Chocolate

Joanne Harris · Capítulo 40 de 40

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Chocolate

Capítulo 39

Segunda feira, 31 de Março

Segunda-feira de Páscoa

 

M andei Reynaud embora quando os sinos pararam de repicar. Não

chegou a rezar missa. Antes desapareceu na direcção de Les Marauds

sem uma palavra. Poucos lhe sentiram a falta. Começámos o festival mais cedo, com chocolate quente e bolos em frente a LA PRALINE enquanto eu arrumava tudo rapidamente. Felizmente que não era muito o prejuízo: umas quantas centenas de chocolates espalhados pelo chão mas todas as nossas caixas de oferta intactas. Um jeito no expositor da montra e voltou tudo ao mesmo.

O festival correspondeu inteiramente às nossas expectativas. Bancas de artesanato, fanfarras, a banda de Narcisse — para meu grande espanto, ele toca saxofone com um virtuosismo folgazão —, malabaristas, saltimbancos. A gente do rio está de volta — por hoje, pelo menos — e as ruas estão animadas com o seu colorido. Uns montaram bancas próprias, vendendo compota e mel e entrançando cabelos com contas, fazendo tatuagens com hena e adivinhando o futuro. Roux vendeu bonecos que ele próprio esculpiu de sobras de madeira. Só faltaram os Clairmonts, embora eu não deixasse de ver Armande na minha mente, como se em tal ocasião não conseguisse imaginá-la ausente. Uma mulher com um lenço vermelho, a curva arredondada de umas costas curvadas numa bata cinzenta, um chapéu de palha, alegremente decorado com cerejas, agitando-se sobre a multidão festiva. Parecia estar em toda a parte. Descobri com estranheza que não sentia nenhum pesar. Apenas a convicção crescente de que, a qualquer instante, ela poderia aparecer, levantando as tampas das caixas para espreitar o que havia lá dentro, lambendo os dedos gulosa ou saudando entusiasticamente o barulho, o alvoroço, a alegria de tudo isto. Uma vez tive até a certeza de ter ouvido a voz dela — iuupi! — mesmo ao meu lado quando me inclinei para chegar a um pacote de passas de chocolate, embora, ao olhar, me tenha deparado com espago apenas. A minha mãe teria compreendido.

Entreguei todas as minhas encomendas e vendi a última caixa as quatro e um quarto. Lucie Prudhomme ganhou a caça ao ovo de Páscoa mas todos os participantes receberam cartuchos-surpresa, com chocolates e cornetas e pandeiretas e galhardetes. Um único carro alegórico, com flores naturais, anunciava o horto de Narcisse. Alguns jovens atreveram-se a começar um baile perante o olhar severo de St. Jérôme e o sol brilhou todo o dia.

 

Contudo, sentada agora com Anouk na nossa casa silenciosa, com um livro de contos de fada numa mão, sinto-me inquieta. Digo-me que este é o anticlímax que necessariamente sucede a um evento há muito esperado. Cansaço, talvez, ansiedade, a intromissão de Reynaud no último momento, o calor do sol, as pessoas... Pesar por Armande também, a surgir agora a medida que os sons de divertimento esmorecem, a tristeza matizada de tantos outros sentimentos contraditórios, perda, descrença e uma espécie de sensação serena de justeza... Querida Armande. Teria gostado tanto disto. Mas teve o seu próprio fogo de artifício, não foi? Guillaume apareceu hoje a noite, muito depois de termos limpado todos os sinais da festa. Anouk estava a preparar-se para ir para a cama, com os olhos ainda cheios das luzes de Carnaval.

— Posso entrar? — O novo cão dele já aprendeu a obedecer as suas ordens para se sentar e aguarda solenemente a porta. Traz qualquer coisa numa mão. Uma carta. — Armande pediu-me para lhe entregar isto. Sabe. Depois.

Pego na carta. Dentro do envelope, uma coisa pequena e dura roga o papel.

— Obrigada.

— Não me demoro. — Olha-me por um instante, depois estende a mão, num gesto simultaneamente teatral e tocante. O seu aperto de mão é firme e fresco. Sinto os olhos a arderem; algo brilhante cai da manga do velho — da sua ou da minha, não tenho bem a certeza.

— Boa noite, Vianne.

— Boa noite, Guillaume.

O envelope contém uma única folha de papel. Tiro-a para fora e algo rola sobre o tampo da mesa — moedas, penso. A caligrafia é grande e esforçada.

 

Querida Vianne:

Obrigada por tudo. Sei como se deve sentir. Converse com o

Guillaume se quiser — ele compreende melhor do que ninguém.

Lamento não poder assistir ao seu festival mas já o vi tantas vezes na

minha mente que realmente não importa. Dê um beijinho à Anouk por

mim e entregue-lhe uma das moedas — a outra é para quem vier a

seguir, suponho que nos entendemos.

Estou cansada e sinto uma mudança no vento que se aproxima. Acho

que me vai fazer bem dormir. E, quem sabe, talvez um dia nos voltemos

a encontrar.

Um abraço, Armande Voizin.

P.S. Não se preocupem em ir ao funeral, nenhuma de vocês. É a festa

de Caro e suponho que ela tem o direito a isso, já que é o tipo de coisa

de que ela gosta. Convide antes os seus amigos para irem até LA

PRALINE e tomem chocolate quente. Gosto muito de vocês. A.

 

Quando acabei, pousei a folha e procurei as moedas. Encontrei uma em cima da mesa e outra em cima da cadeira: duas libras de ouro reluzindo num tom acobreado na minha mão. Uma para Anouk — e a outra?... Instintivamente, procurei aquele lugar quente e quieto dentro de mim, o lugar secreto que ainda não revelei plenamente nem sequer a mim mesma.

 

A cabeça de Anouk repousa serenamente no meu ombro. Quase a dormir, trauteia uma canção para Pantoufle enquanto eu leio em voz alta. Não tem falado muito de Pantoufle nestas últimas semanas: usurpado por companheiros de brincadeira mais tangíveis. Parece significativo que ele regresse agora que o vento mudou. Algo em mim sente a inevitabilidade da mudança. A minha fantasia de permanência cuidadosamente construída é como os castelos de areia que costumávamos fazer na praia, à espera da maré-cheia. Mesmo sem o mar, o sol corrói-os e amanhã já quase terão desaparecido. Ainda assim, sinto um pouco de raiva, um pouco de dor. Ainda assim, o aroma do carnaval arrasta-me, o vento em mudança, o vento quente de — donde era? De Sul? De Leste? América? Inglaterra? É só uma questão de tempo. Lansquenet, com todas as suas associações, parece-me menos real agora, recuando já na memória. A maquinaria abranda; o mecanismo cala-se. Talvez seja aquilo que eu suspeitei desde o princípio, que eu e Reynaud estamos ligados, que um equilibra o outro e, sem ele, não sou precisa aqui. Seja como for, a necessidade da vila desapareceu; sinto satisfação neste lugar, uma saciedade completa em que já não há lugar para mim. Em todas as casas de Lansquenet, os casais fazem amor, as crianças brincam, os cães latem, as televisões bradam... Sem nós. Guillaume acaricia o seu cão e vê Casablanca. Sozinho no seu quarto, Luc le Rimbaud em voz alta sem o mais leve vestígio de gaguez. Roux e Joséphine, a sós na sua casa pintada de fresco, descobrem-se um ao outro a pouco e pouco. A Radio Gascogne emitiu um programa sobre o festival de chocolate hoje de manhã, anunciando orgulhosamente o festival de Lansquenet-sous-Tannes, uma encantadora tradição local. Os turistas já não passarão por Lansquenet apenas a caminho de outros lugares. Eu coloquei a vilazinha invisível no mapa.

O vento cheira a maresia, a ozono e a fritos, à marginal de Juan-les-Pins, a panquecas e óleo de coco e carvão e suor. Tantos lugares à espera que o vento mude. Tantas pessoas necessitadas. Por quanto tempo desta vez? Seis meses? Um ano? Anouk repousa o seu rosto no meu ombro e eu aconchego-a a mim, com demasiada força pois ela quase acorda e murmura uma acusação qualquer. LA CELESTE PRALINE voltará uma vez mais a ser uma padaria. Ou talvez uma confiserie-pâtisserie, com guimauves pendurados do tecto como salsichas em pastel e caixas de pains d’épices com Souvenir de Lansque-net-sous-Tannes escrito no invólucro. Pelo menos teremos dinheiro, mais do que suficiente para recomeçarmos noutro lugar qualquer. Nice, talvez, ou Cannes, Londres ou Paris.

Anouk murmura no seu sono. Também ela o sente.

E contudo progredimos. Deixámos para trás o anonimato dos quartos de hotel, as luzes de néon, as partidas de Norte a Sul ao virar das cartas. Enfrentámos por fim o Homem de Preto, eu e Anouk, vimo-lo enfim como ele é: um disfarce de si mesmo, uma máscara de Carnaval. Não podemos ficar aqui para sempre. Mas talvez ele tenha aberto o caminho para que fiquemos noutro lugar qualquer. Uma vila à beira-mar, talvez. Ou uma aldeia à beira-rio, com campos de milho e vinhedos. Os nossos nomes mudam. O nome da nossa loja também há-de mudar. La Truffe Enchantée, talvez. Ou Tentations Divines, em memória de Reynaud. E desta vez podemos levar tanto de Lansquenet connosco. Seguro a prenda de Armande na palma da mão. As moedas são pesadas, sólidas ao tacto. O ouro é avermelhado, quase da cor do cabelo de Roux. Pergunto-me de novo como é que ela sabia — exactamente até onde ela via. Outra criança — não sem pai, desta vez, mas filha de um homem bom, mesmo que ele nunca o saiba. Pergunto-me se ela terá o seu cabelo, os seus olhos esfumados. Tenho já a certeza de que será uma menina. Até já sei o seu nome.

E há outras coisas que podemos deixar para trás. O Homem de Preto desapareceu. A minha voz parece-me agora diferente, mais ousada, mais forte. Há nela uma nota que, se eu prestar atenção, quase consigo reconhecer. Uma nota de desafio, mesmo de regozijo. Os meus medos desapareceram. Também tu desapareceste, mamã, embora eu nunca deixe de te ouvir a falar comigo. Já não preciso de ter medo do meu rosto no espelho. Anouk sorri no seu sono. Podia ficar aqui, mamã. Temos uma casa, amigos. O catavento do lado de fora da minha janela gira, gira. Imagina ouvi-lo semana após semana, ano após ano, estação após estação. Imagina olhar pela minha janela numa manhã de Inverno. A nova voz dentro de mim ri-se e o som é quase como regressar a casa. A nova vida dentro de mim gira suave, docemente. Anouk fala no seu sono, sílabas sem sentido. As mãozinhas dela agarram-se ao meu braço.

— Por favor. — A voz dela abafada pela minha camisola. — Mamã, canta-me uma canção. — Abre os olhos. A terra, vista a uma grande distância, é do mesmo azul-verde.

— Está bem.

Eli volta a fechar os olhos e eu começo a cantar baixinho.

V’là l’vent, v’là l’ joli vent,

V’là l’vent, ma mie m’appelle...

Esperando que desta vez permaneça uma canção de ninar Que desta vez o vento não ouça. Que desta vez — por favor, só desta vez — ele parta sem nós.

 

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