A Enxada e a Lança
4. Napata e Méroe
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
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Napata e Méroe
Tutem ósis III sacrificou a Am on, à som bra de Jebel Barcal. O m esm o faraó, ou Tutem ósis IV (que reinou entre 1412 e 1402 a.C.), talvez tenha ali erguido um tem plo ao deus tebano, um tem plo que seria, quase dois séculos depois, substituído pelo enorm e santuário que Ram sés II m andou erigir no m esm o lugar, em louvor da m esm a divindade. O cenário, m agnífico, parece propiciar o encontro do céu com a terra, do eterno com a tem poralidade dos hom ens: ao norte do Nilo, levanta-se da planície um a ab-rupta m esa, de m ais de noventa m etros de altura, com um a parede quase vertical a olhar o rio. Era um m onte sagrado, para os que ali viviam antes da chegada dos egípcios. Estes prosternaram -se ante a evidência do divino e alinharam ao pé da m ontanha as grossas colunas do tem plo e os grandes carneiros de chifres recurvos, a sim bolizarem Am on.
Rio acim a, a Quarta Catarata estende-se por dem orado espaço e corta a navegação. Tornou-se, por isso, um lim ite natural da Núbia. E ali próxim o, em algum ponto das terras a j usante, na região a que os egípcios cham aram Napata, surgiu, na época da XVIII Dinastia, um povoado, que de sim ples posto de fronteira se fez cidade. Isto presum e-se, pois não se encontraram , até agora, os restos dela, de seus palácios ou de suas fortificações. Talvez porque estej am debaixo da atual Merowe, se é que não se ocultam j unto aos tem plos de Jebel
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Barcal ou à m oderna Karim a.
Aquela cidade, que fica tam bém com o nom e de Napata, devia, j á então, ser o térm ino da rota caravaneira de Meheila. Vindo de Kawa, esse cam inho reduzia a viagem entre as duas urbes, com o se fosse a corda do arco form ado pela parte superior do grande S em que o Nilo se inclina entre o Batn-el-Hagar e a Sexta Catarata. E será, depois, o início de outra via terrestre, que dem andará, bem ao sul, Méroe, tal qual a corda do arco inferior do m esm o S. Um a reta oblíqua, entre Kawa e Méroe, passando por Napata, evitaria por terra o m uitíssim o m ais dem orado percurso pelas duas am plíssim as voltas do rio.
Napata pode ter sido im portante escala com ercial para os produtos que, do sul da Núbia e das terras que lhe ficavam além , iam ter ao Egito, e dos artigos egípcios vindos de volta. Foi tam bém um ponto de partida: do ouro extraído das m inas próxim as à Quarta Catarata ou que se espalhavam entre Abu Ham ed e o m ar Verm elho. E um polo de atração e chegada. Pois, com o frequentem ente sucede nas regiões de fronteira, ali tendiam a concentrar-se os egípcios e os núbios egipcianizados que buscavam o sul, por aventura, por cobiça ou para escapar dos conflitos desencadeados no norte. Nas áreas que lhe eram adj acentes, m uitos grupos núbios, dos que fugiam ao j ugo e às im posições aculturadoras dos egípcios e procuravam preservar os seus costum es e as suas estruturas sociais, devem ter parado, entre gente que lhes era assem elhada, enquanto outros continuaram a subir o rio, para além da Quarta Catarata, e se foram estabelecer bem adiante. Isso deve ter-se m uitas vezes repetido, ao longo de extenso tem po.
A força de gravitação de Napata era acentuada pelo prestígio do grande tem plo de Am on, em Jebel Barcal. E da própria m ontanha sagrada. O apelo do lugar santo transm itia-se, possivelm ente, tanto aos que tinham a religião egípcia quanto aos que conservavam as crenças núbias. De m odo que Napata parece ter sido sem pre m ais im portante com o centro religioso do que com o em pório ou
capital de um estado.2 Seu próprio poder de aglutinação política defluía do santuário e da fé.
Sobre as terras que cercavam o santuário, a soberania nom inal egípcia talvez se tenha m antido durante m uito tem po após a queda da XX Dinastia. Talvez, porém , a relação entre Napata e Tebas não fosse política, m as puram ente religiosa. Haveria um a vinculação entre os dois grandes tem plos de Am on, fornecendo Tebas a Jebel Barcal sacerdotes egípcios, em bora um clero núbio
possa m ais tarde ter surgido. 3
Com o estilhaçam ento do poder egípcio, em consequência da derrocada da XX Dinastia, os régulos tribais núbios devem ter retom ado força. E a gente do tem plo, procurado im por-se no plano tem poral. Do processo de conflito e aj ustam ento entre as tradições locais e os m odelos egípcios, entre os chefes guerreiros e o clero, e entre as várias tribos pela suprem acia arm ada, despontou, no século IX a.C., provavelm ente em torno de Jebel Barcal, um novo estado centralizado na Núbia.
G.A. Reisner, que escavou seus cem itérios, acreditava que os reis de Napata tinham sido líbios, com o os que se coroavam no Delta. O grande egiptólogo Eduard Mey er sugeriu que descendiam de Herior, o sum o sacerdote de Am on,
que estabelecera a teocracia tebana. 4 5 Pensava A.J. Arkell que os reis napatanos
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tivessem saído do clero de Jebel Barcal. J.D. Fage hesitou entre dar-lhes com o origem funcionários e colonos egípcios ou linhagens aristocráticas locais.
Aponta para a verdade a derradeira hipótese, segundo a qual os prim eiros reis de Napata teriam por antepassados um ram o de chefes autóctones, que se fortaleceu e se im pôs aos dem ais. Muitos dos nom es que desses reis sabem os eram núbios. E as im agens que nos deixaram , em seus m onum entos, revelam indivíduos de traços negroides: de pom os da face salientes, nariz largo, lábios
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grossos. Seus túm ulos m ais antigos eram dom os de pedra e terra, que recobriam covas em que o m orto estava de lado num a cam a, os j oelhos fletidos, a cabeça voltada para o norte — a lem brar os usos funerários de Querm a —, e que continham obj etos de fabrico local e de origem egípcia, predom inando estes
sobre aqueles. Não faltava ouro nessas sepulturas.8
Nelas não se viram sacrifícios hum anos, m uito em bora esses reis fossem provavelm ente do tipo divino, senhores de um poder enorm e sobre os seus e sobre aqueles que subm etiam , um poder que, em Querm a, se m ostrara cruam ente no grande núm ero de escravos que seguiam à força os soberanos na m orte, e nos corpos dos cortesãos que se suicidavam ou iam a enterrar sem quebra do querer, para cum prir o que dispunham os deuses ou — quem sabe se j á não seria então assim ? — o que m andavam não só a lealdade e a honra, m as o que estava inscrito no m ais profundo da alm a, com o essencial à ordem da vida e ao equilíbrio do universo. Tal com o o descreveu, num outro contexto (o dos obados iorubanos) e com alta força dram ática, Wole Soy inka, em The Death and the King’s Horsem an.
É possível que a ausência de sacrifícios hum anos nos túm ulos de Napata se tenha devido à difusão das chauabitis e não indique, portanto, que seus prim eiros reis tivessem poder m enor do que os de Querm a.
Com a retirada egípcia da Núbia — é William Y. Adam s 9 quem nos propõe este enredo —, os sacerdotes do tem plo de Jebel Barcal viram -se obrigados a assum ir o governo da região de Napata. E devem ter sentido a precariedade de sua posição de m ando, enquanto se assentasse exclusivam ente nos egípcios que ali viviam e nos núbios egipcianizados. Buscaram , por isso, apoio, proteção e aliança num a certa linhagem de régulos locais, forte m ilitarm ente, a cuj o m ando deram nova e adicional legitim idade religiosa, a do grande deus Am on, e em prestaram m aior eficiência, ao fornecer-lhe escribas e adm inistradores. Em troca, os que iam , com o auxílio sacerdotal, tornar-se reis sobre os dem ais chefes assum iam a função de defensores da fé e de um a religião de Estado, que j á era a do Alto Egito e se tornou a da Núbia.
O processo pode ter-se dado no sentido contrário. Um régulo, a cam inho de subm eter todos os rivais, com preendendo ser-lhe inconveniente ou arriscado perm itir que ficasse fora de seu dom ínio um enclave reli-gioso, pressionou m ilitarm ente Jebel Barcal. Os sacerdotes a ele se renderam , m as não sem certas concessões.
Qualquer que tenha sido a verdadeira história, parece que se estabeleceu duradoura sim biose entre o poder tem poral e o poder religioso. Pelo m enos é o
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que indicam as afirm ações de Estrabão e Diodoro da Sicília, segundo as quais, até o século III a.C., os sacerdotes de Am on, invocando instruções divinas, podiam ditar ao rei o suicídio. Assum iram eles em algum m om ento, portanto, a prerrogativa de pôr cobro ao despotism o ou aos desm andos de um soberano — o que, em outras m onarquias e chefias do tipo divino, cabe aos chefes de linhagens, à nobreza titulada ou aos altos funcionários da corte.
A consolidação da aliança entre a estirpe real e os sacerdotes de Am on teria feito destes os m entores intelectuais daquela. E responderia, j untam ente com a fixação da corte em Napata, cidade im pregnada dos valores egípcios, pela crescente egipcianização do novo estado núbio, do novo reino de Cuxe, conform e se m ostra no cem itério de Kurru, 14km a sudoeste de Jebel Barcal.
Os túm ulos m ais antigos eram em form a de dom o. Estes dom os viram -se, posteriorm ente, revestidos de argam assa e grés, e passaram a ter, colada a cada um deles, pequena capela funerária, e a ser cercados por m uro em ferradura, aberto para o oriente. Continuava-se, assim , de certo m odo, a tradição dos povos do Grupo C e de Querm a. Não tardou m uito, porém , para que os m odelos egípcios com eçassem a im por-se. O m astaba, ou sepulcro em form a de pirâm ide truncada, passou a receber o corpo do rei, que se deitava, de início, à m aneira tradicional núbia, com a cabeça a apontar o norte, e os pés, o sul. A partir de certo m om ento, a posição se altera: o cadáver é posto de leste a oeste, no rum o do sol.
Sob dom os e m astabas enterraram -se em Kurru cinco gerações de reis de Napata, cuj os nom es não guardam os, e Alara, o grande chefe, “o filho de Rá”, e
seu sucessor Cáchitaa (que m andou entre c. 806 e c. 751 a.C.). O filho deste,
Pianqui, Peíeb 12 — com o alguns preferem ler — ou, ainda, Piiê, talvez j á tenha sido inum ado sob um a pirâm ide. Em bora o que resta na superfície não nos perm ita a certeza de que ali houve m ais do que sim ples m astaba, da cova sobe um a pequena escadaria subterrânea na direção leste, tal com o se repetiria nos m onum entos funerários posteriores, todos em form a de pirâm ide.
Com paradas às do Antigo Im pério egípcio, essas pirâm ides são pequenas. A
m aior delas, a de Taraca, c em outro cem itério, o de Nuri, tem na base apenas 29m de lado, enquanto a de Quéops apresenta 228m . As do cam po-santo de Kurru, ainda m enores, m ostram lados que poucas vezes ultrapassam os nove m etros. São pirâm ides pontiagudas: bastante m ais altas em proporção à base do que as do Antigo Im pério. Copiavam , ao que parece, as que, m uito depois, a partir da XVIII Dinastia, os nobres egípcios m andavam construir para si
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próprios. O m odelo j á tinha, contudo, caído de m oda no Egito havia uns três
séculos, quando foi retom ado pelos reis napatanos.
Ao redor de cada pirâm ide, dispunha-se um m uro, com entrada a leste. E de fora do recinto, tam bém a leste, descia, cavada no chão, um a escadaria ou um a ram pa, até as câm aras m ortuárias — duas ou três, ligadas por corredor. Na últim a, que podia ter as paredes decoradas com pinturas, depositava-se o m orto, deitado num leito, ao j eito núbio. Após o sepultam ento, a entrada das câm aras era selada, e a escadaria ou ram pa, coberta inteiram ente de pedra e terra. Colada à face oriental da pirâm ide erguia-se um a câm ara m ortuária — sim ples, retangular, algum as vezes com a entrada em pilonos.
Em Kurru sepultaram -se tam bém Xabaca,d e Xabataca e Tenutam on ou
Tenutam ani.f E 16 rainhas, em áreas separadas do cem itério e em túm ulos m enores. E 24 dos cavalos que puxavam os carros reais. Foram enterrados de pé, com seus arreios, a cabeça voltada para o sul.
Tenutam on (que reinou entre c. 664 e c. 653 a.C.) foi o últim o dos soberanos de Cuxe a ser posto em Kurru. Seu antecessor, Taraca, j á construíra sua pirâm ide em Nuri, um cem itério do outro lado do rio, frente a Jebel Barcal. É possível que Taraca, ao escolher o sítio para seu túm ulo, estivesse a seguir a prática egípcia de colocar os cam pos-santos na m argem esquerda do Nilo, defronte aos grandes
tem plos erguidos na riba oposta.14 Assim ocorre com o Vale dos Reis e Carnac.
Nuri abriga 19 reis e 53 rainhas. Suas pirâm ides, em vez de terem , com o as de Kurru, os lados lisos em ram pa, os apresentam na form a de degraus estreitos e baixos. Estão todas em ruína. O arenito m acio de que foram feitas rendeu-se facilm ente à erosão.
Em Nuri, os restos reais passaram a ser depositados em caixões de m adeira ou, um as poucas vezes, em sarcófagos de pedra. O m orto era m um ificado. O caixão ficava sobre um a espécie de plataform a ou m esa de pedra, no centro da câm ara m ortuária, na qual se colocavam oferendas, chauabitis e obj etos para uso do defunto — obj etos geralm ente de fabrico egípcio.
A m ais im ponente das pirâm ides de Nuri é a de Taraca. Mas nela talvez não tenha sido inum ado aquele rei, pois parecem ser seus os ossos descobertos num a outra pirâm ide. Bem m enor, com apenas 9,80m de lado na base, construída com pedra negra e pintada de verm elho, essa pirâm ide fica longe, m uito longe de Nuri, abaixo da Terceira Catarata, em Sedeinga (ou Seddenga). Na escadaria que m ergulha terra adentro, Taraca está desenhado, de coroa encarnada na cabeça.
Isto fez Jean Leclant considerar a pirâm ide de Nuri um cenotáfio, sem elhante ao Osireion, de Seti I, em Ábidos. O fato de haver sob aquela pirâm ide câm aras m ortuárias vazias, m as preparadas para receber na eternidade o dono, estim ulou B.G. Hay cock a perseverar na crença de que Taraca a construiu para seu túm ulo, sendo depois obrigado pelos azares da vida a resignar-se a um m onum ento m esquinho, num a província distante. Talvez tenha sido afastado do m ando por Tenutam on. No exílio do poder, em Sedeinga, levantou outra pirâm ide, bem m ais
m odesta, para abrigar o seu corpo.15
Com o quer que tenha sido, tanto em Nuri quanto em Sedeinga é a m esm a a form a do m onum ento: a pirâm ide. Fora ela, no Antigo Im pério egípcio, a m ais nítida m anifestação m aterial do estado, o sím bolo do culto ao rei divino. Os napatanos a ressuscitaram com o sepulcro real. Do m esm o m odo que devolveram à vida ritos, em blem as, estilos, com portam entos e costum es que se tinham finado no Egito.
Os grupos dom inantes napatanos egipcianizaram -se rapidam ente. Mas adotaram de preferência os m odelos de um Egito do passado. Do Egito do Antigo Im pério. Ficaram , com o pode ocorrer quando se absorve um a cultura alheia, presos a m odos de vida que j á tinham deixado de vigorar na terra que lhes dera origem . E com o sucede com elites arcaizantes, j ulgavam -se os verdadeiros legatários do Egito, os que m antinham a integridade de seu espírito e tinham a obrigação de fazer renascer a sua glória. Os reis de Cuxe convenceram -se, consequentem ente, de que eram os herdeiros legítim os dos antigos faraós. Com o faraós atuavam e se vestiam , deles apenas se distinguindo por um ou outro traço exótico: o uso de brincos e colares com cabeças de carneiro, por exem plo.
Em religião, eram estritam ente ortodoxos e zelosos. Tinham -se por defensores da fé e protetores dos tem plos de Am on. Não espanta, por isso, que Tebas tenha coberto de aplausos Cáchita, quando este para lá se deslocou, em peregrinação ao santuário do deus. Seus dom ínios j á deviam então estender-se da Prim eira à Sexta Catarata. Eram suas as terras de Dongola. Explorava o ouro. Exercia o controle do com ércio de produtos exóticos do sul. Com andava grandes exércitos.
O clero tebano, acostum ado à proteção de tropas núbias, não podia deixar de ver favoravelm ente o fortalecim ento desses reis de Cuxe, piedosos e tradicionalistas. Reclam ou a proteção de Cáchita. E lhe deu o poder sobre Tebas.
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Há quem pense que Cáchita não assum iu, então, o título de faraó; e há quem sustente o contrário, e que ele uniu, em Tebas, sob seu m ando, a Núbia e o Alto
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Egito. Com o certo, sabe-se que obrigou a Adoradora de Am on a adotar um a
filha dele, Am enirdes, garantindo para esta a sucessão no cargo.
Piiê, no poder entre 751 e 716 a.C., não parece ter-se preocupado, nas prim eiras duas décadas de seu reino, com os com prom issos assum idos pelo pai em Tebas e com os assuntos do Alto Egito. Quando, porém , um príncipe líbio do Delta, em penhado na reunificação do Egito, am eaçou Tebas e esta pediu socorro a Napata, apressou-se em acudi-la. E iniciou o que, para os tradicionalistas núbios, era um a verdadeira reconquista.
Da cam panha m ilitar ficou um longo relato, cheio de sabor e vida, na cham ada Estela da Vitória, encontrada em Jebel Barcal e hoj e no Museu do Cairo. Nela retrata-se um Piiê austero, cavalheiresco e devoto, capaz de indignar-se com a fom e que passavam os corcéis e os potros dos estábulos de Herm ópolis, e de não ceder às instâncias para que tratasse com os príncipes do Delta, para ele im puros, por incircuncisos e com edores de peixe.
Piiê bate, um após outro, os vários príncipes que m andavam num Egito dividido. Derrota Nanlote, de Herm ópolis. Tom a de assalto Mênfis. Obriga os dem ais dinastas do Delta à obediência. E vê, em Heliópolis, dobrar-se ante ele Osorcon IV, que era o faraó nom inal.
Tendo salvo Tebas e restabelecido o prestígio de Am on, Piiê retornou a Napata, com o faraó do Egito. Não reduzira, contudo, as am bições dos que vencera e perdoara. Estes, tão logo o viram distante, reinstalaram -se no poder e renovaram as pretensões expansionistas. Tom aram tento, porém , em não pôr em risco a segurança de Tebas. E, assim , garantiram que Piiê não m ais saísse de Cuxe, com as suas arm as.
O irm ão e sucessor de Piiê, Xabaca, não ficou, porém , em sossego. Considerando-se faraó de todo o Egito, voltou-se contra os que se opunham às suas pretensões e a todos venceu. Senhor do Delta e do vale do Nilo, estabeleceu-se em Tebas, de onde reinou — e talvez por isto sej a considerado o fundador da XXV Dinastia do Egito, ou Dinastia Etíope, em bora o papel possa ser tam bém atribuído a Piiê.
Por essa altura, a Assíria se im pusera com o a principal potência do Oriente Médio. Desde o século IX a.C., ela dom inava a Síria e a Palestina, dantes na esfera de influência egípcia. Hebreus e filisteus não deixavam , entretanto, adorm ecer a rebeldia e obrigavam os assírios a repetidas vezes lhes dar com bate. Xabaca procurou estim ular essa insubm issão, num esforço para recom por a influência do Egito na área. Suas intrigas acabaram por cansar Senaqueribe, que reuniu seus exércitos, decidido a pôr cobro, de um a vez por todas, às insurgências palestinas e sírias e às introm issões egípcias. Não chegou, porém , até o Delta,
pois, com o narra a Bíblia, 18 um a epidem ia, sob form a de anj o, lhe dizim ou as tropas e o fez voltar a Nínive.
Entrem entes, m orria Xabaca. Sucedeu-lhe um filho de Piiê, Xabataca. Reinou cerca de 11 anos: de 701 a 690 a.C. Depois dele veio Taraca ou Taarca, que era tam bém filho de Piiê e teve o trono até 664 a.C.
A sequência de reis — Cáchita, Piiê, Xabaca, Xabataca e Taraca — m ostra que a sucessão não se processava segundo a regra egípcia, de pai a filho. Apresentava outras características, possivelm ente de origem núbia: o poder passava, após a m orte do rei, para seu segundo irm ão, e depois, para cada um dos irm ãos sobreviventes. Findos estes, ia recair no filho m ais velho do que prim eiro fora rei, retom ando-se depois a linha de irm ão para irm ão.
A regra, destinada talvez a assegurar o m ando para pessoas experientes e m aduras, não se aplicava sem exceções. Um ou m ais nom es podiam ser saltados na sequência sucessória. Ao que parece, os chefes m ilitares, os altos funcionários da corte, os cabeças de clãs ou linhagens e os sacerdotes de Am on escolhiam , entre os vários irm ãos, o novo rei. Form avam -se partidos e havia acirrada disputa entre eles, disputa que podia desem bocar em confronto arm ado. No plano form al, contudo, a eleição pertencia a Am on. O pretendente ia até o tem plo de Jebel Barcal e ali o deus o fazia rei. Ainda que este ato fosse puram ente confirm atório, ele indica a necessidade da anuência do alto clero para a elevação de um novo soberano.
No caso de Taraca, que era o caçula de Piiê, parece que outros irm ãos seus foram postos de lado, porque ele revelara, desde cedo, grandes atributos para o
m ando.19 Prova disto é que seu tio Xabaca lhe confiara a chefia das tropas egípcias que foram dar com bate a Senaqueribe nas terras da Palestina e prevenir a invasão do Delta. Não houve, então, o encontro com os assírios. Ficou adiado para bem m ais tarde.
Ao subir ao trono, apesar de não lhe sair da m ente a am eaça assíria, suas principais preocupações deviam ser outras: a de consolidar a unidade do Egito, sem pre em risco de ser fraturada pelas am bições dos dinastas locais, e a de m anter íntegra a m onarquia dual, de que era titular. Rei de Cuxe e faraó do Egito, sobre sua fronte em pinavam -se as duas serpentes (o duplo uraeus) que disso eram sím bolo.
Parece ter governado principalm ente de Tanis, a antiga Ávaris, no Delta. Mas deixou sua m arca por toda parte, sobretudo no grande núm ero de construções que em preendeu. Em belezou o grande pátio do tem plo de Carnac com im ponente colunata. Mandou erguer ali vários outros prédios, e tam bém em Medinet Habu, em Edfu e, naturalm ente, em Tanis. Em Jebel Barcal, restaurou e aform oseou o santuário de Am on e cortou na pedra da m ontanha sagrada um
pequeno tem plo.20 Erigiu tam bém o tem plo de Kawa, que se tornaria im portantíssim o na vida religiosa de Cuxe, e um a série de m onum entos na Baixa Núbia e no Batn-el-Hagar — em Sem na, em Buhen e em Qasr Ibrim —, m onum entos que causam espanto, por se situarem num a área então praticam ente deserta, apenas percorrida por m ercadores e atravessada pelos que
se dirigiam do Egito ao Cuxe e vice-versa.21
No sexto ano de seu reinado, houve um a grande e benéfica cheia do Nilo. Taraca m andou, então, trazer sua m ãe, Abale, de Napata para Tanis, a fim de que ela o reconhecesse coroado, “com o Ísis vira seu filho Hórus no trono do
pai”. 22 O episódio som a-se à riqueza dos túm ulos das rainhas em Kurru e em Nuri, para atestar a im portância das m ulheres na sociedade cuxita. A m ãe do rei talvez fosse um dos principais chefes do partido que o levara ao trono. Ela aparece, nas paredes dos tem plos, subordinada som ente ao próprio rei e, nos túm ulos, na posição m ais destacada com o portadora de oferendas.
O poder da rainha, fosse esposa, viúva ou m ãe, devia ser considerável. E tam bém o das princesas. Pelo m enos, o daquelas que se votavam a funções religiosas. A grande sacerdotisa de Am on, em Tebas, era filha ou irm ã do rei. E princesas, as que se consagravam aos outros quatro grandes santuários de Am on: em Jebel Barcal, Torá, Kawa e Pnubs. Elas conservavam o cargo na fam ília,
com sucessão de tia a sobrinha. 23
Já se escoara a m etade do reinado de Taraca, quando se agravou o conflito com o rei assírio. Não se tratava m ais, agora, de disputar a suprem acia no Oriente Médio, m as do próprio controle do Egito.
O filho e sucessor de Senaqueribe, Assaradão, invade o Delta, em 671 a.C. Perde-o em 668 ou 667 para Taraca. Recupera-o pouco depois. E, de batalha em batalha, chega a Mênfis, a capital preferida dos faraós da XXV Dinastia e cuj a posse im portava tanto para um a corte arcaizante, que se considerava continuadora do Antigo Im pério. Tom ada Mênfis, os exércitos assírios assolam ainda m uitas terras na direção do sul. E Taraca term ina seu reinado, senhor tão som ente de Tebas, do Alto Egito e do Cuxe. Nos seus derradeiros anos de vida, retirou-se do poder, se é que dele não foi apeado por seu sobrinho, Tenutam on, filho de Xabataca.
Os assírios, confiados nos príncipes e chefes locais a que haviam entregue o governo do Baixo Egito, lá não deixaram tropas. Disso aproveitou-se Tenutam on, para recuperar Mênfis e subm eter os dinastas do Delta. A reação assíria foi im ediata. Assurbanipal, que sucedera a Assaradão, caiu sobre o Egito com raivosa rapidez. Os príncipes e nobres do Delta o acolhem e lhe beij am os pés. Tenutam on refugia-se em Tebas. Mas o sanhudo assírio não o deixa em paz. Cerca, tom a e saqueia a cidade. Dela envia para Nínive um enorm e butim : ouro, prata, pedras preciosas, tecidos, cavalos, as portas do tem plo, e num erosos escravos, hom ens e m ulheres, e m uita coisa m ais, a perder a conta.
O últim o dos faraós da XXV Dinastia foi, assim , escorraçado para a cidade real de seus m aiores. Finda os dias em Napata, em 653 a.C., e é enterrado em Kurru. Seus descendentes continuarão, porém , m esm o sem pôr os pés em Tebas ou em Mênfis, a usar o duplo uraeus e a se considerar um a espécie de faraós no exílio.
O êxito das hostes assírias devera-se em grande parte à superioridade das suas arm as de ferro sobre as lanças e as espadas de bronze e pedra dos soldados de Taraca e Tenutam on. Não podiam estas fazer frente àquelas. Nem as couraças egípcias estavam preparadas para deter o peso e o fio cortante das arm as de ferro.
Conquanto conhecessem , desde vários séculos, o novo m etal, os egípcios, contentes com o bronze, talvez não se tenham interessado pelo ferro a ponto de
fazer esforços para dom ar a técnica de sua produção. 24 Esta, desde que descoberta na Anatólia, era guardada com cuidado, com o um segredo m ilitar e com ercial, pelos povos que a conheciam . Dava nas guerras tam anha vantagem ,
que não havia por que difundi-la.25
Já no século XIV a.C., faraós egípcios tinham recebido, provavelm ente de presente dos hititas, algum as arm as e obj etos de ferro. No túm ulo de Tutancam on, por exem plo, encontraram -se um esplêndido punhal e 16 lâm inas finas de cinzéis, além de um pequeno apoia-nuca e de um olho uatchet, um a espécie de am uleto. Um a espada liga-se ao reino de Seti I. E um a alabarda foi
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extraída da fundação de um tem plo de Ram sés III, em Ábidos. Essas e outras
peças de ferro eram possivelm ente m uito apreciadas pelos egípcios, m as com o raridades e obj etos curiosos. E continuarão a ser escassas e a vir de fora por m uito tem po ainda.
Com o se não bastasse a superioridade de suas arm as, os assírios talvez tenham trazido para o Egito um a nova técnica de guerra: em vez de usarem os cavalos para puxar os carros de com bate, escanchavam -se nos anim ais e davam , assim , durante a batalha, enorm e m obilidade a seus arqueiros.
Não era ainda a aparição da cavalaria — com o explicou Lefebvre des
Noëttes27 —, pois, desconhecendo a ferradura, o selim e o estribo, os assírios tinham dificuldade em realizar cargas e choques. Sem o apoio da sela e dos estribos, o guerreiro arm ado de lança ou espada caía facilm ente do cavalo, ao chocar com o inim igo. Hesitava em abater a espada sobre um adversário a pé, um a vez que podia ser levado m ontaria abaixo pelo próprio im pulso de seu golpe. Não se quer dizer, porém , que, sem sela e estribos, um grupo de cavaleiros não pudesse acom eter de perto carros rivais ou m agotes de infantes, com risco e vantagem . Um m ilênio antes da introdução dos estribos, Xenofonte recom endava às suas tropas a cavalo que com batessem o inim igo de perto, atacando-o com golpes de espada, de cim a para baixo. E na batalha do rio Granicus, Alexandre, o Grande, opôs, com êxito, aos cavaleiros persas que lançavam azagaias, a
investida de contingentes m ontados, m unidos de longas lanças.28
A lição de Xenofonte e a tática de Alexandre representavam novidades. Entre os assírios, quando invadiram o Egito, os cavalos deviam ser m ontados predom inantem ente por arqueiros. E pode-se im aginar a surpresa e o im pacto que produziram os esquadrões de cavaleiros, a galgar ladeiras, a descer encostas, a vadear alagadiços e trechos rasos de rios, a distender a galope os seus arcos, aproxim ar-se para disparar as flechas, voltear e num átim o pôr-se ao longe, a m ultiplicar-se pelo m ovim ento. Não era ainda a cavalaria, m as um a espécie de infantaria m ontada, que usava arm as de arrem esso, com batia apeada ou a cavalo, passava, ágil, de um lado a outro do terreno e perseguia im placavelm ente o inim igo. Term inado o em bate, deslocava-se com rapidez pelo país invadido, tirando o m elhor resultado das vitórias e dificultando a reorganização dos contrários.
Para vencer Taraca e Tenutam on, os assírios contaram não apenas com a eficiência e a fúria de sua m áquina de guerra, m as tam bém com a franca adesão da m aior parte da nobreza do Delta. Os nortistas sem pre ressentiram o dom ínio núbio e j am ais se conform aram em ser m andados por quem , para eles, era um bárbaro coberto da roupagem cultural do Antigo Im pério, sem icaricato em sua ortodoxia e nos seus obsoletos m odos de ser.
O bárbaro tinha-se por egípcio. E era nisto acom panhado pela classe nobre e pelas populações urbanas de Cuxe. Quem sabe, porém , se, entre elas, não se m antinham íntegros certos velhos costum es núbios e algum as das antigas crenças? Provavelm ente, sim . Detrás do rosto social egípcio, na vida fam iliar, no aconchego dos lares.
Fora das cidades e da vizinhança dos tem plos, a cultura tradicional núbia devia prevalecer. Nas aldeias, seguiam -se os hábitos de sem pre. O rei e o Estado eram entidades distantes, que só se tornavam visíveis periodicam ente, na cobrança dos im postos em espécie e na conscrição de soldados e de m ão de obra para os grandes trabalhos públicos.
Do dia a dia das gentes, ignora-se quase tudo. Ignora-se até m esm o com o seriam suas casas — em bora se possa supor que as houvesse de tij olos e de sapé —, pois a picareta e a pá dos arqueólogos não puderam ainda m ostrar os bairros residenciais de Jebel Barcal, de Sanam , de Kawa, de Argos ou de Méroe. Os esforços feitos até agora para desvendar essa época em que Napata era o centro de Cuxe concentraram -se nos tem plos, nos palácios, nos grandes edifícios, nos cam pos dos m ortos.
Estes últim os forneceram algum as pistas reveladoras. No cem itério de Sanam e no setor plebeu das necrópoles de Méroe, encontraram -se tum bas que indicam a persistência dos costum es funerários núbios e outras em que o enterro se fazia à m aneira egípcia. Em Méroe, num erosas sepulturas retangulares continham corpos deitados sobre o lado esquerdo, em leitos de m adeira. Noutras covas, m uito estreitas, os corpos, m um ificados, estavam postos em caixões e cobertos por um a rede de contas, com o então era com um no Egito. Os dois tipos de
sepultam ento eram , ao que tudo indica, coetâneos. 29
Em Sanam , havia três tipos de sepultura. Havia um a em form a de câm ara, a que se tinha acesso por um a escadaria subterrânea. O m orto era m um ificado e fechado num caixão de m adeira ou num a espécie de estrutura oca, a que se dá o nom e de “cartonagem ”, feita de panos de linho em bebidos em gesso. Noutras tum bas, sim ples covas retangulares, punha-se o corpo estendido de costas. E noutras, de configuração oval ou em retângulo m uito largo, o cadáver era disposto de lado, com as m ãos j unto ao rosto e as pernas tão contraídas, que os
calcanhares quase tocavam as coxas. 30 As três espécies de sepultam ento eram da m esm a época, havendo tum bas que apresentavam dois corpos: um estendido à egípcia e o outro fletido, à núbia. Num dos casos, presum iu-se que o prim eiro
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fosse o m arido e o segundo, a m ulher.
As diferenças na m orte continuariam as diferenças na vida. Os que se enterravam estendidos, em caixões e m um ificados, seriam funcionários, com erciantes e artesãos egípcios ou núbios egipcianizados. Os que se sepultavam de lado, contraídos, sobre leitos, núbios que se m antinham fiéis aos costum es antigos. Com o as m ulheres são, em geral, m ais conservadoras, poder-se-ia
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im aginar que m uitos dos corpos contraídos correspondessem a este sexo.
O cem itério de Sanam e o setor plebeu das necrópoles de Méroe abrigariam aquela parcela da população urbana que ocupava o espaço social entre a dim inuta nobreza, a gravitar em torno de um rei todo-poderoso, e a m assa enorm e de cam poneses. Destes cam poneses não se encontraram restos. Mas é fácil refazer-lhes a vida, a plantar, se nortistas, o trigo, a cevada, o linho; e, se sulistas, o sorgo, a abóbora e as tâm aras. A cavar poços nas áreas m ais secas, para dar de beber aos grandes rebanhos. A m over o xadufe, para levar água do rio até os canais de regadio, nas m argens altas.
O xadufe, em pregado até hoj e no Nilo, é um a alavanca interfixa, com o a gangorra. Num a das extrem idades da sua haste horizontal existe um contrapeso e, na outra, um a corda ou vara vertical, a sustentar o recipiente que transporta a água para os sulcos de irrigação. Um hom em , puxando para baixo a corda ou a vara, faz m ergulhar no rio o vaso. Ao soltá-la, este, cheio e pesado, levanta-se pela força do engenho. Naquele gesto sim ples, repetido sem parar, gastavam -se m uitas horas de um dia.
Era trabalho enfadonho e cansativo, m as consideravelm ente m enos duro que o dos m ineiros — e estes talvez fossem escravos — que extraíam ouro no deserto, e am etistas, rubis, berilo e outras pedras de valor. A produção aurífera era grande. Tanto assim que Taraca, em apenas nove anos, colocou, num só dos
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tem plos por ele construídos, 110kg de ouro. Dos m ineiros, no entanto, nada se
sabe, pois não se encontraram os lugares onde foram enterrados.
Quanto aos reis, passaram , depois de Tenutam on e até talvez 295 a.C., a ter sepultura em Nuri. Daí que os seus nom es se conheçam . São vinte ao todo.
Um deles talvez tenha sonhado de novo com o dom ínio do Egito: Aspelta, que
em 593 a.C. herdara o trono de Anlam ani, que o tivera de Sencam anisquém , g o qual sucedera a Atlanersa. O Egito, porém , era outro. Os assírios, durante o conflito com Taraca, haviam favorecido um dinasta, Necho, de Saís, para torná-lo um a barreira contra o Cuxe. Tenutam on m atou-o, m as os assírios lhe refizeram o poder em seu filho Psam ético. Este soube tirar vantagem da descuidada benevolência da Assíria, após a derrota cuxita, para reunificar quase inteiram ente o Egito. Devia ele tem er o ressuscitar da am bição napatana e transm itiu a preocupação a seu sucessor, Psam ético II, que resolveu anular de vez o perigo. Seu exército, form ado em boa parte por m ercenários gregos e cários, que deixaram inscrições em Abu Sim bel, levou a guerra até Napata. Talvez tenha depredado o próprio tem plo de Jebel Barcal, com o indicariam as estátuas partidas, que ali se encontraram , de vários reis napatanos, o últim o dos quais j ustam ente Aspelta.
Isto foi entre 593 e 591 a.C. Depois, os egípcios retiraram -se de quase toda a
Núbia. Mas m antiveram o controle sobre as m inas de ouro do uede Alaqui. 34 Por pouco tem po, porém . Pois a Pérsia se transform ara na grande potência do Oriente Médio e, em 525 a.C., invadiria o Delta.
O rei persa, Cam bises II, após ter conquistado o Egito, cobiçou o dom ínio da Núbia. E fez com que lá chegassem em issários e olheiros. Estes se apresentaram , com vários presentes, ao rei de Cuxe, que, em troca, enviou a Cam bises um arco grande e rij o, acom panhado destas palavras: “Quando os persas forem capazes de retesar, com o eu o faço, arcos com o este, que venham então com exércitos m ais num erosos do que os cuxitas.” A advertência caiu em ouvidos m oucos. Cam bises dirigiu-se pessoalm ente, a com andar suas tropas, para o Cuxe. Derrotou-o a aridez do Batn-el-Hagar ou do deserto entre Korosko e Abu Ham ed.
E, com pesadas baixas, teve de regressar ao Egito. É o que narra Heródoto. 35
Verdade ou não, o fato é que os persas dom inaram o extrem o norte da Núbia e
assum iram o controle das m inas de Alaqui. 36 Essa região form ou um a província do im pério. Fornecia-lhe soldados e pagava-lhe tributos em ouro, m arfim , ébano e escravos.
A influência egípcia continuou a predom inar nos tem plos e nos túm ulos que construíram os reis de Cuxe. Reis de ásperos nom es: Antalca, Malenaquém , Am ani-Nataqui-Lebte, Carcam ani, Am aniastabarga, Talacam ani, Am an-Nete-
h
Ierique, Harsiotefe, Nastasen, entre alguns outros. Nos m uros dos edifícios, nas estelas e nos túm ulos, incisavam -se os hieróglifos. Mas estes se vão tornando m enos claros, ao m esm o tem po que os textos se congelam em fórm ulas repetitivas, num egípcio capenga, a revelar que talvez o idiom a não fosse m ais correntem ente falado — com o o fora outrora — pelas elites de Cuxe. Nos textos, descrevem -se vitórias sobre nôm ades do deserto, sobre povos que a história ainda guarda na som bra.
Há, no tem plo de Jebel Barcal, um a inscrição em que se m encionam as guerras do reinado de Nastasen (c. 335-310 a.C.). Além das cam panhas contra tribos pastoras — e de um a delas teria sido trazido um saque de m ais de duzentos
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m il bois e de m ais de quinhentos m il carneiros e cabras —, ali se descreve a
luta contra um invasor vindo do norte, em barcos. Supõe-se que o intruso tenha
sido um certo Cabaxe,i que m andava na região a j usante da Segunda Catarata e que se rebelou contra os persas.
Nastasen foi, ao que parece, o últim o dos reis de Cuxe a ser enterrado em Nuri. A partir do princípio do século III a.C., seus sucessores terão sepultura bem m ais ao sul, a uns 483km de curso de rio, em Méroe, um a cidade que j á devia, nessa época, ser a m aior do país e onde Nastasen e vários de seus predecessores m oravam .
Méroe erguia-se num terraço à m argem direita do Nilo, pouco acim a da confluência deste com o Atbara. Porque ficava entre três rios (os dois citados e o Nilo Azul), a região em que se levanta foi tom ada pelos antigos gregos por ilha — a ilha de Méroe. Hoj e cham a-se a estepe da Butana.
A área, naqueles tem pos, era m enos árida que o entorno de Napata. Mais verde, durante m aior núm ero de m eses. Mais som breada, tantas as acácias que a salpicavam . Se o vale inundável do Nilo não é ali m ais largo do que nos arredores de Napata, as am plas estepes e savanas do sul de Méroe estão cortadas por grandes uedes, com o o Auateib e o Hawad, que enchem na rápida estação das chuvas e, depois que secam , m antêm por m uito tem po um idade suficiente para perm itir o cultivo rem unerador do sorgo e m anter boas as pastagens. Naquela época, ainda se avistavam florestas ao sul. E elefantes, leões, leopardos e avestruzes não andavam tão distantes com o agora.
Onde foi Méroe, havia de início um a aldeota de cabanas de sapé. Habitada por gente talvez distinta da que vivia em Napata. Que talvez falasse até m esm o um a
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outra língua. E que talvez se tenha m esclado com os que vieram do norte —
quem sabe se em busca de m elhor pasto.
Quando reinava Piiê, ou sej a, na segunda m etade do século VIII a.C., a aldeia j á se fazia cidade. No seu cem itério ocidental, há túm ulos que datam dessa época. E ali devem ter sido construídos tem plos e grandes casas — se não um palácio — desde os dias dos prim eiros reis napatanos. Os nom es de Sencam anisquém , que reinou entre c. 643 e c. 623 a.C., e de Aspelta aparecem em Méroe. Antalca e Malenaquém , que viveram no século VI a.C., lá erigiram palácio ou tem plo. E num a estela, encontrada em Kawa, diz-se: Am an-Nete-Ierique m orou em Méroe, e seu antecessor, Talacam ani, ali m orreu. Esta é a
m ais antiga referência, que se conhece, a Méroe.39
A transform ação da cidade na m aior concentração urbana da Núbia deveu-se a vários fatores. À m enor aspereza do solo e do clim a. À pequena distância das fontes de artigos que alim entavam o com ércio de luxo, com o o m arfim , as penas de avestruz, as peles de leopardo, as gom as e as resinas. E, sobretudo, à sua excelente posição com o centro m ercantil.
Desde o início, a rota caravaneira de Bay uda ligava Méroe a Napata, evitando a longa curva do Nilo, e de Napata o cam inho terrestre se prolongava até Kawa. À m edida que se aperfeiçoaram as caravanas, essas vias se tornaram m ais frequentadas, pois o transporte de m ercadorias no lom bo de burros e de bois passou a com binar-se com o de barcos pelo Nilo, a fim de cortar cam inho na direção do Egito. A m elhor organização das caravanas fez tam bém com que o com ércio com o Delta se desviasse parcialm ente para o m ar Verm elho, com os barcos egípcios a carregar em Suakin os bens chegados por terra de Méroe. A partir de Méroe, seguindo-se o Atbara, ia-se ter à Etiópia. E por outras rotas, ao Cordofã, ao Darfur e — quem sabe? — ao Chade. Com o tem po, desenvolver-se-á um a via ainda m ais curta até o Egito: a que, saindo de Abu Ham ed, :chegava a Korosko, na Núbia Inferior. Teria sido ela, a encurtar pela m etade a distância entre o Cuxe e o Egito, o que determ inou o declínio de Napata e a suprem acia de Méroe.