Chocolate

Joanne Harris · Capítulo 10 de 40

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Chocolate

Capítulo 9

Quarta-feira, 19 de Fevereiro

 

E ste é o nosso dia de descanso. A escola está fechada e, enquanto Anouk

brinca em Les Marauds, eu recebo as entregas da semana.

Esta é uma arte que me dá prazer. Existe uma espécie de feitiçaria em todo o trabalho culinário: na escolha dos ingredientes, no processo de misturar, raspar, derreter, macerar e aromatizar, nas receitas retiradas de livros antigos, nos utensílios tradicionais — o pilão e o almofariz, a mistura com que a minha mãe fazia o seu incenso convertidos a um propósito mais caseiro, as suas especiarias e ervas aromáticas cedendo as subtilezas a uma magia mais básica e sensual. E é em parte a efemeridade de tudo que me delicia: tanta preparação amorosa, tanta arte e experiência aplicada num prazer que dura não mais do que um momento e que só uns poucos apreciarão plenamente. A minha mãe sempre encarou este meu interesse com um desdém indulgente. Para ela, a comida não era um prazer mas uma necessidade cansativa a causar-lhe preocupação, um imposto sobre o preço da nossa liberdade. Eu roubava ementas de restaurantes e olhava avidamente para as montras das pâtisseries. Devia ter uns dez anos — ou talvez mais — quando provei chocolate verdadeiro pela primeira vez. Ainda assim, o fascínio perdurou. Na minha cabeça, transportava receitas como quem transporta mapas. Todo o tipo de receitas: tiradas de revistas abandonadas em estações de comboio movimentadas, pedidas com bons modos a pessoas na estrada, casamentos estranhos confeccionados por mim própria. A minha mãe, com as suas cartas e adivinhações, orientava a nossa corrida insana pela Europa. Cartas de culinária ancoravam-nos, fixavam marcos em fronteiras turvas. Paris e os cheiros de pão a cozer e croissants; Marselha de bouillabasse e alho grelhado. Berlim era Eisbrei com Sauerkraut e Kartoffelsalat, Roma era o gelado que eu comi sem pagar num minúsculo restaurante junto ao rio. A mãe não tinha tempo para marcos divisórios. Todos os mapas dela eram interiores, todos os lugares iguais. Já então éramos diferentes. Ah, ela ensinou-me o que sabia. A ver o âmago das coisas, das pessoas, a ver os seus pensamentos, os seus desejos. O motorista que parava para nos dar uma boleia, que se desviava dez quilómetros do seu destino para nos levar a Lejou, os merceeiros que recusavam pagamento, os polícias que faziam de conta que não viam. Nem sempre, claro. Às vezes falhava por qualquer razão que não percebíamos. Algumas pessoas são ilegíveis, inatingíveis. Francis Reynaud é uma delas. E mesmo quando não falhava, aquela intrusão casual perturbava-me. Era tudo demasiado fácil. Agora fazer chocolate é uma coisa completamente diferente. Requer uma certa habilidade. Uma certa leveza de toque, rapidez, uma paciência que a minha mãe nunca teve. É seguro. Inofensivo. E não tenho de olhar para os corações deles e tirar aquilo de que preciso: estes são desejos que podem ser facilmente satisfeitos, basta pedir.

Guy, o meu confeiteiro, já me conhece há muito tempo. Trabalhámos juntos quando Anouk nasceu e ele ajudou-me a começar o meu primeiro negócio, uma minúscula pâtisserie-chocolaterie nos arredores de Nice. Agora fixou-se em Marselha, importa licor de chocolate em bruto directamente da América do Sul e converte-o em vários tipos de chocolate na sua fábrica.

Eu só uso o melhor. Os blocos para cobertura são ligeiramente maiores do que tijolos para construção, uma caixa de cada qualidade a cada entrega, e eu uso os três tipos: preto, de leite e branco. Tem de ser preparado para ficar no seu estado cristalino, produzindo uma superfície dura e estaladiça com um bom brilho. Alguns confeiteiros compram os seus produtos já preparados, mas eu gosto de os preparar eu mesma. Existe um infinito fascínio em manusear blocos baços de cobertura em bruto, raspá-los à mão — nunca uso misturadoras eléctricas — para grandes tachos de cerâmica, depois derreter, mexer, testar cada passo meticuloso com o termómetro do açúcar até que uma dose suficiente de calor tenha sido aplicada para operar a mudança. Existe uma espécie de alquimia na transformação do chocolate em bruto neste ouro de um louco sábio, a magia de um leigo que até a minha mãe poderia apreciar. Ao trabalhar, limpo a mente, respirando fundo. As janelas estão abertas e a corrente de ar seria fria se não fosse o calor do fogão, os tachos de cobre, o vapor que se evola da cobertura a derreter. Os aromas cruzados de chocolate, baunilha, cobre aquecido e canela são intoxicantes, poderosamente sugestivos, os aromas brutos e telúricos das Américas, o perfume quente e resinoso da floresta tropical. Eis como agora viajo, como os aztecas nos seus rituais sagrados: México, Venezuela, Colômbia. A corte de Montezuma. Cortez e Colombo. O Manjar dos Deuses, borbulhando e espumando em taças cerimoniais O amargo elixir da vida.

Talvez seja isto que Reynaud intui na minha lojinha: um regresso a tempos em que o mundo era um lugar mais vasto e selvagem. Antes de Cristo — antes de Adónis nascer em Belém ou Osíris ser sacrificado na Páscoa —, o grão de cacau já era venerado. Eram-lhe atribuídas qualidades mágicas. A sua infusão era bebida em golinhos nos degraus de templos sacrificiais; os seus êxtases eram poderosos e terríveis. Será isto que ele teme? A corrupção pelo prazer, a subtil transubstanciação da carne numa taça para o vício? Para ele, nada das orgias dos sacerdotes aztecas. E contudo, por entre os vapores de chocolate a derreter, algo começa a ganhar forma — uma visão, diria a minha mãe —, um dedo esfumado de percepção apontando... apontando...

Ali. Por um instante quase o tive. Através da superfície lustrosa, forma-se uma ondulação de vapor. Depois outra, película pálida, semiocultando, semi-revelando... Por um instante quase pude ver a resposta, o segredo que ele esconde — até de si mesmo — com tão temeroso calculismo, a chave que nos porá a todos em movimento.

Adivinhar com chocolate não é coisa fácil. As visões são pouco claras, perturbadas por perfumes que se evolam e toldam a mente. E eu não sou a minha mãe, que ate ao dia da sua morte conservou um poder de augúrio tão grande que nós as duas corríamos na sua dianteira em confusão crescente e selvagem. Mas antes de a visão se dissipar, tenho a certeza de que vejo qualquer coisa — um quarto, uma cama, um velho deitado na cama com os seus olhos como buracos crus num rosto lívido... E fogo. Fogo.

Será isto que eu devia fazer?

Será este o segredo do Homem de Preto?

Preciso de saber o seu segredo se é para ficarmos aqui. E eu preciso de ficar. Custe o que custar.

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