A Enxada e a Lança
3. Querma
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Querm a
O grande arqueólogo da Núbia, George Andrew Reisner, cham ou Grupo A ao povo que seria o responsável por um a cultura que, a partir do fim do quarto m ilênio a.C., se estendeu, ao longo do Nilo, desde a Prim eira Catarata até o Batn-el-Hagar, o “Ventre de Pedras”. Tantos foram os artigos egípcios que desenterrou de inum eráveis sepulturas (utensílios de cobre, am uletos, obj etos de adorno, tecidos de linho, vasos de pedra e de barro) e tão grandes as sem elhanças entre a cerâm ica local e a egípcia pré-dinástica, que supôs estar diante de colônias egípcias, estabelecidas num a terra até então desabitada.
Enganou-se. Desde m uito, a Núbia Inferior ou Baixa Núbia — a região entre a Prim eira e a Segunda Cataratas, com seus vales ribeirinhos bem m ais estreitos que os do norte — e o Batn-el-Hagar — entre a Segunda e a Terceira Cataratas, inóspito, de dias tórridos e noites geladas, coberto de pedras de todos os tam anhos, com o deserto a chegar à beira d’água e só interrom pido, de vez em quando, j unto ao Nilo, por breves espaços que acolhem o aluvião — abrigavam populações culturalm ente aparentadas às de Cartum prim itiva, às de Esh Shaheinab, às de Kadero e às responsáveis por outra indústria lítica e oleira, a de Abkan, cuj os restos podem encontrar-se em Wadi Halfa, perto da Segunda Catarata.
A cerâm ica de Abkan tem afinidades com a do Egito pré-dinástico. Seus vasos são sim ples, de paredes finas, castanho-averm elhados. Foram m oldados por grupos que viviam à m argem do Nilo e retiravam da pesca o sustento. A caça parece ter tido, para essa gente, dim inuta im portância. E ignora-se se tinha acesso a rudim entos da agricultura ou da pecuária.
Em Wadi Halfa, encontrou-se algum a cerâm ica típica de Esh Shaheinab. Vasos do m esm o estilo predom inam , aliás, em outros sítios próxim os, que parecem ter sido prolongam entos nortistas da cultura neolítica da região de Cartum . Nesses lugares, surgem tam bém terracotas ao j eito de Abkan, a revelar a contem poraneidade dos dois grupos e certo com ércio entre eles.
Enquanto os restos da cultura de Abkan estão sem pre colados ao rio, os que se ligam ao estilo de Esh Shaheinab localizam -se frequentem ente a considerável distância do Nilo. Neles não se revelam as bases de sua subsistência econôm ica, que se presum e terem sido a criação de gado e a caça de pequenos anim ais.
Dessas e de outras culturas locais e das novas ideias e práticas que do Egito subiam as águas, teria surgido o com plexo a que Reisner deu o nom e de Grupo A. Pelo m enos é esta a história que contam seus cem itérios, a acom panhar as duas m argens do Nilo, desde a Prim eira Catarata até Seddenga, ou Sedeinga, a m ontante do Batn-el-Hagar. Neles encontram -se, lado a lado, vasos de barro provenientes do Egito e outros de fatura local, de tipos bastante variados. Uns a denunciarem ter por fonte Esh Shaheinab. Outros, Abkan. Entre os de produção núbia, destacam -se tigelas e j arros de lustrosa parede exterior verm elha, com o interior e rebordos negros.
Assim se conseguia o belo efeito: antes de ser subm etida ao fogo, esfregava-se a peça com hem atita em pó; ao sair do lum e, era ela colocada, de boca para baixo, num a cam a de folhas ou de palha; a fum aça enegrecia a parte da abertura
do vaso. 1 Posteriorm ente passou-se a desenhar, na sua face externa, linhas grossas, a form arem desenhos geom étricos, sobretudo losangos, num a im itação de cestaria de vim e.
Esse tipo de cerâm ica apresenta afinidades com os vasos de boca preta fabricados em Badari e nas fases subsequentes do Egito pré-dinástico. É provável que deles derive. Espalhou-se pela Núbia afora, onde continuou a ser produzido
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um m ilênio e m eio depois de ter caído em desuso no Egito.
Os cem itérios do cham ado Grupo A apresentam duas espécies de sepultura:3 um a sim ples, oval, quase redonda, com cerca de oitenta centím etros de profundidade; e outra, m ais com plexa, tam bém oval, form ada por duas covas, a m ais rasa a dissim ular a m ais profunda, que se abre próxim o à aresta que une um a das paredes ao chão daquela e se prolonga lateralm ente por baixo do solo. Essa câm ara escondida pode chegar a l,30m de profundidade.
Num e noutro tipo de tum ba, deitava-se o m orto do lado direito, em posição contraída, com seus colares e braceletes, cercado de obj etos de prestígio ou de uso diário — vasos de cerâm ica, palhetas e m ós de alabastro, m achados de cobre, bum erangues de m adeira, j oias de conchas, cornalina e esteatita. Além de leques de plum as de avestruz, contas de faiança, pentes e braceletes de m arfim e figurinhas hum anas de argila. As tum bas eram cercadas por um anel de pedras.
Querm a, Napata e Méroe
Havia sepulturas ricas e sepulturas pobres. A refletirem diferenças de condição e destino. Diferenças que se m ostram , com relativa clareza, nos restos de um a povoação, j unto a Afy eh, entre a Prim eira e a Segunda Cataratas. Ali se encontraram os m ais antigos exem plos, até agora, de arquitetura de pedra e argam assa na Núbia: casas retangulares, com até seis côm odos, que abrigavam
possivelm ente um a elite4 e contrastavam com as palhoças ou as habitações de estaca e esteira em que viviam as pessoas com uns.
As casas de pedra podem tam bém indicar a consolidação do sedentarism o do
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Grupo A, pois anteriorm ente seus lugares de m orada eram , ao que parece, pequenos acam pam entos, com não m ais de m eia dúzia de fam ílias, localizados à beira do rio, na m aior parte do ano, e que se transferiam para fora do vale, quando este com eçava a alagar-se.
Cultivavam -se ali os m esm os vegetais que no Egito, principalm ente o trigo e a cevada. Criavam -se caprinos, ovinos e bovinos, pois roupas de couro eram com uns nas sepulturas do Grupo A.
Mais com uns ainda eram os artigos egípcios. Sobretudo j arros de barro bastante corriqueiros, feitos em série, m uito inferiores à cerâm ica produzida localm ente. Não seriam , ao que parece, im portados por seu valor próprio, com o cerâm ica: chegavam à Núbia com o recipientes de azeite, unguentos, m el e
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tecidos. Esvaziados de seu conteúdo original, passavam a guardar água e alim entos.
Em troca daqueles bens e de artigos de luxo (obj etos de cobre, de cornalina, de conchas, de alabastro e de outras pedras trabalhadas), os núbios forneceriam aos egípcios gom as, incenso, peles de pantera e de outros anim ais, m adeiras, ovos e plum as de avestruz, obsidiana e m arfim . Sobretudo m arfim .
Esse com ércio era possivelm ente conduzido pela gente de Assuã, que subia o Nilo de barco, após vencer a Prim eira Catarata, ou transportava as m ercadorias por terra, no lom bo de j um entos. Os núbios, por sua vez, iam buscar ao sul, na Núbia Superior — que se estende a partir da Segunda Catarata até Cartum —, os produtos para a troca, pois m uitos destes não existiam na difícil região que habitavam . Talvez procurassem m anter em suas m ãos o controle do escam bo com as populações m eridionais e criassem em pecilhos ao trânsito dos egípcios, aos quais interessava o livre acesso às fontes de m atérias-prim as. Às m atas, por exem plo, onde poderiam cortar a m adeira que com eçava a escassear no vale do Nilo, cuj os bosques ciliares cediam espaço às lavouras. Da diferença de interesses, podem ter surgido confrontos arm ados. E tam bém da desconfiança entre povos cuj os padrões culturais se apartavam rapidam ente dos m odelos sem elhantes de vida, dantes prevalecentes tanto ao norte quanto ao sul da Prim eira Catarata.
Um desses choques ficou registrado num a placa de arenito, hoj e exposta no Museu Nacional do Sudão, em Cartum , m as que se encontrava originariam ente no alto de um outeiro próxim o a Wadi Halfa. Nela está gravado o nom e do faraó Zer (ou Dj er), o terceiro da Prim eira Dinastia, e veem -se um barco egípcio, com o que talvez fosse um chefe núbio am arrado à proa, e vários cadáveres nas águas do rio. Num canto, o hieróglifo tradicional para a Baixa Núbia.
É de crer-se que as com unidades do Grupo A dispusessem de chefes. Seria cada um deles, talvez, m ais do que sim ples cabeça de linhagem , do que líder de um a fam ília extensa. Talvez fosse sem elhante a um senhor da chuva, das tribos m ais ao sul, capaz de dom ar os elem entos naturais (com o as inundações do Nilo) e de propiciar a fartura. Talvez j á antecipasse o tipo de rei divino que Jam es Frazer idealizou em The Golden Bough: um ser em que o deus da natureza se encarnava. Por isso, controlava as chuvas, garantia a bondade das águas, assegurava a fertilidade do solo, do gado e dos hom ens. De tal m odo estaria associada a sua vida à da terra, que a falta de vigor, a enferm idade ou a m orte por doença trariam consigo a seca, a inundação ou as pragas. Porque a divindade se finaria, se falecesse inesperadam ente o corpo que tornara seu, não se deixava que o chefe se debilitasse ou envelhecesse, e lhe era dada m orte ritual após algum tem po de m ando. Assim o deus poderia transferir-se para um novo corpo vigoroso.
A ideia do líder com o senhor da natureza está tam bém nas raízes da concepção egípcia do faraó. Este era um rei divino. Era a encarnação de Hórus, um deus celeste, o prim eiro soberano do baixo Egito, e de Set, o deus que fora o prim eiro m onarca do Alto Egito. Era filho de Rá, o deus do Sol. E, m orto, identificava-se com Osíris. Era o eixo do m undo. Ninguém estranharia, portanto, que tivesse o poder de regular as cheias do Nilo, ou que, ao lavrar ritualm ente os cam pos, lhes renovasse a uberdade e favorecesse as colheitas.
Um a rem iniscência da concepção inicial do faraó com o senhor das chuvas e m orada do deus da natureza talvez tenha persistido na festa Sed (ou Dj ed), da época tinita. Ao fim de trinta anos de reinado, ou, algum as vezes, antes, fazia-se nova coroação. O faraó m orria sim bolicam ente e sim bolicam ente nascia de novo. O sacrifício ritual fora substituído pela m orte im aginária e pelo nascim ento
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de um novo rei no m esm o corpo do antigo. Se é que assim era.
É possível que o chefe do Grupo A não tivesse ainda esses altos atributos. Seria, então, apenas um líder nas arm as e no com ércio, um pacificador de disputas entre estirpes ou grupos diferentes, um j uiz e um provedor. Mas a todos esses ingredientes do poder, cedo costum a som ar-se a ideia, que se volta em fé, de que o chefe possui dons sobre-hum anos, de que m antém um pacto com o m istério, é protegido dos deuses, a eles tem acesso e com eles dialoga, de um deles descende ou com parte com eles idêntica natureza.
Não se saberá j am ais ao certo quem era o hom em enterrado, com sua fam ília, num cem itério ao sul de Sey ala, num a época que coincide com o início da Prim eira Dinastia egípcia (c. 3000 a.C.). Tem ao seu redor obj etos que indicam riqueza superior à dos dem ais túm ulos: vários vasos de pedra, grande núm ero de m achados, cinzéis e barras de cobre, um a caneca de ardósia, duas grandes palhetas com form a de pássaros, um a cabeça de leão em quartzo rosa, recoberta por um vidrado verde, um espelho de m ica e duas m aças com placas de ouro no punho. Num a delas, vê-se um a série de anim ais em baixo-relevo.
Seria um chefe? Ou um sim ples m ercador bem -sucedido, um interm ediário próspero do com ércio núbio-egípcio? Ou o com andante de tropas m ercenárias núbias a serviço dos egípcios e que deles recebeu aquelas recom pensas e com
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elas se sepultou em sua terra natal? Um a hipótese não exclui as outras. É prerrogativa das chefias assum ir o controle, quando não o m onopólio, das trocas com os estrangeiros. E costum am levar sua gente a guerras por estranhos.
Por volta de 2900 a.C., entraram em declínio as povoações do Grupo A. Com o fortalecim ento e a concentração do poder nas m ãos do faraó e da sua corte, o Egito pode ter deixado de usar os núbios com o interm ediários em seu com ércio com o sul. Pode ter, além disso, aum entado a pressão m ilitar sobre a Núbia, forçado o tráfego direto Nilo acim a, com eçado a prear escravos. Os núbios podem ter-se visto obrigados a refugiar-se num pastoralism o sem elhante ao das tribos saarianas, num sem inom adism o entre o vale do Nilo e os oásis e poços dos
desertos adj acentes.9
Para preencher cinco séculos de decadência, Reisner convocou um outro grupo hum ano, a que cham ou B, e que seria responsável por num erosas tum bas nas quais os m ortos não são acom panhados por seus bens, ou estes são poucos e pobres, de m anufatura local.
A existência de um Grupo B, distinto do Grupo A, a que teria sucedido, foi posta em dúvida desde o início. Hoj e, tem -se por provável que os túm ulos a ele atribuídos eram tão som ente sepulturas de gente de poucos recursos. A diferença nos enterram entos seria devida a diferenças de classes sociais dentro da m esm a população. E, se os sepulcros tidos com o do Grupo B se tornaram predom inantes após 2900 a.C., isto não se deveria a um a substituição de populações na Baixa Núbia e no Batn-el-Hagar, m as ao fato de ter havido um em pobrecim ento geral,
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com o aum ento da pressão m ilitar egípcia e o declínio do com ércio. Ou, então,
um a m udança no m odo de vida, com o abandono das atividades m ercantis e a concentração na pastorícia nôm ade ou sem inôm ade.
O rarear de obj etos im portados nas sepulturas núbias não indicaria ter o Egito perdido cuidado com as terras além de Assuã. As prim eiras dinastias, assim com o as que as sucederam , trataram sem pre de proteger as Três Portas do país — o noroeste do Delta, o Sinai e o lim ite m eridional, na Prim eira Catarata. Muitas vezes, procuraram executar um a política de distanciam ento de fronteiras — ou, pelo m enos, de criação de postos avançados, de defesa e de com ércio, um pouco além do que tinham por lim ite territorial da soberania do estado.
Outros m óveis havia, estes econôm icos, para que o Egito não descurasse a Núbia e prom ovesse expedições àquela terra. Necessitava de m adeira e diorito. Queria m arfim . Apreciava as peles de pantera e de outros anim ais, as plum as de avestruz, os produtos exóticos do sul. E ali passara a encontrar um a fonte de escravos.
Na Quarta Dinastia, o faraó Esneferu organizou um a expedição à Núbia. Aí por 2680 a.C. Seus hom ens regressaram com sete m il escravos e duzentas m il cabeças de gado. Um saque espantoso. Que deve ter debilitado a Núbia. E cuj os núm eros, ainda que exagerados, m ostram o quanto a pecuária se desenvolvera na região. Um a pecuária que exigia relativo nom adism o, pois tam anho volum e de gado não podia senão à solta encontrar ali pastagem .
Não bastavam aos egípcios o butim e o escam bo ocasionais. Procuraram criar possivelm ente as bases de um a presença sólida, ao estabelecer um a feitoria e um a fundição de cobre em Buhen, a j usante da Segunda Catarata. Deviam ter um entreposto nas proxim idades de Toshka, às m argens do Nilo, pois dali saíam caravanas carregadas de diorito, que cortavam em pedreiras no deserto. E há
sinais de que andaram a buscar m inerais em Dakka, a 133km ao sul de Buhen. 11
Essas em presas esbarraram possivelm ente na resistência núbia. As próprias expedições não se faziam sem grande perigo. Com o o prova o destaque que a elas se dá nos relatos régios. Cam panhas, a um só tem po m ilitares e m ercantis, pareciam m ais aparelhadas para a pilhagem do que para a troca.
As que em preendeu um certo Harcufe foram , porém , tipicam ente com erciais. Num a inscrição tum ular, m andada fazer por ele em Assuã, por volta de 2275 a.C., narra-se com o chefiou quatro viagens, a subir o vale do Nilo ou pelo deserto ocidental, de oásis em oásis, até um país que se cham ava Iam . Em cada um a delas gastou de sete a oito m eses.
Talvez tenha percorrido o Nilo Azul até a Etiópia. Ou acom panhado o Nilo Branco até Uganda. Ou o Bahr-el-Ghazal até o norte da República Dem ocrática do Congo. Talvez tenha chegado às terras m ontanhosas do Darfur. Mas pode tam bém não ter passado além da Alta Núbia. O que nos diz é que regressou da terceira expedição com trezentos asnos carregados de toda sorte de bons produtos: incenso, m arfim , ébano, peles e bum erangues — bum erangues sem elhantes aos que, ainda há pouco, usavam as populações negras do Nilo Branco.
Na quarta viagem trouxe tam bém um pigm eu — um anão dançarino. Mal soube da nova, seu soberano, Pepi II, o últim o da Sexta Dinastia, apressou-se em escrever-lhe: “Acode ao norte, à corte, im ediatam ente. Conduz contigo o anão que tiraste vivo e são da terra dos espíritos, para as danças do deus, a fim de que se regozij e o coração do rei do Egito Inferior e Superior, o que vive para sem pre. Ao baixares o rio, cuida que haj a sem pre alguém de confiança j unto ao anão, dos dois lados do barco. Procura evitar que caia n’água. À noite, quando durm a, põe gente a deitar perto dele, na tenda. Mais desej a Minha Maj estade ver este
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anão do que as riquezas do Sinai e do Punt.”
O relato das façanhas de Harcufe serve de provisório adeus à política de consolidação do com ércio egípcio na Núbia. Logo após a m orte de Pepi II, abre-se no Egito um período de confusão política, de desunião e de intervenções estrangeiras. O país enovela-se na própria desordem .
A crise vinha, porém , de antes. E espelhou-se na Núbia, onde o im perialism o egípcio perdeu im pulso. Com a dim inuição das expedições m ilitares e das partidas de pilhagem egípcias, os núbios voltaram a dem orar-se, com m enor desconfiança e apreensão, nas m argens do Nilo. De novo, construíram vilarej os. E cresceram os núm eros dos agricultores sedentarizados que ali viviam .
À gente identificada com este renovado surto da vida aldeã na Núbia Inferior, Reisner cham ou Grupo C, em bora a tivesse por descendente do Grupo A. Outros
preferem considerá-la com o im igrante, vinda da Líbia13 ou das m ontanhas do m ar Verm elho. Alegam , para isso, as grandes diferenças que a apartam do Grupo A e do suposto Grupo B. As diferenças, contudo, são bem m enores do que as sem elhanças — na cerâm ica e nas form as de enterrar os m ortos, por exem plo. Podem ser tidas com o evoluções naturais ao longo de m ais de cinco séculos, com passagem da predom inância da vida sedentária para a vida pastoril e retorno desta àquela. Os grupos que se viram obrigados a alternar o vale do Nilo com as pastagens do deserto, ou m esm o a afastar-se perm anentem ente do rio e a abrigar-se em terras difíceis, m as onde ainda podiam alim entar o gado, puseram -se em contato com outras culturas, absorveram tribos diferentes, cresceram por som a e am álgam a. O que espanta não é que os horizontes do Grupo C e do Grupo A sej am diferentes, “m as que sej am tão pouco diferentes”
— com o afirm a William Y. Adam s.14 Muito m ais m arcantes são as m udanças culturais que se verificariam , no correr de oitocentos anos de história, no próprio Grupo C.
Entre os Grupos A e C, não houve alteração na m aneira de deitar o m orto na cova: do lado direito, fletido ou sem ifletido. Nas tum bas do Grupo C, a cabeça apoiava-se, porém , num travesseiro de palha. E o corpo podia estar envolvido num a m ortalha de couro. A cova era circular ou oval, com o dantes. Mas sobre ela erguia-se um a estrutura de argam assa e pedra, um anel de quase um m etro de altura e entre l,50 e 5,50m de diâm etro, que se enchia de cascalho e de areia, de m odo a cobrir a grande pedra ou as traves de m adeira que se punham sobre a cova, onde o corpo ficava isolado da terra, num a espécie de câm ara. Às vezes, rem atavam com laj es o túm ulo em form a de cilindro.
Com o tem po, os sepulcros do Grupo C foram sofrendo m odificações. A cova tornou-se retangular: prim eiro, com os cantos arredondados; m ais tarde, com os cantos em ângulos; em am bos os casos, revestida de placas de pedra. A superestrutura cilíndrica fez-se m aior e, depois, a ela se acrescentou um a espécie de quartinho retangular, para oferendas. Estas continuaram a ser colocadas dentro do túm ulo, m as eram tam bém dispostas de encontro à parede externa do sepulcro, talvez durante cerim ônias em honra do m orto, que se faziam m uito depois de seu enterro, quem sabe se de form a periódica. Posteriorm ente, a câm ara m ortuária passou a ser revestida de tij olos e, em vez de ser coberta por um a laj e de pedra ou por traves de m adeira, teve a encim á-la um a pequena abóbada, tam bém de tij olos, escondida inteiram ente do exterior pela superestrutura cilíndrica.
Acom panhavam o m orto distintas espécies de cerâm ica, tanto im portada do Egito quanto de fabrico local, m ós de pedra, braceletes de diferentes rochas, de osso e de m arfim , brincos de concha, escaravelhos egípcios, contas de osso e de faiança, sandálias de couro e, em um a e outra tum ba, espelhos de bronze e arm as. Enterravam -se anim ais nos túm ulos: cabras, ovelhas, gazelas e cães. Bem com o, nas sepulturas m ais ricas, caveiras de boi. Às vezes, crânios de bois ou de cabras, pintados de verm elho e de negro, eram colocados ao redor dos cilindros tum ulares.
A cerâm ica verm elha, de boca e interior negros, continuou a ser feita em grande quantidade. Mas um novo tipo de vaso com ela com petia fortem ente: negro, brilhante, com incisões geom étricas, em que predom inavam os losangos e triângulos. Após terem os vasos sido cozidos, esfregava-se a superfície exterior com giz ou talco, que penetrava nos cortes e lhes dava a aparência de finas linhas brancas pintadas sobre fundo preto. Eram m oldados m anualm ente, pelo sistem a de roletes, pois, em bora a roda de oleiro desde m uito tivesse sido inventada no Egito, não chegara ainda até os núbios.
Nem a m etalurgia. Os espelhos, os punhais e os espadins de cobre e de bronze encontrados nos sepulcros do Grupo C provinham do Egito. As arm as locais eram feitas de pedra. Característico era um belo m achado de nefrita verde polida.
Tam bém os tecidos vinham de fora. Em pequena quantidade, ao que parece, um a vez que os núbios se vestiam geralm ente de couro — um saiote, um gorro e
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alpercatas.
As diferenças sociais, que no início deviam ser pequenas, acentuaram -se com o tem po. Seriam , porém , m ais quantitativas do que qualitativas — com o distingue
William Y. Adam s.16 Isto é, sem estratificação social, sem rígida separação entre classes, ao contrário do Egito, e sem distinções nítidas na m aneira de viver. A riqueza expressava-se, possivelm ente, em cabeças de gado. E se alardeava nos enterros, num a cultura em que a preocupação com os m ortos, provinda de antigas tradições, se reforçara por influência egípcia.
Os chefes deviam ter funções a um só tem po religiosas, políticas, j udiciárias e m ilitares. Talvez fossem régulos sagrados. E se, de início, eram a cabeça de um grupo reduzido de linhagens e de um pequeno território, gente e terra foram com o tem po acrescentando.
Quando Harcufe fez sua prim eira viagem à Núbia, ali encontrou vários grupos politicam ente organizados. Os m ais im portantes eram , do norte para o sul, os que dom inavam os territórios de Uauate, Irtej ete e Satj u. Além deles, ficava Iam , talvez na Núbia Superior. Na segunda viagem , Irtej ete e Satj u j á estavam sob um só chefe. E na terceira, Uauate tam bém se havia incorporado ao m ando de quem
se transform ara num verdadeiro rei de toda a Baixa Núbia. 17 Processo sem elhante de concentração política devia estar a passar-se na Alta Núbia, pois Harcufe refere expedições de conquista prom ovidas pelo senhor de Iam .
Essa m udança política respondia à crescente sedentarização. As aldeias aum entavam de tam anho e, dentro delas, as m oradias se tornavam m ais com plexas. De início, eram apenas tendas circulares cobertas por peles, com quatro a cinco m etros de diâm etro. Seguiram -se pequenas casas de planta circular e um só côm odo, com o interior abaixo do nível do solo externo e alicerces e paredes de pedra. O teto seria de palha, assentado num a estrutura de m adeira. Da m esm a época são conj untos de salas circulares, com seis ou sete aposentos e pátios. Vieram depois casas retangulares, com paredes de tij olos crus, em tudo sem elhantes às habitações egípcias.
Alguns povoados passaram a ter m uralhas protetoras. Com o o de Wadi es-Sebua, no norte da Núbia, habitado por volta de 1800 a.C. Tinha um as cem casas, apertadas um as contra as outras. Casas redondas de um só côm odo. Ou de form a irregular, com vários com partim entos arredondados. A m uralha, de pedras em pilhadas, com um m etro de espessura na base e altura de dois m etros, envolvia em arco o lado ocidental da vila, cuj a banda oriental lim itava com um
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precipício que ia dar no Nilo. No m uro, havia três portas e 32 seteiras.
A vida econôm ica assentava-se na agricultura e na pecuária. Cultivavam -se os m esm os vegetais que no Egito. E a pastorícia devia ser atividade de prestígio, pelo gado m edindo-se riqueza e im portância.
O boi era, aliás, o principal assunto da arte do Grupo C. Encontra-se pintado ou gravado por toda parte: em rochas, paredes de casas, estelas funerárias, vasos de cerâm ica. Muitas vezes em fileira — rebanho que o pastor conduz, com seu caj ado ao om bro. Tam anha é a insistência do m otivo, que ali pode ter nascido o “culto do boi”, tal com o se conhece entre os povos nilóticos, m ais ao sul.
É possível que o gado em pé form asse entre os itens das trocas núbias com os
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egípcios, pois estes, na sua terra, por ele pagavam altos preços. Esse com ércio
j am ais cessou, independentem ente das circunstâncias políticas, em bora pudesse m udar de form ato e aspecto, conform e a atitude do Egito em relação à Núbia. Atitude que foi quase sem pre im perial, de controle e opressão. A Núbia só teve respiro nos m om entos em que o poder do faraó se enfraqueceu ou em que o Egito teve a guerra dentro de suas fronteiras.
Após a m orte de Pepi II — com a qual os historiadores fazem coincidir o térm ino do Antigo Im pério e o início do Prim eiro Período Interm ediário da história do Egito (c. 2200 a.C.) — cessaram , por algum tem po, as aventuras coloniais na Núbia. Muitos núbios aproveitaram -se das lutas internas egípcias para ali ir com bater com o m ercenários e para ali conquistar posições de prestígio. Eles devem , de regresso à terra, ter sido difusores da cultura egípcia, aceleradores do continuado processo de egipcianização da Núbia. Este processo prolongar-se-á até o final do século XV a.C., quando se apagam os vestígios arqueológicos do Grupo C.
A reconstrução da unidade do Egito, no século XXI a.C., vai ser obra dos príncipes de Tebas, senhores da fronteira do sul. Por isso m esm o, em penhados em proteger a porta núbia e em am pliar e controlar o com ércio com as terras m eridionais.
O Egito voltou a interessar-se, no Médio Im pério, por Buhen. Pelos canteiros de diorita. Pelas m inas de cobre. Pelos cativos, que desciam em grandes núm eros, no fim de cada expedição m ilitar, e que iam servir com o escravos dom ésticos nas residências aristocráticas, trabalhar nas grandes obras públicas ou fazer crescer os exércitos do faraó. Não devia haver escravaria nos cam pos: para os suores agrícolas bastavam os felás.
Durante a XII Dinastia (a segunda do Médio Im pério), o Egito lançou-se sistem aticam ente à tarefa de conquistar os vizinhos do sul e de fixar na Segunda Catarata o seu lim ite m eridional. Ali, em área hoj e coberta pelas águas da barragem de Assuã, m as que era então um a longa sequência encachoeirada do Nilo, tendo por m argens, a m ontante da Segunda Catarata, as rochas nuas do Batn-el-Hagar, construiu-se um a fieira de fortes, para controlar a passagem do rio e proteger as caravanas. A enfiada de fortalezas com eçava em Buhen e ia até onde o rio se estreitava, bem ao sul, com Sem na, na m argem esquerda, e Kum m a, à direita. Dispunham -se os fortes estrategicam ente em ilhas e à beira-rio, a um a distância que perm itia a cada um a dessas elevadas m uralhas de tij olo averm elhado — podiam ter m ais de 12m de altura — receber sinais da que a precedia e enviá-los à que estava depois. A subir o rio, a m ontante de Buhen ficava Kor; e após Kor, Dorginarti; e m ais adiante, Mirgissa, a m aior de todas, e Dabenarti; e acim a destas, Askut; e m ais além , Shelfak; e depois, Uronarti, Sem na, Kum m a e Sem na-Sul. Ao norte de Buhen, havia outros grandes fortes, bastante apartados entre si e que não pareciam form ar um conj unto: Elefantina e Biga, antes e depois da Prim eira Catarata, e Ikkur, Kubban, Aniba, Faras e Serra.
Eram verdadeiras praças-fortes. A um só tem po, guarnição, alfândega e feitoria. Tinham geralm ente plantas em retângulo, m as podiam tam bém assum ir as form as de polígonos irregulares. Buhen assentava-se num a base de 172 por 160m . Mirgissa era m uito m aior. Cercava-as um a larga e alta m uralha de tij olos, com am eias, adarves, cubelos, torres externas e baluartes. Ao redor da m uralha, dispunha-se o fosso. E entre este e aquela, a barbacã, com am eias e cubelos sem icilíndricos. Os portões eram flanqueados por paredes fortificadas, a form arem estreito corredor, onde o inim igo podia ser facilm ente atacado do alto. Transpunha-se o fosso por um a ponte m óvel, que corria sobre roletes e se retirava para dentro das portas, em caso de ataque. Para o lado do rio, havia um
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cais.
Construídas ao longo de um século, nos reinados de Sesóstris (ou Senusret) I, II e III, essas fortalezas sofreram evoluções e m elhorias. Foram várias vezes reform adas e am pliadas, aperfeiçoando-se seguidam ente as técnicas de defesa. Algum as, com o tem po, tornaram -se cidadelas — um núcleo populacional fortem ente protegido e arm ado dentro de um a área am uralhada m ais am pla.
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Terá sido assim em Buhen, Aniba e Kubban.
Sesóstris III, que reinou na prim eira m etade do século XIX a.C., fez gravar num a estela em Sem na as seguintes palavras: “Fronteira m eridional, para im pedir que qualquer hom em do sul passe para o norte, sej a por terra, sej a de barco, exceto se vier a Iquém , para com erciar ou em em baixada.” Iquém era Mirgissa, a m aior de todas as praças-fortes, capaz de fazer frente às incursões inim igas e de deter os com petidores com erciais.
A Núbia Inferior estava pacificada. Os inim igos deviam ser, portanto, os nôm ades do deserto ou a gente que vivia ao sul de Sem na: os que procuravam atacar os carregam entos que desciam o Nilo, quando, na área encachoeirada do Batn-el-Hagar, tinham esses de passar de barcos m aiores para m enores, ou de sair do rio para o lom bo dos j um entos. Os com petidores, a cuj os barcos as fortalezas fechavam o Nilo, seriam a gente sulista, que controlaria o com ércio a m ontante de Sem na. Os fortes, ao m esm o tem po que garantiam o m onopólio do
faraó, asseguravam o fluxo regular das m ercadorias que vinham do sul. 22 De
Iam , se este reino ali ficava. De Cuxe, a que talvez o tenha sucedido, se é que não era Iam com um novo nom e.
A palavra Cuxe aparece, pela prim eira vez, num texto egípcio, por volta de
2000 a.C. 23 Refere-se a um reino que se estendia ao sul de Sem na. Ali, na catarata de Dal, term inava o “Ventre das Pedras” e abria-se a paisagem m ais suave e m ais propícia do Abri-Delgo, com suas planícies cultiváveis j unto ao rio, a anteciparem as terras férteis de Dongola, m ais ao sul, na curva ocidental do grande S com que se m ostra, no m apa, o Nilo m édio.
Em Dongola, não só as m argens planas do rio são m uito am plas, com o tam bém existem áreas form adas por leitos abandonados do Nilo, com o Querm a e Letti, que perm item fácil cultivo. Por quase toda parte, a fronteira entre o verde e o deserto é traçada pelo trabalho do hom em , pelo seu engenho, pela distância a que for capaz de levar a água.
Todos os anos, o rio deposita seu aluvião nessas terras baixas. Um rio que, entre a Quarta e a Terceira Cataratas, corre largo e tranquilo, deixando ver, além de suas m argens, estepes ralas, interrom pidas aqui e acolá por acácias e palm eiras. Quase todos os anos chove, nos m eses de verão. Pouquíssim o: um nadinha de chuva. Mas chove, fazendo enverdecer as fím brias dos uedes — os rios, geralm ente secos, do deserto.
A gente que ali vivia tinha algum parentesco com o Grupo C, pois com ele parece partilhar a herança cultural do Grupo A. Enterrava os m ortos de m odo sem elhante. E fazia, entre outras, um a cerâm ica que em nada se distinguia da cerâm ica de boca negra do Grupo C. A m ais abundante era, contudo, diferente, ainda que fosse, na m elhor tradição núbia, verm elha por fora e com a boca e o interior pretos. Era um a louça de paredes m uito finas, polidíssim a, com o negro da borla a descer alguns centím etros pela face exterior e a separar-se do boj o encarnado por um a barra branca. Havia desses vasos vários tipos: com um bico longo, com o se fosse um a chaleira; de base arredondada e boca m uito am pla; com alça e form a de anim ais.
Com form a de anim ais, e especialm ente de pássaros, esculpiam -se pequenas figuras, no m arfim e na m ica; e usavam -se as de m arfim com o incrustações em m óveis e obj etos de m adeira, e as de m ica para adornar bonés de couro.
Tinha essa gente enorm e apreço pelos vasos de alabastro, pelas estátuas, estelas e outros obj etos egípcios — encontrados em tal abundância nos seus túm ulos, que o prim eiro arqueólogo que trabalhou em Querm a, G.A. Reisner, chegou a considerá-la um a feitoria dos faraós. Hoj e, crê-se que os restos que ali se encontram — de um cem itério e de um a cidade — pertenciam à capital de um reino organizado e independente, Querm a, a que os egípcios cham avam Cuxe.
Reino e cidade teriam alcançado seu m elhor m om ento durante o Segundo Período Interm ediário da história egípcia, a estender-se do fim do século XVIII a.C. às prim eiras décadas do século XVI. É a época da “grande hum ilhação” do Egito, quando o país não só se fraciona em vários Estados, m as assiste à ocupação do Delta por “reis estrangeiros” — ou hicsos. Eles tom aram Mênfis e instalaram um faraó em Ávaris.
Suspeita-se que os hicsos fossem sem itas. Teriam trazido com eles, da Palestina, o cavalo, o carro de com bate, a arm adura e, consequentem ente, novas form as de fazer a guerra, com as quais asseguraram seu dom ínio. Não é im possível, contudo, que os equinos tenham chegado ao Egito e à Núbia pouco tem po antes dos hicsos; e o carro puxado a cavalo, só bem m ais tarde, j á no final do Segundo Período Interm ediário, por volta de 1600 a.C.
Esse carro antigo era m uito sim ples e leve. De duas rodas. Com um a haste que se prendia, de um a ponta, ao pescoço de dois cavalos pequenos, e sustinha, na outra, pequena plataform a, na qual ficava de pé o guerreiro. A plataform a repousava num eixo a que se ligavam as rodas. J. Spruy tte reconstituiu, com base nas pinturas egípcias e no m odelo encontrado no túm ulo de Tutancam on, um carro de guerra nilótico. De m adeira e de couro, com alguns ornam entos em cobre, o veículo pesava apenas 34kg. As rodas tinham revestim ento de couro e a parte que se aj ustava ao eixo era fortem ente untada de gordura de carneiro. Levando um hom em de 75kg, o carro, num a estrada de terra, podia atingir a
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velocidade de 38km por hora.
Quer utilizassem os hicsos os carros de guerra — que lhes dariam grande m obilidade em terreno plano —, quer lutassem exclusivam ente a pé, lograram eles dividir o território do Médio Im pério. Ficaram senhores do norte. Em Tebas, continuou a reinar um faraó egípcio. E vários régulos, egípcios e hicsos, estabeleceram áreas de poder próprio, pequenos estados de vida em geral curta e clientes de um dos dois grandes faraós.
A quebra da unidade egípcia e o enfraquecim ento de Tebas perm itiram que se consolidasse e expandisse a autoridade do rei de Querm a. Ele se fez, ao que tudo indica, senhor da Núbia Superior e estendeu sua presença à Núbia Inferior, até m esm o às fortalezas egípcias da Segunda Catarata, cuj as guarnições, com postas por egípcios e querm ianos, passaram a controlar o rio em seu nom e. É isto o que se depreende de um a estela encontrada num dos fortes, na qual se diz, sobre um certo Sepeder: “Eu fui o com andante valente de Buhen, e nunca outro com andante fez o que fiz. Construí o tem plo de Hórus, Senhor de Buhen, para a satisfação do rei de Cuxe.” Noutra, recorda-se que Cá prestou serviço a um rei de Cuxe, de nom e Nedj é.
O dom ínio do com ércio entre Tebas e Querm a ter-se-ia m udado, assim , para esta últim a. Que continuou a m ercadej ar com o Alto Egito. Mas fez de Ávaris seu principal parceiro. As caravanas passavam ao largo do território tebano, pela rota de Darb el-Arbain. E levavam , de Cuxe para o norte, além dos produtos que tradicionalm ente provinham da Núbia, um novo, que aparecera com m aior frequência durante o Médio Im pério: o ouro.
A riqueza de Cuxe perm itiu que suas elites copiassem o m odelo egípcio. Da m esm a form a que o faziam os hicsos. Trabalhadores egípcios serviam em Querm a e transm itiam suas técnicas aos artesãos cuxitas. Qualquer obj eto egípcio era tido em alta estim a e bem cuidado. E tam bém — pode-se supor — os m odos de vida, a etiqueta e o protocolo.
Se adotou a escrita hieroglífica, o rei de Cuxe pôde unificar as leis, centralizar com eficiência a adm inistração, transm itir ordens a um território m uito extenso. Pôde aum entar, em sum a, o seu poder. Um poder de que dão testem unho os restos arqueológicos de Querm a.
Destes, o que m ais cham a a atenção é a grande m ole retangular, com pacta, de tij olos crus, a que se deu o nom e de Dufufa ocidental. Fica a 2,5km da m argem leste do Nilo e eleva-se atualm ente a 19m de altura, sobre um a base de 52 por 27m . Nessa m assa sólida não há quartos nem câm aras; apenas um a escada lhe atravessa, quebrando-se em cotovelos, o interior, até o topo da construção, m uito m ais alto do que a presente ruína. Não era, porém , originalm ente, um a estrutura com pacta: possuía com partim entos, que foram , em certa época, enchidos com
tij olos. 25 A Dufufa j á estava, aliás, construída, quando a ela se colaram , no lado oriental, duas estruturas, que talvez tivessem por obj etivo am pliar-lhe a plataform a. Um a nada contém : é pura m assa de tij olos. A outra possui duas salas pequenas, que se abrem para o exterior, no rés do chão, e dois outros cubículos, sem portas.
Se, de início, essa Dufufa pode ter sido um tem plo, em que se teria
transform ado depois? Num posto com ercial fortificado? 26 É pequeno e solitário, para fortaleza, e, em bora, em caso de ataque, seu topo pudesse servir de refúgio, não há edificação m ais vulnerável ao sítio, bastando um punhado de hom ens para
bloquear-lhe a escada. Quem assim argum enta27 avança sua teoria: a de que essa Dufufa fosse um a alta torre, duas ou três vezes m ais elevada do que a atual ruína. Serviria, j á que não há m ontes nas proxim idades, para que dela se vissem ao longe os barcos do sul, a fim de que se preparassem a tem po e com presteza o recebim ento e o transbordo das m ercadorias que traziam . Outra hipótese, a de
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Fritz Hintze: no alto da Dufufa erguia-se o palácio do rei, ao qual se teria
acesso pela escadaria.
Lá em baixo ficava a cidade: um a extensão considerável de pequenas casas, cercada por fosso e m uralhas de pedra e tij olo. Devia ser um a urbe m ercantil e m anufatureira, pois ao lado da Dufufa encontraram -se vestígios de que ali se faziam vasos de cerâm ica, obj etos de faiança e ornam entos de quartzita, cornalina, m ica e ovo de avestruz. Acharam -se tam bém peças de bronze, pedaços de j arros de alabastro, vasos de pedra e outros obj etos de fabrico egípcio, bem com o m ais de m eio m ilhar de selos de barro, que m arcavam o fecham ento de j arras, cestas e outros invólucros. É bem provável que essas chancelas fossem postas, à m aneira egípcia, nos bens que entravam e saíam de Querm a. Para o controle do com ércio.
Mais para leste, estende-se o cem itério. Com vários m ilhares de túm ulos, tem m ais de 1,5km de com prim ento e uns oitocentos m etros de largura. Os sepulcros variam de tipo e tam anho, m as as covas guardam enorm e sem elhança com as dos Grupos A e C. São quadradas e retangulares, com os cantos arredondados, e ovais ou quase circulares. Nelas, o m orto está deitado sobre o lado direito, com os j oelhos dobrados, a destra j unto ao queixo e a m ão esquerda próxim a ao cotovelo do outro braço. O corpo ia vestido de linho, com suas arm as e ornam entos, coberto por um couro de boi. Repousava sobre um leito (num caso, cortado no quartzo), no qual se dispunham um travesseiro de m adeira, um a adaga de cobre, um leque de penas de avestruz e um par de sandálias de couro. Junto ao cadáver, artigos de toalete e de uso pessoal. Contra as paredes da câm ara, vasos de com ida e bebida. E no chão, um ou m ais carneiros, um ou m ais seres hum anos, sacrificados durante o enterram ento. Por cim a da cova erguia-se um dom o, cuj a circunferência era m arcada por um anel de pedras escuras, a que se seguia, no arco que apontava para o sul, um a série de crânios de boi.
Muitas dessas tum bas, sobretudo as que ficavam ao norte da necrópole — talvez a parte m ais antiga —, apresentavam um dom o apenas do tam anho da cova que encim ava. Outros eram m uito m aiores, com um a cobertura esférica que podia ter entre 23 e pouco m ais de 45m de diâm etro. Para o sul do cem itério, há túm ulos ainda m ais im pressionantes: oito ao todo, dos quais três enorm es. Um deles, com noventa m etros de diâm etro. Eram possivelm ente sepulcros reais.
Para sustentar o enorm e dom o, construíram -se duas com pridas paredes, que o cortavam , em corredor, de leste a oeste. Delas saíam , para o norte e para o sul, perpendicularm ente, num erosos m uros paralelos, que se prolongavam até a linha da circunferência. No centro desta ficava a principal câm ara m ortuária, com os restos de quem se pensa ser um rei, e no chão, em torno, sem qualquer arranj o, os corpos de um a doze seres hum anos e de um a seis carneiros. Ao longo do corredor que se estendia de leste a oeste, j aziam outros sacrifícios hum anos, na m aioria m ulheres e crianças: 322 pessoas num dos túm ulos, o qual, antes de ser, na Antiguidade, saqueado, devia encerrar o núm ero espantosam ente grande de quatrocentas vítim as.
As vítim as eram enterradas, ao que parece, vivas. Algum as tinham as m ãos a cobrir o rosto; outras, a agarrar a garganta; aquelas, a puxar os cabelos; estas, a
se apertarem e torcerem . Assim as viu George Andrew Reisner,29 ao escavar os túm ulos.
Os grandes dom os contêm outros sepulcros, além do principal. Cavava-se um a porção do dom o, construía-se cuidadosam ente um a câm ara e ali se colocava um m orto, com todas as honras, m uitas vezes acom panhado de sacrifícios hum anos. Pertencia esse m orto possivelm ente à fam ília do rei ou era alto funcionário do Estado. Da fam ília do rei e de seu grupo íntim o de servidores deviam ser tam bém os restos que j aziam ao redor dele, na principal câm ara m ortuária. Os corpos que se acum ulavam ao longo do corredor central seriam de escravos.
Tais costum es funerários indicariam ter Querm a conservado certas form as de ver o m undo e a eternidade que j á haviam sido m odificadas e refinadas, desde m uito, no Egito. Com efeito, tam bém no túm ulo do faraó Narm er, o prim eiro da Prim eira Dinastia, encontraram -se os ossos das vítim as hum anas enterradas com o am o, para servi-lo após a m orte. E, em núm ero ainda m aior, no sepulcro de Zer.
A prática talvez fosse um a herança m esopotâm ica, logo superada, no Egito, pela invenção das chauabitis, as estatuetas que, colocadas no sepulcro, adquiririam m ovim ento e vida, para atender o m orto. Não se pode, contudo, descartar a hipótese de que os enterros com sacrifícios hum anos tenham surgido no vale do Nilo — do m esm o m odo que na Mesopotâm ia, na China, na Sibéria e em tantas outras partes da África e do m undo — com o consequência natural da crença que fazia da m orte um prolongam ento quase inalterado da vida, com todas as necessidades e hábitos. Por isso, sepultavam -se os chefes com seus servos, cavalos e cachorros. E a prática só foi abandonada quando o hom em —
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com o diz René Bazin — “com eçou a ter m aior confiança na virtude das
im agens feitas pelas suas m ãos”, quando os túm ulos se encheram de esculturas, quando a im itação passou a ter valor de realidade.
Com pletavam o cam po-santo de Querm a algum as capelas funerárias. Duas de am plas dim ensões, à m aior das quais cham am Dufufa oriental. São form adas por grande m assa retangular de tij olos, na qual se abrem duas câm aras ligadas por um corredor, com outro a assegurar passagem para fora. Em cada câm ara, um a linha de colunas sustentaria provavelm ente um teto de traves de m adeira. Nas paredes, há restos de decoração em verm elho, preto e am arelo: pinturas, em estilo egípcio, de cenas da vida diária, de veleiros a navegar, de girafas e outros anim ais.
Existem outras necrópoles sem elhantes: na ilha de Saí — um cem itério talvez tão extenso quanto o de Querm a, com túm ulos grandes, em bora não com paráveis em tam anho aos oito m aiores desta —, em Saras, em Abu Sir, em Abka, em Aniba, em Kubban, em Mirgissa, em Buhen, próxim as aos fortes egípcios, talvez com os corpos dos querm ianos que neles serviram , nos tem pos da fraqueza de Tebas.
Entretanto, Tebas recom punha, pouco a pouco, as forças. E à m edida que isto se dava, cresciam sua inconform idade e sua ira diante da presença dos hicsos no Delta e do poderio de Querm a. Cam ósis, o últim o faraó da XVII Dinastia, perguntava, entre perplexo e indignado: “Que poder é este m eu? Há um rei em Ávaris, outro em Cuxe; e estou esprem ido entre um asiático e um núbio. Cada um tem sua fatia do Egito, cuj a terra dividem com igo.”
Foi esse Cam ósis quem provavelm ente com eçou a dar com bate sistem ático aos hicsos. Com êxito. Tanto que estes urgem socorro. Tal é o sentido da carta que Apepi, rei de Ávaris, dirigiu, na época, ao soberano de Querm a: “Não vês o que o Egito faz contra m im , expulsando-m e de m eu solo? Vem , dirige-te ao norte sem dem ora! Então dividirem os as cidades do Egito entre nós.”
Não houve, porém , para Cam ósis, a guerra em duas frentes. Ou, se houve, não eram os adversários capazes de deter a decisão egípcia de esm agar os hicsos.
Am ósis, que sucedeu no trono de Tebas a seu irm ão e a cuj o nom e se liga o início do Novo Im pério egípcio (c. 1552 a.C.), com pletou a tarefa da reconquista. Destruiu Ávaris. Expulsou para fora do Delta os que dele tinham sido senhores. Voltou-se, depois, para o Cuxe.
O obj etivo inicial da XVIII Dinastia, fundada por Am ósis, foi o de outra vez distanciar as fronteiras do Egito, para protegê-lo de novas invasões. Preocupa-se, desde logo, com a porta asiática. Am ósis, Am enófis (ou Am enhotep) I, Tutem ósis (ou Tutem és) I e Tutem ósis II levam o poder egípcio até o Eufrates. E transform am o que era inicialm ente um esforço para am pliar a terra de ninguém entre o Egito e seus possíveis inim igos num arrem esso im perial. Estabelecem um a espécie de governo indireto ou de protetorado nos estados da Síria e da Palestina. Com eçam a receber tributos de num erosos outros povos.
Faz-se a guerra tam bém no sul. Am ósis chega a Buhen, onde instala um governador egípcio. Tutem ósis I atravessa a Terceira Catarata, vence Querm a, atinge a fértil bacia de Dongola. Tutem ósis III estende a fronteira m eridional do im pério até a Quarta Catarata, e sacrifica ao deus de Tebas, Am on-Rá, aos pés do Jebel Barcal, a “Montanha Santa”, onde m ais tarde florescerá Napata.
Com a XVIII Dinastia, o Cuxe não apenas é incorporado ao im pério, m as vê aprofundar-se ainda m ais o processo de assim ilação cultural de suas elites ao Egito. Enquanto, para além do Sinai, na Palestina, o faraó m anda por interm édio de chefes locais, nas terras do sul não há qualquer concessão, e o poder colonial afirm a-se de m odo cru.
A série de fortalezas que guardavam a Segunda Catarata é reocupada por Am enófis e pelos dois prim eiros Tutem ósis. Levanta-se tam bém um posto m ilitar em Napata, no extrem o sul do im pério. E reform a-se a fortaleza de Kubban, onde ia ter o ouro extraído das m inas que ficavam no uede Alaqui e no seu afluente, o uede Cabagba (ou Cabgaba). Dali, das galerias espalhadas no deserto, a um a distância de até cerca 240km do Nilo, provinha o grosso do m etal am arelo de que dispunha o faraó. Outra grande área produtora fica bem m ais ao sul, em Duweishat, próxim o ao rio, logo a m ontante de Kum m a.
Em apenas três anos do reino de Tutem ósis III, recebeu ele da Núbia Inferior 695kg de ouro (quase tudo das m inas do uede Alaqui e do uede Cabagba); e da
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Núbia Superior, cerca de 55kg. Estas cifras dão ideia da grande quantidade de
ouro que saía da Núbia para o Egito. Além do ouro, dela tam bém lhe chegavam cornalinas, hem atita, feldspato, cobre, obsidiana, turquesas, m alaquita, granito, am etistas. E m arfim , m adeiras, plum as e ovos de avestruz, gom as, resinas, peles de felinos. E gado. E produtos agrícolas. E escravos.
Tanto a área ocupada pelo Grupo C quanto os territórios de Querm a tornaram -se um a colônia da m aior valia para o Egito. Criou-se nela um governo especial, um a espécie de vice-reinado. O governador ou vice-rei era o Filho Real de Cuxe. Hom em im portante e poderosíssim o. Respondia diretam ente ao faraó e sua autoridade alongava-se, no Nilo, desde a Prim eira Catarata até acim a da Quarta.
A cidade de Querm a vira m em ória. Tom ada pelos egípcios, foi por eles largada ao abandono. Se é que deliberadam ente não lhe secaram a vida. Em com pensação, os egípcios deram início, na Núbia, a num erosos povoados — arruam entos de casas de tij olo, cercados por m uros protetores e com tem plos de pedra — nos quais se buscava reproduzir a cidade egípcia.
As m uralhas em torno dos vilarej os foram , de início, necessárias. Para am parar os colonos que ali se instalaram . Para enfrentar as revoltas núbias e as acom etidas das tribos pastoras do deserto. Estas tribos ora se som avam , com o os m edj as, aos exércitos faraônicos, ora os hostilizavam e lhes davam guerra. Nas inscrições da XVIII Dinastia, sucedem -se os louvores a vitórias sobre os inim igos do sul. O que se pode ler, inversam ente, com o elogios à inconform idade e à rebeldia dos hom ens da Núbia e do norte do Sudão.
Estes constituíam im portante reserva de m ão de obra para o Egito. Com bateram em suas tropas. Foram levados para o norte com o funcionários ou trabalhadores braçais. Nós os reconhecem os nas pinturas dos sepulcros dos reis e dos nobres, na grande necrópole a oeste de Tebas.
Na tum ba de Tanuni, um escriba adscrito ao exército de Tutem ósis IV, vem os, por exem plo, cinco recrutas núbios, com rabos de leopardo am arrados à cintura e aos j oelhos. São de cor m oreno-escura, pouco se diferenciando dos egípcios que estão retratados m ais adiante. A pintura não discreparia da realidade, ao apresentar núbios que não eram negros, pois, então com o hoj e, a Núbia era um a área de encontro e m istura entre povos m editerrânicos e africanos. Área de convívio e de constante m estiçagem , processada de form a lenta e sem grandes
choques, ao longo da história. 32
Já no sepulcro de Huí — que foi vice-rei de Cuxe, nos tem pos de Aquenaton e de Tutancam on (século XIV a.C.) — são negros, com plum as nos cabelos e vestidos à egípcia, que vem os trazer tributos de ouro, peles, essências raras e um a girafa. No túm ulo do faraó Horem heb, um a j ovem negra, com um colar de contas ao pescoço, dança graciosam ente. Com o pretos figuram tam bém , entre os vários povos do im pério representados na tum ba de Seti I, os hom ens de Cuxe.
Há algum as im agens africanas ainda m ais requintadas. Num cofre, retirado da tum ba de Tutancam on, narram -se algum as cenas de batalha. Num a delas, o m onarca, em seu carro, arrem ete contra guerreiros negros, arm ados de arcos e com escudos de peles. Noutra, com bate asiáticos. Em todas, dois ou três fâm ulos de pele escura e cabelos encarapinhados, m archando atrás do carro do faraó, agitam flabelos. Um outro negro, m aravilhosam ente esculpido, na form a de quem volta de um m ergulho, aparece no cabo de m arfim de um a bengala cerim onial do m esm o rei.
Num a civilização cosm opolita com o a do Novo Im pério, o gosto pelo exótico das colônias tendia a florescer. Os bárbaros do sul eram , a um só tem po, m aravilhosos e m enosprezados. São retratados com param entos de luxo ou em posições hum ilhantes. Com o súditos e com o inim igos. Aparecem a ser esm agados sob rodas de carro de guerra ou estraçalhados por cachorros. Desenham -se às dezenas, nas paredes dos túm ulos, cabeças cortadas de negros. E num tem plo de Beit-el-Wali, assiste-se a um a preia de escravos.
As descidas de cativos faziam -se possivelm ente das terras ainda m ais ao sul, com o decorrência da plena incorporação do que fora o reino de Querm a ao Egito.
Surgem povoações sem m uros defensivos. E naquelas que os possuíam , construções novas transbordam das m uralhas e vão ficar despreocupadas na terra aberta. Sinal de que a Núbia se pacificava. De que surtia efeito a política dos faraós do Novo Im pério, um a política de assim ilação cultural, de egipcianização. Levavam para a corte os filhos dos grandes, para servirem com o paj ens, e depois os devolviam às plagas de origem . Propagavam , de m odo sistem ático, seus costum es sociais e fam iliares, bem com o suas técnicas de produção. Difundiam suas crenças religiosas, edificando tem plos e os entregando ao clero egípcio.
A construção sistem ática de tem plos principia com Tutem ósis II: tem plos pequenos, sólidos, sim ples e elegantes, erguidos dentro das fortalezas. Os sucessores daquele faraó irão edificá-los nos povoados, nos vilarej os, nas pequenas cidades. Am enófis III, por exem plo, m andará fabricar dois tem plos gêm eos na região de Abri-Delgo: um em hom enagem a si próprio e outro para a veneração de sua m ulher. Seu filho, o herético Aquenaton, levantará tem plos a seu deus em Sesbi e Kawa. Tutancam on, em Faras e novam ente em Kawa. Mais tarde, j á na XIX Dinastia, Ram sés II, que reinou entre 1289 e 1224 a.C., construiria m ais tem plos que todos os seus antecessores. Tem plos enorm es. Dez ao sul de Assuã. Alguns inteiram ente isolados dos lugares onde os hom ens viviam e trabalhavam . Com o o im enso tem plo de Abu Sim bel, com suas estátuas colossais e suas salas e corredores cortados na pedra. Nele, Ram sés aparece a adorar um a divindade que era ele m esm o. E a própria solidão do gigantesco tem plo escavado num prom ontório de arenito, j unto ao Nilo, indicava que não fora feito para o uso dos hom ens, m as para um diálogo entre deuses.
O tam anho desm esurado das estátuas de Abu Sim bel não esconde o seu prosaísm o, nem o enfraquecim ento da inspiração artística dos egípcios. A quebra da qualidade criadora corre, neste caso, paralela ao desfalecim ento do poder do faraó, cuj o predom ínio no Mediterrâneo Oriental passara a ser contestado pelos hititas, pelos líbios e pelos cham ados “povos do m ar”. Só com seus exércitos, os faraós não tinham m ais condições de im por suas vontades. Precisavam recorrer crescentem ente à diplom acia das alianças e ao fom ento de conflitos entre os adversários. Para isto, dependiam cada vez m ais do ouro da Núbia, com o qual com pravam am izades e alim entavam intrigas.
Tanto Seti I quanto seu filho Ram sés II preocuparam -se em m elhorar as condições de exploração m ineira no uede Alaqui e no uede Cabagba. Que eram duríssim as. Buscava-se o ouro em pleno deserto. A própria viagem de Kubban até as m inas m edia-se por alta perda de vidas. A m etade da caravana m orria de
sede no cam inho — afirm a um a estela de Ram sés II. 33 E m uitos se iriam depois, sobretudo escravos, a cavar sob o sol e com escassa água. Para rem ediar isso e aum entar consequentem ente a produtividade, Seti I ordenou que se furasse um poço, no leito do uede Alaqui. Sem resultado. Ram sés II insistiu na em presa e logrou obter um poço com água, a pouco m enos da m etade do percurso entre
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Kubban e as m inas.
A exploração da colônia pela m etrópole tendia a acentuar-se com as aflições políticas do Egito. Mas a Núbia j á estava a ser ordenhada havia m uito tem po. Grande parte de suas terras férteis tinha sido cedida a tem plos, fundações pias, sacerdotes, nobres, altos funcionários da corte egípcia e com andantes de tropas, ou era explorada em favor do faraó. O sistem a de posse da terra alterou-se: os padrões egípcios im puseram -se sobre a tradição de uso grupal do solo. Houve, em m uitas partes, um deslocam ento do pastoreio para a agricultura — um a agricultura na qual os núbios se tornaram felás, a trabalhar a terra para senhores que raram ente, ou nunca, ali punham os pés. Plantavam -se cereais, vinhedos, tâm aras. E m esm o naqueles sítios onde os antigos sistem as de vida, a pastorícia, a caça e a recolha continuavam a prevalecer, lado a lado com a posse tribal da terra, as m ãos egípcias não estavam ausentes: parte do que se obtinha era
entregue ao governo ou ao tem plo, com o tributo. 35
A situação na Núbia, em m atéria de pagam ento de tributos, talvez não se diferenciasse da prevalecente no Egito. O vice-rei do Cuxe e seus delegados, do m esm o m odo que os tem plos, agiriam com o provedores e redistribuiriam localm ente boa parcela das rendas agrárias e dos im postos recolhidos. Não haveria, assim , transferência m aciça de riquezas da Núbia para o Egito. Para
quem assim pensa,36 m uito ficava na terra, que tam bém recebia recursos da m etrópole — para a construção de tem plos, por exem plo. O im perialism o egípcio não visaria na Núbia, segundo essa tese, apenas a exploração econôm ica. Teria igualm ente um obj etivo no qual não se distinguiria a piedade religiosa da vontade de poder: am pliar o dom ínio do faraó e de seus deuses.
É provável que as povoações criadas pelos egípcios em torno de um tem plo obedecessem a um a política deliberada de instalação de colonos e de im posição da agricultura de regadio com o principal atividade econôm ica. Urbes coloniais, elas concentravam -se nas áreas onde m ais fáceis fossem o cultivo do solo e o com ércio. Assim , acum ulavam -se, um a após outra, ao longo do rio, na Baixa Núbia, faziam -se ausentes no Batn-el-Hagar e reapareciam no Abri-Delgo. Ao sul de Kawa e até Abu Ham ed, no correr da am pla várzea da curva de Dongola, voltavam a rarear, com a exceção de Jebel Barcal, o grande tem plo a Am on, cuj o próprio isolam ento poderia ser um sinal de quão firm e era o dom ínio
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egípcio sobre a Núbia.
Um a das razões para essa ausência de cidades e povoados egípcios em Dongola, onde o pastoreio continuou a predom inar sobre a agricultura, seria a dificuldade da navegação na m etade do arco do Nilo. A j usante de Abu Ham ed, o rio flui do norte para o sul, no m esm o sentido dos ventos, durante cerca de dez m eses do ano. Era difícil, por isso, e dem orado subi-lo: a viagem podia durar m ais de um m ês. Por terra, pela rota de Meheila, podia-se ir, em poucos dias, de Kawa a Jebel Barcal, e em cerca de um a sem ana, de Jebel Barcal, pela rota de Bay uda, à região onde m ais tarde floresceria Méroe. Era por essas vias a cortarem o deserto que passava o com ércio de Butana, do Punt, do Cordofã e do Darfur.
De m odo geral, a política de egipcianização surtiu efeito. Tanto, que alguns núbios passaram a integrar a classe dos terratenentes. Outros aderiram aos interesses egípcios — e egipcianizaram -se ainda m ais. Eram enterrados com o se fossem egípcios: estirados, em decúbito dorsal, os m ais ricos dentro de caixões de m adeira. Outros — provavelm ente a m aioria — foram reduzidos à condição de trabalhadores sem terra, a felás, e não deixaram sinais arqueológicos, tal com o ocorreu por toda parte com os deserdados do m undo: eram inum ados na pobreza, em lugares que se perderam no esquecim ento e sem m arcas por que possam ser reconhecidos. Outros, enfim , puderam m anter a cultura antiga, m igrando com seus rebanhos para o oeste ou m ais para o sul, para os confins da Núbia Superior, onde a presença do poder egípcio se esgarçava. Assim se explicaria o desaparecim ento, nos fins do século XV a.C., dos traços funerários do Grupo
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C.
O faraó que sucedeu a Ram sés II, Merneptá, teve de fazer frente, quase na fronteira ocidental do Delta, à agressão com binada dos “povos do m ar” e dos líbios. Cerca de três décadas m ais tarde, Ram sés III ver-se-ia obrigado a dar com bate aos m esm os inim igos j á dentro do território egípcio. Venceu-os; m as num confronto que não era m ais pela m anutenção de áreas de influência ou de lim ites do im pério. Lutava-se pela própria sobrevivência do Estado egípcio.
Este se enfraquecia por dentro. Com lutas dinásticas. Com o surgim ento de novos focos de poder, a com petir com o faraó: o dos sacerdotes de Am on, em Tebas, e o do vice-rei de Cuxe, por exem plo. Este últim o não só dom inava a exploração do ouro, m as tam bém tinha sob seu com ando as num erosas tropas m ercenárias núbias. Um deles, após a m orte de Merneptá (c. 1204 a.C.), usurpou o trono faraônico: Am em esses. Outro, durante o reinado de Ram sés XI (c. 1099-1069 a.C.), assum iu o controle do Médio e do Alto Egito: Peneasi.
Os últim os faraós da XIX Dinastia (c. 1305-1186 a.C.) governaram por pouquíssim o tem po: entre quatro e oito anos, cada um deles. Com Ram sés III, o segundo da XX Dinastia, houve longa estabilidade no m ando: três décadas. Mas, logo depois, de novo se sucederam curtos reinados — de dois, quatro, seis, sete anos —, com faraós que m orriam precocem ente ou j á chegavam ao poder envelhecidos.
A econom ia declinava. A inflação contribuíra para desorganizar as atividades produtivas. Reduzira-se o tributo pago pelos povos vassalos. A ineficiência adm inistrativa alastrara-se, com repercussões sobre o controle das enchentes, sobre a coleta e a distribuição de cereais, sobre o recrutam ento para trabalhos coletivos.
Tudo isso refletia-se na Núbia. Sobretudo entre a Prim eira e a Terceira Cataratas. Já na época de Ram sés II, a agricultura com eçara a regredir. No fim do século XII a.C., deixara de ter im portância. A partir de então — sustentam m uitos — as populações dim inuíram e se concentraram em alguns lugares m ais favoráveis. A Baixa Núbia despovoa-se. Só a exploração do ouro prossegue, sem interrupções m aiores do que as forçadas pelas guerras.
A retirada dos colonos egípcios da Núbia pode ser explicada pela retração do poder faraônico. Mas não o abandono do norte da região pelos próprios núbios. Talvez estes tenham com eçado a desertá-la bem m ais cedo, desde o início da
XVIII Dinastia, e por m otivo oposto: para fugir da pressão im perial. C.M. Firth39 propôs um a outra hipótese: a de que o progressivo declínio do nível m édio do Nilo passara a im pedir que as terras da Núbia Inferior, altas em relação ao rio, pudessem ser irrigadas. Alega-se, entretanto, não haver dados geológicos que sustentem a teoria. E há quem diga que, apesar de indicar a arqueologia ter a Núbia, no fim do Novo Im pério, entrado em decadência, não se j ustifica que se
proclam e o seu despovoam ento.40
O declínio populacional seria indicado pela dim inuição do núm ero de túm ulos e cem itérios na Baixa Núbia, desde a XVIII Dinastia, m as sobretudo após ela. A carência de achados poderia explicar-se, contudo, pela quebra da prática de enterrar com os m ortos obj etos pessoais e vasos de cerâm ica. Além disso, a partir do Novo Im pério, os cem itérios da Núbia Inferior receberam do Egito o j azigo fam iliar, com um a só capela m as várias câm aras funerárias, em cada um a das quais podiam ser feitos, no correr do tem po, m últiplos sepultam entos. Com o esses lugares foram em geral saqueados e revolvidos, é praticam ente im possível, pelo núm ero de j azigos, saber-se quantos m ortos se enterraram em cada cam po-santo, e com o se distribuíram no tem po. Não haveria, portanto, com o com pará-los com as necrópoles m ais antigas, nas quais cada cam pa corresponde geralm ente a um só defunto.
Para explicar o esvaziam ento populacional da Baixa Núbia, ou, quando m enos, a retração no volum e de seus habitantes, outros m otivos políticos e m ilitares j á
foram apontados.41 As coisas ter-se-iam passado assim . No reinado de Ram sés XI, o últim o faraó do Novo Im pério, estala um a rebelião em Assiut. O vice-rei de Cuxe, Peneasi, a reprim e, em nom e do rei. E em nom e deste, restaura a ordem no Alto Egito e passa a governá-lo. Mas tam anho é seu rigor e tão desabridas as arm as de suas tropas núbias, que é tido, pela gente da terra, com o se fora invasor estrangeiro. As forças que lhe eram hostis arregim entam -se em torno de Herior, que se tornara o sum o sacerdote de Am on, em Tebas, e de Esm endes, que talvez dele fosse filho. A pressão dessas forças provavelm ente obrigou Peneasi a retirar-se para o Cuxe, após sete anos de controle do Alto Egito. Senhores do terreno, Herior e Esm endes im põem a Ram sés XI — a quem continuam a considerar com o faraó, m as um faraó ritual, destituído de poder efetivo — a divisão do Egito: no norte, m andará Esm endes; no centro e no sul, Herior e, m ais tarde, seu filho Pianqui. Após a m orte de Ram sés XI, Esm endes tornar-se-á faraó, o prim eiro da XXI Dinastia, que abre o cham ado Terceiro Período Interm ediário da história do Egito (c. 1069 a.C.), m as o poder no sul continuará nas m ãos dos sucessores de Herior.
Enquanto isso, Peneasi im põe-se na Núbia Inferior e no Cuxe. E ali, apoiado, ao que tudo indica, pelas populações núbias, opõe-se aos esforços de reconquista egípcia, em preendidos por Herior e Pianqui. Seu sucessor prossegue a luta. E, quando ela se torna sem esperanças, os núbios abandonam voluntariam ente as terras a j usante do Batn-el-Hagar. Sobem o rio. Vão para o sul. Com o, antes, m uitos outros.
A longa decadência — quer devida aos hom ens, quer à natureza — não retira de todo à Núbia Inferior a im portância que tinha para o Alto Egito. Quem o controlava não deixara de contar com a soldadesca que dela provinha e do Cuxe. O grosso de suas tropas era núbio. E núbio, o ouro em que seu poder se assentava.