A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 27 de 35

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A Enxada e a Lança

23. Os reinos do Iorubo

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Os reinos do Iorubo

 

Eis as histórias de outros descendentes de Odudua e dos vizinhos que os guerrearam e com os quais conviveram .

Um dos filhos de Odudua, que se distinguia pelo talento de orador — ewi ou euí, em iorubano —, partiu de Ifé para o Benim , a acom panhar Oraniã. Com este viveu entre os edos, até que os dois se desentenderam e se apartaram . Euí encam inhou-se, com um grupo de seguidores, para o noroeste, instalando-se em diferentes lugares, antes de falecer. Foi substituído por vários outros chefes, que tom aram o seu nom e e prosseguiram na peregrinação, até que um deles, o euí

Auam aro,a se fixou na localidade de Ado, nos m ontes rochosos e difíceis de Ekiti.

Não estava a região desocupada. Ali viviam os ilesuns, que falavam provavelm ente o iorubano e que acolheram com lhaneza os recém -vindos. Esses ilesuns deviam ser sem elhantes à gente de Oba, nas proxim idades de Akure, gente que só reconhecia um a divindade, a Terra, e que tinha a sua aldeia com o o lugar onde se criara o m undo.

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A história oral de Ado conta com o os sequazes de Euí se foram im pondo sobre os ilesuns e acabaram por m atar quem estes governava, Elesun. Substituíram -no por Auam aro, cuj os descendentes procuraram am pliar os lim ites do pequeno reino, até que foram detidos pela expansão do Benim .

Euare era o obá dos benins, quando, na segunda m etade do século XV, as tropas do euí am eaçaram Ikerre, um a cidade que ficava a 16km ao sul de Ado. Ikerre pediu aj uda ao Benim e este acorreu em seu auxílio. Os exércitos benins assolaram Ekiti, bateram Ado e a puseram a tributo. O chefe de Ikerre foi substituído por um edo, Ogoga, e a cidade tornou-se um dos pontões da influência do Benim sobre o Ekiti.

Outro foi a cidade-estado de Akure, que, na m esm a época, negou vassalagem ao Benim . Assediada e vencida, transform ou-se num entreposto do com ércio benim . Akure tinha por fundador um neto de Odudua, Asodeboiede. Com o o euí,

ele se im pôs sobre um a população iorubana, que desde m uito vivia no lugar. 2

O m esm o enredo de superposição de um a elite ifé sobre a gente da terra repetiu-se na pequenina Irê, cerca de 22km a nordeste de Ado. Só que o conquistador é m ais fam oso: Ogum , o poderosíssim o orixá.

Ogum era o prim ogênito de Odudua. Após haver subm etido Irê e lhe trucidado

b

o rei, em cuj o lugar pôs Ogundaunsi — filho dele, Ogum —, não cessou as suas expedições m ilitares. No regresso de um a das cam panhas, enfureceu-se com o

filho e o m atou — conform e um a das versões da tradição local.3 Ou, segundo

outra,4 sentindo-se ofendido por não obter resposta da gente de Irê, obrigada ao silêncio por um ritual daquele dia, desatou contra ela a sua raiva. Qualquer que tenha sido a causa do rem orso, este o fez apontar a arm a para o solo e ali m ergulhar com grande estrondo. No sítio onde desapareceu, ergue-se hoj e o altar em sua hom enagem . E Irê é o centro da adoração do orixá do ferro e da guerra.

Em bora filho de Odudua, Ogum não usava o adê, a coroa de contas com franj as que ocultam o rosto. Nem ele, nem seu descendente, o onirê, ou rei de

Irê, que porta um sim ples diadem a, o acoró.5

Nisso ele se afasta dos outros obás dos pequeninos reinos das m ontanhas de Ekiti. São m ais de 16 estados, cada um deles, se excetuarm os Ado, com m enos

de trinta quilôm etros de diâm etro.6 Possuem , contudo, reis coroados, que tam bém reivindicam ascendência ifé ou dizem ter recebido do oni as suas coroas.

A esses pequenos reinos som am -se, tanto no Ekiti, quanto em toda a região m ontanhosa de Akoko, inúm eras aldeias independentes. As dificuldades do terreno isolaram os vilarej os e, se os protegeram da conquista m ilitar, reduziram neles o im pacto das novas form as de poder político associadas ao nom e de Odudua. Até certo ponto, é bem verdade, pois, no alto dos 950m do m onte Orosun, no Ekiti, o dim inuto reino de Idanre, que só podia ser alcançado por um a escada de corda a descer por um a escarpa vertical, reclam ava para seu obá ou

óua a ascendência sagrada de Ifé e tinha sua corte nos m oldes do Benim . 7

Ekiti, Akoko e Ifé parecem um só com plexo cultural, em que é difícil distinguir onde se originou cada um de seus traços e com o se processaram as trocas de influências. Num a e noutra dessas regiões veneram -se os m esm os orixás: Obatalá, Odudua, Obalufom , Ogum e Orum ila. E talvez os cultos de Ogum e

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Orum ila tenham surgido no Ekiti e de lá se propagado para Ifé.

A sudeste de Ifé e a sudoeste de Ekiti, entre os rios Oni e Siluko, nas m ontanhas que descem para a costa (costa onde vivem povos afeitos às lagunas, aos pântanos e ao m ar), estendeu-se o reino de Ondo, em torno da cidade do m esm o nom e.

Antes que ali chegassem os ondos — palavra que, em iorubano, quer dizer

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“colonos” —, era a região habitada pelos idocos, organizados em m iniestados ou aldeias independentes, cada qual com seu oloj a. Subj ugados pelos forasteiros, os idocos m antiveram sua identidade e até hoj e form am em Ondo um grupo separado, com seus próprios deuses e festivais.

Diz a tradição de Ondo que um a das m ulheres de Odudua teve um casal de gêm eos — o que, na época, em Ifé, era considerado um a abom inação, em vez de um a bênção dos deuses. Mãe e filhos foram expulsos para a floresta e vieram ter às m ontanhas de Ondo. O m enino fundou Epe. E a m enina, de nom e Pupupu,

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a cidade de Ondo, da qual seu filho, Airo, foi o segundo obá ou oxem aue.

Sam uel Johnson 10 reconta a m esm a história, m as afirm a ser a m ãe dos gêm eos um a das esposas do alafim Aj aca, de Oió.

Quer tenha vindo de Ifé ou de Oió, Pupupu talvez represente a passagem de

um a dinastia m atriarcal para outra, patriarcal, figurada em Airo. 11 Da prim eira fase restaram sinais na vida de Ondo, onde alguns dos chefes m ais im portantes são m ulheres, que se reúnem em conselho próprio. A principal chefe fem inina, a lisa labun, é, aliás, quem preside a cerim ônia de instalação de cada novo oxem aue.

As estruturas e as insígnias da m onarquia onda e os títulos de sua nobreza repetem Benim e pouco têm a ver com Ifé. A influência deve ser antiga, em bora as tradições de Ondo não concordem com as dos edos, que atribuem a fundação daquela cidade à gente de Udo, a qual, sendo parte do im pério do Benim , se

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rebelou contra o obá Esigie, no início do século XVI, e foi por ele derrotada. Os vencidos, perdoados, instalaram -se em Ondo. Não seria de descartar-se que Oxem ugue, o líder dos rebeldes udos, tivesse substituído a dinastia ifé ou oió e dado seu nom e pessoal, ligeiram ente adulterado, ao título que detém o rei de Ondo.

Ao norte de Ondo e a nordeste de Ifé, em m ontanhas cobertas de florestas e

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cortadas por num erosos rios e riachos, fica o país dos ij exás, sobre cuj a origem

há duas lendas.13

Conform e a prim eira, descenderiam de escravos que ali eram m antidos e cuidados, com o se fossem gado, e se destinavam ao sacrifício. Donde o nom e: ij exá, “a com ida dos deuses”. E “com ida dos deuses” foram até a abolição dos sacrifícios hum anos, no fim do século XIX, pois eram as vítim as preferidas, sobretudo pelos ifés.

A segunda lenda é esta: eram tão poucos os ij exás, que, ao queixar-se disso o prim eiro de seus soberanos, Odudua m andou reunir um grande feixe de varas e as transform ou em hom ens. Por isso, os ij exás são tam bém cham ados om o igi, ou “prole dos gravetos”.

Esse prim eiro rei, ou óua, teria sido Aj aca e ou Aj ibogun. Era, segundo a tradição, filho de Odudua com a irm ã de um a de suas esposas. Dele se conta ter feito longa viagem até o litoral, a fim de buscar água salgada para dar alívio aos olhos de Odudua, que cegavam na velhice. Durante a dem orada ausência, os outros príncipes, seus irm ãos, receberam a herança do pai e partiram de Ifé a fundar os novos reinos. Para Aj aca ficara apenas um a espada.

Ao retornar a Ifé, Aj aca foi recebido com a exclam ação O wa! (“Então, está de volta!”), à qual respondia com esta breve frase: Mo b’okun (“Tenho a água do m ar”) — e daí derivaram o título do rei dos ij exás, owa ou óua, bem com o o

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novo nom e pessoal que Aj aca tom aria, Obocum . Lavou ele os olhos de Odudua e ao pai voltou a visão. O velho entregou-lhe a espada, com a qual perseguiu os dem ais príncipes e recuperou o que lhe devia caber.

Novam ente de regresso a Ifé, confundiu o pai, que tinha o rosto coberto pela coroa de franj as, com um dos irm ãos. Ergueu contra ele a espada, m as, por felicidade, cortou prim eiro as franj as da frente do adê, que lhe revelaram a face de Odudua. Este o perdoou, m as lhe deu por coroa um adê diverso do dos outros

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reis: não possui franj as na frente.

Com sua excelente espada, Obocum saiu de Ifé e guiou seus com panheiros até

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Igbaday e, onde veio a m orrer. Seu filho, o óua Oquê Oquile, continuou a m igração e instalou-se em Ilowa. No reinado seguinte, os ij exás tom aram Ilem ure, cuj o nom e trocaram para Ibokun. Ali havia um obá, o ita, que havia recebido de Ifé sua coroa. Arrancaram -lhe o adê, bem com o o do alare, que vivia num a cidade-estado próxim a, Ilare.

Um rei depois, de nom e Ouari, m udou-se para Ilaj e, que, após o falecim ento daquele óua, passou a denom inar-se Ipole Ij exá. Mais adiante, sob o óua Oge, fixaram -se finalm ente em Ilexá e a fizeram capital do reino.

Ilexá j á era então fam osa por sua cerâm ica. E dela teria recebido o nom e, Ile Ixa, “a cidade das m oringas”, a m enos que as palavras quisessem dizer “a cidade dos deuses”. Lá havia um rei, Onila, um velhote gentil que m antinha um a extensa plantação de quiabos. O óua tom ou-lhe o governo, m as o m anteve com o seu

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segundo e “senhor da terra”. Com o título de obanla.

Esse relato da peregrinação dos óuas m ostraria, à prim eira vista, um a sequência de conquistas m ilitares de vários pequenos reinos por um grupo estrangeiro coeso e bem arm ado. Mas poderia tam bém significar a aglutinação de vários estados independentes, talvez para fazer face à am eaça de Ifé ou de Oió. Enquanto se com punha essa fusão, é possível que várias cidades, um a após outra, tenham ocupado, antes de Ilexá, a posição de liderança e predom ínio, ou por ela lutado, não sendo de excluir-se que m ais de um a estirpe senhorial tenha dirigido, pelas arm as, pelo prestígio ou pelo convencim ento político, o processo

de unificação. 16

Outra viagem fundadora de reino foi, segundo a tradição oió,h17 a que em preendeu Oraniã desde as florestas de Ilê Ifé até as savanas do norte e as m argens do Níger.

Após a m orte de Odudua, Oraniã lhe sucedeu no m ando. Grande caçador e guerreiro, resolveu em preender, j unto com os irm ãos, um a expedição contra “Meca”, a fim de vingar a m orte de seu bisavô, Lam urudu. No cam inho, houve briga e os irm ãos se separaram . Oraniã prosseguiu até os bancos do Níger, onde se defrontou com a oposição dos nupes, que não o deixaram atravessar o rio. Voltou-se para oeste e foi ter a Borgu, e ali, um rei bariba, a quem consultara sobre onde deveria fixar-se, enfeitiçou um a j iboia e recom endou a Oraniã que a seguisse. Onde quer que ela parasse por sete dias, para depois desaparecer, os ifés deveriam construir a nova aldeia.

E assim foi. A serpente conduziu-o até um a m ontanha cham ada Aj aka. E lá, no sítio exato onde seu cavalo escorregou, Oraniã ergueu a cidade a que deu o nom e

de Oió, ou “lugar escorregadiço”. 18

Fundada Oió, Oraniã, que desposara um a princesa nupe, m udou-se para Oko, onde reinou por vários anos. No fim da vida, teria voltado a Ifé, para m orrer e ser sepultado sob o obelisco que tem o seu nom e. Não se afasta, porém , em Oió, a possibilidade de que tenha falecido em Oko, e que som ente seus cabelos e suas unhas — com o é com um entre os iorubás, quando alguém falece longe da terra

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natal — tenham sido enterrados em Ifé.

A essa tradição outras se opõem . Em Ifé, por exem plo, afirm a-se que Oraniã j am ais foi obá do Benim ou alafim de Oió, em bora tenha vivido nessas duas cidades e nelas deixado filhos para serem reis. Entre os egbas, crê-se que Oió foi fundada por um caçador nupe, de nom e Mom o, vindo de Ogodo, um vilarej o da m argem direita do Níger. E os baribas fazem de Oió a criação de um ram o caçula de Quisra.

Robin Law 20 sugere que a história da fundação de Oió por Oraniã, um príncipe de Ifé que recebe a aj uda de um rei bariba e se casa com um a princesa nupe, seria a fusão de três tradições distintas. A da origem ifé daria legitim idade à dinastia dom inante em Oió, um a vez que, entre os iorubás, só os descendentes de Odudua podem ser reis. E teria sido possivelm ente elaborada a posteriori, para m ascarar a sucessão no m ando de duas estirpes distintas: a prim eira nupe e a segunda, a partir do século XVI, bariba — hipótese que um a tradição registrada

por Frobenius abonaria.21 Há, porém , quem diga que a história de Oraniã disfarça um a prim eira suj eição oió aos baribas, anterior ao predom ínio dos

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nupes, sim bolizada pelo orixá Xangô. Na falta de evidências em favor de

qualquer das suposições, um a vale o que vale a outra.

Quando Oraniã, ou quem este nom e encubra, chegou a Oió — provavelm ente a pé, apesar do que diz a lenda, um a vez que o cavalo só foi introduzido entre os nupes e os baribas nos m eados do Quatrocentos e só se tornaria com um no norte

do Iorubo no início do século XVI23 —, talvez ali houvesse encontrado

povoadores m ais antigos. Pesquisas arqueológicas feitas no local 24 revelaram um a aldeia de m ais de um quilôm etro quadrado, anterior à construção das m uralhas de Oió, e para essa aldeia o radiocarbono j á deu um a data do princípio do século XII. A transform ação da vileta em cidade processar-se-ia duzentos anos depois.

Oió-Ilê, tam bém conhecido com o Eió e, pelos hauçás, nupes e prim eiros europeus, com o Catunga, ficava na orla setentrional do planalto iorubano, que dali desce fácil para o Níger. O terreno ondula suavem ente, coberto de savanas, interrom pidas, aqui e ali, por batacões de granito e pelos im ensos baobás. Possui boas águas, que fluem para o norte e vão ter ao rio Mosi, ou para o sul, a engrossar o Ogum .

Por Oió devia passar um a antiga rota de com ércio, que ia desde os rápidos de Bussa, no rio Níger, até os litorais atlânticos, e se ram ificava em outros cam inhos, para as terras hauçás, nupes e baribas. E para as florestas do sul.

Se as savanas franqueavam a cidade ao com ércio, tam bém a deixavam ao alcance das arm as dos vizinhos. Contra os baribas, que lhe ficavam a norte e a

oeste, o rio Mosi só oferecia proteção na época das chuvas.25 Contra os nupes, a nordeste, que controlavam a travessia do Níger, não havia escudo nem am paro.

A sul e a sudeste viviam os ibolos e os igbom inas. Antigos no lugar. Com o sugere a lenda (em tudo sem elhante ao m ito da criação de Ifé) que se preserva em Oba, no país igbom ina. Em Oba, diz-se que dantes só havia o m ar. O prim eiro rei trouxe com ele a terra, que colocou sobre as águas. Trouxe tam bém um a

galinha, que, a ciscar, expandiu a terra para todas as direções.26

A arqueologia revelou em Oba pavim entos de cerâm ica partida, fornalhas para o trabalho do ferro, polidores de contas, m orteiros cavados num a grande rocha. E, próxim o a Oba, em Ij ara, Ofa-Oro e sobretudo Esie, encontrou-se um

grande núm ero de esculturas em pedra-sabão, cuj a origem se desconhece. 27

Estavam num bosque, perto de Esie, e eram m ais de oitocentas im agens de esteatita, quase todas quebradas, com alturas que vão dos 20 aos 120cm . Mostram hom ens e m ulheres sentados em bancos de base redonda, com as m ãos sobre os j oelhos ou a segurarem catanas, instrum entos de m úsica e alj avas. Um as poucas figuras estão aj oelhadas. Todas apresentam penteados elaborados ou têm as cabeças alongadas cobertas por gorros. Os rostos são individualizados e neles se veem escarificações: três linhas horizontais, dos olhos às orelhas. Em algum as esculturas, além dessas m arcas, notam -se traços verticais no queixo ou estrias na face. A m aioria usa braceletes e colares de três ou quatro voltas.

Ignora-se onde e quando foram feitas as estátuas. A existência de afloram entos de esteatita na região faz suspeitar, no entanto, que tenham sido produzidas ali m esm o. São, sem dúvida, anteriores ao início do século XIX, quando os atuais habitantes de Esie, vindos de Oió, as encontraram . Um teste de term olum iniscência, feito num fragm ento de escultura de barro achado entre as peças de esteatita, deu um a data por volta de 1100, m as não se pode assegurar que esse pedaço de cerâm ica tenha a m esm a idade das im agens em pedra-

sabão. 28

Figura com catana. Esie. Pedra-sabão, 75,5cm de altura

 

O estarem quase todas as esculturas partidas sugere que tenham sofrido

destruição violenta nas m ãos de invasores ou de crentes de um a nova religião,29 o que com bina com a história de Oba, cuj o antigo povo teria sido m assacrado por

inim igos, num a cilada. As estátuas de Esie poderiam ter pertencido a Oba,30 ou a um a outra cidade-estado que existiu, no passado, naquela área, e que era suficientem ente rica e im portante para perm itir-se sustentar os artistas que criaram na pedra a pequena m ultidão.

Cidades-estado e aldeias-estado deviam pontuar a am pla savana que se estende da floresta m eridional ao Níger. Entre elas, Oko e Oió, em seus prim órdios, não se destacariam das dem ais. Com o o indica a história tradicional, ao dizer-nos que o filho de Odudua não trouxe de Ifé a coroa de contas e a teve

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de tom ar do rei de Adikun, um a cidade a 72km de Oió. Ou ao narrar-nos que o

filho e sucessor de Oraniã, Aj aca,i pagava tributo a um reino vizinho, de nom e Owo. E que, por isso e por revelar-se, com o guerreiro, um fraco, foi deposto e substituído no poder por seu irm ão Xangô.

Este fora gerado por Oraniã em Torosi, filha de Elem pe, um rei nupe. Criara-se no país de sua m ãe — segundo um a tradição —, indo depois viver em Kosso, a

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cuj os habitantes se im pôs pela força. Destronado Aj aca, foi para Oko, de onde

deu com bate ao rei de Owo. Venceu-o, a lançar pela boca cham as e fum aça — com o assevera a lenda — ou graças à rapidez e à disciplina de sua tropa de arqueiros.

Decide, então, m udar a capital de Oko para Oió, de onde passa a reinar com um a energia que se volta em violência. Deixa, por isso, fam a, não só de grande guerreiro e grande m ágico, m as tam bém de tirano. Era capaz de fazer um feitiço para atrair os raios, e isto o perdeu.

Certo dia, subiu ao m onte de Aj aka, em cuj o sopé ficava o seu palácio, e convocou os relâm pagos. Um raio caiu na grande casa coberta de palha, destruindo-a e m atando todos os que lá se encontravam , entre eles os filhos e

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algum as das m ulheres de Xangô. Desgostoso, abandonou o poder ou dele foi

apeado. Noutro relato,34 Xangô é constrangido a abdicar, após ter fom entado a discórdia entre dois de seus cabos de guerra, dos quais desej ava ver-se livre. Um deles, sabedor das intenções de Xangô, m ata o outro e se volta contra o rei. Este, ao verificar que a m aior parte dos chefes e dos cortesãos se alinhava em favor do rebelde, resolve retornar ao país nupe. No cam inho de volta, as duas tradições convergem e term inam da m esm a form a: Xangô, sentindo-se abandonado pelos seus, enforca-se num a árvore. Ou, segundo outro final de enredo, desaparece em vida, transform ando-se em orixá.

Pierre Verger 35 considera falso o enforcam ento de Xangô e o atribui a um a interpretação interessada de m issionários do século XIX. É possível que assim tenha sido e até m esm o que os textos históricos e literários de inspiração europeia tenham im pregnado e m odificado o que corria de boca em boca, de geração em geração. O fato é que Xangô é tido com o personagem trágica. Na m aioria das com unidades iorubanas persistem , entre os num erosos m itos que sobre ele existem , as várias versões de seu enforcam ento, m uito em bora todos saibam que

Xangô continua vivo, num a outra esfera da vida. 36 Com o orixá.

A história de Xangô indicaria ter sido ele um conquistador estrangeiro, um nupe que se im pôs sobre iorubás, se é que não vinha de um a com unidade de fronteira entre os dois grupos, talvez de um estado bilíngue, form ado pela fusão

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de aldeias nupes e iorubanas, sim bolizada no m atrim ônio de Oraniã e Torosi.

O m ito faz de Xangô o verdadeiro introdutor da realeza sagrada em Oió. É ele quem reform a os costum es, quem m anda o exército m over-se sobre o poder dos arqueiros, quem cria um corpo de funcionários escravos inteiram ente fiéis ao palácio, quem torna o culto do trovão e do relâm pago a crença do estado. Com o o orixá das tem pestades, nas quais se com binam a água e o fogo indispensáveis à vida, a chuva que fecunda e o raio que destrói, Xangô, tam bém sim bolizado no carneiro, tornar-se-ia o centro do culto da linhagem e do poder reais.

Por sete anos governou Xangô. Depois de seu desaparecim ento, os oiós m andaram buscar em Igbodo, onde se exilara, o seu irm ão Aj aca — o que talvez signifique a restauração da estirpe apeada do poder por Xangô ou pelo grupo que nele se personifica — e novam ente o fizeram alafim , ou rei. Dessa feita, Aj aca revelou-se um grande guerreiro. Lutou contra os nupes e estendeu o m ando sobre num erosas cidades e aldeias iorubanas. A tradição diz que ele m atou 1.060 oloj as

e obás, reunindo suas cabeças num a só pilha, para que fossem veneradas.38

Com Aj aca — diz Sam uel Johnson, na sua fam osa história dos iorubás — term inariam os reis m itológicos e heróis divinizados — ou deuses com form a

hum ana39 — e com eçariam os alafins históricos. Não falta, porém , quem

pense40 que nos reinos seguintes (os de Aganj u, Cori e Oluaso) ainda não se sai do território do m ito.

Aganj u, filho de Aj aca, dom ava cobras venenosas, leopardos e outros anim ais ferozes. Reinou por m uito tem po. E deu guerra ao onisam bo ou obá de Ogboro, derrotando essa cidade-estado, que ficava cerca de oitenta quilôm etros a oeste de Oió e que possivelm ente detinha a suprem acia na área, pois seu rei era tido com o

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irm ão m ais velho de Oraniã.

Aganj u foi sucedido por Cori,j que ainda estava no ventre da m ãe, Ij aium , quando o alafim m orreu. A rainha ocupou a regência até a m aioridade do filho. E este, que acabou rej eitado pelos súditos e obrigado a tom ar veneno, deu continuidade à política expansionista de Oió. Foi ele quem m andou fundar, às m argens do rio Oxum , cerca de 130km ao sul de sua capital, a cidade de Ede, e nela pôs um rei vassalo, Tim i, cuj a principal obrigação era defender Oió contra os ataques ij exás.

No fim do século XV, ascendeu ao poder Oluaso, de quem se diz que construiu

44 palácios, o principal deles com 120 espigões.42 Oió j á devia ser então um reino im portante, com suserania sobre num erosas antigas cidades-estado, cuj os obás continuaram , com o chefes provinciais, a gozar de certa autonom ia, em bora suj eitos ao alafim . Muitos teriam sido reduzidos pelas arm as. Alguns teriam buscado a proteção de Oió contra a am eaça dos baribas e dos nupes. Igobon, Iresa, Aj asse-Ipo j á se teriam incorporado à zona de dom ínio ou de influência de Oió.

Sobre a estrutura política do reino, naquela época, quase nada se sabe. Talvez

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j á então se fundasse na grande fam ília ou ebi, nos laços de sangue, que teriam

prevalência sobre os interesses econôm icos ou de segurança. A unidade do reino era a fam ília, a linhagem . A ela pertenciam as terras agrícolas, os deuses e os ofícios do estado.

Cada linhagem patrilinear (idile) ocupava um agbo ile, ou grupo de casas cercado por um m uro. Ali viviam os hom ens do m esm o idile, com suas m ulheres e dependentes. Um conj unto desses grupos de casas — conj unto tam bém determ inado pelas alianças de sangue — form ava um “bairro” ou adugo, sob o com ando de um dos chefes da cidade. As chefias pertenciam a determ inadas linhagens e sua ocupação era determ inada pelos m em bros da fam ília. Com o,

posteriorm ente, a política a ser por esse chefe seguida.44

É possível que, desde então, o alafim tivesse suas ações condicionadas pelos chefes m ais im portantes da cidade, os Oió m esis, que elegiam o rei e o podiam depor. E que j á existisse o ofício de baxorum , prim eiro-m inistro, chefe dos Oió m esis e — quem sabe? — então ainda um “senhor da terra”, descendente dos

que reinaram sobre o povo que Oraniã encontrou em Oió. 45 Esses títulos podem , no entanto, só ter surgido bem m ais tarde. De qualquer form a, é de supor-se que houvesse, naquela época, controles por parte dos chefes das grandes linhagens à livre ação do rei.

Este, pelo que dizem as tradições, j á basearia parte do seu poder nos escravos de palácio, m uitos deles eunucos. E teria seus exércitos chefiados por exos, que seriam soldados profissionais.

O alafim era um rei sagrado. Seu título — se então j á existia — significava “o senhor do palácio”, onde vivia recluso e fora da vista dos súditos. Só saía em público durante os grandes festivais religiosos, com a face oculta pelo adê e suj eito a um estritíssim o cerim onial.

O seu poder vinha-lhe dos orixás, dos quais era com panheiro e a cuj o panteão

ia j untar-se, após a m orte. 46 Detinha o axé, ou força para atuar sobre a natureza. E era o sum o sacerdote de Xangô e dos dem ais cultos religiosos do reino. Juiz suprem o, som ente ele podia decretar a pena de m orte.

Tam bém se cham ava alaij eluva, o “senhor do m undo e da vida”, e onilo, o “dono da terra”. Era o equej i orixá, o “com panheiro dos deuses”, m as não podia abusar de seu poder. Se se tornasse um tirano, os súditos, através dos grandes chefes de linhagens, podiam forçá-lo a com eter suicídio. Pelo m enos, seria assim m ais tarde: os Oió m esis lhe apresentariam um a cabaça oca ou ovos vazios de periquitos e, desse m odo, lhe indicariam que não m ais era desej ado com o rei.

O alafim governava a ouvir não apenas os chefes das grandes estirpes, m as tam bém os próprios deuses. Pois as novas leis eram consideradas com o expressão da vontade dos orixás, e ato algum de poder se cum pria sem antes deles ter recebido a sanção favorável.

Era assim no século XIX e talvez assim fosse no fim do Quatrocentos, m uito em bora Oió deva ter sofrido algum as transform ações, durante o período de m ais

de sete décadas (de c. 1535 a c. 1610, ou um pouco antes)47 em que o alafim e sua corte viveram exilados em Borgu, onde devem ter-se im pregnado de alguns novos costum es, se é que de lá não retornaram — com o queria Frobenius — a

vestir um a nova dinastia, de origem bariba, k representada na im agem de Xangô a cavalo.

O rei que buscou o exílio cham ou-se Onigbogi. Era filho de Oluaso, falecido m uito idoso, e de Aruigba, um a m ulher de Ota, que, após o parir, voltara para sua

48

cidade natal. Conta a tradição que ela regressou a Oió, ao saber o filho alafim ,

e que procurou introduzir na cidade e no reino o culto e os processos divinatórios de Ifá. Repelida, foi ter a Alado, onde, m ais tarde, os oiós iriam iniciar-se nos m istérios de Ifá.

Logo após a partida de Aruigba, a autoridade de Onigbogi foi contestada. O descontentam ento desbordou em revolta. E enquanto os exos, à frente das tropas do alafim , buscavam reprim ir a rebelião num a das cidades vassalas, os nupes, com sua cavalaria, assolaram o país oió e reduziram sua capital.

Os nupes — ou tapas, com o lhes cham am os iorubás — habitam , desde há m uito, sobre o Níger, acim a e abaixo da confluência deste com o Kaduna. No passado, deviam viver nas terras baixas da m argem esquerda do rio, podendo ser relativam ente recente sua instalação na m argem direita, da qual teriam deslocado os iorubás.

No seu território, produziam ferro e silicatos. E por ele transitavam os produtos do sul, com o a cola, para a Hauçalândia. De onde, desde o século XV, j á recebiam cavalos, em troca de eunucos — eunucos que passaram a ser em pregados na corte da rainha Am ina, de Zazau, talvez por influência

49

iorubana.

Não seriam os nupes apenas parceiros de com ércio dos hauçás, m as tam bém adversários. Daí o se terem frequentem ente guerreado. Moham ad Corau, de Katsina, e Am ina, de Zazau, com bateram os nupes, havendo esta últim a, ao que consta, os subm etido à vassalagem .

Os nupes form ariam então — em pleno século XV — vários pequenos reinos, governados pelos etsus. Alguns dos quais pagavam tributo aos igalas. Entre esses reinos que reconheciam a prim azia do ata, ou rei igala de Idah, figuravam os dos benis, entre os rios Níger, Kaduna e Gbako, que se confederaram sob a liderança do etsu de Nku.

50

Conta a tradição que o herdeiro do rei de Idah, num a estada em Nku, fez um

filho num a princesa local. De volta ao país igala, tornou-se m ais tarde o ata. Seu filho, de nom e Tsoede ou Edigi, criou-se entre os nupes e, ao atingir a idade adulta, foi incluído no tributo anual de escravos que se prestava a Idah. Lá chegando, o pai o reconheceu e o cum ulou de carinho, m andando-o depois de volta a Nku, para que reinasse sobre os nupes. Deu-lhe então as insígnias do poder: um a canoa de bronze, as longas trom betas, os tam bores de estado, as correntes e os grilhões m ágicos de ferro.

Tsoede subiu o rio na canoa de bronze e, após um a série de cam panhas m ilitares, unificou num só reino todos os nupes. Não apenas os sedentários, representados pela confederação do Beni, m as tam bém os nôm ades, entre os

l

quais se incluíam os quiedies, que com andavam as águas.

Há quem duvide da historicidade de Tsoede e tenha o m ito por criação tardia,

51

que só tom ou form a no início do século XX. E há quem j ulgue que ele

personifica um a grande m udança social, no caso a unificação política. E há ainda

quem creia na essência do relato tradicional52 e num Tsoede de carne, sangue e

vontade, que teria vivido no início do século XV ou cem anos m ais tarde. 53

Do ponto de vista dos resultados, pouco im porta, aliás, se Tsoede foi lenda ou carne, pois se fez história. E aglutinou um povo. Dele, por isso, um nupe poderia dizer o que Fernando Pessoa escreveu, sobre Ulisses, na Mensagem :

Este, que aqui aportou, Foi por não ser existindo. Sem existir nos bastou. Por não ter vindo foi vindo E nos criou.

Com o a dos songais, a força dos nupes viria a residir no com ando das canoas e dos cavalos. De Tsoede, diz-se que possuía 5.555 cavalos. E ao poderio da tropa m ontada, firm e sobre selas e estribos, atribuir-se-ia a relativa facilidade com que os nupes conquistaram Oió.

Rom pidas as m uralhas de Oió, o alafim Onigbogi, de quem um a das m ulheres era bariba, fugiu para Borgu. Abrigou-se nas terras do rei de Bussa ou do rei de Nikki, os quais o consideravam com o parente, pois o tinham com o da progênie de Quisra.

Na crença num lendário antepassado com um — que lhes deu novas instituições políticas, lhes ditou novos costum es e os treinou em novas form as de guerra, ao introduzir no Borgu a cavalaria, com a qual puderam ferozm ente defender a independência contra os assédios dos vizinhos — assentou-se a unidade de cada um dos reinos baribas, todos sem elhantes aos olhos do estrangeiro. No entanto, esses reinos são form ados por populações de m últipla origem , com um a aristocracia que se distingue da m assa e que se tem por forânea. Em Bussa, Illo e Wawa, as fam ílias nobres falam idiom a próprio, pertencente ao grupo m andinga. Em Nikki, a língua dos senhores é voltaica.

É possível que esses reinos se tenham fundado sobre os estím ulos do com ércio a distância, para proteger o m ercadej o entre a floresta e a savana, e se poderia até m esm o propor a tese de que as dinastias tenham sido originadas por uângaras ou sob seu influxo. Podem tam bém ter surgido da ação m ilitar de grupos vindos de Bornu, Canem ou da Hauçalândia, ou do exem plo e do contágio das form as políticas que se desenvolviam ao norte de Borgu.

Há, aliás, um a tradição segundo a qual os antepassados do soberano de Bussa

vieram de Bornu. Ela foi referida a Hugh Clapperton, 54 em 1826, pelo próprio rei de Bussa, que acrescentou serem os reinos baribas tributários do sultão de Bornu. O m ais provável, porém , é que não houvesse subordinação de uns ao outro, sendo a prestação do tributo, ao que tudo indica, m anifestação de respeito e hom enagem . Em troca, o m ai de Bornu enviaria anualm ente ao rei de Bussa

55

cavalos.

Se Bussa atribui sua fundação lendária a Quisra, Nikki se tem com o criada por

seu filho Oru Massa, que tom ou o nom e de Sunon Sero,56 e Illo reclam a sua origem para outro rebento de Quisra ou um dos irm ãos deste, enquanto Wawa, m ais m odestam ente, pôs seu com eço num sábio que acom panhava o herói civilizador.

Pode-se tom ar o relato tradicional com o um a transcrição sim bólica da realidade, pois as m onarquias baribas se assentavam num a aliança entre um a aristocracia que se considerava estrangeira e a gente da terra. Esta tinha um chefe, que escolhia o soberano dentre as linhagens reais e era, por sua vez,

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confirm ado pelo m onarca.

Em Nikki, o poder do rei fundava-se não apenas no sangue, na descendência de Quisra, m as tam bém na posse dos tam bores sagrados — os quatro grandes barabacarus, que não saem de seus santuários senão nas festas m ais im portantes. Com a m orte de um soberano, a pele desses tam bores é furada e a todos é

vedado olhar o seu oco. 58

Além dos tam bores, os reis e os nobres baribas possuem longas trom betas de cobre, o núm ero dos instrum entos a que cada um deles tem direito m arcando-lhes a precedência e o grau de im portância. Com o entre os nupes.

As sem elhanças e afinidades entre todas essas m onarquias sagradas, do Mali ao Bornu, acentuam -se ainda m ais, quando se com param os m itos, os costum es e

m

as instituições dos baribas, nupes, iorubás, edos, idom as, ibos e igalas. Na

confluência do Níger com o Benué talvez se possa situar a região onde se falava hipoteticam ente o protoidiom a do qual se diferenciaram e ram ificaram as

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línguas de todos esses povos. Quando m enos, ali se identifica um a im portante

área de encontro, troca, som a, am álgam a e difusão de culturas.

A j unção dos dois rios é dom inada pelos igalas. Guardam eles m uita sem elhança com os iorubás e vivem em aldeias a cuj os chefes dão o nom e de onu euo ou onoj a, o “dono do m ercado” ou o “dono da cidade”. Em torno de alguns dos chefes de vilarej os m ais prósperos devem ter-se desenvolvido pequenos estados, que se foram fundindo, pela conquista m ilitar ou pela absorção pacífica de uns pelos outros, em entidades m aiores, das quais a m ais im portante seria o reino de Idah.

Em Idah, com o no antigo Benim , algum as linhagens controlavam a cidade, por interm édio de seus chefes, os igala m ela, ou “nove igalas”, que, com o os uzam as benins, respondiam pelo culto da terra. Num determ inado m om ento — diz a história tradicional — um príncipe, Abutu Ej e, que alguns têm por iorubá, outros por benim , estes por j ucum e aqueles por filho de sangue ou de criação de um leopardo, vai ter a Am agedde, na m argem m eridional do Benué, próxim o ao país

n

idom a. Seguem -se outros reis — Agenapoj e, Ebulej onu, Idoco — que representariam arquétipos m íticos da longa fase, superior no tem po a um a sim ples lista de soberanos, de form ação e aj ustam ento das novas estruturas

60 o

políticas, até que se chega a Aj agba. Este instala-se em Idah, guerreia os j ucuns que dom inavam a cidade e dá início à dinastia dos atas.

Os fatos personificados por Aj agba datariam possivelm ente dos fins do século XV ou do início do XVI (em bora a dinastia vinculada a seu nom e possa ser m ais

nova de uns cento e tantos anos)61 e revelariam , nesses prim eiros tem pos do reino igala, além de intensas relações com os iorubás, um período de estreito contato com o Benim e outro de conflito com um a gente do norte, identificada

com os j ucuns.62

A instalação de Aj agba com o ata m arcaria o início da lenta e progressiva perda de influência dos igala m ela, os “senhores da terra” e fazedores do rei. O ata e sua linhagem controlariam , no passar do tem po, o com ércio e o tráfego pelo Níger e pelo Benué, e im poriam um poder quase incontrastável sobre as terras vizinhas. Suas colônias, ao longo dos rios, estender-se-iam até a Ibolândia e seriam não apenas de m ercadores, m as tam bém de sacerdotes, os atam as, que cultivavam com o m esm o zelo o com ércio e a religião, tal qual ocorre, entre os ibos, com os ezes unris, que se dizem irm ãos dos igalas.

Desde a época em que habitava Am agedde, a linhagem real dos atas possivelm ente j á exerceria, talvez força de seu prestígio religioso, grande influência sobre os povos vizinhos. Com efeito, o reino de Dom a, em Alago, na m argem setentrional do Benué, diz-se derivado dos atas, o m esm o sucedendo com os estados ebiras ou igbirras de Panda e Igu, im ediatam ente a nordeste da confluência do Níger com o Benué. Todos esses reinos pagavam tributo ao ata de Idah. E tam bém os nupes, cuj a unificação a lenda atribui a Tsoede, o filho do grande rei igala.

Quando Tsoede saiu de Idah, levou — diz-se que escondidas em sua canoa de bronze — várias esculturas, nove das quais deixou em Tada e na ilha de Jebba. Um a dessas im agens é a grande figura sedestre de Tada, em cobre, talvez a m ais naturalista de toda a arte africana. A estátua tem sido atribuída a Ifé e é bem distinta dos dem ais “bronzes” ligados a Tsoede.

Entre os outros, destacam -se três, as m aiores estátuas em m etal que j á se encontraram na África: um guerreiro, um arqueiro e um a m ulher, todos de olhos esbugalhados, grandes lábios salientes, pernas desproporcionalm ente grossas e retas com o colunas, e toucas, roupagens e adornos, no caso das im agens m asculinas, profusam ente trabalhados, enquanto que a fem inina está nua, com a lisa superfície do corpo apenas interrom pida por um colar e um fio na cintura. O arqueiro tem 92cm de altura; e o guerreiro, 115cm . Am bos apresentam , sobre a fronte, um disco, que contém em relevo, no caso do guerreiro, um rosto hum ano chifrudo, com cobras e enguias a lhe saírem do nariz. Este tem a e outras afinidades estilísticas fizeram com que se ligassem as três estátuas — a do guerreiro foi datada, pelo m étodo da term olum iniscência, do início do século

XIV ao com eço do XV — ao Benim e sobretudo a Owo.63

De Owo poderiam provir tam bém duas im agens bem m enores, com apenas cerca de m eio m etro de altura. São atarracadas e apresentam as m esm as beiçolas e os m esm os olhos esbugalhados. Um a sustenta um bastão encim ado por um disco. Na outra, a m ão esquerda se fecha sobre o polegar da direita, um gesto característico da sociedade ogboni dos iorubás.

Existem ainda em Tada e Jebba três bronzes de anim ais, m oldados de m aneira inteiram ente distinta: dois a representarem avestruzes, e o terceiro, um elefante.

Se há características que aproxim am essas im agens da arte de Ifé, do Benim e de Owo, não são elas m aiores do que as dessem elhanças de estilo e fatura, o que alerta a im aginação e a fantasia para a possibilidade de terem sido vazadas no bronze e no cobre em Idah ou em outros centros de produção artística nas proxim idades da confluência do Níger com o Benué. Poder-se-ia até m esm o conj ecturar que ali ficava a fonte da escultura em bronze de Ifé, de Igbo-Ukwu e do Benim , ou, quando m enos, que aquela região se integrava na m esm a grande província da arte no m etal a que pertenciam esses estilos. Os igalas podem ter sido receptores e difusores da “cera perdida” e tam bém influenciado os artistas de Ifé, do Benim , de Owo e de outros lugares, ao m esm o tem po que deles recebiam ideias, form as, m otivos e técnicas.

64

E por que não incluir Oió na lista? — j á se perguntou. Um a tradição,

recolhida em Jebba,65 afiança que as grandes figuras de arqueiro e de m ulher

66

foram trazidas de Oió-Ilê, por volta de 1780. Babatunde Lawal sugere que possam ter chegado, da m esm a origem , m uito m ais cedo, no século XVI, quando Oió foi tom ada e saqueada pelos nupes e o alafim teve de refugiar-se em Borgu. E vai além em sua hipótese: aponta para a possibilidade de estarm os, num dos

casos, diante de um a representação de Xangô,67 tendo em vista que o guerreiro de Tada m ostra, no m edalhão que traz ao peito, a im agem de um carneiro e, no disco que lhe ornam enta a fronte, um rosto hum ano com chifres, e exibe, além disso, sinais de realeza, com o são a coroa com pássaros, sem elhante aos adês iorubanos, e o colar de garras de leopardo.

A conj ectura se enfraquece com o saber-se que até hoj e não se encontrou, nas poucas escavações feitas em Oió-Ilê, um só obj eto de bronze ou latão. No entanto, m uitos dos artistas que trabalham o m etal em cidades iorubanas com o Abeokuta, Ilorin, Ibadan, Isey in, Ogbom oso, Iwo e Osogbo, dizem que seus antepassados, gente do m esm o ofício, vieram de lá. Com o de lá se afirm a terem sido trazidos os tam bores bata, do culto de Xangô, com seus enfeites de latão, e as quatro m áscaras de alakoro, que eram , segundo as tradições, usadas no cam po de batalha. O alafim Aganj u cobria os pilares de seu palácio com placas de bronze, sem elhantes possivelm ente às do Benim — conform e conta Sam uel Johnson na

sua história dos iorubás 68 —, e, m uito tem po depois, quando os fulas, no século XIX, invadiram Oió, dali retiraram cerca de “cem postes cobertos de bronze”,

69

que desm ancharam para fazer m unição. É possível que as peças de ligas de cobre que não foram fundidas tenham sido levadas com o butim para longe, por esses ou por posteriores atacantes de Oió, e delas se perdido a m em ória da

70

procedência. Entre elas poderiam estar — segundo esta suposição — as

estátuas que Tsoede levou para Tada e Jebba.

A história de Tsoede tem a m esm a configuração das de Odudua, Oraniã, Quisra, Auam aro, Asodeboiede, Ogum , Obocum e Aj agba. E tam bém dos relatos, ou poetizações do passado, sobre a fundação de Ij ebu, Queto, Savé e outros reinos iorubanos.

p

Os ij ebus vivem a sudoeste de Ifé, num a região que era coberta, no passado, por densa floresta pluvial e se estendia até a grande lagoa costeira, em um a de cuj as bocas fica hoj e a cidade de Lagos. Chegavam até à borla setentrional da lagoa, m as não passavam para o outro lado, com seus pântanos, seus m angues, suas restingas, seus riachos, seus furos e suas extensas praias, até porque a grande

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parte dos iorubanos a religião vedava entrar no m ar, ou m esm o vê-lo.

Os ij ebus constituíram , prim eiro, pequenas unidades políticas, aldeias-estado sob a chefia de um oloj a e de um conselho dos representantes das linhagens, e, m ais tarde, vários reinos, todos com obás coroados: Ij ebu-Ode, Rem o, Idowa, Iwoy e, Ij ebu-Igbo, Owo-Ikij a, Ij ebu-Ifé. O soberano de Ij ebu-Ode, o avuj ale, tornar-se-ia o m ais im portante de todos eles, o prim us inter pares, e o território sobre o qual exerceria, direta ou indiretam ente, o poder só seria m enor, no Iorubo, que aquele sob a suserania do alafim do Oió.

As tradições de Ij ebu-Ode atribuem a fundação dos vários segm entos ou bairros em que se divide a cidade a três m igrações que se sucederam no tem po. Com a prim eira, dirigida por um certo Olulua, teriam vindo Aj ebu e Olode, os responsáveis pela dem arcação dos lim ites da nova aldeia, que deles tom aria o nom e. O segundo grupo, com andado por Arisu, seria proveniente de Ifé ou do Benim . E o terceiro, e m ais im portante, teve por chefe Ogborogã, filho de Odudua, que, ao chegar às portas de Ij ebu-Ode, foi aclam ado por seus habitantes e cham ado rei. Daí o nom e que tom ou, Obanta ou Obanita — de oba wa nita, “o rei está lá fora”. Instalado no poder, Obanta m andou vários de seus seguidores

serem obás em outras cidades do país ij ebu. 72

Sam uel Johnson73 registra outra versão, provavelm ente oió, sobre as origens de Ij ebu-Ode. Escreve ele que ij ebu significa “o alim ento das profundezas”, ou sej a, das águas do m ar. E que esse povo descenderia de indivíduos que o obá do Benim m andava sacrificar ao oceano. O próprio Obanta teria sido oferecido aos deuses, num a encruzilhada, pelo rei de Owo. Em bora seriam ente ferido e dado por m orto, ele se teria arrastado, durante a noite, para o recesso da floresta, onde sobreviveu com os frutos que colhia e os anim ais que caçava. Quando outros hom ens vieram ter à região, lá o encontraram e o adotaram com o chefe, por ser ele o m ais idoso de todos.

Os costum es políticos introduzidos por Obanta não suplantaram inteiram ente os m ais antigos. Os oloj as continuaram a m anter parte de sua força, com o chefes de suas cidades e aldeias e com o sacerdotes de Agem o, a suprem a divindade dos ij ebus, que preside sobre os orixás e é sim bolizada pelo cam aleão, tido com o a m ais velha de todas as criaturas.

A crença em Agem o deve ter precedido, no país ij ebu, a veneração dos orixás. Da m esm a form a que o culto da terra, corporificado num a sociedade de que são m em bros os anciães, os detentores de títulos e os chefes de corporações de ofícios. Cham a-se oxugbo e se reúne em segredo, para tom ar deliberações de ordem política e j udiciária. Nos seus conselhos, todos os m em bros estão em pé de igualdade e, um a vez tom ado um voto por m aioria, a decisão a todos obriga e deve por todos ser honrada.

A sociedade oxugbo teria servido, desde o início, para cercear o poder absoluto do avuj ale. Este dependia tam bém do apoio da nobreza e dos conselhos dos hom ens bons. Em bora fosse um rei sagrado.

Com o os dem ais obás iorubanos, ele era, em prim eiro lugar, o senhor de sua cidade e, subsidiariam ente, o de todas as terras que form avam o seu dom ínio ou sobre as quais detinha, de um a form a ou de outra, a suserania. Com o tem po, passou a receber as hom enagens, com o o principal dentre eles, de todos os obás com adês que governavam os outros estados independentes dos ij ebus. De certa m aneira, portanto, reinou sobre reis.

Os dom ínios sob o controle direto do avuj ale estavam cercados por extensa m uralha de terra — o Eredo. Tinha a m uralha 128km de com prim ento e envolvia aproxim adam ente m il quilôm etros quadrados. Sua altura atingia sete m etros em alguns pontos, e era acom panhada por um fosso exterior, de seis a oito m etros de profundidade. Foi a essa fortificação que se referiu Duarte Pacheco Pereira, no

Esm eraldo de Situ Orbis,74 escrito nos prim eiros anos do século XVI, ao descrever a cidade de Gebu. Ele a diz grande. E fala do com ércio que ali se fazia. De escravos e de presas de elefante.

Estas eram as m ercadorias de interesse dos europeus. Mas outras m uitas deviam ser trocadas entre a costa e a floresta, entre a floresta e a savana. Pois os ij ebus, em bora excelentes agricultores, sem pre tiveram fam a de inexcedíveis no com ércio. E no fabrico de tecidos, sobretudo os azuis e os listrados de azul e branco. Foi de lá que provieram os m ais requestados dos panos da costa que, ao

longo dos séculos, se im portaram no Brasil. 75

Contraditoriam ente, num povo de com erciantes, os ij ebus deixaram a reputação de serem hostis aos forasteiros. Dizia-se que o acesso à cidade estava proibido à gente de fora e que, se um estrangeiro nela entrava pela m anhã,

76

seguram ente seria um a vítim a sacrificial antes do cair da noite. Pois os ij ebus,

além de xenófobos, eram grandes adictos aos sacrifícios hum anos. Acim a do país ij ebu, viviam , tam bém em aldeias no m eio da floresta, os egbas. Seus dom ínios se estenderiam , no passado, do rio Oba, ao norte, até Ebute-Meta, ao

sul, e do rio Oxum , a leste, ao rio Yewa, a oeste. 77 Form avam , cada qual com seu obá, várias cidades-estado, as quais viriam a ligar-se num a espécie de tênue confederação, dividida em três províncias, ou três grandes sistem as de parentesco.

Na parte m ais setentrional, lindando com Oió, ficava Egba Agura, cuj as principais cidades-estado eram Iddo ou Agura, Ilugun, Ibadan, Ifay e, Ika, Oj o e Ilawo. A sudeste, j unto ao rio Odo Ona, situava-se Egba Oke Ona, que abrangia, entre outras, as cidades-estado de Oko, Ikereku, Ikij a, Idom apa, Odod e Podo. A

sudoeste, Egba Agbey in, com Ake, Ij eun, Kem ta, Ipore e Igbore. 78

De todos os seus reis, som ente três tinham direito de usar o adê: o obá de Agura, o oxile ou oloco, que era o obá de Oko, e o alaquê, ou soberano de Ake. Cada um deles com um a espécie de suserania espiritual sobre os dem ais obás da província a que pertenciam .

Os egbas — com exceção dos de Agura — não possuíam fam ílias reais, podendo qualquer um de seus hom ens bons ser eleito, ou escolhido por

79

adivinhação, obá. E as tradições se repartem em fazer essa elite proveniente

de Oió ou de Ifé.

80

Conform e Sam uel Johnson, a m aioria dos chefes egbas descenderia de exos

de Oió, que, sob o com ando de um m eio-irm ão do alafim , decidira, no curso de

81

um a cam panha m ilitar, instalar-se na área. Esta, segundo outra teoria, teria

sido ocupada em três ou quatro sucessivas m igrações. Prim eiro teriam chegado à floresta os egbas aguras. Depois, os okes onas. E, em seguida, os egbas agbey ins. Finalm ente, vindo de Ifé, o m aior grupo de todos, conduzido pelo prim eiro alaquê, que seria um filho ou neto de Odudua.

Esse prim eiro alaquê — segundo a história tradicional dos egbas e dos quetosq

r

— teria acom panhado seus dois irm ãos, Xopasã e o fundador de Oió, na m igração de Ifé para o oeste. Xopasã, ou Itcha Icpatchan (“o chicote do fetiche”) — que, segundo outra versão, seria não o filho, m as o esposo de um Odudua transform ado, no panteão de Queto, em orixá fem inino — conduziu o grupo para o outro lado do rio Ogum . Ali, o bando dividiu-se: alguns seguiram para o norte, ao longo das águas, e foram fundar Oió; outros buscaram o noroeste, de onde desceram para o sul, e foram criar Savé; e os que obedeciam a

s

Xopasã e a seu sobrinho Oué construíram um a aldeia num m onte conhecido com o Oke Oy an. Mais tarde, deslocaram -se para Aro, próxim o à atual fronteira

82

da Nigéria com a República do Benim . Morto Xopasã, Oué assum iu a chefia.

Após se passarem quatro obás, Edê, ao verificar que as terras dos arredores se haviam esgotado e não m ais tinham condições de alim entar o seu povo, cuj o núm ero aum entara consideravelm ente, decidiu sair em busca de m elhor destino. De novo, os iorubás se dividiram em três grupos: o prim eiro, sob o com ando de um caçador, Idofa, filho ou sobrinho do rei, foi fundar um vilarej o, que tom ou o seu nom e, sobre o rio Yewa; o segundo, dirigido por Matchai, ergueu Igbo Oran, a uns cinquenta quilôm etros ao norte de Abeokuta; e o terceiro, o m ais im portante, com posto por 120 fam ílias, sob a liderança do próprio Edê e guiado pelo seu filho m ais velho, o caçador Alalum om , foi ter aonde hoj e é Queto, ali construindo suas cabanas em torno de um iroco ou m angabeira.

Conta a tradição que Alalum om , logo na prim eira noite passada na aldeia,

obteve o fogo de um a m ulher do lugar, Ia Panca. t Não é esta a única indicação

u

de que ali j á houvesse outros habitantes, fons, iorubás ou pertencentes a um grupo j á extinto. Próxim o a Queto, existem túm ulos m uito antigos, escavados na couraça laterítica e tidos pelos atuais m oradores do lugar com o obra de

antecessores desconhecidos. 83 A estes atribuem -se tam bém as tum bas, as cisternas, as fortificações arruinadas e os fragm entos de cerâm ica encontrados

próxim o aos vilarej os de Idahin e Ewe.84

A história oral m enciona, entre os que j á viviam no lugar, um tecelão corcunda, m orto, com o oferenda propiciatória, num ponto por onde passara Edê e onde se ergueria a porta de Idena, um a verdadeira fortaleza incrustada na m uralha que circunda Queto — um grande paredão de terra com m ais de 3,50m de altura, e fossos exteriores com 2,50m de profundidade e m ais de nove m etros de ancho. A esse corcunda e à pretensa inexpugnabilidade da povoação atribui-se o nom e que ela viria a tom ar. Derivaria o nom e do início desta frase alegórica: Kê tou Kêê? Kê fo lou? “Quem pode consertar um a corcunda? Quem pode

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destruir nossa cidade?”

Os com panheiros de Xopasã que, após a travessia do rio Oxum , não o seguiram , nem ao fundador de Oió, m archaram para noroeste. Sob o com ando de quem , dentre os que saíram de Ifé com Xopasã, era o m ais j ovem dos príncipes. Foram eles fixar-se num a floresta cheia de leões — donde o nom e Kilibo —, dali sendo expulsos para o sul. Acabaram por abrigar-se nas m ontanhas de Savé, onde construíram um a cidade, próxim a à confluência dos rios Wem e e Okpara.

Essa é a história que contam os quetos. Mas a versão que o abade Thom as

Mouléro86 recolheu em Savé (ou Sabe) é diferente. Segundo ela, o chefe do grupo seria Salubê, o m ais velho dos príncipes ifés. Ele teria conduzido o seu povo até Boko, perto de Nikki, no país bariba. Tendo lá m orrido, sua gente foi levada por Iem ensi a Tchaourou e, depois, por Adj ongu a Kilibo, onde se dem orou durante nove reinados. Finalm ente, para fugir à pressão bariba, foram para as colinas de Savé, de onde tiveram de expulsar, após duras batalhas, os que lá viviam , um povo cham ado oj odu.

Deste, nada se sabe. Mas talvez não fosse distinto dos xás ou sás,v que vivem ao norte e ao nordeste de Queto, falam o iorubano e adoram Nanã Burucu, um a divindade antiquíssim a. Muito em bora se afirm em descendentes de ij exás, os xás

são considerados os m ais antigos habitantes da área.87 Tão antigos quanto os anás, que vivem em Atakpam é, no Togo, tam bém fiéis de Nanã Burucu. Os

antepassados dos anás teriam deixado Ifé, antes que ali chegasse Odudua.88

Muito m ais recentes seriam as populações iorubanas que falam os dialetos egbado, anagô e ahori, e que povoam o extrem o sudoeste do Iorubo. Contariam , porém , com pequenos reinos, com o os de Ilobi e Ilaro, no Egbado, o de Isheri, entre os ahoris, e o de Ifony in, entre os anagôs, antes que principiasse o século

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XVI.

Por essa época, a sociedade secreta ogboni — que tom a, entre os ij ebus, o nom e de oxugbo — j á devia existir e servir de peia ao poder dos obás em quase

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todo o Iorubo. Não, talvez, na velha Oió, pois há um a tradição, que Frobenius registra, segundo a qual o culto ogboni só se teria im plantado entre os oiós depois de 1836, quando foram eles obrigados a m udar-se para um a nova cidade, bastante m ais ao sul. Mas há indícios em contrário: o apena, um dos líderes ogbonis na Nova Oió, alega, por exem plo, que seus ancestrais detinham o título na antiga capital, e os núcleos ogbonis de várias cidades do egbado se declaram

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derivados da prim eira Oió.

A sociedade ogboni, devotada ao culto da terra, seria forte ressonância de um a religião anterior à chegada dos orixás, às m udanças políticas atribuídas aos filhos e aos netos de Odudua. Os novos reis viram -se obrigados a prestar hom enagem aos oniles, ou “donos da terra”, e aos sacerdotes que sabiam pacificá-la e m antê-

la fértil.92 Estes conservaram , assim , poder e influência no novo regim e. E continuaram a se reunir com os dem ais anciãos, para, em segredo, cum prir os ritos de sua fé, zelar pela m anutenção dos velhos costum es, m anter a ordem , j ulgar os que feriam o equilíbrio social e sobretudo os atos de que resultasse o derram am ento sacrílego de sangue sobre a terra.

Os chefes e, em vários lugares, o próprio obá, eram m em bros da sociedade ogboni e participavam do m istério de seus encontros. Neles não tinham , no

entanto, qualquer privilégio.93 Suas vozes valiam , em princípio, o m esm o que a dos dem ais anciãos. E eram com o os outros, sim ples eleitores.

Com o tem po — se é que assim não foi desde o início — a sociedade ogboni tornou-se, em cada reino, um im portante foro político, sem cuj a aprovação as grandes decisões do obá não podiam cum prir-se. Fez-se m esm o, em alguns casos, j uiz do próprio rei. No Egbado, por exem plo, o cabeça ritual dos ogbonis era o responsável pelo oráculo que devia ser anualm ente consultado, a fim de que se soubesse se o obá continuava a gozar dos favores dos orixás e devia

continuar no posto. 94

Esses reis sagrados, que, ao m orrer, se faziam deuses, estavam , portanto, subm etidos a um elaborado sistem a de controles e contrapesos, do qual não apenas a fidalguia, m as toda a com unidade participava. Eram senhores da natureza e da m orte. Mas tinham lim ites na condução dos assuntos dos hom ens.