A Enxada e a Lança
Posfácio à 2ª edição
Ao rever este livro para um a nova edição, procurei fugir do risco de reescrevê-lo. Lem brei-m e da lição m ais de um a vez repetida por Erwin Panofsky e preferi guardar para este posfácio algum as notícias do que colhi, e m e pareceu im portante, em leituras m ais recentes. Havia, contudo, que introduzir m odificações em uns poucos capítulos, os de núm eros 3, 9, 12, 14, 22 e 25, e am pliar consideravelm ente o capítulo 2 (sobre as origens do hom em ), que não resistiu ao m eu reexam e, parecendo-m e, e a m uitos de m eus leitores, esquem ático dem ais e, talvez por isso m esm o, ultrapassado. Os acréscim os que lhe fiz creio que o m elhoraram bastante, ainda que continue a ser — e parafraseio Drum m ond — “apenas um arabesco em torno do elem ento essencial — inatingível”. Em outros casos, pareceu-m e que a introdução de parágrafos novos devia evitar-se, a m enos que não trouxesse sacrifícios para o andam ento harm onioso do texto e o equilíbrio de suas form as.
Um livro aspira a sem pre ser com o a frase perfeita para Isaac Babel. Num de seus contos, ele nos diz que um a frase, ao nascer, não é boa nem m á; o seu destino vai depender do ligeiro apertar de um parafuso. Mas basta avançar um tantinho a m ais na volta da chave de fenda, para pôr-se tudo a perder. No caso deste A enxada e a lança, escrito com cuidado, alegria e paixão, cabia-m e evitar que novas dúvidas, reflexões e hipóteses se voltassem em rem endos, sobretudo quando não alteravam a essência dos desenhos que nele se traçam . Tam bém um livro com o este aspira a ter sua sucessão de ritm os — m ais repousado aqui, m ais rápido acolá —, suas áreas de claridade e de som bra, seu entrelaçar de tem as, seu j ogo de diferenças em peso e volum e. Tem i alterar-lhe o com passo e, por isso, fui cauto nas correções. E m odesto.
Não refiz, por exem plo, o início do capítulo 6, no qual m enciono a expedição da rainha egípcia Hatshepsut à terra de Punt. Se ali não digo onde esta ficava, é porque ninguém o sabe com certeza. A fantasia j á pôs até m esm o no Marrocos e
em Moçam bique1 esse país fam osíssim o, com o qual os egípcios m antinham contatos desde o terceiro m ilênio antes de Cristo. Talvez o fizessem pelo interior, subindo o Nilo. E talvez o fizessem pelo m ar Verm elho, em barcos que eram arm ados em suas praias. De Punt chegava ao Egito o incenso — e isto j á no reinado do faraó Sahura, da V Dinastia, conform e se anota na pedra de Palerm o — e tam bém m irra e outras resinas odorantes.
Por m uito tem po, colocou-se Punt no Chifre da África, m ais precisam ente nas
costas setentrionais da Som ália. E há quem continue a sustentar que ali ficava2, contra os argum entos dos que lhe situam os portos nas costas das atuais Repúblicas do Sudão e da Eritreia, entre os 17 e 12 graus de latitude norte. O seu hinterland com preenderia desde as elevações norte-orientais da Etiópia, até, j á a
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cam inho do Nilo, os territórios de Berber e Kassala. Não se lê num a estela da XXVI Dinastia que inesperada chuva sobre a m ontanha de Punt fez aum entar a
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altura do Nilo e o derram ou sobre a várzea? E não é para o Nilo que descem o Atbara, o Bahr-el-Azrak e outras águas do noroeste etíope? Mas será que Punt foi sem pre a m esm a terra? Ou se aplicou o nom e, no correr dos séculos, a diferentes lugares?
É possível, assim , que se tivessem passado na Eritreia as cenas eternizadas nos
relevos 5 do m onum ento funerário à rainha Hatshepsut, em Deir el-Bahari, no qual se celebra a viagem que ela prom oveu a Punt, em busca de árvores de incenso, para plantá-las no Egito.
Eis que estam os no início do século XV a.C. Vem os aldeias de cabanas cônicas, construídas sobre estacas, entre palm eiras. E hom ens a conduzir bois e a tanger j um entos com fardos sobre os lom bos — e num dos j ericos vai um a m ulher escanchada. Essa gente, de cuj o chefe sabem os o nom e, Parahu, bem com o o de sua esposa, a gorda Atiy a, m ercadej a com os m aruj os egípcios m ontículos de incenso, anéis de ouro, vigotes de ébano, presas de elefante, plum as e ovos de avestruz, peles de felinos, cascos de tartaruga e os m ais diversos anim ais vivos. Provavelm ente, os habitantes dos vilarej os conheciam o cultivo dos cereais. E plantavam m uitas das árvores de que obtinham o incenso, pois lá vão eles, prancha acim a, levando para os navios as suas m udas em vasos. Sabiam tam bém navegar, e isto m ostram , num túm ulo tebano do m esm o século XV a.C., dois barcos que parecem j angadas, com velas triangulares negras. Neles, a gente de Punt ia vender incenso e m irra nas praias egípcias do m ar Verm elho.
Quem sabe se não pertencia a Punt a chefia que se crê ter existido, no fim do terceiro ou início do segundo m ilênio a.C., em Mahal Teglinos, próxim o a Kassala e à fronteira da atual República do Sudão com a Etiópia. Tinha ela, ao que parece, o aspecto de um m icroestado bem estruturado, e suas estelas m ortuárias
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talvez sej am as m atrizes das que depois se ergueriam em Axum . Outras pequenas entidades políticas sem elhantes existiriam , na m esm a época e nas regiões próxim as, ou se form aram nos séculos seguintes. Com o aquela, no norte
do Tigrê, a que m e refiro na página 185, cuj os governantes se denom inavam Mlkn e Mkrb, ou m ucarribe, e que se tornou um reino, conhecido pelo o nom e de
D’MT (Dam ot? Diam at? 7). Isto nos séculos V ou IV a.C. Ou antes: entre os
séculos VIII e V a.C. 8
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Alguns sustentam que os soberanos do D’MT, em bora na aparência sul-arabizados, eram gente da terra, assim com o as elites em que se sustentavam . O poder deles assentava-se em bases locais. A m onarquia não teria sido, assim , fundada por im igrantes iem enitas. Seria um a evolução de estruturas de poder surgidas ali m esm o, ainda que sofrendo influências do vale do Nilo e da Arábia do Sul, naturais em virtude do longuíssim o convívio entre aquelas duas áreas e o altiplano etíope. Em favor dessa hipótese, m ostra-se que a cerâm ica encontrada na área não tem relação com a iem enita, m as guarda forte afinidade com a sudanesa; com param -se as inscrições sabeias com as dos principais sítios ligados ao D’MT, destacando-se as dessem elhanças na m aneira de enunciar as frases; e se valorizam as diferenças arquitetônicas entre os dois lados do m ar Verm elho. Pode-se, no entanto, argum entar que as discrepâncias são norm ais num processo de transplantação colonial (e que m uito se recebe da terra a que se chega) e fazer um inventário de todos os restos de edifícios, túm ulos, esculturas, inscrições e outros vestígios deixados pela classe dom inante — entre os quais, os próprios títulos sabeus dos soberanos — para insistir na hipótese de sua origem iem enita. Joseph W. Michels, um dos que defendem essa tese, não hesita em considerar esses m icroestados, entre os quais se destaca o D’MT, com o resultantes do
controle político, econôm ico e cultural por colonos da Arábia do Sul. 10
A polêm ica não acaba aí. Pensam alguns que os desenvolvim entos se deram ao m esm o tem po nos dois lados do m ar Verm elho, e que esses dois lados, tão sem elhantes geograficam ente, faziam parte da m esm a unidade de cultura. (Não sustenta, aliás, Ali Mazrui que a Península Arábica deveria ser considerada parte da África, separando-se o continente africano da Ásia pelo vale do Eufrates e
não pelo canal de Suez?) Há tam bém quem suponha11 que o influxo teria sido da Etiópia para o Iêm en e não ao contrário. Segundo essa teoria, os sabeus, sob pressão assíria, teriam em igrado da Arábia do Norte para a Etiópia, de onde passaram m uito depois ao Iêm en, j á senhores da escrita e da arquitetura que haviam desenvolvido no Tigrê.
Entre os que atravessaram o m ar Verm elho, m as da Arábia para a Abissínia,
figurariam (com o refiro na página 189 do m esm o capítulo 6) j udeus ou grupos tingidos de m osaísm o, antepassados, m uitos deles, dos falachas. A m enos que ao falacha, na Etiópia, se cham asse j udeu ou ay hud com a m esm a ausência de fundam ento com que os cristãos coptas se proclam avam israelitas. Não seria ele, nesse caso, m ais do que um cism ático religioso ou dissidente político, que rej eitou a m aioria dos elem entos cristãos da tradição copta etíope, em favor de um retorno ao j udaísm o (com a recusa da Santíssim a Trindade, por exem plo) ou do fortalecim ento daqueles com ponentes m osaicos de que se haviam im pregnado os planaltos abexins. Desde Axum . Ou até m esm o antes de se ter a cidade tornado a capital de um reino. Não falta, aliás, quem sustente que os falachas (ou Beta Israel, a Casa de Israel, com o preferem ser cham ados) só se afirm aram , na
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form a com que depois se fizeram conhecidos, a partir do século XIV, e com o
reação ao centralism o dos negachis e da Igrej a copta.
Por várias vezes ao longo da história, os falachas, contagiados de fervor religioso, ergueram -se em arm as contra o rei dos reis. Assim , quando era negus Ichaque, no início do século XV. Dele diz-se ter sido quem prim eiro deu aos falachas este nom e. Depois de vencer os rebeldes, Ichaque proclam ou que aqueles que se convertessem ao cristianism o herdariam a terra de seus pais, m as os outros seriam dela privados, com o se fossem estrangeiros, ou “falachas”. A palavra, segundo as tradições, poderia ter ainda dois outros sentidos: “os que não
têm terra” e “o povo exilado”. 13 Quanto à expressão Beta Israel, esta talvez j á existisse desde a época de Axum , para designar com unidades m osaicas. E talvez derive do nom e de um irm ão de Gebra Mascal, o príncipe Beta Israel, que, à frente de grupos heterodoxos, j udeus ou j udaizantes, se refugiou ao norte do lago
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Tana e nas m ontanhas de Sem ien.
Do silêncio dos textos, não se deve necessariam ente deduzir ter deixado de haver na Etiópia, entre o século VI e o XIV, grupos que se identificavam com o j udaicos. Mutism o sem elhante os faz ausentes nos séculos XVII e XVIII. Só vão reaparecer por volta de 1840, durante um m ovim ento revivalista, que reclam ava a herança espiritual dos grandes m estres do século XV, com o Abá Sabra. Este Abá Sabra teria sido um cristão de Xoa que se j untou a um a com unidade ay hud, convertendo-se à sua religião. Com o, antes dele, fizera um outro m onge, Cózim os. Após criar um m osteiro m osaico — o prim eiro de que se tem notícia na Etiópia —, Abá Sabra pregou a observância estrita do Velho Testam ento e do Torá e, em bora tenha contribuído para infiltrar sua nova crença com elem entos da liturgia e da literatura cristãs, defendeu um a rigorosa separação entre Beta
Israel e o entorno copta.15 A im agem que nos fica de Abá Sabra e de outros líderes religiosos falachas da época é a de que foram artífices de um grande renascim ento religioso. Juntaram -se a grupos de ay hud que j á existiam ; não os criaram . Podem ter reform ado e consolidado a identidade falacha, m as não a construíram .
A origem dos falachas é um tem a relativam ente m enor nos estudos de História africana. Questão m aior, e pela qual aum enta anualm ente o peso das estantes, é a da expansão das línguas bantas.
No capítulo 7, trato do assunto e, na página 216, resum o a tese de Jan Vansina.
Posteriorm ente, este m odificou, ao refiná-la, a sua posição.16 Abandonando o m odelo da árvore a esgalhar-se, adotou, para explicar a história das línguas bantas, o das ondulações produzidas por seixos lançados num tanque: os m odos de falar se propagam e interinfluenciam com o os círculos na água. Um a outra m etáfora poderia ser a das m anchas. Num a m ancha, as form as dialetais faladas nas bordas tendem a diferenciar-se m ais rapidam ente que as do núcleo, porque entre estas últim as, ao contrário do que sucede com aquelas, são m ais intensos os contatos e as trocas. Nas m argens, os m odos peculiares de falar tendem m ais facilm ente a transform ar-se em dialetos, e os dialetos em línguas. Isso não quer dizer que o m esm o não se venha a passar no núcleo, m as o processo será m ais lento. Por sua vez, áreas da periferia da m ancha, no próprio processo de diferenciação, tornam -se centros difusores de novos m odos de falar, novas m anchas cuj os contornos se sobrepõem a zonas em que expandem outros dialetos. Um a língua pode ter, assim , m ais de um a origem e, no passar dos séculos, ganhar espaço, perdê-lo e reconquistá-lo, sofrendo influências e alterações no percurso.
Conform e a nova teoria de Vansina, foi na parte m ais ocidental dos Cam arões que o idiom a protobanto original se separou do feixe nbam -nkam de línguas bantoides. Há uns cinco m il anos. O protobanto expandiu-se, então, com o um idiom a ainda unificado, na direção dos Grandes Lagos e tam bém para o sul, ao longo do oceano, no rum o do baixo Oguê. Posteriorm ente, form as dialetais se foram desenvolvendo na periferia desse espaço linguístico e transform aram -se em novos idiom as, que j á não eram com preendidos pelos utentes do protobanto original. Mais tarde, tam bém no núcleo da m ancha diferenciaram -se vários grupos linguísticos. A dois deles cham am os protobanto ocidental e protobanto oriental. Enquanto esses dois feixes de idiom as se iam alonj ando entre si, um outro, o norte-ocidental, com eçava a distinguir-se do protobanto ocidental.
Seguiu-se a dispersão sim ultânea do protobanto ocidental e do protobanto oriental. O núcleo do protobanto ocidental talvez se situasse no norte do Congo. Suas prim eiras grandes fissões deram -se na sua periferia, tanto nas florestas e pantanais entre os rios Sanga e Ubangi quanto em vários pontos da borda sul da m ancha hipotética. Teria sido nessa franj a m eridional que tom aram form a os precursores de idiom as que se falarão nos cerrados do sudoeste da República Dem ocrática do Congo, em Angola e na Nam íbia. Mais tarde, tam bém a coesão do núcleo se irá lentam ente rom per, dando origem a várias línguas.
Enquanto isso, o protobanto oriental expandia-se, das florestas a oeste da confluência do Ubangi com o rio Zaire, na direção do Índico. Talvez o antepassado do feixe sulista do banto oriental se tenha separado em algum lugar próxim o ao m édio Zam beze, aproxim adam ente na m esm a época em que surgia, no norte de Moçam bique, o protom acua. No outro lado da fím bria da m ancha do banto oriental, iam -se gestando os cham ados idiom as do Kilim anj aro. Finalm ente, o núcleo tam bém se cindiu em três feixes: um a com preender os idiom as falados em Chaba e na Zâm bia; um outro, os dos Grandes Lagos; e um terceiro, os do extrem o leste da África Oriental.
Tudo isso é apenas o resum o de um processo com plexo, em que as cisões se sucederam em cada subdivisão — prim eiro na periferia, depois no centro. Nesse processo, m uitos dialetos não chegaram a línguas e m uitas línguas m orreram . O desenho que dele nos fica não é de um a expansão contínua, m as o de num erosas dispersões, sucessivas e coetâneas, ao longo de séculos ou m ilênios, quer por conquista m ilitar, quer pela em igração pacífica, quer por contágio e adoção de um a língua de prestígio, sem que tenha ocorrido, nesse últim o caso, qualquer m ovim ento populacional.
Por que razões, no entanto, os idiom as bantos se espalharam , deslocando os seus rivais, por tão im ensa porção do continente africano? Jan Vansina propõe-nos com o resposta o que considera apenas um a conj ectura. Quando o protobanto original com eçou a ganhar terreno, os que o falavam não carregavam um a bagagem técnica m ais diversificada do que a de m uitos daqueles que encontraram no cam inho. Eram , porém , organizados em grandes fam ílias, várias das quais viviam j untas em grandes aldeias. Essas com unidades dividiam -se, ao ultrapassar certo tam anho, ou quando baixava a fertilidade das terras que trabalhavam , ou ainda quando os seus líderes se desentendiam . Os novos vilarej os que iam erguer em outras terras logo se transform avam , por sua coesão e tam anho, num centro de com ércio e interesse para as populações próxim as, que acabavam por aprender a sua fala. De bilíngues, esses vizinhos, no suceder das gerações, acabavam por descartar seu idiom a original e adotar um a língua banta. No início, o prestígio desta derivava, portanto, do tam anho das aldeias e da sólida organização social. Só m ais tarde, a difusão das línguas bantas seria favorecida pelo aum ento num érico dos que as usavam , pelo prestígio de sua religião e de seus sacerdotes, pela habilidade de seus com erciantes ou pelo uso de novas tecnologias, com o o fundir do ferro.
Reconstruções com o essa e com o as que esboço no capítulo 7 não são por
todos aceitas. 17 Não se discutem apenas algum as de suas partes — com o, por exem plo, se os antepassados dos bantos orientais, ao se deslocarem na direção dos Grandes Lagos, m argearam a floresta ou seguiram por dentro dela, pela
nervura dos rios 18 —, m as põem -se em dúvida os seus fundam entos e até a sua
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utilidade, preferindo-se deixar sem explicação por que os idiom as bantos, não
m ais que um grupo do sub-ram o bantoide do sub-ram o benué-congo do ram o níger-congo da fam ília níger-cordofaniana, são hoj e falados por m ais de duzentos m ilhões de pessoas e em tão extenso território. Há quem considere as m igrações bantas sim ples exercício de im aginação e argum ente não haver nada que autorize o vincular-se a determ inado idiom a que se falava no passado (e que nele não deixou traços visíveis) certo tipo de vasilha de barro ou o conhecim ento do ferro. Recusam -se, assim , com o arbitrárias, as atribuições a povos de língua banta das terracotas de Urewe ou de Kwale, e prefere-se, em vez de aceitar a unidade subj acente no cham ado com plexo de Chifum baze, destacar o que singulariza cada um a das cerâm icas nele incluídas, o que indicaria serem produtos de culturas sem raiz com um . Tam pouco deixa de haver quem assegure — e aqui estam os tam bém no dom ínio das especulações — que os idiom as bantos j á seriam falados na m aior parte dos am plíssim os territórios onde hoj e predom inam , m ilênios antes que nesses se recebessem ou reinventassem a
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agricultura e a fundição do ferro.
Se há que buscar explicação — tarefa de que não pode exim ir-se o historiador — para o predom ínio das línguas bantas em tão alargadas extensões da África, a que naturalm ente ocorre é a das m igrações de povos que as falavam , com o contágio, a im itação e o em préstim o a am pliarem o processo expansionista. Por isso, fico fiel ao que aprendi para escrever o capítulo 7. Não vej o por que, na África subsaariana, as coisas se passariam de m odo distinto ao de outros continentes, nos quais boa parte da história está ligada a m ovim entos populacionais, sej am invasões arm adas ou m igrações pacíficas, em grandes ou pequenos grupos, aparatosas ou discretas, lentas ou céleres, forçadas ou voluntárias, únicas, m últiplas, continuadas, sucessivas ou em série.
Mesm o no início, quando ainda não dom inavam o ferro, não seria m enor a equipagem banta do que a controlada pelos tupis-guaranis, de cuj a dispersão pela Am érica do Sul se guardam tantos testem unhos. Chegaram os tupis-guaranis a ocupar a bacia do Paraná-Paraguai, os territórios atuais de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e boa parte do Rio Grande do Sul, quase todo o litoral brasileiro e as m argens dos rios Am azonas, Madeira, Tapaj ós e Xingu, além de trechos do Am apá, o norte do alto Pilcom aio e a m esopotâm ia entre o alto Araguaia e o alto Tocantins. Em sua expansão, perderam eles m uitas vezes traços de sua cultura, m as, na m aioria dos casos, transm itiram seu idiom a e seus costum es a outros grupos, tupi-guaranizando, por dom ínio, assim ilação, im itação e contágio, os povos que encontravam e que, por sua vez, se fizeram difusores dos novos m odos de falar e de viver. Tal com o teria sucedido aos bantos. Com parem -se os m apas da África e da Am érica do Sul: se os tupis-guaranis chegaram , de m igração em m igração, até tão longe, não há por que negar aos bantos a m esm a dim ensão de aventura e êxito. Por isso, continuo a vincular à expansão das línguas bantas o surgim ento de m uitos estados na região interlacustrina da África Oriental, com o
faço no capítulo 14. Mas, ao que escrevi na página 414, talvez valha a pena
acrescentar aqui alguns parágrafos, para explicar m elhor o processo.21
O longo convívio entre distintos tipos de agricultores e pastores — bantos, cuxitas, sudânicos orientais e sudânicos centrais —, na am pla área a oeste do lago Vitória, de solos bons e de boas águas, de clim a am eno e chuvas regulares, deve ter-se traduzido em intensas trocas de bens — e provavelm ente em escam bo de m ulheres. Os bantos perm utariam peixe seco por sorgo ou couros com os sudânicos e entregariam farinha de inham e aos cuxitas e deles receberiam bois. A expansão das atividades econôm icas e sua natureza variada devem ter estim ulado o uso e a produção de utensílios de ferro, com o enxadas e pontas de lanças e flechas, e assim favorecido os bantos, que se m ostraram tam bém m ais capazes do que os vizinhos de se adaptar a diferentes circunstâncias e m odos de vida. Com o decorrência do contato e do com ércio, cuxitas e sudânicos acabaram por dissolver-se nas com unidades bantas. Ou, pelo m enos, delas adotaram o idiom a.
No início do século XI, j á falariam banto os que cultivavam cereais e os que pastoreavam bois, os que ocupavam as m argens dos lagos, as cam pinas, os m ontes, as terras m ais úm idas e as m ais secas, e os que plantavam inham es e bananeiras, e sem eavam grãos, e rem avam e pescavam nos rios, e caçavam nas m atas, e fundiam o ferro. Dois tipos de sociedade — um a, sedentária, nas terras úm idas, baseada nos trabalhos agrícolas; e outra, m uito m ais m óvel, dependente da pecuária — foram -se form ando, lado a lado. Ou a enlaçar-se, com o no caso de Rutara, ao sul do cotovelo do rio Kagera, onde, nas m esm as com unidades, se plantavam bananeiras e se criavam vacas.
Os grupos pastoris tinham nos bovinos um bem capaz de acum ular-se em riqueza e de servir de m edida para a diferenciação social e, consequentem ente, para a construção do poder político, por m eio do controle e da transferência de touros e novilhas. As sociedades agrícolas iriam encontrar nos bananais um a form a de riqueza sem elhante.
A área a oeste do lago Vitória ou Nianza parece ter sido um dos principais teatros de experim entação e inovação no cultivo da banana. Ali, após um dem orado período de fam iliarização com a fruta, sobretudo com as usadas para cozinhar e fazer cervej a, iniciou-se, por volta do ano 1000 (ou não depois de 1200), um a fase de desenvolvim ento de novas variedades de bananeiras e de seu cultivo intensivo. Os bananais eram perenes e o trabalho neles investido transform ava-se em capital, em patrim ônio perm anente das linhagens que os controlavam e herdavam . Tiveram , assim , papel sem elhante ao dos rebanhos, ao concentrar riqueza, diferenciar pessoas e tecer novas relações de dependência e m ando. A evolução das instituições bantas na direção do poder centralizado seria, assim , decorrência dos novos relacionam entos sociais derivados do plantio intensivo da banana e de novas técnicas pastoris.
Se, ao tratar da expansão das línguas bantas, deixei de alterar substancialm ente o m eu texto, o m esm o fiz com relação aos com eços de Gao, que abordo nas
páginas 317 a 320 do capítulo 11. Ali m enciono as estelas tum ulares de Sané, com epitáfios em árabe de reis e seus fam iliares, m ortos entre 1100 e 1265. Os nom es que deles constam não coincidem com os das genealogias tradicionais. São nom es longos, à m aneira árabe, e talvez representem um a outra form a de designar cada soberano. Este teria, assim , dois nom es: um em árabe, e o segundo no idiom a da terra. Mas é possível que as lápides correspondam , não aos zás, m as
a vassalos destes, que seriam régulos de Sané.22 A m enos que m arquem —
com o aventou John Hunwick 23 — as sepulturas de chefes alm orávidas, talvez azenegues m assufas, que se teriam im posto com o reis na Gao da m argem esquerda do Níger, enquanto os zás continuaram senhores da direita. Essa coexistência teria cessado com a reconquista da Gao dos estrangeiros pela Gao nativa, na segunda m etade do século XIII.
Um a outra hipótese, de certo m odo herética, porque subverte as reconstruções
até agora aceitas da história de Gao, foi proposta por Dierk Lange.24 Afirm a ele que a dupla Gao dos autores árabes não se disporia em cada um a das m argens do Níger, de vez que o “Nilo” a que fazem referência não seria aquele rio, m as, sim , o uede Tilensi (ou Gangaber). Am bas as cidades situar-se-iam , portanto, no lado esquerdo do Níger, separadas pelo uede, que então seria um curso d’água quase perene: na Gao Antiga, ficava a cidade dos nativos, e em Sané, ou Gao-Sané, a dos com erciantes estrangeiros. Sobre as duas cidades reinava o zá, cuj os antepassados não provinham de Cuquia, m as seriam m andês, com o a m aioria de seus súditos, e pertencentes à linhagem dos Cantes.
Islam itas desde a m etade do século X, os Cantes teriam sofrido os efeitos do j ihad alm orávida e da expansão azenegue. Por volta de 1080, os com erciantes e caravaneiros sanhaj as que viviam em Gao-Sané, inflam ados pelo zelo religioso, tom aram o poder e fizeram rei um dos seus, da linhagem Zaghe — o nom e que figura com o ancestral de vários dos reis lem brados nos epitáfios de Sané e que poderia ser o Alaiam ã das lendas, por elas transform ado, de um estrangeiro azenegue, no fundador dos zás. Os reis azenegues teriam contraído sucessivos m atrim ônios com princesas da terra, da dinastia Zá que haviam subordinado, sem , contudo, destruir, havendo essa m antido, com o tantas vezes sucedeu na África, a condição de linhagem real e a natureza sagrada. Os zás teriam continuado, assim , a “reinar” paralelam ente sobre os seus, ainda que com poder m uito reduzido e em posição subalterna.
Com o consequência dessa hipótese, Dierk Lange sugere que Gao tenha sido vencida duas vezes pelo Mali, a prim eira por Mansa Uli e a segunda por Sacura, e que a devolução de sua independência, atribuída a Ali Colom e Salm ã Nari (ver
páginas 328 e 546), só se tenha dado bem m ais tarde, e de form a definitiva, na passagem do século XIV para o XV. Segundo Lange, Ali Colom não seria, com o afirm am as tradições, o filho de um zá, m as, sim , um príncipe da casa de Zaghe, um descendente dos reis alm orávidas que m andaram talhar as estelas tum ulares de Sané. De outro m odo, com o explicar a m udança, de zá para soni, no título dos reis de Gao? Zaghe e Soni seriam a m esm a coisa. Quanto aos zás, despidos do m ando pelos Zaghes, na segunda m etade do século XI, m as que haviam logrado m anter a condição de casa real paralela (talvez com o “senhores da terra”), os zás teriam voltado ao poder, duzentos anos depois, na condição de prepostos do m ansa.
Mas só por algum tem po. Pois a longa disputa entre os dois grupos reais, no seio do que se poderia cham ar de m onarquia dual, resolver-se-ia finalm ente em favor dos Zaghes ou Sonis, graças ao apoio dos sorcos de Farã Maca Botê a Ali Colom . Farã Maca Botê deixaria, assim , de ser a personagem m ítica que está na
origem dos songais e de Gao (ver página 318), papel que lhe em prestou a história oral, porque nela se teriam em baralhado e confundido as tradições etiológicas dos Zaghes e dos sorcos com as do surgim ento dos prim eiros zás. Para Lange, Farã Maca Botê continuaria a sim bolizar a intervenção m ilitar sorca. Mas esta ter-se-ia dado fora do tem po do m ito, no fim do século XIV ou início do XV.
Fica a hipótese com o hipótese, com o m ais um a hipótese — o que, conform e j á
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se disse, em face da pobreza e da fragilidade dos indícios, é tudo o que os
historiadores podem , por enquanto, apresentar a respeito do que ocorreu no Níger antes do Quatrocentos.
Igualm ente heterodoxas são as conclusões que, sobre Gana e Mali, Dierk
Lange26 extrai da releitura dos autores árabes. Conform e m enciono nas páginas
283 e 284, ele avança a tese de que não ficava em Koum bi Saleh, nem no Sael, m as, sim , no delta interior do Níger, a verdadeira capital do caia-m aga. É ali que ele situa igualm ente um antigo estado do Mali, m arcado por grandes túm ulos,
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datados dos séculos VII a XII e sem elhantes aos que Al-Bakri pôs em Gana.
Se, com o pensa Lange, esse Mali Antigo e Gana são um só e o m esm o reino, a conquista de Sum anguru Cante e de seus sossos, em 1203 ou 1204, teria sido de curta duração, e o im pério ganense, após repor-se de um período de declínio e lutas internas, teria voltado a am pliar as áreas sob seu dom ínio no Sudão Ocidental. Só que retom aria, nos autores árabes, o nom e de Mali. Nesse caso, pertenceria à m esm a corte a grande pepita de ouro em que o gana e o m ansa am arravam os seus cavalos.
O ouro que deu renom e a Gana fez tam bém fam oso Zim babué, cuj a história
esboço no capítulo 15. Sobre o seu declínio, de que trato na página 448, quero aduzir algum as frases.
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Por volta de 1450 — segundo Peter S. Garlake — o Grande Zim babué
perdeu a condição de paço real, sendo abandonado pouco antes da chegada dos portugueses a Moçam bique, ou logo depois. Não se afasta, porém , que, em bora a urbe tivesse decaído em tam anho e im portância, algum as de suas partes continuassem a ser ocupadas no início do século XVI. Em escavações feitas num dos recintos m urados a nordeste da Construção Elíptica, acharam -se, com efeito, três fragm entos de um prato de porcelana chinesa azul e branca, da dinastia Hongzi do período Ming e, portanto, de entre 1488 e 1505. Talvez o lugar das escavações, o cham ado Recinto Ocidental do Vale, fosse, no fim do Quatrocentos e início do século seguinte, a residência de um soberano m uito reduzido em
súditos e poder.29 Ou talvez ali m orassem , com o escreveu João de Barros, as
m ulheres do m onom otapa30 ou do rei de Tórua.
A m esm a casa de daga onde se encontraram os cacos de porcelana revelou outra surpresa. Dela se recolheram , j unto a um buraco que deve ter sido ocupado por um poste, cerca de trezentas tachas e pequenos pedaços e tiras de ouro. Com o essas tiras possuem furinhos correspondentes às pontas das tachas, é de
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im aginar-se que o poste estaria recoberto de lâm inas de ouro. Se as casas e os
santuários eram assim decorados, aum enta m ais ainda a im pressão de
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m agnificência — sem par na África — que causam ainda hoj e as grandes m uralhas de Zim babué.
A descoberta reforça o quadro sobre a im portância do ouro e de seu m ercadej o no processo de concentração e consolidação das estruturas de m ando no Grande Zim babué e lhe em presta quase a m esm a nitidez com que se apresentava em Gana e no Mali. Nesses e em outros casos, o com ércio a distância aparece com o um dos principais instrum entos dos reis para acum ular e distribuir riqueza e, assim , fortalecer o seu dom ínio.
Não se pode deixar de indagar, por isso, se o com ércio a distância não explicaria tam bém os requintados bronzes de Igbo-Ukwu (obj eto do capítulo 18) e o túm ulo de Igbo Richard, com o seu notável. Nem fica fora de lugar a
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pergunta, que se fez J.E.G. Sutton, sobre se o m arfim e os escravos bastariam
para j ustificar a opulência que pressupõem as peças desenterradas de Igbo-Ukwu. Marfim e escravos eram artigos relativam ente abundantes em vários lugares ao sul do Saara, não havendo necessidade de recorrer-se a um a tão extensa linha de trocas — das praias do Saara até a Ibolândia — para adquiri-los. Propõe, então, Sutton, tendo em vista a habilidade e o requinte com que em Igbo-Ukwu se trabalhavam os m etais, que se acrescente a prata — obtida na redução do cobre e de que se encontraram vestígios nos bronzes de Igbo-Ukwu — à lista de produtos que seguiam para o norte. Sua conj ectura se arrem ata em audácia com a sugestão de que a prata da Ibolândia subia até o Chade e dali, após atravessar o Darfur, chegava ao Egito e à Núbia, onde se transform ava nas cruzes, patenas e cálices das igrej as de Macúria e Alódia.
A m enos que novos achados arqueológicos sej am de tal natureza que nos ensinem com o eram e viviam os hom ens e m ulheres que m oldaram no bronze as peças de Igbo-Ukwu, tem o que continuarem os a correr o risco de, neste com o em outros assuntos, resvalar da im aginação para a fantasia — e recordo a fina diferença que entre os dois conceitos estabeleceu Coleridge.
Repito a advertência de que são escassos, frágeis e frequentem ente contraditórios os dados aos quais se arrim am as reconstruções do passado africano. E, com o todas as outras histórias, até m esm o as fam iliares, a da África está suj eita a invenções e reinvenções da tradição. No sentido que lhes dá Eric
Hobsbawm34 e, talvez, noutro ainda m ais am plo, pois nem sem pre essas invenções e reinvenções são intencionais e m uitas vezes se desenvolvem com o respostas inconscientes ou sem iconscientes a novos desafios coletivos. Talvez não tivessem , por exem plo, intuição, suspeita ou ciência de que lhes seria útil e necessária um a identidade que a todos abarcasse, os hom ens e m ulheres que, falando idiom as m uito sem elhantes, viviam , no século XIX, em algum as cidades do sudoeste da Nigéria, e especialm ente em Lagos, sob a pressão cultural cristã e britânica, e aqueles que para lá afluíam com o refugiados das guerras no interior,
e os ex-escravos retornados do Brasil ou da Serra Leoa.35 No entanto, tão logo surgiu, na boca e na pena dos m issionários e dos linguistas, o conceito de iorubá — palavra que, até então, era usada som ente pelos hauçás e para designar apenas os oiós —, eles o adotaram prontam ente e prontam ente se fizeram m em bros de um a nação, a iorubana, com um único idiom a (cuj as variantes passaram a considerar dialetos), com um a só origem , Ilê-Ifé, e um ancestral
com um , Odudua,36 em bora sem deixar de ser tam bém ij exás, ondos, ifoniins, quetos, auoris, egbas, egbados, ibolas, ij ebus, ilaj es, equitis, abinus, igbom inas, ibarapas, oiós e ifés. E tam bém sarôs (os provenientes da Serra Leoa) e agudás (os retornados do Brasil).
O edificar de um a identidade com um foi acom panhado, contraditoriam ente, pelo redescobrim ento do passado particular de cada um dos vários povos que foram postos, dadas as coincidências linguísticas, culturais, religiosas e políticas entre eles prevalecentes, dentro de um a só chave, com o nom e de iorubás. Valorizaram -se, em cada cidade-estado, as suas tradições. Multiplicaram -se as histórias locais, escritas, em geral a partir dos recitativos dos bardos, por quem integrava a corte do obá ou vivia na fím bria dela. Talvez a principal função política dos bardos fosse entoar louvores ao rei. Por isso, as tradições que preservavam eram aquelas que douravam o rei, a sua dinastia, os seus antepassados. A história de cada obado ia tom ando, assim , de geração em geração, a form a que m elhor servia aos interesses do soberano e da linhagem
dirigente. 37 E foi esse desenho do passado, tal qual se traçava no fim do século XIX ou início do século XX, que se im obilizou, com ou sem as correções ditadas por novas conveniências religiosas ou políticas, nos textos de história local
com postos, nos últim os cem anos. 38
Praticam ente todos esses textos com eçam com um relato de com o surgiu a cidade, o reino e o seu povo — o que m uitas vezes se confunde com o do próprio aparecim ento do hom em sobre a terra. Do início tudo deflui. No desfazer do caos, o m undo se organiza e hierarquiza. Daí que se narre, em cada cidade-estado, a sua origem de um m odo que a enobrece e dá grandeza a seus m aiores e a seu rei, e se conte tam bém , lateralm ente, com o nasceram outros reinos, com enredos que lhes negam títulos ou os votam à dependência. Nas histórias de origem , Ifé encontra os argum entos para im por-se a Oió, e Oió, não só para declarar sua singularidade e independência, m as tam bém sua hegem onia.
Assim , na Nova Oió, não só se diz que o oni de Ifé descende de um escravo, m as tam bém se nega que Oió-Ilê tenha sido fundada por Oraniã. Às versões
sobre o início do reino, que resum o nas páginas 583 e 584, som am -se outras, das
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quais destaco duas. Na prim eira, teria sido Xangô o fundador de Oió. Na
segunda, fixada por um neto de alafim por parte de pai e pertencente, por parte
de m ãe, à m ais alta nobreza de Ondo, o reverendo M.C. Adey em e,40 tam bém não figura Oraniã, não se m enciona Ifé, nem há perfum e de orixá.
Adey em e pertencia à Igrej a anglicana, m as trabalhou possivelm ente com inform antes de um a Oió em grande parte islam izada e que j á tivera até m esm o
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um alafim m uçulm ano, ainda que cum prisse, com o dele se esperava, os ritos
de Xangô.
Segundo Adey em e, a gente de Oió veio de Medina, na Arábia, e se instalou no Borgu. Após algum tem po, os antepassados dos oiós, descontentes com os hospedeiros, decidiram partir. Ciente da oposição dos baribas, com eçaram a fazer, disfarçadam ente, pequenas viagens e a erguer m uralhas pelo cam inho. E pediram a um escultor, Oloj e, que lhes fizesse estátuas do tam anho de hom ens. Na noite da fuga, eles as levaram para Igboho e as puseram no alto da m uralha, vestidas e arm adas com o guerreiros. Quando os baribas deram pelo desaparecim ento dos hóspedes, saíram a persegui-los. Chegados a Igboho, dispararam suas setas contra as estátuas, a crer que eram gente. Com o essas não caíssem , im aginaram que fossem seres sobrenaturais e fugiram , apavorados, deixando Igboho nas m ãos de Om oluj u, que se tornou o prim eiro alafim . Mais tarde, um seu sucessor, Ogbolu, conduziu o seu povo em outra m igração, no fim da qual foram dar no sítio onde se ergueria Oió-Ilê. A colina j á era, porém , habitada e tinha um régulo. Após sacrificarem , a conselho deste, o prim ogênito de Ogbolu ao deus da terra, os recém -vindos uniram -se aos prim itivos donos do outeiro e com eles form aram um a só com unidade.
Tam bém a afastar-se de Ifé e a renunciar à herança de Odudua, recuperam -
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se e valorizam -se atualm ente, no reino de Benim , algum as tradições que não
foram consideradas por Jacob Egharevba, a quem segui no capítulo 22. Dão elas novo relevo aos ogisos na construção do reino e de suas instituições e negam que
o seu Oraniã — e esta é a posição do atual obá43 — tenha sido um príncipe ifé, um estrangeiro de essência divina. Fazem -no edo, benim e filho do últim o ogiso. Após a deposição do pai, ele se teria exilado em Ifé, de lá voltando para governar os seus. Em bora de nom e Ekaladerhan, o povo o conhecia com o Om onoy an —
donde a confusão com Oraniã. 44
Das novas histórias sobre fundações de cidades, dinastias e reinos, conto apenas essas. Não cabem m uitas outras no espaço deste livro, a recuperar passados que interessam ao presente ou o j ustificam , explicam e enobrecem . Nem eu as conheço todas. Com o não tive acesso a m uito da literatura que sobre a África se escreveu e se escreve. E, do que li, não refiro tudo. Ou m elhor: resum o só um a pequena parte. Não encontrei j eito para usar, num a tapeçaria deste tam anho, em bora m enor do que o seu tem a, o ponto m iúdo do bordado em bastidor, ainda que, em algum m om ento, tenha abandonado as personagens e a am plidão da paisagem em que cam inham , para fixar-m e no porm enor de um pátio, num vaso de barro ou im agem de m adeira. Os leitores m e perdoarão tam bém por deixar de fora m uitas hipóteses sobre os com eços e o desenrolar das histórias dos povos africanos, e por apenas referir teorias em conflito, sem deter-m e em explicar seus argum entos, e por não referir textos que se escreveram há quarenta anos, nem citar achados arqueológicos ou teses que datam de alguns m eses. O escrever esta obra pressupôs escolha e corte. Elegi, do m aterial que tinha ao m eu dispor, o que m e pareceu m ais relevante e condizente com a m inha visão da história africana, de um passado com o pode ter sido e com o o lem bram ou im aginam os povos da África. Isto é um escorço — relem bro — e não m ais que um escorço. Um escorço incom pleto, im perfeito e efêm ero. Apenas um a introdução aos estudos africanos. E um convite a outras leituras, com as quais se chegará às am plidões de voo e luz dos tetos afrescados do Renascim ento italiano ou às m inúcias de um quadro de cavalete flam engo.
Não posso pôr um ponto final neste posfácio sem agradecer aos que m e aj udaram a corrigir alguns dos m uitos defeitos da prim eira edição. Antes de qualquer outro, ao m eu velho e querido am igo, o grande poeta Oswaldino Marques, que leu e releu o livro com vagareza e lupa. E, depois, a Alfredo Grieco, Alfredo Margarido, Ciro Flam arion Cardoso, Flávio Roberto Bonzanini, José Marcus Vinícius de Souza, Paulo Roberto de Alm eida e Sérgio Paulo Rouanet. A um e a outro devo reparos por escrito; aos dem ais, o aviso de um ou vários erros que m e teriam provavelm ente continuado a escapar.
Assunção, em 30 de setem bro de 1995.