A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 11 de 35

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A Enxada e a Lança

7. A expansão banta

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A expansão banta

 

Apalavra banto foi usada pela prim eira vez em 1862, por W.H.I. Bleek, para designar as num erosíssim as falas aparentadas — m ais de trezentas ou cerca de seiscentas, conform e os critérios de classificação adotados — que cobrem um a superfície de uns nove m ilhões de quilôm etros quadrados, ao sul de um a linha quase horizontal, a cortar o continente africano, da baía de Biafra a Melinde. O term o banto aplica-se, hoj e, tam bém aos povos — e som am m ais de duzentos m ilhões de pessoas — que utilizam um daqueles idiom as.

A grande sem elhança entre as línguas bantas — m uitas delas tão próxim as um as das outras com o o são os diferentes idiom as neolatinos — fez supor, desde o início, que se tivessem propagado de um núcleo original, há relativam ente pouco tem po e de form a rápida. Um fam oso africanista, H.H. Johnston, im aginou, em 1913, que a expansão das línguas bantas fosse o resultado da conquista m ilitar, da invasão veloz das terras ao sul do continente por hordas de guerreiros, que im puseram sua cultura e sua fala aos povos por eles subm etidos. Graças à lança de ferro — com pletou, m eio século m ais tarde, um outro

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estudioso —, um a m inoria dom inante pôde não apenas im por-se pelas arm as, m as tam bém aum entar a eficácia de seus caçadores e o volum e de carne que a coletividade produzia, e atrair, assim , para suas hostes os povos vizinhos, os quais, convertidos a novo m odo de vida, engrossavam os contingentes bantos e iam derram ar-se, com o grupos senhoriais, sobre outros territórios e sobre outras gentes.

Banto significa “povo”, ou “os hom ens”. É o plural de m unto, “o hom em ”. O term o existe em quase todas as línguas bantas. E é o m ais antigo, com a sua acepção.

A partir do estudo com parativo dos vocabulários e das gram áticas das línguas bantas m odernas, im aginou-se um a fala que estaria na raiz de todas elas, um protobanto, utilizado, há apenas uns três ou quatro m il anos, num a pequena área, de onde com eçou a difundir-se e a m odificar-se.

O linguista Joseph H. Greenberg situou esse núcleo original na região do m édio

rio Benué,2 próxim o à fronteira da Nigéria com os Cam arões, ao noroeste, portanto, da grande m assa territorial em que predom inam os idiom as bantos. Para ele, o conj unto destes idiom as, não obstante seu núm ero e a vasta geografia sobre a qual se espraiaram , constituiria tão som ente um a subdivisão de um sub-ram o, o bantoide (no qual se incluem o tive e várias outras línguas faladas no centro dos Cam arões e no centro-leste da Nigéria), do ram o benué-congo do grupo níger-congo da fam ília níger-cordofoniana.

Distinta é a tese de outro linguista, Malcolm Guthrie. Sustenta ele que os idiom as bantos devem ser tom ados com o um a fam ília independente. Seu núcleo originário localizar-se-ia ao sul da floresta equatorial, no norte do Chaba (ou

Catanga), a m eia distância entre os dois oceanos,3 ou, ao am pliar posteriorm ente

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a área, entre o Lualaba e o baixo Zaire. Guthrie não afasta, porém , a hipótese de que os antepassados da gente que utilizava o protobanto tivessem vindo, pelos rios, da bacia do Chade para o alto Lualaba. Eles falariam um hipotético pré-banto.

Dando ênfase aos pontos de contato entre as duas teorias, o historiador Roland Oliver concluiu não serem as posições de Greenberg e Guthrie contraditórias. “É

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um a interpretação válida”, escreveu, “considerá-las com o se referindo a sucessivos estágios no tem po”. Teria havido um prim eiro m ovim ento m igratório, a partir de um núcleo ao noroeste da floresta equatorial (ou sej a, do ponto de origem proposto por Greenberg); esses em igrantes, após atravessarem as m atas da bacia do Zaire e se fixarem , por dem orado tem po, no Chaba e no Cassai (o centro da hipótese de Guthrie), ali desenvolveram e consolidaram o protobanto, antes de iniciarem a verdadeira grande dispersão.

Sem esquecer que o conceito de protobanto é um a criação dos linguistas e que não se pode falar em origem últim a, em sentido absoluto, de qualquer língua ou

grupo hum ano6 — atrás de cada ancestral estão os seus ancestrais —, haveria que distinguir pelo m enos dois protobantos: o do noroeste, ou prim itivo, e o do sul, ou secundário. O próprio Greenberg, em bora rebatendo os argum entos que levaram Guthrie a colocar onde pôs o núcleo do seu protobanto, considera o

segundo centro difusor “um a possibilidade legítim a”.7 Teria sido nessa região, segundo Guthrie, que o protobanto se cindiu em dois grandes grupos: o ocidental e o oriental — a divisão básica das línguas bantas, tanto para ele quanto para Greenberg.

A expansão banta

 

Diverso é o m odo de ver de dois outros linguistas, Bernd Heine e Alick Henrici.

Aquele8 desenvolveu um a classificação inteiram ente nova das línguas bantas. Dos 11 principais grupos em que divide o banto, dez situam -se a noroeste do rio Zaire, o décim o prim eiro com preendendo todas as dem ais falas ao sul e a leste. Henrici, usando os próprios dados de Guthrie, chegou a conclusão sem elhante à de Heine: a grande ruptura histórica, no banto, era entre as línguas do noroeste (região sul-oriental da Nigéria, Cam arões, Gabão, Congos e República Centro-

Africana), de um lado, e todas as dem ais, do outro. 9

A recriação teórica do vocabulário protobanto perm ite-nos reconstituir, ainda que de form a im precisa, os m odos de vida dos que hipoteticam ente o falavam . Um a constelação de palavras possibilita o esboço das grandes linhas de um a cultura m aterial. Ficam os sabendo da existência de determ inados obj etos, arm as, anim ais e árvores, e, com isso, nos arriscam os a enquadrar num a paisagem um povo desaparecido e a estabelecer a estrutura essencial de sua m aneira de existir. No caso dos protobantos, a arqueologia, por agora, pouco nos aj uda. Mas, com o a herança da linguagem significa geralm ente a da cultura, é-nos lícito proj etar com parativam ente no passado coisas, técnicas e j eitos de ser, utilizando a realidade atual, ou a da história próxim a, para — em bora saibam os que, no correr do tem po, se processaram em préstim os, trocas, m odificações, aj ustam entos e rupturas — restaurar a im agem dos ancestrais das gentes bantas.

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Afinal, com o relem bra Eugenio d’Ors, em um a de suas glosas, “en la evolución hum ana, cuanto ha sido, es”.

Parece que eram produtores de alim entos os que falavam o protobanto. Possuíam palavras para dendezeiro, legum e, figueira, fava, azeite, cogum elo, galinha-d’angola, bode, cachorro. E talvez para boi, em bora o m esm o term o significasse tam bém “búfalo”. Tinham nom es para m oita e m atagal, m as não para cam pina ou pastagem . Nem para os anim ais típicos da savana, com o o leão, a zebra, o rinoceronte. Pobre era o vocabulário de caça. Em com pensação, abundam as expressões que se referem à pesca e às atividades aquáticas: anzol, fisgar com o anzol, canoa, rem o. Tudo aponta para um hábitat sem elhante ao que se denom ina, na Am azônia brasileira, de cam po coberto — um a zona de transição entre a savana, o cerrado e a floresta. Um a área bastante arborizada, com fartura de água e fáceis rios.

Este cenário repete-se ao norte e ao sul da grande selva congolesa. Nele incluem -se tanto o núcleo protobanto proposto por Greenberg quanto o defendido por Guthrie. Em am bos os casos, estaríam os diante de pescadores, que praticariam a agricultura nas bordas da m ata, cozeriam a cerâm ica, teceriam panos de ráfia e de outras fibras vegetais, fariam cestos, estariam organizados em fam ílias extensas e conheceriam certas form as de controle social difuso, baseadas no prestígio dos m ais velhos. Suas crenças religiosas não deveriam apresentar grande distância das que ainda hoj e professam m uitos de seus descendentes: acreditariam talvez que tudo participa da harm onia cósm ica, que cada coisa possui um a força espiritual, que há perm anente troca de poder e apoio entre os vivos e os m ortos da m esm a linha de sangue.

Conform e a lição da linguística e da glotocronologia que se acolha, m uda o enredo.

Se o núcleo de onde o protobanto com eçou a segm entar-se e a dispersar-se ficava próxim o ao m édio Benué, na fronteira da Nigéria com os Cam arões, pode-se im aginar que os grupos que o com punham ali viviam desde m uitíssim o tem po. Seriam possivelm ente populações que m oravam a distância um as das outras e que viram seus núm eros constantem ente aum entar, num m eio geográfico propício. A densidade dem ográfica da área, à luz dos critérios atuais, poderia ser tida com o insignificante. Mas não, da perspectiva de grupos hum anos que, em bora conhecessem a agricultura e criassem anim ais, viviam ainda em grande parte da pesca, da coleta e da caça, necessitando, por isto, de vastos espaços para exercê-las, sem entrar em choque com os vizinhos. E estes, pelo m enos os que ocupavam os territórios m ais ao norte, podiam estar a deslocar-se lentam ente para o sul, em purrados por aqueles que o ressecam ento saariano afastava de suas terras.

O agricultor m udava de sítio tão logo se esgotava o solo, e o solo, quando pobre, exauria-se em três ou quatro anos. Com o não faltava terra, ia-se buscar um trecho na fím bria de m ata m ais adiante, que se derrubava e cuj os restos talvez se queim assem , para a cinza servir de adubo. O pastor quase se deixava conduzir pelas cabras e bois. A coleta arrastava quem a fazia a inesperadas distâncias, pois as árvores frutíferas, as plantas tuberosas e as colm eias se dissem inavam pelo largo espaço. A própria natureza da caça pede am plas áreas vazias de hom ens: ela tem de ser itinerante, para não se esgotarem os anim ais. E se a vida de aldeia recom enda a proxim idade dos rios e das fontes, a pesca a exige.

À m edida que aum entavam em núm ero, os protobantos foram avançando para leste e para oeste, ao longo da fím bria setentrional da floresta. Assim chegaram à boca do rio Zaire, que atravessaram j unto ao m ar. Assim , a sem icircundar a selva, atingiram os lagos Alberto, Eduardo ou Ruero, Quivu e Tanganica. Houve quem im itasse os rios, floresta adentro, e baixasse, digam os, pelo Sanga e o Ubangui até o Zaire, e por este até a região de Kinshasa. Seriam apenas, por esta via, setecentos quilôm etros de um ponto a outro, distância que hábeis canoeiros, em longas pirogas escavadas nos troncos das grandes árvores, podiam perfeitam ente transpor. Do eixo do Zaire, com eçaram a subir os afluentes da outra banda: o Cuango, o Quilu, o Cassai, o Lulua. E a galgar, contra a corrente, o próprio Zaire, até o alto Lualaba, nos confins de Chaba.

Não se tratava de m igração a passo batido. Mas deve ter-se processado, com o indica o pequeno grau de diferenciações linguísticas, com relativa rapidez. Mal com eçava a em pobrecer um a área à beira-m ata ou um esobe (m ancha de savana encravada na floresta), ia-se adiante, com nova aldeia e novas roças. Deste m odo, ocuparam -se, ainda que parcialm ente, os grandes eixos fluviais da selva. E os antepassados dos bantos foram ter, no fim das florestas congolesas, ao m esm o tipo de paisagem de onde os avós de seus bisavós haviam partido. E dali se derram aram pelas savanas, após se reapropriarem dos cereais e do gado bovino.

No processo, o protobanto foi-se segm entando. Os grupos que se expandiram para leste deram origem às línguas bantas orientais. Os que se deslocaram para o poente e para o sul, ao ram o ocidental do banto. A m enos, com o concede

Greenberg, 11 que a divisão se tenha dado na região entre floresta e savana ao sul do Zaire.

Ficam no ar estas perguntas: conheceriam os protobantos o ferro, ao com eçar a expandir-se? Teriam eles recebido o seu uso, talvez da cham ada cultura Nok, quando ainda viviam na região do m édio Benué, ou só m ais tarde? Para

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Guthrie, os protobantos j á dom inavam o ferro quando ainda constituíam um

grupo de língua coesa, entre o Lualaba e o baixo Zaire. Mas, com Guthrie, passa a ser outra a urdidura da história.

Os pré-bantos que vieram , com suas canoas, através da floresta, do lago Chade para o norte de Chaba, ainda não trabalhavam o ferro. Eram poucos — algum as

centenas — e devem ter atravessado rapidam ente a selva. 13 O conhecim ento da m etalurgia só lhes teria chegado m uito tem po depois, pela m esm a rota, trazido pelos descendentes de seus próprios antepassados, que haviam perm anecido no

Chade, ou por colaterais.14 Quando tal se deu, os protobantos j á deviam ser, ao sul da floresta, m uito num erosos, j á deviam ter-se várias vezes m ultiplicado.

Ali, o idiom a lentam ente consolidou-se. E, quando os que o falavam voltaram a am pliar, para oeste e para leste, ao longo do lim ite m eridional da m ata, os espaços que ocupavam , foi-se, no processo de afastam ento desse núcleo e de contato com outros grupos hum anos, diferenciando do protobanto um dialeto ocidental. E, m ais tarde, um oriental.

É diferente a intriga, a partir de Henrici. A prim eira grande cisão do protobanto ter-se-ia verificado ainda no sul dos Cam arões; e as três seguintes, no Gabão, no

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Congo-Brazzaville e no norte da República Dem ocrática do Congo. Ao

noroeste do grande rio. Os que falavam o protobanto teriam estado por m uito tem po, provavelm ente m ilhares de anos, a viver naquela área, à beira das m atas e dentro delas. A floresta, para eles, era parte da rotina diária, algo que haviam aprendido, ao longo dos séculos, a conhecer profundam ente. Puderam atravessá-la ou circundá-la sem m aior dificuldade. Nela havia pesca e caça, frutos e raízes, árvores para fazer cabanas e barcos sólidos. Nela, ou nas suas m argens, podiam plantar vagens, batata-de-cafre, dendezeiro, algum as espécies africanas de inham e (com o a Dioscorea cay enensis, a D. rotundata e a variedade autóctone da D. bulbifera). Em bora houvesse que m udar constantem ente a localização das roças, pois o húm us pronto se esgotava, pouco tem po se exigia para o regresso a um terreno j á desbastado, um a vez que o solo de vazante logo se recom punha.

A etapa seguinte desta versão da história é o derram e de populações da

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floresta, ou das orlas da floresta, nas savanas adj acentes. Os protobantos

tiveram de passar para um m eio am biente m uito distinto daquele a que se haviam acostum ado. Tiveram de m udar do plantio para a sem eadura; das raízes, vagens e nozes para os cereais. De dar nova ênfase à caça e à pastorícia. Quem sabe se j á então não conheciam os instrum entos de ferro?

Presum e-se que os protobantos que viviam ao noroeste das selvas da República Dem ocrática do Congo tivessem um substantivo para m alho e um verbo para o ato de forj ar. Isso poderia constituir-se em evidência de que j á praticavam a

m etalurgia. Há quem se apresse,17 contudo, em ponderar que essas palavras podem ter m udado de sentido ou de aplicação, no correr da história banta. Tal com o aconteceu, em português, com o vocábulo “carruagem ”, cuj a acepção corriqueira se voltou, de veículo de quatro rodas puxado por anim ais, para vagão ferroviário de passageiros, o term o em pregado em protobanto para designar o m artelo de pedra com que se faziam os im plem entos líticos pode ter passado a significar o m alho do ferreiro, e o verbo utilizado para lascar, afeiçoar e polir o m achado, a ponta de lança, a faca e o buril de pedra pode ter continuado o m esm o quando essa m atéria-prim a foi substituída pelo ferro. Há exem plos desse tipo de m udança no desenvolvim ento das línguas bantas: em diferentes m om entos e áreas de sua expansão, a m esm a palavra refere-se a pedra, a m inério de ferro e a artefato de m etal. É significativo que vocábulos correspondentes a “foles”, “soprar foles” e “aram e”, em bora dissem inados por todas as outras regiões, não ocorram entre os protobantos do noroeste do atual

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Congo.

A posse do ferro explicaria m elhor, no entanto, a ocupação dos grandes eixos fluviais e de parte da floresta pelos protobantos. Se eles, em vez de só disporem de utensílios de pedra polida, que a arqueologia encontra em abundância nas m argens da selva, tivessem , de saída, contado com im plem entos de ferro, ou os houvessem recebido ao longo das m igrações m atas adentro, com m enor dificuldade abririam clareiras, derrubariam árvores, lim pariam o solo, escavariam canoas, m atariam os grandes anim ais — dom ariam , em sum a, o que lhes coube de floresta. Com o quer que tenha sido, ao se espalhar pela savana, j á seriam donos da agricultura e do ferro.

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Jan Vansina propôs um outro argum ento para a expansão dos bantos. Parte

ele dos estudos linguísticos realizados por Y. Bastin, A. Coupez e B. de Halleux, do Museu Real de Tervuren, e da reclassificação do níger-congo apresentada por P.B. Bennett e J.P. Sterk. Segundo estes últim os, falava-se, há alguns m ilhares de anos, nas pradarias dos Cam arões, então cobertas por florestas ou, quando m enos, m uito arborizadas, o bin. Este idiom a, um subgrupo do bantoide, deu origem a dois outros: de um deles, o ungua, sairiam o tive e o banto oriental (ou zam beze); do outro, o j arauã (j arawan) e o cam arões-congo. O cam arões-congo repartir-se-ia, por sua vez, em ecoide, m bam -nkam e banto ocidental (ou equatorial). O banto deixava de figurar com o um item à parte na grande chave das línguas africanas, e os grupos banto ocidental e banto oriental corresponderiam a um esgalhar da árvore m uito m ais aberto e m uito m ais antigo.

Segundo essa tese, o banto ocidental desenvolveu-se na região entre o rio Cross (no sudeste da Nigéria), o Atlântico e as m ontanhas do sul dos Cam arões. Seria a fala de pescadores e agricultores, que tam bém caçavam e colhiam os produtos silvestres. Plantavam inham es, dendezeiros, abóboras, vagens. Criavam cabras e cachorros. Faziam cerâm ica. Não conheciam o ferro.

Num am biente propício e variado, entre savana e floresta, entre m ar e serra, com abundância de chuvas e de sol, cresceram em núm ero e com eçaram a expandir-se e a diferenciar-se linguisticam ente, ao longo do oceano, por entre os m anguezais e rios acim a. Atravessaram o m ar e foram ter à ilha de Bioko (ou

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Fernando Pó). Subiram o Gabão, o Oguê e outros cursos d’água, sem pre em busca das paisagens que lhes eram habituais e onde pudessem continuar a exercer a agricultura a que estavam acostum ados. Assim chegaram ao rio Zaire e o foram pontuando, contracorrente, com suas aldeias. E avançaram pela ram agem dos afluentes. Sem pre j unto das águas. A seguir, o espinhaço e as costelas dos rios. Sem geralm ente se afastar do tipo de hábitat que desde há m uito conheciam . Entraram pelo Cuango, pelo Quilu, pelo Cassai. Alguns, nos planaltos do sul do Congo e de Angola, adaptaram -se à vida de savana: reduziram a agricultura a um a atividade m arginal e se converteram em caçadores. Assim atingiram a Nam íbia, ao sul, e, a leste, os lagos Malavi e Tanganica e o rio Zam beze.

Quanto ao banto oriental, ele foi desenvolver-se na região dos Grandes Lagos. Os que o falavam j á conheciam possivelm ente o cultivo de cereais, desde que deixaram os Cam arões e seguiram para leste pela borda setentrional da floresta. Nos Grandes Lagos, converteram -se à pecuária e passaram a fundir o ferro. Com m ilhetes, sorgo, bois e instrum entos de ferro, foram descendo a África. Por volta do ano 100 de nossa era, j á se haviam im posto em partes da Zâm bia e de Chaba habitadas por bantos ocidentais. E, com os m ilhetes e o sorgo, o ferro e o boi, foram ocupando as áreas onde não prosperavam o inham e e o dendê, até as praias do Atlântico.

A arqueologia parece confirm ar a tese do alastram ento do uso do ferro, na África Índica, a partir da região entre o lago Vitória e os lagos Ruero, Quivu e Tanganica. Em Kataruka, a uns cinquenta quilôm etros de Bukoba, no Buhay a

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(noroeste da Tanzânia), foram desencavados, de sob o túm ulo de um rei hinda,

tido com o herói civilizador, Rugom ora Mahe, restos do que seria um conj unto de oficinas m etalúrgicas, com fornos de tij olos, tubos de foles (tuy ères), escória de m inério de ferro e carvão, além de cacos de cerâm ica do tipo a que se deu o nom e de um local do sudoeste do Quênia, Urewe. Esta cerâm ica se caracteriza por apresentar na base dos vasos um a cova ou depressão, sem elhante à m arca forte de um polegar, pelo rebordo da abertura das peças quase sem pre chanfrado, e por se ornam entar com faixas de incisões paralelas a form arem círculos, zigue-zagues, triângulos, volutas e laçadas. Em três pontos da escavação, as datas obtidas por radiocarbono ficaram aproxim adam ente nos séculos I e II de nossa era. Dois outros pontos produziram , contudo, datas bem m ais antigas: por volta de 500 a.C. Posteriorm ente, com o para aquietar certas dúvidas, duas outras am ostras extraídas do m esm o sítio foram datadas do século VI a.C., e m ateriais

retirados de locais próxim os, do século III a.C. ao século VI de nossa era. 22 Ali perto, em Rutare, no nordeste de Ruanda, escavações em poços tidos com o sepulturas de dois reis tútsis revelaram vestígios de produção de ferro e cerâm ica do tipo Urewe. Num dos poços, o carvão associado à cerâm ica foi datado do

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século III a.C.

Esses achados fazem recuar o conhecim ento do ferro na região interlacustre a antiguidades com patíveis com o início da indústria em Méroe, em Nok e na Etiópia. De um a ou m ais de um a dessas áreas ou da África do Norte, pelos cam inhos do lago Chade ou do Ennedi, pode o fabrico do ferro ter vindo dar ao sudoeste do lago Vitória. Mas não se exclui a hipótese de invenção local. Nesse rum o poderiam apontar as datas obtidas em trabalhos arqueológicos efetuados

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em Miram a, Mubuga e Rwiy ange, no Burundi, e em Kabacusi, no Ruanda. Os

testes de radiocarbono dataram do século VI a.C. o carvão de um a fornalha em Miram a; e do século VII a.C., a escória de um forno em Kabacusi. Situaram , porém , m uito antes, no século X a.C. e no século XIII a.C., carvões encontrados em associação com cerâm ica de tipo sem elhante ao de Urewe, em Mubuga e

Rwiy ange. Essas duas últim as datas — ressalte-se25 — não estão associadas diretam ente à m etalurgia do ferro, m as a vasos de barro que geralm ente a acom panham e que a podem ter antecipado de m uito na região interlacustre.

Há um a im agem que persiste, clara: a de populações que conheciam o ferro, no sudoeste do lago Vitória, ao com eçar a nossa era. Cerâm ica do tipo por elas produzida, aliada a indícios ou evidências da fundição do ferro, será desenterrada no sudoeste do Quênia, no sul de Uganda, na província de Quivu (na República Dem ocrática do Congo). E vasos em estilos que parecem descender cronológica

e tipologicam ente do de Urewe, ou terem com este ancestral com um , 26 surgirão de escavações no sudeste do Quênia, no nordeste da Tanzânia, na Zâm bia, em Zim babué, no Maláui, em Moçam bique, no Transvaal e na Suazilândia. O alto

grau de hom ogeneidade fez com que David W. Phillipson 27 englobasse todos esses grupos de produtores de alim ento e forj adores de ferro da África Índica num só com plexo cultural, a que deu o nom e de Chifum baze, tirado de um abrigo de pedra em Moçam bique. As com unidades que a ele pertenciam , e que foram espalhando seus valores, falavam , ao que se presum e, tal com o os que hoj e habitam aquela parte da África, línguas bantas.

Por volta do século II de nossa era, os bantos, contornando pelo sul, talvez pela Tanzânia central, as m ontanhas do leste do Quênia e o Rift Valley, atingiram as serranias e os tabuleiros próxim os à costa. E ali passaram a produzir um tipo de cerâm ica — do qual os prim eiros exem plares foram descobertos em Kwale, trinta quilôm etros a sudoeste de Mom baça — da m esm a estirpe que a de Urewe, m as que desta se distingue por apresentar um a decoração em linhas retas e faixas de pequenas incisões verticais, sem as volutas, os laços e os círculos que enfeitam aquela. Os autores dos barros de Kwale não se afastavam m uito das águas. Viviam nas terras úm idas das franj as das florestas e dos sopés dos m orros.

Nos séculos III e IV, os bantos expandiram -se rapidam ente até o norte de Natal (República da África do Sul). A cerâm ica desencavada ao longo desse percurso pertence a variações do estilo de Kwale. Mas vai revelar, em Ly denburg, no leste do Transvaal, um aspecto inédito: um a série de cabeças hum anas de barro, algum as de tam anho natural, fortem ente estilizadas, de sobrancelhas e olhos m arcados, nariz forte, boca larga, a assentarem sobre grossos colares retorcidos, que envolvem o pescoço. Datam do século V.

Os grupos que desciam a costa de Moçam bique, ali, ou talvez ainda um pouco m ais ao norte, travaram conhecim ento com a bananeira, o coqueiro, o taro (Colocasia antiquorum ) e várias espécies de inham e de origem sul-asiática (Dioscorea alata, D. bulbifera e D. esculenta). Essas plantas foram provavelm ente introduzidas em Madagáscar e na costa da África Índica pela gente indonésia que prim eiro terá povoado aquela grande ilha.

Desde m uito, no sudeste da Ásia, vinha-se criando, entre arquipélagos e penínsulas, um a form a de civilização dependente das navegações m arítim as. Ali desenvolvera-se, nos últim os 3 m il anos a.C., a piroga com balancim ou flutuador paralelo, um contrapeso lateral, colocado a certa distância da canoa e a ela ligado por duas travessas. Deste m odo, assegurava-se ao barco equilíbrio e excelente flutuação, até em m ares encapelados.

Foi em canoas do gênero — com um ou dois balancins e vela quadrangular, sem elhantes às que até hoj e existem em Madagáscar, nas Com ores, nas costas da Tanzânia e de Moçam bique — ou, em em barcações m aiores, com dois cascos

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ligados por travessas, que chegaram os indonésios aos litorais m algaxes.

Existe um a grande corrente oceânica do sul da Indonésia para Madagáscar. Por ela e com a aj uda dos alísios, os barcos poderiam ser levados do sudeste da Ásia para o sudeste da África. No entanto, a viagem direta, sem escalas, através

de 6.400km de oceano, pareceu pouco provável a Hubert Descham ps, 29 que nos propôs um roteiro, favorecido pelas m onções, desde a Indonésia até o sul da Índia, e dali para Madagáscar, sej a pelas Maldivas, sej a descendo a costa oriental africana, após passagem por Socotorá.

A ilha Grande, ou ilha Verm elha, ou ainda ilha de São Lourenço — com o lhe cham avam os portugueses —, era então desabitada. Não se encontraram evidências de que ali vivessem , antes dos indonésios, outras gentes, fossem bosquím anos ou negrilhos. A ilha estava com o que apartada quase que inteiram ente da África. Sua própria fauna era original, com os grandes lêm ures, o epiórnis (extinto faz talvez uns oitocentos anos), as num erosíssim as espécies de tartaruga. Se lá havia o hipopótam o-anão, o crocodilo e o porco selvagem , faltavam o leão, o leopardo, o rinoceronte, a girafa, os antílopes, as gazelas, os m acacos e os outros anim ais que abundam na parte oriental da África.

As prim eiras viagens dos indonésios devem datar dos séculos iniciais de nossa era. Com o não se acharam , até agora, senão dois utensílios de pedra — e há

quem duvide que sej am de fabrico hum ano30 —, presum e-se que as m igrações se tenham dado depois que a Indonésia passou a conhecer o ferro e antes da

hinduização daquelas ilhas: entre um a data inicial, que Descham ps31 situa de 300

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a.C. a 200 d.C., e o ano 800. J.D. Fage propôs o período entre 300 e 800. Mas

não falta quem coloque o com eço dessas viagens bem m ais tarde: no século V33 ou m esm o na segunda m etade do prim eiro m ilênio.

É possível que os indonésios tenham fundado entrepostos e colônias nos litorais da África Índica, antes da ocupação de Madagáscar. E que se tenham , ainda no continente, m isturado à gente negra. Mas não é de excluir-se que, só depois de instalados na grande ilha, haj am com eçado a frequentar os litorais defronte, onde prearam escravos ou recrutaram colonos.

Esses contatos facilitaram a pronta apropriação, pelos habitantes do continente, da bananeira, do coqueiro, dos inham es asiáticos, do taro e de outros vegetais cuj as m udas, estacas, sem entes e raízes haviam sido trazidas nos barcos indonésios.

Os bantos levaram as novidades pelos vales fluviais do Rufij i, do Lúrio, do Zam beze — de clim a e solos a elas tão propícios — até o interior da África. Ao chegar ao lago Maláui, essas plantas podem ter subido m apa acim a, pela Grande Falha Ocidental, com seus grandes lagos alongados, e dali, para o ocidente, pelas franj as setentrionais e m eridionais da floresta congolesa e pelo interior desta, enquanto, no Índico, o coqueiro e a bananeira ocupavam rapidam ente o cinturão litorâneo.

Para a banana j á se propôs outro itinerário: teria vindo do sudeste da Ásia ou

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da Índia, pelo Oriente Médio e o alto Nilo. Quer tenha seguido esse roteiro,

quer tenha sido trazida pelos indonésios, quer tenham suas distintas variedades entrado na África por diferentes pontos e em diferentes épocas, a banana

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revolucionou a agricultura nas áreas úm idas. Jan Vansina chega a sugerir que

seu im pacto teria sido m aior do que o do ferro. De fácil cultivo, a bananeira requer pouco trabalho e dá frutos, em regiões de chuvas bem distribuídas, durante todo o ano. Desenvolvendo-se extraordinariam ente bem na floresta, tornou ali a vida m ais fácil. Os que a conheciam entraram m ata adentro, afastando-se da beira-rio e do lim po dos esobes.

Transm itida a outros povos, ou por propagação espontânea, a banana, o taro e os inham es sul-asiáticos chegaram até o Senegal e im puseram -se ao longo do Atlântico. Tam bém o coqueiro se foi, de praia em praia, incorporando à paisagem africana, com o se dela fizesse parte desde sem pre. Em um século ou dois, essas plantas tornaram -se corriqueiras. Com o sucederia m ais tarde com a m andioca e o m ilho, levados do Brasil.

Em algum m om ento, os que viviam na floresta congolesa ou lhe contornavam as m argens m eridionais receberam o ferro. A arqueologia pouco nos diz sobre quando e com o, pois m al engatinha na parte ocidental do m undo banto. Presum e-se, porém , que se trabalhava o ferro em Obobogo (nos Cam arões), por volta do

século IV a.C.,36 e propõem -se datas entre os séculos VII e I a.C. — e com m ais

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segurança entre os séculos III e II a.C. — para achados no Gabão. Em

Tchissanga, no Congo, encontraram -se fragm entos de ferro em depósitos do século IV a.C., m as ignora-se se foram fundidos localm ente ou trazidos de

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longe. Em pontos próxim os, contudo, com o Madingo-Kay es, Tandou-Youm bi e

Meningue, j á se conhecia o ferro entre a m etade do século II a.C. e o século III

de nossa era.39

Em Sazuki, no baixo Zaire, o ferro teria sido introduzido entre o prim eiro e o

terceiro século d.C.,40 enquanto que na ponta de Gom be, próxim o a Kinshasa, se encontraram fragm entos de ferro e pedaços de um a cerâm ica de todo distinta da de Urewe, que indicariam ser a m etalurgia ali conhecida no século IV d.C. Esta data poderia recuar para o século III a.C., época atribuída a um a concentração de carvão ali existente. Tam bém do século III a.C. seriam os restos, com características do início da Idade do Ferro, encontrados na estrada que leva a

Nsele, pouco m ais a nordeste.41 Ainda na região de Kinshasa, j unto às nascentes do Funa, foram tam bém tidos com o do século III a.C. pedaços de vasos de barro,

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que poderiam ou não estar associados ao conhecim ento do m etal.

No Chaba e no centro da Zâm bia, as prim eiras evidências do uso do ferro são do século IV. Por essa época, tam bém o cobre era fundido na região, o que confirm am os achados feitos próxim o às fontes do rio Naviundu, nas cercanias

de Lubum bashi. 43 É de im aginar-se que o conhecim ento da m etalurgia sej a ali m ais antigo do que o revelado até agora pelos trabalhos arqueológicos. E que tenha por origem a região interlacustre, pois a cerâm ica do alto Lualaba e da Zâm bia Central trai forte influência dos barros de Urewe, em bora guarde traços possivelm ente herdados dos bantos ocidentais.

A cultura de Chifum baze pouco parece ter avançado ao norte dos Grandes Lagos. Possivelm ente porque não o perm itiram povos de idiom as cuxitas, nilóticos ou sudaneses centrais. Dos últim os, m uitos talvez m orassem às m argens do lago Vitória, onde se assim ilaram aos bantos. A eles atribuiu-se a cerâm ica de

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Kansy ore — que outros fazem sair de m ãos cuxitas —, um a cerâm ica anterior à de Urewe e de paredes profusam ente decoradas por pequenas cunhas.

Há quem ponha o seu início no terceiro m ilênio a.C., ou até antes,46 e a associe, em estratos m ais recentes, a vestígios de gado m iúdo e de bovinos. Propôs-se tam bém que dos sudaneses centrais os bantos tivessem recebido as técnicas da

criação de gado e o vocabulário a elas pertinente.47

Quanto aos nilóticos, habitavam , desde m uito antes do princípio de nossa era, a região situada entre o Bahr-el-Jebel (ou Nilo da Montanha) e o altiplano etíope. Talvez j á conhecessem o ferro quando com eçaram a dividir-se, a em igrar e a diferenciar-se em três grupos linguísticos: os nilóticos orientais ou das planícies, os nilóticos sulistas ou do altiplano e os nilóticos ocidentais ou dos rios e dos lagos. Para os últim os, que desceram o Bahr-el-Jebel e se instalaram no Sudd, e os seus descendentes (entre os quais se incluem os nuers, os dincas e os luos) guardaram alguns autores a designação de nilóticos, cham ando os dem ais de nilo-ham itas ou paranilóticos, por considerarem que contêm os seus idiom as forte com ponente cuxita.

Antes de se dividirem , j á deviam esses povos ter desenvolvido alguns dos traços culturais que distinguem seus descendentes até hoj e. Já extrairiam , por exem plo, os dentes incisivos inferiores dos adolescentes, com o parte do rito de iniciação à idade adulta. E talvez j á vivessem dentro de um sistem a pastoril que pronto desem bocaria num verdadeiro culto do gado, cada zagal a m anter com sua rês predileta um a relação quase que de fraternidade. Conheciam provavelm ente a estabulagem . E ordenhavam e sangravam as reses, fazendo da m istura do sangue com o leite o principal de seus alim entos. Não se exclui, porém , que tenham aprendido a m ungir as vacas e a sangrar os bois com os povos de idiom as cuxitas, que isto faziam desde há m uito, se é que eram cuxitas

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os pastores descritos por Agatarquides de Cnido, no segundo século antes de

Cristo.

Menciona Agatarquides que tal gente praticava a circuncisão e inum ava os m ortos nos outeiros, sob m ontes de pedra. Tal com o era costum e entre os cuxitas. E cuxitas presum e-se serem os grupos que, desde cedo, provavelm ente desde o fim do segundo m ilênio a.C., vindos da Etiópia e da Som ália, com eçaram a ocupar o norte do Quênia.

Com o ressecam ento do Saara, onde dantes havia grandes lagos e m atas, e onde florescera um com plexo cultural ligado às águas e à pesca, abriram -se am plas pastagens, então verdes e úm idas. Do sul do Sudão e do sudoeste da Etiópia até o norte da Tanzânia, a paisagem foi-se m udando em savana de planalto, com o Rift Valley a separar as terras altas que se alongam , a leste do lago Vitória, no sentido dos m eridianos. Por essas pastagens desceu o gado. E os que dele cuidavam e viviam .

Pouco a pouco, os pastores substituíram , isolaram ou absorveram as com unidades que os haviam precedido na área. Com seus arpões de osso e suas facas e pontas de lança de obsidiana, a gente da cultura aquática foi-se retraindo cada vez m ais nas m argens de lagos que dim inuíam de tam anho e nos quais com eçavam a escassear os peixes, o hipopótam o, as tartarugas e os outros anim ais aquáticos. Do choque entre um a cultura em decadência e os m odos de vida dos que paulatinam ente a substituíam , talvez provenha a proibição de com er peixe que im pera entre os cuxitas: seria um a form a de estabelecer um a drástica

diferença e de qualificar o outro com o im puro.49

Isto não im pediu, porém , a adoção e a adaptação pelos cuxitas de costum es, práticas e técnicas dos pescadores. Com efeito, a indústria lítica daqueles parece derivar do Eburriense, com o intenso uso da obsidiana. E, com o seus antecessores da cham ada civilização aquática, faziam os cuxitas pratos e tigelas de pedra. Conheciam a cestaria e a cerâm ica. Usavam m ós planas e alm ofarizes para triturar o ocre com que pintavam os m ortos e para esm agar os grãos selvagens que colhiam ou os cereais que talvez, desde o início, cultivassem . A área era propícia aos m ilhetes e ao sorgo.

Com os restos de seus m ortos, encontraram -se, além de um vaso e de um alm ofariz para cada defunto, colares de contas de rochas duras, de osso, de ovo de avestruz, de conchas e de sem entes, cabaças para leite, cordas e facas, pontas

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de lança e m achados — ou seriam tam bém enxadas? — de pedra polida.

Esses grupos que faziam pratos e vasos de pedra não ultrapassaram , ao que parece, as terras altas que m argeiam o Rift Valley, nem foram , para o sul, além dos lagos Many ara e Ey asi. Os bantos, por sua vez, não se aventuraram vale adentro, porque pouco úm ido para as plantas que cultivavam , e m esm o árido em m uitas partes, e porque os pastores que nele nom adizavam defendiam aguerridam ente suas pastagens. Talvez se situem , porém , na orla ocidental do Rift Valley alguns dos sítios nos quais os bantos adotaram o sorgo, os m ilhetes e o gado com o base de um novo estilo de vida.

É possível que alguns grupos, na cam inhada ao longo da fím bria setentrional da floresta, tenham trazido com eles os cereais, as cabras e os bois. Podem tam bém os bantos ter recebido dos povos da cultura dos vasos de pedra o saber cuidar dos rebanhos e o cultivo do sorgo e de outros m ilhos m iúdos. E podem só se ter verdadeiram ente convertido ao pastoreio no últim o terço do prim eiro m ilênio de

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nossa era, por contágio com os nilóticos. Estes conheciam o ferro e, vindos do

norte, não só substituíram os cuxitas no Rift Valley, m as transbordaram do território por eles ocupado.

Graças ao sorgo, ao m ilhete, às cabras, aos carneiros e aos bois, os bantos puderam com eçar a afastar-se dos rios, dos córregos, dos lagos, das lagunas, dos banhados, das m atas ciliares e dos cam pos cobertos, ganhar as savanas de curta estação chuvosa, espalhar-se pelos planaltos da Zâm bia, de Zim babué, do Maláui, do Congo, de Moçam bique, de Angola e do leste da África do Sul. Muitos deles m udaram de m odo de vida: passaram a depender m ais da caça e do gado do que da pesca, e a sem ear em vez de plantar. Outros — provavelm ente a m aioria até quase o findar do prim eiro m ilênio — continuaram fiéis aos bananais, aos inham es, a um a agricultura de horta, em solos escolhidos e úm idos. Possuíam cabras, carneiros e cães, m as não bois, ou os tinham em núm ero m uito reduzido. A pesca continuou a ser, para eles, atividade im portantíssim a. E assim tam bém a caça, cuj a eficiência fora aum entada pelas arm as de ferro.

Próxim o à extrem idade m eridional do lago Tanganica, na Zâm bia, as águas do rio Calam bo despencam -se, num só salto, de 220m de altura. Antes de caírem , elas form am um pequeno lago, j unto a cuj as m argens j á se encontrara im portante concentração de restos do Acheulense. Ali, Desm ond Clark pôs à m ostra vestígios de cabanas de taipa, pertencentes a várias aldeias que se sucederam , naquele m esm o espaço, desde o século IV até pelo m enos o século XI. Seus prim eiros habitantes conheciam o ferro e possivelm ente os cereais, a j ulgar pelos alm ofarizes que lá se acharam . Não possuíam bois. Moldavam tigelas e potes de barro, nos quais se tem visto um a variante da tradição de Urewe. Com rebordos chanfrados, apresentam fortes sulcos paralelos, com o se fossem anéis, a envolverem o pescoço dos potes, ou um a decoração em falso relevo, obtida pela im pressão de m arcas no barro m ole, em form a, m uitas vezes, de asna heráldica. Algum as vasilhas, sobretudo as rasas, podem estar nuas de decoração. Foram tam bém achados dois restos de vasos com cova ou depressão na base. E alguns obj etos de cobre, poucos, apesar da proxim idade das j azidas de Chaba.

Esses são m uito m ais num erosos, a insinuarem um a produção para escam bo com povos vizinhos, em Sanga, na m argem norte do lago Kisale, no alto Lualaba.

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Descobriu-se ali um enorm e cem itério, com m uitos m ilhares de sepulturas, nas quais se identificaram , de início, três tipos de cerâm ica, que se teriam

substituído no tem po ou seriam parcialm ente contem porâneos: 53 a quisaliana, a de Mulongo e a de engobo verm elho. Mais tarde, à luz das investigações de Pierre de Maret, propôs-se um a nova classificação e um a cronologia m enos

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im precisa.

Ao tipo de cerâm ica m ais antigo, surgido por volta do século V de nossa era, deu-se o nom e de Cam ilam biano (de Kam ilam ba, um sítio um pouco ao norte de Sanga). Esse estilo de m oldar o barro teria sido substituído pelo Quisaliano, cerca de trezentos anos depois. Os barros de Mulongo e de engobo verm elho corresponderiam às fases A e B de um a outra cultura, a Cabam biana. Esta, ao que tudo indica, se teria im posto no início do século XIV.

A cerâm ica quisaliana apresenta potes de form a globular, que se estreitam de m odo acentuado no pescoço, para depois se alargarem em am pla boca, cuj a abertura se aproxim a da circunferência do boj o. Quando este com eça a se contrair, naquilo que se cham a o om bro do vaso, m ostra um a ornam entação sim ples: frequentem ente, um a série de m eias-luas ligadas um as às outras e com a parte côncava voltada para a base. Vários potes possuem asas. E há tigelas com bico e um cabo triangular.

Os recipientes desenterrados dos cem itérios não apresentam indí-cios de uso e eram possivelm ente feitos para conter a com ida e a bebida dos m ortos, que desciam à tum ba com j oias de ferro, cobre e m arfim . Entre estes ornam entos, destacam -se pequenos sinos de ferro e colares de fios de cobre, entretecidos ou enrolados com grande m estria e a se fecharem com gancho e argola. A um desses colares de cobre ligavam -se possivelm ente dentes hum anos perfurados. Um a m andíbula com pleta estava presa a um a corrente de cobre e ferro, por

anéis de m etal.55 Nas sepulturas encontraram -se facas, pontas de lanças, pontas de flechas, m achados e croisettes, ou pequenas peças de cobre em form a de um H, com pernas e braços m ais abertos. Num a das inum ações, havia um a bigorna e um belo m achado cerim onial, cuj o cabo devia ser adornado por grandes pregos de ferro.

Essa gente que trabalhava os m etais com um a perícia que só dão o tem po e a continuidade do esforço recebia o cobre das terras do sul. De m inas com o as de Tenke, a 320km a sudeste de Sanga, ou as de Kipushi e as de Kansanshi, próxim as às nascentes do Lualaba e exploradas desde possivelm ente o século IV. Ali, na encosta da m ontanha, escavavam -se túneis de seis a nove m etros de profundidade, escorados por estacas. O m inério m ais rico era fundido em pequenas fornalhas a carvão e m oldado em lingotes de diferentes tam anhos. Talvez os hom ens do sul trouxessem a Sanga o m inério, para trocá-lo por peixe seco, cereais, sal e cervej a de sorgo. Talvez os próprios habitantes de Sanga

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fossem até as m inas, na estação vazia de trabalhos agrícolas, buscar o cobre.

Sanga, com o as aldeias de Calam bo, estava à beira d’água. Num a paisagem de m atas leves e savanas. De solos úm idos. Os que ali viviam , e em outros vilarej os das redondezas onde se acharam cerâm icas sem elhantes, dedicavam -se prim ordialm ente à pesca — nas escavações notou-se grande abundância de espinhas de peixe — e tam bém à caça, à agricultura, à criação de gado m iúdo e à produção de sal.

O com ércio do sal teria sido, desde o início, um a das principais atividades dos habitantes de Uvinza, j unto ao rio Malagarasi. Desde os séculos V ou VI, as fontes salgadas ali existentes foram obj eto de exploração por com unidades que m oldavam um a cerâm ica dentro da linha estilística de Urewe e sem elhante à de Calam bo.

Em vários outros lugares, certas condições favoráveis, com o a presença de j azidas de ferro ou cobre fáceis de explorar, estim ularam o desenvolvim ento de um a produção cuj o consum o ia dar-se fora do grupo. Muitas coletividades habitavam territórios onde não havia m inério nem sal. Outras negligenciavam a m etalurgia e adquiriam os utensílios de ferro aos que sabiam m elhor fazê-los.

Há notícias de alguns agrupam entos em que a m ineração e a m etalurgia parecem ter sido o fulcro da vida econôm ica. Na Suazilândia, por exem plo, os m ineiros abriram , entre os séculos IV e V, um a verdadeira caverna artificial. Ali, em Castle Cavern, acharam -se pedaços de ferro fundido e num erosos instrum entos utilizados na extração de hem atita, a indicar a im portância que este labor teria entre os que, sendo tam bém agricultores, o praticavam . Mas o ferro j á era produzido ao sul do Lim popo desde pelo m enos uns cem anos antes: em

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Silverleaves, próxim o a Tzaneen, no Transvaal.

Nada disso desfaz o quadro de um a indústria de ferro ainda pouco desenvolvida, pequena e rara. As com unidades de produtores de alim entos conheciam o m etal, m as era reduzido o núm ero de obj etos do tam anho das pás de enxadas ou das cabeças dos m achados. Menos escassas eram as peças m enores: anzóis, pontas de flechas e navalhas.

A econom ia no uso do ferro contrasta com a rapidez de sua difusão em boa parte da África. Alguém disse, por ênfase, que os bantos, dele portadores, am pliavam seus territórios a dez quilôm etros por ano. Não com o os guerreiros invasores de H.H. Johnston, cuj a tese sofreu talvez a influência dos feitos m ilitares e das conquistas dos zulus de Chaca e dos m atabeles de Mizilicazi, em pleno século XIX. A expansão dos bantos não foi feita por exércitos, em bora tivesse de valer-se aqui e ali do uso da força, m as por colonos que ocupavam territórios que lhes pareciam vazios, tão rarefeita era a população. Por esses am plos espaços erravam pequenos grupos de caçadores e coletores — coissãs, predom inantem ente, nas savanas, e pigm eus, na m aior parte das florestas.

Eis que chega um grupo banto. Algum as fam ílias. Ou toda um a linhagem . Lim pa o terreno. Corta árvores para fazer as casas. Arm a-lhes as paredes com o um a gaiola de varas e preenche os vazios com barro socado. Com põe-lhes o teto de sapé. E, nessa nova aldeota, instala-se. Abre, ali perto, por derruba e queim ada, as suas roças. Faz os cercados para os anim ais dom ésticos: ovelhas, cabras, algum a vez a vaca. Vai pescar no rio, no riacho, no lago, na lagoa. Com anzóis e arpões de ferro. Com arm adilhas, redes e puçás. Volta m uitas vezes da caça com grandes anim ais — antílopes, búfalos, porcos selvagens — que m ata, graças à lança e à flecha de ponta de ferro, com m enor dificuldade do que os vizinhos nôm ades, que m al pressente.

Estes vigiam os recém -chegados de longe. Podem , desde logo, dem onstrar aberta hostilidade contra os que invadiram o seu espaço. Dá-se a guerra, na qual geralm ente os bantos im põem a qualidade de suas arm as sobre a dos rivais. Mas a atitude dos nativos pode ser outra: o abandono do território, a recusa a qualquer contato com o estrangeiro. Ou ainda um a outra: aproxim am -se, atraídos pela diferença. Sem se m ostrarem , colocam , em terreno neutro, os seus presentes: m el, ovos de avestruz, algum a caça. Recebem outros, de volta. Depois, deixam -se ver. Estabelecem -se os prim eiros e desconfiados contatos pessoais. Em alguns lugares, por m uito tem po não passarão de encontros esporádicos. Noutros, porém , se am iúdam . Torna-se rotineira a troca de bens da floresta e da savana pelos produtos da forj a, da roça e do curral. Form am -se alianças, m uitas vezes através de casam entos. Estabelece-se um a pactada ou obrigatória cooperação entre os que possuem o ferro e os que, não sabendo com o fundi-lo, dele passaram a ter necessidade. Estrutura-se um sistem a de clientela, qual o existente, em nossos dias, entre os pigm eus de Ituri e os agricultores dos arredores.

As duas com unidades podem perm anecer separadas e culturalm ente distintas por algum tem po. Vão-se apertando, entretanto, os vínculos de senhorio ou de outras form as m enos precisas de suj eição. O m odo de vida dos produtores de alim entos — cuj o núm ero aum enta m uito m ais rapidam ente que o dos vizinhos que apenas caçam e recolhem e que se veem obrigados a m anter estável e reduzido o tam anho do grupo, pela contracepção, pelo aborto ou pelo infanticídio — im põe-se na área com partilhada. Contagia-se, porém , de costum es, técnicas e palavras dos locais. Destes, em um ou outro caso, pode até sair, com o senhor da terra, o futuro chefe da nova estrutura social que se vai form ando com autóctones e adventícios. Frequentem ente, os dois grupos hum anos m isturam -se e confundem -se. Surgem tipos m estiços, com o tantos ao sul da grande curva do rio Zaire, nos quais o predom ínio das características negras não oculta os traços pigm eus. Mesm o quando a assim ilação dos grupos nôm ades se faz com pleta, algum a coisa deles resta na cultura dos sedentários. Assim , ficaram fortes sinais das línguas coissãs nos idiom as dos angúnis e dos sotos.

Quando o solo com eça a m ostrar-se m enos fértil ou a caça se torna m ais difícil nas redondezas, o grupo segue adiante. E, quando o núm ero dos que o form am aum enta dem asiadam ente ou dentro dele surge a cizânia, segue adiante dividido. Ao m udar de paisagem e ao entrar em contato com culturas diferentes daquelas com que seus pais, avós ou bisavós haviam cruzado, altera a alim entação, m odifica hábitos, enriquece o vocabulário e a sintaxe, troca a form a de alguns de seus obj etos e assim ila novos sím bolos de fé e poder. Não se estabelece, porém , em qualquer parte: deixa as zonas de terras m agras ou de poucas chuvas aos coletores, aos que perm aneceram fiéis aos m icrólitos e à pedra polida, aos que fugiram ao contato, ao convívio e à assim ilação — o que explicaria por que continuaram intocadas pelas culturas bantas ou abantuzadas, e por m uito tem po, as vastas savanas e as extensas estepes ressequidas do sul e do sudoeste da África.