A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 13 de 35

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A Enxada e a Lança

9. Gana

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Gana

 

Nos três prim eiros séculos de nossa era, o cam elo espalha-se pelo Saara. Vai passando de um a tribo nôm ade a outra, desde os desertos que ladeiam o vale do Nilo até os litorais atlânticos. Os que o adotam tornam -se senhores das vastas extensões de areia e pedra, e das escassas e rudes pastagens que as interrom pem — aqui, ao longo do Mar Oceano; ali, do Adrar dos Iforas ao Tuate; m ais além , no Hoggar e no Air; e em tantas partes —, e dos oásis agrícolas, e dos roteiros dos poços.

A posse do drom edário alteraria com pletam ente a vida dos berberes do deserto, perm itindo que eles, de certa form a, o ocupassem . Deixava o Saara de ser um a espécie de terra de ninguém , para ver-se apossado pelas tribos nôm ades que conheciam os seus cam inhos — m arcados pela existência de poços d’água e de oásis — e deles cuidavam , desde os litorais nortenhos até as praias do Sael. O deserto tornava-se, assim , um m ar interior, um m ar de aridez que, graças ao drom edário, podia ser percorrido pelo hom em . A partir de então, ligaria tam bém o m undo m editerrânico ao país dos negros, em vez de apenas separá-los.

É verdade que os berberes continuaram a m orar em tendas e a levar de estepe em estepe os seus rebanhos. Mas passaram a ter na pilhagem , na proteção das caravanas e no com ércio novos m eios de aquisição de riqueza.

Cedo, as tribos cam eleiras reduziriam à obediência ou à servidão os habitantes dos oásis. Cedo, com eçariam a saquear os vilarej os agrícolas dos rom anos, no sul da Líbia e no Magrebe, bem com o as povoações negras que se espalhavam pela larga e longa faixa de estepes saelianas, de savanas e cerrados, estendida ao sul do deserto, desde o Atlântico até o m ar Verm elho e os contrafortes etíopes — o que se cham a Bilad al-Sudan.

De há m uito, sabiam os sudaneses cultivar a terra. Nas zonas m ais próxim as do deserto, plantavam m ilhetes e fônio. Mais ao sul, sorgo e arroz. As terras do Sael e do norte das savanas são, ainda hoj e, excelentes para os cereais, e os trezentos a m il m ilím etros de chuvas que caem na m aioria dos anos perm item a prática da agricultura não irrigada. Suas áreas úm idas deviam com preender, até o início do segundo m ilênio de nossa era, parte do que agora é deserto, cuj as m argens estavam um tanto m ais ao norte. Calcula-se que, do início da agricultura na área aos nossos dias, o lim ite setentrional de cultivo tenha baixado, no m apa, de cinco

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a sete graus.

Os povos do Sudão Ocidental, além de caçar e pescar, criavam gado. Principalm ente nas regiões estepárias, livres da tsé-tsé. Conheciam a cabra, o carneiro, o boi, o asno e, provavelm ente, o cavalo. Talvez m ontassem este últim o em pelo — com o, desde 1200 a.C., o faziam os hom ens que deixaram nas rochas do Saara desenhos de cavaleiros. Deles pode ter-lhes vindo o anim al, em algum m om ento entre os séculos VII a.C. e X d.C. Possivelm ente ainda no prim eiro

m ilênio antes de nossa era. 2

Muitos dos povos do Sudão Ocidental trabalhavam o ferro: com ele fabricavam as lâm inas das enxadas e as pontas das flechas e das lanças. Viviam em casas de taipa, adobe ou palha, em pequenas vilas, j unto às quais ficavam os currais e os roçados.

Tinham , naturalm ente, ao longo dos séculos, desenvolvido sistem as de convivência social e de poder. Em algum as com unidades, os laços políticos seriam débeis, organizando-se de acordo com as linhagens e dependendo de conselhos de anciãos para resolver os conflitos internos. Em caso de am eaça externa, líderes de m om ento punham -se à frente do grupo, voltando às fileiras quando tudo serenava.

Em outras, distinguia-se possivelm ente entre os habitantes m ais antigos e os recém -vindos. Um representante daqueles seria o “senhor da terra” — vínculo entre os espíritos do lugar e a gente que o habitava, responsável pelos cultos que garantiam a fertilidade do solo e a ocorrência das chuvas. Quando os im igrantes eram m ais num erosos do que as estirpes fundadoras, podiam ter tam bém quem os personificasse, o “senhor do povo”.

É de supor-se que certas tribos fossem organizadas por grupos de idade e que em outras houvesse, para garantir a harm onia grupal, sociedades secretas. Em alguns lugares, a linhagem dos “senhores da terra” pode ter-se im posto sobre as dem ais e seu dirigente se transform ado num a espécie de rei, no qual se encarnaria o espírito de todo o grupo. Em outros, pode ter ocorrido que a constância da am eaça externa tenha transform ado em chefe quem exercia um com ando m ilitar provisório. E ainda que, em certas com unidades, diante do perigo de confronto violento entre fam ílias rivais, haj a sido cham ado de povo vizinho um hom em para servir de árbitro e que este se tenha convertido, por sua sabedoria ou por receber no corpo os deuses, em centro de coesão e autoridade. Aqui, o controle por determ inada linhagem de um a j azida de ferro, de um poço, de um a nascente, de um santuário religioso, de um encontro de cam inhos propício ao com ércio, criou condições para que um de seus m em bros assum isse a posição de com ando. Ali, um a calam idade natural, com o a seca prolongada, alçou à direção da grei o m ais capaz de convocar as chuvas ou de organizar o uso racional da água. Acolá, o encontro de grupos distintos (agricultores e pastores, por exem plo) m udou as relações sociais, alterou as form as de produção, criou pressões dem ográficas ou de utilização do espaço com um , exigindo um tipo de autoridade capaz de conciliar e integrar os interesses em j ogo. E não se exclui que os m ecanism os básicos do poder tenham sido, em alguns casos, adquiridos de fora, por interm édio de estrangeiros, que chegavam não com o hóspedes a desej arem com partilhar a terra, m as com o invasores arm ados.

 

As rotas transaarianas

 

Tudo isso são conj ecturas — proj etando-se no passado longínquo as realidades de um passado recente — sobre com o seria o tecido social das com unidades nas estepes e savanas sudanesas. Muitas delas, sobretudo as localizadas no Sael de então, zona de encontro entre povos pastores e agrícolas, estariam — tal com o hoj e — acostum adas a receber, nos m eses de estio, quando os m agros pastos desaparecem do deserto, os rebanhos dos berberes. Vinha o gado pascer nas terras não lavradas, no exercício de direitos tradicionais, e, finda a estação, retornava com os donos ao Saara. A perm anência tem porária dos nôm ades era aceita pelos sedentários, e os bens destes, por aqueles respeitados.

Haveria, de vez em quando, conflitos. Pelo uso excessivo dos pastos. Pela invasão de tratos destinados a roças. Por raptos de m ulheres ou por furtos de grão ou de reses. Por involuntária profanação de locais sagrados. Ou por atitudes que punham em perigo a aliança entre o hom em e o espírito da terra.

A regra seria, porém , a convivência pacífica entre, de um lado, os pastores do deserto e do Sael, e, do outro, os agricultores do Sael e da savana. Não se esgotava o com ércio entre eles na troca de esterco por restolho e pasto. Os pastores adquiriam parte dos excedentes de cereais e de outros produtos da terra necessários à suplem entação de sua dieta, e entregavam , de retorno, leite, reses, cavalos e sal. Talvez j á recebessem dos lavradores algum ouro. Se a diferença do tipo de vida os afastava, ela própria era responsável por um a com plem entaridade que os aproxim ava. Da diferença nascia um convergir de interesses, que levava

m uitas vezes não só à cooperação, m as tam bém à aliança. 3

Nos anos de seca prolongada, é provável, porém , que se acirrassem os antagonism os, que aum entassem os pleitos. À m edida que se dilatava a estiagem , tinham os rebanhos que perm anecer no sul, dentro da paisagem agrícola, e seus pastores passavam a depender ainda m ais da hospitalidade, da aceitação ou do tem or dos que se j ulgavam com direito à terra onde o gado ia buscar aguada e relva.

No conflito, o cam elo daria, de início, boa vantagem ao nôm ade sobre o sedentário. As tribos do deserto aum entaram as distâncias de suas viagens. E incorporaram o saque às suas atividades econôm icas. Podiam atacar de surpresa os vilarej os dos agricultores e seus celeiros, e fugir, tão depressa com o haviam chegado, para onde não podiam ser perseguidas, levando com elas os despoj os de grãos, gado e escravos. Com estes faziam crescer o núm ero dos trabalhadores dos oásis, que para os cam eleiros produziam cereais e tâm aras — as tâm aras que os nôm ades em drom edários foram dissem inando pelas ilhas do deserto e que viriam a constituir um dos artigos de seu com ércio com a savana.

É possível que algum as dessas tribos do Saara ou outras do Sudão Ocidental, m ontadas em cavalos e cam elos, se tenham im posto com o nobreza arm ada sobre povos sedentários, acelerando, assim , o processo de transform ação política e de criação de estados. Mais provável ainda é que a pressão dos nôm ades sobre as terras dos agricultores tenha feito com que estes reforçassem as estruturas de poder locais, bem m ais sólidas do que as dos intrusos, para a eles m elhor resistir. Se as vantagens dos pastores eram a m obilidade e a surpresa, as dos lavradores eram a estabilidade e a coesão dos vilarej os, nos quais se gerara um arcabouço incipiente de m ando e de divisão de tarefas. Os reis rituais e os com andantes de tropas transform aram -se em chefes perm anentes, dotados de autoridade na paz e na guerra. Mesm o quando prevaleceu o nôm ade, a form a e as características

que tom ou o seu poder derivaram das estabelecidas nas com unidades agrícolas. 4

O desenvolvim ento, no Sudão Ocidental, de num erosos reinos foi estim ulado pelo com ércio transaariano, que o cam elo tornou possível. Há sinais de que, a partir dos fins do século III, o ouro com eçou, em pequenas quantidades, a atravessar o Saara, vindo da terra dos negros. E de que seu volum e j á devia ter peso, no período do dom ínio bizantino da África do Norte, tendo em vista a im portância que assum iu Cartago com o centro de cunhagem de m oedas de

ouro.5

O cam elo atravessava o deserto, m as não se adaptava ao clim a da savana. Por isso, as m ercadorias que trazia tinham de ser transferidas, no Sael, para as costas dos bois e dos j um entos. E, por isso, não podiam os cam eleiros ir trocar diretam ente os seus bens com os catadores de ouro, cuj as m inas ficavam m ais ao sul, sobretudo entre os rios Falem é e Senegal.

A interm ediação nas trocas transform aria as aldeias de alguns régulos em centros de com ércio, riqueza e poder. Nos portos caravaneiros do Sael, cobravam -se tributos de passagem e direitos alfandegários, prestavam -se serviços de descarga e recarga de anim ais, consertavam -se cabrestos, selas e odres, fabricavam -se artigos de couro e m etal, arm azenavam -se escravos e cereais para exportação e recebia-se o sal im portado, que era em parte consum ido localm ente, m as servia sobretudo com o m oeda de escam bo com outros povos. Com prava-se e vendia-se. As m anufaturas prosperavam , assim com o todas as atividades ligadas à chegada, ao recebim ento, à hospedagem e à partida das caravanas.

Cada centro de poder procurava, para fortalecer-se, controlar estreitam ente o com ércio, ter acesso direto às salinas do deserto e às m inas de ouro do sul, ou, pelo m enos, o dom ínio dos pontos extrem os das rotas caravaneiras ou de seus eixos de difusão. Quanto ao com ando dos cam inhos no deserto e dos pontos de paragem , aguada e repouso, estava nas m ãos dos berberes — que forneciam os cam elos e os guias das cáfilas, cobravam -lhes proteção arm ada e direitos de passo.

Um dos itinerários m ais antigos seria o que acom panha, com o um arco, o litoral da África, do norte até o cabo Branco, onde inflete para o sudeste e faz um a curva que vai alcançar o cotovelo do Níger. Nele, os rigores do deserto eram abrandados pela proxim idade do oceano. Principiava nos oásis do sul do Marrocos — onde o com ércio com o Sudão faria surgirem centros de indústria m etalúrgica ou têxtil e cidades prósperas com o Sij ilm essa, Agm ate, Messa e tantas outras — e se alongaria pelas áreas irrigadas pelos uedes Não, Dara e Seghiet el-Ham ra, antes de abandonar o verde e internar-se na aridez, com poços distantes entre si dois ou três dias de viagem , até a altura de Arguim , onde as cacim bas se tornavam m ais frequentes. No paralelo da ponta de Tofia (ou cabo Mirik), j á topava o Sael e era através dele que se dividia em vários cam inhos — para o Tacrur, para Sila, para Audagoste e Gana. Percorrê-lo dem orava de um m ês e m eio a dois m eses.

Talvez ainda m ais rem otos no tem po e m ais corriqueiros fossem os trechos que se traçavam apenas sobre o Sael. Pois desde m uito devia-se ir buscar o sal na região de Trarza, para dele abastecer as aldeias e cidades sudanesas. Viria no dorso dos cam elos ou no boj o das pirogas, Senegal acim a. Do litoral e das terras adj acentes chegariam tam bém o âm bar cinzento e a gom a de acácia.

Bem m ais difíceis seriam as outras rotas do Mediterrâneo ao Sael. A travessia do deserto durava em geral dois m eses e as caravanas tinham de vencer ergs (enorm es áreas de dunas de areia) ou tanezruftes (extensos trechos de aridez absoluta), passando três, quatro, cinco, seis ou até m esm o 14 j ornadas sem encontrar um poço d’água. De tanto em tanto, um oásis. Ou, nas partes m ais altas, o alívio de um a estepe rala.

Algum as dessas pistas j á deviam ser frequentadas antes do século VII. Com o a que saía dos oásis sul-m arroquinos, ganhava o Dara ou Draá e se inclinava para o ocidente até o Adrar m auritano, que transpunha, seguindo então para Audagoste e dali, j á no Sael, para o Tacrur ou para Gana.

Tão antigo quanto esse, se não m ais antigo, seria o roteiro que partia de j unto ao m ar, na Tripolitânia, e atravessava o Fezzan, de onde um de seus ram os se dirigia, pelo Adrar dos Iforas até Gao, e um outro, pelo Air até a Hauçalândia, ou, num esgalhar para sudeste, até o lago Chade.

Um outro cam inho com eçava na Tunísia, cortava Gadam és, ia dar em Gate e ali se dividia. Um a senda levava ao Canem e outra a Gao. De Gate e do Fezzan podia-se atingir Siuá, ou Siwa, no noroeste do Egito.

Havia outro m odo de alcançar-se o Egito, a partir do Adrar m auritano: seguir para Gao, e depois para o Air e o Tibesti, e em seguida para os oásis de Kharga e Dakhla. Quando Ibn Hawkal escreveu, na segunda m etade do século X, o seu tratado de geografia, essa rota j á tinha sido, cem anos antes, abandonada, por

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causa das tem pestades de areia.

Por essas vias, fileiras de m ilhares de drom edários levavam , do Magrebe e da Líbia para o Sudão, sal, cobre, bij uteria de vidro, conchas e pedras raras, perfum es, coral de Ceuta, espadas, panos de algodão e outros artigos de luxo. E tam bém tâm aras, dos oásis do deserto. E tam bém , possivelm ente desde o início, cavalos. De torna-viagem , iriam carregados de gom a, âm bar cinzento, pim enta-m alagueta, peles, m arfim . E acom panhados por escravos — os escravos que iriam não apenas som ar-se ao elem ento servil dos oásis, o haratim , e transform ar

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em enorm es canaviais o Suz e os arredores de Ceuta e de Marraquexe, m as igualm ente — e sobretudo após o advento do Islão — com por os haréns, am pliar a criadagem e robustecer os exércitos da África do Norte.

Nas duas m argens do deserto e nos oásis que o pontuavam , o escravo teria os m esm os usos. Soldado, com punha, por estrangeiro (e, portanto, sem lealdades locais ou de linhagem ), a m assa arm ada dos líderes que se faziam reis, tanto no

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Sudão quanto no Magrebe. Roland Oliver chega a considerar o tráfico transaariano de escravos com o “a chave” da política no Medievo norte-africano, e relem bra, além do papel crucial cum prido pelas tropas negras dos aglábidas, na Tunísia, e de Ahm ad ibn Tulun, no Egito, o caso dos fatím idas: instalados em Sij ilm essa, eles adquiriram dos que m ercadej avam no Sael e na savana sudanesa os contingentes de escravos que os aj udariam a conquistar boa parte do Magrebe e o Egito.

A captura e venda de escravos às cáfilas transaarianas pode ter sido um dos fatores de consolidação dos prim eiros reinos sudaneses. Organizados m ilitarm ente para se defender dos ataques de berberes preadores de escravos, esses reinos passaram a em preender razias contra os vizinhos m ais débeis, para trocá-los com os cam eleiros por arm as, cavalos e obj etos de prestígio, essenciais ao fortalecim ento do poder de um a nascente aristocracia guerreira e de quem ela tinha por chefe.

As m ercadorias m ais im portantes e m ais antigas do com ércio transaariano foram o escravo, o ouro e o sal. O ouro tão necessário à econom ia m onetária do norte da África, da Europa e do Oriente Próxim o. O sal, indispensável às populações sudanesas e silvícolas.

Talvez o ouro e o sal, assim com o o plantio do arroz, expliquem o grande núm ero de m onum entos líticos que se registram em partes da Gâm bia, do Senegal, da República do Mali e da Guiné-Bissau — especialm ente os m onólitos

e os círculos de pedra (ou crom lechs) das bacias do Gâm bia e do Sine-Salum . 9 Esses circos — cerca de 54 só na região do Sine-Salum — têm entre quatro e sete m etros de diâm etro interno e são form ados por entre 10 e 24 pedras, em geral cilíndricas, com de um a três m etros acim a do solo. A m aioria dos crom lechs apresenta um a linha adicional de pedras, no seu lado leste, a correr em reta na direção norte-sul. Algum as dessas pedras podem ter a curiosa form a de um a lira, ou de um A de cabeça para baixo e com a aresta arredondada.

Escavados, alguns dos círculos revelaram que cobriam câm aras m ortuárias. Na parte m ais profunda, encontraram -se um ou dois corpos hum anos, deitados de lado ou de boca para cim a, com a cabeça voltada para o nascente. Sobre a cobertura de terra, m isturam -se, em desordem , outros esqueletos, a sugerir que tivessem sido sacrificados ao pé da cova e lançados dentro dela. Os circos seriam , assim , túm ulos de altas personagens ou, além disso, m onum entos religiosos de intenção cosm ogônica. A datação deles é ainda im precisa. O carbono 14 tem indicado que alguns poderiam pertencer à segunda m etade do

prim eiro m ilênio, enquanto que outros seriam posteriores. 10

O corte, transporte e afeiçoam ento dessas pedras, bem com o sua cuidadosa colocação no terreno pressupõem o acum ular de riqueza e poder. É possível que o com ércio do ouro de Bam buk, Buré e talvez Geba — caso os vestígios de explorações m ineiras existentes nessa área da Guiné-Bissau sej am m ais antigos

do que o suposto 11 — contasse entre seus agentes com os responsáveis por esses m onum entos líticos. Se assim tiver sido, sua im portância com o interm ediários entre as regiões auríferas e o deserto não recebeu dos autores árabes a atenção que lhes m ereceram outros m ais ao norte, pois igualm ente no ouro e no sal, e tam bém no escravo, assentou-se a força de Gana.

Este reino consolidou-se, talvez a partir do século IV, pela aglutinação de vários conj untos de vilarej os soninquês, na orla setentrional do Sael, próxim o ao m eio da base de um triângulo invertido, cuj os dois lados se traçariam pelos eixos das bacias do alto Níger e do alto Senegal. A região não seria sáfara com o hoj e, em bora quase à beira do deserto e nos lim ites entre os dom ínios da agricultura e do pastoreio extensivo.

Os soninquês ou saracolêsa são os povos m ais setentrionais da fam ília m andê. É possível que eles ocupassem , no passado, boa porção do Saara Ocidental e que estivessem entre os antigos habitantes negros de grandes áreas que depois se desertificaram , no Tagante e no Adrar m auritano. A cerâm ica, o desenho dos vilarej os e a form a e a estrutura das casas, assim com o o fato de falarem as populações negras refugiadas nos oásis da região um dialeto soninquê — tudo parece sugerir que seriam saracolês os responsáveis por Dhar Tichitt. Para quem

assim pensa,12 ali, logo ao norte do que viria a ser o núcleo do estado de Gana, ter-se-ia desenvolvido, entre 800 e 300 a.C., um com plexo sistem a político — um estado incipiente ou, quando m enos, um a poderosa chefia — a aglutinar as num erosas aldeias que acabaram , diante dos ataques dos nôm ades do deserto, por se esconder e fortificar nas partes m ais inacessíveis das escarpas. Pacificada a região, os habitantes das escarpas desceram dos esconderij os e estabeleceram aldeias agrícolas nos oásis e no Sael. Com o desenvolvim ento dessas e do com ércio que nelas se fazia, viria a surgir o reino, tam bém soninquê, de Gana, que pode ter herdado as estruturas políticas desenvolvidas em Dhar Tichitt, ou a sua m em ória.

Segundo certas tradições, que o Tarikh as-Sudan e o Tarikh al-Fattash — am bos livros do século XVII — recolhem , teriam sido cam eleiros do deserto os fundadores da prim eira dinastia de Gana, a qual só fora substituída por um a linguagem soninquê na época da hégira, após ter dado 22 reis ao país. As fontes árabes m ais antigas não m encionam , contudo, serem brancos ou descendentes de berberes os chefes do reino, o que autoriza a supor-se tenha aquela teoria da origem de Gana — com o de tantos outros estados sudaneses — sido construída m uito m ais tarde, sob o influxo do Islão, com o obj etivo de dar prestígio a fam ílias nobres, que pretendiam entroncar nos herdeiros de Maom é. Era esta um a form a de afirm ar legitim idade: detinham o senhorio porque do m esm o sangue dos iniciadores dos grandes reinos, e aqueles, sendo brancos, deviam ser

árabes, chefes árabes, e portanto xerifes. 13

Noutra lenda, de que existem num erosas versões diferentes,14 afirm a-se que o antigo reino dos soninquês, Uagadu, foi fundado por um certo Diabe, filho do ancestral de todos os saracolês, Dinga. Este veio do Oriente (ou apenas do oriente) e se estabeleceu próxim o a Nioro. Diabe foi ter a Cum bi, a terras que pertenciam a um a serpente negra, Bida, a qual lhe perm itiu ali assentar-se, desde que lhe oferecesse anualm ente um a virgem de grande beleza. Em troca, Bida garantia a abundância de chuvas e m uito ouro. O assentam ento cresceu; tornou-se um grande reino. Até que um pretendente à virgem a ser sacrificada, inconform ado, m atou a serpente. Sobreveio a seca e se esgotaram , a partir de então, as fontes do ouro.

Deste ouro e do reino do Sudão de onde provinha, os conquistadores m uçulm anos do Magrebe tiveram pronta notícia. Tanto assim que para ele voltaram a atenção, apenas assegurado, em 708, o dom ínio da África do Norte. Segundo Ibn Abd al-Hakam , que escreveu, no século IX, a crônica dos feitos sarracenos, um governador do Magrebe, Ubaid Alá bin al-Habbab, enviou, em 736, um a expedição ao Suz e ao país dos negros, chefiada por Habib ibn Abi

Ubaida al-Fihri. Este teria voltado coberto de ouro.15 Seu filho, Abderram ane, organizaria, para uso dos árabes, um a pista caravaneira entre Sij ilm essa e Audagoste, recuperando poços antigos e furando cacim bas novas. Isto, por volta

de 745. 16

Desde o fim do século VII, dando continuidade a um a prática que devia datar

da época pré-islâm ica,17 m ercadores originários da Líbia, do Magrebe, do Egito e até m esm o do Iraque frequentavam os portos cam eleiros do Sael e neles se instalavam , por conta própria ou com o agentes de suas firm as. Algum as fam ílias se dividiram , para m elhor controlar todas as fases do intercâm bio: parte ficou nas cidades do Magrebe, abastecendo e form ando as cáfilas destinadas ao Sudão; parte, no Sael, a adquirir o ouro, a gom a, o âm bar, o m arfim e os escravos, e a organizar as fieiras de drom edários que seguiam para o norte. De um e do outro grupo provinham os que acom panhavam as caravanas, a zelar pela segurança e pelo bom estado das m ercadorias. Graças a esses com erciantes, o islam ism o penetrou no Sudão e chegaram ao m undo árabe e aos seus letrados as novas dos reinos negros ao sul do Saara.

Já no fim do século VIII, o astrônom o Al-Fazari m encionava “o território de

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Gana, o país do ouro”. Pouco depois, o geógrafo Al-Khwarizm i colocava Gana

em seu m apa-m úndi, inspirado no de Ptolom eu. Daí por diante, Gana figuraria em quase todos os textos árabes que aludiam ao Sudão, entre os quais se destaca

a crônica que Ibn Hawkal 19 escreveu, no século X, de sua visita a Audagoste, à capital ganense e ao rio Níger — que viu fluir na direção do oriente e confundiu com o alto Nilo. Gana só seria, porém , obj eto de descrição am pla e porm enorizada em 1067 e 68, com o cordovês Abu Ubaid Abdala ibn Abd el-

Aziz ibn Muham m ad ibn Ay y ub al-Bakri. 20

Al-Bakri nunca esteve no Sudão. Com pôs sua obra de oitiva, m as soube som ar as inform ações trazidas pelos m ercadores, escoim á-las de exageros e distinguir entre as verazes e as fantasiosas, para com por um quadro que im pressiona pela clareza e pela sensação de realidade. É possível que seu relato tenha por fontes

num erosos docum entos sobre o Sudão, que existiriam nos arquivos andaluzes. 21

“Gana” — ensina-nos Al-Bakri, no seu fam oso Livro dos itinerários e dos reinos — “é o título usado pelos reis de um país cuj o nom e é Aucar”. Essa denom inação real, que significava “chefe de guerra”, não era a única. Ao soberano davam -lhe tam bém as designações de tunca e caia-m aga, ou

caiam anga, “o rei do ouro”.22

Talvez o estado não tivesse nom e, sendo conhecido com o os dom ínios do gana, e Aucar se referisse à região — provavelm ente ao sul do atual Awkar, na

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Mauritânia — cuj os habitantes o tinham por chefe suprem o. Ibn Hawkal afirm a, porém , o contrário: que o país se cham ava Gana e o seu soberano dele tom ava o nom e. Aucar ou Gana seria a área geográfica denom inada Bagana pelos m andingas, e pelos saracolês, Uagadu — o m esm o título que esses hoj e cantam com o o do poderoso reino de que se orgulham descender.

Esta ufania parece ter firm e assento. Pois, com o assevera Nehem ia

Levtzion, 24 o reino de Gana pode ser considerado um “estado nacional”, um estado saracolê: “seus dirigentes eram soninquês e seus dom ínios cobriam a m aior parte dos territórios habitados por soninquês e poucas terras, se é que algum a, pertencentes a outros povos.”

Mas, esclareçam os, o estado que hoj e conhecem os pelo título de seu chefe não se fundava na soberania territorial. Não era relevante, para o caia-m aga, a precisão dos lim ites, a extensão das terras sob seu dom ínio, o com ando dos espaços. Nem , m uito m enos, a im posição de um a rígida estrutura governam ental ou das form as de cultura do grupo dom inante sobre os povos periféricos. O que lhe im portava era a quantidade de gente sob seu controle.

Não era Gana, portanto, um im pério, se visto da perspectiva rom ana: não possuía a vontade de unificar e converter, de reduzir todos os povos — dentro de fronteiras em expansão, m as, em cada m om ento, determ inadas — à m esm a lei e a um único césar.

Gana, com o estado, possuía um núcleo coeso de poder, m as era sobretudo um a enorm e esfera de influência. Nele havia povos que respondiam diretam ente ao rei e outros que, suj eitos a seus sobas tradicionais ou a seus conselhos de anciães, apenas se sabiam ligados ao caia-m aga por vínculos espirituais, pelo dever m ilitar e pelo pagam ento de tributos. As m ais diversas form as de organização política conviviam dentro do reino, cuj a frágil estrutura era quiçá perm anentem ente refeita pela ação das arm as, com cisões e acréscim os de súditos, e m antida pela divisão dos povos em segm entos de nobres, hom ens livres, servos e escravos.

Os régulos locais não perdiam a autoridade, em bora j unto a eles pudessem fixar-se governadores ou com issários, responsáveis diante do gana pelo recrutam ento de soldados e pela cobrança dos im postos. Filhos desses régulos eram , porém , levados para a corte do rei dos reis e, nas cerim ônias, ficavam à sua direita, vestidos ricam ente e de cabelos trançados com ouro. Viviam em grandeza, m as eram reféns.

As relações entre o gana e os seus dom ínios eram grupais, pessoais, de linhagens. Sua soberania exercia-se sobre os hom ens e não sobre a terra. O m onarca não estava interessado em am pliar seu poder pela adição de novos territórios, m as em subm eter núm eros crescentes de sobados, cidades, aldeias e grupos hum anos, que lhe pagassem tributo e lhe pudessem fornecer soldados para a guerra, servidores para a corte, lavradores para os cam pos reais. As cam panhas m ilitares expansionistas tinham por escopo, assim , conquistar gente. Mas as terras acom panhavam os novos súditos, vassalos e servos.

Parte da atividade m ilitar concentrava-se em defender o reino de seus vizinhos — com o Tacrur, Gao e vários outros — que perseguiam o m esm o obj etivo de am pliar as suas próprias redes de fidelidade política. E a m aior preocupação consistia em resguardar das am bições dos berberes os portos caravaneiros da m argem m eridional do Saara.

Entre os berberes figuravam os azenegues, asnagas ou sanhaj as, senhores do deserto, desde o uede Dará ou Draá, ao norte, até o Sael, ao sul, e do Atlântico até o Hoggar. Os azenegues dividiam -se em grandes grupos, que, em geral, se hostilizavam m utuam ente, m as podiam form ar passageiras federações. Tão efêm eras, m uitas vezes, quanto a paz entre as tribos de que se com punha cada um daqueles grupos. E eles eram : logo abaixo dos oásis m eridionais do Marrocos, os lantas e os j azulas; m ais para o sul, os fornecedores de guias para as caravanas e seus protetores ou atacantes, os m assufas; ao longo do litoral atlântico, os j udalas; no Adrar m auritano e no Tagante, os lantunas.

De rostos cobertos com um véu — que os árabes cham avam de litham —, os azenegues, com seus cam elos, controlavam não apenas as rotas das cáfilas, e os oásis, e os poços do deserto, m as tam bém as grandes m inas de Tagaza e outros depósitos de sal-gem a, form ados em depressões onde outrora houvera lagos.

Donos do sal, detinham os sanhaj as a m ola do com ércio transaariano. Os grandes m ercados, no entanto, estavam , nas cidades do sul do Magrebe, nas m ãos dos berberes zanatas, e no Sael, em parte nas dos saracolês.

Na segunda m etade do século IX, os azenegues assenhorearam -se pela prim eira vez do nó caravaneiro de Audagoste, um a pequena cidade, fundada talvez um ou dois séculos antes, m as que j á seria um centro agrícola, artesanal e m ercantil de im portância, um a das principais portas do com ércio com o Sudão. Daí por diante, e por m uito tem po, Audagoste progrediu, até desaparecer, uns seiscentos anos depois.

Ficava — conta-nos Al-Bakri25 — num a planície arenosa, ao pé de um m onte desnudo de qualquer vegetação. Mas ao redor da cidade havia bosques de tam areiras. E nela não escasseava a água doce. Cultivavam -se o m ilhete, as figueiras, o pepino, a hena. O gado, vacum e ovino, era abundante. O m ercado vivia cheio de gente e nele se pagava em ouro. A população era de vária origem , com bonitas m ulheres, de cintura fina e nádegas cheias. E por toda parte havia belos edifícios e casas elegantes.

A atividade m anufatureira devia ser intensa, em bora Al-Bakri só nos dê disso um a indicação: m enciona ser com um , nas proxim idades da cidade, o órix, de cuj o couro se faziam escudos reputadíssim os, tão leves e flexíveis, que podiam

ser suficientem ente grandes para proteger o corcel e o cavaleiro.26 Em Audagoste, os nôm ades iam buscar não só os cereais, as tâm aras e a hena, m as, possivelm ente, tam bém as arm as de ferro, os tecidos, as j oias, a cerâm ica, os arreios e as selas de que necessitavam .

A arqueologia confirm aria esse quadro, caso se dê por certa a identificação, proposta em 1927 por P. Boëry, entre Audagoste e as ruínas de Tegdaoust, no Rkiz. As escavações conduzidas, desde 1960, por Jean Devisse e Denise e Serge

Robert 27 só têm trazido novos argum entos em favor da tese.

As várias cam panhas arqueológicas dão testem unho de que Tegdaoust esteve ininterruptam ente ocupada, pelo m enos desde os séculos VIII ou IX. Talvez

desde o século VII. 28 Prim eiro, teria havido um vilarej o de m uros de adobe e de celeiros em argila crua. Posteriorm ente, a cidadezinha cresceu: ruas largas separavam núcleos com pactos de casas, construídas de pedra bem cortada; algum as m oradias possuíam pátio central, com cacim ba própria. Sobre essa cidade foi se construindo um a outra, em que os velhos m uros serviram de alicerces para as novas habitações. A pedra foi em grande parte substituída pelo adobe, havendo m uitas vezes a com binação daquele m aterial com este. As paredes eram revestidas por um a argam assa pintada de branco ou verm elho e, algum as vezes, das duas cores. Mais tarde, a urbe sofreu nova transform ação, voltando a pedra a predom inar nos edifícios. A estrutura da cidade m odificou-se. As ruas dos planos antigos foram substituídas por outras. As casas perderam os pátios e passaram a ter quintais atrás delas. Em suas paredes, veem -se nichos decorativos de form as triangulares ou retangulares.

As escavações revelam a história de um a contínua dim inuição do abastecim ento de água. No princípio, eram num erosas as cacim bas de form a circular. Praticam ente cada pátio dom éstico possuía cisterna. Estas secaram e foram tapadas. Abriram -se, então, poços m aiores, coletivos, com profundidades que podiam atingir oito ou m ais m etros. Depois, fizeram -se, entre as casas, calhas e depósitos para aproveitar a água das chuvas. Não só o clim a tornara-se m ais árido; aum entara o consum o de água, pois crescera o núm ero dos usuários, o volum e dos rebanhos em torno da cidade e a extensão da área cultivada.

Quando os azenegues conquistaram Audagoste, a aparência da cidade —

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“encantadora”, segundo Ibn Hawkal — era a de um vergel. Onde os nôm ades, m uito provavelm ente, se guardaram de viver. Acam pavam à sua borda, em tendas ou em precários abrigos de caniço e de ram os. Mas tinham sob controle o acesso à urbe e lhe taxavam o com ércio, cuj a prática deixavam nas m ãos dos zanatas.

O grande chefe azenegue vivia no deserto, em bora pudesse vir de vez em

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quando a Audagoste. Era, ao que parece, um lantuna e senhor de enorm e cam elaria: cem m il soldados no dorso de drom edários podia pôr em com bate,

em m eados do século X, o rei Tin Iarutã, b 31 conform e afirm a Al-Bakri. Esse

soberano seria possivelm ente o m esm o que Ibn Hawkal 32 refere com o

c

Tanbarutã ou Tin Barutã e com o tendo sob sua autoridade trezentas m il tendas.

Os azenegues deviam estar perm anentem ente envolvidos em disputas com o gana, os seus vassalos e os seus adversários. Ao sabor das conveniências de m om ento. Em relação ao gana, o conflito devia alternar-se com a cooperação, e esta, ser m ais dem orada e im portante. Pois Audagoste e Gana se com pletavam . Aquela controlava o sal e a saída das pistas do deserto; este, o ouro e as trilhas para dentro da savana e do cerrado. O m útuo interesse no fluxo norm al das m ercadorias devia ser m ais forte que outras form as de cobiça. O essencial era perturbar o m enos possível as rotas do com ércio e garantir-lhes a integridade e a segurança. Talvez por isso, quando, no fim do século X ou início do XI, os lantunas se fragm entaram e passaram a guerrear-se uns aos outros, os soninquês subiram até Audagoste e lá puseram um rei negro.

O poderio de Gana atingira o apogeu. Sua área de influência setentrional abrangia agora a m aior parte do Tagante e do Haude (ou Hodh). Seu rei dispunha de grandes forças m ilitares. Tunca Menim , que subiu ao poder em 1062 ou 63, podia, por exem plo, colocar em pé de guerra duzentos m il soldados, dos quais

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quarenta m il arqueiros. Estes usariam arcos pequenos e flechas com bico de

ferro. O alcance da arm a seria curto — uns 55m , podendo atingir no m áxim o noventa e poucos m etros —, pois não devia ser distinta dos tipos que até

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recentem ente eram usuais na África Ocidental. Apesar disso, os arqueiros seriam tem idos e decidiriam batalhas, pelo m enos em cam po aberto, a eficácia das flechas aum entada pelo envenenam ento de suas pontas.

Não nos dão os autores árabes notícias do uso do cavalo com o anim al de guerra, em bora Al-Bakri nos diga que os equinos de Gana eram pequenos, im ediatam ente após descrever os seus exércitos. Isso tem sido interpretado —

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por Jack Goody, por exem plo — com o im plicando a existência de cavalaria

nas tropas do caia-m aga e, aliado a exem plos do em prego cerim onial do cavalo, com o um argum ento em favor da tese de que grupos usando essa m ontaria foram , graças à m obilidade que ela lhes dava, capazes de se im por sobre os vilarej os agrícolas e desenvolver os prim eiros estados do Sudão Ocidental. Não faltou, porém , quem observasse que a m enção ao tam anho dos cavalos de Gana, se vem depois dos núm eros de seu exército, é im ediatam ente seguida por um período sobre a qualidade do ébano e por outro sobre a dupla sem eadura anual,

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sendo parte, portanto, de um a sequência descritiva das condições do reino.

O desconhecim ento da sela, do estribo e do freio reduziam consideravelm ente o im pacto do cavalo com o anim al de guerra. Mas não o ex-cluíam das batalhas, nem im pediam — com o bem m ostram os exem plos dos índios do pam pa gaúcho e das pradarias norte-am ericanas — que fosse utilizado m ilitarm ente com eficácia. O silêncio dos letrados árabes não significa que não se aproveitassem os pequenos cavalos locais — não m aio-res do que pôneis ou j um entos —, ou uns poucos corcéis im portados do Magrebe, para dar m aior m obilidade aos flecheiros, para atacar de surpresa o inim igo, para persegui-lo depois de derrotado e preá-lo com o escravo. É tam bém provável que o gana dispusesse de tropas cam eleiras, pois um de seus vassalos, o chefe de Guij ara, usava

drom edários nas expedições para a captura de escravos.37

A om issão do cavalo de guerra em Gana, nos autores árabes daquele tem po, poderia ser m esm o arguida em favor da existência no exército ganense de soldados m ontados. Pois os cronistas árabes estavam tão acostum ados à cavalaria com o arm a nobre, que dificilm ente deixariam passar sem m enção expressa a

sua falta. (A propósito da om issão do óbvio, Jorge Luis Borges 38 relem bra, invocando Gibbon, que no Alcorão não há cam elos.)

Ressalta dos textos árabes que a infantaria, e dentro dela a m assa de arqueiros, era a força básica do exército de Gana. O cavalo aparece com o anim al de prestígio, ligado à pom pa do estado, aos sinais exteriores do poder. Quando o gana dava audiências — narra Al-Bakri — sentava-se sob um pavilhão, ao redor do

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qual se colocavam dez cavalos aj aezados de ouro. Al-Idrisi, escrevendo quase

um século depois de Al-Bakri, refere, com retum bante exagero, que o rei am arrava seu corcel a um a pedra de ouro, com quase 14kg de peso. E afirm a que o gana só m ontava a cavalo e que, a cavalo, percorria a cidade, duas vezes entre cada levantar e pôr do sol, acom panhado solenem ente pelos grandes do reino.

A com itiva era provavelm ente precedida por tam bores e pífaros, com o seria de praxe, m ais tarde, nos desfiles reais, em quase toda a África. O que parece certo é que j á havia tam bores especiais, que só falavam no culto religioso ou nas cerim ônias da corte. Isso depreende-se de Al-Bakri, quando descreve as audiências reais, em que o caia-m aga dispensava j ustiça. Diz que eram abertas pelo bater de um alongado tam bor de m adeira, o daba ou duba.

O gana estava vestido de túnica. E com o ele, o herdeiro presuntivo. Usava um gorro bordado de ouro, envolto em turbante do m ais fino algodão. Sobre o colo e nos braços, abundavam os colares e as pulseiras. Atrás dele, perfilavam -se dez escravos, com espadas e escudos ornam entados de ouro. De ouro eram os arreios dos cavalos cerim oniais. E de ouro e prata as coleiras dos cachorros, que estavam sem pre j unto ao rei.

Aos súditos era vedado usar túnicas ou roupas que sofressem costura; enrolavam -se em longos cortes de tecido, quando as posses o perm itiam . O vulgo usava um pedaço de pano am arrado à cintura ou um a sim ples tanga de couro.

Ao verem o gana todos se prosternavam e j ogavam areia sobre suas cabeças. Os m uçulm anos, provavelm ente estrangeiros, batiam palm as à entrada do rei.

Tudo isso nos conta Al-Bakri. Não nos diz — nem o faz Al-Idrisi — que o rei era tido por divino. Mas am bos deixam entrever que a vida do gana se cercava de m inuciosa pom pa e m istério.

Morto o gana, erguia-se, em lugar próprio, um a grande cabana de m adeira, em form a de dom o, para acolher o seu corpo. Ali se colocavam suas vestes, suas arm as, os obj etos que usara para com er e beber, e com ida e bebida. Conduziam -se para dentro do que seria o túm ulo os criados que tinham servido ao rei. Vedava-se a porta. A cabana era coberta de esteiras e fazendas. E vinha o povo e com eçava a j ogar terra sobre ela, até que houvesse, onde fora um a construção de m adeira, um a espécie de colina. Ao redor, cavava-se um fosso. E ofereciam -

se ao m orto sacrifícios hum anos e bebidas ferm entadas. 40

(Túm ulos com o esse foram descobertos na atual República do Mali. O que L.

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Desplagnes estudou em El Oualedj i tinha 12m de altura e continha um a câm ara funerária de m adeira, com teto de varas e palha em form a de dom o, dentro da qual se encontraram os restos m ortais de dois indivíduos, enterrados com seus bens. Um outro, em Koï Gourrey, abrigava dois senhores, sepultados

com arm as e ornam entos e com entre 25 e 30 acom panhantes.)42

Na época de Al-Bakri, o rei cham ava-se Menim . Tunca Menim . Sucedera a seu tio m aterno, Basi. Conform e o costum e — explica o andaluz — de ter o rei com o herdeiro um filho de sua irm ã. Seria, portanto, m atrilinear o sistem a de sucessão em Gana. A m enos que os inform antes de Al-Bakri se tivessem enganado e descrito com o norm a um caso excepcional, em que um sobrinho, Menim , substituíra com o rei dos reis o seu tio, Basi. A versão e o possível fato contrariam as tradições sobre o antigo reino soninquê, confirm adas pelas práticas

atuais desse povo, que consagram o regim e patrilinear.43

A suserania de Tunca Menim exercia-se sobre um am plo território. Seus

lim ites — deduz-se de Al-Bakri 44 — seriam , a oeste, o rio Senegal, além de cuj o leito ficava o Tacrur; a leste, o Níger; ao norte, Audagoste; ao sul, Bam buk, na confluência do Senegal com o Falem é.

Muitas vezes o que, na boca dos bardos, parece lenda se revela história. Recitam os saracolês, com nostalgia, a crônica da época em que foram poderosos, senhores de Uagadu, a terra do ouro, quando o m aga ou m anga

reinava em sua capital, a cidade de Cum bi. 45 Essa tradição j á devia ser corrente nos séculos XVI e XVII, pois o Tarikh as-Sudan e o Tarikh al-Fattash parecem recolhê-la. Este assevera que a capital do caia-m aga, o rei do ouro, era Cum bi; e

aquele, que era Gana. 46

A própria m em ória local situava na região de Koum bi Saleh, no sudeste do que é hoj e a República da Mauritânia, a cidade que fora a cabeça do fam oso reino soninquê. Assim , quando, em 1913 ou 14, A. Bonnel de Mézières indagou, em Ualata, onde ficava a capital de Uagadu, foi levado a um sítio que, escavado,

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com eçou a revelar im portantes ruínas. Expedição após expedição — a de

Lazartigues em 1939, a de P. Thom assey em 1949 e 50, a de Ray m ond Mauny e G. Szum owski, em 1951, a de Serge Robert em 1975 e 76, a de S. Berthier em 1980 e 81 —, foi-se explorando um quilôm etro quadrado de construções de pedra (um xisto cinzento encontradiço na área) e dois de cem itérios, com as estelas islâm icas destruídas pela continuada passagem dos rebanhos.

As casas, m uitas delas de dois andares, são sólidas, de paredes grossas, com nichos triangulares e retangulares, sem elhantes aos encontrados em Tegdaoust. Deviam estar revestidas por um reboco am arelo e polido, de que há ainda poucos restos. Algum as m oradias eram grandes. Um a tinha 19,8m por 12,6m e sete côm odos, distribuídos em dois pavim entos, ligados por excelente escada. Outra, nove quartos. Desvendaram -se tam bém um as ruínas de m esquita e am plas áreas de palhoças e pequenas casas de barro — as habitações dos m ais pobres.

De Koum bi Saleh desenterraram -se m uitos obj etos. Faianças m agrebinas e cerâm ica local. Grande núm ero de arm as e utensílios de ferro. Obj etos de pedra e de couro. Pesos de vidro e de cobre. Pequenos pedaços de pedra pintados com versículos corânicos.

Todos estes achados são im portantes. Revelam que Koum bi Saleh foi um a cidade de m ercadores ricos, um grande centro com ercial, com entre 15 e 20 m il habitantes, conform e a estim ativa de Ray m ond Mauny. Sugerem tam bém que a sua existência recua m uito no tem po e que, onde hoj e há um escasso pastoreio, com um a e outra acácia a interrom per o chão de areia e os tufos de capim ressequido, se superpuseram várias cidades — ou, para dizer m elhor, se foram construindo, no correr das gerações, sobre prédios m ais antigos, outros m ais

novos. A área teria sido ocupada desde o século VI48 e j á seria um a cidade desde o fim do século IX, tendo alcançado o auge pouco m enos de trezentos anos

depois. 49

Nada nos assegura que Koum bi Saleh tenha sido um a das cidades gêm eas que form avam a capital de Gana. Há quem considere m ais provável que a m orada do gana e centro do seu poder se situasse fora do Sael, em área de m aior

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potencial econôm ico, com o as savanas a leste e ao sul de Koum bi Saleh.

Outras hipóteses:51 a de que Koum bi Saleh tivesse sido um a sede m enor ou tem porária do gana e seu posto com ercial avançado, na fronteira norte-ocidental do reino, ou um estado vassalo, cuj o suserano teria por verdadeira capital um a

cidade, que, se não era dividida pelo Níger (com o figura em Al-Idrisi 52), ficava no delta interior daquele rio. Tam pouco se deve afastar a possibilidade de que a capital do gana m udasse periodicam ente, para atender a novas condições e desafios do com ércio e da guerra.

Por ora, os indícios j ogam a favor de se considerar Koum bi Saleh a vila m uçulm ana descrita por Al-Bakri, com suas 12 m esquitas e seus im am es, letrados e com erciantes estrangeiros — azenegues, zanatas, árabes m agrebinos, andaluzes e de terras ainda m ais distantes, com o o Iraque.

A uns 11km ficava a cidade real, que Al-Bakri cham a de Gaba, o “Bosque”. Não se isolava inteiram ente da anterior, pois entre as duas havia um a sucessão de casas. A residência do gana era um palácio, possivelm ente de pedra e m adeira, m as com preendia tam bém várias palhoças de teto cônico. O conj unto estava cercado por m uro ou paliçada.

Na cidade real, encontrava-se tam bém um tem plo islâm ico, para uso dos visitantes estrangeiros, pois o gana e seus súditos eram fiéis às crenças tradicionais. Tanto assim que havia, ao redor da urbe, pequenos bosques e cabanas, onde viviam os sacerdotes a cuidar dos santuários e dos túm ulos dos reis. A nenhum forasteiro se perm itia ingressar nesses lugares. Ali ficavam tam bém as prisões do soberano, e de quem nelas entrasse nunca m ais se sabia.

Os arqueólogos ainda não localizaram a cidade real, que faria par com

Koum bi Saleh. Ray m ond Mauny 53 a im agina em Dali-Gum be, a dez quilôm etros a nordeste das ruínas islâm icas, um local com vários poços d’água e onde, segundo a lenda, se erguia a capital de um dos quatro chefes de Uagadu. Mauny não desespera de que se possa estabelecer a identificação de Gaba, pela eventual descoberta de tum bas reais.

Se isto ocorrer, confirm ar-se-á o quadro de um a capital dividida em duas com unidades, apartadas pela religião, porém unidas pelos interesses com erciais. Tunca Menim não apenas m antinha boas relações com os m uçulm anos, m as entre eles escolhia seu intérprete para os estrangeiros, o controlador de seu tesouro e m uitos de seus m inistros.

A colaboração com os m aom etanos que viviam em Cum bi e no reino saracolê era um a im posição das realidades do com ércio a distância. É possível que os m oslins tivessem até m esm o um cádi, para lhes resolver os problem as de acordo com a lei do Profeta e de seus intérpretes. Quando m enos, teriam um nazir, um “vigilante”, escolhido por eles para dirim ir suas disputas, tal com o em geral

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ocorria no Bilad al-Sudan.

Há quem pense 55 que Cum bi não era apenas form ada por duas cidades, m as que Gana tinha duas capitais, ou um a capital dupla. E que o poder do rei tinha dois focos: o solo e o anim ism o, de um lado, e o com ércio e o Islão, de outro. Havia que satisfazer a am bos e, na corte, o cerim onial se desdobraria: um para os islam itas, outro para os pagãos. Em consequência, haveria dois grupos de m inistros: um escolhido entre os m uçulm anos, e outro, entre os anim istas.

O gana dependia dos tributos ao com ércio para m anter sua num erosa corte e um exército perm anente, para distribuir, nas grandes festividades, a riqueza entre seus súditos e para conservar, através de repetidas dádivas, a obediência ou a aliança de reis m enores.

Cada asno carregado de sal, proveniente de Trarza, na região costeira, ou de Tagaza, no Saara, pagava ao caia-m aga um dinar de ouro (cerca de 4g) ao entrar

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em seus territórios, e dois, à saída. As cargas de cobre e de outras m ercadorias

eram tam bém taxadas. Sem pre em ouro. O ouro que lhe m andavam os produtores de Bam buk, sobre cuj as terras o gana possivelm ente não m antinha qualquer controle — elas pertenciam ao reino de Galam , com um a história tradicional de independência ininterrupta, sob a m esm a linhagem , desde o século

VIII até o XVIII 57 —, m as às quais talvez dom inasse o acesso.

O ouro em pó era de quem o achava. As pepitas, porém , pertenciam ao rei.

Talvez por j á terem , então, caráter m aléfico, que só ao gana não atingia.58 Não

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falta, no entanto, quem j ulgue que o texto de Al-Bakri tem sido m al traduzido e

que a distinção nele estabelecida não seria entre pepitas e ouro em pó, m as entre o m inério refinado, que se reservava para o rei, e o ouro bruto, com im purezas, qualquer que fosse a sua form a. Se aceita essa últim a leitura, um a das perguntas que se põe é com o o gana, senhor do m onopólio do ouro fundido ou em barras, obtinha a sua m atéria-prim a.

As m inas ficavam entre os rios Falem é e Senegal. Passadas as cheias, cavavam -se poços quadrados, de uns 75cm de lado, que raram ente iam abaixo dos vinte m etros, sendo frequentes as perfurações de apenas dois m etros de profundidade. À m edida que os poços desciam , suas paredes iam sendo reforçadas por vigas de m adeira e, pelo m enos num dos lados, por um a grade de varas, que servia tam bém de escada por onde baixavam os m ineiros. Estes cavavam túneis horizontais em várias direções e uniam assim os poços entre si. Mandavam em cabaças o m inério para a superfície e este era catado pelas m ulheres, ao entardecer.

É desse m odo que se extrai o ouro de Bam buk atualm ente.60 E desse m odo devia fazer-se no passado, com o se deduz dos relatos árabes. Nem de todos, porém . Pois alguns registraram a crença de que o ouro sudanês era um produto

vegetal. Um a raiz, com o a cenoura. Que se colhia ao pôr do sol.61

Os m ineradores e os traficantes que com eles tinham contato conservavam rigoroso segredo sobre os locais das m inas. O ouro vinha de Uângara, Vangara ou

Gangara, que não se sabia onde ficava, em bora Al-Idrisi62 dissesse que num a

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ilha. O nom e seria — de acordo com J. Spencer Trim ingham — um a corruptela de gangarã, que significa “buraco no solo”, ou “m ina”, e se aplicaria

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— segundo Bovill, que acolhe um a conclusão do explorador Dixon Denham —

a todas as áreas auríferas. Ou som ente às áreas de Bam buk e Buré, no alto Níger

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— com o queria Delafosse, que acrescenta cham ar-se Gangarã um a parte da

região. Para Trim ingham , 66 o term o passou a definir, por extensão, os soninquês

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da Mauritânia e do Haude, enquanto que, para o padre Cuoq, se teria dado o contrário: gangara ou uângara designaria um povo, cuj o nom e os árabes apuseram à região aurífera. Uângara, a Ilha do Ouro, poderia tam bém não ser um a das zonas produtoras, m as, sim , ficar no delta interior do Níger, onde o m etal am arelo seria abundante nas m ãos dos hom ens, porque dele se faria o com ércio. O ouro viria ali ter não só de Bam buk e Buré, m as tam bém de Lobi. E

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Jenné poderia j á ser então seu im portante entreposto. Há um a hipótese m ais

sim ples: situando-se Bam buk dentro da forquilha form ada pela confluência do

Falem é com o Senegal, teria sido confundido com um a ilha. 69

As m ercadorias do Magrebe e o sal do deserto passavam , ao chegar ao Sael, dos cam elos para os burros. Talvez m udassem até m esm o de donos. Mais para o sul, à entrada da savana, os blocos de sal eram partidos em pedaços m enores, de form a a poderem ser conduzidos à cabeça dos carregadores. E, assim , ou em pirogas, eram levados para as orlas das regiões m ineiras, para Bam buk e Buré e talvez tam bém — quem sabe? — para Lobi, no alto Volta, ou m ais longe ainda, para onde hoj e fica o país dos axantes.

O sal era artigo raro. Tanto assim que, às vezes, era perm utado, em Gana, por igual peso de ouro. Ou pelo dobro. Graças a ele, até a descoberta das m inas auríferas do Brasil, o Sudão foi o principal fornecedor de ouro ao Mediterrâneo,

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aos m undos islâm ico e cristão. Ray m ond Mauny estim a que a produção

sudanesa fosse de nove toneladas por ano, sendo a m etade proveniente de

Bam buk, Buré e áreas vizinhas. Vitorino Magalhães Godinho 71 j ulga esses núm eros exagerados e propõe que atravessassem anualm ente o Saara, antes da chegada dos portugueses à costa da Guiné, um as seis toneladas de ouro. Os

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núm eros de Devisse são ainda m enores: duas toneladas ou, quando m uito, três.

O ouro viaj ava em pó ou em barras — com o denunciariam os cinco lingotes

de ouro que se desenterraram de Tegdaoust 73 — pelas antigas pistas caravaneiras do Saara, ou por outras, novas, que se tornaram m ais percorridas desde o início do século XI.

Ia-se agora direto de Gana à serra Bafor, de onde se continuava para o Draá, com a escala principal em Azogui. Ou se faziam roteiros em linha reta de Gana a Sij ilm essa, atravessando durante dois m eses desertos absolutos — pelos quais se podia m archar 14 dias sem encontrar água. Dessas rotas, a de m aior fortuna teria sido a que passava por Tagaza, centro onde se trocavam as m ercadorias do Magrebe pelo sal que se ia vender ao Sudão. No Audagoste e no Tagante, as rotas eram controladas pelos azenegues, que se haviam convertido a um m aom etism o exigente e m ilitante.

Em 1035, um chefe j udala, Yahia ibn Ibrahim , fez a peregrinação a Meca. No retorno, em Cairuan, na Ifríquia, convencido de quanto era superficial o islam ism o entre os em buçados do sul do deserto, e de quanto nele havia de contam inações das antigas crenças locais, procurou um hom em sábio que pudesse ensinar-lhes a verdadeira doutrina. Orientaram -no a buscar conselho com Waj aj ibn Zalwi, um lanta que dirigia, no Suz, um a escola de ascetas, conhecida com o Dar al-Murabitin, e que se tornara fam oso por fazer chover durante as secas. Um dos m em bros dessa escola, o j azula Abdula ibn Yasin, decidiu-se a acom panhar Yahia. E entre os j udalas com eçou a pregar um islam ism o rigoroso, um m aliquism o intolerante, inflexível, baseado em preces coletivas obrigatórias.

A resistência à severidade com que Abdula ibn Yasin procurava reform ar os costum es dos j udalas transform ou-se em rebelião aberta, logo após a m orte de Yahia ibn Ibrahim . O im am e viu-se obrigado a retirar-se do m eio dos j udalas e se recolheu, segundo a tradição, a um a ilha, acom panhado por oito com panheiros, entre os quais os irm ãos Yahia ibn Om ar e Abubacar, dois nobres lantunas. Ali teriam eles construído um m onastério fortificado.

Essa ilha tem sido situada por alguns na costa atlântica da Mauritânia; por

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outros, no rio Senegal; e há quem afiance que não passa de um m ito, talvez para aj ustar a história de Abdula ibn Yasin às biografias sem ilendárias de tantos outros heróis do Islão. Nesse caso, o im am e teria apenas se acolhido à hospitalidade dos lantunas, que viriam a ser os prim eiros e m ais fervorosos dos al-m urabitun, ou alm orávidas.

O nom e que tom aram os seguidores de Abdula ibn Yasin não recebeu até

agora um a explicação definitiva.75 Para m uitos, significaria os hom ens do m onastério fortificado, ou ribat. Para alguns, seria a extensão do título usado pelos prosélitos de Waj aj ibn Zalwi, o m estre de Ibn Yasin — e m estre tam bém dos dois chefes espirituais dos alm orávidas que sucederam a Abdula, após a m orte deste. Para outros, os alm orávidas assim se cham ariam por causa da im portância fundam ental que davam à guerra santa, confundindo-se j ihad com ribat. Mas ribat pode tam bém ser traduzido por seita. E ainda por totalidade dos ensinam entos m uçulm anos. Ou por codificação doutrinária. Pode adem ais ser entendido com o aquele local que Ibn Yasin escolheu com o m orada de seu espírito e centro de sua pregação, território que se tornou sagrado pela presença do santo.

Quando, em seu retiro, Ibn Yasin se j ulgou suficientem ente forte, deu início à conversão pela espada. As tropas de Yahia ibn Om ar, a quem fez em ir dos m uçulm anos, foram lançadas prim eiro contra os j udalas, em 1042, e em seguida, contra as dem ais tribos azenegues. Os que a ele se opunham eram tidos com o apóstatas: haviam abandonado a com unidade do Islão e perdido o direito à

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vida. Assim pensava Waj aj ibn Zalwi, e seguiu-o fielm ente Yahia.

Em pouco tem po, logrou-se reunir sob o m esm o com ando os lantunas, j udalas e m assufas. Um a após outra, as tribos azenegues foram -se suj eitando, pela adesão ou pela força, à vontade unificadora dos alm orávidas. O fervor religioso dava novo sentido à antiga política dos berberes em buçados de procurar dom inar as rotas e os term inais do com ércio do ouro, do escravo e do sal. Os azenegues passavam , assim — e não sem resistências, sobretudo dos j udalas —, de um a sociedade tribal para um a com unidade político-religiosa, fundada nos

ensinam entos de Ibn Yasin.77

Fora do aprisco continuavam os azenegues do noroeste do Saara — os lantas e os j azulas —, subm etidos, nos centros caravaneiros do sul do Marrocos, ao poder de um a outra tribo berbere, os zanatas. Estes predom inavam tam bém , com grande núm ero de com erciantes, na outra orla do deserto, sobretudo em Audagoste. Razões econôm icas — o desej o de controlar as duas pontas das trocas transaarianas — som ar-se-iam , assim , às religiosas, quando, em nom e do m estre de Ibn Yasin, o lanta Waj aj ibn Zalwi, os alm orávidas foram cham ados a atacar Sij ilm essa.

Entre 1054 e 1055, os exércitos de Yahia ibn Om ar derrotam os do em ir zanata de Sij ilm essa. E, quase im ediatam ente depois, atacam Audagoste e a pilham com enorm e ferocidade, reservando para os zanatas que ali viviam as m aiores provações.

Enquanto os alm orávidas com batem em Audagoste, os zanatas reconquistam Sij ilm essa. Ao concitar os azenegues a um a expedição contra os inim igos tradicionais do norte, Yahia ibn Om ar esbarra com um a revolta dos j udalas, que ressentiam a predom inância dos lantunas e o rigorism o religioso alm orávida. Na luta para subm etê-los, em 1056 ou 1057, o em ir deixa o corpo em terra. Seu irm ão, Abubacar, assum e o com ando m ilitar dos alm orávidas e recupera Sij ilm essa.

Em 1059, os em buçados sofrem outra perda: a do próprio Abdula ibn Yasin, que é m orto pelos heréticos bargautas. A essa altura, porém , os alm orávidas j á eram senhores do Draá e do Suz.

A posse dessas regiões lhes era constantem ente disputada pelos zanatas de Fez e de Tlem cen. Para m elhor defender suas posições ao sul do Marrocos, os alm orávidas viram -se com pelidos a estender suas conquistas ainda m ais para o norte.

Em 1070, Abubacar funda Marraquexe. Mas, logo depois, é obrigado a voltar para o deserto, a fim de restaurar a unidade azenegue, am eaçada por discórdias entre os lantunas e os m assufas. À frente dos exércitos do Marrocos deixa seu prim o e herdeiro presuntivo, Yusufe ibn Tashfin. E tam bém sua m ulher, Zainabe, de quem se divorcia. Esta tinha sido esposa do chefe zanata de Agm ate e possuía enorm e fortuna. Inteligente e am bi-ciosa, casa-se com Yusufe e o deve ter convencido de que tinha diante dele a possibilidade de construir um grande im pério.

Graças à riqueza de Zainabe, Yusufe pôde aum entar e fortalecer as suas tropas pessoais, com prando, para soldados, cativos sudaneses e espanhóis. Preparou-se para o desafio a Abubacar. Quando este regressou do Saara, após tê-lo pacificado, deparou-se com a firm e decisão de Yusufe de não lhe devolver o m ando, ainda que lhe reconhecesse a suprem acia nom inal. O em ir resignou-se ao deserto.

Os alm orávidas ficavam divididos em dois grandes grupos: o do Marrocos e o do sul. Se esta era a realidade do poder, form alm ente todos se curvavam ante um só chefe, Abubacar, em cuj o nom e Yusufe governava. Este fazia chegar àquele os tributos de praxe e notícias de suas conquistas. E com a efígie de Abubacar cunhava m oeda.

Em 1075, Yusufe derrotaria o reino zanata de Fez. Em 1082, ocuparia Tlem cen e Orã. No ano seguinte, conquistaria Ceuta e o estreito de Gibraltar. Levaria depois, por três vezes, a guerra santa à Espanha, até colocar toda a parte m uçulm ana sob seu com ando, em 1094.

Os azenegues do sul tam bém não descansavam . Expulsavam os soninquês do deserto e se expandiam Sael adentro, apesar das resistências que encontravam . Num a dessas cam panhas, no Tagante, em 1087, Abubacar foi m orto, atravessado por um a flecha.

Frequentem ente, os alm orávidas lutavam contra Gana e procuravam esgaçar as bordas de seu poder. Ou se aliavam aos inim igos do caia-m aga, com o o Tacrur. Doutras feitas, j untavam -se aos ganenses contra adversários m ais

im ediatos. Diz Ibn Khaldun78 que os alm orávidas pilhavam as terras sudanesas, im punham tributos sobre a gente que nelas vivia e as convertiam ao Islão. Diz tam bém que, por causa disto, m inguou a autoridade do gana. O que não diz é que Abubacar tenha conquistado Cum bi em 1076 ou 1077 e convertido o país pela

força — com o se lê em vários autores, desde J. Spencer Trim ingham . 79 Para

isso cham a-nos a atenção Hum phrey J. Fisher,80 que declara que a conquista de Gana pelos alm orávidas foi com o a batalha de Itararé: não houve. E m ostra que nem um só dos num erosos cronistas árabes que se referiram ao Sudão alude à conquista alm orávida de Gana, a qual, se tivesse havido, seria im portante dem ais para passar despercebida ou para não ser m encionada.

Após a m orte de Abubacar, os alm orávidas voltaram a ter um só com andante, Yusufe. E, ao term inar o século, o seu im pério estendia-se do Ebro ao Sael. Era um estado que fundava parte de sua riqueza nas m inas do Sudão e que, por isso m esm o, entraria para a história europeia com o o relançador da m oeda de ouro. Os dinares alm orávidas tiveram am pla dem anda na Europa e seriam im itados pelos reis cristãos da Península Ibérica. À m oeda de ouro cham ariam os portugueses m orabitino, e os castelhanos, m aravedi. De alm urabitun. De alm orávida.

O fluxo de ouro sudanês para o Marrocos deve ter aum entado substancialm ente, nessa época. Pois o controle alm orávida do itinerário caravaneiro dava às cáfilas um a segurança que elas dantes desconheciam . Isto, apesar do paulatino desm em bram ento da unidade azenegue no deserto. Pois, desde a m orte de Abubacar e a m udança do centro de poder alm orávida para o norte do Marrocos, as tribos foram recuperando paulatinam ente a liberdade de ação. Prestavam hom enagem a Yusufe, m as dele raram ente recebiam ordens diretas.

Mal atingira o apogeu, com eçava o declínio alm orávida. No início do século XII, os berberes m asm udas do Antiatlas tinham iniciado um m ovim ento religioso e m ilitar contra o form alism o m aliquista e o j ugo político dos em buçados do deserto. Mas antes m esm o que os alm óadas — com o se cham avam os rebeldes m ontanheses — entrassem em Marraquexe em 1146 ou 1147 e capturassem o em ir alm orávida, Tashfin ibn Ali, neto de Yusufe, j á haviam os azenegues perdido o controle que exerciam sobre partes do Sudão.

Ainda que Gana não tenha sido conquistada pelos alm orávidas, nem convertida pela espada do islam ism o, a ele se rendeu no início do século XII. Recuperara o prestígio e a riqueza — se é que algum a vez os perdera. Pelo m enos é o que

conta, da Sicília, por volta de 1154, Al-Idrisi,81 ao descrever Gana com o o m aior e o m ais populoso dos países do Sudão e aquele com m ais am plo volum e de com ércio. As escavações de Koum bi Saleh confirm ariam Al-Idrisi, pois a cidade estuava de vida nos fins do século XII.

É possível até m esm o que o caia-m aga exercesse certa form a de suserania

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sobre os alm orávidas. Yakut, escrevendo na passagem do século XII para o

XIII, narra a visita de um rei negro de Zafum ao chefe alm orávida de Marraquexe: este vai ao encontro a pé; aquele lhe fala do alto do cavalo; e a cavalo entra na cidade, enquanto o alm orávida o precede, desm ontado. Não seria esta cena condizente com o enfraquecim ento alm orávida? E não ilum inaria a ideia de que tam bém para Gana se anunciava o declínio, com a perda do predom ínio no com ércio do ouro e com o fortalecim ento de outros estados sudaneses, com o Tacrur, Diafunu, Zafum , Mem a ou Sosso?

A em presa alm orávida deixara no Sael m arcas perm anentes. Em prim eiro lugar, porque contribuiu para a islam ização de grande parte das populações do norte do Sudão Ocidental, sobretudo os soninquês, que iriam se transform ar em fervorosos catequistas. Depois, porque destruiu o equilíbrio entre a agricultura e a pecuária existente no Sael, substituindo terras que eram cuidadosam ente lavradas por cam pos de pastoreio. Os rebanhos num erosos, m aiores do que a relva podia suportar, cedo desertificaram o que então era o Sael e saelizaram o que então era savana. Além disso, os azenegues não deixaram de converter a seu m odo de vida alguns núcleos negros, que abandonaram a lavoura pela criação de gado e aderiram ao nom adism o. Certos reis e nobres sudaneses com eçaram a usar até m esm o o véu sobre o rosto, o litham .

Em 1203 ou 1204, os sossos tom aram m ilitarm ente Gana. Cum bi, se a ela correspondem realm ente as ruínas de Koum bi Saleh, continuaria, porém , a ser um a im portante urbe até o século XV. Ou, pelo m enos, até m eados do XIV.

Muitos dos m ercadores soninquês que viviam na capital ganense, insatisfeitos com o dom ínio sosso, em igraram para outras terras — para os poços de Biru, por exem plo, um lugarej o que crescerá com o nom e de Ualata e se transform ará no m ais im portante porto caravaneiro do Sudão Ocidental.