Chocolate
Capítulo 38
Domingo, 30 de Março
Domingo de Páscoa, 4h da manhã
M al dormi ontem à noite. A janela dela esteve iluminada até às duas e,
mesmo então, não me atrevi a mexer-me para o caso de ela estar
acordada e deitada no escuro. Dormitei por umas horas no sofá, deixando o despertador ligado para o caso de adormecer. Não precisava de me ter preocupado. O meu sono, assim como assim, foi atravessado por lampejos de sonho tão evanescentes que mal me lembro deles mesmo quando me despertaram. Julgo que vi Armande — a jovem Armande, embora, obviamente, não a tenha conhecido então — a correr pelos campos fora nas traseiras de Les Marauds com um vestido vermelho e o cabelo preto ao vento. Ou talvez fosse Vianne e eu as tenha confundido. Depois sonhei com o incêndio em Les Marauds, com a desmazelada e o seu homem, com as margens vermelhas e duras do Tannes e consigo, gere, e com a minha mãe na sacristia... Toda a colheita amarga desse Verão infiltrando-se nos meus sonhos e eu como um porco a farejar trufas, a revolver uma e outra vez os acepipes apodrecidos e a comer vorazmente.
Às quatro levantei-me da cadeira. Dormi vestido, tirando a sotaina e o colarinho. A Igreja não tem nada a ver com este assunto. Faço café, bem forte mas sem açúcar, embora, teoricamente, a minha penitência tenha terminado. Digo teoricamente. No meu coração sei que a Páscoa ainda não chegou. Ele ainda não ressuscitou. Se eu conseguisse hoje, então ele ressuscitaria.
Apercebo-me de que estou a tremer. Como pão seco para me dar coragem. O café está quente e amargo. Quando tiver cumprido a minha tarefa, prometo a mim próprio uma boa refeição: ovos, fiambre, pãezinhos de leite de Arnauld. A minha boca começa a salivar ante a ideia. Ligo o radio para uma estação de música clássica. Em Paz apascentem as ovelhas. A minha boca contorce-se num trejeito de desdém duro e seco. Esta não é hora para cantos pastoris. hora para o porco, o porco manhoso. Fora com a música.
São cinco menos cinco. Da janela posso ver a primeira luz a aparecer no horizonte. Tenho muito tempo. O cura estará aqui as seis para tocar o carrilhão pascal; tenho mais do que tempo para o meu assunto secreto. Coloco o gorro que pus de parte para este fim: pareço diferente ao espelho, assustador. O que me faz sorrir de novo. A minha boca tem um ar duro e cínico por baixo da mascara. Quase espero que ela me veja.
05. 10.
A porta não está trancada. Mal posso acreditar na minha sorte. Mostra a confiança dela, a sua crença insolente de que ninguém lhe pode fazer frente. Desfaço-me da chave de fendas grossa com que tencionava abrir a porta e pego naquele pedaço de madeira pesado — parte de uma padieira, père, que caiu durante a guerra — com as duas mãos. A porta abre-se em silêncio. Mais um dos saquinhos vermelhos dela pendurado no cimo do caixilho; arranco-o e atiro-o com desprezo para o chão. Sinto-me desorientado por momentos. O lugar está diferente dos tempos em que era uma padaria e, de qualquer maneira, estou menos habituado às traseiras da loja. Apenas uns reflexos vagos de luz cintilam nas superfícies de mosaico e alegro-me por ter trazido uma lanterna. Acendo-a agora e, por um instante, a brancura das superfícies esmaltadas quase me cega, as bancas, as pias, os fogões velhos, tudo rebrilha com um ar lunar sob a estreita luz da lanterna. Não há chocolates a vista. Claro. Esta é só a área de fabrico. Não sei bem por que que estou tão espantado com todo este asseio; imaginava-a uma desmazelada, deixando tachos por lavar e pratos empilhados na banca e cabelos compridos pretos na massa dos bolos. Ao contrário, é escrupulosamente asseada; filas de tachos dispostos nas prateleiras por tamanhos, cobre com cobre, esmalte com esmalte, tigelas de porcelana a mão e utensílios — colheres, caçarolas — pendurados em paredes caiadas. Na velha mesa cheia de cicatrizes encontram-se várias formas de pão. No centro, uma jarra com dálias amarelas desgrenhadas projectam um emaranhado de sombras. Por qualquer razão, as flores irritam-me. Que direito tem ela a ter flores quando Armande Voizin está morta? O porco dentro de mim entorna as flores sobre a mesa e sorri. Deixo-o levar a sua avante. Preciso da sua ferocidade para cumprir a tarefa em mãos.
05.20.
Os chocolates devem estar na loja propriamente dita. Silenciosamente, atravesso a cozinha e abro a pesada porta de pinho que dá acesso à parte da frente do edifício. À minha esquerda, as escadas conduzem à área de residência. À minha direita, o balcão, as prateleiras, os expositores, as caixas... O cheiro a chocolate, apesar de esperado, é surpreendente. A escuridão parece tê-lo intensificado, pelo que, por instantes, o cheiro parece ser a escuridão, abatendo-se sobre mim como um pó castanho e rico, um pensamento sufocante. O raio da minha lanterna incide sobre feixes de luz, papel metálico, fitas, folhos brilhantes de celofane. A gruta do tesouro envolve-me. Um calafrio percorre-me o corpo. Estar aqui, na casa da bruxa, à socapa, um intruso. Tocar nas coisas dela em segredo enquanto ela dorme... Sinto-me compelido a ver a montra, a rasgar o papel que a cobre e a ser o primeiro... Absurdo, já que tenciono destruir aquilo tudo. Mas a compulsão não admite recusas. Caminho em bicos de pé, com as minhas solas de borracha, com o pesado bloco de madeira na mão. Tempo não me falta. Tempo para satisfazer a minha curiosidade, se quiser. Além do mais, este momento é demasiado precioso para ser desperdiçado. Quero saboreá-lo.
05.30.
Com jeito, afasto o papel que tapa a montra. Ele sai com um som esgarçado e pouso-o à parte, tentando ouvir quaisquer sinais de actividade no piso superior. Não há nenhuns. A minha lanterna ilumina a montra e, por momentos, quase me esqueço por que me encontro aqui. É uma opulência deslumbrante, frutos glacés e flores de maçapão e montanhas de chocolates avulsos de todas as formas e cores, e coelhos, patos, galinhas, pintainhos, cordeiros, a olharem-me com os seus olhos de chocolate alegres e graves como os exércitos de terracota do antigo Japão e, por cima de tudo isso, uma estátua de mulher, com braços castanhos graciosos segurando um molho de trigo de chocolate e com o cabelo esvoaçante. O pormenor está bem feito, com o cabelo feito num chocolate mais escuro e os olhos pintados a branco. O cheiro a chocolate é poderoso e o seu aroma rico e encorpado infiltra-se-me pela garganta deixando um rasto requintado de doçura. A mulher da espiga sorri ligeiramente, como que contemplando mistérios.
Páre. Pegue-me. Prove-me.
A canção soa mais alto do que nunca, aqui neste ninho de tentações. Podia estender uma mão em qualquer direcção e apanhar um destes frutos proibidos, provar a sua carne secreta. A ideia trespassa-me em mil lugares.
Páre. Pegue-me. Prove-me.
Ninguém saberia.
Páre. Pegue-me. Prove-me.
Por que não?
05.40.
Vou pegar na primeira coisa que me chegar as mãos. Não me posso perder nesta distracção. Um único chocolate — não roubo, propriamente, mas algo de salvados; será o único entre os pares a sobreviver ao naufrágio. A minha mão demora-se, contra a sua própria vontade, pairando como uma libelinha sobre um ninho de guloseimas. Um tabuleiro de pirex com cobertura protege-os; o nome de cada peça está escrito na cobertura numa caligrafia fina e corrida. Os nomes são arrebatadores. Biscoitos de laranja amarga. Rolo de alperce e maçapão. Cerisette russe. Trufa branca de rum. Manon blanc. Mamilos de Venus. Sinto-me corar sob a máscara. Como é que alguém pode pedir uma coisa com semelhante nome? E contudo, têm óptimo aspecto, de um branco rechonchudo luz da minha lanterna, encimado por chocolate mais escuro. Tiro um do cimo do tabuleiro. Seguro-o rente ao nariz: cheira a natas e baunilha. Ninguém saberá. Dou-me conta de que não devo comer chocolate desde criança, há tempo de mais para me lembrar, e, mesmo então, do tipo de chocolat à croquer barato, quinze por cento de mistura de cacau — vinte para o preto —, deixando um sabor pegajoso a gordura e açúcar. Uma ou duas vezes comprei um Suchard no supermercado, mas, sendo cinco vezes mais caro do que o outro, era um luxo a que raramente me podia dar. Este é completamente diferente: a resistência breve da concha de chocolate contra os lábios, a trufa cremosa no interior... Há carnadas de sabor como o bouquet de um bom vinho, uma ligeira amargura, a riqueza encorpada do café moído, o calor que dá vida ao aroma e me enche as narinas, um sabor a súcubo que me faz gemer.
05.45.
Pego noutro depois deste, dizendo-me que não importa. Demoro-me de novo nos nomes. Crème de cassis. Cacho de três nozes. Escolho um bombom escuro de um tabuleiro intitulado Viagem oriental. Gengibre cristalizado envolto numa concha de açúcar dura, dissolvendo-se na boca num licor lembrando um concentrado de especiarias, um sopro de ar aromatizado onde sândalo e canela e tília concorrem com cedro e pimenta da Jamaica... Pego noutro de um tabuleiro intitulado Pêche au miei millefleurs. Uma rodela de pêssego mergulhada em mel e aguardente, uma lasca de pêssego cristalizado na cobertura de chocolate. Consulto o relógio. Ainda há tempo.
Sei que devia começar o meu trabalho exemplar a sério. A montra, embora deslumbrante, não chega para as centenas de encomendas que ela recebeu. Tem de haver outro lugar onde guarda as suas caixas de oferta, as suas provisões, o cerne do negócio. Estas coisas são só para exposição. Agarro numa Amandine e enfio-a na boca para me ajudar a pensar. Depois um caramel fondant. Depois um Manon blanc, fofo com o seu recheio de creme e amêndoa. Tão pouco tempo e tantas coisas ainda a provar... Podia fazer o meu trabalho em cinco minutos, talvez menos. Desde que saiba onde procurar. Tiro mais um chocolate, para dar sorte, antes de ir à procura. Só mais um.
05.55.
É como um dos meus sonhos. Rebolo-me em chocolates. Imagino-me num campo de chocolates, numa praia de chocolates, a tostar-focinhar-enfartar. Não tenho tempo para ler os rótulos: meto chocolates à boca ao acaso. O porco perde a sua manha ante tais delícias e torna-se de novo porco; e embora algo no cimo da minha cabeça me grite para parar, não consigo. Depois de começar, é impossível parar. Isto não tem nada a ver com fome: atafulho-os à força, a boca inchada, as mãos cheias. Durante um terrível instante, imagino Armande a voltar para me perseguir, talvez para me maldizer com o seu mal peculiar: a maldição da morte por gula. Ouço os meus próprios sons ao comer, sons gemidos, carpidos, de êxtase e desespero, como se o porco tivesse por fim encontrado uma voz.
06.00.
Ele ressuscitou! O repicar dos sons desperta-me do meu encantamento. Dou comigo sentado no chão, com chocolates espalhados minha volta como se eu tivesse, de facto, tal como imaginei, rebolado neles. A moca está. esquecida ao meu lado. Retirei a máscara limitadora. A montra, liberta do seu invólucro, boceja cegamente aos primeiros raios pálidos da manhã.
Ele ressuscitou! Ebriamente, tento pôr-me de pé. Dentro de cinco minutos os primeiros crentes começam a chegar para a missa. Já devem ter dado pela minha falta. Pego na minha moca com os dedos cobertos de chocolate derretido. De súbito sei onde ela guarda o seu stock. Na antiga cave, fresca e seca, onde antes se guardavam os sacos de farinha. Posso ir lá. Sei que posso.
Ressuscitou!
Volto-me, segurando a minha moca, em desespero de tempo, tempo...
Ela está minha espera, a observar-me por trás da cortina de contas. Não há como saber há quanto tempo me observa. Um pequeno sorriso curva-lhe os lábios. Muito lentamente, retira-me a moca da mão. Entre os dedos segura algo que parece um pedaço crestado de papel colorido. Um cartão, talvez.
...E foi assim que me viram, père, rastejando nas ruínas da montra dela, com a cara manchada de chocolate e os olhos desvairados. As pessoas pareciam acorrer de lugar nenhum em sua ajuda. Duplessis com a coleira do cão numa mão, de guarda porta. A Rocher na porta das traseiras com a minha moca pendurada ao ombro. Arnaud do outro lado da rua, a pé cedo para fazer o seu pão e a chamar os curiosos para verem. Os Clairmonts, como carpas em terra, esgazeados. Narcisse a sacudir o punho. E o riso. Meu Deus! O riso. E constantemente os sinos repicam ele ressuscitou pela praça St. Jérôme.
Ele ressuscitou!
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