca e da agricultura, desde tem pos im em oriais, no vale do Kalany, um dos form adores do rio Bushim ai. Distribuíam -se possivelm ente por pequenas aldeias, cada qual com um a ou algum as poucas linhagens, cuj o líder, o cabungu, respeitado pela idade, pela experiência e pelos poderes espirituais, seria tam bém , ao que parece, um “senhor da terra”.

Os cabungus (ou tubugu, que é a form a plural em lunda) ocupavam , com o parentesco sob seu com ando, pequeninos territórios e só cediam um pouco de sua independência em caso de guerra ou necessidade, quando se agrupavam em torno de um deles, cuj a prim azia ritual reconheciam .

Ao crescer consideravelm ente a população de um a aldeia, um grupo dela se apartava e ia fundar nova com unidade. O cabeça do grupo, se filho, filha, irm ão, irm ã ou sobrinho do cabungu de cuj o vilarej o havia saído, continuava a m anter com este os vínculos políticos derivados do parentesco. E se um , ou o outro, ou am bos falecessem , seus descendentes conservavam , nas respectivas chefias, a m esm a relação de fam ília. Criou-se assim um parentesco perpétuo entre as chefias, sem correspondência direta com os laços de sangue, e isto favoreceu a m anutenção dos vínculos políticos entre as aldeias e os agrupam entos de aldeias, que passaram a form ar um a espécie de confederação.

Cada chefe estava, portanto, ligado a outro com o se dele fora pai, m ãe, esposa, irm ão, sobrinho. Pois o sucessor de um a chefia — ou de um título, dentro da com unidade — tornava-se o falecido, seu predecessor: dele assum ia as m ulheres, a personalidade e o nom e.

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Esse sistem a de sucessão de posições e de parentesco perpétuo divorciou a

estrutura política da estrutura fam iliar. Criou um a linhagem de posições e títulos políticos que existia independentem ente de seus ocupantes, dos laços de sangue e do próprio sexo, nada im pedindo que um título fem inino fosse ocupado por um hom em . Fixou no tem po, com a constância dos nom es, os dirigentes, suas funções, a precedência e o trato entre eles, regido por genealogias fictícias. Era um título que era pai, m ãe, esposa, filho ou irm ão de outro, e os detentores dos títulos com portavam -se de conform idade com isso.

Dentro da fixidez desse arcabouço havia elem entos de instabilidade. As aldeias e, no interior das aldeias, as linhagens que as form avam não tinham todas o m esm o potencial hum ano e os m esm os recursos econôm icos. Um as possuíam m ais gente do que outras, dispunham de m elhores terras para roçados, de m elhores pontos de pesca ou cam pos de caça. As aldeias ou linhagens m ais fortes e m ais ricas tendiam a se im por sobre as m ais fracas. E, com o a posição relativa de poder entre as linhagens de sangue se alterava ao longo do tem po, m uitas vezes deixava de coincidir com o parentesco perpétuo entre seus respectivos cabungus. Na época em que isto ocorria, quando, por exem plo, a grande fam ília de um cabungu-pai se tornava m uito m ais débil do que as dos cabungus-filhos, im punha-se um realinham ento de posições, para corrigir o divórcio entre a realidade e a hierarquia form al. Nesses casos, o provável é que o título m ais alto se extinguisse.

Foi a partir da análise dos sistem as de sucessão de posições e de parentesco

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perpétuo que Joseph C. Miller reinterpretou a antiga história lunda, preservada

na sua tradição oral e na m em ória de outros povos, com o os quiocos e os bângalas. Presum iu ele que todos os nom es nas genealogias se referissem a títulos, e não a indivíduos, e que as narrativas descrevessem acontecim entos históricos sob veste m etafórica.

Conta um a das versões da lenda:25 g havia um rei que se cham ava Iala Muacu

h i j

e tinha dois filhos, Quinguri e Ciniam a, e um a filha, Luej i. Certo dia, os dois rapazes, ao voltar para casa, à noitinha, encontraram o pai a entretecer um a esteira de ráfia. Tom aram a água onde o velho m olhava a ráfia por vinho de palm a e lhe pediram de beber. Iala Muacu respondeu-lhes que aquilo era apenas água. Mas os filhos não acreditaram no pai, cham aram -lhe m entiroso e o espancaram ferozm ente. Luej i, ao chegar m ais tarde, encontrou o velho m oribundo e cuidou de seus últim os m om entos com carinho. Iala Muacu deserdou os filhos e designou Luej i sua sucessora. Esta era ainda m uito j ovem e, em bora tivesse recebido o lucano, ou bracelete que sim boliza a autoridade real, governou am parada no conselho dos cabungus m ais velhos e m ais sábios. Posteriorm ente, ela casou-se com um estrangeiro, um caçador luba, Cibinda Ilunga, que trouxe novos costum es ao reino. Quinguri e Ciniam a não aprovaram o m atrim ônio e, zangados, abandonaram a Lunda, em bora sem desistir de reaver, pela força das arm as, o que consideravam sua herança.

Talvez a lenda nos traga do passado o seguinte:26 — Num determ inado m om ento histórico, na Lunda, um dos cabungus, de título iala m uacu, e sua linhagem lograram certa ascendência sobre os outros chefes e suas estirpes. Esta ascendência seria sobretudo ritual, um a vez que ele é lem brado pela tradição com o um prim eiro entre iguais. O quinguri, o ciniam a e a luej i seriam títulos diretam ente subordinados ao iala m uacu e, portanto, seus filhos. Alterando-se o poder relativo entre as estirpes, o quinguri, associado ao ciniam a e a outros chefes — citados de m aneira m ais vaga, com o o m auej e, o m unj um bo, o calungo, o casongo e o ij ala —, rebelou-se contra o iala m uacu e o derrotou, suprim indo título e linhagem . Destruíram -se, portanto, os em blem as de autoridade do iala m uacu, elim inando-o ritualm ente da estrutura de poder. Na luta, que pode ter sido breve ou se estendido por m ais de um a geração, o cabungu luej i e sua gente devem ter tom ado o partido do iala m uacu e, vencido este, prosseguido na luta pela suprem acia, contra o quinguri e o ciniam a. O triunfo do luej i deve ter-se devido ao bom apoio que recebeu de m uitos outros cabungus, os m esm os que lhe form aram o conselho de governo. Este colegiado, que pode ter representado um a reação ao processo centralizador, acabaria por agir de form a contrária aos seus interesses iniciais, um a vez que os cabungus se m udaram de seus territórios para a aldeia luej i, estabelecendo-se assim a prim eira capital pan-lunda.

Não cessara, porém , a am eaça m ilitar do quinguri e do ciniam a. E contra ela teria a gente do luej i e de seus aliados ido buscar apoio entre os lubas ou o reforço de suas técnicas e de suas instituições. É então que entra em cena o herói civilizador a quem cham am Cibinda Ilunga.

Cibinda Ilunga era m eio-irm ão do segundo rei luba, Ilunga Ualuefu.k27 Era, com o Ilunga Um bíli (pai de Calala Ilunga, o fundador do segundo im pério luba), um grande caçador e líder de caçadores. E os caçadores e suas sociedades secretas devem ter exercido considerável papel na centralização do m ando político e na organização do poder coercitivo do estado.

Não se tinham , contudo, por poderosos apenas porque m estres no uso das arm as, m as tam bém porque donos de fortes poderes m ágicos. No seu aprendizado iniciático, os caçadores instruíam -se no m anej o do arco, no fabrico das arm adilhas e no preparo dos feitiços que enfraqueciam a velocidade da caça, dirigiam com precisão as flechas para o alvo, protegiam contra as cobras e as feras, davam as faculdades de voar e de tornar-se invisível. Os caçadores form avam um a grande fraternidade, por cim a dos laços de fam ília.

Cibinda Ilunga talvez tenha servido de árbitro externo nas lutas entre as facções lundas. E trazido para o partido do luej i a ideologia da realeza sagrada que se im pusera entre os lubas. É possível ainda que fosse portador de um a nova técnica de produção do ferro e de arm as m ais pesadas. Isto, se realm ente existiu, se foi hom em de carne e osso, e não som ente o sím bolo da im pregnação cultural dos lundas por novas arm as, novos m étodos de caça, novas técnicas de organização social e novas ideias dos lubas.

Fosse o que fosse, a antiga confederação de linhagens lundas transform ou-se num poder centralizado, sob um rei divino, com o resultado da aliança do rei-caçador estrangeiro, ou da concepção de realeza luba, com um a antiga e im portante estirpe lunda. A autoridade política teria, no m atrim ônio descrito pela tradição oral, adquirido o estado m asculino, enquanto que a linhagem do título

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luej i se tornava fem inina.

Mas Luej i, a esposa, não teve filhos, de m odo que o sucessor de Cibinga Ilunga

l

nasceria dele e de um a outra m ulher, Cam onga Luaza, servidora daquela.

Cham ou-se o novo rei Muata Lusinguem e consta ter sido um grande organizador e ter instituído os títulos territoriais e da corte. O nom e de seu filho e herdeiro,

Muata Ianvo,n 29 daria a denom inação genérica aos reis da Lunda.

Talvez o relato explique a perda de prestígio relativo do título luej i, que passaria a título secundário de um a nova posição, a suana m ulunda, ou “m ãe da Lunda”. Mesm o assim , m anteria ascendência sobre os dem ais cabungus, reduzidos a

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conselheiros do rei.

Toda essa evolução deve ter durado várias gerações. E não é possível situá-la

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no tem po senão de form a hipotética. Jan Vansina colocou Cibinda Ilunga entre

1600 e 1630. Mas a data foi consideravelm ente recuada por Joseph C. Miller: 32 para, quando m enos, o século XV, em bora considere não haver dados que j ustifiquem um a estim ativa clara de quando a Lunda se tornou um estado centralizado. David Birm ingham , que sustentara o período de 1520 a 1540 com o

o da partida da Lunda de Quinguri,33 posteriorm ente reconsiderou sua posição e

pôs nos séculos XIV ou XV a chegada de Cibinda Ilunga. 34 E não faltou um

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Christopher Wrigley para retirar inteiram ente essa personagem da História e a

devolver, j untam ente com Congolo, Ilunga Um bíli, Calala Ilunga, Iala Muacu, Quinguri e Luej i, ao tem po cíclico do m ito.

De quando quer que se date, o processo de centralização do poder foi acom panhado pelo expandir do dom ínio do m uata ianvo sobre as com unidades lundas e não lundas que lhe ficavam próxim as. Dentro de algum tem po, todo o território entre o vale do Kalany, o Cassai e as fontes do Lulua lhe estava subm etido.

O dilatar dos confins do reino teria sido m uito facilitado pelo sistem a de sucessão de posições e de parentesco fictício e perpétuo sobre o qual se fundava a sociedade lunda. O sistem a podia aplicar-se a qualquer estrutura de fam ília e de herança, fosse patrilinear ou m atrilinear, e perm itia incorporar à classe dom inante os chefes m ilitarm ente derrotados. Estes continuavam “senhores da terra”, com o “senhores da terra” eram os cabungus.

Os cabeças de aldeias form avam , de conform idade com o parentesco perpétuo que os vinculava, um grupo sob o com ando do título de m aior precedência, que tom ava o nom e de um bai. Quinze deles tinham assento no conselho do rei, o citentam , no qual, por volta de 1700, tam bém figuravam os representantes dos chefes de povos conquistados e vários funcionários cingidos ao rei por laços diretos de parentesco perpétuo. Cada um destes funcionários — com o a suana m ulunda, o suana m ulópue, ou príncipe coroado, o m utii, ou condestável — tinha por “filhos” um ou m ais cilolos, agentes da coroa que viviam fora da corte, com o um a espécie de governador de distrito. O cilolo sobrepunha-se a um conj unto de um bais e deles recolhia tributos, m as não tinha,

com o eles, poder religioso sobre os hom ens e a natureza. 36 Essa estrutura política, de m odelo luba, tal com o observada no início do século XVIII, j á devia existir, pelo m enos em em brião, nos prim órdios da m onarquia lunda.

A expansão dos lundas não se restringiu ao avanço im perial do m uata ianvo. Dela teriam sido tam bém agentes os opositores de Luej i e de Cibinda Ilunga, os secessionistas com o o quinguri e o ciniam a. Do ciniam a sabe-se que se deslocou para o sul e foi tornar-se o principal título entre os luenas, no alto Zam beze. O quinguri terá longa aventura e se m ultiplicará na geografia e nos séculos.

Insatisfeitos com a im posição da m onarquia do tipo luba no Kalany, alguns cabungus, com seus fam iliares e sequazes, abandonaram a pátria e foram instalar-se entre outros povos, sobre os quais se im puseram pelas arm as, pelo tem or dos seus feitiços ou pela força de suas novas ideias e instituições. Em alguns casos, pode ter havido sim plesm ente a m igração dos títulos e das funções políticas a que correspondiam . Dado o prestígio desses títulos, m uitas tribos os

adotaram , m esm o sem contato direto com as classes dom inantes lundas. 37

 

Duas cabeças de estatuetas quiocas de Cibinda Ilunga

 

A dissidência quinguri trilhou o cam inho do oeste, Angola adentro. E levou com ela, não apenas os sím bolos tradicionais das chefias lundas (o bracelete lucano, os tam bores especiais e o agogô), m as tam bém as arm as, os feitiços e a sociedade secreta dos caçadores lubas. Acom panharam o quinguri outros títulos a ele vinculados pelo parentesco perpétuo e que depois se tornariam os m acotas, im portantes chefes do Caçanj e.

Nos prim órdios de seu vagaroso deslocam ento para o ocidente, os quinguris

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talvez tenham fundado um reino próxim o à cabeceira do rio Cicapa e

estabelecido seu poder sobre os quiocos.o Criaram depois um estado entre os songos, que viviam sobre os rios Luando e Jom bo.

Mas nas pegadas do quinguri vieram os títulos lundas do m uata ianvo cuj o im pério lentam ente se expandia. Para defender a Lunda da desforra quinguri, diz a tradição, por exem plo, que o m uata ianvo enviou vários de seus chefes a fundar estados vassalos a sudoeste. Um dos cabeças, o m ona quim bundu, estabeleceu-se ao norte da nascente do rio Cicapa e governou, com o vários outros de seus pares, um a população quioca. Foi assim que Cibinda Ilunga se tornou o herói nacional dos quiocos e a principal personagem , com seu chapéu cheio de curvas e de viseira voltada para trás, da rica e abarrocada escultura que fez fam oso aquele povo e o contrasta com os lundas. Estes últim os não tiveram estatuária própria, em bora vivessem lado a lado dos quiocos e de outras nações que produziram arte

adm irável — os lubas, os cubas,p q os luluas.

De um m odo geral, as form as políticas m ais efetivas dos lubas, adotadas pelo im pério lunda do m uata ianvo, iriam substituir, ao longo do tem po, as instituições ligadas ao quinguri. Com o se este título e os dele dependentes tivessem servido de vanguarda às próprias novidades contra as quais se rebelaram . Im punham -se em certo território, para em seguida serem dele expulsos e obrigados a avançar ainda m ais para oeste.

Tam bém para leste e sudeste se expandiram os lundas, através dos cam pos e das savanas que se estendiam além dos lagos do Chaba. Pequenos grupos de nobres lundas criavam novas chefias, im punham -se com o régulos sobre estruturas de linhagens, m esclavam -se a outras gentes para dar origem a novas tribos e a novos estados, num constante m ovim ento de cissiparidade, de tal m odo que, num vasto território a desdobrar-se pelo norte da Zâm bia, no lado oriental do lago Moero e seu afluente, o rio Luapula, quase todas as estirpes de m ando

reivindicam procedência lunda. Assim entre os bem bas, r que afirm am terem seus grandes chefes, os chitim uculus, vindo do ocidente, das terras dos lubas e dos

lundas. 39

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Lubas seriam igualm ente, segundo algum as tradições, os ancestrais do clã

de senhores dos m aláuis ou m alavis, s povos que vivem ao norte do rio Zam beze e ao redor do lago Maláui ou Malavi, que deles tom ou o nom e.

O clã Firi, que teria fundado os vários estados m alavis, por volta do século

XIV 41 42 — ou bem m ais tarde, a partir do fim do Seiscentos —, introduziu na área o conceito do m onarca sagrado, a devoção pelo túm ulo dos soberanos e o ritual do fogo, que, com o entre os lubas, se prendia na ascensão do rei e só se apagava com o desaparecim ento deste. Acendia-se o fogo em esteiras usadas

nas cerim ônias da pubescência, para sim bolizar a vida e a fertilidade.43

Os novos costum es dos Firis sobrepuseram -se aos cultos territoriais e às

instituições políticas m ais antigas dos antepassados dos cheuas, t m anganj as,

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tum bucas e outros grupos do Maláui. De um m odo geral, esses povos viviam

em aldeotas, sob a liderança de cabeças de linhagens. E adoravam um deus suprem o — Chiuta entre os tum bucas — que se com unicava com a hum anidade através de um espírito, cham ado Chicangom be pelos tum bucas e Tunga pelos cheuas. Esse espírito tom ava a form a de um a serpente, que o vento levava de m ontanha a m ontanha e que estava associada à chuva. Chicangom be ou Tunga casava-se com m ulheres da terra e as visitava e possuía sobretudo no alto dos m ontes, onde se instalaram santuários. As esposas do espírito, com o tem po, acabaram por form ar um a casta sacerdotal.

Entre os cheuas e m anganj as, estabeleceu-se tam bém um a hierarquia dos santuários. Uns poucos — com o o de Kaphirintiwa, em país cheua, e o de Thy olo, em território m anganj a — eram considerados “m ães” de m uitos outros. E a esposa da serpente que presidia cada um dos tem plos passou a ser reconhecida com o autoridade secular e a ter o controle da concessão e do uso das terras.

Com a chegada dos Firis, o m ando transferiu-se das m ãos das m ulheres para as m asculinas. E o clã dirigente procurou im por sua religião de corte sobre os grupos dom inados. Teve certo êxito entre os m anganj as m eridionais, porém , na m aior parte dos casos, foi constrangido a com por-se com os antigos cultos territoriais e a m esclá-los e incorporá-los à crença oficial. No aconchego das aldeias, pouco m udou e as antigas devoções persistiram intactas. Com o se ao m undo da fé não chegasse o poderio crescente dos reis m alavis.