A Enxada e a Lança
21. O cavalo e a canoa: os mossis e os songais
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O cavalo e a canoa: os m ossis e os songais
Foi talvez no século XI. Ou no correr dos cem a duzentos anos seguintes. Vieram ,
segundo suas tradições, 1 da Hauçalândia ou do lago Chade e estabeleceram -se,
com o senhores, ao sul do grande arco do rio Níger. Há quem suspeite2 de que em igraram quando as cidades-estado hauçás com eçavam a tom ar form a: seriam certas linhagens que preferiram , por não ter logrado êxito na disputa pelo poder que ali se travava, ir para terras distantes a perm anecer com o súditos no país natal.
Um m anuscrito do século XV, atribuído a Abkal ould Aoudar 3 (de cuj o texto só
se conheceria um a cópia de 1918), 4 conta que os m ossis, provenientes do leste, se instalaram , entre os séculos VIII a XII, em Dallol Boso, ao norte do Níger. Ali fundaram um estado, cuj a últim a capital teria sido Rózi. Transferiram -se, em seguida, para m ais perto do rio, tendo por centro Minj i. Mas não perm aneceram nesse local por m uito tem po: na prim eira m etade do século XIII, atravessaram as águas e foram criar no banco do Gurm a um a nova entidade política, com o m esm o nom e das duas anteriores, Diam are. Mais tarde, talvez tenham descido para a região do Volta Branco.
Nem todos aceitam a origem estrangeira. Para os que dela discrepam , 5 os
antepassados dos m am prúsis, a b dos dagom bas e dos m ossis seriam grupos que j á viviam no alto Volta e que, após se im porem aos dem ais, construíram a teoria de procederem de fora, sem idivinos, portadores de qualidades espe-ciais que os consagravam ao m ando. Não poderia o m anuscrito de Abkal ould Aoudar, ainda que genuíno e não um a contrafação tardia, ter sido construído para tornar ideologicam ente verdadeira a origem externa?
Não é isso o que narram , contudo, as tradições e os tam bores. Contam -nos
com o Toaziê, c o “Caçador Verm elho”, saiu de Tunga, ao leste do lago Chade, atravessou a Hauçalândia e foi ter ao Mali, onde serviu nas tropas do m ansa e se
casou com um a de suas filhas, Paga Uabaga. d Form ou, segundo a interpretação
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de alguns, na cavalaria do m ansa, enquanto que outros o creem songai ou
hauçá. 7 Num a das versões do m ito, ele vivia num a caverna, antes de ser cham ado ao serviço do rei do Mali, e deste recebeu por prêm io um a m ulher
e
coxa. O filho que deles nasceu, Copogonum bo, tam bém guerreou para o m ansa, indo depois fixar-se em Gurm a, ao sul de Songai. Após desposar a filha do “senhor da terra”, m atou o sogro, im pondo-se pelas arm as e por aquelas duas ações sobre a gente local.
Um dos filhos de Copogonum bo, Na Nedega,f deslocou-se para o sul, com um m agote de guerreiros, e se fez senhor do nordeste da atual República de Gana. Estabeleceu-se em Pusiga, no Gam baj a, que tornou a capital de um reino, o Mam prúsi, onde teriam origem as dinastias dagom bas e m ossis.
Morto Nedega, reinou Zirili. Quando este, por sua vez, desapareceu, abriu-se a
g h
luta entre seus filhos. Tosugo continuou a estirpe em Mam prúsi. Sitobo foi para
o sul e lançou as bases do estado dagom ba. Am atam boi fundou Nanum ba. E um a
j
irm ã de Zirili, Ienenga, m ulher-soldado, extraviou-se com seu cavalo das tropas que com andava e foi dar a um a floresta, onde a esperava um caçador de
k
elefantes m andê. Do encontro, nasceu um m enino, Uidraogo, o “Garanhão Verm elho”, o prim eiro dos reis m ossis.
Tudo isso ter-se-ia passado, se não for só lenda, num espaço de tem po bem m ais longo. Os fatos ligados pela tradição a Na Nedega datariam , segundo M.
Izard,8 9 do últim o quartel do século XIV ou do início do XV. J.D. Fage põe a criação de Dagom ba no fim do Quatrocentos. Da m esm a época seria a fundação do reino m ossi de Uagadugu e da m etade do século XVI o estabelecim ento de Iatenga, conform e os cálculos de Izard.
Da história antiga de Mam prúsi quase nada se sabe. Muito em bora o naj iri fosse o rei de todos os m am prúsis, seus dom ínios, divididos em quatro grandes províncias, um a das quais sob seu com ando direto, padeciam de frouxa centralização. Os líderes das outras três gozavam , ao que consta, de am pla
autonom ia. 10
Um pouco m ais se conhece dos com eços de Dagom ba. O consolidador do
reino teria sido um filho de Sitobo, Na Niagse. l Dele afirm a-se que subj ugou com violência os naturais da região, m atando seus chefes religiosos e colocando sequazes de confiança à cabeça das aldeias.
As gentes que encontrou e sobre as quais se im pôs eram de língua gur e
sem elhantes aos concom basm do norte de Gana e do Togo, que puderam , protegidos pelos alagadiços do rio Oti, m anter as antigas estruturas de
linhagem .11 Esses povos eram organizados em áreas de j urisdição ritual, cada um a delas sob a autoridade de um sacerdote da deusa-terra — denom inado
tenga-soba, ao norte, e tengdana, ao sul —, que lhe custodiava o santuário.12
Os grupos que não se refugiaram em outras áreas, de m ais difícil acesso, com o o fizeram os concom bas do rio Oti ou os dogons das escarpas do Bandiagara, foram incorporados aos reinos dagom bas e m ossis com o plebeus e, nos exércitos, form ariam entre os arqueiros. O processo foi a um só tem po de subj ugação violenta e aculturação. Os invasores escolheram m ulheres da terra para esposas. E adotaram os idiom as dos invadidos.
A capital de Dagom ba cham ou-se Iendi-Dabari e ficava na rota que levava a Bono-Mansu, por onde se fazia o com ércio do ouro. Em Iendi-Dabari, escavações revelaram as ruínas de um conj unto ao fim do século XVII, quando a cidade foi abandonada. As edificações, provavelm ente destinadas ao com ércio, ficavam adj acentes a largos pátios descobertos, onde se guardariam os anim ais
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das caravanas que vinham buscar o m etal am arelo garim pado no país acã e no Volta Negro.
Dos m ossis, dizem os m itos etiológicos que o prim eiro foi o filho de Ienenga, Uidraogo. Graças à cavalaria que lhe cedeu o senhor dos m am prúsis, seu tio, ele se im pôs sobre a região de Tencodugu, onde instalou um reino. Algum as
tradições 14 dão, entretanto, por m ais antigas outras chefias m ossis. Afirm am que as prim eiras foram Zam barga e Sanga. E m encionam , depois, várias outras, entre as quais, Kinzem , Wargay, Lalgay e Tenoagen. Desta últim a é que teria derivado Tencodugu.
A im agem que nos deixa a história oral dos m ossis é de um m ovim ento do sul para o norte, de Pusiga para as nascentes do Volta Branco e, a oeste, para além do Volta Verm elho. Grupos de guerreiros a cavalo acom etiam e suj eitavam populações agrícolas, entre elas se instalando com o um a elite a que se devia tributo, trabalho e deferência. Tal foi a traj etória de dois filhos de Uidraogo:
Rauan e Zungara.
As narrativas tradicionais desenham o prim eiro com o um grande conquistador, cuj a cavalaria teria chegado, na perseguição dos dogons, até os sopés do Bandiagara. Por algum tem po, ele conseguiu estruturar um pequeno im pério, o Rauatenga, que pronto se desfez, não só por dissensões entre os vários irm ãos, filhos e lugares-tenentes que colocou no com ando de suas partes, m as tam bém porque os m ossis eram ainda pouco num erosos para fazer frente à continuada hostilidade da gente da terra. Desse apoucado im pério, sobrou com o herança o reino de Zondom a.
Zungara teve um destino m enor, que se fez grande nos seus filhos. Um deles fundou o reino de Ratenga; um outro, o de Zitenga; um terceiro, Gigm a, em brenhou-se em conquistas pela banda oriental do Volta, chegando até o norte
do atual Burquina Faso; e um quarto, Úbri, o m archou para o noroeste, onde estabeleceu um grande reino, Uagadugu, cuj os soberanos são até hoj e conhecidos com o m oro-naba, ou m ogo-naba, o “chefe dos m ossis”.
Os descendentes de Uidraogo são conhecidos por naconses, porque possuem no sangue a virtude do poder político, ou nam . Já a progênie dos conquistados, os tegbisis, detém o tengasobundo, ou relação espiritual com a terra. Podem estes ser fracos m ilitarm ente e estar m arginalizados na estrutura política, porém contam com a fortaleza sobrenatural, derivada da aliança com o solo e as divindades do lugar.
Os naconses, ao ocupar um novo território, colocavam à frente das aldeias um dos seus, m as este não era qualificado para sacrificar aos deuses locais, para pedir a chuva e garantir a fertilidade do solo, dos anim ais e das m ulheres. Isto só estava ao alcance do representante dos aborígines, do tengasoba, sacerdote e “senhor da terra”, que continuou, em m uitos casos, a ser o chefe dos vencidos e a representar a reação contra o estrangeiro, e, em outros, a servir de traço de união entre os nativos e os m ossis.
Jack Goody 15 lem bra que os cavalos, no norte de Gana, são tabu para as populações agrícolas, a tal ponto que esses anim ais não podem sequer entrar nas aldeias onde há altares às divindades da terra, e atribui esse horror ou ódio aos equinos ao fato de neles identificarem os que trabalham o solo o instrum ento de sua opressão. Talvez sej a este o m otivo. Mas poderia haver um outro: o de terem , desde a conquista, os dagom bas e os m ossis proibido a posse, o uso e até m esm o o contato dos povos dom inados com os cavalos, a fim de que j am ais aprendessem a m ontá-los, para fazer-lhes frente. Com o tem po, o m edo, nascido da interdição, voltou-se em oj eriza, terror, raiva ou repulsa.
A persistência, até os nossos dias, de fortes diferenças de valores e m odos de vida entre os aldeões que evitam os cavalos e a elite arm ada que os m im a, revela a violência crua que devia reger, de início, as relações entre os naconses e os tegbisis. Mas, se aqueles, a cavalo, m antinham estes em obediência, deles e da abundância de suas colheitas dependiam . Com o acum ular dos anos, a ferocidade do im pério deve ter-se abrandado, surgindo processos de acom odação e conciliação entre os dois grupos. Não só os tengasobas assum iram , com o sacerdotes da terra, posições de autoridade, m as alguns outros representantes dos conquistados tam bém se incorporaram , m uitas vezes pelo parentesco derivado do casam ento, à classe dos senhores. Úbri, por exem plo, j á era filho de m ulher grunce (ou gurúnsi) e, nas tradições, representaria a aliança entre conquistadores e vencidos, bem com o a transform ação de um chefe im posto pelas arm as em
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soberano aceito pelos súditos. Enquanto os irm ãos de sua m ãe possivelm ente
m elhoravam de vida, não faltariam naconses a cair de seus corcéis para a condição de plebeus.
Muitos dos altos funcionários do estado passaram , m ais tarde, a ser recrutados fora dos quadros da aristocracia m ontada. Os reis procuravam , assim , lim itar a força dos naconses e im pedir a m ultiplicação de focos de poder e de insubm issão, pois os governadores de províncias e adm inistradores plebeus não possuíam nam e só exerciam o m ando porque em nom e do rei. Deste eram servidores, quando não escravos. Em Uagadugu, um dos principais m inistros, o
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cansaoga na, viria a ser reiteradam ente um eunuco. E em Dagom ba, os
castrados, poderosíssim os, acabariam por controlar a adm inistração. 18
Tendo todas sua fonte direta ou distante em Mam prúsi, as dinastias dagom bas e m ossis estavam vinculadas por um parentesco, se não real, pelo m enos político e sim bólico. E bem com preendiam a rede que integravam . Cada m oro-naba m andava, por exem plo, parte do espólio de seu predecessor (no qual se incluíam as esposas) para os soberanos de Dagom ba e Gurm a, bem com o presentes
anuais de escravos, tecidos e um cavalo para Mam prúsi, 19 cuj o naj iri considerava com o “pai”. Havia um a espécie de pacto perm anente entre os reis m ossis. Era raro o guerrearem -se entre si. E assistiam -se m utuam ente.
É natural, assim , que fossem sem elhantes as form as sociais e as instituições políticas dos estados m am prúsi, dagom ba e m ossis. No alto estava a nobreza. Logo abaixo, os hom ens com uns. E, sob estes, a escravaria. Num a estrutura fortem ente hierarquizada, na qual liam es, que poderiam , de m odo m uito grosseiro, ser com parados aos da vassalagem , vinculavam todos, de escalão em escalão, ao grande rei.
A nobreza dividia-se em dois grupos: o prim eiro form ado pelos que podiam vir a ser reis; e o segundo, por aqueles que, em bora detentores do nam , a isso não podiam aspirar. Os últim os tornavam -se m uitas vezes, em seus dom ínios, extrem am ente poderosos, criando verdadeiros principados autônom os dentro dos reinos.
Os que podiam ser reis variavam de estado para estado. É possível que a sucessão fosse, no início, rotativa entre dois ou m ais segm entos da estirpe real, m as a prática foi abandonada em favor da sucessão unilinear, que fortalecia o centralism o. Em Uagadugu, onde o m oro-naba era escolhido pela nobreza entre os m em bros da fam ília de Úbri, foi-se paulatinam ente desenhando o costum e de passar a “pele” — sím bolo do poder real — ao rebento m ais velho do m onarca falecido. Em Dagom ba, disputavam a realeza todos os filhos de antigos
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soberanos. E em Mam prúsi, não apenas os filhos, m as tam bém os netos.
As m assas dedicavam -se à agricultura. Um a agricultura pobre, em condições ingratas de clim a e solo. Mas que contribuirá, apesar disso, para sustentar com seus excedentes as pequenas cortes dos nobres e a grande corte do rei. Criavam -se cabras, carneiros, j um entos e cavalos. Curtia-se e trabalhava-se o couro. Eram num erosos os tecelões e os ferreiros.
Nas principais cidades, havia bons m ercados. Muitos dos com erciantes eram m andês e soninquês. Chegaram m uçulm anos; e se conservaram com o ínfim a m inoria religiosa, em territórios que o islão não converteu, ou acabaram por resvalar para a apostasia. Im portavam sal e exportavam tecidos de algodão e anim ais, sobretudo j um entos. O com ércio não teve, porém , nesses estados, a não ser em Dagom ba, im portância m aior na form ação e acum ulação de riqueza, pois as rotas do ouro e da cola passavam ao largo de Mam prúsi e dos territórios m ossis.
Esses estados pouco podiam obter da agricultura pobre e do escasso com ércio. Acostum aram -se, por isso, a buscar pelas arm as novos vassalos que lhes pagassem tributos, m ais escravos para lhes trabalharem as terras e toda a sorte de butim . A guerra era o cam inho para o crescim ento do estado e a atividade econôm ica por excelência da casta dom inante: era o m eio prim ordial de apropriação de riquezas e de instrum entos de produção.
Os m ossis faziam a guerra do m esm o m odo que os exércitos do Mali. Os arqueiros davam início às operações, a infantaria investia, e só depois as tropas a cavalo rem atavam a luta.
As arm as da cavalaria eram a lança, a azagaia e a espada. Os ginetes não conheciam o lifidi, m as protegiam o corpo com quatro ou cinco túnicas superpostas, e a cabeça, com um turbante espesso. O cavalo tinha para resguardá-lo apenas um a testeira de m etal e um a grande m anta de couro sobre a
sela. 21
Eram seguram ente hábeis, rápidos e ferozes cavaleiros, esses m ossis. Tanto
que, desde Delafosse,22 eles têm sido identificados com os exércitos que arrem eteram contra o im pério do Mali e se opuseram ao poder em expansão dos songais. Seriam os m esm os m ossis do rio Volta os que teriam atacado Tom buctu
em 1337 23 24 25 (ou, segundo outra leitura do Tarikh as-Sudan, de Al-Sadi, bem m ais tarde, j á no início do século XV) e que, após saquearem e incendiarem a cidade, regressaram às terras de onde tinham vindo. A esses assaltantes, caso a pilhagem de Tom buctu se tenha dado na quarta década do século XIV, poderia estar a referir-se Mansa Musa, quando, no Cairo, m encionou com o seu pior inim igo um a gente que com parou aos tártaros, porque terríveis arqueiros e
destros no dorso dos cavalos. 26
Musa deixa claro não haver m ais do que breves descansos na guerra que contra eles se travava. Pois esses cavaleiros a que os textos do Tarikh al-Fattash e do Tarikh as-Sudan cham am m ossis açoitaram o m édio Níger por m ais de três séculos. Desde as incursões, na m etade do Duzentos, nos territórios do reino de Gao.
Há notícias de que os m ossis, no início do século XV, atacaram Benka; de que, em 1433 ou 1434, de novo arrem eteram contra Tom buctu; de que, em 1470, guerrearam Macina e, em 1477 ou 1478, devastaram a região de Sam a, no país bam bara. Em 1480, seria a vez de Ualata sofrer-lhes a fúria. Não vinham , porém , para ficar com o senhores. Davam com bate, destruíam , pilhavam — e iam -se em bora com os despoj os. Para as suas terras, as quais, segundo o príncipe j alofo Bem oí disse a d. João II de Portugal, com eçavam além de Tom buctu e se
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estendiam contra o oriente.
Não vinham , portanto, do sul, dos vales do Volta. Mas de leste. Quem sabe se
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da terceira Diam are, j á na m argem direita do Níger? Esta é apenas um a hipótese sobre a identidade e a localização desses m ossis, que talvez só guardem com os senhores dos reinos do rio Volta o m esm o etnônim o. Nas tradições destes últim os não há, com efeito, m em órias de guerras com Songai, nem de m aior
presença ao longo do arco do Níger. 29
J.D. Fage, ao estabelecer um a nítida diferença entre os m ossis da grande curva do Níger e os da bacia do Volta — estes últim os só com eçariam a fundar os seus reinos quando bem avançado o século XV e não podiam , portanto, ser responsáveis pelas agressões organizadas contra o Mali e Songai —, não afasta,
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porém , que am bos tivessem a m esm a origem . Os m ossis que tantas vezes assolaram o arco do Níger proviriam de Diam are, do m esm o m odo que os que se im puseram na bacia do Volta. Estes teriam m igrado para o sul, talvez em
decorrência da m udança de fortuna na luta contra os songais, 31 que passaram , após a queda de Ualata, da defesa à ofensiva e não perm itiram que se findasse o século XV sem infligir aos m ossis pesadas derrotas, das quais pode até m esm o ter resultado a extinção dos reinos de Diam are.
Por volta de 1275, os songais, com Ali Colom e a nova dinastia Soni, Suni ou
Si, p haviam recuperado a independência. Por um brevíssim o tem po, porém , pois Sacura, o usurpador, pronto os restituiria à esfera do Mali. E dela Gao, que talvez tenha experim entado efêm eros períodos de autonom ia, só escapará inteiram ente no fim do século XIV, durante o reinado do Mansa Musa II. O grande im pério m andinga j á enfrentava dissensões internas e sofrera, ao norte, as pressões tuaregue e azenegue, ao sul, a violência m ossi e, por toda parte, a insubm issão dos dom inados. Mari-Jata, o m inistro que governava em nom e do m ansa, tentou ainda, pela derradeira vez, subm eter os songais. Em balde. Eles não m ais retornariam à suserania do Mali e, paralelam ente à decadência do antigo im pério, construirão um a poderosa força m ilitar, ba-seada, com o no passado, nas frotas de canoas dos sorcos.
É possível que, m esm o durante o dom ínio do Mali, o rei songai (ou soni) com andasse com certa desenvoltura os seus, a partir de Cuquia. Sua condição de tributário far-se-ia sentir sobretudo em Gao, pois o m ansa procurava controlar cuidadosam ente a grande cidade caravaneira e as rotas de que era início, fim ou passagem . Ibn Batuta a descreve, após nela se dem orar por quatro sem anas de 1353, com o um a das m elhores e m aiores dos países negros, rica em arroz, leite, galinha e peixe, e produtora de um tipo de pepino (ou de abóbora, ou de m elão)
de sabor sem igual. 32
q
Por volta de 1420, quando reinava Soni Muham ed Dao, os songais j á se sentiam suficientem ente fortes para tom ar a iniciativa contra o Mali. Atacaram , então, territórios do im pério e subj ugaram , entre outras, várias tribos bam baras.
A verdadeira expansão songai com eçaria logo depois, sob Soni Sulaim an
Dandi, r falecido em 1464. Dandi conquistou o reino de Mem a, que havia pouco se libertara do Mali, m as se discute se veio a anexá-lo, ou não, a Songai.
Com o quer que tenha sido, a transform ação de um pequeno estado relativam ente hom ogêneo em im pério plurinacional será obra de um filho de Soni Muham ed Dao, Ali Ber ou Soni Ali. Reinou ele de 1464 a 1492. Durante todo o período, esteve perm anentem ente em guerra, a disputar à am bição dos tuaregues, dos m ossis e dos fulas, os espaços que iam sendo abertos pela decadência do Mali. Todos pareciam aspirar ao dom ínio das terras que acom panhavam o arco do Níger. E o prim eiro alvo da cobiça de todos era naturalm ente Tom buctu, o grande porto do com ércio transaariano.
A cidade crescera m uito sob o Mali. Próspero em pório do sal, do ouro, da cola, do m arfim , do ferro e do cobre, tornara-se tam bém centro de fé e saber, para ela acorrendo os letrados m uçulm anos do Sudão Ocidental. Que ali polem izavam . Que ali ensinavam e conquistavam discípulos. Que dali irradiavam o islam e.
Em 1433, os tuaregues de Aquilu ag Mulual s conquistaram a cidade, dela expulsando os representantes do Mali. Mas não a ocuparam , preferindo regressar à proteção do deserto. Confiaram -na a um preposto, o azenegue Muham ed an-
Nada,t encarregado de governá-la em nom e deles e dela extrair o tributo, um terço do qual guardaria para si.
Sob o senhorio tuaregue, alteram -se as elites da cidade. Verifica-se um influxo de m ercadores e letrados árabes e berberes do norte do Saara, da Líbia e do Magrebe. O im am e da m esquita da Sexta-Feira passa a ser um branco, e brancos, num erosos m inistros religiosos, letrados e j urisconsultos. Um novo bairro de elite — a rivalizar com o antigo de Jingerber, ao redor da m esquita da Sexta-Feira — surge em torno do novo tem plo de Sankore, e lá se vão concentrar os azenegues, provenientes de Ualata, os quais passam a form ar, tendo à frente o clã dos Massufas, um a nova aristocracia. Esses azenegues tinham clara
consciência do papel político do islão e buscaram o controle do poder.33
Pouco após a investidura no governo de Tom buctu, finou-se Muham ed an-Nada. Seu filho Um ar substituiu-o com o preposto dos tuaregues. E, com o um de seus prim eiros atos, enviou a Soni Ali um a carta, na qual se vangloriava de seu poder e prognosticava a derrota songai, caso se tentasse a conquista de Tom buctu. O soni recebeu a m ensagem com o um a declaração de guerra e preparou-se para o ataque. Sabedor disso, Aquilu saiu do deserto e entrou com sua cavalaria na cidade. Os tuaregues em tudo agiram com o conquistadores: pilharam as casas, violaram as m ulheres, arrebataram ao governador a totalidade dos im postos que este arrecadara.
Cansado da situação, Um ar ofereceu seus serviços a Soni Ali, propondo-lhe a entrega da urbe. Mal os songais chegaram , com suas num erosíssim as canoas, sua poderosa e rápida cavalaria e o com pacto m ole de infantes, às proxim idades de Tom buctu, os tuaregues fugiram para Ualata, levando com eles os letrados da m esquita de Sankore. Um ar, após acudir o exército songai com m uitas canoas, para que este pudesse m ais rapidam ente cruzar o Níger, lem brou-se da carta insultuosa que enviara a Soni Ali e, tom ado de m edo, resolveu tam bém escapar,
deixando no m ando da cidade seu irm ão Al-Muctar.u
Soni Ali entrou em Tom buctu em j aneiro de 1469. A pôr fogo em tudo, a destruir e a m atar sem dó. Sua ira desatou-se sobretudo contra as hierarquias m uçulm anas, contra os eruditos, contra a gente da m esquita de Sankore.
Dom inada a cidade, o soni confirm ou Al-Muctar no governo. E prosseguiu a guerra contra os tuaregues, m uito em bora não os pudesse encalçar a fundo no deserto. Deste santuário, os em buçados fustigavam e fustigavam Tom buctu, inconform ados com a sua perda.
Para Soni Ali, a tarefa não estava acabada. Tinha de com pletá-la com a conquista de Jenné, por onde se faziam as trocas com a savana e a floresta.
Jenné era tão im portante quanto Tom buctu. E, com o Tom buctu, tornara-se, com suas m adrasas, ou escolas islâm icas, influente centro de cultura religiosa. Onde os eruditos continuavam , entretanto, a ser predom inantem ente negros.
Soni Ali endereçou suas arm as a Jenné. Mas esta — ao contrário de Tom buctu, que não tinha defesas naturais e, terreno raso, se abria à entrada da cavalaria — estava protegida por um a tram a de rios, alagadiços e canais.
O soni chegou com seus exércitos e sua frota de alm adias e canoas. Contaram -se quatrocentos barcos. Que cercaram a cidade e lhe bloquearam os cam inhos. O sítio foi longo — de m uitos m eses. E só quando a fom e entre os sitiados e os sitiantes se tornou intolerável, a cidade caiu, em 1473. Soni Ali tratou generosam ente os vencidos e não perseguiu os letrados m uçulm anos.
Dobrada Jenné, chegara a vez de Ualata, onde se haviam refugiado os tuaregues de Aquilu e seus am igos. Soni Ali, cônscio da im portância decisiva que tivera sua frota de canoas na vitória sobre Jenné, resolveu construir um grande canal, com cerca de 320km de com prim ento, para levar seus barcos desde o lago Fagbine até a aridez de Ualata.
A obra avançava, quando os m ossis se anteciparam aos songais e acom eteram Ualata, em 1480. Ao sul, seus cavalos assolavam porções cada vez m aiores de territórios que deviam obediência ao soni. Deter os m ossis tornou-se a tarefa m ais urgente e, por isso, Soni Ali sustou, em 1483, a escavação do canal. Suas tropas encontraram -se com as dos m ossis ao sul do lago Debo e as levaram de vencida. Os invasores regressaram às suas terras, onde perm aneceram indom áveis. E agressivos. E inim igos de Songai. Com o outros vizinhos do sul, os baribas de Borgu, que Soni Ali tam bém não conseguiu dom inar.
De Jenné, o soni enviou duas expedições m ilitares contra dependên-cias do Mali. Muito provavelm ente contra a província de Cala, que se tornou vassala de Songai. E com frequência deu vazão a seu ódio aos fulas, que, desde o início do século XV, se estabeleciam em Macina e na área a sudoeste de Tom buctu, controlando um im portante trecho fluvial entre a cidade e Jenné. O Tarikh al-Fattash, de Mahm ud Kati e Ibn al-Mukhtar, escrito por volta de 1665, dá-nos conta do horror que Soni Ali tinha aos fulas: “Não podia ver um deles, letrado ou ignorante, hom em ou m ulher, sem desej ar m atá-lo. De tal m odo dizim ou a tribo
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sangara, que os sobreviventes se podiam reunir à som bra de um a árvore.” Os
fulas, com o os m ossis e os dogons, eram em pecilhos à unificação do im pério songai, pois separavam o seu núcleo dos ricos territórios que haviam sido do Mali. Isso explica a constância com que Soni Ali lhes deu guerra. Até m orrer.
Regressava, com efeito, de um a cam panha contra os fulas, quando faleceu, em novem bro de 1492. Não se sabe bem com o. Pois um a fonte, o Tarikh as-Sudan, diz que se afogou num rio; outra, o Tarikh al-Fattash, que faleceu subitam ente; e certa tradição oral assevera ter sido assassinado por um sobrinho,
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Mam ari, que o sucederia no m ando. O m ais provável é que tenha sido vítim a
de seus incontáveis desafetos.36
A im agem que os autores m uçulm anos nos deixaram do construtor do im pério songai foi a de um tirano cruel e ím pio. A de um inim igo j urado do islão. A partir provavelm ente do retrato que dele pintou Al-Maghili (o autor da fam osa obra As
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obrigações dos príncipes, dedicada ao sarqui Runfa, de Kano), na carta que,
nos últim os anos do século XV, escreveu ao Ásquia Muham ed, v a j ustificar o haver este usurpado o poder.
Al-Maghili qualifica Ali de pagão, em bora o soni se declarasse nom inalm ente m uçulm ano. O desenho que dele traça não o distingue de seus antecessores, pois, em bora por quase cinco séculos o islam ism o fosse a aparente religião dos reis songais, estes retiravam a legitim idade dos cultos ancestrais e de seus valores. Ainda que algum deles fosse verdadeiram ente devoto de Alá, tinha, para perm anecer no m ando, de acom odar-se aos ritos tradicionais.
O pai de Soni Ali, Sulaim an Dandi, era tido por grande feiticeiro. Dele o filho herdara a ciência e os poderes. Pois constava que Ali podia transform ar-se em
abutre e voar, bem com o fazer invisíveis os seus soldados.38 A sua m ãe era de um a terra de gente pagã, onde se “adoravam ídolos” e se sacrificava às pedras e às árvores. Ali criou-se nessa fé, entre os tios m aternos, e teria tido, depois, apenas os rudim entos da educação m aom etana. Pouco sabia da doutrina e m al conhecia os ritos, se é que deles não zom bava. Fazia suas rezas, m as nem sem pre nas horas e nas form as apropriadas — e “não conhecia o significado das preces;
dizia-as som ente com a língua”.39
Talvez tenha sido assim . Mas é possível, se não provável, que a descrição de Al-Maghili, hom em apaixonado e colérico, perseguidor dos j udeus e das outras gentes do Livro, inim igo de m orte dos hereges e dos apóstatas, sej a exagerada. Não que Soni Ali tivesse sido um m uçulm ano estrito. Mas é verossím il crer-se que respeitava o islam e e que se tinha por m oslim . Não diferia, portanto, de outros reis da África Ocidental, que rezavam na m esquita e praticavam os ritos dos antepassados; que ouviam os letrados sobre o Alcorão e consultavam os oráculos e os sacerdotes da terra; que procuravam legitim ar-se pelo islam e, j unto às populações cosm opolitas das urbes m ercantis, e pelos grandes poderes que lhes concediam as crenças tradicionais, j unto ao com um das gentes, aos habitantes das aldeias e do cam po.
Seu com portam ento feroz para com Tom buctu, enquanto dela foi senhor e, especialm ente, nos últim os anos de sua vida, explicar-se-ia pelas ligações que os m uçulm anos congregados ao redor da m esquita de Sankore m antinham com os tuaregues. Eram am igos dos seus inim igos, daqueles hom ens azuis que disputavam aos songais o controle do com ércio transaariano. Com o se isso não bastasse, os ulem ás de Sankore pregavam um estado conduzido estritam ente pelas leis do islão e condenavam a prevalência que, a seus olhos, Soni Ali dava aos cultos ancestrais e às estruturas de poder deles decorrentes. À elite m aom etana de Tom buctu e de alguns outros pontos do im pério talvez parecesse um pecado de tibieza subm eter-se a um soberano cuj a ortodoxia se punha em dúvida. Num espaço onde aum entava o núm ero dos que sabiam ler e escrever, tornava-se evidente a distância entre o que dispunha o islam e (o governo de Deus, exercido em seu nom e por um líder piedoso) e o que se passava em Songai, com andado por um soni ignorante dos textos sagrados, cheio de respeito
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pelos cultos pagãos e deles até m esm o praticante.
Soni Ali não desconhecia decerto a hostilidade com que era visto por esses islam itas que, tendo por centro Tom buctu e por m entores os ulem ás de Sankore, recusavam qualquer com prom isso com os fundam entos tradicionais de Songai. Suspeitava provavelm ente de que procuravam desacreditá-lo, negar-lhe a condição de soberano legítim o e preparar contra ele a guerra santa. Daí o rigor e a violência contra esses estrangeiros e estrangeirados, que distinguia perfeitam ente de outros ulem ás, com o m ostra seu com portam ento de toda a vida em relação aos letrados que viviam na corte e em outras partes do im pério e aos quais cum ulou de benesses. Daí tam bém a diferença com que tratou os m uçulm anos de Jenné, quando da conquista da cidade.
A facção fundam entalista era, ao que parece, especialm ente forte no noroeste de Songai. Seus propagandistas teriam encontrado ouvidos atentos entre os m ilitares que ali serviam e entre os altos representantes do estado, em geral tam bém m em bros das classes arm adas, a espinha dorsal de um im pério que não conhecia a paz. Form ou-se, assim , um a aliança entre os com andantes das tropas e os ulem ás e m ercadores de Tom buctu. Esse partido do islam e aproveitar-se-ia da m orte de Soni Ali — se é que não foi por ela responsável — para em polgar revolucionariam ente o poder.
Essa é um a hipótese. Um a outra descarta ter havido um a conspiração religiosa para derrocar Soni Ali. A m udança de dinastia que se seguiu à sua m orte teria resultado de disputas puram ente políticas entre linhagens, disputas das quais não estaria ausente a m otivação étnica, pois Soni Ali era songai, e o prim eiro ásquia,
m etade soninquê41 ou tucolor. A j ustificativa islâm ica teria sido m ontada
posteriorm ente, para vestir a usurpação de guerra santa. 42
Tão logo se soube do falecim ento de Soni Ali, proclam ou-se o seu filho Abu
w
Bacre Dao, ou Baro, rei de Songai. Contra isto ergueu-se um poderoso chefe m ilitar, Muham ad Turê, ou Mam ari, que logo contou com o apoio dos com andantes de Bara e Kuru, na região ao redor do lago Debo.
Os exércitos rivais encontraram -se nas proxim idades de Gao e, após duas batalhas, em fevereiro e abril de 1493, Baro deu-se por vencido. Antes da luta, Mam ari, para cum prir os requisitos form ais da decretação da guerra santa, teria solicitado a Baro, por três vezes, que se subm etesse ao islam e. A exigência, recusada por Baro, m ostraria, caso o relato fosse verdadeiro e não um a
interpolação posterior no texto do Tarikh al-Fattash, 43 o caráter de j ihad assum ido
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pela cam panha de Mam ari — e com o j ihad a qualifica Al-Maghili.
Quem era esse Mam ari, que tom a o título de ásquia e faz do islam e o fundam ento e a j ustificação do seu poder? A tradição o diz filho de um a irm ã de Soni Ali. As fontes m aom etanas, sem negar que sua m ãe fosse um a princesa songai, querem -no tucolor ou soninquê e pertencente a um clã, o do Turê, desde m uito vinculado ao islam e e aos interesses do com ércio transaariano.
Mam ari, ou Ásquia Muham ed, divorciado das tradições e dos ritos religiosos songais, teve de fundar sua força pessoal no baraca islâm ico. Daí a necessidade, m al assum iu o poder, de cum prir a peregrinação a Meca. Para lá partiu, em outubro ou novem bro de 1496, com m ais de quinhentos cavaleiros, m il infantes e
trezentos m il m iticais (uns 1.270kg)x de ouro.
Dois anos m ais tarde, em agosto de 1498, voltou ao Songai. Não apenas com o al-haj i, ou peregrino, m as tam bém com o califa do país dos negros. Pois nesse título foi investido no Egito pelo califa abássida, que lhe deu o roupão verde, o turbante cerim onial branco e a espada de com andante dos fiéis.
Ásquia Muham ed fez do islão o culto im perial. Exaltou os ulem ás e os pôs a seu serviço. Incentivou a aplicação das leis m uçulm anas e nom eou cádis para as principais cidades. Em Tom buctu, o cádi tornou-se todo-poderoso, im pondo-se até m esm o sobre o representante do ásquia. Ou assim crê a m aioria dos autores.
Há, porém , quem assevere46 que o cádi só gozava de autonom ia em m atérias estritam ente m unicipais, m antendo o ásquia o controle dos assuntos m ilitares, m ercantis e tributários nas m ãos de agentes de confiança. Estranho seria que o não fizesse, pois Tom buctu era um porto saariano tão im portante quanto Gao.
Sob Ásquia Muham ed, a Tom buctu voltou a prosperidade. O ouro do país acã e do Volta Negro, que encontrara na Hauçalândia, durante a fase de hostilidade do soni, novos portos para a travessia do deserto, retornou à cidade, à qual tam bém se devolveu o prestígio de grande centro do saber islâm ico.
Não que ali tenha havido, com o j á se propalou, um a universidade sem elhante à de Al-Azhar, no Cairo. A cham ada universidade de Sankore era apenas um bairro, ao redor de um a m esquita, no qual se concentravam os ulem ás e as m adrasas. Essas escolas corânicas, em geral pequenas, som avam , no final do
século XVI, um a centena e m eia,47 e para elas afluíam alunos de toda a faixa sudanesa, alunos que estudavam não apenas o Alcorão, as leis islâm icas e a j urisprudência m aliquita, m as provavelm ente tam bém história, geografia,
gram ática, lógica, retórica, astronom ia e astrologia.48
De Tom buctu irradiou-se um islam e m ilitante, que im prim iu sua m arca nas populações m ercantis das cidades, m as não ganhou o cam po. A esm agadora m aioria dos súditos do ásquia não deve sequer ter tido notícia da nova crença e, se a teve, continuou apegada à sua fé ancestral, aos deuses e aos espíritos da natureza e ao culto dos antepassados. Com Ásquia Muham ed não se teriam alterado, portanto, de form a decisiva, as relações entre o islam e e a sociedade
sudanesa. 49
No próprio plano político, o ásquia pouco fez para m oldar as estruturas do estado à teoria m uçulm ana de governo. Era dotado de suficiente realism o para com preender que a nobreza songai perm anecia em grande parte fiel às suas tradições, do protocolo à fé. As leis islâm icas não ganharam m aior aplicação fora do âm bito urbano. O cerim onial da corte continuou a refletir a crença na sacralidade do rei. E este procurou contem porizar os ulem ás e satisfazer à aristocracia, nada alterando de essencial no funcionam ento do im pério.
Este im pério tinha por eixo o rio Níger. Estendia-se, quando Muham ed se fez ásquia, desde Dendi até além de Jenné. Era, com o os dem ais im périos sudaneses, um tecido de suseranias e obediências, cada povo m antendo sua organização social, seus costum es e sua religião. Deles discrepava, contudo, por conter um grande núcleo, form ado por várias províncias — Arabinda, Hom bri, Benga, Dirm a, Bara, Bani, Cala, Bagana — governadas por hom ens de confiança ou parentes do rei.
Cada um desses altos funcionários, cham ado fari, farm a, farba ou farim a, assegurava a centralização e a unidade do estado, cuj a estrutura era fortem ente hierarquizada. É verdade que as principais cidades m ercantis, com o Tom buctu, Jenné, Ualata e Tagaza, gozavam de certa autonom ia, sob seus chefes ou cois. Mas toda a grande região ocidental, em que se inseriam , ficou, a partir do Ásquia Muham ed, subordinada a um a espécie de vice-rei, o Curm ina-fari, Gurm an-fari ou Canfari, a segunda pessoa de Songai. O cargo foi, ao que parece, criado para
o irm ão de Mam ari, Um ar Condiaga,y em quem o ásquia tinha toda a confiança e a quem entregou o poder, ao partir em peregrinação a Meca. A decisão deve ter dado bons frutos, pois se pôs toda a região oriental sob um outro vice-rei, o Dendi-fari, o terceiro dignitário na estrutura do estado.
Na corte, os principais funcionários eram o hu-cocoroi-coi, ou m ordom o real; o fari-m undio, que se ocupava das extensas plantações reais; o sao-fari, que cuidava das florestas; o hari-fari, a cuj o cargo estavam as águas; o calissa-fari, ou tesoureiro; o corei-fari, encarregado dos árabes e berberes. Os m ais im portantes chefes m ilitares eram o hi-coi, o com andante da frota de canoas e possivelm ente o supervisor dos governadores das províncias, e o balam a, o caudilho dos exércitos, cuj a função depois se reduziu à de detentor da autoridade sobre a guarnição de Kabara. O rei ou o Curm ina-fari dirigiam as tropas nas cam panhas m ilitares de relevância e cada governador provincial possuía contingentes arm ados próprios.
Até o fim do reinado de Soni Ali, o exército songai confundia-se com a m assa da população. Qualquer hom em fisicam ente capaz podia ser recrutado com o soldado para um a cam panha m ilitar e, finda esta, voltava às suas atividades habituais. É certo que o soni dispunha de um corpo de tropas perm anente, sob seu com ando, m as o exército songai só passou a ser verdadeiram ente profissional com o prim eiro ásquia. A partir dele, fez-se clara a distinção entre civis e m ilitares, estes arrebanhados em grande parte entre os vencidos e, com o tal, cativos do rei. Especialm ente fam osos, num exército em que a bravura e a com petência eram form as de ascensão dos escravos, tornaram -se os regim entos
de eunucos a cavalo. 50
Muham ed expandiu consideravelm ente a cavalaria e a infantaria e tornou suas cam panhas m enos dependentes das canoas e do rio. Pôde levar suas tropas terra adentro, atravessar o deserto e o Sael, para ir atacar os adversários por onde estes não o esperavam . Evitava, porém , as m ontanhas e as florestas, nas quais os cavalos perdiam a utilidade. Muitos dos ginetes, arm ados de azagaias, lança e espada, protegiam -se com cotas de m alha, capacetes m etálicos e escudos de couro. Os infantes eram predom inantem ente arqueiros.
Com a reorganização do exército, Ásquia Muham ed logrou em grande parte o que escapara a Soni Ali. Já em 1498, m al chegado de Meca, fez a guerra santa contra os m ossis e os levou de vencida, trazendo para Gao um a m ultidão de escravos. Não conseguiu, porém , ocupar-lhes o território. Nem dom á-los.
No ano seguinte, atacou Agadés, onde tinha assento o sultão dos tuaregues do Air, Muham ed Talzi Tanet. Com isso buscava, a um só tem po, pôr cobro às predações dos tuaregues contra as cáfilas que atravessavam o deserto e assum ir o controle de im portante ponto de encontro caravaneiro entre Gao, a Hauçalândia e Bornu, de um lado, e Trípoli e o Egito, do outro. O ásquia depôs o sultão de Agadés e a cidade passou a pagar-lhe tributo.
Logo em seguida, os songais lançaram -se contra os soninquês do Bagana e seus aliados, os fulas de Macina. Bagana ficava onde fora o centro do antigo Gana e talvez tivesse, desde algum tem po, se desvencilhado do j ugo do Mali. Com a vitória sobre Bagana e os fulas, o ásquia assum iu o controle da região entre Tom buctu e Jenné.
Em 1501, foi a vez de Diala, vassala do Mali, subm eter-se. E, em 1508, outra dependência do Mali, Galam , no Senegal, entregou-se a Songai. Entre um a e outra cam panha exitosa, há um a derrota: as tropas do ásquia são vencidas, em 1504, pela cavalaria bariba. O reino de Borgu continuará irredutível.
Em 1512, o rei de Diara, reconhecendo a suserania de Songai, pediu-lhe auxílio contra Tenguelá, senhor do Futa. Este Tenguelá era um fula do norte de Gâm bia, que conquistara, por volta de 1470, o Futa Jalom e, depois, o Tacrur,
fundando ali a estirpe Denianquê, z que com andaria o Futa Toro. O ásquia atendeu ao cham ado do rei de Diara. Um enorm e exército, sob o com ando do curm ina-fari, atravessou as terras áridas durante dois m eses e, após vencer a sede, im pôs-se ao inim igo. A fronteira oeste entre Songai e o Mali passou a ser o alto Senegal.
Após derrotar os tuaregues de Agadés, Muham ed voltou a atenção para os em buçados de Aquilu, que controlavam Ualata. Venceu-os, sem precisar construir o canal que im aginara Soni Ali. Sem a aj uda dos canoeiros sorcos. A cavalo e a pé.
Ocupou a cidade. Os tuaregues retiraram -se para o deserto e dali passaram a fustigar Ualata. Convencidos de que não podiam curvar as guerrilhas, os songais concordaram em retirar-se, em troca do com prom isso de vassalagem e
tributo. 51
Os tuaregues do Air, das proxim idades de Tom buctu e das cercanias de Ualata aceitaram a suserania dos ásquias; m as com o aliados e não com o súditos. Para selar a aliança na área de Tom buctu, por exem plo, Ásquia Muham ed deu um a
aa
filha em casam ento ao m agcharen-coi, ou chefe dos tuaregues que ali viviam .
O pacto servia aos dois grupos. Aos tuaregues, porque se confirm avam com o interm ediários com erciais nas rotas do deserto. Aos songais, porque a cam elaria dos hom ens azuis deixava de em baraçar as caravanas e passava a protegê-las.
Tendo sob controle os grandes portos do com ércio a distância — Gao, Tom buctu, Jenné e Ualata — e obtida, bem ou m al, a aquietação dos tuaregues, a vontade do ásquia teria m udado de alvo e rum o. Não podendo dirigir-se aos cam pos auríferos do Volta Negro e do país acã, pois estes lhe estavam vedados pela agressividade m ossi e pela floresta, orientou-se para leste, para os territórios hauçás, a fim de disputar a Bornu o com ércio da cola e do ouro — o ouro que vinha de onde hoj e é a República de Gana e tam bém de Kangom a e Zam fara — e de tudo o m ais em que era rica a Hauçalândia: os produtos agrícolas, o gado, a escravaria e o artesanato, sobretudo os trabalhos de couro afam ados no norte da África e até m esm o na Europa, que aos m ais finos cham ou m arroquim .
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Conta Leão Africano que Muham ed, na segunda década do século XVI,
atacou Katsina e reduziu sua população à m etade, tam anha foi a quantidade de escravos que os songais dela retiraram . Voltou-se em seguida para Zária. E depois, para a poderosa Kano, que se dobrou à paz, ao fim de prolongado cerco. O sarqui ofereceu um a de suas filhas por esposa ao ásquia, bem com o um terço das rendas do estado. Fechou-se o trato, e os songais, após deixarem em Kano coletores de im postos, rum aram para Gobir. Tom ada a cidade, m ataram -lhe o rei e lhe castraram os netos, para servirem de eunucos. Reduziram ao cativeiro grande parte da população e j ogaram sobre o resto o peso dos tributos.
Essas afirm ações de Leão Africano têm sido m odernam ente im pugnadas, 53 por não haver, nem na Crônica de Kano, nem nas tradições hauçás, nem em outras fontes, qualquer referência a cam panhas songais no país hauçá. Se estas não se verificaram ou foram sim ples incursões sem ocupação duradoura, o lim ite oriental do im pério dos ásquias não teria j am ais ultrapassado Agadés.
Mesm o em Agadés o dom ínio não foi pacífico. Tanto assim que Muham ed, entre 1515 e 1517, teve de novo que subm eter a cidade, im pondo-lhe desta feita um a guarnição e talvez um adm inistrador songai.
Um dos aliados do ásquia nessas expedições fora Cunta Quenta,bb senhor de Kebbi, um estado que se form ara entre territórios songais e a Hauçalândia, a oeste das quedas de Sokoto, e que talvez fosse cliente do Dendi-fari. Cunta Quenta, desgostoso com a parcela que lhe coubera da pilhagem de Agadés, rom peu os laços com os songais. E, protegido pelos alagadiços, logrou afirm ar sua independência e dar com bate eficiente às tropas do ásquia. De sua capital, Leka, Quenta veria seu poder consolidar-se e seu reino converter-se num estado-tam pão entre Songai e a Hauçalândia, protegendo esta daquele, m as não im pedindo que as cidades hauçás fossem , pouco a pouco, caindo na órbita de influência de Bornu.
Com eçara, para Ásquia Muham ed e para Songai, o declínio. Com a revolta de Kebbi, o ásquia perdeu o controle da Hauçalândia, se algum a vez o teve. E, um a década m ais tarde, cego e quase octogenário, o próprio poder lhe escaparia das m ãos: um de seus 34 filhos, Musa, o deporia em 1528.
Enquanto reinou Muham ed, Songai atingiu o apogeu. Sua suserania alongou-se sobre um território m aior que o de Gana, m aior que o do Mali. Ia do m édio Senegal à Hauçalândia, de Tagaza, bem ao norte, até onde, ao sul, o perm itiam os
m ossis, a cobrir um a área j á calculada em m ais de 1.400.000km 2.54
Era um im pério próspero, assentado num a agricultura cuj os produtos viaj avam ao longo do Níger e eram obtidos das terras às suas m argens e das savanas do sul. Parte da produção vinha das grandes plantações do rei, que se repartiam por todo o dom ínio do ásquia, m as se concentravam sobretudo ao sul da região lacustrina de Tom buctu. Nelas, um a num erosa escravaria, sob a supervisão de feitores, os fanfas, que eram tam bém cativos, cultivava cereais —
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sobretudo arroz, que era infinito, no dizer de Leão Africano, em Gao — e
criava cabras e bois.
O fanfa encarregado de um a plantação obrigava-se a entregar anualm ente ao rei ou ao aristocrata de que dependia determ inada quantidade de bens. Se produzisse m ais, podia guardar para si o excedente, acum ular riqueza, adquirir cavalos e vacas, ter seus próprios escravos. Ao falecer, porém , tudo o que lhe pertencera passava à posse do ásquia.
A escravaria era enorm e. E se renovava continuam ente, sendo o principal de todos os butins das guerras. O m ercado de cativos de Gao era fam oso e ali se vendiam braços para os canaviais do sul do Marrocos, para as lavouras da Sicília e para o serviço dom éstico no Magrebe, na Líbia, no Egito, na Turquia, em
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Gênova, em Nápoles e em Veneza.
Gao era tam bém im portante em pório do ouro, que, vindo do sul, ali, com o em Tom buctu, Jenné e Ualata, se trocava pelos artigos do Magrebe, do Levante e da Europa — os tecidos finos, o cobre, o vidro, os perfum es, os cavalos. Nos grandes e nos pequenos m ercados do im pério, com erciavam -se tam bém coisas m ais sim ples, de uso diário da gente com um , que não se vestia ricam ente de am plos bubus com o a nobreza, m as andava com breve tanga no verão e coberta de peles no inverno: sal, sobretudo sal, e grãos, legum es, raízes, peixe seco, gado, cobre, cerâm ica, cestaria, artefatos de couro e instrum entos de m adeira e ferro. O cauri j á se difundira com o m oeda, desde o início do século XIV.
Entre as urbes m uçulm anas e as enorm es extensões dos cam pos, com seus vilarej os esparsos, poucos vínculos havia além da cobrança dos tributos e dos encontros nos m ercados. Cada povo guardava seus costum es. E sacrificava a seus deuses. Distante das cidades e do rei.
O ásquia vivia em seus palácios, cercado por num erosas esposas e concubinas, eunucos, escravos e cavalos. Com toda a pom pa e o cerim onial de um ser quase divino. Contudo, o que ali era opulência poderia parecer pobreza em outras partes. Pois esquálida considerou Judar — o renegado granadino que conquistaria Songai, em 1591, para o sultão de Marrocos — a residência do ásquia em Gao, e
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inferior à m orada de um xeque de tropeiros no Magrebe. O casarão de barro
socado, de m uros irregulares e nus, despido de enfeites e alfaias, só podia causar im pressão de penúria e descaso a quem se acostum ara à profusão de colunas e arcos em ferradura, às paredes de arabescos ou de azulej os policrom os, aos tetos em estalactites, aos tapetes a forrar as salas e às águas a correr nos pátios, a todo o requinte que envolvia a vida de um rei m ouro nas duas m argens do extrem o ocidental do m ar Mediterrâneo.