A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 6 de 35 · parte 1/3

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A Enxada e a Lança

2. A pré-história

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

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A pré-história

 

No livro A descendência do hom em e a seleção sexual, publicado em 1871, Charles Darwin escreveu o seguinte: “Em cada grande região do m undo, os m am íferos existentes relacionam -se de m odo estreito com as espécies extintas da m esm a área. É provável, portanto, que a África tenha sido, no passado, habitada por m acacos extintos intim am ente ligados ao gorila e ao chim panzé; e, com o estas duas espécies são hoj e as m ais afins do hom em , é m ais provável que nossos prim itivos ancestrais vivessem no continente africano do que em qualquer outro lugar.”

A intuição de Darwin parece estar a ser confirm ada pelos achados científicos, que cada vez m ais apontam para a África ao sul do Saara com o a região onde surgiu o hom em , o anim al fazedor de instrum entos.

Nada se conhece ao certo sobre o ancestral com um do hom em e dos grandes m acacos. Presum e-se, no entanto, que tenha sido um pequeno prim ata, do qual os m ais antigos restos foram encontrados na África, na depressão de Fay um (no norte do Egito, a oeste do Cairo), em sedim entos do Oligocênio, datados de 36 a 23 m ilhões de anos. O Aegy ptopithecus zeuxis — este o nom e que lhe deram — teria sido um anim al arborícola, quadrúpede, dotado de cauda, características que predom inariam nas várias form as posteriores da subfam ília, descobertas na África Índica e datáveis do Mioceno.

Nestes possíveis parentes, a que cham am os Dry opithecus, notam -se, porém , algum as m odificações na estrutura óssea, as quais sugerem terem eles usado os m em bros posteriores com o braços, ainda que cam inhassem de quatro. Im agina-se que tenham , num longuíssim o período de ressecam ento clim ático, com eçado a descer das árvores para o solo.

Isso teria ocorrido com o Dry opithecus africanus (ou Procônsul), achado pelo dr. Louis S.B. Leakey, em 1948, na ilha de Rusinga, no lago Vitória. O Procônsul — cuj a fisionom ia era m ais vertical que a de todos os outros antropoides, e que possuía um m axilar próxim o, por sua altura, ao queixo hum ano — teria vivido há uns 25 m ilhões de anos, nas m atas ciliares e nas savanas, enquanto seu parente m ais robusto, o Dry opithecus m aj or, ocuparia as florestas nas encostas dos vulcões.

O m esm o dr. Leakey descobriria, em 1961, em depósitos do Mioceno, datados de 14 m ilhões de anos, alguns poucos vestígios — pedaços do m axilar superior e dois dentes isolados — de um outro anim al extinto, a que deu o nom e de Keny apithecus wickeri. Não apresentavam esses achados, feitos em Fort Ternan (no Quênia), o que os distinguisse do Ram apithecus punj abicus, desenterrado, 25 anos antes, na Índia e no Paquistão. Estava-se diante de m em bros extintos da superfam ília Hom inoidea, a que pertencem atualm ente os hom ens e os m acacos antropoides (Pongidae).

Posteriorm ente, descobriram -se outros exem plares de Ram apithecus na China, na Turquia e na Hungria, a testem unhar quão am pla era sua dissem inação no Velho Mundo. O seu hábitat era a savana arborizada próxim a aos rios e à m argem dos lagos, m as não se sabe se era quadrúpede ou bípede, se era arborícola ou se vivia, na m aior parte do tem po, no chão.

Aventurou-se, a partir da análise da face e dos dentes do Ram apithecus — apresentava, por exem plo, forte redução dos caninos — ter sido ele um hom inídeo. O que foi fortem ente refutado e continua a ser obj eto de debate.

O que não se discute é que a África Índica foi, no Mioceno e no Plioceno, im portante centro de evolução dos prim atas. Ao iniciar-se o Pleistoceno, suas savanas e as da parte m eridional do continente abrigavam várias form as hom ínidas, os australopitecos. Eles devem ter surgido faz uns sete ou seis m ilhões

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de anos. Quando m enos, há uns quatro e m eio m ilhões. E seus restos só se encontraram , até agora, na Etiópia, na África Índica e na África Meridional.

Afirm a-se que andavam eretos sobre dois pés. E que a cabeça se colocava centralm ente na coluna vertebral. Em bora haj a quem pense que não cam inhavam direitos com o os hom ens, nem de quatro, à m aneira dos chim panzés, nem se balançavam de árvore em árvore, tal qual o gibão, e que

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teriam sido únicos em sua m aneira de andar, de m over-se e de ser, a bipedalidade dos australopitecos é geralm ente reconhecida. Pelo m enos, é para isto que apontam as pisadas descobertas por Mary Leakey em Laetoli, na m argem setentrional do lago Ey asi (no norte da Tanzânia). Ali, sobre um tufo vulcânico de uns três m ilhões e oitocentos m il anos, preservaram -se, por quase

25m , as trilhas deixadas por dois hom ínidas. 4 As pegadas são caracteristicam ente hum anas, na form a e disposição do grande artelho e do arco m édio longitudinal, bem com o no desenho e peso do calcanhar. Quem deixou os rastros tinha a

postura ereta e cam inhava com os dois pés.5 A bipedalidade, aliás, é o que isolaria os australopitecos em im portância, um a vez que a distinção m ais nítida entre os antropoides africanos e o hom em é a m aneira com o andam os, e o fato central que nos explica, a m udança da locom oção quadrúpede para a bípede, com a qual se libertam os braços e as m ãos.

Principais sítios arqueológicos da África

 

A dentadura dos australopitecos era basicam ente do tipo hum ano: ainda que os m olares fossem grandes e prim itivos, os caninos e pré-m olares j á estavam reduzidos. A cabeça apresentava testa. Mas o cérebro era pequenino, m ais próxim o ao do gorila do que ao do hom em : entre 428 e 550cm 3.

O prim eiro australopiteco foi localizado por Ray m ond A. Dart, em 1924, em Taung, na África do Sul. Desde então, descobriram -se várias centenas de espécim es, classificados geralm ente — são grandes as divergências sobre a taxionom ia dos australopitecos — em dois gêneros: um , franzino e baixo, com cerca de 1,25 a l,40m de altura e peso estim ado entre 25 e 45kg, o Australopithecus gracilis; e outro, m ais alto, com quase l,60m e, m ais corpulento, seus 35 a 68kg, caracterizado por um a crista óssea a correr desde a frente até a parte posterior do crânio, o Australopithecus robustus.

Consideram -se do prim eiro gênero as m ais antigas espécies de australopitecos reveladas até agora, e m orfologicam ente as m ais prim itivas no rosto e na dentadura. Tinha apenas entre 90cm e l,25m o Australopithecus ram idus (ou Ardipithecus), revelado por Tim White em 1994. Esse hom ínida deve ter vivido na floresta que então cobria a região de Aram is, ao nordeste de Adis Abeba, há uns quatro m ilhões e quatrocentos m il anos. Um pouco m aiores seriam o Australopithecus anam ensis, datado de quatro m ilhões e duzentos m il anos e descoberto, entre 1988 e 1995, nas m argens do lago Turcana, e o Australopithecus afarensis, nom e que deu Donald Johanson aos restos achados em 1973, em Hadar, na Etiópia. Tanto este últim o quanto os hom ínidas que se creem da m esm a espécie e cuj os ossos foram desencavados de Laetoli e do vale

do Om o (na Etiópia), viveriam há uns três m ilhões e seiscentos m il anos. 6 Crê-se que deles possa ter derivado o Australopithecus gracilis a que Dart cham ou africanus e que alguns consideram com o restrito à África do Sul, enquanto outros classificam com o tal m uitos dos australopitecos baixos e franzinos do Rift Valley.

Restos de australopitecos foram achados em associação com ossos de outros anim ais, o que levou a pensar-se que seriam esses ossos usados com o m aça ou instrum ento perfurante. E desde 1959, quando Mary Leakey descobriu, na garganta de Olduvai (na Tanzânia), o australopiteco robusto a que cham ou Zinj anthropus boisei, buscou-se estabelecer um vínculo entre ele e os seixos rolados com pontas artificialm ente aguçadas que se desencavaram j unto a ossadas de anim ais, desde o Marrocos até o rio Vaal. Os grandes m olares e a forte m usculatura da m andíbula fazem crer, contudo, que o Australopithecus boisei fosse basicam ente vegetariano. Duvida-se de que tanto ele quanto o A. africanus, provavelm ente j á onívoro, lascassem a pedra a fim de fazer instrum entos. O que não exclui que a utilizassem tal qual a encontravam na natureza, para arrem esso contra inim igos. Ou que em pregassem varas ou gravetos para escarafunchar os form igueiros. Com o fazem alguns sím ios.

Junto a lascas de pedra e a seixos de ponta aguçada, encontraram -se, em Olduvai — e tam bém em Hadar, em Koobi Fora (na m argem leste do lago Turcana) e na Form ação Shungura (na bacia do baixo Om o) —, não só o Zinj anthropus boisei e, no caso de Swartkrans (no Transvaal), o tipo m eridional do Australopithecus robustus, m as tam bém restos do que, para uns, seria um a espécie evoluída de australopitecíneos, o Australopithecus habilis, enquanto para outros j á pertenceria ao gênero Hom o. Esse Hom o habilis era um onívoro, em cuj a dieta a carne se fizera im portante. Necessitava, por isso, de instrum entos para rasgar a pele dos anim ais e partir-lhes os m úsculos e ossos.

O Hom o habilis era pequenino — m edia entre l,20 e l,30m de altura — m as dispunha de m aior capacidade craniana do que os australopitecíneos: entre 640 e 680cm 3. Um crânio encontrado em Koobi Fora chega a oitocentos centím etros cúbicos — ainda distante, contudo, dos 1.200 a 1.500cm 3 do hom em m oderno.

Recolheram -se ossos do Hom o habilis de depósitos, no vale do rio Om o, com

dois m ilhões a dois m ilhões e duzentos m il anos. 7 Se foi ele, porém , com o se suspeita, o prim eiro a aperfeiçoar, para fim específico, um a form a da natureza, seus vestígios seriam ainda m ais antigos, pois datariam de entre dois m ilhões e quatrocentos m il e dois m ilhões e setecentos m il anos as lascas de pedra

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encontradas em Hadar. Dali, por sinal, a pá do arqueólogo desenterrou alguns restos ósseos que teriam afinidades com o Hom o habilis, antigos de uns três

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m ilhões de anos.

O Hom o habilis era possivelm ente necrófago. Com o não possuía garras nem caninos grandes, aguçados e fortes, capazes de rom per com facilidade a pele e cortar os tendões e os m úsculos dos restos de anim ais que, abatidos pelos grandes carnívoros, recolhia para consum o de seu bando, descobriu que podia valer-se das lascas pontiagudas ou afiadas, que obtinha ao bater com força um a pedra contra outra. Tom ava a pequena lasca entre o polegar e o indicador e a utilizava com o se fora um a faca — para esfolar um lagarto ou um antílope, para extrair a cortiça de um a árvore, para lim par um galho e transform á-lo em bastão, m aça ou vara, e para aguçar a ponta do que viria a ser um pau de cavar ou um a lança. O fio das lascas pronto se cegava e estas, quando não podiam ser novam ente partidas, eram j ogadas fora — o que explicaria a enorm e quantidade de fragm entos de quartzo, basalto ou sílex que m arca os lugares onde viviam . Ao se tirarem , por percussão, as lascas de um calhau, este passava tam bém a apresentar gum es e ponta. Podia, então, ser em pregado para quebrar ossos, a fim de deles extrair-se o tutano, e para trabalhos m ais duros de corte e raspagem .

De resíduo, passou o núcleo da pedra da qual se retiravam lascas a ter valor em si m esm o. O Hom o habilis (ou outra espécie de Hom o dele contem porânea) buscava seixos rolados ou pedaços de rocha dura, de tam anho que a m ão pudesse conter, e lascava um a de suas pontas, para afiá-la. Ao conj unto desses utensílios líticos deu-se o nom e de cultura dos seixos lascados — ou pebble culture, em inglês. Hoj e, cham am -lhe, de preferência, olduvaiense — de Olduvai, onde esses instrum entos foram descritos pela prim eira vez.

É possível que o Hom o habilis tam bém caçasse em grupo, utilizando pedras e pedaços de pau com o arm as. Assim com o não sobraram vestígios dos alim entos vegetais que consum ia, não há restos das bordunas e lanças que talvez j á usasse. Não se tem sequer por certo se seriam em pregadas com o arm a de arrem esso as pedras que se encontraram , sem qualquer cicatriz de lasca, am ontoadas j unto aos seus lares sob céu aberto. Grande núm ero das que se registram nos estratos m ais antigos de Olduvai é de tam anho e form a condizentes com as pequeninas m ãos do Hom o habilis. E nas cam adas m ais novas, nas quais se registra a presença do Hom o erectus, essas pedras, e sobretudo os esferoides cuidadosam ente trabalhados, aum entam de tam anho.

Há quem arrisque ser a prática de atirar pedras para defender-se de predadores, ou até para abater pequenos anim ais, ainda m ais antiga e argum ente que o Australopithecus afarensis j á dispunha de m ãos anatom icam ente capazes

de segurar pequenas esferas e lançá-las a distância. 10 Mas não há qualquer evidência de que o fizesse. O arrem esso coletivo de pedras seguram ente dim inuiria, contudo, a vulnerabilidade dos australopitecos diante dos grandes felinos e, no caso do Hom o habilis, facilitaria suas atividades de necrófago. Um pequeno grupo, atirando pedras com rapidez contra um a leoa, podia obrigá-la a abandonar a gazela que acabara de abater. Daí para o uso na caça, seria curto o

passo.11

Lançando pedras, os fueginos, os aborígines da Austrália, os sam oanos, os sãs e os hadzas derrubavam frutos e ninhos do alto das árvores e m atavam não apenas pássaros, lagartos e coelhos — com o fazem até hoj e os m eninos em quase todas as latitudes e longitudes —, m as ainda anim ais de grande porte. A pedra era tam bém , entre eles, um a arm a de guerra. Perigosíssim a. Com o se deram conta os portugueses, ao desem barcar nas Canárias. Gom es Eanes de Zurara, escrevendo em m eados do século XV, dizia, dos guanches, que “a pelej a destes é

com pedras, sem outras arm as senão um pau curto para dar com ele”.12 E qualifica um com bate que os portugueses tiveram com o “assaz perigoso”, “especialm ente pela m ultidão das pedras com que os canários (...) guerreiam ”,

“m ui braceiros e certos em seus tiros”.13 Um a pedra atirada com força e pontaria contra a cabeça de um antílope bastava para derrubá-lo, zonzo, perm itindo que fosse, em seguida, m orto a pauladas. Muitas pedras, arrem essadas ao m esm o tem po por um bando de hom ínidas, podiam não apenas prostrar um grande m am ífero, m as até m esm o liquidá-lo. Arrastava-se, depois, inteira ou aos pedaços, a presa assim abatida até o sítio onde o grupo tinha sua base, um a área de form a circular, com entre 6 e 18m de diâm etro. Ali com partilhavam -se os alim entos e se trabalhavam a m adeira e a pedra.

Se os prim eiros australopitecos m oravam nas florestas, vivia o Hom o habilis nas savanas, em pequenas com unidades, j unto aos lagos e aos rios, onde houvesse árvores que lhe dessem frutos, a cuj os galhos, em caso de am eaça de ataque, pudesse subir e sob cuj as som bras se acolhesse. Pois sentia a necessidade de resguardar-se do sol e da chuva, havendo m esm o, em Olduvai e em Melka Konturé (perto de Adis Abeba), indícios de que possa ter construído um a espécie de abrigo ou para-vento, com ram os de árvore. Sabia possivelm ente transm itir aos filhos a técnica de lascar a pedra. E talvez j á tivesse desenvolvido um sistem a rudim entar de sinais sonoros, a cam inho da linguagem , quando saiu de cena, do m esm o m odo que o Australopithecus boisei, há um m ilhão de anos. Sucedeu-lhe o Hom o erectus.

Relata-se um a das hipóteses de que se alim enta grande controvérsia: a de que os australopitecos e o próprio Hom o habilis são antecessores do hom em m oderno. Colecionam -se, contrariam ente, argum entos para sustentar que os australopitecíneos não estariam na linha direta de ancestrais do Hom o sapiens, m as seriam algum as das num erosas estirpes de quase hum anos que coexistiram no passado longínquo e desapareceram .

Em Koobi Fora há evidências de que, num período de tem po entre um m ilhão e quinhentos m il e um m ilhão e novecentos m il anos, foram particularm ente

grandes a diversidade e a variabilidade dos hom ínidas. Já se escreveu, 14 por isso, que durante nenhum outro período da evolução hum ana “houve tantos diferentes tipos de hom ínidas cam inhando sobre a terra, e a m aioria deles em torno de um as poucas bacias lacustres da África Oriental”. Em Koobi Fora, Bernard

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Wood identificou, além do Australopithecus boisei, três representantes do gênero Hom o: o Hom o habilis e um a nova espécie, que com ele guarda sem elhança e diferença, acom panhados e seguidos no tem po pelo que poderia ser um Hom o erectus ou um a espécie dele aparentada. A variedade de características de restos classificados com o Hom o habilis poderia indicar, na realidade, que se está diante de m ais de um a espécie ou, então, de várias

subespécies, com aparências e com portam entos distintos.16

Essas linhagens paralelas — ou a esgalhar-se, ou a entrelaçar-se — teriam convivido lado a lado, na África, durante m ilhões de anos. As m udanças de suas características, ditadas pela com petição evolutiva, faziam -se gradualm ente, ao longo de m ultiplicadas gerações. De tal m odo que, se um australopitecíneo foi o ancestral do hom em , é im possível dizer-se quando este com eça e aquele term ina. Cada espécie vai-se fazendo im perceptivelm ente na que vai substituí-la. Por isso é que se diz nunca ter havido um prim eiro hom em .

Há cerca de um m ilhão e oitocentos m il anos j á existia, ao lado dos australopitecíneos, o Hom o erectus. E entre as várias hipóteses que explicam o desaparecim ento daqueles figura a de que esse os tivesse sistem aticam ente perseguido.

Tem -se com o provável ser a África Oriental a pátria do Hom o erectus. Ou um a das suas pátrias. Pois, ao contrário dos australopitecos, que não se descobriram , até hoj e, fora do continente africano, o Hom o erectus foi encontrado em Java (onde, pela prim eira vez, se identificou um a caveira sua, em 1891), China, Grã-Bretanha, Hungria, Israel e Iraque. Consideravam -se, porém , com o seus restos m ais antigos os retirados j unto ao lago Turcana, tanto em Koobi Fora com o na m argem ocidental, em Nariokotom e. As datações dos ossos recolhidos na Ásia eram im precisas, e duvidava-se de que o Hom o ou Pithecanthropus erectus tivesse existido na Indonésia e na China antes de um m ilhão e duzentos m il anos. Além disso, não se tinham — e continua-se a não ter

— evidências de que vivesse na Europa há m ais de novecentos m il anos. 17

Essas convicções foram abaladas por novas datas obtidas pelos m étodos radioisotópicos para os depósitos de lava em que se encontraram , em dois pontos de Java, fósseis tidos com o de Hom o erectus. À calota craniana do Menino de Moj okerto atribuiu-se cerca de um m ilhão e oitocentos m il anos, e ao rosto esm agado e pedaços de crânio do Meganthropus de Sangiran, um m ilhão e 660

m il anos. 18 Se certas, essas datas nos diriam , do Hom o erectus j avanês, que era tão antigo quanto o m ais antigo descoberto na África.

No essencial, o esqueleto do Hom o erectus assem elhava-se ao do hom em m oderno. Em bora seu crânio, de abóbada rasa e com pesados supercílios, fosse m aior do que o dos australopitecos, o volum e do cérebro era, contudo, ainda pequeno: entre 750 e 1.200cm 3.

Caçador e colhedor, o Hom o erectus desenvolveu, possivelm ente na África, novos instrum entos de pedra lascada, dos quais os m ais característicos são os cham ados bifaces, “achas” ou “m achados de m ão”. Tom ava um pedaço de pedra e dele ia retirando lascas, a fim de que assum isse algum as das form as que favorecia e que não guardavam sem elhança — ou esta era pequena — com o fragm ento de rocha inicial. A peça era depois retocada e afiada nas duas faces, para fazer o corte. O biface tinha form a oval, com a ponta saliente. Serviria para esfolar anim ais ou para cavar a terra e dela retirar raízes. Já o cutelo ou m achadinha, de form ato ligeiram ente quadrangular, possuía um gum e transversal retilíneo. Além de pequenas lascas, algum as utilizadas com o navalhas, produziam -se picões, raspadeiras, punhais e bolas de pedra.

Nos estratos de Olduvai, que cobrem praticam ente dois m ilhões de anos, pode traçar-se a passagem dos seixos lascados para os bifaces, em bora se discuta se houve, entre o Olduvaiense e o Acheulense — nom e que se dá à indústria dos “m achados de m ão” —, continuidade ou ruptura. Pode-se ali, e tam bém em outras partes, acom panhar a crescente padronização dos bifaces, a seguirem m odelos que se iam refinando, sem se afastarem , entretanto, do que j á se poderia cham ar de tradição. Com essas pedras rigorosam ente trabalhadas, o Hom o erectus parece dizer-nos que dom inava algum a form a de com unicação oral, pois era capaz de ensinar e aprender. Há quem , entretanto, sem dar m aior m erecim ento ao processo de refino de form as, pense que a padronização e a ausência de m udanças, durante um m ilhão de anos, indicaria exatam ente o contrário — que o Hom o erectus não possuía um a cultura, m as fazia utensílios do

m esm o m odo instintivo com o os pássaros fazem ninhos. 19

Crê-se que foi da África que as técnicas do Acheulense se expandiram para a Eurásia. Elas apareceram no Rift Valley há um m ilhão e m eio de anos, uns 7.500

séculos antes que na Europa, 20 e continuarão a estar presentes, em várias partes do m undo, até cem , setenta ou cinquenta m ilênios atrás. Localizaram -se artefatos acheulenses desde a Grã-Bretanha e a Espanha até o sul da Índia, distribuídos num período de tem po a cobrir m ais de 55 m il gerações, o que faz do biface o m ais em pregado de todos os instrum entos hum anos. Só não logrou im por-se na Ásia Central, Extrem o Oriente e Indonésia, onde utensílios de osso e bam bu lhe teriam cum prido as funções. Até agora, tam pouco apareceu nas florestas da África Ocidental e dos Congos. Em com pensação, o biface, j untam ente com os cutelos e outros instrum entos do Acheulense, foi achado aos m ilhares no Magrebe (em Sidi Abderrahm an e Ternifine), nas m argens dos lagos extintos do Saara (em Tihoidaïne, Tachengit, El Bey y ed, Madam a e Adrar Bous), no Quênia (onde, em Olorgesailie, há um verdadeiro m useu, ao ar livre, de m achados de m ão), na Tanzânia, na Zâm bia (nas cataratas de Calam bo), na Etiópia (no vale do Awash), na Nigéria (no planalto de Jos) e na África do Sul — para ficar em poucos exem plos.

Alguns com portam entos fundam entais, com o o andar sobre dois pés e a consequente liberação das m ãos, o fabrico de utensílios cortantes e a procura e o consum o coletivos de alim entos, devem ter contribuído, no correr de longuíssim o tem po, para a transform ação de proto-hom ínidas em hum anos, com m udanças no corpo — na form a e nos m ovim entos das m ãos, por exem plo, no tam anho e conform ação das queixadas e dos dentes e no aum ento do volum e do cérebro. O Hom o erectus continuou esse percurso, com o a se fazer a si próprio, superando sua condição biológica e am pliando os tipos de am biente em que era capaz de viver.

É de crer-se que ele e, antes dele, os australopitecíneos e outras espécies de Hom o tenham desenvolvido, da observação de outros anim ais, essas habilidades

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extrabiológicas ou culturais. Se, para cavar, os tatus necessitam de unhas longas e fortes, os hom ínidas podiam im itá-los com picões de pedra; com cutelos, com pensariam a falta das garras e dos dentes dos felinos; e com lanças, a dos chifres dos búfalos e a dos cornos dos rinocerontes. Cada novo utensílio que se criava abria, assim , possibilidades que eram , até então, prerrogativas de outros

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anim ais. Talvez o Hom o erectus j á fizesse tam bém algum a sorte de cesta, por

im itação das aranhas ou de certos pássaros, ou cortasse da corcha das árvores algum tipo de saco, para m elhor carregar suas poucas posses, com o os bifaces, em cuj o fabrico punha tanto cuidado.

Essas peças líticas raram ente eram em pregadas com o instrum ento de ataque. O Hom o erectus, caçador com petente, usava outros recursos para m atar anim ais. E outras arm as: lanças de m adeira, tacapes, pedras de arrem esso, estiletes de osso. Agindo em grupo, procurava acuar e cansar o anim al, levá-lo a cair de ravinas ou a em baralhar-se em pântanos. O processo exigia forte coesão do grupo e tam bém algum sistem a de sinais, ou linguagem . E tornou-se m ais eficiente, depois que o hom em pôde utilizar o fogo, para deitá-lo à savana e obrigar os anim ais a fugir na direção por ele desej ada.

Quando se com eçou, na África, a usar o fogo? Não se sabe. Até bem pouco, acreditava-se que relativam ente tarde, pois as evidências m ais antigas datariam de cinquenta ou sessenta m il anos. Tinha-se o fogo com o um a conquista dos que se deslocaram para as regiões tem peradas ou frias da Eurásia. Ali, ele seria indispensável à sobrevivência, do m esm o m odo que as roupas de peles. Hoj e, pensa-se que o fogo j á devia ser em pregado na África durante boa parte do Acheulense. E até antes, pelos australopitecos, com o m eio de proteção — a fogueira no centro do acam pam ento — contra os grandes felinos.

Não que se tenham revelado novos dados que deixem clara a antiguidade do uso do fogo na África. Sabe-se que seus traços não persistiriam nas condições

clim áticas de Olduvai, Olorgesailie e Isim ila23 e tem -se com o provável que resultariam de incêndios naturais antigos vestígios de fogo — e alguns antiquíssim os, de um m ilhão e quinhentos m il anos, com o m anchas de barro e solo cozidos em Koobi Fora e no m édio Awash, ou de um m ilhão e setecentos m il

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anos, com o o fóssil de acha queim ada encontrado no vale do Om o. Alguns

sinais, porém , autorizam a suspeita de que se possa ter usado o fogo, faz um m ilhão ou um m ilhão e m eio de anos, em Chesowanj a, no lado oriental do lago Baringo (no Quênia) e no m édio Awash. No prim eiro sítio, num a área de barro cozido, encontrou-se, j untam ente com restos de Australopithecus boisei e com artefatos do Olduvaiense e do Acheulense, o que pode ser interpretado com o

um a espécie de trem pe ou fogão.25 No segundo, observaram -se pequenas concentrações, em form a de cone, de argila fortem ente averm elhada. Esses cones, que variam entre vinte e trinta centím etros de altura e quarenta e oitenta centím etros de diâm etro, foram identificados com o tocos de árvore subm etidos a dem orada com bustão. Quem sabe se não seria essa um a das m aneiras que teriam os hom ínidas de conservar, para seu uso, o fogo que recebiam da natureza — de um raio, de um a erupção vulcânica, de um a queim ada espontânea da savana? No norte da Índia, em nossos dias, ainda se guarda o fogo em tocos de árvores que se vão queim ando um após outro. E o m esm o se dá entre os

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aborígines da Austrália.

Há diferença entre saber acender e saber conservar o fogo. Da observação de com o este passava de um a árvore a outra, o Hom o habilis ou o Hom o erectus podem ter aprendido com o m anter viva um a fogueira e com o transportar de um lado para outro o fogo, na ponta de um galho ou em brasas, sobre algum tipo de travessa. Viram , findo um incêndio, o corpo tostado de um a gazela e lhe provaram a carne. E cedo souberam que os grandes felinos evitavam as cham as e delas fugiam . Sendo o fogo espontâneo com um nas savanas, sobretudo na estação seca, o inconcebível seria que os prim eiros hom ens dele não tivessem percebido, desde cedo, as vantagens. Não necessitavam do fogo para aquecer-se, com o os que viviam na Eurásia. Mas podem ter com preendido, e até antes daqueles, os benefícios do fogo. Em três dos m ais antigos sítios de presença dos hom ens na Eurásia — Yanm ou, Xihoudu e Lantian (na China) — atesta-se ter o

uso do fogo entre setecentos m il e um m ilhão de anos.27 Talvez não sej a m ais recente o seu em prego na África. Talvez o Hom o erectus j á o conhecesse,

quando saiu dos trópicos.28

O Hom o erectus vivia em pequenos grupos de vinte a cinquenta indivíduos. Se o núm ero aum entava, o bando se cindia e um a parte ia buscar outros assentos, geralm ente à m argem das águas. No correr dos anos, das décadas, dos séculos e dos m ilênios, foi-se o Hom o erectus dispersando África afora, ocupando novos territórios e regressando aos sítios de onde havia partido ou de onde tinham em igrado os seus antepassados, subindo ou descendo os rios, rodeando os lagos, buscando outros trechos de savana, m ais ricos de caça, e acom panhando, talvez, as linhas das praias.

Segundo um a teoria, eles teriam , há pouco m ais de um m ilhão e duzentos m il anos, passado à Ásia e, possivelm ente bem depois, à Europa, assenhoreando-se das zonas de clim a quente do Velho Mundo. Desceram o Nilo, atravessaram o Delta e seguiram pelas costas do norte do Sinai. Ou ganharam a esquina sul-ocidental da Península Arábica, cruzando o que hoj e é o Bab-el-Mandeb, a partir da depressão de Afar. Por um dos dois cam inhos, ou por am bos, foram ter ao vale do Jordão, onde, em Ubeidiy a, se descobriram instrum entos acheulenses, dos m ais antigos fora da África, pois teriam um m ilhão de anos ou m ais. A im aginação perm ite-nos reconstruir alguns dos cam inhos pelos quais se dispersou o Hom o erectus: a Mesopotâm ia, o planalto do Irã, os vales do Índus e do Ganges, as costas da Birm ânia e da Malásia, até Java.

As novas datas propostas para o Menino de Moj okerto e para o Meganthropus de Sangiran exigiriam que se estendesse para m uito antes de um m ilhão e oitocentos m il anos o início da expansão do Hom o erectus. Assim se explicaria por que não se encontraram em Java e no Extrem o Oriente bifaces associados ao Pithecanthropus — este teria saído da África antes do desenvolvim ento do Acheulense. Ao acolher essa tese, tem -se de antecipar em quase um m ilhão de anos o surgim ento da espécie. A m enos que a dispersão do Hom o erectus tenha sido m uito m ais rápida do que se pensava, as prim eiras levas não gastando m ais de cem m il anos para chegar à Indonésia.

Um a outra hipótese é a de que não tenha sido o Hom o erectus o prim eiro a sair da África, m as, sim , e m uito antes dele, o Hom o habilis ou um seu sem elhante, que foi ter à Indonésia. O Hom o erectus de Java, dele derivado, seria, assim , produto de um a evolução regional, constituindo um a espécie ou subespécie distinta da africana. Esta últim a ter-se-ia, m ais tarde, j á senhora dos instrum entos do Acheulense, dissem inado pela Europa, o Oriente Médio e a Índia. A não ser que o Hom o erectus só se tenha desenvolvido na Ásia, vindo ter depois às terras

africanas,29 das quais voltaria m uitas vezes a em igrar.

Dessas conj ecturas, não fossem as poucas ossadas que as j ustificam , poder-se-ia dizer que se apoiam — para utilizar a expressão de Augusto Mey er — em “alicerces de brisa”. Por isso, basta, para alterar as várias teorias sobre a form ação de quem som os, o acham ento de um novo fóssil hom ínida ou um a nova conclusão da geocronologia.

Vale o que vale, portanto, o quase consenso de que do Hom o erectus saiu o Hom o sapiens e de que a África foi o palco, ou um dos palcos, dessa evolução. Na Europa, restos de hom ínidas com traços que os caracterizariam com o Hom o sapiens em ergentes foram situados em algum vago ponto do tem po, que poderia recuar até uns setecentos m il anos. Menos im precisa é a datação proposta para os achados no litoral do Marrocos — em Salé, na caverna Littorina (em Sidi Abderrahm an), em Kébibat (próxim o a Rabat) e na canteira de Thom as (em Casablanca). A m andíbula encontrada nesta últim a teria entre trezentos m il e

cem m il anos. 30 E, se for de um Hom o sapiens, talvez date de duzentos m il anos

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o crânio descoberto em 1932, por Louis Leakey, em Kanj era (no Quênia). De

idade sem elhante seriam os restos de Kapthurin, j unto ao lago Baringo (tam bém

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no Quênia). E j á se deram uns quinhentos m il anos a um pedaço de crânio

extraído do lago Ndutu (na Tanzânia).33

Tanto o Hom o sapiens neanderthalensis, atarracado, peito em form a de barril, testa fugidia e arcadas supraorbitais exageradam ente desenvolvidas, quanto seu assem elhado, ainda m ais m aciço, o Hom o sapiens rhodesiensis, ou as outras subespécies de Hom o sapiens existentes na África — entre as quais aquela de que teria fluído o Hom o sapiens sapiens —, foram habilíssim os caçadores. Por toda parte, suplantaram ou assim ilaram o Hom o erectus.

O hom em de Neanderthal, cuj os fósseis têm sido desencavados — o prim eiro em 1856, na gruta do m esm o nom e, perto de Düsseldorf — desde a França até a Iugoslávia e de Israel ao Usbequistão, talvez predom inasse na África do Norte, em bora sej am poucos os seus restos até agora ali achados: no Marrocos (em Mugharet el-Aly ia e Jebel Irhoud) e na Líbia (em Haua Fteah). Já os rodesoides dom inavam o sul do continente, podendo tam bém ter existido na África Oriental.

Os prim eiros ossos que se classificaram com o de Hom o sapiens rhodesiensis foram encontrados num a caverna calcária em Broken Hill, perto da cidade de Kabwe (na Zâm bia). A idade desses fósseis é incerta, m as lhes têm sido dados

cerca de cem m il anos. 34 Mais antiga, pelo testem unho da fauna a ela associada, seria a calota craniana de rodesoide que se descobriu em Elandsfontein (ou

Hopefield), próxim o à baía de Saldanha (na África do Sul).35 À subespécie vinculam -se tam bém restos recolhidos da Cave of Hearths, no Transvaal, e do lago Ey asi, na Tanzânia.

Sabe-se m enos sobre essas e outras subespécies de Hom o sapiens do que sobre os australopitecos e o Hom o erectus. Na África, a escassez de testem unhos é ainda m aior do que na Eurásia. Fundam -se, porém , na fragilidade de um a dúzia de achados no continente africano e m uitos m ais no resto do Velho Mundo, hipóteses, que desatam controvérsias, sobre o surgim ento e a expansão do hom em m oderno, o Hom o sapiens sapiens.

Adm itia-se um a origem europeia para o hom em que som os. Propôs-se, depois, que tivesse havido, na Europa, um a evolução do Hom o erectus, passando talvez pelo neandertalense, até o de Cro-Magnon e a raça branca, m as paralela e coetânea, em outras partes do m undo, a distintas linhas de continuidade evolutiva, nas quais o Hom o sapiens rhodesiensis se transm udaria nos coissãs e nos negros, o Hom o erectus j avensis, no hom em de Wadj ak e nos aborígines australianos, e o sinântropo de Pequim , nos atuais m ongoloides.

Essa é um a das teorias ditas do candelabro, porque, de um fuste com um (o Hom o erectus surgido na África e dela em igrado), se abrem vários braços de evolução separada e contínua, em três distintos continentes, o que não exclui cruzam entos dessas populações arcaicas. A tese recebeu com o reforço o crânio de um a form a prim itiva de Hom o sapiens, desenterrado em Jinniushan, na China, e datado de duzentos m il anos ou pouco m ais. Não só esse Hom o sapiens seria contem porâneo dos últim os exem plos de Hom o erectus chineses com o a m orfologia da sua cabeça se assem elha à dos m odernos asiáticos — o que sugere ser o crânio de Jinniushan testem unho de um desenvolvim ento local do ser

hum ano. 36 Contra a teoria do candelabro ou do m ultirregionalism o, argum enta-

se,37 porém , que cada espécie anim al surgiu num determ inado ponto da terra e dali se espalhou para outros sítios. Se assim sucedeu com os ratos e os pom bos, duas espécies que lograram tanto êxito quanto o hom em em sua dispersão pelo m undo, é de perguntar-se por que se teria passado com este de form a diferente.

A tese da origem única, cham ada da arca de Noé ou da Eva africana, tem tam bém suportes arqueológicos. Na África do Sul descobriram -se, em Klasies River Mouth, quase na base de um depósito com 150 m il anos, restos de Hom o

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sapiens sapiens, que não diferem dos nossos. Enquanto na Europa, os vestígios

do Hom o sapiens sapiens datam de entre sessenta m il e trinta m il anos, outros achados foram confirm ando a sua m aior antiguidade na África: os de Howieson’s

Poort datariam de 95 m il anos,39 e os de Border Cave, entre Natal e a Suazilândia, podem até anteceder os de Klasies River Mouth e ter uns 195 m il

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anos. Mas as coisas não ficam por aí. Revelaram -se, em Florisbad (no Orange,

África do Sul), em Kanj era (no Quênia), na Form ação Kibish (do vale do Om o) e na caverna de Porc Epic, próxim a a Dire Dawa (na Etiópia), ossos de hom ens essencialm ente m odernos, porém m enos evoluídos do que os de Klasies River Mouth. Não só o Hom o sapiens sapiens seria contem porâneo do hom em de Neanderthal, m as possivelm ente derivava de um a subespécie ainda m ais antiga e tam bém africana.

Essas descobertas m udaram o m odo de pensar de m uitos e reforçaram um a velha suspeita: a de que o Hom o sapiens sapiens houvesse surgido na parte sul-oriental da África e, tal qual o Hom o erectus, da África se tivesse propagado para a Ásia e a Europa. Não parece esdrúxulo adm itir-se que os hom ens tenham alcançado a sua form a atual no m esm o hábitat em que seus ancestrais se ergueram sobre os pés e lascaram pela prim eira vez a pedra. Ali, onde os anim ais eram variados e abundantes, um a população de caçadores tenderia a ser relativam ente densa, e nela, os processos de seleção natural m ais rápidos do que em outros lugares. Assim pensa Roland Oliver, que acrescenta: enquanto a caça foi o item m ais im portante da dieta do hom em , teve ele na África Índica e Meridional o centro da sua história. Só m ais tarde, esse eixo, com a transform ação dos hábitos alim entares, se m udou das savanas para os solos

Continuar: parte 2 de 3