Chocolate
Capítulo 18
Sábado, 1 de Março
Q barco de Roux é o mais próximo da margem, ancorado a alguma
distância dos restantes, em frente da casa de Armande. Hoje à noite
tinham pendurado lanternas de papel na proa, qual fruta reluzente e, ao encaminharmo-nos para Les Marauds, sentimos o cheiro forte a grelhados na margem do rio. As janelas de Armande estavam escancaradas sobre o rio e a luz vinda da casa projectava desenhos irregulares na água. Espantou-me a ausência de lixo, o cuidado com que todo o tipo de detritos fora colocado em bidões de aço para ser queimado. De um dos barcos a jusante do rio chegava o som de guitarra. Roux estava sentado no molhezito olhando a água. Um pequeno grupo de pessoas já se lhe juntara e eu reconheci Zézette, uma outra rapariga chamada Blanche e um norte-africano, Ahmed. Ao lado deles havia qualquer coisa a cozer num fogareiro a carvão.
Anouk correu de imediato para o fogo. Ouvi Zézette adverti-la com voz suave:
— Cuidado, pequerrucha, é quente.
Blanche estendeu-me uma caneca de vinho quente com especiarias e eu aceitei-a com um sorriso.
— Veja o que acha disto.
A bebida era quente e forte, com limão e noz-moscada, tão forte que queimava a garganta. Pela primeira vez em semanas a noite estava límpida e a nossa respiração projectava espirais pálidas no ar parado. Uma neblina fina pairava sobre o rio, iluminado aqui e ali pelas luzes dos barcos.
— Pantoufle também quer — disse Anouk, apontando para o tacho com vinho quente. Roux sorriu.
— Pantoufle?
— O coelho de Anouk — disse-lhe eu rapidamente — O amigo... imaginário dela.
— Não sei se o Pantoufle ia gostar muito disto — disse-lhe ele. — Talvez ele prefira sumo de maçã?
— Vou perguntar-lhe — disse Anouk.
Roux parecia algo diferente aqui, mais relaxado, recortado contra o fogo enquanto inspeccionava o seu cozinhado. Lembro-me de ver caranguejo do rio, descascado e grelhado sobre as brasas, sardinhas, milho-doce, batata-doce, maçãs caramelizadas passadas por açúcar e fritas em manteiga, panquecas espessas e mel. Comemos com as mãos dos nossos pratos de alumínio e bebemos cidra e mais vinho quente. Algumas das crianças juntaram-se a Anouk num jogo beira-rio. Armande juntou-se a nós, estendendo as mãos sobre o fogareiro para as aquecer.
— Se eu fosse mais nova — suspirou ela. — Não me importava de ter isto todas as noites... — Lançou a Roux um olhar malicioso. — Acho que vou fugir consigo — declarou. — Sempre tive um fraquinho por ruivos. Posso estar velha, mas aposto que ainda podia ensinar-lhe alguma coisa.
Roux sorriu. Esta noite não havia nele qualquer vestígio de timidez. Estava bem disposto, enchendo e tornando a encher as canecas com vinho e cidra, comovidamente satisfeito por ser o anfitrião. Namoriscou com Ar-mande, lançando-lhe piropos extravagantes e fazendo-a chorar de riso. Ensinou Anouk a atirar pedras rente água. Finalmente mostrou-nos o seu barco, cuidadosamente arrumado e limpo, a minúscula cozinha, a despensa com o seu reservatório de água e mantimentos, a área de dormir com o seu telhado em fibra de vidro.
— Era uma autêntica sucata quando o comprei — contou ele. — Consertei-o e agora está tão bom como uma casa em terra. — O seu sorriso era um pouco triste, qual homem a confessar um passatempo infantil. — Todo esse trabalho só para agora poder deitar-me na minha cama à noite e ouvir a água e ver as estrelas.
Anouk foi exuberante na sua aprovação.
— Eu gosto — declarou ela. — Gosto muito! E não é uma poça... poça... o que quer que a mãe do Jeannot diz que é.
— Uma pocilga — sugeriu Roux gentilmente. Olhei-o rapidamente mas ele ria-se. — Não, não somos tão maus como muita gente pensa.
— Nós não pensamos que vocês sejam maus! — Anouk estava indignada.
Roux encolheu os ombros.
Depois houve música, uma flauta e um violino e alguns tambores improvisados com latas e baldes do lixo. Anouk juntou-se-lhes com a sua cometa de brincar e as crianças dançaram entusiasticamente e tão perto do rio que foi preciso mandá-las afastarem-se um pouco. Já passava bem das onze quando finalmente viemos embora, com Anouk a cair de cansaço mas a protestar furiosamente.
— Está bem — disse-lhe Roux. — Podes voltar cá quando quiseres.
Agradeci-lhe enquanto pegava em Anouk ao colo.
— São bem-vindas. — Por um instante, o sorriso esmoreceu-lhe ao olhar para o cimo do monte atrás de mim. Uma leve ruga apareceu-lhe no sobrolho.
— Qual é o problema?
— Não sei bem. Talvez nenhum.
Há pouca iluminação pública em Les Marauds. A única existente é a de um candeeiro amarelo em frente do CAFÉ DE LA RÉPUBLIQUE, brilhando gordurosamente sobre a passagem estreita. Depois, a Rue des Francs Bourgeois, alargando-se numa avenida com árvores, bem iluminada. Continuou a observar de sobrolho franzido.
— Julguei ver alguém a descer o monte, só isso. Deve ter sido por efeito da luz. Não está lá ninguém agora.
Peguei em Anouk ao colo pelo monte acima. Atrás de nós, suave música calíope do Carnaval flutuante. Zézette dançava no molhe, recortada contra o fogo que se extinguia, com a sua sombra frenética pulando atrás de si. Ao passarmos pelo CAFÉ DE LA RÉPUBLIQUE, vi que a porta estava escancarada embora todas as luzes estivessem apagadas. Ouvi uma porta fechar-se suavemente lá dentro, como se alguém tivesse estado à espreita, mas podia ser o vento.
OceanofPDF.com