A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 2 de 35

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A Enxada e a Lança

Prefácio à 3ª edição

 

Este livro teve um destino afortunado. Ao escrevê-lo, m inha am bição era a de que servisse de m anual introdutório aos que desej assem estudar a história da África. Preocupava-m e o escasso conhecim ento que, no Brasil, se tinha do continente africano, ainda que dele todos ou quase todos, pelo sangue ou pelo espírito, parcialm ente viéssem os. Queria que fosse útil — e obtive o prêm io desej ado, pois este livro encontrou, e continua a encontrar, bons leitores, sobretudo, desde o início, entre professores de História, que o tom aram com o um dos textos básicos, quando não o principal, para preparar as aulas sobre história da África, um a disciplina que no Brasil era nova, e para orientar os colegas m ais j ovens que nela desej avam especializar-se.

Escrevi A enxada e a lança com rigor e paixão. Sem concessões a teses da m oda e a fantasias generosas. Mas com entusiasm o por um a história que por tanto tem po foi negada, e na qual se desenham m uitas das m ais im portantes raízes do que som os com o povo. É, por isso, um a história da África ao sul do Saara, desde o surgim ento do hom em até a chegada dos portugueses e o princípio das intrusões europeias no continente, escrita de um a perspectiva brasileira — a única de que sou capaz. Assim , em bora neste livro figurem as várias Áfricas que, com sua rica diversidade, coexistem no continente, abri espaços m ais am plos e dei m aior atenção àqueles povos que tiveram m uitos dos seus trazidos à força para o Brasil e, neste lado do Atlântico, im pregnaram de sua cultura a que aqui se form ava.

Conhecer a história da África nos faz m elhores. Enriquece a consciência de nosso passado. Som a-se aos enredos europeus, que sem pre estiveram nos currículos de nossas escolas, e aos am eríndios, que neles deveriam estar, e abre nossa alm a a outras m em órias. Se aprendem os na escola, com porm enores, o que se passou em Atenas e na Rom a antigas, por que descurarm os de Axum , de Songai e de Ifé?

Escrevi A enxada e a lança, m as hoj e sou um de seus leitores. Volto ao livro sem pre que m e falha a m em ória ou em m im ressurge algum a dúvida. Se o m eu texto não a esclarece, é raro que as obras citadas em nota não o façam . Deduzo do que se passa com igo que produzi um livro útil. E útil principalm ente depois que se tornou obrigatório, nos cursos fundam ental e m édio, o estudo da história da África e dos africanos e seus descendentes no Brasil, pois não são m uitas as obras sobre a África antiga publicadas em nosso país.

Rio de Janeiro, em 5 de setem bro de 2009.