Chocolate

Joanne Harris · Capítulo 36 de 40

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Chocolate

Capítulo 35

 

Sexta-feira, 28 de Março

Sexta-Feira Santa

 

E u devia estar com o meu rebanho, père. Sei-o. A igreja está espessa de

incenso, fúnebre de púrpura e negro, sem uma única pega de prata ou

ramo de flores. Eu devia lá estar. Hoje é o meu grande dia, père, a solenidade, a piedade, o órgão a tocar como um sino gigante submerso — os próprios sinos silenciosos, claro, de luto por Cristo crucificado. Eu próprio de negro e púrpura, a minha voz qual nota do órgão a entoar as palavras. Eles observam-me com olhos abertos e escuros. Até os renegados aqui estão hoje, vestidos de preto e penteados. A sua necessidade, a sua expectativa, enche o vazio em mim. Por um breve instante, sinto de facto amor, amor pelos seus pecados, pela sua redenção final, pelas suas preocupações miudinhas, a sua insignificância. Sei que compreende, pois também foi o seu pastor. Num certo sentido muito real, o senhor morreu por eles tal como Nosso Senhor. Para os proteger dos seus pecados e dos deles. Eles nunca souberam, pois não, père? Nunca souberam por mim. Mas quando eu o encontrei com a minha mãe na sacristia... Uma apoplexia grave, disse o médico. O choque deve ter sido demasiado grande. O senhor recuou. Recolheu-se sobre si mesmo, embora eu saiba que me ouve, saiba que me vê melhor do que alguma vez viu. E sei que um dia regressará ao nosso convívio. Tenho jejuado e orado, père. Tenho-me humilhado. E contudo, sinto-me imerecedor. Há ainda algo que não fiz.

Após o serviço, uma criança — Mathilde Arnaud — veio ter comigo. Colocando a sua mão na minha, sussurrou sorrindo:

— Eles também vão trazer chocolates para si, Monsieur le Curé?

— Quem é que vai trazer chocolates? — perguntei eu, perplexo.

Impaciente: — Ah, os sinos, claro! — Riu-se. — Os sinos voadores!

— Ah, os sinos. Claro.

Fui apanhado de surpresa e, por um momento, fiquei sem saber o que responder. Ela puxou-me a sotaina, insistindo:

— Sabe, os sinos. Voam para Roma para verem o Papa e no regresso trazem chocolates...

Tornou-se uma obsessão. Um refrão de uma só palavra, um coro sussurrado-gritado em cada pensamento. Não consigo evitar que a voz se me eleve em raiva, apertando-lhe a cara gulosa, assustada e aterrorizada:

— Por que é que ninguém aqui consegue pensar em mais nada a não ser chocolates? — e a criança correu a chorar pela praça fora, enquanto a lojeca com a sua montra embrulhada em papel se ria de mim triunfante e eu chamava a miúda tarde de mais.

Hoje á noite haverá a cerimónia do enterro da hóstia no sepulcro, a representação dos últimos momentos de Nosso Senhor pelas crianças da paróquia, e depois, ao cair da noite, acendem-se as velas. Este costuma ser um dos momentos do ano mais intensos para mim, o momento em que eles me pertencem, os meus filhos, vestidos de preto e graves. Mas este ano, será que eles estarão a pensar na Paixão, na solenidade da Eucaristia, ou estarão as suas bocas a salivar por antecipação? As histórias dela — sinos voadores e festins — são convincentes e sedutoras. Eu tento infundir no sermão as nossas próprias seduções mas as glórias obscuras da Igreja não se comparam com a magia de tapetes voadores.

Visitei Armande Voizin esta tarde. É o aniversário dela e a casa está numa agitação. Claro, eu sabia que ia haver uma espécie de festa mas nunca esperei nada assim. A Caro falou-me nisso uma ou duas vezes — está relutante em ir mas espera que seja uma oportunidade para fazer as pazes com a mãe de uma vez por todas —, embora eu desconfie que ela não imagina a escala do evento. Vianne Rocher está na cozinha e passou todo o dia a preparar comida. Joséphine Muscat ofereceu a cozinha do café como área de cozinha suplementar, já que a casa de Armande é demasiado pequena para suportar tão opíparos preparativos e, quando cheguei, um batalhão inteiro de ajudantes traziam pratos, tachos e terrinas do café de Armande para casa. Um aroma rico a vinho saía pela janela e, contra a minha própria vontade, senti a boca a salivar. Narcisse estava a trabalhar no jardim, plantando flores numa espécie de pérgula construída entre a casa e o portão. O efeito era impressionante: clematite, campainhas, lilases e seringueiras pareciam pender da estrutura de madeira, formando uma cobertura de cor na parte superior e filtrando suavemente o sol. Armande não estava à vista.

Dei meia volta, incomodado com este exibicionismo excessivo. Típico dela ter escolhido a Sexta-feira Santa para tal celebração. A sumptuosidade de tudo isto — flores, comida, grades de champanhe entregues à porta e embaladas em gelo para se manterem frescas — raia a blasfémia, é um grito de troça na cara de Deus sacrificado. Tenho de lhe falar nisso amanhã. Estava para me vir embora quando vislumbrei Guillaume Duplessis de pé ao lado do muro, afagando um dos gatos de Armande. Levantou o chapéu com boa educação.

— A ajudar, é isso? — perguntei.

Guillaume acenou que sim.

— Disse que dava uma mão — admitiu ele. — Ainda há muito que fazer até logo à noite.

— Espanto-me que você se envolva numa coisa destas — disse-lhe eu a direito. — Especialmente hoje! Francamente, acho que Armande foi demasiado longe desta vez. A despesa, para não falar do desrespeito para com a Igreja...

Guillaume encolheu os ombros.

— Ela tem o direito de festejar — disse ele com brandura.

— É mais capaz de se enfartar até morrer — provoquei eu.

— Acho que ela já tem idade para fazer o que quiser — disse Guillaume.

Olhei-o com ar reprovador. Ele mudou desde que começou a associar-se com a Rocher. O ar de humildade lutuosa desapareceu-lhe do rosto e agora, em lugar disso, há nele algo de voluntarioso, quase desafiador.

— Não gosto do modo como a família de Armande tenta mandar na vida dela — prosseguiu ele obstinadamente.

Eu encolhi os ombros.

— Espanto-me que você, logo você, possa tomar partido desta maneira — disse-lhe eu.

— A vida está cheia de surpresas — disse Guillaume.

Quem me dera.

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