A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 16 de 35 · parte 1/2

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A Enxada e a Lança

12. Os litorais do Índico

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

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Os litorais do Índico

 

Quando, nos prim eiros séculos de nossa era, os bantos com eçaram a se espalhar pelas praias do Índico, ali j á existiam , sobretudo nas ilhas contíguas à terra firm e, pequenos entrepostos com erciais, onde vinham ter navios de nações distantes — rom anos, árabes, persas. Vinham esses barcos buscar incenso, m arfim , carapaças de tartarugas, chifres de rinoceronte, peles de pantera. E traziam , para a troca, lanças, adagas e m achados de ferro, tecidos de algodão, vidros, vasos de cerâm ica e “o m el extraído de um a cana”, o açúcar, que j á figurava nas listas de m ercadorias do Périplo do m ar Eritreu.

Foi por esse guia de viagem que nos chegou da Antiguidade a sequência dos em pórios e portos africanos ao sul do cabo Guardafui, frequentados por em barcações provenientes do Egito, da Arábia do Sul e do golfo Pérsico.

Os barcos iam e voltavam de acordo com as m onções: de dezem bro a fins de fevereiro, no inverno, elas sopram da direção norte-nordeste; e de abril a setem bro, deslocam -se no rum o inverso, partindo do sul-sudoeste. Mais para baixo, as viagens entre o Extrem o Oriente e a África eram aj udadas pela corrente sul-equatorial, que percorre um a grande elipse no centro do Índico.

Logo após o cabo Guardafui, descendo a costa, as naves encontravam Arom ata, possivelm ente onde hoj e é Olok. Nesse local, paga um a taxa aos nativos, tinham segurança e facilidades para o exercício do com ércio. Ali abasteciam -se de incenso, m irra e especiarias. Eram estes os produtos que se adquiriam nos litorais nus e difíceis da Som ália, pobres, ao norte, de baías e ancoradouros. Para o interior, estendem -se terras áridas, de vegetação de tal m odo rala, que m al sustentam os rebanhos das reduzidas tribos nôm ades.

Mais abaixo, ficavam Tabae e Pano, e depois, Opone (a atual Ras Hafun) — outro em pório, onde eram abundantes as carapaças de tartaruga e onde se

em barcavam escravos da m elhor qualidade, m uito apreciados no Egito.1

Vinham em seguida Serapion — identificada geralm ente, e desde há m uito,

com Mogadixo, 2 3 em bora haj a quem a coloque em Warsheikh ou em lugar

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im preciso, alguns quilôm etros ao norte de Merca — e Nicon — talvez Brava,

talvez Port Dunford,6 7 quem sabe se Gondercia ou Merca.

Em Mogadixo, j á se está na cham ada costa de Banadir, ou das baías, não porque estas sej am num erosas ou excelentes, m as por contraste com o litoral m ais ao norte e por lá se abrirem os prim eiros portos toleráveis. Para o interior, atenuada j unto aos cursos dos rios Webe Shebele e Juba, a m esm a aridez, que se abranda à m edida que se m archa para o sul.

Chega-se, então, à altura da atual fronteira entre a Som ália e o Quênia, a um outro tipo de costa, cortada por vales alagados (antigos estuários subm ersos pelo m ar) e coberta de m anguezais, interrom pidos por praias de areia branca, praias m uito íngrem es, que se tornam quase planas na m arinha d’água, perm itindo, por isso, que os barcos chatos ou de pequeno calado, que nelas ancoram , sej am , quando a m aré baixa, descarregados no seco. Paralelos à costa, sucedem -se os cordões de arrecifes e os arquipélagos de coral. Nas ilhas, cavam -se alguns dos m ais abrigados portos da região.

No continente, vencidos os m anguezais e as praias, há um a estreita planície arenosa, fértil para algum as culturas, com o o coco, o arroz e, atualm ente, a m andioca. Existe ali bom suprim ento de água. Esta vai escasseando para o interior, enquanto a terra sobe lentam ente e se reveste de um duro cerrado (o ny ika), que, aliado à presença da tsé-tsé, desestim ulou, desde cedo, os habitantes de um litoral am eno à conquista do sertão.

Nessa parte da costa, o Périplo m enciona as ilhas Piralae (talvez Lam u) e Menouthias — geralm ente tida por Zanzibar ou Pem ba, em bora haj a quem a

assim ile a Mafia8 e quem a considere com o representando todas as ilhas do

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grupo de Zanzibar, fundidas, na lem brança do m areante, num a só.

A dois dias de viagem à vela de Menouthias, situava-se Rapta, o m ais m eridional, e quiçá o m ais im portante, de todos os em pórios da Azânia (nom e que tanto o Périplo quanto Ptolom eu dão à costa índica da África; João de

Barros 10 lhe cham a Zanguebar). Rapta devia localizar-se, portanto, naquele lim ite até onde o regim e das m onções perm itia que os veleiros fizessem a

viagem num só ano. No delta do Rufij i, m uito provavelm ente. 11 Pois, para o sul, o núm ero de dias durante os quais os ventos de nordeste sopram com força, no fim da m onção, é insuficiente para que se possa prosseguir litoral abaixo antes que com ecem os de sudoeste; e se os barcos fossem m uito para o sul,

possivelm ente não alcançariam a Arábia antes que cessasse a m onção estival.12

Há quem prefira, porém , pôr Rapta m ais ao norte, sobre o rio Pangani, 13 ou

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levante a hipótese de que pudesse estar tanto no Rufij i quanto em Kisij u.

Onde quer que se assentasse, Rapta era um porto com m ovim ento, grande fornecedor de m arfim e tam bém de óleo de coco, de carapaça de tartaruga e de chifre de rinoceronte. Já devia exportar vigas de m adeira, para serem utilizadas na construção de casas, nos países despidos de árvores do golfo Pérsico e da

Arábia do Sul. 15

Os litorais do Índico e Madagáscar

 

Os m oradores de Rapta e de seus arredores são descritos no Périplo16 com o gente m uito alta. Talvez fossem cuxitas e desconhecessem o fabrico do ferro ou o fundissem em quantidade insuficiente. Pelo m enos é isso o que sugere o fato de ser constituído por artigos desse m etal, sobretudo pontas de lança, o grosso das m ercadorias que ali se im portavam .

Os entrepostos da Azânia estavam vinculados ao Iêm en. Por um direito que o autor do Périplo considerava antigo. O com ércio na costa dependia, então, do chefe dos m afaritas e, portanto, do rei do Him iar, no sudoeste da Arábia. E do porto de Muza (onde depois seria Moca) velej ariam os navios, em dem anda dos litorais da África.

Tanto as tripulações quanto os com erciantes neles em barcados eram geralm ente pessoas fam iliarizadas com a Azânia, conhecedoras das línguas que ali se falavam , e tinham m uitas vezes nos entrepostos relações de fam ília. Nas esperas pelas m onções de retorno e nos vários m eses que, com frequência, dem orava reunir a m ercadoria desej ada — nem sem pre havia bens em depósito para atender à dem anda dos barcos —, m arinheiros e m ercadores tom avam m ulheres locais. Além disso, desde cedo, alguns negociantes devem ter reconhecido a vantagem de se fixarem nos m elhores pontos da costa ou de, naqueles lugares, m anterem agentes, para que as transações fossem realizadas ao longo de todo o ano e não apenas depois de aportarem os navios.

Estes andavam de ancoradouro em ancoradouro, até se esgotarem as m ercadorias. Visitavam tanto os entrepostos, com o Opone e Rapta, quanto os abrigos m enores. E fundeados em baía segura, m andavam pequenas em barcações correr as praias vizinhas, para tentar o escam bo com os nativos.

Tinha tal com ércio escassa participação no conj unto das transações que se faziam desde o extrem o oriental da Ásia até o extrem o ocidental da Europa. Cresceu, por isso, lentam ente; m as cresceu.

Trezentos ou quatrocentos anos depois do Périplo, Nicon transform ara-se num em pório, e Rapta, num a cidade. Na Som ália, havia m ais um entreposto

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im portante, Essina. Isso lem os na Geografia de Ptolom eu, no texto que dela

nos chegou e que foi provavelm ente revisto e atualizado em Alexandria, no século V. E não se deve decerto a coincidência, m as, sim , a notícias precisas que chegavam ao Im pério Rom ano, o fato de se registrarem na Geografia que, para o oeste de Rapta, ficava um a grande m ontanha nevada (seria o Kilim anj aro) e que, m uito m ais para o interior, o Nilo tinha as nascentes em grandes lagos, no

alto dos m ontes da Lua. 18

Rom a herdara o controle do com ércio do m ar Verm elho. Ali estabelecera um a rede de alianças com os estados árabes costeiros e vinculara os seus interesses aos de Axum . Com este últim o reino, os bizantinos, sucessores dos rom anos, tentaram fazer face à expansão m arítim a dos sassânidas. Mas não lograram evitar que os persas dom inassem as rotas do Índico ocidental e os seus portos. No fim do século VI, os iranianos apoderavam -se da Arábia do Sul e assum iam o controle de Bab-el-Mandeb.

Os axum itas haviam sido senhores do Him iar. Haviam controlado Muza e os outros portos pelos quais se fazia o com ércio com a Azânia. E por interm édio dos árabes e com seus próprios barcos, talvez tenham participado no tráfico com os em pórios da África Oriental.

Com o Índico ocidental à m ercê dos iranianos, o m ar Verm elho perdeu im portância, cessaram praticam ente as trocas diretas entre o Mediterrâneo e a Azânia, e o controle dos entrepostos na África Oriental passou dos portos de Iêm en para os do golfo Pérsico. Om ã e Sirafe substituíram Muza e Adúlis.

A estrutura do com ércio não se alterou. Os sassânidas im portavam da África Índica um bom núm ero de escravos, para lhes servirem com o soldados e com o trabalhadores braçais. Esses escravos se distribuiriam sobretudo pelo golfo Pérsico, m as devem tam bém ter chegado à Índia e à Indonésia. Em 614, em baixadores de Java presentearam o im perador da China com dois escravos

seng chi — zenj ou zanj es, com o lhes cham avam os árabes. 19

Não há indicação precisa de que esses zanj es fossem bantos. Mas a probabilidade é a de que os bantos, por essa época, j á tivessem substituído ou assim ilado a m aior parte dos grupos de coletores coissãs ou de pastores cuxitas que possivelm ente os precederam nas terras que m argeiam o oceano.

Seriam , assim , bantos m uitos dos hom ens que os sassânidas — e depois destes, os om íadas e os abássidas — levaram em cativeiro para o golfo Pérsico. E bantos, os escravos que, nos séculos VII, VIII e IX, se levantaram contra seus senhores, nas plantações da Baixa Mesopotâm ia.

a

Tradições da África Índica referem -se a um reino de Xunguaia, que ficaria sobre o rio Juba, ou em Port Dunford (Bur Gay o), ou frente a Lam u. Dali, os bantos ter-se-iam dispersado para o litoral sul e para o interior, dando origem a vários portos m ercantis e aos pocom os, niicas, teitas, pares, chagas e quicuios. A partir dessas tradições, cogitou-se que Xunguaia tivesse sido o centro de um im pério, no qual se geraram a cultura dos suaílis (ou “m oradores da costa”) e o

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seu idiom a.

Esse im pério, com início no século VI, estender-se-ia, pelo litoral, do rio Juba a Tanga e, para o interior, até o Rift Valley. Sua população seria form ada por caçadores, pescadores e agricultores bantos e por pastores cuxitas. Antes m esm o de sua islam ização, m as sobretudo depois dela, a gente de Xunguaia teria descido a costa, criando novos entrepostos e suailizando sua gente.

Há quem dê outra origem para os suaílis. Eles seriam bantos — pois banta, em bora com fortes contribuições do árabe e de outros idiom as, é a língua quissuaíli —, e bantos agricultores, ligados aos que trabalhavam o ferro nos Grandes Lagos e nas m ontanhas de Kwale. Estabeleceram -se eles no litoral por volta do ano 500 e, gente das m argens de rio, acostum ada à pesca e às canoas,

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pronto se am bientaram ao m eio e se expandiram pela costa.

O que parece provável é que, ao longo dos séculos, as com unidades locais tenham desenvolvido, a partir da autossuficiência de alim entos, estruturas de poder próprias. Seus barcos percorriam a costa, a praticar escam bos, tanto para satisfazer à dem anda local quanto à de com erciantes estrangeiros. Estes dependiam da gente da terra para em barcar as m ercadorias que procuravam , m as devem , com seus navios, ter servido de acicate para expandir a rede m ercantil que os suaílis ou seus antepassados criaram no litoral e a cam inho do sertão.

Vinham de distintos pontos do Índico os navegadores estrangeiros — árabes, persas, guzerates, m alabares e cholas. E indonésios, nas suas pirogas com contrapeso lateral. Foram esses últim os provavelm ente os prim eiros povoadores de Madagáscar. E é possível que tenham criado colônias no continente. Sendo, porém , pouco num erosos, os que ficaram no litoral africano foram absorvidos pelos bantos.

Tal terá sido talvez o destino de algum as das m ais antigas pequenas

com unidades árabes e persas. Dos baj uns b — pescadores que se estendem de Kisim ay o, na Som ália, a Pate, no Quênia, e que, desprezados pelos som alis e

suaílis, c se dedicam às tarefas consideradas m ais duras e baixas, com o cortar m angues, secar peixes e lim par conchas — há quem diga que descendem dos

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lendários em oizaídes. Dos habitantes da ilha de Tum batu, afirm a a tradição

que provêm de um príncipe do Xiraz e de seus com panheiros.23 Os dois exem plos não parecem ter outro apoio além da fantasia, m as desenham um a realidade: a diluição de pequenos grupos de estrangeiros, cuj os descendentes adquirem a cultura do povo entre o qual se fixaram e dele tom am , pelo ininterrupto cruzam ento, o tipo étnico.

Se, antes da pregação de Maom é, alguns grupos de árabes e persas se instalaram em feitorias na África Índica, dificilm ente conseguiram conservar sua cultura, pois acabaram por adaptar-se às condições e hábitos da terra, ao tom ar africanas por esposas e concubinas e ao aprender com elas a língua local. Os que m ais resistiram à assim ilação podem ter sido os m em bros daquelas pequeninas com unidades que perm aneceram com o quistos, ligadas pelo com ércio às cidades de origem , de onde talvez viessem , regularm ente, novos im igrantes, que reavivavam os valores e a saudade do país natal.

O advento do islão, com sua vitória sobre os sassânidas, deve ter contribuído para a coesão de algum as dessas coletividades árabes e persas, perm itindo que procurassem m anter vivos os traços culturais que as distinguiam dos bantos. E para que os difundissem , ainda que m estiçados, entre as sociedades bantas do litoral do Índico.

A propagação do m aom etism o foi provavelm ente m ais rápida na Som ália do que no resto da costa. A nova religião facilm ente difundiu-se de Zeila e Berbera para os pastores cam eleiros — e de novo ganhou o deserto. Já para o sul, o avanço foi m ais lento. Os agricultores bantos ficaram fiéis aos ritos de que dependia a fertilidade do solo, e o islão não logrou ser m ais do que um credo m inoritário, m esm o nas cidades m ercantis, até o fim do século XII.

As tradições dão a entender que os prim eiros califas se preocuparam com a catequese e a expansão das com unidades árabes na África Oriental. Narram , por exem plo, que o califa Abd al-Malik ibn Marwan (685-705) incum biu um grupo de sírios de se estabelecer nos litorais da Azânia. Teriam eles supostam ente

fundado Lam u e m ais 35 cidades, em 696.24

As crônicas locais referem -se tam bém à atração que a costa da África exercia sobre os hereges m uçulm anos e os prófugos políticos, que ali iam refugiar-se ou criar cidadelas para seitas e linhagens perseguidas. Assim , nos Anais de Om ã, conta-se que, tendo sido derrotados pelo califa om íada em 692, os dois chefes da fam ília Julanda, que governava aquela cidade, fugiram para a África. Suleim an e Said, que eram irm ãos, teriam sido acom panhados no

desterro por um grande núm ero de parentes e partidários. 25

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Meio século depois — e agora lem os João de Barros —, um a chusm a de

heréticos, os em ozaídes, espalhar-se-ia ao longo da costa, “com o u~a peste lenta”. Seriam eles, caso o fato se tenha realm ente produzido, sequazes do

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pretendente xiita Zaide ibn Ali, m orto em 740.

No m esm o capítulo das Décadas, narra-se tam bém a história dos sete irm ãos de Laça — ou Al Hasa (Al Ahsa), localidade que fica a pequena distância, para o interior, do Bahrain. Eles e seus acom panhantes, vindos em três navios, ter-se-iam estabelecido, no início do século X, em Mogadixo e Brava, e talvez

pertencessem à seita dos carm atianos, de feição revolucionária e com unista.28

O episódio tem sido considerado sim ples variante de um outro m ais fam oso, o

dos príncipes de Xiraz, tam bém registrado por João de Barros,29 ao transm itir-

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nos um a versão da Crônica de Quíloa. Segundo outra, em arábico, o sultão de

Xiraz, Al-Hassan ou Al-Hussain, com seus seis filhos, teria velej ado para o litoral africano e ali criado várias colônias. O sultão teria aportado nas Com ores. Seu filho Ali, na ilha de Quíloa, na segunda m etade do século X.

Todas essas histórias — e outras que figuram nos textos ou nas tradições orais — são de autenticidade duvidosa. Refletem , porém , fatos reais, que foram tom ando, com o correr dos séculos, form as em belezadas ou sim bólicas. O texto escrito, nesses com o em outros casos, não é penhor de verdade, pois entre ele e os acontecim entos que descreve há um enorm e hiato de tem po. De todos os livros de narrativas históricas da África Índica, o m ais antigo e no qual se põe m aior confiança é a Crônica de Quíloa, que data da prim eira m etade do século XVI. Os dem ais — o Livro dos Zanj es, a Crônica de Lam u, a Crônica de Pate — foram escritos no fim do século XIX ou no início do XX. Tanto o prim eiro quanto os três últim os reproduzem versões idealizadas do passado, que se transm itiam de boca em boca e de geração em geração.

Em bora em parte ou totalm ente m íticos, esses relatos recordam o aum ento dos contatos de árabes e persas com os litorais africanos, a partir talvez de m eados do século VIII. Ou a reabertura da costa ao com ércio a distância, m as j á no fim

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daquele século, para os que, ao contrário de tantos outros, creem ter havido

um a quase com pleta interrupção nas viagens para a Azânia, durante o apogeu de Axum com o potência m ercantil no m ar Verm elho. Para esses, deixara, entre os séculos III e VI de nossa era, de haver necessidade de descer a costa, pois nos portos axum itas em barcavam -se o m arfim , o âm bar, os chifres de rinoceronte, as peles e os dem ais gêneros que tão bem se vendiam no Mediterrâneo, na Arábia, na Pérsia, na Índia e na China.

Com os navios chegavam , e para ficar, alguns im igrantes do baixo Iraque e de Om ã, de Sirafe e de outros portos iranianos. Vinham não som ente os heterodoxos religiosos e os perseguidos políticos, m as tam bém os que se sentiam cham ados pelas perspectivas de um a nova vida nas costas úm idas do Quênia e da Tanzânia, que contrastavam violentam ente com a aridez da Península Arábica. E os que sonhavam , ali, naquelas terras verdes, construir um a fortuna com o m arfim e talvez, j á então, o ouro.

Não deviam ser m uito num erosos. Instalavam -se entre povos estranhos. Em vilarej os para os quais afluíam os produtos do sertão e que eram visitados pelos m arinheiros que faziam o com ércio a longa distância no Índico. Num e noutro caso, topavam uns poucos correligionários. Aqui, eram pioneiros. Ali, punham -se sob a proteção de um chefe banto. Acolá, fundavam um a nova aldeia. Tinham preferência pelas ilhas j unto ao continente, sem pre que nelas houvesse água. Nas ilhas, achavam geralm ente bons ancoradouros e nelas o m ar os protegia dos ataques de surpresa: era um obstáculo entre eles e os vizinhos, se estes se tornassem hostis.

É natural que Zanzibar e Pem ba cham assem a atenção dos im igrantes. Pelo tam anho. Pelos solos férteis e fartura de água. Pela excelência de suas baías e enseadas, repletas de peixes e crustáceos. Nessas ilhas não existem os grandes felinos predadores, m as abundam os porcos selvagens, as tartarugas e as aves de caça. E o clim a é m ais suave do que o do continente. Quando, no início do século X, Al-Masudi foi de Om ã à Azânia, Cam balu era o em pório m ais im portante da

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costa. Talvez ficasse na ilha de Pem ba, em Mkum buu. Mas não se exclui que

se situasse em Zanzibar. Ou em Lam u. 33

Os m oslins teriam conquistado Cam balu por volta de 750, suj eitando seus prim itivos habitantes. No século X, parte da população da ilha era m uçulm ana, e m uçulm ana a fam ília que sobre ela reinava. Esses islam itas falavam , contudo, a língua dos zanj es, e é possível que entre eles predom inassem os m estiços. A m aioria dos m oradores da ilha devia ser negra e pagã.

O com ércio estava nas m ãos dos islam itas, que iam buscar o ouro nas terras de Sofala. O principal produto que exportavam era, porém , o m arfim , e a ele se seguiam , em ordem de im portância, o âm bar cinzento, as peles de leopardo e as carapaças de tartaruga. Tam bém as vigas de m adeira seriam levadas para Sirafe e para outros portos do golfo Pérsico e da Arábia. O ferro devia ser um dos

artigos m ais procurados, pois, com o escreve Al-Masudi,34 os zanj es o “usavam com o ornam ento, em vez do ouro e da prata, da m esm a form a que em pregavam bois com o anim ais de carga e de guerra”.

Ficasse, ou não, a Cam balu de Al-Masudi no arquipélago de Lam u, descobriu-se, num a de suas ilhas, Pate, um im portante sinal da antiguidade do islão na costa. Shanga, pois assim se cham a o sítio, talvez j á existisse no início do século VIII, e ali se pode acom panhar o evoluir das técnicas de construção, do barro socado e da palha aos blocos de coral unidos por m assa calcária. Mariscos, peixes e tartarugas form avam a base da alim entação da cidade, em bora tam bém tivessem relevo a caça e anim ais dom ésticos com o o boi, a cabra, o carneiro, o

cam elo e a galinha.35 Indícios do com ércio a distância aparecem nos horizontes

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dos séculos X e XI, m as j á do fim do século VIII dataria um pequeno prédio

de m adeira, que se crê um a m esquita, reconstruído várias vezes, até tom ar,

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duzentos ou trezentos anos m ais tarde, a form a de um tem plo em pedra-coral. Ao deixar, no século XV, de ter vida, Shanga era um a cidade m urada, com cerca de cinco hectares, e a m aio-ria de suas casas, em pedra.

No sudoeste de Zanzibar fica Unguj a Kuu, ou Antiga Unguj a. A 32km dessa localidade existem alguns poucos vestígios de um a ocupação antiga. Ali foram encontrados num erosos fragm entos de louça vidrada azul-esverdeada, do tipo sassânida-islâm ico dos séculos IX e X. Desenterrou-se tam bém , em 1866, um a botij a de m oedas de ouro com inscrições cúficas. Das m oedas, pelo m enos um dinar contém data equivalente a 798, tendo sido cunhado por um vizir de Harun

al-Rachid.38

Outros lugares com vestígios de atividades m ercantis precoces situam -se m ais ao sul, em Moçam bique, na baía de Vilanculos. O m ais im portante é Chibuene, onde, em depósitos do século VIII ao IX, se encontraram faiança persa e vidro islâm ico, acom panhados de cerâm ica local sem elhante à do interior, no rio Tana,

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e à de Quíloa e Manda. O sítio pode ser de ocupação ainda m ais antiga, da

m etade do prim eiro m ilênio, e, apesar de figurar tão ao sul no m apa, j á receber por aquela época a visita de m ercadores, pois dele se retirou um fragm ento de

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cerâm ica louçada de tipo pré-islâm ico.

Tam bém Quíloa j á fazia com ércio no século IX. A cidade tinha então um a aparência pobre, em bora — com o afirm a Neville Chittick, que a escavou —

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fosse bastante extensa. De aparência pobre, porque — e isto pode ser enganoso

— não possuía construções de pedra-coral, m as tão som ente casas retangulares de barro socado, cobertas por folhas de palm eira.

Nas casas m oravam bantos que se dedicavam à pesca e à m ariscagem , faziam um a cerâm ica verm elha (com o rebordo m uitas vezes delicadam ente ornam entado por um a faixa de riscos finos em treliça), conheciam o fabrico do ferro e trabalhavam o cobre. Tinham um rei. E deviam , j á então, m anter com ércio regular com o interior do continente. Para alim entar esse escam bo, m anufaturavam contas, tendo conchas com o m atéria-prim a. E recolhiam cauris, que usavam possivelm ente com o m oeda interna e externa. O sal, o peixe seco, o gado, os cereais e as frutas garantiam a constância das trocas.

As transações faziam -se tam bém ao longo das praias, em pequenos barcos. E a essa atividade costeira, que fazia afluir para ela os produtos de outros pontos do litoral, que por sua vez m ercadej avam com o interior, iria dever Quíloa em

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grande parte seu progresso.

A cidade localizava-se no noroeste da principal ilha do arquipélago do m esm o nom e, onde hoj e se ergue Kilwa Kisiwani, de frente para a m elhor baía de toda a África Índica. Os veleiros m uçulm anos que percorriam os m ares da Azânia com certeza não ignoravam aquele excelente abrigo e, com o ali traficavam em reduzida escala, puderam acom panhar o desenvolvim ento de Quíloa com o um centro de trocas, onde, de início, talvez quase não houvesse daquilo que interessava ao com ércio a distância. Quando — quem sabe se por influência da própria dem anda dos m ercadores islam itas — essa situação se alterou e Quíloa se foi fazendo num em pório do m arfim , das peles e de outros artigos requisitados pela Arábia, Pérsia, Índia, Ceilão e China, o seu porto tornou-se cobiçado e nele vieram estabelecer-se im igrantes m uçulm anos.

Distinto foi, parece, o com eço de Manda. Ela teria sido habitada desde o princípio por islam itas, am plos conhecedores dos segredos do com ércio no

Índico. Assim poder-se-ia explicar43 a riqueza da cidade desde os prim eiros dias. Com efeito, até m esm o nos seus depósitos m ais antigos, encontrou-se grande quantidade de cerâm ica, faiança, porcelana e vidros im portados.

Manda ficava na ilha do m esm o nom e, no arquipélago de Lam u. Surgiu no século IX, e j á então alguns de seus prédios eram construídos de pedra-coral, com argam assa calcária. Ou tinham , outros, as paredes de tij olos cozidos. A m aior parte das habitações seria, contudo, de taipa e sopapo. A proteger a cidade do m ar, havia alguns m uros feitos de m aciços blocos de coral, que chegam a pesar um a tonelada, aj ustados a seco uns contra os outros.

A cidade foi sem pre pequena e próspera. Sua área não ultrapassava vinte

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hectares, e sua população, cinco m il habitantes. Toda ela devia girar em torno

do com ércio a distância.

Em Manda fundia-se o ferro. Para consum o local e tam bém — assim parece — para intercâm bio com o continente. Com o ferro e as contas de concha, que em Manda, com o em Quíloa, se faziam , os ilhéus iam buscar na terra firm e o m arfim — o m arfim que, j untam ente com a m adeira, abundante nos m anguezais do arquipélago, constituía o grosso de suas exportações.

Dos portos do golfo Pérsico, Manda recebia tudo que não fabricava localm ente. Sobretudo os artigos de luxo que as fam ílias de posses consideravam indispensáveis ao conforto e à im itação — tão com um nas sociedades coloniais — do tipo de vida das classes dom inantes na Arábia e no Irã.

Tapetes, tecidos, couros, m obílias e roupagens, tudo a um idade e o tem po consum iram . Sobraram , porém , restos de cerâm ica e de vidro. De vidro islâm ico. E de cerâm ica em grande parte — 30% — im portada. Desta, cerca da m etade era de qualidade superior: louça azul-esverdeada da Pérsia e até m esm o porcelana branca e faiança verde da China.

Esta louça chinesa, do tipo Yüeh, tem sido datada dos séculos IX e X. Deve ter chegado à Azânia em barcos árabes, persas, indianos ou indonésios, os m esm os que levavam à China o m arfim e outros produtos da África. Os seus tripulantes introduziriam nos portos chineses e do Índico oriental as prim eiras notícias sobre a paisagem , a fauna e as populações africanas.

A m ais antiga referência chinesa à África figura num livro escrito no fim do século IX: o Yu-y ang tsa-tsu, de Tuang Cheng-shih (ou Yuy ang za zu, de Duan

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Chengshi). Nele fala-se das terras de Po-pa-li (ou Bo-ba-li), m uito áridas,

percorridas por pastores nôm ades. Estes só com iam carne. Enfiavam um a agulha nas veias do boi, para lhe beberem o sangue, m isturado com o leite. Exatam ente com o hoj e fazem os povos pastores da África Índica.

A descrição, provavelm ente das áreas vizinhas a Berbera ou de outros pontos da costa da Som ália, repete-se num a outra obra chinesa, Hsin T’ang-shu, ou Nova história da dinastia Tang, concluída em 1060 por Ou-y ang Hsiu. Há ali um a passagem sobre o país de Ma-lin, que ficava m uito ao sul de Alexandria e depois de um deserto. Em Ma-lin, viviam negros ferozes.

Desde o final do século X, os negros com eçaram a ser vendidos à China, com o escravos. Ao que tudo indica, em pequenos núm eros. Lá alcançavam alto preço

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e eram utilizados em várias atividades, entre as quais a de porteiro. É possível

que fosse elegante possuí-los, da m esm a form a que era refinado ter paj em preto em Lisboa, Londres ou Paris, no Setecentos, no Oitocentos e até as vésperas de nossos dias. Não fazia o encantam ento de todos — segundo o narrador de A la recherche du tem ps perdu — o pequeno criado negro, vestido de cetim verm elho, que acom panhava por toda parte a princesa de Luxem burgo?

No princípio do século XII, a m aioria das casas ricas de Cantão dispunha de

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escravos negros. Não vinham , porém , esses cativos em barcos chineses desde

os litorais da África, pois é de todo im provável que a m arinha do Celeste Im pério, por aquela época, se aventurasse a navegar m ares tão distantes.

Um dos interm ediários no com ércio entre a China e a África pode ter sido o

reino de Siri Vij aia.48 Firm ando-se, no século VII, nos dois lados do estreito que separa Sum atra da Malásia, controlou, a partir da centúria seguinte, o tráfego m arítim o entre a Índia e a China. Quando se desintegrou, no início do século XIII, exercia algum tipo de suserania até m esm o sobre o Ceilão.

Era intenso o intercâm bio entre Siri Vij aia e os portos de Om ã e Sirafe. Além disso, não se afasta que os barcos daquele reino — e tam bém de Bornéu, Java e outras porções da Indonésia — frequentassem os litorais da Azânia. Suas pirogas com flutuadores laterais se haviam , desde o século VII, aperfeiçoado. Aum entaram m uito de tam anho e passaram a ter dois m astros.

Atrás de escravos, de m arfim e de outros produtos, um a frota de m il pirogas atacou, entre 945 e 946, Cam balu e outros entrepostos da África Índica. Provinha das ilhas de Waq-Waq, nom e que os árabes da época — por um dos quais, Bozorg ou Buzurg ibn Chariy ar, conhecem os essa história — aplicavam tanto a ilhas fantásticas (que só podiam ser atingidas pelos gênios ou onde vivia o pássaro Roca) quanto a ilhas reais, e não só às que bordej am a Ásia desde a Indonésia ao

Japão, m as tam bém a Madagáscar.49 Para a m aior parte dos geógrafos árabes, o litoral da África estendia-se, ao sul, para leste, a form ar um enorm e arco que ia ter ao sudeste da Ásia ou ao Japão. Talvez, por isso, designassem com o m esm o nom e, Qum r (ou Kom r), Madagáscar e a Malásia, e pusessem Waq-Waq tanto

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ao sul de Sofala quanto no Extrem o Oriente. Havia, contudo, os que

distinguiam entre a Waq-Waq do sudeste da Ásia e a Waq-Waq africana. 51 Waka é um dos term os indonésios para barco com flutuador lateral. Daí que se

cham asse waq-waq aos que nele navegavam ,52 bem com o as terras de onde provinham .

Talvez os atacantes de Cam balu fossem indonésios, e a expedição se vinculasse a novas m igrações para Madagáscar. Talvez tivessem eles m orado por algum

tem po, antes do ataque, entre o Save e o Lim popo. 53 Talvez fossem m algaxes. E talvez a esquadra estivesse form ada por canoas indonésias e m algaxes, e, nesse caso, o ataque conj unto teria por obj etivo deter o avanço para o sul da rede com ercial árabo-persa. Esta am eaçaria as atividades m ercantis de Siri Vij aia,

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que tinham na outra ponta o im enso m ercado chinês. A m enos que, ao contrário, os waq-waq estivessem buscando rom per o m onopólio árabo-persa

naquela parte do m undo.55

Outro im portante interm ediário entre a África e o Extrem o Oriente terá sido o reino de Chola, nas costas do Corom andel. Foi poderoso do século XI ao XII, expandindo-se do sudeste da Índia pelo oceano afora. Em 1007, seu soberano afirm ava ter conquistado 12 m il ilhas. E j á dom inava, ao que parece, as Maldivas

e o com ércio dos cauris. 56

A presença chola na África Oriental era antiga. Com o antiga a de m ercadores do golfo de Cam baia e da cidade de Debal (ou Daibul). Esta ficava na boca do Índus e era o m aior porto do Sind. Dela talvez tenham vindo, entre o fim do

século XI e o início do XII, os debulis57 das tradições orais da Tanzânia. Eram m uçulm anos — Debal foi conquistada pelos árabes em 711 ou 712 —, e teriam construído alguns dos prim eiros edifícios de pedra da Tanzânia.

Durante os séculos X a XII, o com ércio não cessou de, lentam ente, am pliar-se. No m undo m uçulm ano e no Ocidente cristão, aum entara a m oedagem de ouro — com o testem unha o surgim ento, em consequência da expansão alm orávida, do novo dinheiro áureo, que se cham ou m orabitino em Portugal e m aravedi em Castela. Nos m ercadores, m areantes e colonos da África Índica não podia deixar de acender-se a esperança de que o ouro do interior de Sofala fosse tão abundante quanto o do Sudão. Além disso, crescera a procura do m arfim , não apenas na Índia e na China, m as tam bém na Europa, onde a presa do elefante se tornara a m ais nobre m atéria-prim a da escultura religiosa.

No século XII, se alguns dos m ais antigos entrepostos tinham sido abandonados, com o Unguj a Kuu, e outros estavam em decadência, com o Cam balu, a m aioria prosperava. Mogadixo, por exem plo, tornara-se im portante cidade m ercantil, governada por um conselho de anciãos, onde estavam representadas as tribos, clãs ou linhagens da gente da terra e os grupos de im igrantes das m ais variadas partes do Islão.

Merca e Brava eram dois outros grandes em pórios nas costas da Som ália, am bos com suas com unidades estrangeiras. Em Merca, havia um a que reclam ava ter vindo de Sirafe e outras provavelm ente procediam de distintos portos da Arábia, da Pérsia, do subcontinente indiano. A cidade era, porém , pelo que indicam escritores árabes do século XII e do século XIII, com o Al-Idrisi e Ibn Said, controlada pelos som alis da tribo dos hawiy as. Estes nôm ades islam izados haviam descido a costa desde Ras Hafun e ocupado o baixo Webe Shebele, em cuj os vales úm idos se cultivavam cereais.

Mais ao norte, os som alis da região entre a baía de Taj ura e o cabo Guardafui tam bém se derram avam , com seus rebanhos de cam elos, carneiros, cabras e alguns bois, na direção do sul. O m ovim ento expansionista devia estar ligado ao im pulso que tom aram Zeila e Berbera, desde o século IX, com o portos para a Etiópia e ao desej o dos som alis de controlar os itinerários que uniam o golfo de Aden aos chapadões abissínios. Havia tam bém , provavelm ente, nessas m igrações, forte m otivação religiosa. Ao avançarem para o sul e para o interior, os som alis m aom etanos espalhavam o seu credo entre os som alis pagãos. E aum entavam , ao m esm o tem po, pela adoção dos convertidos, o núm ero dos que pertenciam a um a tribo ou a um clã.

Tem -se vinculado essa expansão às tradições sobre a chegada à Som á-lia de

d e

dois senhores árabes, o xeque Darod e o xeque Isaac. Am bos ter-se-iam casado com m ulheres locais e vivido em santidade, a pregar e a difundir os ensinam entos do Profeta, e deles descenderiam duas das seis grandes fam ílias de clãs em que se dividem os som alis. O prim eiro daqueles patriarcas teria existido nos séculos X ou XI; e o outro, nos séculos XII ou XIII.

Darod e Isaac pertencem m ais à lenda do que à história. Seriam dois exem plos daquele esforço, tão com um no m undo m uçulm ano, para traçar genealogias em cuj o ápice figure um parente de Maom é. Sim bolizam , porém , um a efetiva im igração de árabes na m argem m eridional do golfo de Aden e dão validez e

nobreza às bases islâm icas da sociedade som ali. 58

Se, ao norte do rio Juba, um barco m aom etano podia pretender encontrar correligionários em qualquer praia onde parasse, para o sul esses só existiam nos entrepostos m ais conhecidos, e cercados pela grande m assa de pagãos. Em Melinde, por exem plo, centro do com ércio do ferro. Em Mafia. Em Zanzibar, onde, na m esquita de Kizim kazi Dam bani, se localizou a m ais antiga inscrição datada da África Índica e, o que é raro, em caracteres cúficos. Num a bela e elaborada caligrafia, lê-se que o xeque As-Say y id Abu Im ram Musa ibn al-Hassan ibn Muham m ad m andou construir o tem plo do ano 500 da hégira, ou 1107 do calendário cristão. Talvez tenha sido insculpida pela m esm a pessoa um a segunda inscrição cúfica, encontrada por Mark Horton na ilha de Tum batu (ao

lado de Zanzibar) e a indicar, com o a prim eira, a influência de Xiraz.59

Entrem entes, Quíloa prosperara. Quíloa tornara-se parada obrigatória dos navios que se dedicavam ao com ércio a distância. Construíram -se ali depósitos para m ercadorias e se instalaram com erciantes de Mogadixo, ou seus agentes. Com o tam bém em Mafia e em Sanj e y a Kati.

Muitos desses negociantes, vindos do Mogadixo e de outros pontos da costa de Banadir, ainda que fossem m estiços, tinham ou presum iam ter antepassados persas, gente de Xiraz, e eram cham ados, por isso, xirazes. Em breve, com a riqueza que lhes dava o com ércio, adquiriram em Quíloa um a situação de predom ínio. E, por volta de 1070 ou 1200, um de seus líderes, Ali ibn al-Hassan (ou Al-Hussain), assum iu o poder.

Assim poderia ser interpretado o início da Crônica de Quíloa, tanto em sua versão em árabe quanto na que nos deu João de Barros. Em vez de seis navios vindos de Xiraz, com seus príncipes, teríam os um m ovim ento de expansão de grupos sualizados, isto é, racial e culturalm ente m estiços, da costa de Banadir

para o sul.60

De que os novos senhores eram com erciantes, e não nobres em arm as, há um claro indício na Crônica: Ali ibn al-Hassan teria com prado Quíloa ao soba local por um a quantidade de tecidos que, desdobrados, equivalia ao perím etro da ilha. Isso deixa tam bém evidente que j á existia em Quíloa um a estrutura de poder, um rei que controlava o com ércio com os estrangeiros, um rei a quem Ali ibn al-Hassan sucedeu.

Com a breve dinastia dos xirazes surgem as prim eiras m oedas — e não só em Quíloa, m as sobretudo em Mafia, onde, ao que parece, m orava o sultão.

Do extrem o ocidental de Mafia, em Kisim ani, ele controlava os seus dom ínios. Pelo m enos é nessa direção que apontam os achados arqueológicos: em Kisim ani, os restos de cultura m aterial apresentam -se, então, m ais ricos do que em Quíloa, e o com ércio parece ter sido m ais intenso, bem com o a circulação de m oedas, tanto locais quanto estrangeiras.

As m oedas m ais antigas, pequenininhas, algum as poucas de prata, m ostram , num a das faces, o nom e de Al-Hassan. As seguintes, o de Ali ibn al-Hassan.

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Estas são de cobre, com um diâm etro de cerca de dois centím etros, e deviam

ser em pregadas nas transações de m aior valor, servindo os cauris ao com ércio

m iúdo. 62

A partir do final do século XII, aum enta o núm ero das construções em pedra, que haviam com eçado a surgir cem anos antes. De início, os paralelepípedos que form avam as paredes eram unidos com lam a, m as, em seguida, difundiu-se o uso da cal. As paredes m ais antigas da Grande Mesquita de Quíloa foram erguidas com argam assa calcária e deviam ser parte do santuário m uçulm ano que, segundo a tradição, existia quando os xirazes chegaram à ilha.

Os tem plos da época, em Quíloa, Mafia e outras cidades, conform am -se a um só m odelo, com tetos planos de pedra e argam assa, sustentados por pilares de m adeira. De cada lado do edifício abrem -se portas em núm ero idêntico ao das fileiras de pilares; na frente, que dá para o sul, há apenas um a entrada; a parede norte, na direção de Meca, não apresenta abertura: nela faz-se um recuo, para conter um a espécie de pequena abside, o m irabe (m ihrab).

Essas m esquitas não possuem m inaretes — e isto é um a característica dos antigos tem plos m uçulm anos em toda a África Oriental. Há três exceções: um a torre em Merca e duas em Mogadixo.

No m inarete cilíndrico da Grande Mesquita dessa últim a cidade, está m arcada a data de sua construção, equivalente a 1238. Perto, no m irabe da Mesquita de Fakhr al-Din, há um a inscrição de 1269. O m esm o ano islâm ico, 667, figura noutra lápide, na Mesquita de Arba Rukun, tam bém em Mogadixo, e vem j unto ao nom e de Khusru ibn Muham m ed al-Xiraze. Um pouco m ais velhos são outros dizeres gravados na pedra tum ular de um indivíduo com o sobrenom e Al-

Khurasanj i e, portanto, de origem persa: datam de 1217.63

 

Minarete da Grande Mesquita de Mogadixo. Século XIII

Quando essas três m esquitas foram construídas, Mogadixo atingira o ápice de sua história. Era o porto m ais im portante da África Índica e a cidade m ais rica e m ais cosm opolita. Na m etade do século, suas estruturas políticas sofreram radical transform ação. De um a união de tribos, clãs ou fam ílias extensas, cada qual com seu chefe, passara a sultanato centralizado. O prim eiro sultão cham ou-se Abu Bacre ibn Fakhr al-Din.

Em bora na órbita com ercial de Mogadixo, foram , pouco a pouco, Mafia e Quíloa tecendo suas próprias redes de clientela. Devem ter procurado controlar os enseios m ais favoráveis à proteção dos zam bucos e as picadas para o interior, nas costas que lhes ficavam defronte. Isso não era fácil, pois tinham por vizinhos, nessas áreas, tribos hostis. Deram -lhes guerra, com frequência e relativo êxito, pois aos quiloenses im punha-se o dom ínio de franj as de terra fértil no continente, para neles, então com o hoj e, plantar suas roças.

Nesse processo de expansão, Quíloa chocou-se com outro pequeno estado m oslim : o de Xanga, que ficaria num a outra ilha do arquipélago, Sanj e y a

Kati. 64 As lutas travaram -se na m etade do século XIII e, m algrado terem os de Xanga deposto dois sultões quiloenses, o segundo destes, com a aj uda de Kizim kaki, em Zanzibar, onde se refugiara, acabou por vencê-los.

Por essa altura, tornava-se evidente a inversão das posições relativas entre Mafia e Quíloa: a riqueza afluía m ais para esta do que para aquela. Crescia, em consequência, o núm ero de estrangeiros que se fixavam em Quíloa, vindos possivelm ente de outros em pórios da costa africana e tam bém do golfo Pérsico e da Arábia. Para os recém -chegados, a subordinação a Mafia não se j ustificava e m uito m enos a canalização do com ércio por Mogadixo.

Foi essa gente que, pela força das arm as, derrotou, por volta de 1300, os xirazes e im pôs com o sultão Al-Hassan ibn Talute, o chefe de um grupo de Madalis (ou Maadilas), que teria trocado por Quíloa o sudoeste do Iêm en, onde vivia o grosso do clã.

Os xirazes continuaram , porém , senhores de Mafia, até que, uns vinte ou trinta anos depois, o neto de Ibn Talute, Al-Hassan ibn Sulaim an — de quem talvez fosse a alcunha Abu’l-Mawahib, ou “o Pai das Dádivas”, com que a dinastia passou à história —, os derrotou. A partir de então, Quíloa saiu da órbita de

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Mogadixo e pôs-se a m ercadej ar diretam ente com Aden.

Em Sofala, um irm ão de Al-Hassan ibn Sulaim an, Daúde, estabelecera um a feitoria, para adquirir o ouro que, proveniente do Zim babué e de outros pontos do interior, ali vinha desaguar. Tanto Daúde quanto seus sucessores atuaram com tam anha habilidade e zelo que Quíloa obteve o prático m onopólio do com ércio com Sofala. Senhora do ouro e das rotas do ouro, é possível que Quíloa tenha exercido suserania sobre Pem ba, Zanzibar e longos trechos da costa, especialm ente em Moçam bique.

A ascensão da nova linhagem ao trono de Quíloa alterou as fidelidades religiosas — os Madalis eram sunitas —, redesenhou os cam inhos do com ércio e introduziu na ilha novos m odelos culturais. Para com eçar, um novo tipo de arquitetura — um a arquitetura m onum ental, rem iniscente das antigas construções om íadas, abássidas e selj ucas e com influências iem enitas.

Multiplicam -se os arcos. Os tetos deixam algum as vezes de ser retos e tom am a form a de abóbadas. As m olduras das portas passam a ser cuidadosam ente talhadas em coral e a receber fina ornam entação.

Dessa época deve datar o palácio Husuni Kubwa.66 Fica num prom ontório, a uns 15m acim a das ondas, tendo por três lados íngrem es barrancos. Ocupa quatro m il m etros quadrados de terreno e contém m ais de cem salas. Num dos lados, possui o que poderia ser um a piscina octogonal, com escadas, a descer por um nicho interior, em cada lado.

Husuni Kubwa foi construído, ao que parece, para servir a um só tem po de residência senhorial e de estabelecim ento m ercantil. Dá a im pressão, fora da cidade e com grande parte de sua área dedicada a depósitos, de ter abrigado um soberano ainda distante de seus súditos e que com erciava por conta própria, em grande escala. O soberano pode ter sido Al-Hassan ibn Sulaim an, pois num a das inscrições existentes no palácio, figura, cortado na pedra em árabe perfeito, o seu nom e, precedido pela qualificação de “o rei vitorioso”.

Há indícios de que o palácio não foi ocupado por m uito tem po. O sultão abandonou-o possivelm ente por um a nova residência no centro da cidade. Ao partir, deixou inacabada um a outra construção em pedra, cuj os restos se veem a pouca distância de Husuni Kubwa, dele apenas separados por um a ravina.

Trata-se de um grande m uro de pedra-coral, fechando um espaço quadrado. A intervalos regulares, a parede dilata-se e alteia-se em torres de base arredondada. Dentro do recinto, não há evidência de qualquer edificação de im portância. Chittick sugeriu que Husuni Ndogo — este é o nom e da construção — fosse as ruínas de um a m esquita. Se isso corresponder à verdade, seria ela a

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única, na África Índica, com pátio central, o tipo m ais com um no m undo

m uçulm ano. J.E.G. Sutton68 pensa que seria um a espécie de caravançará m arítim o, um abrigo para m ercadores e m arinheiros.

Provavelm ente na m esm a época em que se construía Husuni Ndogo, em preendia-se nova reform a e expansão da m esquita de Quíloa. O tem plo j á tivera duplicadas as paredes laterais e fora am pliado para o sul, por m eio de vários pilares m onolíticos, que sustentavam o teto. Agora, a ele se acrescentava um a ala a sudeste, coberta por dom os.

Ali rezava, às sextas-feiras, o sultão Al-Hassan ibn Sulaim an, provavelm ente o

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m esm o Abdul-Muzafar Hassan que Ibn Batuta conheceu em 1332. O grande

viaj or70 retrata-nos um soberano devoto e caridoso, que com ia com os m endigos e cum ulava de atenções e honras os que haviam feito a peregrinação a Meca e os hom ens santos que chegavam à sua corte. Os xerifes m ereciam -lhe cuidados especiais: aos descendentes do Profeta o sultão reservava rigorosam ente o quinto do saque obtido nas guerras contra os infiéis.

Quíloa — inform a-nos Ibn Batuta — era um a grande cidade, “das m ais belas e m ais bem edificadas”, toda de casas de m adeira cobertas de palha. Se ele, ao relatar suas viagens, guardara boa m em ória do que vira em Quíloa, deve ter ficado bastante im pressionado com a profusão de construções de m adeira e taipa, a ponto de se esquecer das casas de pedra, que talvez não fossem ainda num erosas. Quando os portugueses lá chegaram , pouco m enos de dois séculos após Ibn Batuta, a m aior parte das casas era de pedra e cal, com o testem unham

Gaspar Correia71 72 e João de Barros.

A cidade não tinha plano. Os prédios, m uitos de três ou quatro andares, encostavam -se uns aos outros, deixando, entre os renques que form avam , estreitos e m eândricos espaços vazios, que podem os cham ar de ruas. Algum as eram tão apertadas, que se podia facilm ente saltar de um eirado a outro.

Continuar: parte 2 de 2