A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 20 de 35

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A Enxada e a Lança

16. Os hauçás

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Os hauçás

 

O território com preendido por um a linha traçada desde o Air até a orla norte-oriental do planalto de Jos, e dali, para o poente, até a grande curva do rio Kaduna, e depois, na direção noroeste, até o vale do Gulkin-Kebbi, de onde de novo se ligaria ao ponto de partida, j á continha, por volta do século XI, num erosas com unidades de língua hauçá.

Talvez o idiom a ali se tenha form ado, bem com o o povo que dele tom ou o

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nom e — quer “hauçá” signifique “língua”, “leste”, com o em songai, ou “banco

esquerdo do Níger”.2 3 A tradição local abonaria essa tese, ao fazer os prim eiros hauçás surgirem de um buraco no chão.

Dela não discordaria fundam entalm ente quem supõe 4 fosse a região habitada, desde tem pos im em oriais, por grupos de língua chádica, entre os quais os hauçás, em bora j ulgue que o centro de ocupação destes últim os se deslocou continuam ente do norte para o sul, do Air (Abzin ou Asbin, que é com o lhe cham am ) para as savanas, sob pressão dos nôm ades saarianos, constrangidos pelo ressecam ento do clim a a buscar as m argens do deserto e as terras altas de boas pastagens. Ao se m overem para o sul, os hauçás teriam expulsado os povos do ram o benué-congo do que hoj e é a Hauçalândia para os planaltos centrais da Nigéria, transform ados em lugar de refúgio, o que explicaria o abrigarem presentem ente um verdadeiro m osaico de línguas. É tam bém possível que a atual Hauçalândia fosse anteriorm ente crivada de pântanos, alagados e rios, e, portanto, pouco propícia à ocupação hum ana. Os hauçás só se teriam ali instalado depois de enxuto o terreno. Escassa era a gente que encontraram e esta facilm ente absorveram .

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Outra teoria diz que os hauçás se form aram , no início do segundo m ilênio de nossa era, pela m istura de tuaregues do Saara com agricultores negros da savana, ou destes, que pertenceriam à cultura saô, com aqueles e com elem entos

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nilóticos. Não parece, contudo, que os nôm ades em buçados tenham afluído para a região antes do século XV, nem há evidências de que o idiom a hauçá possua

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forte com ponente de origem tuaregue.

Um a terceira conj ectura tam bém nega a antiguidade dos hauçás na m aior parte dos territórios por eles atualm ente ocupados. Segundo ela, se essa presença se traduzisse em m ais de um m ilênio, a língua hauçá apresentaria, na vasta área em que é falada, grande núm ero de dialetos e de variações regionais. Com o ocorre com o iorubano. E com o acã. No entanto, apesar de algum as peculiaridades que distinguem o hauçá de Socotô do de Kano, o idiom a é por toda

parte o m esm o.8

A hom ogeneidade da língua e da cultura hauçás sugeriria, segundo essa tese, que sua expansão se tenha dado dentro do segundo m ilênio d.C. A partir de um ponto que se situaria na parte oriental da própria Hauçalândia. Dali, pequenas com unidades de agricultores teriam com eçado a se derram ar para oeste, dom esticando a m ata e o cerrado e os transform ando em savanas e cam pinas. O cultivo de grãos, a criação de gado e o uso do ferro teriam estabelecido as condições de um rápido aum ento dem ográfico, para o qual contribuiu a

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assim ilação das populações benué-congas encontradas no cam inho.

Há quem concorde em situar a origem dos hauçás a oeste do lago Chade, com o quer essa teoria, m as dela discrepe quanto ao com prim ento m áxim o de um m ilênio desde o início de sua difusão. O período é tido por m uito curto, quando confrontado com a grande expansão lograda pelo hauçá, em detrim ento dos idiom as benué-congos, e com a am plitude da diferença, sobretudo no plano

gram atical, entre aquela e as outras línguas chádicas. 10

Um a hipótese m ais recente 11 faz os antepassados dos hauçás retornarem ao Air. Eles seriam os vizinhos, a norte e a oeste, dos zagauas, m as, com o alastram ento destes, viram a área sob seu controle contrair-se para o que é hoj e o norte de Daura, Katsina e Gobir. De lá, eles se teriam espalhado para sudoeste,

pelas terras ocupadas pelos am bus, a nom e genérico para um a gente de idiom a níger-congo, conhecedora do ferro (talvez recebido de Nok) e que continuava a m over-se, com suas cabras e carneiros, do sul para o norte. Enquanto os am bus procuravam as colinas e os m ontes, os hauçás preferiam instalar-se nos vales dos rios. Com o tem po, os dois grupos iriam disputar o dom ínio das vilas e cidades.

Abdullahi Sm ith12 via os prim itivos hauçás a viverem em pequeninas com unidades agrícolas, aldeolas form adas por grupos de fam ílias cuj as roças eram contíguas. Cada linhagem tinha seu chefe, que sacrificava aos antepassados com uns. E é possível que os caçadores, os pescadores, os ferreiros, os tecelões — ofícios que se transm itiam nas m esm as fam ílias — tivessem tam bém os seus líderes, que cum priam as obrigações religiosas para com os num es das m atas, das águas e do ferro. Dentre os cabeças de linhagem talvez um gozasse de certa superioridade sobre os dem ais, por se considerar descendente do fundador do povoado ou de quem prim eiro estabeleceu a aliança com o espírito que era dono ou senhor da terra. E talvez fosse ele especialm ente ouvido nos conselhos em que se tom avam as grandes decisões da grei.

A autoridade, o prestígio e a riqueza foram , assim , concentrando-se nas m ãos de alguns poucos. Isto acentuou-se com o crescim ento dos vilarej os e de seus m ercados e com a fixação neles de nova gente — artesãos, m úsicos, com erciantes — sem laço de parentesco com os que dantes ali m oravam . À m edida que a aldeia (ou gari, em hauçá) se expandia, aum entava provavelm ente a concentração do poder: um chefe-sacerdote ia am pliando pouco a pouco o com ando político e assum indo o caráter de príncipe, enquanto os dem ais cabeças de linhagens e líderes de ofícios com punham um a espécie de nobreza.

Um ou outro gari crescia m ais depressa que os dem ais. E, quando seu poder se tornava m aior do que o dos vilarej os vizinhos, a estes subm etia e colocava-os sob seu senhorio.

A rápida expansão de um a dessas vilas dependia de m uitos fatores. Em prim eiro lugar, da qualidade do solo que a cercava, pois, m uito em bora se salientem os aspectos urbanos da cultura hauçá, a lavoura era a sua base. Os hauçás, antes de m ais nada, tinham -se por agricultores. Norm al, portanto, que o segundo fator de relevo fosse a abundância de água, em rios, regatos, fontes ou lençóis subterrâneos, num a região de poucas chuvas.

As terras deviam geralm ente ser boas para o algodão, pois desde cedo as vilas hauçás se notabilizaram pelos seus tecelões. E tam bém pelos seus curtidores e artesãos do couro. E por sua indústria do ferro. A existência próxim a de certas m atérias-prim as — depósitos ferríferos, por exem plo — criava especiais condições para o desenvolvim ento de um a aldeia, o que tam bém era favorecido pela facilidade de acesso ao burgo e pela sua posição nos cam inhos caravaneiros ou em encruzilhada de rotas com erciais.

Todas essas circunstâncias estim ulavam o afluxo de novos im igrantes, e m ais um a: a capacidade de proporcionar refúgio seguro contra os ataques de inim igos. Por isso, frequentem ente a ascensão de um a aldeia a centro de estado liga-se à construção de m uros dentro dos quais se acolhiam , em caso de perigo, as populações dos cam pos vizinhos. O gari transform ava-se então em birni: assum ia

um significado m ilitar. 13 Passava a abrigar não apenas casas, m as tam bém poços d’água e cam pos de cultivo, de m odo a poder resistir a cercos dem orados. Ali se depositava a riqueza e dali se controlava um a am pla região.

O povoado que se expandia tinha de ser capaz de oferecer um outro tipo de proteção aos seus habitantes: tinha de contar com o am paro e o favorecim ento dos poderes espirituais. Se nele ficava um santuário de prestígio, para lá convergia num erosa gente, a acrescentar-lhe força de trabalho e poder.

As crenças religiosas dos hauçás de então não deviam ser, em suas grandes linhas, distintas das que hoj e professam aquelas m inorias que dentre eles não se renderam ao islam ism o. Com o outros povos africanos, acreditavam num deus suprem o, distante do m undo e dos hom ens, Ubanj ij i, e num grande núm ero de espíritos ou forças tutelares, os iscóquis, que determ inavam cada aspecto da vida e conduziam o destino dos seres. Rigoroso ritual regia a relação entre os crentes e os iscóquis, os quais eram recebidos m isticam ente pelos seus eleitos. É possível,

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com o querem alguns, que a possessão do fiel pelo bori (ou iscóqui que desce

sobre o seu “cavalo”) só se tenha transform ado no elem ento central dessa religião com o advento do islam ism o, com o se as antigas “divindades tem essem ser expulsas dos corações e então se m anifestassem com um a veem ência m ais

acerba”. 15 O m ais provável, porém , é que a possessão m ística, a convite da m úsica e da dança, j á fosse o eixo dessas crenças, quando elas eram a religião de toda a com unidade e não apenas das m ulheres — por excluídas da

participação com pleta nos rituais m uçulm anos16 —, dos estratos sociais m enos favorecidos, dos cam poneses e das m inorias m arginalizadas. Diferente seria o

panteão dos boris, pois o de agora17 m ostra ter acolhido novas personagens da vida hauçá — com o o Malam Aláj i, vestido de branco e a ler o seu Alcorão. E não se sabem que m odificações terão sofrido as cerim ônias e os ritos da fé, atualm ente sem elhantes, na aparência, aos dos candom blés da Bahia.

Alguns desses iscóquis estavam ligados a bosques, colinas, grandes aflorações de pedra nua, regatos, fontes, árvores. E, se se revelavam poderosos, traziam enorm e prestígio aos sítios onde eram venerados. Dutsen-Dala, em Kano, foi um desses lugares. Ali, num a árvore cercada por um m uro, parava Chum burburai, o espírito da m ontanha negra de Dala — negra porque rica em ferro — e dos bosques de Jakara.

Com a força de Chum burburai, com um dos solos m ais férteis do norte da Nigéria — bom para os cereais, ótim o para o algodão — e abundância de m inério ferrífero, Kano tinha todas as condições para transform ar-se de gari num a cidade am uralhada, num birni, num im portante centro de poder.

Segundo Abdullahi Sm ith,18 o processo foi lento e cheio de conflitos, as instituições existentes transform ando-se pouco a pouco, ao se adaptarem ao crescim ento da com unidade, à ininterrupta chegada de forasteiros, à expansão do m ercado e das m anufaturas. Não se tratava m ais agora de organizar a vida coletiva de alguns grupos de pessoas ligadas pelo parentesco, m as de dar orientação e im por disciplina a um aglom erado cosm opolita, onde as velhas fam ílias se m isturavam às recém -vindas e com elas com petiam nos m ercados, nos pátios e nas ruas, por onde transitavam , sem parar, tecelões, tintureiros, m úsicos, com erciantes, m ágicos, ferreiros, dançarinos, curandeiros, curtidores, gente de todo tipo, com potes, cestos ou feixes de lenha à cabeça, e a conduzir cabras, burricos e bois.

Os vilarej os vizinhos passaram a fazer parte do birni, a dele depender. E à m edida que o tecido social se fazia m ais com plexo, m ais com plexa tam bém se tornava a organização política, que deixava de ser baseada em laços de parentesco, para fundar-se no controle de um território.

Do sacerdote-chefe talvez tenha em ergido o rei, o sarqui, um ser sagrado. No alto de um sistem a de senhorios e obediências. A com andar um a com plicada hierarquia de funcionários: o m agaj in gari, ou “herdeiro da cidade”, possivelm ente o chefe da adm inistração; o sarquim casuva, ou “rei do m ercado”; o sarquim cofa, ou guardião das portas da cidade; os chefes titulados dos vários grupos de estrangeiros.

O sarqui não era apenas o rei da cidade, nem o birni a ela se restringia. Cada estado hauçá espraiava-se por largo território, a com preender aldeotas, com seus extensos roçados e pastagens, garis e até m esm o outros birnis, que não haviam logrado, sob pressão de vizinho m ais forte, conservar a independência.

O sarqui era escolhido, sem pre dentro de um a só linhagem , pelo grupo de nobres e sacerdotes que faziam o rei. Em bora tivesse todas as características de um m onarca sagrado — e, com o tal, fosse responsável pela prosperidade do birni, pelas colheitas, pelas chuvas, pela fecundidade dos rebanhos, pela paz e pela guerra —, tinha perm anentem ente de tom ar em consideração, nas suas decisões, os interesses das linhagens m ais fortes, dos nobres (ou m asu sarauta), que se distinguiam e se apartavam do povo com um . Seu poder dependia do núm ero de cavaleiros arm ados que pudesse pôr em pé de guerra, e esse núm ero, da fidelidade da nobreza, cuj os serviços tinha de retribuir com a doação de terras.

Esse enredo da evolução da pequenina aldeia agrícola para o birni e dos chefes de linhagens para o sarqui não exclui o contágio de ideias, form as políticas e sím bolos de fora — do Mali e, sobretudo, de Canem -Bornu, de onde Kano recebeu até m esm o títulos, com o galadim a e cirom a, ostentados pelos grandes do poder. O que esse enredo refuga é terem a estrutura e as instituições da cidade-estado hauçá sido im postas por conquistadores estrangeiros. E, por isso, os que o sustentam afirm am ser pura lenda a história de Baiaj ida.

Esta, num a das suas versões,19 b conta com o um certo Abuiazidu ou Baiaj ida,

após brigar com o pai, o rei de Bagdá, chega a Bornu e ali se casa com a filha do m aí. Conta com o, depois, foge para Daura, na Hauçalândia, deixando a m eio cam inho, em Gabas, a princesa canúri, com um filho que dele tivera. Ao chegar a Daura, Baiaj ida pede a um a velha que lhe dê água. A m ulher responde-lhe ser isto im possível, porque a grande serpente que vive no poço não deixa que ninguém dele tire água senão às sextas-feiras. Abuiazidu vai ao poço, m ata o m onstro e, com o recom pensa, desposa a rainha de Daura. Dela tem um filho,

Bauogari ou Bauo, c que, após a m orte de Abuiazidu reinou sobre o birni. Bauo gerou seis príncipes: Gazaura, que foi rei de Daura; Bagauda, rei de Kano; Gungum a, rei de Zazau (ou Zária); Dum a, rei de Gobir; Cum aiau, rei de Katsina; Zam a Cogi, rei de Rano. Estes seriam os fundadores das casas reais de seis dos cham ados sete estados hauçás legítim os (Hausa Bakwai). O sétim o, Garun Gabas, teria tido por prim eiro soberano Biram , nascido de Baiaj ida com a filha do m aí de Bornu.

Nesse relato não se afirm a que Abuiazidu fundou Daura, m as que se apossou, pelo casam ento, de um estado j á existente, dando início a um a estirpe de príncipes que foi criar novos reinos. As tradições locais atribuem a origem de Daura a Abdul Dar, cuj o pai, Naj ibe, se transferira de Canaã para Trípoli. Vendo frustrados os seus esforços para reinar sobre Trípoli, Abdul Dar teria em igrado para a Hauçalândia e se estabelecido com o chefe nas cercanias de onde é hoj e Daura. Após ele, sucederam -se nove m ulheres no poder, a últim a das quais, Daura, se transferiu para a cidade que tom ou seu nom e. Teria sido ela quem

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contracenou com o Baiaj ida.

Se, para m uitos, a história de Baiaj ida é pura lenda ou construção ideológica tardia (posterior ao século XVI, talvez do século XVIII), destinada a dar substância às pretensões de grandeza de certos birnis e de suas casas reinantes ou a j ustificar a suserania que Bornu avocava sobre as cidades-estado hauçás e os correspondentes tributos que delas procurava receber — afinal Baiaj ida fora vassalo e genro do m aí —, para outros reflete, sim bolicam ente, os prim eiros passos dos hauçás. Ela corroboraria a tese da expansão a partir do leste, isto é, da atual área de contato entre os hauçás e Bornu. É de Garun Gabas, em plena zona lim ítrofe, que Baiaj ida vai ter a Daura, e é de Daura que derivam as outras cidades. Algum as, Garun Gabas, Daura e Rano, tiveram destino hum ilde, pois, em bora am uralhadas, nunca passaram de aldeias; outras, Kano, Katsina e Zária, conheceram riqueza e poder; m as todas, com exceção de Gobir, ficam na parte oriental da Hauçalândia. Por isso, j á se propôs que Gobir não fosse de fato um a

das cidades-estado legítim as, m as talvez o resultado de posterior hauçaização.21 As tradições de Baiaj ida e das sete cidades legítim as indicariam ainda que as instituições políticas dos hauçás se desenvolveram e consolidaram no processo de conquista do oeste e que pertenceriam , no que tinham de essen-cial, ao conj unto

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de sua cultura, desde o início da m igração.

A história de Baiaj ida e de seus filhos tem sido tam bém interpretada com o a indicar que o sistem a político das cidades hauçás foi im posto de fora, por um grupo de conquistadores a cavalo, segundo o m odelo proposto para o Bornu (m as

não para a Hauçalândia) por Y. Urvoy 23 e retom ado por tantos outros: os nôm ades, em bora em pequeno núm ero, dom inavam os agricultores e sobre eles estabeleciam um sistem a de m ando.

A teoria da origem externa do regim e político dos sarquis pode tom ar outra

roupagem .24 Em vez de ser indígena e de se ter desenvolvido aos poucos de instituições preexistentes, o regim e representaria um a ruptura com o passado. Estrangeiros — um a elite de com erciantes e clérigos m uçulm anos, m uitos deles uângaras ou diulas m andingas, fam iliarizados com as estruturas de poder do Mali — tentaram im por a m onarquia sobre os hauçás, sendo, diante da resistência dos cam poneses, fiéis às suas divindades tradicionais e aos chefes-sacerdotes que as serviam , obrigados a um sistem a de com prom isso, no qual o novo rei se apoiava não só sobre as forças que o haviam colocado no poder, m as tam bém sobre as estruturas políticas dos antigos senhores da terra. O chefe tradicional, que representava o fundador da aldeia e era penhor da aliança entre os hom ens e o solo, guardaria assim suas funções religiosas e, consequentem ente, certas prerrogativas políticas. Por seu lado, o sarqui tam bém oficiava determ inados ritos. O novo e o antigo regim es conviveriam , em harm onia ou discórdia, num m esm o território. Haveria um sistem a dual, em que o rei tinha de sair de um a única linhagem estrangeira, m as era escolhido, em parte ou totalm ente, pelos chefes dos grupos de fam ílias da terra.

A Crônica de Kano, descoberta por H.R. Palm er25 entre os ulem ás da cidade, relata, em suas prim eiras páginas, um a prolongada luta de resistência à m udança, conduzida pelos líderes religiosos contra um novo sistem a de poder e um a nova dinastia.

Dutsen-Dala tinha à sua frente, no com eço, 11 chefes de clãs, cada qual vinculado a certo ofício: um fundidor, um ferreiro, um curandeiro, um tecelão. A um dentre eles cabia a direção religiosa e política, em bora em concerto com os dem ais, por ser o descendente do fundador da aldeia e com o tal controlar o culto do espírito do m onte de Dala, Chum burburai. O quinto, na sequência histórica desses chefes-sacerdotes, cham ava-se Barbuxe. Era um grande caçador e um grande m ágico.

Quando Barbuxe ainda vivia, ou logo após sua m orte, chegou à região, com sua gente, Bagauda ou Bagoda, filho de Bauo e neto de Baiaj ida, e ali se estabeleceu com o sarqui, concedendo terras aos seus seguidores. A população indígena, apesar de subm etida m ilitarm ente, continuou a resistir-lhe e a hostilizá-lo, perm anecendo fiel às suas antigas devoções.

Os forasteiros construíram um m uro ao redor da m orada de Chum burburai, a fim de im pedir que a gente do cam po continuasse a visitá-la e assim reduzir a autoridade do sacerdote-chefe, que retirava o seu poder do espírito de Dala. Em balde. O conflito entre os sarquis e as antigas instituições persistiu por m uito

tem po, até que o nono daqueles, Cham ia, d destruiu o santuário de Chum burburai. A vitória não foi, porém , com pleta, pois, talvez para incorporar a autoridade derivada de Chum burburai ao tecido da nova ordem , teve Cham ia de elevar a altas posições, com o título de sarquim , dois de seus sacerdotes.

Durante esse período, parece ter havido constante luta pela suprem acia entre os vários povoados que form avam o que viria a ser o estado de Kano. O sarqui instalado no sopé de Dala teria, com o tem po, subm etido a m aior parte das chefias da área. Sua expansão territorial tom ou, contudo, m aior ím peto na

e

segunda m etade do século XIV, quando do reinado de Iaj i dã Cham ia. Suas tropas expulsaram o sarqui de Rano e conquistaram Santolo.

As narrativas que vão desde a chegada de Baiaj ida até a conquista de Santolo servem de base a outras hipóteses. Assim , Baiaj ida pode ser visto com o um príncipe bornu ou saô que desposa um a rainha hauçá, quando os hauçás ainda viviam ao sul do Air e no norte de Daura, Katsina e Gobir, e dela tem um filho, Bauo, que, por sua vez, se liga em m atrim ônio a três m ulheres am bus, gente da terra, que falavam possivelm ente um idiom a benué-congo. Lida deste m odo, a lenda fundaria os sete estados hauçás legítim os — ou os reinos am bus das

savanas do norte26 — na aliança entre grupos de língua chádica e os de idiom a benué-congo que os precederam na área. Os forasteiros e seus descendentes tenderiam a fixar-se em povoados onde predom inavam cultos de audiência m ais larga do que a dos santuá-rios locais. Aquelas aldeias que adoravam deuses cuj os lugares santos se espalhavam por um a am pla área podiam m elhor conciliar dentro delas dois ou m ais cultos localistas, servir de sítio neutro, de ponto de convívio, de m ercado. E pronto iriam disputar, com cada vilarej o que sediava um a divindade local e o poder dela derivado, o predom ínio na crença e no m ando.

Dala, após a neutralização de Chum burburai, ter-se-ia transform ado num desses lugares onde se estabeleciam os estrangeiros. Mas o principal centro de poder da área era Santolo, um pouco m ais para sudeste, a abrigar fam oso santuário no alto de um grande m onte de pedra nua. Com sua conquista, Iaj i, aj udado — assim o afirm a a Crônica de Kano — por um grande núm ero de uângaras islam itas, concluiu o risco dos lim ites de um reino onde seu m ando era incontrastado. E tão forte se sentiu, que continuou para o sul, indo provocar os

f

cuararafas, na outra m argem do rio Gongola.

Sobre os cuararafas m uito se discute e pouco se sabe. Alguns 27 j ulgam haver suficiente evidência para identificá-los com os j ucuns, nom e que aparece no

século XVIII, a ocupar o vale do Gongola e o m édio Benué. Para outros,28 seriam um a confederação de diferentes grupos étnicos, a que os j ucuns, um a

casta sacerdotal, daria unidade. Certo autor 29 propõe que form assem um reino, Iam , ou um conj unto de santuários e chefias, que depois os j ucuns absorveram . E não falta quem considere que a palavra “cuararafa” se aplicava “de m odo geral

a povos do vale do Benué (não necessariam ente o m esm o em cada ocasião)”. 30

O que se sabe é que os cuararafas, j á na m etade do século XIII, dom inavam a região entre o Gongola e o Benué. E que — parece — controlavam o com ércio do sal, extraído de fontes, alagadiços e lagunas ali existentes. “Kororo”

significaria “sal”, ou a m edida usada para o sal, 31 ou o saco em que o produto é

transportado; 32 daí “kororo-afa”, os “vendedores de sal”, o “povo do sal”. O desej o de substituí-los no senhorio dessa m atéria-prim a explicaria os ataques que sofreram de Bornu, de Zária e de Kano.

Fustigados pelas arm as de Iaj i, os cuararafas teriam com prado a paz com escravos. E escravos seriam a m oeda com que adquiririam em Kano os cavalos de que necessitavam .

É possível que alguns dos anim ais j á fossem de grande porte e criados na Hauçalândia, enquanto que outros seriam provenientes do Magrebe, da Líbia ou do Egito. Com o norte e com o sul, portanto, Kano trocava escravos por cavalos — e a íntim a aliança entre as duas m ercadorias caracterizará por m uito tem po as transações entre as áreas produtoras de equinos e aquelas em que os anim ais dificilm ente procriavam e só sobreviviam com grandes cuidados. Cavalos e escravos estavam vinculados à guerra: os anim ais serviam para derrotar e capturar inim igos, que eram vendidos para com prar m ais cavalos, usados para

produzir m ais escravos. 33

Diz a Crônica de Kano ter sido durante o reinado de Iaj i que chegaram àquela cidade-estado os prim eiros islam itas, uângaras do Mali. Os catequistas eram clérigos que acom panhavam os m ercadores — e talvez fossem eles próprios

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com erciantes — ao longo da rota de Gao ao Air e do Air a Gobir e Katsina, ou

de Jenné, atravessando o Volta, até a Hauçalândia.35 Esses uângaras trouxeram com eles não apenas o islão, m as tam bém novos m odos de com erciar e novas ideias políticas. E, se são recordados pela Crônica com o os introdutores do m aom etanism o em Kano, é porque converteram o sarqui, ficando na som bra os que, antes deles, vindos de Canem ou m esm o do oeste, pregaram aos fornecedores, fregueses e hospedeiros, ao hom em com um dos m ercados e das ruas. Custa a acreditar que o islão, ativo em Canem a partir pelo m enos do fim do século XI, não se tenha m ais cedo propagado entre os hauçás. O m ais provável é que sim . Tanto que as palavras árabes ligadas à religião chegaram ao idiom a

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hauçá através do canúri, só m ais tarde sendo acrescentadas por outras trazidas

pelos m andês. 37

A conversão de Iaj i e a construção de um a m esquita (sob a árvore sagrada do culto tradicional) não foram , ao que parece, bem recebidas por grande parte da gente de Kano. A Crônica chega a m ostrar-nos elite e populacho a hostilizar o novo tem plo, a j ogar contra ele todo tipo de detritos, até que lhes advém o castigo: cega o líder da resistência, e cegos ficam depois dele os dem ais pagãos. Não todos, porém , ou a antiga fé renascia facilm ente, pois o sucessor de Iaj i,

Canaj ej i, g reviveu o culto de Chum burburai e o sarqui seguinte, Um aru, para continuar m uçulm ano, teve de retirar-se à vida privada.

A Canaj ej i atribui-se o ter introduzido em Kano, talvez sob influxo de Bornu, 38 novos equipam entos m ilitares: o lifidi, ou proteção acolchoada dos cavalos, o capacete de ferro e a cota de m alha. E diz-se que passou a m aior parte de seu reinado em cim a de um a sela, no cam po de batalha.

Sendo um guerreiro, o poder dos chefes m ilitares aum entou em seu governo. Já então crescera a ascendência da nobreza, da classe m asu sarauta, que passara a com preender, além dos descendentes dos principais com panheiros de Bagauda, dos líderes de algum as vilas e dos sacerdotes de Chum burburai, os grandes generais — o barde, o m adauaqui, o galadim a, senhores do butim e da preia de escravos. O galadim a pronto se transform aria num rival do próprio sarqui.

Essa política de conquista espelhava um birni em expansão e lhe favorecia o desenvolvim ento, pois punha sob seu dom ínio m ais terras para lavouras e m ais gente para trabalhá-las, vassala ou escrava. Grande parte dessa terra nova caía nas m ãos do rei e dos nobres, e nela se assentava num erosa escravaria.

Os solos férteis de Kano — estam os no início do século XV — cobriam -se de m ilhete, arroz, sorgo, fônio, citrinos, algodão, pim entas, índigo. A m aior parte destes produtos afluía para a capital e para os vilarej os satélites, onde se m arroquinava o couro, e com ele se faziam sandálias, chinelos, sacolas, selas, rédeas, alm ofadas e pufes, se tecia e tingia o algodão, se trabalhavam o cobre e o ferro. Talvez os uângaras tenham contribuído para o fom ento das m anufaturas na Hauçalândia e para a difusão de novas técnicas com erciais, que seriam

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rapidam ente adotadas com o suas pelos hábeis m ercadores hauçás.

Kano tornara-se um grande em pório. Com erciava com o sal de Bilm a e o natrão do Chade, com o m ilhete, a lã, o couro, as gom as e o algodão, com o ouro, o m arfim , o cobre, o estanho e a noz-de-cola, com cavalos, m içangas e escravos. Intercam biava bens com o Air e Songai, com Bornu, Nupe e os cuararafas, com as outras cidades-estado hauçás, com o deserto, o Sael, a savana e a floresta.

O com ércio com o norte e o estabelecim ento de vínculos com a praia setentrional do deserto tornaram -se m ais fáceis com a abertura da rota do Air, graças ao progresso dos tuaregues no sentido da pacificação e da organização política de suas tribos.

Os berberes em buçados talvez tenham com eçado a percorrer com seus rebanhos os pastos bons das m ontanhas do Air antes do início do segundo m ilênio de nossa era. No fim do século XI, um grupo de sete tribos form ou um a frouxa confederação, que tom ou o nom e de Itesã. Essa gente nôm ade foi lentam ente deslocando para o sul os antigos habitantes das m ontanhas, os gobirauas, um povo

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da língua hauçá (ou hauçaizado m ais tarde), que viria a form ar o reino de

Gobir.

Os tuaregues criavam cam elos e os vendiam com o anim ais de carga a caravanas que, com o florescim ento do im pério do Mali, faziam a rota entre a curva do Níger e o Egito. Beneficiavam -se talvez do com ércio de cobre de Takedda e provavelm ente do sal de Bilm a, de que depois teriam o m onopólio.

Cada um a das tribos procurava controlar a passagem das cáfilas, para lhes cobrar proteção e direitos sobre as m ercadorias que conduziam . Eram frequentes, por causa disso, os conflitos arm ados, que se adicionavam aos surgidos de controvérsias sobre o uso de pastagens e de pontos d’água. Para evitar a continuação da guerra de todos contra todos, o arum bulu, ou líder da confederação de Itesã, resolveu instalar com o chefe de todos os tuaregues do Air alguém que, a eles sendo estranho, lhes pudesse servir de árbitro. Buscaram o prim eiro sultão num a cidade de negros. Talvez no Fezzan. Talvez no sul do Air e

h

em Asode, o principal centro urbano dos gobirauas. O que im porta é que Iunus, o escolhido, não era tuaregue e tinha origem servil, podendo por isto atuar com o

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m ediador e j uiz nas disputas entre as tribos.

O sultanato instalou-se, no início do século XV, em Tadeliza, m as m udou-se

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logo depois para Tin-Sham an e posteriorm ente para Agadés. Com este passo,

acentuou-se a m igração dos gobirauas, que desceram no rum o das fronteiras de Katsina e foram estabelecer sua capital em Birni Lalle. A m enos que o deslocam ento tenha sido de um a só fam ília, que veio a form ar a dinastia reinante

em Gobir,43 ou de um grupo, que se consolidou nas novas terras com o classe dom inante.

Qualquer que sej a a verdade, Gobir se transform aria num bastião hauçá contra o expansionism o tuaregue. Mas não teria apenas essa função negativa. Seria igualm ente im portante interm ediário com ercial: pela cidade passava o cobre de Takedda e dela saía o ouro de Zam fara.

O papel que Gobir exerceria ao norte coube a Zazau, no sul. Foi este estado hauçá não apenas um baluarte m ilitar contra os cuararafas e o reino de Nupe — que se desenvolvia sobre o rio Níger —, m as tam bém um grande em pório do ouro, da cola, do m arfim e dos escravos.

As genealogias de Zazau anotam 17 soberanos antes da m etade do século XV. A sua capital firm ou-se em Dutsen-Kufena, onde hoj e é a cidade de Zária, m as se ignora se antes esteve em outros birnis e qual a antiga extensão de seus territórios, um a vez que próxim os a Dutsen-Kufena se desenvolveram vários outros centros de poder, que depois decaíram . É possível que tenham sido absorvidos por Zazau, no fim do século XIV ou início do XV. O m ais im portante desses birnis talvez tenha sido Turuncu, a 32km ao norte de Kaduna, desde há

m uito abandonado e de história desconhecida. 44

Afirm a-se que o prim eiro sarqui m uçulm ano de Zária teria sido Muham ad

Rabo,i reinante na m etade do século XV. Após sua m orte, houve troca de

j

dinastia, ascendendo ao poder Bacuan Turuncu — “o estrangeiro de Turuncu”. Vindo daquela cidade, ele se sobrepôs à linhagem que reinava em Dutsen-Kufena, cuj o nom e m udou para Zária, em hom enagem a um a filha assim cham ada.

À irm ã de Zária, Am ina, atribui-se a posição preponderante que Zazau teria tido, no século XV, na Hauçalândia. Segundo a história tradicional, a princesa estendeu consideravelm ente os dom ínios zazaus e tornou tributários vários estados, entre os quais os dos cuararafas e nupes. Ela teria sido a prim eira pessoa na Hauçalândia a possuir eunucos e noz-de-cola, recebidos am bos do rei de

Nupe.45

Murray Last46 reconstrói de m odo diferente os prim eiros tem pos de Zária. Nos vales do rio Kaduna e de seus afluentes, num a região rica em ouro, conhecida com o Kangom a, desenvolveram -se, ainda no século XIII, confederações de aldeias, das quais em ergiu um reino tendo por centro Turuncu. Essas aldeias, herdeiras de Nok, dedicar-se-iam ao trabalho e ao com ércio dos m etais, sobretudo do ferro e do ouro. Atraíram , consequentem ente, m ercadores e artesãos estrangeiros, m uitos dos quais hauçás, que se instalaram m ais ao norte, num vilarej o próprio, j unto a Dutsen-Kufena. Isto no século XVI, quando o reino de Kangom a se tornara conhecido com o Zegzeg ou Zazau. No início da centúria seguinte, a cidade dos forasteiros fizera-se no m aior poder da área e acabaria por dom inar, absorver e hauçaizar o que fora Zazau. Só então Moham ad Rabo se converteria ao islam e e dele faria o credo do estado, o que não significa que o m aom etanism o não fosse desde m uito praticado em Kangom a, especialm ente

entre as com unidades hauçás e m andingas. 47

Os fatos atribuídos ao reinado da suposta filha de Moham ad Rabo, ainda que Am ina sej a apenas um a figura lendária, fazem m ais sentido duzentos anos antes. No século XV, Zazau j á devia ter-se tornado um centro de com ércio com o ocidente, com o sul e com o nordeste, a fornecer a Bornu e aos portos caravaneiros do Sael o m arfim do vale do Benué, o ouro de Kangom a, de Zam fara e do longínquo vale do Volta, os escravos que ia prear nas terras do sul ou que trocava por cavalos e outros produtos com os nupes e os cuararafas.

Crê-se que foi então que se abriu um novo roteiro, m ais direto, entre o rio Volta e a Hauçalândia. Em vez de fazer-se um a grande curva, passando por Jenné e pelo cotovelo do Níger, cortava-se Borgu e Bussa para desem bocar em Zária e seguir para Bornu ou para as cidades hauçás m ais ao norte. Por ali vinha o ouro, de Buré, Lobi e das florestas acãs, e voltavam o natrão de Bornu (usado com o substituto do sal, com o am aciador da carne, com o m edicam ento e com o ingrediente para fazer sabão, para curtir o couro, para tingir tecidos e, bem m ais

tarde, para dar ao fum o de m ascar um sabor picante)48 e panos, artigos de couro, cobre, ferro, sal. Pelo m esm o cam inho, que principiava abaixo de Gonj a, no atual Gana, chegava à Hauçalândia, em quantidades que foram crescendo com o tem po, a noz-de-cola, introduzida possivelm ente na região pelos m ercadores uângaras.

Mal se fez conhecida, essa noz de gosto am argo difundiu-se rapidam ente savana afora, beneficiada pelo fato de ser um estim ulante não condenado no Islão. Dela, rica em cafeína e teobrom ina, diz-se que reduz a fadiga, a fom e e a sede, que excita e desperta. Ao seu redor desenvolveram -se ritos sociais: assim com o, no Brasil, ao visitante se faz beber, logo à chegada, um cafezinho, na Hauçalândia se oferece a noz-de-cola. Ela é distribuída nos casam entos, nas grandes festas, antes das reuniões dos conselhos de estado, no final dos j antares. E, quando se quer selar um acordo ou fazer prova de am izade, parte-se um a noz para que dela cada um com a um pedaço. Em Daura, e em outros reinos hauçás, havia m esm o, ainda no século XIX, um funcionário, o dã barau, encarregado de distribuir a cola, nas solenidades e nos m om entos de j úbilo, com o quando um sarqui era instalado no poder. O novo rei enviava, na ocasião, um a carta, acom panhada de noz-de-cola, ao soberano de Bornu e aos seus iguais dos outros

estados hauçás, com o gesto de estim a ou irm andade49 — e nisto e na presença da cola nas cerim ônias de natureza política podem -se ver ressonâncias de quando a noz era um bem raro, um luxo dos grandes da terra.

Em bora provavelm ente j á se consum isse na Hauçalândia do século XV a Cola acum inata, existente nas m atas de Nupe e do Iorubo, desde cedo a espécie m ais apreciada nas savanas do norte foi a Cola nitida, que cresce naturalm ente nas florestas a sudoeste do rio Volta e tam bém no interior da Serra Leoa e da Guiné. Levá-la dali, através da floresta, de carrascais, de cerrados e de savanas, até o norte custava enorm es trabalhos. A cola, na m ata cerrada, tinha de ser carregada aos om bros ou à cabeça. Quando a vegetação se abria, passava para o lom bo dos bois, dos burros, dos j um entos, ou continuava a pesar sobre o pescoço dos escravos e dos m ercadores m ais pobres. Foi este o breve retrato que nos deixou

Hugh Clapperton50 de um a dessas caravanas, de m ais de m il hom ens e m ulheres, com que topou, em 15 de m arço de 1826, a cam inho de Bussa. Não seriam , talvez, tão grandes as do século XV, m as é possível que j á prenunciassem a engenhosa organização m ercantil e param ilitar que nelas reconhecem os no

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Oitocentos.

Os m ercadores reuniam -se em caravanas para se proteger dos azares da longa viagem — dem orava de seis m eses a um ano o ir e voltar entre a Hauçalândia e Gonj a —, dos salteadores, dos grupos inim igos e dos povos em guerra que podiam encontrar no cam inho. Pagavam em com um os direitos de passagem por terras alheias, bem com o as canoas que utilizavam para atravessar os rios; e davam em com um os presentes aos chefes em cuj as aldeias queriam com erciar.

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Pois j á se disse que as caravanas da cola eram m ercados em m ovim ento. Onde paravam , geralm ente em acam pam entos fora das cidades e vilas, trocavam produtos com a gente da terra.

Tem po, distância, capitais e perigos eram com pensados pelo alto preço que atingia a cola na Hauçalândia. No fim do século XIX, um a noz, adquirida em Gonj a por cinco cauris, era vendida por 250 ou 300 nas cercanias do lago

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Chade. Quatrocentos anos antes, a diferença entre o valor de com pra e o valor de venda seria possivelm ente m uito m aior.

As caravanas da cola, do ouro e do natrão eram apenas parte de um a extensa rede com ercial a envolver o Magrebe, o deserto, o Sael, as savanas e a floresta, árabes, berberes, canúris, fulas, hauçás, m andingas e m uitos outros povos. As cidades m ercantis tinham todas seus quarteirões de estrangeiros, na m aioria zelosos m uçulm anos. E pensa-se terem sido eles os m otores das transform ações políticas, de inegável roupagem religiosa, que se produziram na Hauçalândia, na fase final do século XV.

Vej a-se o caso de Katsina. Existiam na região várias chefias, talvez centradas em cultos e santuários independentes. Um a delas, a m ais im portante, era a de Durbi-te-Kushey e. Oito chefes ali se haviam sucedido antes que Muham ad

Corau, k uângara ou convertido pelos uângaras e a serviço destes, viesse de Yandoto (m ais a sudoeste, na região de Katsina-Laca, atual Chafi) ou de Sam ri

ou Sauri (m ais ao norte),54 e m atasse o últim o deles, Sanau, num a luta singular.

Muham ad Corau foi feito sarqui. O título de durbi, correspondente ao antigo régulo ou sacerdote-chefe de Durbi-te-Kushey e, continuou, porém , a existir,

com o um m asu sarauta, 55 um dos que elegiam o rei e presum ivelm ente tam bém o depunham . O durbi pode ter-se tornado, num a estrutura de poder dual, o chefe e sum o sacerdote dos anim istas — o vínculo da aliança com a terra.

Aqui, com o m uito anteriorm ente no caso de Kano, há quem pense que não

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houve apenas m udança de dinastia, m as, sim , de regim e político. Os uângaras

teriam procurado im por sobre a gente local a instituição m onárquica e o islam ism o. Com zelo e rigor — a tal ponto que o sarqui Ibrahim Sura, o líder dos uângaras que sucedeu a Muham ad Corau, obrigava, sob pena de prisão, todos os súditos a rezarem conform e prescrevia a lei m uçulm ana. Diante da obstinada resistência da m aior parte da população indígena, que continuava fiel às suas antigas crenças e aos chefes-sacerdotes, o tem po forçou os sarquis a procurarem , com o tantos outros soberanos m oslins em países pagãos, um sistem a

de equilíbrio entre m aom etanos e anim istas rurais. 57

Os sarquis tiveram de com por-se com os sacerdotes tradicionais, de quem dependiam para ser eleitos e para perm anecer no poder. Talvez por causa disso, esses soberanos islam itas assum iram as características de reis sagrados. O sarqui de Katsina era m orto ritualm ente, ao atingir a velhice ou ao ficar seriam ente enferm o. Seu sucessor era banhado no sangue de um touro, dentro de cuj o corpo

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se colocavam , para assim enterrá-los, os restos m ortais do antigo soberano.

Teria sido Corau quem fundou a cidade de Katsina, num sítio onde existia um im portante santuário, Bauda, e um a m ina de ferro. Foi, porém , o terceiro sarqui, Ali Murabus, quem construiu as m uralhas que envolvem a urbe, na passagem do século XV para o XVI.

Contem porâneo de Muham ad Corau foi Muham ad Runfa (c. 1463–1499). A tradição atribui-lhe o ter restaurado e renovado o islam ism o em Kano. Era ele

filho do sarqui Iacúbu,l em cuj o reino vieram ter à cidade vários fulas do Mali, versados em dogm ática e gram ática. A chegada desses im am es e letrados provocou decerto enorm e im pacto sobre os m uçulm anos de Kano: retem perou a fé dos que eram praticantes; reacendeu o zelo nos que se tinham deixado cair na frouxidão e na transigência; aguçou a curiosidade e adensou as convicções dos apenas superficialm ente crentes; expandiu a vontade de catequese.

A Iacúbu, com o depois a seu sucessor, Muham ad Runfa, não teria passado despercebida a doutrina política do islam e. Am bos teriam com preendido as vantagens de assentar o poder sobre a legitim idade corânica, para se libertarem da tutela dos sacerdotes anim istas e dos chefes de linhagens e para m elhor se contraporem às pretensões de suserania de Bornu sobre Kano e à cobiça de Songai.

Conta o Divã dos sultões de Bornu59 que, aí pela terceira década do século XV,

o m aí Osm ã ibn Daúde, m deposto por um caigam a, refugiou-se em Kano, onde m orreu. A história é confirm ada pela Crônica de Kano, na qual se diz que, por essa m esm a época, chegou de Bornu um grande príncipe, Dagaci, acom panhado

por m uita gente arm ada, a cavalo e a pé, com tam bores e bandeiras.60 É provável que Daúde ou Dagaci tenha vivido na cidade o suficiente para tornar-se um principal da terra, pois parece que ele ficava à cabeça do estado, durante as

ausências, em expedições m ilitares, do sarqui.61 Mais tarde, dagaci tornar-se-ia um título de nobreza e poder em Kano, talvez ocupado por um canúri e quase certam ente protegido por Bornu.

Ainda que Daúde não tenha atuado, voluntária ou involuntariam ente, com o ponta de lança dos interesses de Bornu em Kano, a pressão dos canúris sobre os hauçás deve ter então crescido. Ainda vivia o príncipe exilado, quando o sarqui Abdula Burj a (c. 1438–1452) com eçou a enviar ao m aí presentes em

reconhecim ento da superioridade deste.62 63 E nisto não ficou sozinho: Katsina e

possivelm ente outras cidades-estado hauçás o acom panharam . Confessavam -se elas, assim , dentro da área de influência de Bornu, quando não sob sua suserania. Que eram fortem ente m arcadas pela cultura política e religiosa bornuense, não havia negar: a própria lenda do Baiaj ida disto dá prova. E com Bornu realizava-se considerável parcela das transações com erciais de Kano, de Katsina e de Zazau ou Zária. Era através das cidades-estado hauçás que Bornu recebia ouro, cola e m arfim . Delas lhe chegavam tam bém escravos, obtidos em grande núm ero das terras m ais ao sul.

Não devia agradar a Muham ad Runfa o que era, no m ínim o, um a aparência de vassalagem . Ele tinha suas am bições, com o o revelariam as guerras contra Zazau e Katsina: pretendia talvez construir um im pério hauçá, centrado em

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Kano. E toda a sua política orientou-se no sentido de criar instituições m ais

fortes, de reform ar o estado para robustecer o sarqui. Para isso, utilizou o islam ism o.

Runfa tentou dirigir Kano de acordo com a lei m uçulm ana. E exerceu um enorm e esforço de conversão de seus súditos. As classes dirigentes e as populações urbanas depressa se islam izaram . Os cam poneses, contudo, continuaram fiéis às divindades e aos ritos tradicionais. Algum as das antigas práticas religiosas m antiveram -se vivas, sob a m áscara m aom etana, até m esm o nas cidades, fora das quais a presença do islam e e o poder do sarqui eram bem m ais restritos.

Acredita-se que, nas suas reform as das instituições, para harm onizá-las aos preceitos m oslins, Runfa tenha sido aj udado pela pregação e pelos ensinam entos de um renom ado e controverso im am e e j urista de Tlem cen, no noroeste da

atual Argélia, o xeque Muham ad ibn Abd-al-Karim ibn al-Maghili, 65 que, na década de 1490, andou em pregação religiosa e política por Agadés, Takedda, Kano, Katsina e Gao. Al-Maghili ficou fam oso com o violento polem ista, com o encarniçado inim igo dos j udeus, com o j ustificador teórico da revolução que m udou a dinastia em Songai e com o autor de As obrigações dos príncipes, um ensaio sobre a m onarquia islâm ica, dirigido a Muham ad Runfa, a quem tam bém dedicou um a outra obra, Jum la Mukhtasara.

Se Runfa teve sob os olhos, durante todo o seu governo, o tratado de Al-Maghili, é coisa que não se sabe. Pois a ortodoxia do sarqui foi posta em dúvida

por um antigo texto, a Crônica hauçá. 66 Nela, é acusado de afastar-se das leis islâm icas e de abuso de poder. Indigitam -no com o senhor de um harém de m il m ulheres, com o vendedor de crianças em escravidão, com o preservador de costum es pagãos, ao exigir que seus súditos se prostrassem diante dele e j ogassem terra sobre suas cabeças. É possível que a política de aliança com os chefes tributários tradicionalistas lhe im pusesse o enorm e harém . E que o direito que tinha a todas as virgens prim ogênitas fosse um a necessária concessão aos antigos costum es: não só se com provava com isso a sua potência de hom em , que assegurava a fertilidade no reino, m as tam bém se estabeleciam vínculos com

todas as fam ílias da terra e a elas se concedia o favor do rei. 67

A persistência de fortes traços pagãos em Runfa, de um lado, e a

intratabilidade de Al-Maghili, de outro, j á sugeriram68 um desentendim ento entre o letrado e o sarqui. As obrigações dos príncipes teriam sido, assim , escritas, não com o conselho ao discípulo, m as com o repreensão a um transviado e convite a que se em endasse.

Com o quer que tenha sido, com Runfa principia um a nova era política em Kano. Alteram -se as regras de sucessão, passando doravante o poder de pai a filho. Cria-se um conselho consultivo de nove m em bros, o Tara-ta-Kano. A escravos eunucos são dadas im portantes funções no estado, entre as quais o controle das finanças, e com isto se reduzem ainda m ais os poderes dos chefes de linhagens. Introduz-se o cam e, ou o direito do soberano a requisitar, em m om entos de grave crise, as propriedades dos súditos. Estabelece-se o cule, ou a reclusão das m ulheres.

Runfa desenvolveu um grande m ercado, levantou m esquitas, construiu um novo palácio no quarteirão m uçulm ano, fora das antigas m uralhas, cuj a parte m eridional consideravelm ente am pliou. A tradição afirm a que, na sua época, j á se escrevia a língua hauçá em caracteres árabes m odificados, em bora o m ais antigo exem plo, até agora conhecido, de texto grafado no que se cham a alj am ia

date do fim do século XVIII ou início do XIX. 69

O sarqui fez-se sultão. Aum entaram a pom pa e o cerim onial da corte. Do Air vieram as grandes trom betas de cobre vibrar entre os m úsicos do rei. De Bornu, as insígnias e os leques de plum as de avestruz. Talvez j á então — com o fariam

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seus sucessores — ele fosse à guerra ou às preces de sexta-feira acom panhado

por um a centena de cavalos sem ginetes, quarenta tam bores, cinquenta tím panos e 25 trom betas. E m uitas vezes terá ido ao cam po de batalha. Pois, durante 11 anos, deu guerra a Katsina. E m uito lutou contra Zária. A seguir o conselho de Al-

Maghili,71 para quem um príncipe não devia repousar na cidade. Sendo um a ave de rapina, a sua casa era o am plo espaço aberto.