A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 18 de 35

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A Enxada e a Lança

14. A região dos Grandes Lagos

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A região dos Grandes Lagos

 

Por volta do início da nossa era, ou talvez antes, os povos nilóticos que habitavam a região entre o Bahr-el-Jebel (ou Nilo da Montanha) e o altiplano etíope com eçaram a dividir-se, a em igrar e a diferenciar-se em três grupos linguísticos: os nilóticos orientais ou das planícies, os nilóticos sulistas ou do altiplano e os nilóticos ocidentais ou dos rios e dos lagos. Ao se dividirem , talvez j á conhecessem o ferro e talvez j á vivessem dentro de um sistem a pastoril que logo se transform aria num verdadeiro culto do boi. Deviam pescar. E não lhes seriam estranhos os rudim entos da agricultura. Presum e-se tam bém que tivessem , ao longo das encostas do altiplano etíope, contatos com os povos cuxitas e que deles

possam ter recebido, se é que não lhes transm itiram ,1 a organização social por grupos de idade.

Os nilóticos ocidentais, que desceram o Bahr-el-Jebel e foram viver no Sudd, quase não sofreram o contágio cuxita. Para eles e seus descendentes, entre os

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quais se incluem os nuers, os dincas e os luos, reservam alguns autores a designação de nilóticos, cham ando aos dem ais nilo-ham itas ou paranilóticos, por j ulgarem que seus idiom as e suas culturas contêm forte com ponente cuxita. Assim , os nilóticos orientais, que, em bora de início, quando se deixaram ficar próxim o ao lago Turcana, pouco tenham sido afetados pelo influxo cuxita, m ais tarde, ao com eçarem a se espalhar para o sul, com eles passaram a ter um intenso com ércio cultural. E assim os nilóticos sulistas ou do altiplano, que desde cedo estiveram sob am pla influência cuxita, com o revelam não só seus vocabulários, m as tam bém o terem adotado a proibição de com er peixe e as

práticas iniciatórias da circuncisão e da excisão clitoriana. 2

Pouco a pouco, esses nilóticos sulistas foram se assenhoreando dos planaltos do Quênia Centro-Ocidental, substituindo a econom ia neolítica cuxita pelas práticas de um a cultura do ferro m ais adiantada do que a banta. Traziam com eles rebanhos de bois, cabras, ovelhas e asnos, e cultivavam os m elhores terrenos com sorgo e m ilhete. Sua vantagem sobre os cuxitas, que foram paulatinam ente absorvendo, residia não apenas no uso do ferro — que devia ser raro, quase precioso —, m as sobretudo num a com binação da faina agrícola com o pastoreio, num sistem a de criação do gado m ais próprio às pastagens sem iáridas do Rift Valley e no em prego do esterco com o adubo nas lavouras. Conheciam a transum ância, e talvez a eles se deva a difusão da ordenha e da sangria dos bovinos, e da form a de consum ir, m isturados, o leite e o sangue. É possível, porém , que os cuxitas, desde há m uito, j á m ungissem suas vacas e tirassem o sangue das veias do pescoço de suas reses, se é que eram cuxitas os pastores

descritos por Agatarquides de Cnidus,3 no segundo século a.C.

Não se sabe quando os nilóticos sulistas ocuparam a parte central do Quênia.

Christopher Ehret4 5 propõe o últim o m ilênio a.C. Mas há quem argum ente não haver sustentação arqueológica para tal afirm ativa, pois até agora não se encontraram sinais de que o ferro tenha chegado ao centro do Quênia antes do século XII. Quem assim diz concede, entretanto, que os fatos ligados à expansão dos nilóticos teriam um a form a m uito m ais inteligível, se se pudesse recuar essa data para o início do segundo m ilênio de nossa era, ou para ainda um pouco m ais

atrás.6 Para os séculos VIII, IX ou X.

Quando quer que tenha sido, ao se expandirem os nilóticos que se têm com o

antepassados dos atuais calenj ins c pelos altiplanos ocidentais do Quênia, um outro

grupo, o dos ancestrais dos quênia-quadans, d tom ava posse das terras m ais baixas e m ais secas que se estendiam do leste de Uganda até o m onte Quênia, onde foram esbarrar com os bantos.

Os bantos, vindos do sul e do oeste, j á haviam tam bém ocupado as m argens orientais e setentrionais do lago Vitória. E, com o tem po, iriam converter ao seu

m odo de vida os nilóticos do grupo quitoqui,e cuj o avanço se dera para a região do lago Vitória e do m onte Elgon. Esses, por sua vez, influenciaram fortem ente as com unidades bantas da região, às quais transm itiram o conj unto de valores vinculados ao boi.

Entre o lago Vitória, de um lado, e os m ontes Quênia e Kilim anj aro, de outro, am plo era o espaço no altiplano para que nele se derram assem os nilóticos, incorporando aos seus núm eros os cuxitas que assim ilavam e rem etendo os dem ais para o sul do Rift Valley, para a estepe dos Massais e os planaltos adj acentes, bem com o para áreas m ais inóspitas, quais as planícies do nordeste do Quênia, que desde m uito eram redutos cuxitas, e a região de Athy.

Pela chapada de Uasingishu, espalharam -se os ancestrais dos calenj ins. Sabiam trabalhar o ferro, ainda que utilizassem grande núm ero de instrum entos líticos. Sem eavam grãos nos terrenos m ais altos, de m elhor solo e m ais úm idos, que m uitas vezes conquistavam às florestas, e levavam os rebanhos a transum ar entre o planalto e o Rift Valley. Para o sul, expandiram -se até a estepe dos Massais, e para leste, até a base do Rift Valley, m as não lhe subiram a parede oriental.

Ao redor dos Grandes Lagos

 

Praticavam , pois, um a econom ia m ista de agricultura e pastoreio. Um pastoreio cuidadoso, a j ulgar-se pelos m ilhares de currais cavados nos declives do altiplano e cercados frequentem ente por paredes de pedras soltas. Cada um a das vacarias contava com um a ram pa no lado m ais baixo, para que por ela pudessem descer os anim ais, e com um a cabana contígua, onde devia abrigar-se quem os guardava.

Esses currais, conhecidos com o “buracos de Sirikwa”, apresentam -se agrupados: som avam , às vezes, m ais de cem num a só encosta. Calcula-se que tenham com eçado a ser feitos no início do segundo m ilênio de nossa era, pelo

m enos desde o século XII, e que a prática se tenha estendido até o XVIII.7

Mais para o sul, no centro-norte da Tanzânia, outros nilóticos do altiplano, os

dadogues,f estendiam os seus dom ínios. Os territórios que ocuparam eram possivelm ente vazios entre áreas em que j á viviam bantos, cuxitas e restos de

populações m ais antigas, coletores e caçadores com o os hatsas e os sandaues. g Os dadogues desenvolveriam com todos esses povos um com plexo sistem a de convivência, de troca e de com plem entaridade. E a m uitos terão passado as novas técnicas do ferro, que traziam , e o sistem a de ocupação da terra em que se aliavam o pastoreio e a agricultura.

Devem ter sobretudo — e não só eles, m as tam bém os calenj ins e os dem ais nilóticos — difundido entre os bantos de que se faziam vizinhos as novas m aneiras de cuidar do gado, com a profunda integração entre o rebanho e os seus pastores, e o convívio e o apego entre o boi e o hom em . Alguns bantos teriam , assim , reaprendido a usar o gado, com o que recebido pela segunda vez o dom do boi.

Se os nilóticos sulistas ocuparam o planalto central do Quênia entre os séculos VIII e X, eles, em seguida, possivelm ente desceram o m apa, pela região interlacustre e por um a ou am bas as m argens do lago Tanganica, e passaram ao

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nordeste da Zâm bia e ao sul da República Dem ocrática do Congo. Os responsáveis por essa m archa para o sul, em busca de m elhores ou de novas pastagens, conduziriam rebanhos que se m ultiplicavam rapidam ente, num a cultura na qual as reses só em circunstâncias especiais são abatidas. Eles podem ter estabelecido bolsões em sítios particularm ente propícios à criação do gado, com o o vale do Cafué, o alto Zam beze, o planalto de Bié, o vale do Cunene e o país dos hereros, entre os pântanos de Windhoek e Okavango. E devem ter contribuído substancialm ente com o seu gado para o aum ento das m anadas dos

bantos de Zim babué e da África do Sul — com o os angúnis,h que possuem um com plexo do boi em tudo sem elhante ao dos nilóticos — e para fazer crescer os rebanhos que apascentavam os hotentotes, se é que não lhes deram , pelo exem plo transm itido, diretam ente ou através de outros povos, o prim eiro im pulso.

O cam inho por entre os lagos e a bordej ar o Tanganica deve ter sido o m ais antigo. Mas não o único. Pois os nilóticos do altiplano tam bém baixaram pelo lado ocidental do Rift Valley e, após cruzarem os chapadões sem iáridos da Tanzânia, podem ter chegado à Zâm bia através da passagem entre os lagos Tanganica e Maláui. Toda essa área com preendida pelo sudoeste da Tanzânia, o nordeste da Zâm bia e o norte do Maláui é culturalm ente hom ogênea. Os bantos que ali vivem são patrilineares, com o os nilóticos, e possuem a tradição de que seus prim eiros

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chefes foram estrangeiros e senhores do gado.

A propagação dos valores culturais vinculados aos nilóticos do altiplano terá sido obra, em grande parte, dos próprios grupos bantos que deles adotaram os novos costum es. Do m esm o m odo que houve nilóticos que passaram a falar banto e trocaram o pastoreio pelo plantio da bananeira, ou se fizeram caçadores e coletores (após terem perdido seus rebanhos, por doença do gado ou por saque de grupos inim igos), m uita gente banta im pregnou-se do estilo de vida nilótico e lá se foi savana afora, atrás de suas reses, a deixar entre outros as form as culturais que adquirira.

Outras personagens preparavam -se, entretanto, para entrar na história.

Na m argem ocidental do lago Rodolfo ou Turcana, em áreas próxim as a

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cem itérios cuxitas dos últim os séculos a.C., foram desencavados restos de ocupações hum anas que se atribuem aos nilóticos orientais (ou das planícies) e que têm sido datadas de 540 a 1100.

Os hom ens que deixaram esses rastros eram pastores e grandes pescadores. Faziam um a cerâm ica ornada com incisões profundas, horizontais, a acom panhar a circunferência do vaso, e interrom pidas por pequenas protuberâncias ou filas de nodos. Ficou ela conhecida com o cerâm ica de Turkwell, do nom e de um rio que deságua no lago Turcana. Ali, j unto aos barros, encontraram -se arpões ou pontas de lança de osso, m icrólitos e raspadores de pedra, contas de ovo de avestruz e o pó ocre que hoj e é tão usado pelos pastores da África Índica. Acharam -se tam bém utensílios de ferro, m aterial que ainda devia ser m uito escasso.

É provável que esses nilóticos não apenas sucedessem os cuxitas na área, m as continuassem a tê-los com o vizinhos. Se assim tiver sido, pouco por eles foram influenciados, pois eram oleiros — atividade vedada aos cuxitas — e com iam peixe — o que àqueles é interdito.

Das m argens do Turcana, que se considera com o área de dispersão dos nilóticos orientais, espalharam -se eles pelo nordeste do Quênia e o norte de Uganda, deslocando e assim ilando os quênia-quadans. Por volta do ano 1000, os

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carim oj ongues-tesos, responsáveis por essa expansão, j á ocupavam as faldas do m onte Elgon.

Bem m ais longe foram outros grupos de nilóticos orientais, que receberam o nom e de m assaianos, pelas afinidades que seus idiom as teriam com o do povo m assai, o qual, por volta de 1400, ainda não havia iniciado sua grande m igração e dispunha suas aldeias ao longo do vale do rio Kerio, que desem boca no lago

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Turcana. Os m assaianos teriam passado pela escarpa de Laikipia para o norte das regiões ocupadas pelos calenj ins e ido ter ao lado oriental do Rift Valley. Ainda no norte, antes de descerem ao longo da enorm e fratura tectônica, tiveram provavelm ente intensos contatos com os cuxitas, assim ilando m uitos deles e contraindo ritos e costum es, com o a proibição de com er aves e caça. Chegaram até o Kilim anj aro e aos m ontes Taita. Ali teve seguim ento o processo de interação de sua cultura com as dos cuxitas, dos nilóticos do altiplano e dos bantos. Dos prim eiros ou dos segundos acolheram a circuncisão e a excisão clitoriana. Dos segundos, o escudo oval de couro. Dos bantos, a banana e um renovar do interesse pela agricultura.

Ao iniciar-se o segundo m ilênio de nossa era, os bantos j á haviam avançado litoral acim a, até os lim ites da Som ália. Fixavam -se nas terras úm idas. Onde pudessem plantar bananeiras, feij ões e tubérculos. Onde fosse abundante o peixe. Onde se dessem bem seus anim ais dom ésticos. Pois pescavam m ais do que caçavam e, em bora possuíssem gado em pequeno núm ero, não eram pastores.

Muitos grupos bantos j á haviam aprendido, contudo, a viver em regiões m ais secas, j á conviviam com as chuvas escassas. Trocaram inham es e bananas pelo sorgo e o m ilhete, que os cuxitas e os nilóticos sem eavam . Dessa form a, alteraram -se, entre alguns bantos, não apenas os processos de trabalhar o solo, m as tam bém — e isto é sem pre m ais custoso — os hábitos alim entares.

Era na fronteira entre o úm ido e o seco que essas m udanças se davam , com a abantuzação de pastores e colhedores e o aprendizado, pelos bantos, de técnicas da pastorícia e da agricultura no sem iárido. Alguns grupos m udavam de idiom a. Outros, de instituições. Outros ainda, de história, ao assum irem com o suas as tradições de vizinhos, as de povos em cuj o m eio se instalaram ou até m esm o as de im igrantes que acolheram .

Deviam ser pequeninas e m uito espalhadas as aldeias bantas que ficavam j unto ao m ar ou pouco m ais para o interior, nas planícies costeiras do Quênia e da Tanzânia. Vilarej os possivelm ente sem chefes, a não ser os cabeças de fam ílias ou de linhagens. E, quando as aldeotas estavam próxim as de cidade suaíli, talvez delas viesse a gente que se ia acrescentando à plebe urbana de Pate, Mom baça ou Quíloa. E tam bém os fornecedores de m adeiras, peles, m arfim , chifres de rinoceronte, dentes de hipopótam o e alguns alim entos. Não faltaria quem atravessasse — nas canoas com flutuadores laterais, introduzidas pelos indonésios — o estreito m ar que separava o continente das ilhas de Mafia, Zanzibar ou Pem ba, e ali fosse fazer o seu escam bo.

Os contatos entre os bantos do interior e os suaílis dever-se-iam possivelm ente m ais à iniciativa daqueles do que a estes. Se Ungwana, no delta do Tana, utilizou o rio com o acesso ao sertão e se cada um a das cidades costeiras m antinha aliança

com um grupo do interior, 12 não há evidências de que os suaílis se tenham aventurado continente adentro, ao norte de Rovum a. Seus interesses fixaram -se m ais ao sul, nas rotas que levavam ao Zim babué.

Quando quiseram explorar o sertão, devem ter esbarrado com grandes trabalhos. Trabalhos que talvez não se j ustificassem , pois o interior não oferecia aos com erciantes da costa nada que não pudessem obter na hinterlândia

im ediata, a poucos quilôm etros do m ar.13 É difícil, com efeito, para quem vem da costa, o acesso ao planalto do Quênia e da Tanzânia. O terreno eleva-se de repente, ainda perto do litoral, a m ais de 1.200m . A m ais de 1.800m , nas m ontanhas de Ngulu, Usam bara e Pare e na chapada de Iringa. A paisagem , desde a planície litorânea e pelo subir das encostas, é de carrascal, de cerrado espinhoso e adusto. No alto do planalto, pouco m elhora: volta-se num a savana seca. A água é parca. As chuvas, poucas e ralas.

De longe em longe, um rio desce do planalto. Ao correr de suas m argens, os bantos foram erguendo aldeias e subindo na direção das m ontanhas, prim eiro das m ais baixas, com o Pare e Digo, depois das m ais altas, com o Kilim anj aro, Quênia e Ny andarua, onde são ricos os solos vulcânicos e forte a pluviosidade. O vale do rio Pangani deve ter sido um dos m ais antigos cam inhos da lenta

penetração banta. Para o Kilim anj aro.14 E os rios Tana e o Galana, com seu afluente, o Athy, no rum o do m onte Quênia.

Por volta do século XI ou XII, os bantos j á viveriam nos contrafortes entre o m onte Quênia e a cordilheira de Ny andarua. É isto o que indicam os achados arqueológicos de Gatunganga. Ali desencavaram -se fragm entos de cerâm ica do tipo Kwale (habitualm ente identificada, na área, com os bantos do início da Idade do Ferro). Estavam em baixo de cam adas de escórias, que se dataram , pelo m étodo do radiocarbono, de 1100 a 1350, aproxim adam ente.

Esses bantos, que deviam ser sem elhantes aos que se instalaram nas m ontanhas de Pare e Digo, j á trabalhavam o ferro, em bora ainda utilizassem lâm inas de obsidiana. Não se encontraram , nos restos por eles deixados, sinais de que fossem produtores de alim entos. Caso fossem , porém , plantadores de

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banana, o tem po e a terra não guardariam restos disto.

As escavações em Gatunganga revelam um a longa ocupação por fundidores de ferro. O aum ento de artigos de ferro está ligado a um novo tipo de cerâm ica, m ais tosco, decorada com linhas duplas em zigue-zague, feitas por um instrum ento de dois dentes. Essa cerâm ica ocorre em toda a região, até os m ontes Pare, e em Gatunganga se associa a abundantes ossos de gado. Os vestígios de atividade agrícola continuam ausentes.

Supõe-se que, no século XII, outras com unidades bantas se estivessem estabelecendo nas faldas m eridionais do m onte Quênia: os antepassados dos

tagicus.j E presum e-se que ascendentes dos chagas teriam com eçado a ocupar

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as encostas, que davam para sudeste, do Kilim anj aro. Os ancestrais dos taitas j á teriam tam bém chegado às m ontanhas que tom aram o seu nom e.

Essas áreas verdes em m eio à savana e ao cerrado ressequidos não se encontravam , no entanto, de todo desabitadas. No sopé das altas elevações, viviam grupos de cuxitas que pastoreavam o gado e praticavam um a agricultura de cereais, baseada na irrigação e na adubagem . E pode ter sido no processo de assim ilação desses cuxitas que os bantos aplicaram as técnicas dos que os haviam

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precedido à bananeira e passaram a cultivá-la de m odo intensivo nos vales e

nas vertentes das m ontanhas.

À m edida que se m ultiplicavam , os bantos viram -se obrigados a subir os m ontes, a desbastar as florestas que os cobriam . Ou, então, a disputar espaço com os cuxitas, que, por sua vez, se defrontavam , no chão do planalto, com os nilóticos orientais, cuj as técnicas de pastorícia e cuj as arm as eram superiores às suas.

Os pastores, fossem cuxitas ou nilóticos, preferiam as cam pinas e as savanas planas, ainda que m ais secas, aos terrenos altos e acidentados. Mas não podiam apartar-se inteiram ente de áreas onde pudessem sem ear os grãos, um a vez que deles tam bém dependiam para o sustento, e não apenas da ordenha e da sangria do gado. Havia tam bém exem plos de vaqueiros nôm ades que se convertiam ao sedentarism o agrícola e de hom ens que viviam da enxada e se rendiam à transum ância pastoril.

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Dizem as tradições dos quicuios que, ao chegarem , vindos do nordeste, ao m onte Quênia e à cordilheira de Ny andarua, eles se encontraram , num a região de densa m ata, com os caçadores atis, de estatura sem elhante à deles, e com um a gente baixinha, os gum bas, excelentes ferreiros. Os atis, que têm sido identificados com caçadores cuxitas ou nilóticos, não se deixaram absorver pelos quicuios e se retiraram floresta acim a. Já os gum bas, apesar de tidos por anões, são considerados por m uitos quicuios com o seus antepassados e foram absorvidos pelos im igrantes, se é que não os absorveram . Os quicuios, que eram pastores e caçadores, teriam aprendido com os gum bas a trabalhar o ferro, podendo, graças a isto, abrir clareiras na m ata, para nelas plantar os bananais.

Roland Oliver 18 propôs um a nova interpretação das tradições sobre a origem dos quicuios. Estes j á estariam no espaço entre o m onte Quênia e o Ny andarua desde m uito tem po, e não seriam , portanto, os im igrantes vindos do nordeste entre os séculos XV e XVI, m as, sim , os gum bas, que aqueles encontraram . Ferreiros e agricultores. Bantos. Já os recém -vindos, pastores e caçadores, altos com o os atis, seriam na realidade nilóticos, talvez um pequeno grupo que resolveu, acossado por longo período de seca, abandonar a savana e tentar um novo m odo de vida, em terras onde o verdor não perecia e onde a água era abundante. A m udança foi tão drástica, que a história dos recém -vindos se tornou a dos próprios quicuios que os receberam e assim ilaram .

Quer os im igrantes fossem nilóticos ou quicuios — quicuios que se depararam com outros bantos, os gum bas, anteriores a eles na área —, a história ilustra os processos de contato, am algam ação e recusa, de troca, conflito e aculturação, que se verificaram , ao longo dos séculos, nas m ontanhas que olhavam para o Rift Valley e que se erguiam sobre o planalto de pasto pardacento. Os quicuios, os taitas e outros povos bantos da região possuem em seus vocabulários m uitos term os de origem cuxita. E de herança nilótica ou cuxita seriam m uitas das práticas sociais e rituais deles e de seus vizinhos, com o a diferenciação por grupos de idade e com o a circuncisão e a excisão clitoriana, na passagem da adolescência para o m undo dos adultos.

A vizinhança e o convívio entre agricultores, pastores e colhedores perm itiram que se estabelecesse, desde m uito cedo — com o o provaria, no idiom a dos prototagicus e dos chagas, a antiguidade da palavra correspondente a m ercado —, o com ércio regular entre eles. Na região dos m ontes Quênia e Kilim anj aro,

os m ercados form ais datariam , assim , de vários séculos. 19 Eram pontos de encontro, para os quais os pastores traziam couros e gado; os recolectores da floresta, m el e caça; os agricultores, produtos da terra, artigos de ferro, vasos de m adeira e cabaças — estas, essenciais para os boiadeiros, que nelas guardavam o leite e a água.

Não seria de estranhar-se que surgissem , nesses pontos de encontro, em briões de chefias, capazes de arbitrar as disputas. O que surpreende é o contrário: é que entre os quicuios e seus vizinhos não tenham despontado form as de poder m ais centralizadas do que o conselho de cabeças de linhagens. É possível, porém , que a figura do rei haj a aparecido, antes do século XVI, entre os chagas do Kilim anj aro, ainda que as dinastias dos seus num erosos pequenos estados não recuem até então. Com quase certeza, houve na prim eira m etade do m ilênio, no norte dos m ontes Pare, um em brião de estado, ao redor de um centro de fundição de ferro, onde um a estirpe de ferreiros se im pôs de tal m odo, que gente vinha de longe, não apenas com prar os utensílios que m anufaturavam , m as

tam bém decidir suas pendências e iniciar os seus j ovens.20 Esse m icroestado não deve ter sido exceção na área.

Para o sul e para o oeste, onde hoj e se estendem o Maláui, a Zâm bia, o Zim babué e a República Dem ocrática do Congo, os bantos j á haviam criado estados desde pelo m enos o século XI. E há sinais de que isso estava a ocorrer, pela m esm a época, na região interlacustrina da África Oriental.

Por volta do ano 1000, j á deviam ser bantos, até o norte do lago Ky oga, os territórios com preendidos entre os lagos Tanganica, Quivu, Katwe (Ruero ou Eduardo) e Alberto (ou Onekbony o), a oeste, e o arredondado lago Vitória (ou Ny anza), a leste. Nas terras elevadas, m as de relevo suave, havia enorm es pastagens, de capim alto e viçoso, pontilhadas aqui e ali por um arbusto ou um a árvore. Nos vales e nas terras baixas, sobretudo nas m argens setentrionais e ocidentais do lago Vitória, predom inavam as florestas densas, que os bantos foram derrubando e substituindo pelos bananais.

Nessa região de bons solos e chuvas regulares, os bantos devem ter encontrado com unidades de cuxitas, sudânicos centrais e sudânicos orientais, que ali m oravam desde antes do século V a.C. Essas gentes conviveriam com os bantos por dem orado tem po, dividindo-se, na ocupação das terras, conform e a atividade predom inante. Os sudânicos orientais cultivavam sorgo e m ilhetes; e os sudânicos centrais nisto os seguiam , além de criar gado e produzir leite; os cuxitas eram pastores; e os bantos pescavam , plantavam inham es, palm eiras oleaginosas, feij ões e cabaças e cuidavam de cabras e ovelhas. No longo processo de som a e trocas, os bantos se teriam favorecido, por m ais capazes de digerir as técnicas dos vizinhos e de adaptar-se às diferentes paisagens e aos vários sistem as de

produção que existiam na área. 21

Na passagem para o segundo m ilênio de nossa era, cuxitas e sudânicos se haviam , ao que parece, dissolvido nas com unidades bantas. Ou, pelo m enos, adotado as línguas bantas. As povoações perm anentes passaram a ser ali a regra e se tornaram polos de atração para novas fam ílias. Nessas grandes aldeias, onde o trabalho se especializava, foi-se tornando m ais difícil ou m enos eficiente tom arem -se decisões grupais num a espécie de pequeno conselho ao ar livre, em que se reuniam os chefes das linhagens. Desenvolveram -se unidades m aiores, os clãs, reunindo as várias fam ílias extensas que se arrogavam um antepassado com um . E j á aqui não era apenas o laço de sangue que im portava, m as o da vontade, pois m uitas vezes um grupo aderia a um clã por desej o próprio. Havia um a espécie de parentesco fictício ou político, que tinha por efeito o engrossar os clãs m ais fortes ou de m aior prestígio, cuj o poder ou renom e derivava de sua riqueza, da atividade que exercia a fam ília nele dom inante, da extensão das terras que controlava — pois, em m uitos casos, o chefe do clã era tam bém o “senhor da terra” —, da eficácia de seu xam ã ou fazedor de chuva, ou da posse de um im portante santuário religioso. Finalm ente, organizaram -se constelações de clãs, com um deles em posição de predom ínio e, nele, um a ou m ais fam ílias vocacionadas ao m ando, fam ílias que se tornavam dinastias. O chefe da dinastia, ao casar-se com m ulheres dos vários clãs que viviam no território e ao designar m em bros de cada um deles para cargos im portantes, tornava a sua liderança aceita e criava um em brião de corte em que todos os grupos de parentesco estavam representados.

Os bantos que se estabeleceram ao sul do Nilo Vitória, entre o lago Alberto e o lago Vitória, teriam vivido esse processo de centralização política, ao redor de determ inados clãs, com o o Gabu, ou Bagabu, responsável por um a das m ais

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antigas chefias da área, a de Bugangaizi. Outro clã de chefes teria sido o de

Baiga, associado à pecuária e à extração do sal de Kitoro, no lago Alberto. E outro ainda, o de Basiita, que, com o os prim eiros chefes dos m ontes Pare, devia fam a e força à habilidade com que trabalhava o ferro.

Na m etade do século XIII, j á devia haver um bom núm ero de pequenas chefias bantas na região, lado a lado com aldeias ou grupos de aldeias nas quais a vida política não ultrapassava as dim ensões da linhagem ou do clã.

Diz a tradição que o clã Bagabu foi fundado por Hangi, pertencente à dinastia dos Abatem búzis, ou reis pioneiros de Quitara. O prim eiro dos Abatem búzis, Ruanga, o criador, desceu do céu, com seu irm ão Anguia, para reinar sobre os

l

hom ens. Os Abatem búzis teriam sido 19, segundo os nioros, ou apenas quatro,

conform e os ancolés. m E todos participavam da condição de deuses: desconheciam a m orte e, após certo tem po, retornavam ao céu. Transferindo-se do m ito para a história, eles representariam os chefes dos pequenos estados agrícolas que se form aram , no início do segundo m ilênio, na região onde depois seria o reino do Bunioro.

Ao sul do lago Ky oga e ao norte do Vitória, pela m esm a época, as linhagens tam bém se arregim entavam em clãs. E surgiram chefias bantas a abranger vários clãs, com o as de Bugulu, em Busoga, a de Bem ba, no Buddu. A prim eira, em torno de um im portante santuário religioso e da indústria cerâm ica. Am bas fundadas na agricultura, que se abria na floresta, num a região de solos vulcânicos de extraordinária fertilidade.

O enredo repetiu-se m ais abaixo; nos territórios entre os lagos Vitória, Katwe e

n

Quivu. Onde ali era floresta, viviam , por volta de 1200, os tuas, colhedores e caçadores, poteiros e fabricantes de cestos. Após a chegada dos bantos, a estes se assim ilaram , quando não vieram a form ar segm entos de estados m ulticlânicos. Em cada um dos estados, havia um clã predom inante e, neste, um a linhagem que se poderia cham ar de real. O seu chefe era o m uam i, a um só tem po líder político e líder religioso, “senhor da terra” e fazedor de chuvas. Uns poucos clãs deram dinastias reinantes a m ais de um estado. Assim o Basiita, a Ancolé, a

o

Caragué e a vários estados haías.

No Ruanda, identificaram -se sete clãs form adores de estados. Desses, o m ais antigo teria sido criado pela linhagem Renge (ou Abarenge) do clã Singa. Seu dom ínio estendeu-se por todo o noroeste e o sul do atual Ruanda. No nordeste, o clã Zigaba estabeleceu o reino de Mubari, e o clã Gesera, o de Gisaca. Tam bém na região central, escapou aos Renges um m icroestado, Busigi, onde m andava um senhor da chuva. Aos Renges atribuem -se m achados e enxadas de ferro de grande tam anho, e talvez derivasse de serem ferreiros o poder desses reis, que, para alguns, pertencem à história e, para outros, ao m ito.

Os que não creem que esses estados resultaram da evolução das instituições bantas, ao se adaptarem às m udanças nas relações sociais provocadas pela bananeira e por um a nova pastorícia, aventam a possibilidade de que tenham eles surgido da ação ou do exem plo de outros povos, com m odos de vida distintos dos dos bantos próxim os aos quais se instalaram , com distinta m aneira de fundir o ferro, se é que o fundiam , e com um regim e m isto de agricultura e criação de gado. Talvez o surgim ento de estados na região interlacustre tenha sido resposta ao desafio da presença crescente de estranhos, que iam ocupando as terras m enos úm idas e m enos férteis. E não se pode excluir que essa gente difundisse derredor um novo conceito de realeza.

Por volta do ano 1000, a cerâm ica de Urewe, tida por banta, cede espaço a um a outra, m onotonam ente ornam entada por picotes produzidos por um cordão de palha, cheio de nós, sobre o barro m ole. Esse novo tipo de vaso encontra-se tanto nas terras úm idas quanto nas sem iáridas, a indicar um a ocupação hum ana

distinta. Sugere-se, 23 por isso, que tenha sido introduzido por pastores que cultivavam grãos, pastores vindos do norte e que se foram infiltrando nas terras m enos propícias à agricultura praticada pelos bantos.

Essa decoração por rolete tem sido associada aos nilóticos. No presente e, por

ilação, no passado. 24 Sugeriu-se, por isso, que a sua técnica tivesse sido trazida

por nilóticos.25 Por nilóticos sulistas, que, com seus rebanhos, teriam baixado dos planaltos do Quênia, circundado o sul do lago Vitória e subido para a região

26

interlacustre, onde os bantos a acolheram . Se acabaram por converter os

nilóticos a seus idiom as, os bantos teriam com eles aprendido a ordenhar o gado, a estrum ar as roças e a alim entar-se de m odo m ais rico. E para resistir à am eaça que podiam representar os novos vizinhos e m elhor absorvê-los, reforçaram suas instituições, até desem bocar no estado m ulticlânico.

Para os adeptos da prim eira tese, que não aceitam terem as m igrações nilóticas determ inado m udanças substanciais na região, a nova m aneira de gerir o gado desenvolveu-se naturalm ente dos sistem as que preexistiam na área, com o indicaria o fato de ser o seu vocabulário pastoril de origem m aciçam ente banta, e

não nilótica. 27 Os bantos podem ter adotado a cerâm ica decorada com roletes por troca e im itação, sem necessidade de grandes ou repetidos m ovim entos

populacionais. 28

Os relatos de m igração, m uitas vezes de não m ais que um punhado de hom ens, repetem -se, contudo, nas tradições interlacustres. E deles é um exem plo a

história de Quintu, p 29 o m aravilhoso, de quem se conta que saiu da região do m onte Elgon, foi ter ao sul do lago Ky oga e, no correr de um a série de peripécias, fundou vários pequenos estados ao longo das m argens setentrionais do lago Vitória. Entre eles, Buganda. Outros m icroestados teriam surgido por sua causa: da resistência dos locais diante do recém -vindo ou de cisão nas hostes que o acom panhavam .

Em cada lugar, havia um arranj o entre os im igrantes e a gente da terra, um processo de acom odação em que podia incluir-se o casam ento de Quintu com a filha de um chefe de clã. Quando, porém , os peregrinos se defronta-ram com estados m ulticlânicos, tudo se fez m ais difícil. Em Bugulu, receberam abrigo por algum tem po, m as logo o rei, por interm édio de um oráculo, os convenceu a partir. Em Bem ba, Quintu entrou em conflito com o soberano local, que foi m orto. Os dom ínios deste form ariam o núcleo de Buganda.

Quintu — dizem — trazia ao pescoço um colar de grãos de ensete, a falsa bananeira característica da Etiópia. Ele poderia ser, assim , cuxita, vindo de um a

região onde, desde os prim eiros séculos da nossa era, havia pequenos reinos.30 Poderia tam bém ser um nilótico do altiplano ou um banto a deslocar-se sob

pressão nilótica, 31 pois os quitoquis esbarraram com os bantos precisam ente na região do m onte Elgon. Ou, ainda, um banto a buscar m elhores oportunidades para suas bananeiras e seu gado, pois de am bos se diz que foi o introdutor em

Buganda. 32 Fosse ele o que fosse — o m ais provável é que não tenha existido

33

com o pessoa, sim bolizando um período histórico —, o que se narra, na peregrinação de Quintu, é com o um grupo de nortistas foi absorvido pelas

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populações preexistentes nas m argens do lago Vitória, e com o se reuniram ao

redor de novas lideranças, locais ou estrangeiras, os vários chefes de clãs de um a área. Quintu não traz um a nova ideia de organização política. Ele a encontra entre os bantos de Bugulu e Bem ba, e deles a adota.

Os fatos que a história de Quintu resum e ter-se-iam passado entre os séculos

XII e XIV.35 No fim desse período, acontecim entos de traço sem elhante inscrevem -se nas tradições das gentes que vivem na região interlacustre, ao sul do Nilo Vitória.

Ali ficava a chefia m ulticlânica de Bugangaizi. Seu rei era Isaza, um Abatem búzi. Um funcionário da corte deste, o plebeu Bucacu, o depôs e assum iu o m ando. Os chefes de vários clãs rebelaram -se contra a usurpação e, m uito em bora Bucacu os houvesse vencido a todos, enfraqueceu-se de tal m odo que não pôde continuar a fazer frente à insatisfação do povo e se viu obrigado a entregar o poder a um seu neto, ou neto de Isaza, Andaura, que fora criado por

q

um poteiro e pertencia a um a linhagem do clã Cuézi.

Andaura teria transform ado a chefia de Bugangaizi no im pério de Quitara. Grande e infatigável guerreiro, reduziu à vassalagem toda a am pla zona que com preende o Bunioro, o oeste de Buganda, Toro, o norte de Kigezi, as ilhas Sese, Ancolé, Kiziba, Caragué, a porção nordeste de Ruanda e parte do oeste do Quênia. Seu m ando direto não devia, contudo, exercer-se m uito além da corte, sendo o seu im pério um a frouxa confederação de m icroestados preexistentes. Ou nem isso, pois se pergunta se o nom e Quitara se aplicou algum dia a um verdadeiro reino, ou se não designaria apenas um a zona em que coexistiam

vários estados de cultura e instituições sem elhantes. 36

Derrotado na batalha de Bakoba, quando um eclipse do sol apavorou suas tropas, Andaura fugiu para o poente, para um lugar desconhecido, um a vez que

não desej ava retornar, desm oralizado, a Quitara. Sucedeu-lhe o filho Uam ara, r com quem term inou o reinado dos Cuézis, um a dinastia com apenas dois reis e um regente, Murindua, irm ão de Andaura e que o substituía.

37

Assim dizem as tradições. E dizem tam bém que os Cuézis, com o os abatem búzis que os antecederam e aos quais pela lenda estavam ligados, eram seres que participavam do divino. Tinham um a aura sobre-hum ana. De olhar penetrante, eram m ágicos, poderosos, capazes de m atar anim ais a grande distância e de ilum inar a noite com suas lâm padas. Calçavam sandálias de couro. E tangiam gado de longas aspas, distinto dos anim ais de chifre curto que até então ocupavam as pastagens interlacustres. Conheciam a ordenha e bebiam leite e m el ferm entado. Batiam a entrecasca das árvores para com elas fazer panos. Cultivavam o café. Viviam em grandes cabanas de caniço e colm o. E, sendo um grupo pequenino, eram afetuosíssim os entre si e de ferocidade im placável com os súditos.

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As tradições — e alguns arqueólogos e historiadores com elas concordam —

atribuem aos Cuézis os grandes fossos e outros trabalhos com m ovim entos de terra existentes em Bigo e em vários outros sítios da região, com o Mubende, Munsa, Masaka, Kibengo, Kagogo, Kasonko e Ntusi.

Diz-se de Bigo que foi a últim a capital do últim o rei cuézi, Uam ara, ou o lugar onde o seu sobrinho, fam oso nas lendas, Mugenj i, guardava os seus rebanhos de

longos chifres e cacundas esplêndidas. 39 Fica nas pradarias de Ancolé. O pasto ali é rico e verde. E um a pequena parte dele — pouco m ais de cinco quilôm etros quadrados — foi isolado por valas e barreiras, a desenharem um arco que tem por corda a m argem de um pântano form ado pelo rio Katonga.

Ao todo, são cerca de 11km de trincheiras, que podem chegar até perto de quatro m etros de profundidade e pouco m ais de dez m etros de largura. Há um a linha exterior de valas. E, dentro do espaço que ela encerra, outro sistem a de fossos e m uros reparte o terreno, pelo m esm o m étodo de cavar o chão e acum ular em longos m ontes o que dele se retirou. Essa divisão interna por m ovim entos de solo, em vez do recurso m ais sim ples a paliçadas baixas, j á foi

atribuída à falta de m adeira nos arredores.40

O traçado de Bigo é sim ilar ao plano das residências reais de Ancolé, Caragué e Ruanda, em bora Bigo, quando se conta todo o espaço lim itado pela linha exterior de valas e barreiras, sej a m uito m aior do que qualquer um daqueles com pounds. Se não tem a im ponência nem a com plexidade das m uralhas de

terra dos hauçás e dos iorubás,41 suas obras requereram esforços m uito

42

superiores aos em pregados na m aior das edificações do Grande Zim babué. Os

que as fizeram deviam enquadrar-se num a organização social hierarquizada e com poder para recrutar trabalho.

Caso os fossos e as am uradas tivessem função m ilitar, sua capacidade

defensiva seria pouca ou nenhum a. 43 Isto porque a terra retirada das valas era geralm ente acum ulada do lado exterior e com ela se faziam as barreiras. Invertia-se, assim , a posição tradicional das estruturas de defesa: nem o fosso protegia os defensores, nem a barreira era um obstáculo aos atacantes. Se o inim igo chegasse à am urada — e depois dela havia um buraco, que cortava as possibilidades dos locais de a defenderem —, ficava num a posição m ais alta do que os adversários e podia fustigá-los com suas lanças, flechas e azagaias. Além disso, os trabalhos de terra que delim itam Bigo apresentam 12 grandes hiatos, que funcionariam com o largas portas, a enfraquecer-lhes ainda m ais a função defensiva. Pelos vãos passava o gado. E para guardar o gado, teria sido escavada a grande linha exterior de trincheiras. Bigo seria, portanto, um im enso curral, em cuj o centro, num terreno m ais elevado, com um sistem a em ponto m enor de valas e barreiras, talvez habitassem os grandes da terra. Com o, ainda no século XIX, faziam os reis de Ancolé e Ruanda.

De Bigo, desenterraram -se ossos de gado e cerâm ica ornam entada por roletes, um a variante do tipo que se acredita ter sido difundido na região pelos nilóticos. E a uns oito quilôm etros dessas trincheiras, em Ntusi, encontraram -se restos de outras obras em terra, bem m enores, m as não m enos im portantes. Ali, no centro do que seria um a aldeia, cavaram -se dois açudes — esta é um a das interpretações — que seriam alim entados pelo Katonga, ou duas grandes

cacim bas relativam ente rasas — e esta é a outra hipótese.44 Quer se tratasse de represam ento de águas ou de escavações até o lençol freático, o obj etivo final dessas depressões, arredondadas com o pratos fundos, seria o m esm o: dispor de água para os rebanhos — talvez os m esm os a que Bigo oferecia proteção.

É possível que Bigo e Ntusi se com pletassem . Pois em Ntusi não só se cultivava sorgo, em solos cuj a fertilidade era acrescida com restos de cozinha, cinza e esterco, m as tam bém se fundia o ferro. Em bora fosse um a com unidade agrícola, provavelm ente acolhia, de quando em quando, os rebanhos das redondezas, que nela iam abeberar-se, com er os restolhos do fim das colheitas e deixar em troca

45

o esterco. Daí que J.E.G. Sutton se m ostre tentado a ver em Bigo e Ntusi

indícios do reino de Quitara ou de um dos vários estados culturalm ente sem elhantes que se desenvolveram na região e cuj as capitais seriam outros sítios cercados por fossos e barreiras, com o Masaka. Este fica no alto de um m onte, tal qual Mubende. Am bos são até hoj e santuários de im portância e a am bos, e a

46

Ntusi, a história oral faz capitais dos Cuézis.

A datação por radiocarbono põe Bigo entre os séculos XIII e XVI, e Ntusi entre o XI e o XIV ou XV. Am bos os locais foram depois abandonados e esquecidos, com o um a espécie de terra de ninguém entre os reinos de Ancolé,

Bunioro e Buganda.47 Seus inícios coincidiriam , portanto, com as 19, 20 ou 21 gerações que os relatos tradicionais colocam entre nós e a ascensão dos Cuézis.

Os Cuézis, distantes no tem po e na lenda, alim entam polêm icas. Há quem os

considere um clã banto, 48 que se aproveitou do clim a de m udanças econôm icas para substituir o chefe de Bugangaizi por um dos seus. Com efeito — argum enta-se —, Isaza, o últim o dos Abatem búzis, foi destituído por um funcionário da corte, e não por um estranho. E Bucubu cedeu a Andaura, tam bém de casa. Seu neto. Ou neto do rei deposto. Mas não se afasta que a história oral tenha adulterado o parentesco, a fim de dar legitim idade aos Cuézis; e o fato de Andaura ter sido criado por um pai adotivo, que era poteiro, corroboraria essa hipótese. Tam pouco se exclui que os Abatem búzis não fossem bantos, em bora sobre eles m andassem . Vieram do céu, diz a lenda, e tinham dons sobrenaturais, com o os Cuézis. Talvez

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uns e outros pertencessem à m esm a gente, tendo havido apenas substituição de

clãs no poder.

Se os Cuézis não eram bantos, teriam entrado na região interlacustre a tanger m anadas. E, se construíram Bigo, isso explicaria a feição que ela tem de capital de um reino pastoril. Mas não ilum ina inteiram ente o m istério.

Há quem pense que seriam him as, 50 parentes, portanto, dos tútsis e dos hindas.

E os him as seriam cuxitas, vindos do sul da Etiópia51 ou provenientes do

52 53

Quênia. Mas poderiam ser tam bém luos, nilóticos ocidentais que desceram o grande rio. Ou sudânicos centrais, que ocupavam o norte de Uganda, eram pastores e faziam vasos de barro do m odelo que se encontrou em Bigo.

Bigo, contudo, pode não ter qualquer ligação com os Cuézis. A não ser na fantasia popular. O vínculo, que consta da história tradicional, seria, assim , um a inclusão relativam ente recente, talvez por contágio de um a hipótese nascida entre

europeus, 54 que a foram insinuando, através de perguntas, a seus interlocutores africanos. Talvez. E talvez o enredo dos Cuézis sej a um m ito etiológico, não

contendo inform ação válida sobre o passado da região. 55 Entraria na história com o o de Rôm ulo e Rem o. Os Cuézis fariam parte de um panteão de divindades da natureza, im aginada com o se fosse um a fam ília. E não haveria com o resistir à tentação de considerar as aventuras de Andaura — que se abriga no poente, após ser vencido pelo eclipse — um m ito solar.

Ainda hoj e há, porém , um clã Cuézi entre os him as.56 Em contraposição, recorde-se não terem os prim eiros viaj antes e m issionários europeus j am ais m encionado os Cuézis com o reis ou ancestrais. Nos seus escritos, os Cuézis eram feiticeiros e m enestréis. Só no finzinho do século XIX foi que com eçaram a ser

citados com o antepassados reais. Ou com o dem ônios ou espíritos m aus.57

Invoca-se o testem unho de Em in Paxá, nom e que adotou, após converter-se, no Oriente Médio, ao islam ism o, o botânico, ornitologista e linguista alem ão Eduard Schnitzer. Ele refere serem os Cuézis os rem anescentes dos autóctones da área conquistada pelos luos. Os que vagavam , na sua época, pelo país, eram

cantores e m úsicos.58

Em in Paxá era um a inteligência m etódica e um espírito indagador, e tinha quase m eio século de vida no Nilo e um conhecim ento íntim o dos costum es e do idiom a de Bunioro. Mas pode ter-se enganado, por preconceito, por convicção derivada da cultura do seu tem po, ou por lhe passarem despercebidas certas tradições. Pode ter-se enganado sobre os Cuézis, com o se enganou sobre os luos bitos, que considerava, quando puros, brancos.

Figuras de carne, osso, sangue e poder ou deuses e heróis m íticos, os Cuézis

recebem , em toda a região e até na Tanzânia Oriental, culto religioso. 59 “Cuézi”

60

quer dizer “espírito” ou tem significado sem elhante. E Andaura é a divindade

da varíola.61 Vários são, contudo, os reinos que os reclam am com o fundadores e várias as linhagens reais que os têm por antepassados.

Já a história dos luos pertence m enos à esfera da alegoria e da m etáfora. Eles fazem parte do grupo linguístico dos nilóticos ocidentais (ou nilóticos dos rios e dos lagos), estabelecidos no Sudd, na região da confluên-cia do Nilo Branco com o Nilo da Montanha (ou Bahr-el-Jebel).

Ali, os nuers e os dincas, altos e longilíneos — com um a estatura m édia m asculina de l,84m —, constroem suas casas nos terrenos elevados, ao abrigo das águas que alagam a planície e, quando essas com eçam a recuar, fazem descer os bois, para que pastem nas cam pinas sem i-inundadas.

Vivem , esses nilóticos do Sudd, da pecuária e da pesca. E tam bém da agricultura. Protegidos dos vizinhos pelas águas, pelos pântanos e pelas m atas de papiros. Sem , por isso, que m uitos deles necessitem de um a aglutinação m aior em torno de um chefe, que não o cabeça de linhagem , enquanto que outros, com o os dincas e os xiluques, conhecem a figura do senhor da chuva, do rei em que se encarnam as forças da natureza e que é m orto pelos seus, quando lhe fogem a saúde ou o vigor de hom em .

No início do segundo m ilênio, os luos viviam ao sul dos dincas e dos nuers. Nas terras adj acentes ao Nilo da Montanha, pouco antes de que nele deságue o Bahr-el-Ghazal. Num a região de clim a difícil, em que se alternam um a estação extrem am ente seca e outra extrem am ente úm ida.

No estio, a savana torna-se castanha. E o ressequir dos pastos obriga hom ens e bois a m igrar para os pântanos, os alagadiços e as m argens dos rios. No período das chuvas, a savana inunda com pletam ente, tendo-se de buscar refúgio nas terras altas.

Na estação seca, grupos vindos de diferentes áreas reuniam -se j unto a um m esm o pedaço de rio. Gente que vivia isolada pelas águas, na época das chuvas, sob o com ando dos chefes de linhagens, tinha de conviver, no estio, com estranhos e de estabelecer regras de conduta que evitassem conflitos e choques. A fam ília m ais forte ou a m ais antiga entre as que ocupavam a m argem do rio im punha-se sobre as dem ais. E criavam -se novas form as de solidariedade e de controle sociais.

D.W. Cohen, 62 ao nos oferecer essa tese, acrescenta que as com unidades que tinham a fortuna de ocupar as barrancas j unto aos cursos d’água podiam viver, durante todo o ano, no m esm o sítio, sem se verem obrigadas ao ritm o da transum ância. Elas estavam , na época das chuvas, fora do alcance das inundações e tinham , na seca, tão próxim as as águas e as m anchas de verdura, que raram ente sofriam os rigores de um clim a pendular. Podiam pôr sua confiança nos cultivos de sorgo e de m ilhete.

As terras, nas ribanceiras, eram , porém , escassas. E havia que lhes regular o uso. E distribuí-las de form a a evitar conflitos. Surgiu, assim , um árbitro entre as linhagens, um príncipe, o j ago, que possivelm ente era o chefe do grupo m ais antigo fixado no local.

As barrancas deviam constituir-se em polos de atração para aquelas coletividades que se viam obrigadas a periódicas m udanças entre as terras altas e as terras baixas. À m edida que a elas chegavam e ali recebiam parcelas de solo, iam fortalecendo o poder do j ago. O conj unto de grupos hum anos que lhe seguiam a palavra tendia a tornar-se cada vez m ais heterogêneo, e a chefia, a desvincular-se de sua base de sangue.

Quando a população se tornava excessiva ou surgiam disputas entre os grupos que a com punham , alguns saíam com seu gado, em busca de outras terras altas à m argem dos rios. E não se pode excluir que as novas com unidades m antivessem vínculos com a antiga, sobretudo quando o chefe desta detinha, além do poder político que lhe dava o senhorio do solo, o controle de um santuário religioso de prestígio ou a aura de grande xam ã, de propiciador da chuva ou de encarnação viva dos poderes da natureza. O rete, ou rei divino, assim aparecia.

Os luos estariam , portanto, e de m uito tem po, a expandir-se ao longo do Nilo, quando, no século XV, por pressão de povos vindos do leste, ou por um a crescente deterioração do clim a, esse m ovim ento se acelerou: os luos se dispersaram e se diversificaram num a enorm e área, com um eixo, de norte a sul, de m ais de 1.500km , pois vai de Fashoda a Kisum u.

As com unidades que foram para o norte — os antepassados dos atuais xiluques

63

— tiveram de deslocar do Nilo Branco os apfuny s, ou bony s, talvez os funj es, que iriam form ar, no Nilo Azul, o sultanato de Senar, o poder predom inante na região, desde o século XVI até o início do XIX.

Bor foi o nom e que tom aram os luos que se estabeleceram a oeste do núcleo

habitado pelos nuers e pelos dincas. Anuaques é o descendente dos que lhe ficaram a sudeste. A sudoeste, fixaram -se os luos de Wua. E para o sul foi o

grosso da m igração — e lá vivem os paris, t u v os acholis, os alurs, os langos, os

w

j opadolas e os luos do Quênia.

Muitos dos grupos de luos que vagueavam à procura de m elhores terras devem ter-se dissolvido em outros povos, a cuj as línguas e costum es se renderam . Os m ais num erosos ou com m aiores m anadas atraíram , porém , para suas com unidades as gentes das regiões onde se fixavam ou por onde passavam . Pois os luos parecem ter tido sem pre a propensão a aj ustar-se facilm ente a novas condições de vida — a m udar, por exem plo, de pastor a agrícola e vice-versa —, de acom odar-se à cultura de outros povos, de respeitar os vencidos e absorver os seus costum es, de j untar com unidades díspares e integrá-las.

As tradições dos luos referem -se com insistência a um lugar cham ado Pubungu. Ficava talvez em Pakwach, uns cem quilôm etros a j usante do lago Alberto, no Bahr-el-Jebel, e talvez fosse um ponto de encontro e arregim entação e um centro de razias. Pois, donos de grandes m anadas, os luos não resistiriam à tentação de aum entá-las à custa dos rebanhos dos povos vizinhos, que possivelm ente predavam . Se a sua expansão se fez geralm ente de m aneira pacífica, em vários m om entos terá assum ido feição m ilitar.

Dizem as tradições orais que de Pubungu saíram os que foram criar os reinos acholis e alurs, e neles ser a aristocracia dom inante. E que dali tam bém partiram os que se estabeleceram ao norte do lago Ky oga e entre este e o lago Alberto. Num a área banta. Na zona de influência dos Cuézis. Para chegar até lá, esses luos cruzaram território em poder dos sudânicos centrais, que tiveram de suportar o im pacto de um novo expansionism o, o nilótico, quando j á am argavam o derram e dos bantos sobre o chão que, ao sul, fora deles.

Alguns grupos luos atravessaram o Nilo Vitória e foram instalar-se em pleno território de Quitara. Chegaram em paz. E obtiveram — segundo a tradição — terras de Uam ara, o rei cuézi. Não deviam ser m uito num erosos, pois com o tem po, em bora alçados a posição de força, perderam o uso do idiom a luo e adotaram o dos bantos, de quem se tornaram senhores.

Não eram eles as únicas com unidades de im igrantes que confluíam para

Quitara.64 O reino atraíra gente de longe: os j o-om as, provenientes do m onte Agoro, que seriam him as, em bora tam bém possam ter sido luos; os bantos de

Cantu, x vindos do leste, onde se apartaram dos grupos de Quintu; os him as, chegados do sul. Em consequência, a j á frouxa estrutura política de Quitara tendia a debilitar-se e a esgarçar-se ainda m ais. A tradição assevera que Uam ara não lograva dom ar tantos grupos distintos, de etnias e línguas diferentes, e que tendiam a seguir o sangue — a fam ília, a linhagem e o clã — sem pre que esse conflitasse com a obrigação de vassalagem .

Conta-se tam bém que Uam ara tentou alinhavar ao seu poder o prestígio dos principais chefes dos diferentes grupos étnicos. Que deu a cada um deles im portante posto na estrutura do im pério. Que fez, por exem plo, de Ruinda, um líder him a, o guardião de seus rebanhos. Que tornou, por um pacto de sangue,

Cantu seu irm ão. Que pôs Cagoro, y um luo, no com ando dos exércitos.

Em balde. Os bantos que se haviam desligado dos grupos de Quintu pronto estavam em franca rebeldia. Cantu é m orto. E a crise se agudiza. Sua gente parte de Quitara e segue de volta para o oriente, pelas praias do norte do lago Vitória.

Mas o êxodo dos bantos de Cantu não enfraquece os grupos estrangeiros. Seus chefes tornam -se cada vez m ais poderosos. E desafiadores dos Cuézis, os quais, pela feroz tirania que exerciam , tam pouco contavam com seus súditos m ais antigos. E contariam ainda m enos, quando um a epidem ia com eçou a dizim ar o gado e a fom e a recolher o seu tributo.

Com o o rei encarnava a natureza, era o responsável por tudo e por todos os que sob ele viviam . Pelas chuvas, pela fertilidade dos hom ens e dos anim ais, pela saúde e pela vida. Para a gente de Quitara, a divindade com o que se fora de seu rei e não m ais favorecia os Cuézis.

Conta um a lenda que os Cuézis j á estavam fatigados de conflitos e de insubordinação. E que, diante da m orte m isteriosa da vaca preferida de um dos príncipes — sím bolo talvez da doença que vitim ava o gado — e da interpretação desfavorável que a isso dera um adivinho, resolveram partir de Quitara e convidar um rei luo para que assum isse o posto.

Outra versão da história oral refere que Cagoro, diante do enfraquecim ento ou da desm oralização dos poderes espirituais de Uam ara, decidiu deslocá-lo do poder. Suas tropas apoderaram -se dos Cuézis e os m assacraram , lançando-lhes os

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corpos ao rio.

Os luos m andaram , então, cham ar em Pakwach, Ruquidi,z para fazê-lo rei.

Ruquidi seria — segundo um a variante das tradições, 66 destinada provavelm ente a dar legitim idade ao novo soberano, ao vinculá-lo à estirpe Cuézi — o filho do

aa 67 bb

Quiom ia, m eio-irm ão de Andaura. E, segundo outra, rebento de Ouni, rei de Taquidi, um dos m ais antigos estados luos, que ficava entre os m ontes Agoro e as m ontanhas Didinga, ao norte do lago Ky oga. A m ãe de Ruquidi seria, porém , him a.

O apelo a um nobre de fora, que participava de duas etnias, talvez revele que

Ruquidi, fundador da dinastia Bito,cc chegou com o árbitro entre os grupos em em bate e entre os interesses dos agricultores e dos pastores, que necessitavam de ser conciliados. Ele e seus acom panhantes seriam neutros entre as partes hostis, e sua corte se transform aria no local onde as m ais díspares conveniências buscavam harm onizar-se. Sintom aticam ente, ali se instalou o principal m ercado do reino.

A corte tinha tam bém a feição de acam pam ento m ilitar, pois era a força que assegurava tanto o butim quanto o tributo, que am pliava a área do dom ínio bito, que preservava a fidelidade dos outros chefes, cuj os filhos eram cham ados para j unto do rei, com o a um só tem po paj ens e reféns. Ao redor da corte — prim eiro em Bigo (se é que os Babitos algum a vez ocuparam Bigo), depois m ais ao norte, num a região de colinas, em Mubende, para onde a teria m udado Ruquidi — acum ulavam -se a nobreza, os soldados, a escravaria e o gado. Lá iam ter os chefes vassalos. De lá saíam os filhos e netos do rei, ou m acam a, e os grandes da nobreza, para assum ir o com ando de certas províncias do que se poderia cham ar de im pério. Um im pério que era, com o tantos outros na África, um a m istura de territórios sobre os quais o rei tinha efetivo poder com outros onde o grau de obediência se ia esvain-do, conform e a distância, até quase um a adesão nom inal, e com outros que apenas pertenciam à esfera da aliança m ais ou m enos forçada e de um a influência que lhes condicionava o com portam ento.

Quitara tom ou o nom e de Bunioro — diz a história oficial desse reino. Mas sua estrutura política perm aneceu quase a m esm a. Os luos herdaram -na dos que os antecederam na região. Tornaram -se senhores do sistem a político construído por outros. E deles adotaram o idiom a e grande parte dos costum es. Fizeram -se donos do poder entre bantos, e se abantuzaram .

Eram bárbaros, 68 quando com parados aos seus novos súditos. E procuraram j ustificar a ascensão ao poder com a falácia de que os haviam convocado e de que a transição entre os Cuézis e eles tinha sido pacífica, tanto assim que duas esposas de Uam ara ficaram em Bigo à espera de Ruquidi, para instruí-lo nos

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rituais e nos deveres da realeza, para transm itir-lhe as tradições esotéricas. Os

próprios tam bores e outros sím bolos do estado ter-se-iam transferido sem alteração dos Cuézis para os Bitos.

A ficção da continuidade — tendo por fulcro a teoria de que Ruquidi era sobrinho de Andaura — destinava-se a garantir a unidade do im pério, a confirm ar que os laços de dependência perm aneciam inalterados. Mas nem todos a aceitaram . Tam pouco a patranha de que os Cuézis haviam desaparecido. Por isso, e porque se acendeu a discórdia e a contenda pelo poder entre os luos e os him as, os Bitos não lograram evitar que Quitara se dividisse em vários

estados,70 em bora m antivessem íntegro o seu grande núcleo, no Bunioro.

Alguns chefes, que eram Cuézis ou por eles tinham sido designados, não aceitaram a suserania bito e procuraram conservar o governo das áreas sob seu m ando. Alguns Bitos, desavindos ou desej osos de m aior independência ou poder, foram criar principados fora de Bunioro. Em Busoga, por exem plo. Ou no noroeste da Tanzânia, em Kiziba, cuj a fam ília real reclam a por antepassado um neto de Ruquidi. Os him as, por seu lado, fizeram -se reis em Im anga, no Ancolé e em diversos outros lugares.

À tom ada do poder em Quitara pelos luos tem -se ligado tam bém a m udança

dd

da dinastia e da casta dirigente do Buganda. Quim era, o novo rei, vindo do

Bunioro à frente de seus hom ens, para im por-se sobre a pequena chefia que Quintu tom ara, no passado, a Bugulu, seria irm ão gêm eo de Ruquidi. Ainda que a irm andade fosse sim bólica, a chegada de Quim era representaria a intrusão de

líderes bitos no Buganda.71

Quim era pode tam bém ter sido m em bro do grupo de Cantu, um banto que regressou, após o assassínio de seu chefe em Quitara, às praias ao norte do lago Vitória. Ou um Cuézi, que foi para Buganda, a fugir dos luos. Ou um him a.

Talvez Quim era sim bolize um fato político que se deu um a ou duas gerações

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antes que os luos houvessem arrebatado o poder em Quitara e nada tivesse com eles. Talvez represente um processo que se alongou no tem po, um a som a de vários êxodos, desde a época de Andaura, de grupos de insatisfeitos com o que se passava em Quitara, de foragidos das cam panhas m ilitares dos Cuézis, de refugiados tem erosos de perseguições após a m orte de Cantu e de prófugos

ligados a Uam ara ou inconform ados com a nova situação im posta pelos Bitos.73 Os hom ens que abandonaram as pastagens do Bunioro pelas m atas e terras úm idas e férteis do norte do lago Vitória seriam , assim , bantos de Quitara e bantos que pertenciam ao grupo de Cantu, him as e luos, agricultores, caçadores e pastores, e teriam chegado em diferentes períodos de tem po e se fixado no Buganda com o asilados, com o estrangeiros. Quim era foi o nom e que se deu a quem se tornou líder dessa aglom eração dessem elhante de refugiados e se im pôs sobre as com unidades que lhes deram abrigo, criando, a bem dizer, um novo estado, a partir da pequena chefia de Buganda. Quim era logrou aj untar 35 clãs de distintas proveniências, línguas, etnias e culturas, dando-lhes igual status na nova m onarquia: de cada clã, o rei, ou cabaça, recebia um a esposa, e o seu sucessor podia ser filho de qualquer um a delas.

Tal com o sucedera no Buganda, os luos não parecem ter tido qualquer papel na criação de vários estados surgidos no sul das pradarias interlacustres: em Ancolé, em Ruanda e no noroeste da Tanzânia. Esses estados podem , ao contrário, ter-se fortalecido em reação à am eaça luo. E com o centros de antagonism o aos Bitos.

Certas tradições dizem que os Cuézis, batidos em Quitara, reagruparam -se na fronteira m eridional e, a partir dali, foram reinar sobre outros povos. E que chefes do clã real dos Cuézis, que em nom e destes governavam diferentes terras, se m antiveram inim igos dos Bitos e deram origem a novos estados e a novas dinastias.

Ancolé, por exem plo, seria, quando da tom ada do poder pelos luos, um estado

ee

tributário de Quitara, tendo por rei um filho de Uam ara, Ruinda, que recusou

obediência aos Bitos e soube m anter-se independente.

O núcleo de Ancolé ficava nas m ontanhas de Isingiro, que separam o vale de Kagera da planície de Masha. Dessa região, onde se com binam boas pastagens com terras propícias aos bananais e grandes m atas ricas em frutos, m el e caça, Ruinda teria partido à conquista do Caragué, fazendo-se senhor de um território

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j á, sob os Basiitas, politicam ente unificado.

Outras tradições invertem a ordem e põem a conquista de Caragué antes da ocupação de Ancolé. Ruinda nelas aparece, ora com o filho de Uam ara com um a escrava, ora com o um opulento pastor, o m esm o a quem o últim o soberano cuézi de Quitara havia confiado a guarda dos rebanhos reais. Quando do golpe m ilitar de Cagoro ou da subsequente luta pelo poder entre luos e him as, Ruinda teria roubado os tam bores rituais dos Cuézis e se deslocado com a sua gente e os seus bois de giba e chifres longos para as grandes pastagens envolvidas pelo arco do

rio Kagera. 75

Ali, no que se cham a Caragué, j á havia um estado. E seu rei, do clã Basiita, cham ava-se Nono. Havia tam bém um grupo de pastores, os niam bos, que percorriam os prados, com suas reses de aspas curtas. Com o as terras eram pobres, os agricultores bantos cultivavam com dificuldade sorgo e m ilhete. Ruinda e os seus com eçaram a ceder a cada fam ília de cultivadores duas ou três cabeças de gado. Vacas que davam leite e estrum e. E, com o estrum e, m elhorou-se a qualidade do solo e perm itiu-se o plantio dos grandes bananais. Estabeleceu-se, assim , um a vinculação entre os pastores e os agricultores, aqueles a em prestar a estes o gado, de que guardavam a propriedade, e estes fornecendo àqueles os produtos agrícolas de que necessitavam . As bananas. A cervej a. Os inham es. E a força de trabalho e os braços para as arm as.

Ruinda, graças à cessão do gado, construiu, em pouco tem po, um a estrutura de poder que lhe perm itiu sobrepor-se a Nono e tornar-se rei de Caragué. Firm e no m ando, voltou seus olhos para o norte, para Ancolé, onde havia chefias m ulticlânicas, subordinadas ao clã dos Baniangués. Há quem diga que ele logrou dom inar Ancolé através de pactos políticos, explorando a crença de que era um Cuézi e tinha origem divina. Mas há versões que im putam a ocupação de Ancolé

ff

a um de seus filhos, Ancuba, que teria passado a idade adulta a consolidar m ilitarm ente a conquista.

A lenda atribui a Ruinda a construção de um im pério sem elhante ao de Quitara, e que, além de Ancolé e de Caragué, com preenderia Ihangiro, Buzinza e Ky am utwara. Em cada um destes pequenos estados, ele teria substituído o chefe do clã banto predom inante por um filho seu, a atuar com o agente do poder central. Frouxa deveria ser, contudo, a relação de dependência entre eles e o pai. Tanto assim que, com a m orte de Ruinda, se fragm entou o im pério: cada província transform ou-se num estado independente e cada príncipe deu origem a um a dinastia.

Entretanto, outros pastores, os tútsis, se haviam estabelecido nas pradarias do leste do atual Ruanda. E com eçaram a infiltrar-se nos m icroestados bantos e a subir lentam ente os m ontes. Colocavam , de em préstim o, o gado nas m ãos dos agricultores e deles recebiam os produtos da terra. Não seriam , no início, um grupo dom inante. É até m esm o provável que tivessem com eçado por ser clientes dos cultivadores. Só m uito m ais tarde, estabeleceram um sistem a de dependência, que iria tornar-se num a rígida estrutura social, com os tútsis com o

senhores e os hutus,gg ou bantos, com o subordinados.

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As tradições tútsis referem -se a um herói m ítico, Gianga, que teria sido o fundador de num erosos estados. Grande caçador, grande ferreiro e grande condutor de bois, ele esculpiu os tam bores reais, acendeu pela prim eira vez os fogos sagrados e doou à sua gente o ubuiru, ou código esotérico da realeza. Gianga personificaria um estirado percurso histórico, durante o qual os tútsis passaram a parceiros privilegiados, num sistem a de com prom isso de poderes e de integração de culturas.

No século XV, os rebanhos tútsis j á eram suficientem ente grandes para provocar conflitos no uso da terra com os agricultores. Em bora tivessem crescido em núm ero e fossem m ais destros nas artes da guerra, os tútsis não detinham ainda força bastante para se im porem m ilitarm ente com o senhores. A desproporção num érica entre eles e os bantos era tam anha, que exigiu deles que se acom odassem ao sistem a político que encontraram , que adotassem seus sím bolos e rituais, que constituíssem um a posição de crescente prestígio e m ando, sem deslocar de im ediato as autoridades preexistentes. Com astúcia e paciência. Com o uso da força, se necessário.

Então, as tradições põem em cena um certo Rubunga, um m estre renge dos ritos, que teria passado a Gianga o tam bor e o ubuiru. A indicar que os tútsis absorveram as instituições dos pequenos reinos bantos, que destes receberam a m onarquia divina, o fogo sagrado, os rituais agrícolas, os costum es funerários, os tam bores reais, os códigos de conduta — tudo o que os legitim ava j unto aos hutus.

Fizeram -se donos dos signos da realeza, quando j á tinham firm es os laços de dependência que o sistem a de em préstim o de gado havia estabelecido entre eles e os agricultores. Estes não m ais sabiam am anhar a terra sem o uso do estrum e. E haviam -se acostum ado a consum ir o leite. Foram perdendo, ao m esm o tem po, a prática da guerra, pois os tútsis os defendiam , quando necessário. Mais um passo e os tútsis se transform ariam quase que num a casta m ilitar, com a exclusividade no treino do uso das arm as.

Tudo isso sucedeu m uito m ais tarde. Quando corria o século XV, a situação era, ao que parece, outra. Tanto assim que um clã poderoso dos tútsis com o o Niiginia, teve de subm eter-se a condições para receber o núcleo de seu território, a m ontanha de Gasabo, do m uam i zigaba, de Mubari. Este régulo banto cedeu as terras aos tútsis e consentiu que tivessem eles chefe próprio, desde que

subordinado aos zigabas.77 A partir desta posição de vassalagem , os Niiginias lograram tornar-se independentes e criar um a estrutura política centralizada, a qual, após três séculos de ininterrupta expansão, viria a ser um dos m aiores estados pré-coloniais da África: o Ruanda.

Essa é a história geralm ente aceita. Mas que deixa no ar um a prim eira pergunta: Quem são os tútsis e de onde vieram ? — Baixam os do céu, respondiam eles, em bora hoj e acreditem , talvez por influência de suposições europeias, terem vindo — e não só eles, m as tam bém os him as — do sul da Etiópia. Seriam descendentes de cuxitas, portanto. Ou, com o j á se propôs, de nilóticos. De

nilóticos sulistas. 78 De pastores estrangeiros que tom aram o poder aos Renges e subm eteram os que cultivavam a terra.

Os tútsis falam , porém , a m esm a língua banta que os hutus. E sem traços de idiom as cuxitas. Daí que se avente, contra aqueles que sustentam que a im igração tútsi é um fato histórico (atestado não só pelas tradições de Ruanda,

m as tam bém pelas dos povos vizinhos),79 a hipótese de que não sej am invasores que se im puseram , pela força ou pela astúcia, sobre os hutus. Teriam os tútsis os m esm os ascendentes que os hutus; seriam bantos que, no processo de separação de trabalho entre pastores e agricultores, se dedicaram ao gado e, assim , acum ularam capital, prestígio e poder, transform ando-se num a classe dirigente, em detrim ento dos que am anhavam o solo. Com o tem po, essa classe ou elite se voltou em quase um a casta e construiu a ideologia da origem externa, para

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j ustificar a diferença em que se assentava o seu poder. Seria, aliás, a persistência de um regim e de classes fechadas o que explicaria a relativa dessem elhança física entre o tipo padrão do tútsi — alto, esbelto e de feições alongadas — e o do hutu — baixo, atarracado e de rosto redondo. Do tipo padrão ou estereótipo — é bom que se esclareça —, porque num grupo grande de pessoas não se acerta geralm ente no distinguir um do outro. As diferenças seriam devidas aos casam entos dentro da classe, a distintos regim es alim entares e form as de educação, com ênfase, entre os tútsis, nas danças, nos esportes, na poesia e na eloquência.