Chocolate
Capítulo 13
Domingo, 23 de Fevereiro
P erdoe-me, Padre, que pequei. Sei que me pode ouvir, mon père, e não
há mais ninguém a quem eu cuide de me confessar. Certamente não ao
bispo, seguro na sua remota diocese de Bordéus. E a igreja parece tão vazia. Sinto-me tolo aos pés do altar, a olhar para Nosso Senhor no seu dourado e na sua agonia — o dourado deslustrou com o fumo das velas e o tom escuro dá-lhe um ar dissimulado e secreto — e a oração, que nesse tempo era uma grande bênção, uma grande fonte de alegria, é agora um fardo, um grito no sopé de uma montanha erma que a qualquer momento pode lançar uma avalanche sobre mim.
Será isto a dúvida, mon père? Este silêncio dentro de mim, esta incapacidade de orar, de me purificar, de ser humilde... será isto falta minha? Olho a igreja que é a minha vida e tento sentir amor por ela. Amor, como o senhor sentia, pelas estátuas — S. Jerónimo com o nariz lascado, a Virgem a sorrir, Joana D’Arc com a sua bandeira, S. Francisco com as pombas pintadas. Por mim, detesto pássaros. Isso bem pode ser um pecado contra o meu santo homónimo, mas é mais forte do que eu. Os seus gritos, a sua imundície — até às portas da igreja, o branco das paredes caiadas raiado com os borrões esverdeados dos seus excrementos —, o seu ruído durante o sermão... Eu enveneno os ratos que infestam a sacristia e roem os paramentos. Não devia envenenar também as pombas que perturbam o meu serviço? Eu tentei, mon père, em vão. Talvez S. Francisco os proteja.
Se eu pudesse ser mais meritório. O meu imerecimento assusta-me, a minha inteligência — que excede de longe a do meu rebanho — serve apenas para sublinhar a fraqueza, a pouca-valia do recipiente que Deus escolheu para servir. Será este o meu destino? Eu sonhei com coisas maiores, com sacrifícios, martírios. Em vez disso, desperdiço o tempo em ansiedades indignas de mim, indignas de si.
O meu pecado é o da mesquinhez, mon gere. Por isso Deus está silencioso na Sua casa. Eu sei, mas não sei como curar o mal. Aumentei a austeridade do meu jejum quaresmal, decidindo observá-lo mesmo nos dias em que é permitido aliviá-lo. Hoje, por exemplo, derramei a minha libação dominical sobre as hidrângeas e senti uma inequívoca elevação do espírito. Para já, pão e água serão o único acompanhamento das minhas refeições, o café preto e sem açúcar para intensificar o seu sabor amargo. Hoje comi uma salada de cenoura com azeitonas — legumes e bagas do deserto. É verdade que agora sinto a cabeça um pouco tonta, mas a sensação não é desagradável. Sinto uma pontada de culpa quando penso que a minha privação me dá prazer e resolvo então colocar-me no caminho da tentação. Deixar-me ficar durante uns cinco minutos junto à montra da rôtisserie, olhando os frangos no espeto. Se Arnaud escarnecer de mim, tanto melhor. E de resto, ele devia ter a loja fechada durante a Quaresma.
Quanto a Vianne Rocher... Mal pensei nela nestes últimos dias. Viro a cara quando passo pela loja dela. Ela tem prosperado apesar da época e da desaprovação dos elementos bem-pensantes de Lansquenet, mas eu atribuo isso à novidade da tal loja. Há-de passar com o tempo. Os nossos paroquianos já mal têm dinheiro para as suas necessidades quotidianas, quanto mais para andarem a subsidiar uma coisa mais própria de cidades grandes.
LA CÉLESTE PRALINE. Até o nome é um insulto deliberado. Hei-de apanhar o autocarro para Agen e apresentar queixa na imobiliária. Ela nunca devia ter sido autorizada a arrendar aquele sítio, antes de mais. A localização central da loja garante um tipo de prosperidade, encoraja a tentação. O bispo devia ser informado. Talvez ele possa exercer qualquer tipo de influência que eu não tenho. Vou escrever-lhe hoje. Vejo-a às vezes na rua. Tem uma gabardina amarela com margaridas verdes, uma peça de criança não fosse o seu comprimento, algo indecente numa mulher adulta. Nunca cobre o cabelo, nem mesmo à chuva, reluzente e macio como pele de foca. Ela torce-o como a uma corda comprida quando chega ao toldo. Muitas vezes estão pessoas à espera debaixo daquele toldo, abrigando-se da chuva interminável e vendo a decoração da montra. Ela instalou agora um aquecimento eléctrico, suficientemente perto do balcão para ser confortável, e suficientemente afastado para não danificar os seus artigos e, com os bancos, as gloches de vidro recheadas de bolos e tartes e as cafeteiras de prata com chocolate quente sobre a chapa, aquilo parece mais um café do que uma loja. Em certos dias, muitas vezes vejo por lá dez ou mais pessoas, umas de pé, outras encostadas ao balcão almofadado a conversar. Ao domingo e quarta-feira a tarde o ar húmido enche-se do cheiro a bolos e ela encosta-se a porta, enfarinhada até aos cotovelos, atirando comentários atrevidos a quem passa. Espanto-me com a quantidade de pessoas cujo nome ela sabe — eu levei seis meses até conhecer o meu rebanho — e parece ter sempre uma pergunta ou um comentário pronto sobre a vida deles, os problemas deles. A artrite de Blaireau. O filho soldado de Lambert. Narcisse e as suas orquídeas premiadas. Até sabe o nome do cão de Duplessis. Ah, é astuta. Impossível não dar por ela. Ou se responde, ou se passa por grosseiro. Até eu — até eu tenho de sorrir e acenar embora por dentro esteja a ferver. A filha segue-lhe as pisadas, andando a solta por Les Marauds com um bando de rapazes e raparigas mais velhos. Oito ou nove anos, a maior parte deles, e tratam-na com carinho, como a uma irmãzita mais nova, uma mascote. Andam sempre juntos, a correr, a gritar, a fazer de aviões bombardeiros com os braços, disparando uns contra os outros, cantarolando e assobiando. Jean Drou é um deles, apesar da preocupação da mãe. Já o tentou proibir uma ou duas vezes, mas ele está cada dia mais rebelde e escapa-se pela janela do quarto quando ela o fecha lá dentro. Mas eu, mon père, tenho preocupações mais sérias do que as traquinices de uns poucos de catraios desordeiros. Ao passar por Les Marauds antes da missa de hoje vi, atracado a margem do Tannes, um barco-casa do tipo que nós os dois bem conhecemos. Uma coisa com um aspecto desgraçado, pintado de verde mas a descascar miseravelmente, uma chaminé de folha lançando fumos pretos e tóxicos, um telhado de chapa ondulada, como os telhados daqueles barracos de papelão dos bidon-vales de Marselha. Nós os dois sabemos bem o que que isto quer dizer. O que que traz consigo. O primeiro dente-de-leão da Primavera deitando a cabeça de fora da turfa encharcada na margem da estrada. Todos os anos tentam, vindo rio acima das cidades e dos bairros-de-lata ou pior, cada vez mais longe, da Argélia e de Marrocos. A procura de trabalho. procura de um lugar onde ficar e procriar... Preguei um sermão contra eles hoje de manhã, mas sei que apesar disso alguns dos meus paroquianos — Narcisse entre eles — lhes vão dar as boas-vindas só para me desafiar. São itinerantes. Não têm respeito por nada nem valores nenhuns. São os ciganos do rio, espalham doenças, roubam, matam quando conseguem escapar. É deixá-los ficar e hão-de dar cabo de tudo aquilo para que nós trabalhámos, père. Toda a nossa educação. As crianças deles hão-de andar atrás das nossas até estragarem tudo o que nós fizemos por elas. Hão-de roubar as mentes das nossas crianças. Ensinar-lhes ódio e desrespeito pela Igreja. Ensinar-lhes preguiça e fuga 63 responsabilidades. Ensinar-lhes o crime e os prazeres das drogas. Já se terão esquecido do que aconteceu naquele Verão? Será que são tão tolos que acreditem que não volta a acontecer?
Fui à casa-barco hoje à tarde. Li lá havia mais duas, uma vermelha e outra preta. A chuva tinha parado e havia uma corda com roupa a secar estendida entre os dois recém-chegados, onde crianças molengonas penduravam roupa. No convés do barco preto estava sentado um homem a pescar, de costas para mim. Cabelo comprido e ruivo atado com uma tira de pano, braços nus tatuados junto ao ombro com hena. Eu deixei-me ficar a olhar os barcos, espantado com a sua miséria, a sua pobreza provocante. O que que esta gente faz por si? Nós somos um país próspero. Uma potência europeia. Devia haver trabalho para esta gente, empregos ateis, habitações boas... Por que que eles escolhem viver assim, no ócio e na miséria? Será que são assim tão preguiçosos? O homem ruivo no convés do barco preto fez um gesto autoprotector na minha direcção e regressou á sua pesca.
— Vocês não podem ficar aqui — gritei eu com a água de permeio. — Isto é propriedade privada. Vocês têm de sair.
Riso e zombaria dos barcos. Eu senti as têmporas a latejarem de raiva mas permaneci calmo.
— Podem falar comigo — gritei eu de novo. — Sou padre. Talvez possa-mos encontrar uma solução.
Vários rostos tinham aparecido às janelas e portas dos três barcos. Vi quatro crianças, uma mulher nova com um bebé e três ou quatro pessoas mais velhas, embrulhadas naquela não-cor cinzenta que caracteriza esta gente, com rostos astutos e desconfiados. Vi que se viraram para o Ruivo à espera da deixa. Dirigi-me a ele.
— Ei, você!
A sua postura era toda ela atenção e deferência irónica.
— Por que você não vem até aqui e conversamos? Eu posso explicar melhor as coisas se não tiver de gritar por cima de meio rio — disse-lhe eu.
— Explique-se lá — disse ele. Falou com um sotaque marselhês tão cerrado que eu mal consegui distinguir as palavras. — Eu ouço-o bem. — A sua gente nos outros barcos acotovelava-se e ria-se à socapa. Eu esperei pacientemente até que se fizesse silêncio.
— Isto é propriedade privada — repeti. — Lamento, mas vocês não podem ficar aqui. Há pessoas a viverem aqui. — Indiquei as casas na margem do rio ao longo da Avenue des Marais. verdade, muitas delas estão agora abandonadas, tendo chegado à ruína devido à humidade e abandono, mas algumas ainda estão habitadas.
O Ruivo lançou-me um olhar desdenhoso.
— Também há pessoas a viverem aqui — disse ele, indicando os barcos.
— Compreendo, mas mesmo assim... — Ele interrompeu-me bruscamente.
— Não se preocupe. Nós não ficamos por muito tempo. — O seu tom era definitivo. — Precisamos de fazer consertos, de nos abastecermos. Não podemos fazer isso no meio do campo. Ficamos duas semanas, talvez três. Acho que consegue aguentar isso, hã?
— Talvez uma aldeia maior... — Senti-me a eriçar-me perante o tom insolente dele, mas permaneci calmo. — Uma cidade como Agen, talvez...
Curto: — Não serve. Vimos de lá.
Tenho a certeza que sim. Eles são duros com os itinerantes em Agen. Se ao menos tivéssemos a nossa própria polícia em Lansquenet.
— Tenho aqui um problema com o meu motor. Vim a largar óleo pelo rio acima. Tenho de o arranjar antes de voltar a partir.
Endireitei os ombros.
— Não me parece que encontre por aqui aquilo de que precisa — disse.
— Bem, cada qual tem a sua opinião. — Parecia desinteressado, quase divertido. Uma das mulheres cacarejava. — Até um padre tem direito a isso. — Mais gargalhadas. Eu mantive a minha dignidade. Esta gente não merece a minha raiva.
Voltei-me para me vir embora.
— Ora, ora, é M’sieur le Curé — A voz veio mesmo de trás de mim e, contra a minha própria vontade, recuei. Armande Voizin deu uma pequena gargalhada. — Nervoso, hã? — disse ela maliciosamente. — E é caso para isso. Aqui está fora do seu território, não está? Qual é a missão desta vez? Converter os pagãos?
— Madame. — Apesar da sua insolência, fiz-lhe uma vénia bem-educada. — Vejo que está de boa saúde.
— Ai sim? — Os seus olhos pretos latejavam de riso. — E eu que tinha a impressão de que estava mortinho por me dar a Extrema-Unção.
— De modo algum, Madame. — Com uma frieza digna.
— Ainda bem. Porque este cordeiro velho nunca mais regressa ao redil — declarou ela. — Duro de mais para si. Lembro-me de a sua mãe dizer...
Ataquei-a mais bruscamente do que pretendia.
— Temo não ter tempo para conversa fiada hoje, Madame. Estas pessoas... — um gesto na direcção dos ciganos do rio — ...a presença destas pessoas tem de ser resolvida antes que a situação fique fora de controlo. Tenho de zelar pelos interesses do meu rebanho.
— Mas que bem-falante que está — observou ela preguiçosamente. — Os interesses do seu rebanho. Lembro-me de quando era rapazinho, a brincar aos índios em Les Marauds. O que que lhe ensinaram na cidade, além de pompa e presunção?
Olhei-a irado. Só ela em toda Lansquenet se delicia em recordar-me coisas que mais vale esquecer. Ocorre-me que quando ela morrer, essa memória morre com ela, e fico quase feliz com isso.
— A si pode agradar-lhe a ideia de ver itinerantes a tomarem conta de Les Marauds — disse-lhe eu rispidamente. — Mas as outras pessoas, a sua filha entre elas, percebem que se os deixarmos pôr um pé dentro da porta...
Armande bufou uma gargalhada.
— Ela até fala como você — disse ela. — Tiradas de cliché de púlpito e lugares-comuns nacionalistas. Tanto quanto vejo, esta gente não está a fazer mal nenhum. Porquê fazer uma cruzada para os expulsar, quando eles não tardam a ir-se embora, de qualquer maneira?
Encolhi os ombros.
— Vê-se bem que não quer compreender o assunto — disse eu laconicamente.
— Bem, eu já disse ali ao Roux... — um gesto malicioso na direcção do homem do barco preto — ...disse-lhe a ele e aos amigos dele que seriam bem-vindos durante o tempo que lhes levar a consertar o motor e abastecer-se de mantimentos. — Lançou-me um olhar malicioso e triunfante. — Por isso, não lhes pode dizer que estão a invadir propriedade privada. Estão aqui, em frente da minha casa, com a minha bênção. — Deu uma ênfase especial última palavra, como para me insultar.
— Assim como os seus amigos, quando chegarem. — Lançou-me mais um dos seus olhares insolentes. — Todos os seus amigos.
Bem, eu já devia prever. Ela tinha de o fazer nem que fosse para me vexar. Gosta da notoriedade que lhe advém disso, sabendo que, como residente mais velha da aldeia, lhe são permitidas certas liberdades. Não vale a pena discutir com ela, mon père. Já sabemos isso. Ela gosta da discussão tanto como aprecia o contacto com esta gente, as suas histórias, as suas vidas. Não espanta que já saiba os nomes deles. Não lhe posso dar a satisfação de me ver implorar. Não, tenho de lidar com o assunto de outra maneira.
Uma coisa fiquei a saber por Armande, pelo menos. Haverá outros. Quantos, teremos de esperar para ver. Mas é como eu temia. Três deles hoje. Amanhã, quantos mais?
Passei por Clairmont a caminho daqui. Ele espalhará a palavra. Conto com alguma resistência — Armande ainda tem amigos — e Narcisse pode requerer alguma persuasão. Mas, no geral, conto com cooperação. Ainda sou alguém nesta aldeia. A minha boa opinião conta para alguma coisa. Também vi Muscat hoje. Ele encontra a maioria das pessoas no seu café. Presidente do Comité dos Moradores. Um homem recto apesar dos seus erros, e um católico praticante. E se fosse precisa uma mão forte — claro que todos nós condenamos a violência, mas com esta gente nunca se pode excluir essa possibilidade —, bem, tenho a certeza de que poderíamos contar com o Muscat.
Armande chamou-lhe uma cruzada. Disse-o como um insulto, eu sei, mas mesmo assim... Sinto uma certa excitação ante a perspectiva deste conflito. Será esta a tarefa que Deus me terá destinado?
É por isto que eu vim para Lansquenet, mon père. Para lutar pelo meu povo. Para os salvar da tentação. E quando Vianne Rocher vir o poder da Igreja — a minha influência em todas as almas da minha comunidade —, saberá que perdeu. Sejam quais forem as suas esperanças, as suas ambições. Perceberá que não pode ficar. Não pode lutar e esperar vencer.
E eu triunfarei.
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