Chocolate
Capítulo 29
Domingo, 16 de Março
P rimeiro Armande fez de conta que não sabia de que é que eu estava a
falar. Depois, assumindo um tom autoritário, quis saber quem é que
«tinha dado com a língua nos dentes», ao mesmo tempo que dizia que eu era uma metediça e não fazia a mínima ideia do que estava a falar.
— Armande — disse eu mal ela parou para respirar. — Explique-me. Diga-me o que é que quer dizer. Retinopatia diabética...
Ela encolheu os ombros.
— Assim como assim, tanto faz, já que esse médico de meia tigela anda por aí fora a dar com a língua nos dentes. — O tom era petulante. — A tratar-me como se eu já não fosse capaz de tomar as minhas próprias decisões. —Lançou-me um olhar severo. — E a menina não é melhor, Madame — disse ela. — A cacarejar à minha volta, a intrometer-se. Eu não sou uma criança, Vianne.
— Eu sei que não é.
— Pois então. — Pegou na chávena de chá junto ao seu ombro. Reparei no cuidado com que ela a segurou entre os dedos, verificando a sua posição antes de lhe pegar. Não é ela, mas eu, que tenho andado cega. A bengala com fita vermelha, os gestos cautelosos, a tapeçaria inacabada, os olhos escondidos debaixo de uma série de chapéus...
— Não é que possa fazer alguma coisa por mim — prosseguiu Armande num tom mais sereno. — Tanto quanto percebi, é incurável, pelo que diz respeito a mim e a mais ninguém.
Bebericou um gole de chá e fez uma careta.
— Camomila — disse sem entusiasmo. — Dizem que elimina as toxinas. Sabe a mijo de gato. — Pousou de novo a chávena com o mesmo gesto cuidadoso.
— Tenho saudades de ler — disse ela. — Já me custa ler letras impressas mas o Luc às vezes lê para mim. Lembra-se como o pus a ler-me Rimbaud naquela primeira quarta-feira?
Acenei afirmativamente.
— Dito assim, até parece que foi há anos e anos — disse eu.
— E foi. — A voz dela era leve, quase sem inflexão. — Tive aquilo que nunca pensei vir a ter, Vianne. O meu neto a visitar-me todos os dias. Conversamos como adultos. É um bom rapaz, suficientemente bondoso para ter algumas saudades minhas...
— Ele gosta muito de si, Armande — interrompi eu. — Todos nós gostamos.
Ela gargalhou por entre os dentes.
— Todos talvez não — disse. — De qualquer maneira, pouco importa. Tenho tudo o que sempre quis aqui e agora. A minha casa, os meus amigos, Luc... — Lançou-me um olhar obstinado. — E não vou deixar que me tirem isso — declarou em tom rebelde.
— Não percebo. Ninguém a pode obrigar a...
— Eu não estou a falar de ninguém — interrompeu ela abruptamente. — Cussonet pode dizer o que quiser dos seus implantes de retina e dos seus TACs e terapias laser e do mais que lhe apetecer — o desprezo dela por tais coisas era evidente —, mas isso não altera a realidade nua e crua. A verdade é que estou a ficar cega e não há ninguém que o possa impedir. — Cruzou os braços num gesto definitivo.
— Eu devia ter ido consultá-lo há mais tempo — disse ela sem amargura. — Agora é irreversível e piora cada dia. Seis meses de visão parcial é o máximo que ele me dá, depois o Mortoir, quer queira quer não, até morrer. — Fez uma pausa. — Ainda posso viver mais uns dez anos — disse ela, pensativa, ecoando as palavras que eu dissera a Reynaud.
Abri a boca para replicar, para lhe dizer que podia não ser assim tão mau, depois fechei-a.
— Não fique com esse ar, menina. — Armande deu-me uma das suas cotoveladas zombateiras. — Depois de um repasto de cinco pratos, ia querer café e licor, não? Não ia de repente decidir encerrá-lo com uma malga de gasosa, pois não? Só para ter direito a um outro prato?
— Armande...
— Não me interrompa. — Os olhos dela estavam brilhantes. — O que eu estou a dizer é que é preciso saber onde parar, Vianne É preciso saber quando é altura de afastar o prato e pedir os licores. Eu vou fazer oitenta e um daqui a quinze dias...
— Não é assim tanta idade — gemi eu à revelia de mim própria. — Não posso acreditar que desista assim!
Ela olhou para mim.
— E no entanto, foi você, não foi, que disse ao Guillaume para não privar o Charly de alguma dignidade.
— Mas você não é um cão! — retorqui eu, agora zangada.
— Não — replicou Armande —, e posso escolher.
Um lugar duro, Nova Iorque, com os seus mistérios berrantes: fria no Inverno e ardendo de calor no Verão. Ao fim de três meses, até o ruído se torna familiar, inaudível, os sons de carros-vozes-táxis fundindo-se num manto único de som que se abate sobre o lugar como chuva. Atravessando a rua do pronto-a-comer segurando nos braços um saco castanho com o nosso almoço, ia ter com ela a meio caminho, chamando a atenção dela por entre uma rua movimentada, um cartaz anunciando cigarros Marlborough por trás dela: um homem de pé com montanhas vermelhas ao fundo... Eu vi-o vir. Abri a boca para gritar, para a avisar... Gelei. Um segundo, foi tudo, um único segundo. Terá sido o medo que agrafou a minha língua ao céu da boca? Terá sido simplesmente a lenta reacção do corpo perante a iminência do perigo, o pensamento a chegar ao cérebro, a uma dolorosa eternidade da resposta lenta da carne? Ou terá sido a esperança, o tipo de esperança que fica quando todos os sonhos já foram descarnados e sobra apenas a longa agonia do fingimento?
Claro, mamã, claro que havemos de ir à Florida. Claro que sim.
O rosto dela, rígido de sorrir, os olhos demasiado brilhantes, tão brilhantes como foguetes no 4 de Julho.
O que é que eu havia de fazer, o que é que eu havia de fazer sem ti?
Está tudo bem, mamã. Havemos de conseguir. Prometo. Confia em mim.
O Homem de Preto assiste de pé, com um sorriso no rosto, e durante aquele segundo interminável eu sei que há coisas piores, muito piores, do que morrer. Depois a paralisia esvai-se e eu grito, mas o grito de aviso vem demasiado tarde. Ela volta o rosto vagamente na minha direcção, um sorriso a formar-se nos seus lábios descorados — Porquê, o que é, querida? — e o grito que devia ser o seu nome perde-se no guincho dos travões...
Florida! Parece o nome de uma mulher atravessando estridentemente a rua, a jovem a correr por entre o tráfico e deixando cair os sacos na corrida — um molho de legumes, um pacote de leite —, o rosto contorcido. Parece um nome, como se a mulher mais velha a morrer na rua realmente se chamasse Florida, e ela morre antes de eu lá chegar, silenciosamente e sem drama, pelo que eu me sinto quase constrangida por fazer tanto alarido, e uma mulher mais forte num fato de treino cor-de-rosa abraça-me com os seus braços carnudos mas o que eu mais sinto é alívio, como um abcesso lancetado, e as minhas lágrimas são de alívio, alívio amargo e ardente por finalmente ter chegado ao fim. Chegado ao fim intacta, ou quase.
— Não devia chorar — diz Armande com delicadeza. — Não você que está sempre a dizer que a felicidade é a única coisa que conta?
Surpreendo-me por sentir a minha cara molhada.
— Além do mais, preciso da sua ajuda. — Pragmática como sempre, passa-me o lenço que tem no bolso. Cheira a alfazema. — Vou fazer uma festa para os meus anos — declara. — Ideia do Luc. Não importa a despesa. Quero que seja você a servir.
— O quê? — Fiquei confusa, passando da morte para a festa.
— A minha última ceia — explicou Armande. — Tomo os meus remédios até lá, como menina bem comportada. Até tomo aquele chá nojento. Quero ver o meu octogésimo primeiro aniversário, Vianne, com todos os meus amigos minha volta. Quem sabe, até posso convidar aquela idiota da minha filha. Abrimos o seu festival de chocolate em grande estilo. E depois... — Um encolher de ombros rápido e indiferente. — Nem toda a gente tem esta sorte — observou ela. — A sorte de planear tudo, de arrumar os cantos casa. E mais uma coisa... — lançou-me um olhar ao intenso como um laser. — Nem uma palavra a ninguém — disse ela. — Ninguém. Não admito interferências. A escolha é minha, Vianne. A festa é minha. Não quero ninguém a chorar e fazer cenas na minha festa. Entendido?
Acenei que sim.
— Promete? — Como se falasse para uma criança teimosa.
— Prometo.
O seu rosto ficou com aquele ar feliz que sempre adquire quando ela fala em boa comida. Esfregou as mãos.
— Agora a ementa.
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