Chocolate
Capítulo 15
Quarta-feira, 25 de Fevereiro
E esta chuva interminável continua. Cai como um pedaço de céu
aprumado e pronto a derramar tristeza sobre o aquário de vida lá em
baixo. As crianças, quais patinhos de plástico colorido nos seus impermeáveis e botas, chapinham e patinham pela praça e os seus gritos fazem ricochete contra as nuvens baixas. Trabalho na cozinha com meio olho atento às crianças na rua. Hoje de manhã desfiz o expositor da montra, a bruxa, a casinha de biscoito de gengibre e todos os animais de chocolate sentados â sua volta com caras expectantes e reluzentes, e Anouk e os seus amigos dividiram entre si as guloseimas por entre excursões até aos arrabaldes de Les Marauds. Jeannot Drou observou-me na cozinha, com um pedaço de pain d’épices com cobertura dourada em cada mão e olhos brilhantes. Anouk estava atrás dele, os outros atrás dela, formando um muro de olhos e sussurros.
— E a seguir? — A voz dele parece de um rapaz mais velho, com um ar de fanfarronice casual e um pingo de chocolate no queixo. — O que é que vai fazer a seguir? Para a montra?
Encolhi os ombros. — Segredo — disse, mexendo o crème de cacao para um recipiente de esmalte com cobertura derretida.
— Não, a sério — insiste. — Devia fazer qualquer coisa para a Páscoa. Sabe, ovos e coisas assim. Galinhas de chocolate, coelhos, coisas assim. Como as lojas em Agen.
Lembro-me delas da minha infância: as chocolateries de Paris com as suas cestas de ovos embrulhados em pratinhas, prateleiras de coelhos e galinhas, sinos, frutos de maçapão e marrons glacés, amourettes e cestos de filigrana cheios de petits fours e caramelos e mil e uma epifanias de tapetes voadores feitos de açúcar e entregues a viagens mais próprias de um harém do que das solenidades da Paixão.
— Lembro-me de a minha mãe me falar dos chocolates da Páscoa. — Nunca havia dinheiro suficiente para comprar essas coisas refinadas mas eu recebia sempre o meu cornet surprise, um cone de papel contendo os meus presentes da Páscoa, moedas, flores de papel, ovos cozidos e pintados em cores vivas de esmalte, uma caixa de papier-mâché colorido — pintada com galinhas, coelhinhos, crianças sorridentes por entre botões-de-oiro, a mesma todos os anos e guardada cuidadosamente para o ano seguinte — contendo um pacotinho minúsculo de passas de chocolate embrulhadas em celofane, destinadas a serem saboreadas, uma a uma, longa e lentamente, durantes as horas esquecidas entre duas cidades, com o brilho do néon de letreiros de hotel tremeluzindo por entre as persianas e a respiração da minha mãe, lenta e como que eterna, no silêncio sombrio.
— Ela costumava dizer que na Quinta-feira Santa os sinos saíam das suas torres e campanários pela calada da noite e voavam com asas mágicas para Roma. — Ele acena, com aquele ar de cinismo semicrente tão peculiar nos jovens em crescimento.
— Fazem fila em frente ao Papa, todo de branco e dourado, com a sua mitra e báculo dourado, sinos grandes e sinos pequenos, clochettes e bourdons pesados, carrilhões e sininhos e do-si-do-mi-sois, todos pacientemente à espera de serem benzidos.
Ela comprazia-se com estas solenes lendas infantis, a minha mãe, os olhos brilhando e deleitando-se com tais absurdos. Todas as histórias a deliciavam — Jesus e Eostre e Ali Babá tecendo o folclore fiado em casa no tecido vivo da crença sempre renovada. Curas de cristal e viagens astrais, raptos por extraterrestres e combustões espontâneas, em tudo a minha mãe acreditava, ou fingia que acreditava.
— E o Papa benze-os a todos, um a um, pela noite dentro, os milhares de campanários de França vazios espera que eles regressem, silenciosos até à manhã do Domingo de Páscoa.
E eu, a sua filha, escutando de olhos abertos as suas histórias apócrifas e encantatórias, com contos de Mithras e Baldur, a Bela, e Osiris e Quetzacoatl, todos entretecidos com histórias de chocolates voadores e tapetes voadores e a Deusa Tripla e a gruta de cristal de Aladino e a gruta de onde Jesus se ergueu ao terceiro dia, amém, abracadabra, amém.
— E as bênçãos transformavam-se em chocolates de todos os tamanhos e feitios e os sinos viram-se ao contrário para os levarem para casa. E durante toda a noite voam e quando chegam às suas torres e campanários no Domingo de Páscoa, viram-se ao contrário e começam a balouçar, repicando de alegria...
Sinos de Paris, Roma, Colónia, Praga. Sinos de matinas, sinos de luto, repicando as mudanças pelos anos do nosso exílio. Sinos de Páscoa soando tão alto na memória que dói ouvi-los.
— E os chocolates voam sobre campos e cidades. E caem do ar quando os sinos tocam. E alguns deles caem no chão e quebram-se. Mas as crianças fazem cestos e colocam-nos no topo das árvores para apanharem os ovos e pralinas e galinhas de chocolate e coelhos e guirnauves e amêndoas...
Jeannot vira-se para mim de rosto vivo e um crescente sorriso irónico.
— Cool!
— E eis por que vocês recebem chocolates na Páscoa.
A sua voz está atemorizada, ríspida com a súbita certeza.
— Faça isso! Por favor, faça isso!
— Faço o quê?
— Faça isso! A história da Páscoa! Era tão coa, com os sinos e o Papa e tudo. Podia fazer um festival de chocolate... uma semana inteira... e podia-mos ter ninhos... e caçadas aos ovos de Páscoa... e... — Pára com a excitação, puxando-me imperiosamente a manga. — Madame Rocher, por favor...
Atrás dele, Anouk observa-me atentamente. Ao fundo, uma dúzia de caras enfarruscadas suplicam tímida e silenciosamente.
— Um Grande Festival do Chocolate. — Pondero a ideia. Dentro de um mês os lilases estarão a florir. Faço sempre um cesto para Anouk, com um ovo e o nome dela escrito na pratinha. Podia ser o nosso próprio Carnaval, para celebrar a nossa aceitação neste lugar. A ideia não me é nova mas ouvi-la desta criança é quase como sentir a sua realidade.
— Precisamos de alguns cartazes. — Finjo hesitar.
— Nós fazemo-los! — Anouk é a primeira a sugerir, o rosto vivo de excitação.
— E bandeiras... panos...
— Serpentinas...
— E um Jesus de chocolate na cruz com...
— O Papa em chocolate branco...
— Cordeirinhos de chocolate...
— Concursos de ovos, caçadas ao tesouro...
— Convidamos toda a gente, vai ser...
— Cool!
— Tão cool...
Estendo os braços a pedir silêncio, rindo-me. Um arabesco de chocolate em pó amargo sucede ao meu gesto.
— Vocês fazem os cartazes — disse-lhes. — O resto fica por minha conta.
Anouk salta sobre mim, de braços abertos. Cheira a sal e chuva, um cheiro a cobre e solo e vegetação alagada. O emaranhado do seu cabelo está guarnecido de gotículas.
— Venham para o meu quarto! — gritou ela ao meu ouvido. — Podem, não podem, mamã? Diz que sim! Podemos começar já, eu tenho papel, lápis de cor...
— Podem — disse eu.
Uma hora depois a montra já estava embelezada por um grande cartaz — desenho de Anouk, executado por Jeannot. O texto, em grandes letras verdes tremidas, dizia:
GRANDE FESTIVAL DO CHOCOLATE
EM LA CELESTE PRALINE
COMECA DOMINGO DE PÁSCOA
TODOS BEM-VINDOS
!!! COMPREM ANTES QUE O STOCK ACABE!!!
Em redor do texto cabriolavam várias criaturas de aspecto extravagante. Uma figura de túnica e coroa alta que eu deduzi ser o Papa. Recortes de sinos tinham sido colados toscamente aos seus pés. Todos os sinos sorriam.
Passei grande parte da tarde a preparar a nova fornada de cobertura e a tratar da montra. Uma base de papel de seda verde para a relva. Flores de papel — narcisos e margaridas, a contribuição de Anouk — pregadas moldura da montra. Latas que em tempos guardaram cacau em pó agora revestidas de verde e encostadas umas às outras para fazerem uma serra escarpada; o celofane enrugado envolve-a como uma cobertura de gelo. Sob a serra e serpenteando até ao vale, um rio de fita de seda azul sobre o qual um molho de barcos-casa se aloja quieto e sem reflexos. E abaixo uma procissão de figuras de chocolate, gatos, cães, coelhos, alguns com olhos de passas, orelhas de maçapão cor-de-rosa, caudas feitas de creme de alcaçuz com flores de açúcar presas entre os dentes... E ratos. Em todas as superfícies possíveis, ratos. Trepando pelas encostas dos montes, aninhando-se nas esquinas, até nos barcos-casa. Ratos de açúcar de coco cor-de-rosa e brancos, ratos de chocolate de todas as cores, ratos variados marmorizados com trufa e creme marasquino, ratos suavemente coloridos, ratos cobertos de açúcar. E, acima deles, o Flautista Mágico, resplandecente de vermelho e amarelo, com uma flauta de açúcar de cevada numa mão e o chapéu na outra. Tenho centenas de formas na cozinha, umas finas de plástico para os ovos e as figuras, outras de cerâmica para os camafeus e chocolates de licor. Com elas posso recriar qualquer expressão facial e aplicá-la numa concha oca, acrescentando cabelo e pormenores com um estreito tubo-manómetro, moldando o tronco e os membros em peças separadas e aplicando-as no lugar com fios e chocolate derretido... Uma pequena camuflagem — uma capa vermelha, feita de maçapão. Uma túnica, um chapéu do mesmo material, uma pena longa varrendo o chão aos seus pés calçados com botas. O meu Flautista Mágico parece-se um bocadinho com Roux com o seu cabelo ruivo e trajo multicor.
Não consigo conter-me: a montra é suficientemente convidativa, mas não resisto à tentação de a dourar um bocadinho, fechando os olhos, para iluminar tudo com um brilho dourado de boas-vindas. Um letreiro imaginário que faísca como um farol — VENHAM A MIM. Quero dar, tornar as pessoas felizes: certamente que não há mal nenhum nisso. Apercebo-me de que estas boas-vindas podem ser uma resposta à hostilidade de Caroline para com os itinerantes mas, na alegria do momento, não vejo mal nenhum nisso. Quero que eles venham. Vi-os de relance de vez em quando desde a última vez que falámos, mas eles parecem desconfiados e furtivos, como raposas urbanas, prestes a varrerem tudo à sua passagem, não desejando que alguém chegue perto. Principalmente, vejo Roux, o embaixador deles, carregando caixas ou sacos de plástico com mercearia; às vezes Zézette, a rapariga magra com a argola na sobrancelha. Ontem à noite duas crianças tentaram vender alfazema no adro da igreja mas Reynaud mandou-as embora. Tentei chamá-las mas elas estavam demasiado desconfiadas, olhando-me de esguelha e com hostilidade antes de largarem a correr pelo monte abaixo até Les Marauds.
De tão absorta nos meus planos e no arranjo da montra, perdi a noção do tempo. Anouk fez sandes para os amigos na cozinha, depois desapareceram todos em direcção ao rio. Liguei o rádio e cantei para mim enquanto trabalhava, dispondo cuidadosamente os chocolates em pirâmides. A montanha mágica abre-se para revelar um espantoso recheio, um breve vislumbre de riquezas: montes multicores de cristais de açúcar, frutas cristalizadas e doces que cintilam como pedras preciosas. Atrás, e protegidos da luz pelas prateleiras escondidas, estão os artigos para venda. Tenho de começar a fazer os artigos de Páscoa daqui a pouco, prevendo consumo extra. Ainda bem que há espaço de armazenagem na cave fresca da casa. Tenho de encomendar caixas para oferta, fitas, celofane e enfeites. De tão absorta, mal ouvi Armande entrar pela porta semiaberta.
— Olá — disse ela no seu jeito brusco. — Vinha tomar um dos seus chocolates quentes especiais, mas vejo que está ocupada.
Saí cuidadosamente da montra.
— Não, claro que não — disse eu. — Estava à sua espera. Além do mais, já quase acabei e as minhas costas estão a dar cabo de mim.
— Bem, se não é incómodo... — O seu jeito era diferente hoje. Havia uma espécie de aspereza na sua voz, uma casualidade estudada que mascarava um elevado grau de tensão. Trazia um chapéu de palha preto com uma fita e um casaco, também preto, que parecia novo.
— Está muito chique hoje — observei.
Ela deu uma gargalhada seca.
— Há muito que ninguém me dizia tal coisa, pode crer — disse ela, espetando um dedo num dos bancos. — Acha que eu consigo subir para aqui sem partir uma perna?
— Eu trago-lhe uma cadeira da cozinha — sugeri, mas a velhinha deteve-me com um gesto imperioso.
— Disparate! — Mirou o banco. — Eu era uma boa trepadora quando era nova. Alçou as saias compridas, mostrando botas robustas e meias cinzentas com borbotos. — Árvores principalmente. Costumava trepar às árvores e atirar galhos às cabeças de quem passava. Ah! — Um grunhido de satisfação ao alçar-se para cima do banco, agarrando-se ao balcão para ter apoio. Notei um súbito e alarmante remoinho escarlate sob a sua saia preta.
Armande empoleirada no banco, parecendo absurdamente satisfeita consigo própria. Alisou com todo o cuidado as saias, cobrindo de novo o brilho escarlate da combinação.
— A seda vermelha desbota — sorriu ironicamente vendo o meu olhar. — Se calhar acha-me uma velha tonta mas eu gosto delas. Ando de luto há tantos anos. Parece que de cada vez que eu posso usar cores decentes mais alguém morre, e por isso desisti de usar seja o que for além de preto. — Lançou-me um olhar borbulhando de riso. — Mas roupa interior, isso já é outra coisa. — Baixou a voz em tom conspiratório. — Encomenda postal de Paris — disse. — Custa uma fortuna. — Balançava-se num riso silencioso do alto do seu poleiro. — Então, e o tal chocolate?
Fi-lo forte e preto e, tendo em conta a sua diabetes, acrescentei-lhe o mínimo de açúcar possível. Armande viu a minha hesitação e apontou um dedo acusador para a chávena.
— Nada de racionamento! — ordenou. — Sirva-me com tudo. Lascas de chocolate, uma dessas coisas de mexer de açúcar, tudo. Não comece a ficar como os outros, a tratar-me como se eu não soubesse tomar conta de mim mesma. Acha-me com ar senil?
Admiti que não.
— Pois então — Bebericou a mistura forte e doce com visível satisfação. — Bom. Mmm. Muito bom. Dá energia, não dá? isso que lhe chamam, um estimulante?
Acenei que sim.
— Um afrodisíaco também, já ouvi — acrescentou Armande maliciosamente, espreitando-me por cima do bordo da sua chávena. — Aqueles velhotes lá em baixo no café faziam melhor em pôr-se a pau. Nunca se é demasiado velho para se divertir! — Grasnou uma gargalhada estridente. Parecia estridente e agitada, com as mãos rudes trémulas. Levou várias vezes a mão a aba do chapéu como que para o ajustar.
Olhei para o meu relógio debaixo do balcão mas ela viu o meu movimento.
— Não esteja a espera que ele apareça — disse ela de imediato. — Aquele meu neto. De resto, eu também não estou a espera dele. — Cada um dos seus gestos desmentia as suas palavras. Os tendões no pescoço estavam salientes como os de uma antiga bailarina.
Conversámos durante um pedaço sobre banalidades: a ideia das crianças acerca do festival de chocolate — Armande torceu-se de riso quando lhe contei de Jesus e do Papa de chocolate branco —, os ciganos do rio. Ao que parece, a própria Armande encomendou a mercearia para eles, em nome dela, para grande indignação de Reynaud. Roux ofereceu-se para lhe pagar em dinheiro mas ela prefere que eles lhe arranjem o telhado da sua casa, que verte.
— Isto vai deixar Georges Clairmont furioso — revelou ela com um esgar endiabrado. — Ele gosta de pensar que é o único que me pode ajudar — disse ela com satisfação. — Tão mau um como o outro, ambos a cacarejar sobre aluimento e humidade. O que eles querem é ver-me fora daquela casa, essa é que é a verdade. Fora da minha linda casinha e enfiada numa porcaria de um lar de velhos onde é preciso pedir licença para ir a casa de banho! — Estava indignada, com os olhos pretos a pestanejar.
— Bem, hão-de ver — declarou ela. — Roux trabalhava na construção antes de ir viver para o rio. Ele e os amigos hão-de fazer um bom serviço naquilo. E eu prefiro pagar-lhes a eles para fazerem o serviço do que ter aquele imbecil a fazê-lo de graça.
Ajustou a aba do chapéu com mãos trémulas.
— Não estou à espera dele, sabe.
Eu sabia que não se referia à mesma pessoa. Olhei para o relógio: quatro e vinte. Já começava a escurecer. E contudo eu tinha tido tanta certeza... É no que dá interferir, acusei-me furiosamente. Tão fácil infligir dor aos outros, a mim própria.
— Eu nunca pensei que ele viesse — continuou Armande naquela voz arisca e determinada. — Ela tratou bem do assunto. Ensinou-o bem, lá isso ensinou. — Começou a tentar descer do poleiro. — Já lhe tirei muito tempo — disse. — Devem ser...
— M-Mémée.
Ela vira-se tão abruptamente que tenho a certeza que vai cair. O rapaz está calado, de pé junto porta. Traz jeans e uma sweatshirt azul-marinho. Tem um boné de beisebol. Na mão traz um livrinho de capa dura já gasto. A voz é suave e tímida.
— Tive de es-esperar até a minha m-mãe sair. Foi ao ca-cabeleireiro. Só volta às s-seis.
Armande olha-o. Não se tocam mas sinto algo passar entre eles como um jacto de electricidade. Demasiado complexo para eu analisar, mas há nele calor e raiva, embaraço, culpa — e, por trás de tudo, a promessa de suavidade.
— Pareces encharcado. Vou preparar-te uma bebida — sugiro, indo para a cozinha. Ao sair, ouço de novo a voz do rapaz, baixa e hesitante.
— Obrigada pelo 1-livro — diz ele. — Tenho-o aqui comigo. — Mostra-o como uma bandeira. Já não está novo mas gasto, livro lido e relido longa e carinhosamente. Armande regista isto e o olhar fixo desaparece do seu rosto.
— Lê-me o teu poema preferido — diz ela.
Da cozinha, enquanto verto chocolate em dois copos altos, enquanto bato natas e kahlua, enquanto faço barulho suficiente com tachos e garrafas para lhes dar a ilusão de privacidade, ougo a voz dele elevar-se, empolada no início, depois ganhando ritmo e confiança. Não consigo distinguir as palavras mas, k distancia, parece prece ou invectiva. Reparo que ao ler não gagueja.
Coloco os dois copos em cima do balcão. Quando entro, o rapaz interrompe-se a meio da frase e olha-me com desconfiança bem-educada, com o cabelo caindo-lhe sobre os olhos como a crina de um pónei tímido. Agradece-me com escrupulosa cortesia e beberica a sua bebida com mais desconfiança do que prazer.
— Não devo beber d-disto — diz ele com ar duvidoso. — A minha mãe d-diz que o ch-chocolate me faz borbulhas.
— E a mim pode-me matar de um só trago — diz Armande, expedita. Riu-se da expressão dele.
— Vá lá, rapaz, nunca duvidas do que a tua mãe diz? Ou ela fez-te tal lavagem ao cérebro que te tirou todo o bom senso que possas ter herdado de mim? — Luc pareceu desorientado.
— Eu... É só que ela d-diz... — repetiu debilmente.
Armande abanou a cabeça.
— Bem, se eu quiser saber o que a Caro diz, marco entrevista — disse ela. — E tu, o que é que tu tens a dizer? És um rapaz esperto, ou eras. O que é que tu achas?
Luc bebericou de novo.
— Acho que ela pode ter exagerado um bocadinho — disse, com um pequeno sorriso. — A avó parece-me bem.
— E sem borbulhas — disse Armande.
Surpreendido, riu-se. Gostei mais dele assim, os olhos cintilando com um verde mais brilhante, o seu sorriso malandro espantosamente parecido com o da avó. Continuava defensivo mas, por trás da sua profunda reserva, comecei a vislumbrar uma inteligência pronta e um sentido de humor arguto.
Terminou o seu chocolate quente mas recusou uma fatia de bolo, embora Armande comesse duas. Durante a meia hora seguinte conversaram enquanto eu fingi tratar das minhas coisas. Uma ou duas vezes dei com ele a olhar-me com uma curiosidade prudente, o contacto trémulo entre nós quebrando-se mal acontecia. Deixei-os à vontade.
Eram cinco e meia quando o rapaz se despediu. Não falaram de novo encontro mas o ar casual da despedida sugeria que ambos tinham a mesma coisa em mente. Surpreendeu-me um pouco vê-los tão parecidos, rodeando-se mutuamente com a cautela de amigos que se reúnem após longos anos de separação. Têm ambos os mesmos maneirismos, o mesmo modo directo de olhar, as maçãs do rosto inclinadas, o queixo fino. Quando as feições dele estão em descanso, esta parecença é parcialmente obscurecida, mas a animação torna-o mais parecido com ela, apagando dele aquele ar de branda delicadeza que ela abomina. Os olhos de Armande brilham sob a aba do seu chapéu. Luc parece quase relaxado, a gaguez reduzida a uma ligeira hesitação que mal se nota. Vejo-o parar à porta, perguntando-se talvez se deverá dar-lhe um beijo. Nesta altura, a sua repulsa adolescente do contacto físico é ainda muito forte. Ergue uma mão num gesto tímido de despedida e desaparece.
Armande vira-se para mim, impante de triunfo. Por um instante, o seu rosto está nu no seu amor, esperança e orgulho. Depois, a reserva que tem em comum com o neto regressa, um olhar de casualidade forçada, uma nota rude na sua voz quando diz:
— Gostei, Vianne. Talvez volte cá. Depois lança-me um dos seus olhares directos, estendendo uma mão para me tocar no braço. — Foi você que o trouxe aqui — disse ela. — Eu não teria sabido fazê-lo por mim.
Encolhi os ombros.
— Havia de acontecer mais tarde ou mais cedo — disse eu. — O Luc já não é uma criança. Tem de aprender a fazer as coisas à sua maneira.
Armande abanou a cabeça.
— Não, foi você — repetiu-me teimosamente. Estava suficientemente perto para eu lhe sentir o perfume a lírios-do-vale. — O vento mudou desde que você chegou. Ainda o sinto. Toda a gente o sente. Tudo está a mudar. Iupi! — Deu um gritinho de alegria.
— Mas eu não faço nada — protestei, quase a rir com ela. — Eu só trato da minha vida. Da minha loja. Sou apenas eu. — Apesar do meu riso, sentia-me constrangida.
— Não faz mal — respondeu Armande. — Mesmo assim, é você que faz isso. Repare em tudo o que está a mudar: eu, Luc, Caro, a gente do rio... — inclinou a cabeça em direcção a Les Marauds — ...até ele na sua torre de marfim do outro lado da praça. Todos estamos a mudar. A acelerar. Como um relógio velho a que finalmente se dá corda ao cabo de anos e anos a dar a mesma hora.
Parecia-se demasiado com os meus próprios pensamentos da semana anterior. Abanei a cabeça enfaticamente.
— Não sou eu — protestei. — É ele. Reynaud. Não eu.
Uma imagem súbita veio-me à cabeça, como uma carta que se vira. O Homem de Preto na sua torre do relógio, girando a maquinaria cada vez mais depressa, tocando a mudanças, tocando a rebate, tocando-nos embora da cidade... E, a par dessa imagem, veio a de um velho na cama, com tubos no nariz e nos braços, e o Homem de Preto de pé sobre ele em sofrimento ou triunfo, enquanto atrás de si o fogo ardia...
— Será o pai dele? — disse as primeiras palavras que me vieram à mente. — Quero dizer, o velho que ele visita. No hospital. Quem é?
Armande lançou-me um olhar incisivo de surpresa.
— Como é que sabe disso?
— As vezes tenho... sensações... acerca das pessoas. — Por qualquer razão, tinha relutância em admitir bolas de cristal por entre o chocolate, relutante em utilizar a terminologia do familiar graças ã. minha mãe.
— Sensações. — Armande pareceu curiosa mas não fez mais perguntas.
— Então, há um velho, é isso? — Eu não conseguia deixar de pensar que tropeçara em qualquer coisa importante. Qualquer arma, talvez, na minha luta secreta contra Reynaud.
— Quem é? — insisti.
Armande encolheu os ombros.
— Um outro padre — disse com uma superioridade desdenhosa, e mais não disse.
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