Chocolate
Capítulo 31
P arece haver menos movimento na loja da Rocher nestes últimos dias.
Armande Voizin deixou de aparecer, embora eu a tenha visto umas
quantas vezes desde as melhoras dela, a caminhar a passo determinado e só com uma pequena ajuda da bengala. Guillaume Duplessis está amiúde com ela, com aquele novo cãozito escanzelado pela trela, e Luc Clairmont vai todos os dias a Les Marauds. Ao saber que o filho se encontra com Armande em segredo, Caroline Clairmont mostra um sorriso de desgosto.
— Ultimamente não consigo fazer nada dele, père — queixa-se ela. — Um rapaz tão bom, tão obediente, e de um momento para o outro... Leva ao peito as mãos saídas da manicura, num gesto teatral.
— Limitei-me a dizer-lhe — da maneira mais suave possível — que talvez ele me devesse ter dito que ia visitar a avó... — suspirou ela. — Como se achasse que eu ia desaprovar, pobre rapaz. Claro que não, disse-lhe eu. É óptimo que te dês assim tão bem com ela. Afinal de contas, vais herdar tudo um dia... E de repente ele desata a berrar comigo e a dizer que não quer saber do dinheiro, que a razão por que não queria que eu soubesse era que eu ia estragar tudo, que eu era uma beata metediça — as palavras dela, aposto a minha vida... — Esfregou os olhos com as costas da mão, tendo o cuidado de não estragar a maquilhagem impecável.
— O que é que eu fiz, père? — suplicou ela. — Fiz tudo por aquele rapaz, dei-lhe tudo. E vê-lo a fugir de mim, a atirar-me tudo à cara por causa daquela mulher... — A voz dela era dura sob as lágrimas. — Mais aguçado do que dente de serpente — lamentou-se ela agarrando-se ao peito. — Não imagina o que isso significa para uma mãe, père.
— Ah, mas a senhora não é a única vítima das boas intenções metediças de Madame Rocher — disse-lhe eu. — Olhe sua volta e veja só as mudanças que ela já provocou em poucas semanas.
Caroline fungou.
— Boas intenções! O senhor é demasiado brando, père — escarneceu ela. — Ela é maldosa, é o que ela é. Quase matou a minha mãe, pôs o meu filho contra mim... — Eu acenei em sinal de encorajamento.
— Para não falar no que fez ao casamento dos Muscats — continuou Caroline. — Admiro-me que o senhor tenha tanta paciência, Ore. Admiro-me muito. — Os olhos dela faiscaram de desprezo. — Espanto-me que o senhor não tenha usado a sua influência, père — disse ela.
Encolhi os ombros.
— Ora, eu não passo de um pároco de província — disse eu. — Não tenho assim tanta influência. Posso desaprovar mas...
— Pode fazer muito mais do que simplesmente desaprovar — atirou ela, seca. — Antes de mais, nós devíamos ter-lhe dado ouvidos, père. Nunca devíamos ter permitido que ela se fixasse aqui.
Encolhi os ombros.
— Qualquer um pode dizer isso agora, olhando para trás — lembrei-lhe eu. — Até a senhora apadrinhou a loja, se bem me lembro.
Ela corou.
— Bem, podíamos ajudá-lo agora — disse ela. — Paul Muscat, Georges, os Arnaulds, os Drous, os Proudhommes... Podíamos unir-nos. Passar a palavra. Trocar-lhe as voltas, mesmo agora.
— Por quê? A mulher não desrespeitou lei nenhuma. Iam chamar-lhe bisbilhotice mal-intencionada e não íamos ficar melhor do que antes. Caroline fez um sorrisinho.
— Podíamos dar cabo do seu querido festival, lá isso podíamos — disse ela.
— Ah sim?
— Claro. — A intensidade das emoções torna-a feia. — O Georges conhece muita gente. um homem rico. O Muscat também tem influência. Conhece gente. persuasivo. O Comité dos Moradores...
Claro que é. Recordo-me do pai dele, no Verão dos ciganos do rio.
— Se ela tiver prejuízo no festival — e, segundo me consta, ela já investiu uma boa quantia nos preparativos —, então poderia sentir-se pressionada a...
— Poderia — respondi discretamente. — Claro que eu não poderia ser visto a participar numa coisa dessas. Poderia parecer... pouco caritativo. Percebi pela expressão dela que compreendera perfeitamente.
— Claro, mon père. — A voz dela é gulosa e desdenhosa. Por um instante, sinto prof undo despeito por ela, arfando e bajulando como cadela com cio, mas afinal é com tais ferramentas desprezíveis, père, que muitas vezes vamos fazendo o nosso trabalho.
Afinal de contas, père, o senhor deve saber.
OceanofPDF.com