Chocolate
Capítulo 11
Quinta-feira, 20 de Fevereiro
E stava á. espera dela. Casaco de xadrez, cabelo apanhado atrás num
estilo que pouco a favorecia, mãos destras e nervosas como as de um
atirador. Joséphine Muscat, a senhora do Carnaval. Esperou que os meus clientes habituais — Guillaume, Georges e Narcisse — saíssem, entrando então, com as mãos bem enterradas nos bolsos.
— Chocolate quente, por favor. — Sentou-se confortavelmente ao balcão, falando para os copos vazios que eu ainda não tivera tempo de arrumar.
— Com certeza. — Não lhe perguntei como o queria tomar, mas trouxe-lho com lascas de chocolate e chantili, ladeado por dois caramelos. Por um momento, ela olhou o copo com olhos semicerrados, depois tocou-o com cautela.
— No outro dia — disse, com casualidade forçada. — Esqueci-me de pagar uma coisa. — Tem dedos compridos, estranhamente delicados apesar das calosidades nas pontas. Quando em repouso, o seu rosto parece perder algo da sua expressão consternada, tornando-se quase atraente. O cabelo é castanho claro, os olhos dourados. — Lamento. — Atira a moeda de dez francos sobre o balcão numa espécie de desafio.
— Tudo bem. — Falei num tom casual, desinteressado. — Acontece. — Joséphine olhou-me por um segundo, desconfiada; depois, não sentindo malícia na voz, descontraiu-se um pouco. — Está bom. — Bebericando o chocolate. — Mesmo bom.
— Fui eu mesma que o fiz — expliquei. — De licor de chocolate antes de lhe ser adicionada gordura para o fazer solidificar. Era exactamente assim que os aztecas bebiam chocolate, há muitos séculos.
Ela lançou-me novo olhar rápido e desconfiado.
— Obrigada pelo presente — disse ela por fim. — Amêndoas de chocolate. As minhas preferidas. — Depois, rapidamente, as palavras jorradas numa catadupa desesperada e desajeitada: — Não as tirei de propósito. Elas já devem ter falado de mim, sabe. Mas eu não roubo. São elas... — desdenhosa agora, a boca revirada para baixo de raiva e ódio de si própria — ...a filha da mãe da Clairmont e as suas amiguinhas. Mentirosas.
Olhou-me outra vez, com um ar quase desafiador.
— Ouvi dizer que você não vai a igreja. — A sua voz era estridente, demasiado alta para a lojinha pequena e nós as duas.
Sorri: — verdade. Não vou.
— Não se vai aguentar muito tempo por aqui se não for — disse Joséphine na mesma voz alta e vítrea. — Eles correm consigo daqui da mesma maneira que fazem com todos aqueles que desaprovam. Vai ver. Isto tudo... — um gesto vago e brusco na direcção das prateleiras, das caixas, da montra com as suas pièces montées — ...nada disto a vai ajudar. Já os ouvi falar, sei o que dizem.
— Também eu. — Servi-me de chocolate da cafeteira de prata. Curto e preto, como café expresso, com uma colher de chocolate para o mexer. A minha voz era gentil. — Mas não tenho que os ouvir. — Uma pausa para bebericar. — Nem você.
Joséphine riu-se.
O silêncio rodopiou entre nós. Cinco segundos. Dez.
— Dizem que é uma bruxa. — Outra vez aquela palavra. Ergueu a cabeça em desafio. — ?
Encolhi os ombros, bebendo.
— Quem diz?
— Joline Drou. Caroline Clairmont. As beatas do Curé Reynaud. Ouvi-as falar no adro de St. Jérôme. A sua filha estava a contar as outras crianças. Qualquer coisa sobre espíritos. — Na sua voz, havia curiosidade e uma hostilidade latente e relutante que eu não compreendi.
— Espíritos! — gritou ela.
Desenhei o contorno turvo de uma espiral até aos bordos amarelos do meu copo.
— Julgava que não se importava com o que elas dizem.
— Sou curiosa. — Novamente aquele tom de desafio, como medo de que gostem de si. — E você estava a falar com a Armande no outro dia. Ninguém fala com a Armande. A não ser eu.
Armande Voizin. A velhinha de Les Marauds.
— Gosto dela — disse simplesmente. — Por que é que não havia de falar com ela?
Joséphine cerrou os punhos sobre o balcão. Parecia agitada, a voz estalando como vidro gelado. — Porque ela é doida, é isso! — Agitou os dedos junto às têmporas num gesto vagamente indicativo. — Doida, doida, doida. — Baixou a voz por um momento. — Digo-lhe-uma coisa — disse ela. — Há um risco em Lansquenet — ilustrando no balcão com um dedo calejado — e mulher que o pise, que não vá à confissão, que não respeite o marido, que não prepare três refeições por dia e se sente à lareira a pensar pensamentos decentes e à espera que ele chegue a casa, que não tenha filhos e não leve coroas de flores ao funeral dos amigos ou aspire a entrada de casa ou cave os canteiros!... — Um rubor subiu-lhe às faces devido ao esforço de falar. A sua raiva era intensa, enorme. — Então é porque é maluca! — cuspiu ela. — É maluca, é anormal e as pessoas... falam... de... nas costas dela e... e... e...
Calou-se, com uma expressão angustiada escapando-se-lhe do rosto. Reparei como ela olhava a janela por trás de mim, mas o reflexo no vidro era o suficiente para obscurecer o que quer que ela visse. Era como se uma persiana se tivesse fechado sobre o seu rosto, inexpressivo, dissimulado e desesperado.
— Desculpe. Eu às vezes tenho o coração ao pé da boca. — Engoliu o último gole de chocolate quente. — Eu não devia falar consigo. Você não devia falar comigo. Assim como assim, já vai ser mau que baste.
— É isso que Armande diz? — perguntei com gentileza.
— Tenho que ir. — Os seus pulsos cerrados batiam uma vez mais no peito no gesto recriminatório que parecia ser tão característico nela. — Tenho que ir. — O ar de consternação voltou-lhe ao rosto, os lábios descaídos e a boca aberta em tal pânico que parecia quase apatetada... E contudo, a mulher atormentada de raiva que há pouco falara estava longe disso. O que — quem — vira ela para a fazer reagir assim? Quando saiu de LA PRALINE, cabisbaixa frente a uma tempestade imaginária, abeirei-me da janela para a observar. Ninguém se aproximava dela. Ninguém parecia olhar na direcção dela. Foi então que reparei em Reynaud, de pé sob o arco do pórtico da igreja. Reynaud e um homem calvo que não reconheci. Ambos olhavam fixamente a montra de LA PRALINE.
Reynaud? Seria ele a razão do medo dela? A ideia de que tivesse sido ele a advertir Josephine contra mim incomodou-me. E contudo, ela parecia desdenhosa, e não temerosa, quando falou dele há pouco. O segundo homem era baixo mas forte: camisa de xadrez de mangas arregaçadas sobre braços vermelhos e lustrosos, óculos pequenos de intelectual contrastando estranhamente com as suas feições grosseiras e carnudas. Havia nele um ar de hostilidade difusa, até que percebi que já o vira antes. De barba branca e capa vermelha, agitando guloseimas para a multidão. No Carnaval. O Pai Natal, atirando bombons à multidão como se esperasse poder assim arrancar o olho de alguém. Nesse instante, um grupo de crianças encostou-se à montra e eu não consegui ver mais, embora julgasse saber por que razão Joséphine fugira com tanta pressa.
— Lucie, estás a ver aquele senhor na praça? Aquele de camisa vermelha? Quem é ele? — A menina fez um ar infeliz. Ratinhos de chocolate branco são a sua maior fraqueza: cinco por dez francos. Enfio mais uns dois no cartucho de papel.
— Sabes quem é, não sabes?
Ela acena que sim.
— Monsieur Muscat. Do café. — Conheço: um lugarzinho lúgubre ao fundo da Avenue des Francs Bourgeois. Meia dúzia de mesas de metal no passeio, um guarda-sol desbotado de Laranjina. Um letreiro antigo identifica-o: CAFÉ DE LA REPUBLIQUE. Agarrada ao seu cartucho de doces, a menina dá meia volta para ir embora, reconsidera e torna a voltar-se. — Nunca há-de adivinhar a preferência dele — diz ela. — Ele não tem nenhuma.
— Custa-me a crer — sorrio eu. — Toda a gente tem uma preferência qualquer. Até Monsieur Muscat.
Lucie pondera por um momento.
— Talvez a preferência dele seja aquilo que ele tira a outra pessoa — diz limpidamente. Depois desaparece, dizendo adeus do outro lado da montra.
— Diga à Anouk que nós vamos para Les Marauds depois da escola!
— Digo sim. — Les Marauds. O que será que os entretém ali? O rio com as suas margens castanhas e malcheirosas. As ruelas cheias de lixo. Um oásis para as crianças. Cavernas, seixos lisos lançados rente à água estagnada. Segredos sussurrados, espadas e escudos feitos de folhas de ruibarbo. Guerra entre o emaranhado de silvas e amoras silvestres, túneis, exploradores, cães vadios, rumores, tesouros roubados... Anouk regressou da escola ontem com maior desenvoltura no andar e um desenho que fizera para mim.
— Esta sou eu. — Uma figura em fato-macaco vermelho coroado por um rabisco de cabelo preto. — Pantoufle. — O coelhito está empoleirado no ombro dela como um papagaio de orelhas arrebitadas. — E Jeannot. — Uma figura de rapaz vestido de verde, com uma mão estendida. Ambas as crianças sorriem. Ao que parece as mães — mesmo as mães professoras — estão proibidas em Les Marauds. A figura de plasticina continua sentada ao lado da cama de Anouk e ela afixou o desenho na parede acima.
— Pantoufle disse-me o que havia de fazer. — Pega nele e abraça-o casualmente. A esta luz consigo vê-lo perfeitamente, qual criança peluda. Por vezes digo a mim mesma que devia desencorajar esta fantasia dela, mas não suporto infligir-lhe tamanha solidão. Talvez, se ficarmos aqui, Pantoufle possa abrir-lhe o caminho para mais companheiros de brincadeira.
— Fico contente que vocês tenham conseguido continuar amigos — disse-lhe eu, dando um beijo no cocuruto da sua cabeleira encaracolada. — Pergunta ao Jeannot se ele quer vir até cá um destes dias para ajudar a desfazer a montra. Também podes trazer os outros teus amigos.
— A casa de biscoito de gengibre? — Os olhos dela luziam como sol na água. — Ah sim! — Saltitando pela loja fora com súbita exuberância, quase deitando abaixo um banco, saltando sobre um obstáculo imaginário com um salto de gigante, depois pelas escadas acima a três e três. — Vou caçar-te, Pantoufle! — Uma pancada ao bater a porta contra a parede — bam-bam! Um golpe súbito e doce de amor por ela, apanhando-me desprevenida como sempre. A minha pequenina estranha. Nunca quieta, nunca calada.
Servi-me novamente de chocolate quente, virando-me ao ouvir os sininhos da porta a tilintar. Por um instante vi a sua face desprevenida, o olhar avaliador, o queixo apontado para fora, os ombros quadrados, as veias latejando nos braços nus e lustrosos. Depois sorriu, um sorriso fino sem calor.
— Monsieur Muscat, não é? — Interroguei-me sobre o que quereria ele. Parecia deslocado, olhando de esguelha e cabisbaixo os expositores. O seu olhar deteve-se antes da minha cara, relanceando casualmente os meus seios: uma, duas vezes.
— O que é que ela queria? — A sua voz era suave mas com um sotaque forte. Abanou a cabeça uma vez, como que descrente. — Que diabo pretendia ela num lugar como este? — Apontava para um tabuleiro de amêndoas cobertas a cinquenta francos o pacote. — Este tipo de coisa, hã? — Apelou na minha direcção, de mãos estendidas. — Casamentos e baptizados. O que é que ela tem a ver com coisas para casamentos e baptizados? — Sorriu de novo. Adulador agora, tentando o seu charme e falhando. — O que é que ela comprou?
— Deduzo que se refere a Joséphine.
— A minha mulher. — Deu às palavras uma entoação estranha, uma espécie de tom definitivo. — É, para isso que servem as mulheres. Esfalfa-se um homem a trabalhar para viver e o que é que elas fazem, hã? Gastam-no todo em... — Outro gesto na direcção de filas de figuras de chocolate, grinaldas de maçapão, papel prateado, flores de seda. — O que foi, um presente? — Havia desconfiança na sua voz. — Para quem é que ela anda a comprar prendas ? Para ela? — Deu uma risada seca como se achasse a ideia ridícula.
Não achei que isso fosse da sua conta. Mas havia uma espécie de agressividade nos seus modos, um nervosismo a volta dos olhos e nos gestos das mãos, que me levou a ser prudente. Não por mim — aprendi muitas maneiras de tomar conta de mim durante os anos que vivi com a minha mãe — mas por ela. Antes que eu pudesse evitá-lo, uma imagem passou dele para mim: um nó dos dedos ensanguentado gravado a fumo. Cerrei os punhos sob o balcão. Neste homem não havia nada que eu quisesse ver.
— Acho que percebeu mal — disse-lhe eu. — Eu convidei Joséphine para um chocolate quente. Como amiga.
— Oh! — Pareceu surpreendido por momentos. Depois deu mais uma gargalhada-latido. Agora foi quase genuíno, verdadeiro divertimento com um toque de desdém. — Você quer ser amiga da Joséphine? — De novo o olhar avaliador. Senti-o a comparar-nos, os seus olhos excitados fixando logo os meus seios sobre o balcão. Quando voltou a falar, foi com uma carícia na voz, uma toada do que ele imaginava ser sedução.
— E nova aqui, não é?
Acenei que sim.
— Talvez nos possamos encontrar um destes dias. Sabe, para nos conhecermos.
— Talvez. — No meu tom mais casual. — Talvez possa convidar também a sua mulher — acrescentei suavemente.
Um compasso de tempo. Olhou-me de novo, desta vez com um relance avaliador de desconfiança dissimulada.
— Ela não andou a dizer nada, pois não?
Inexpressivamente: — Que tipo de coisa?
Um rápido abanão de cabeça.
— Nada. Nada. Ela fala muito, é só isso. Não faz mais senão falar. Nada mais, hã? Dia sim, dia não. — De novo, a gargalhada curta e triste. — Não tarda muito a descobrir — acrescentou com satisfação amarga.
Murmurei qualquer coisa não comprometedora. Depois, num impulso, peguei num pequeno pacote de amêndoas cobertas de debaixo do balcão e estendi-lhas.
— Talvez possa entregá-las a Joséphine da minha parte — disse ligeiramente. — Eu ia dar-lhas mas esqueci-me.
Ele olhou-me mas não se mexeu.
— Dar-lhas? — repetiu.
— Oferta. Da casa. — Mostrei o meu sorriso mais insinuante. — Um presente.
O sorriso dele aumentou. Pegou nos chocolates dentro do seu bonito saquinho prateado.
— Pode estar descansada — disse, amarfanhando o pacote no bolso dos seus jeans.
— São os preferidos dela — disse-lhe.
— Não vai longe no negócio se passar a vida a fazer ofertas — disse ele com indulgência. — Dá cabo do negócio num mês. — De novo o olhar duro e guloso, como se também eu fosse um chocolate que ele estava ansioso por desembrulhar.
— Vamos a ver — disse eu maliciosamente, enquanto o observava a sair da loja e a encaminhar-se para casa, ombros curvados numa versão grosseira de um andar à James Dean. Não esperou sequer afastar-se o suficiente do alcance da minha vista para tirar o pacote dos chocolates de Joséphine e abri-lo. Talvez suspeitasse que eu o via. Um, dois, três: a sua mão ia à boca com uma regularidade preguiçosa e, antes ainda de atravessar a praça, o embrulho prateado já estava amarfanhado no punho fechado e os chocolates comidos. Imaginei-o a sorvê-los como um cão guloso que quer acabar a sua própria comida antes de ir roubar o prato de outro. Ao passar pela padaria, atirou a bola prateada para o caixote do lixo mas falhou, fazendo-a ressaltar na borda e cair no lajedo. Depois continuou o seu caminho pela Avenue des Francs Bourgeois sem olhar para trás, as suas botas de engenheiro fazendo faiscar o empedrado macio sob os pés.
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