Chocolate

Joanne Harris · Capítulo 13 de 40

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Chocolate

Capítulo 12

Sexta-feira, 21 de Fevereiro

 

O ntem à noite ficou frio. O catavento de St. Jérôme virou e rodopiou

numa indecisão ansiosa durante toda a noite, rangendo

estridentemente contra as suas amarras ferrugentas como se assim alertasse contra os invasores. A manhã começou com um nevoeiro tão cerrado que até a torre da igreja, a vinte passos da montra, parecia distante e espectral, com o sino chamando pesadamente para a missa por entre chumaços de algodão-doce à medida que os primeiros crentes chegavam, de golas subidas contra o nevoeiro e à procura de absolvição.

Quando Anouk acabou de tomar o seu leite da manhã, embrulhei-a no seu casaco vermelho e, apesar dos seus protestos, enfiei-lhe um gorro na cabeça.

— Não queres pequeno-almoço?

Ela abanou a cabeça enfaticamente e agarrou numa maçã de um prato junto ao balcão.

— E o meu beijo?

Isto tornou-se um rito matinal.

Envolvendo-me o pescoço com braços manhosos, lambe-me a cara, afasta-se por entre saltinhos e risinhos, atira um beijo da porta e corre para a praça. Eu finjo-me terrivelmente horrorizada e limpo a cara. Ela ri-se deliciada, deita de fora a língua pequena e afiada e toca cometa: Gosto de ti! — e desaparece como um vapor vermelho por entre o nevoeiro, arrastando a sacola atrás de si. Sei que em trinta segundos o gorro felpudo já terá sido relegado para o fundo da sacola, juntamente com os livros, papéis e outras recordações do mundo adulto. Por um instante, vejo Pantoufle outra vez, saltando no rasto dela, e afasto à pressa a imagem indesejada. Um súbito sentimento de solidão e perda — como é que eu posso enfrentar um dia inteiro sem ela? —, e é com dificuldade que reprimo a vontade de a chamar de volta.

Seis clientes de manhã. Um é Guillaume, no seu regresso do talho com um pedaço de boudin embrulhado em papel.

— Charly gosta de boudin — diz em tom sério. — Ultimamente não tem andado a comer lá muito bem mas tenho a certeza de que vai adorar isto.

— Não se esqueça de que você também tem de comer — lembro-lhe suavemente.

— Claro. — Mostra-me o seu doce sorriso de desculpas. — Como como um cavalo. De verdade. — Olha-me subitamente aflito. — Claro que estamos na Quaresma — diz ele. — Acha que os animais também têm de respeitar o jejum quaresmal? Não, pois não?

Abano a cabeça perante a consternação no seu rosto. Tem um rosto pequeno de feições delicadas. o tipo de homem que parte uma bolacha a meio e guarda metade para mais tarde.

— Acho que vocês os dois precisam de se cuidar mais.

Guillaume coça a orelha de Charly. O cão parece indiferente, muito pouco interessado no conteúdo do embrulho do talho na cesta ao seu lado.

— Vamo-nos cuidando. — O sorriso surge tão pronto como a mentira. — A sério. — Acaba o seu chocolat espresso.

— Estava óptimo — diz como sempre. — Os meus parabéns, Madame Rocher. — Há. muito que deixei de lhe dizer para me tratar por Vianne. O seu sentido de propriedade impede-o. Deixa o dinheiro em cima do balcão, faz uma pequena vénia com o chapéu e abre a porta. Charly põe-se de pé com esforço, cambaleando para um lado. Mal a porta se fecha atrás deles, vejo Guillaume baixar-se para pegar em Charly e levá-lo ao colo.

Ao almoço tive outra visita. Reconheci-a de imediato apesar do disforme sobretudo de homem que ela usa: o rosto de maça encarquilhada sob o chapéu de palha preto, as compridas saias pretas sobre pesadas botas de trabalho.

— Madame Voizin! Disse que passava por aqui, não disse? Deixe-me oferecer-lhe uma bebida. — Olhos brilhantes percorriam aprovadoramente a loja de uma ponta outra. Notei como absorvia tudo. O seu olhar acabou por se deter na ementa de Anouk:

chocolat chaud 10F

chocolat espresso 15F

chococcino 12F

mocha 12F

Acenou em ar de aprovação.

— Há anos que eu não tomo uma coisa destas — disse ela. — Já quase me tinha esquecido de que este tipo de coisas existia. — Há uma energia na sua voz, uma determinação nos seus movimentos, que desmentem a sua idade. A boca tem um trejeito bem-humorado que me lembra a minha mãe. — Eu gostava muito de chocolate — declara.

Enquanto eu lhe servia um copo de mocha, adicionando a espuma um pouco de kahlua, ela inspeccionava os bancos do bar com alguma desconfiança.

— Não está a espera que eu trepe ali para cima, pois não?

Ri-me.

— Se eu soubesse que vinha, tinha trazido uma escada. Espere um bocadinho. — Fui buscar a cozinha a velha cadeira cor de laranja de Poitou.

— Experimente isto.

Armande trepou para a cadeira e pegou no copo com as duas mãos. Parecia ávida como uma criança, de olhos brilhantes e expressão extáctica.

— Mmmm. — Era mais do que satisfação. Era quase reverência. — Mmmmmm. — Fechou os olhos enquanto provava a bebida. O prazer dela era quase assustador.

— Isto é autêntico, não é? — Deteve-se por um instante, os olhos brilhantes especulativamente semicerrados. — Tem natas e... canela, acho... e o que mais? Tia Maria?

— Perto — disse eu.

— Fruto proibido sabe sempre melhor, de qualquer maneira — declarou Armande, limpando a espuma a volta da boca, satisfeita. — Mas isto — Bebericou de novo, gulosa —, isto é a coisa melhor de que me lembro, mesmo de quando era pequena. Aposto que tem umas dez mil calorias. Ou mais.

— Por que é que havia de ser proibido? — Eu estava curiosa. Baixa e redonda como um cartucho, parecia o mais diferente possível da sua filha, preocupada com a figura.

— Ah, médicos. — O tom de Armande era desdenhoso. — Já se sabe como é que eles são. — Interrompeu-se para beber de novo pela palhinha. — Ah, isto é bom. Bom. A Caro anda há. anos a tentar meter-me num lar qualquer. Não lhe agrada a ideia de eu viver ao virar da esquina. Não quer nada que lhe lembre as suas origens. — Deu uma boa gargalhada abafada. — Diz que eu estou doente. Que não posso tomar conta de mim. Manda aquele miserável do médico dela dizer-me o que posso e o que não posso comer. Qualquer pessoa havia de pensar que ela quer que eu viva para sempre.

Sorri.

— Tenho a certeza de que a Caroline se preocupa muito consigo.

Armande lançou-me um olhar escarninho.

— Ai tem? — Cacarejou uma gargalhada vulgar. — Não me venha com isso, menina. Sabe muitíssimo bem que a minha filha não se preocupa com mais ninguém além de si própria. Eu cá não sou tola. — Uma pausa à medida que franzia o olhar vivo e desafiador na minha direcção. — É do rapaz que eu tenho pena — disse ela.

— Rapaz?

— Luc, é como se chama. O meu neto. Faz catorze em Abril. Já deve tê-lo visto na praça.

Lembro-me vagamente dele: um rapaz pálido, demasiado alinhado nas suas calças de flanela bem vincadas e no seu casaco de tweed, olhos frios cinza-esverdeados sob uma franja lisa. Acenei que sim.

— Fiz dele meu herdeiro — disse Armande. — Meio milhão de francos. Serão dele quando fizer dezoito anos. — Encolheu os ombros. — Nunca o vejo — acrescentou de fugida. — A Caro não deixa.

Já os vi juntos. Lembro-me agora: o rapaz amparando o braço da mãe ao passarem a caminho da igreja. Entre as crianças de Lansquenet, ele é o único que nunca comprou chocolates em LA PRALINE, embora me pareça já o ter visto espreitando a montra uma ou duas vezes.

— Da última vez que ele me veio ver tinha dez anos. — A voz de Armande era extraordinariamente inexpressiva. — Há um século, para ele. — Acabou o seu chocolate quente e pousou o copo no balcão com um som brusco e definitivo. — Eram os anos dele, tanto quanto me lembro. Dei-lhe um livro de poemas de Rimbaud. Ele foi muito... bem-educado. — Havia amargura na sua voz. — Claro que entretanto já o vi umas quantas vezes na rua — disse. — Não me posso queixar.

— Por que é que não aparece? — perguntei com curiosidade. — Pode convidá-lo para sair, conversar, conhecê-lo?

Armande abanou a cabeça.

— Desentendemo-nos, eu e a Caro. — A sua voz ficou subitamente lamurienta. A ilusão de juventude abandonou-a juntamente com o sorriso e ela pareceu, de súbito, chocantemente velha. — Ela tem vergonha de mim. Sabe Deus o que diz de mim ao rapaz. — Abanou a cabeça. — Não, é demasiado tarde. Vê-se bem na cara dele... naquele ar bem-educado... nas mensagenzinhas vazias e bem-educadas dos seus cartões de Natal. Um rapazinho com tão boas maneiras. — A gargalhada dela era amarga. — Um rapazinho tão bem-educado, com tão boas maneiras.

Virou-se para mim com um sorriso vivo e valente.

— Se eu soubesse o que ele faz — disse ela. — O que lê, qual o clube preferido, quem são os seus amigos, que resultados tem na escola. Se eu soubesse isso...

— Se?

— Podia fingir para mim própria... — Por um segundo, vi-a à beira das lágrimas. Depois uma pausa, um esforço, uma mobilização de força de vontade. — Sabe, acho que estava capaz de tomar mais um desse seu chocolate quente especial. Que tal outro? — Era fogo de vista, mas admirei-a mais do que nunca. Que ainda seja capaz de fazer de rebelde por entre as suas atribulações, a suspeita de bravado nos seus movimentos ao pousar os cotovelos no bar, enquanto sorve.

— Sodoma e Gomorra por uma palhinha. Mmmm. Acho que morri e cheguei ao céu. Tão perto quanto hei-de chegar, pelo menos.

— Eu podia tentar saber alguma coisa sobre Luc, se quiser. Podia dizer-lhe. — Armande pesou a proposta em silêncio. Sentia-a a observar-me sob as pálpebras descaídas. A avaliar-me.

Por fim falou.

— Todos os rapazes gostam de guloseimas, não gostam? — O tom de voz era casual. Concordei que a maioria gostava. — E os amigos dele vêm aqui, suponho? — Disse-lhe que não tinha a certeza de quem eram os amigos dele mas que a maioria das crianças costumavam vir até aqui.

— Eu podia voltar cá — decidiu Armande. — Gosto do seu chocolate, apesar de as cadeiras serem terríveis. Até posso tornar-me cliente da casa.

— Seria bem-vinda.

Nova pausa. Percebi que Armande Voizin faz as coisas à sua maneira, ao seu ritmo, não deixando que a apressem ou aconselhem. Deixei-a pensar no caso.

— Tome. Fique com isto. — Estava tomada a decisão. Atirou energicamente uma nota de cem francos para cima do balcão.

— Mas eu...

— Se o vir, dê-lhe uma caixa daquilo que ele gostar. Não lhe diga que é da minha parte.

Anotei.

— E não deixe que a mãe saiba. Mais do que certo, ela já deve andar ocupada a espalhar a sua bisbilhotice e condescendência. A minha única filha e logo tinha de se tornar numa das Irmãs da Salvação do Reynaud. — Franziu os olhos maldosamente, formando teias de covinhas nas faces redondas.

— Já circulam rumores sobre si — disse ela. — Já sabe o género. Envolver-se comigo só lhe vai complicar a vida.

Ri-me.

— Eu cá me arranjo.

— Acho que sim. — Olhou-me, subitamente atenta, já sem o tom de troça na voz. — Há qualquer coisa em si — disse numa voz suave. — Qualquer coisa familiar. Suponho que não nos encontrámos antes daquela vez em Les Marauds, pois não? — Lisboa, Paris, Florença, Roma... Tanta gente. Tantas vidas cruzadas, fugidiamente entrecruzadas, varridas pela teia alucinada do nosso itinerário. Mas acho que não. E há um cheiro. Como que a queimado, o cheiro de um relâmpago de Verão dez segundos depois de estourar. Um aroma de trovoadas de Verão e campos de milho a chuva. — O rosto arrebatado, os olhos procurando os meus. — E verdade, não é? O que eu disse? O que você é?

De novo aquela palavra.

Riu-se deliciada e pegou-me na mão. A pele dela era fresca: folhagem, não carne. Virou-me a mão para ver a palma.

— Eu sabia! — O seu dedo percorria a linha da vida e a do coração. — Eu sabia desde o momento em que a vi! — De si para si, cabeça curvada e voz tão baixa que mais não era do que um sopro de encontro a minha mão: — Eu sabia. Eu sabia. Mas nunca pensei vê-la aqui, nesta cidade. — Um olhar arguto e desconfiado para cima.

— Reynaud sabe?

— Não sei bem. — Era verdade: não fazia ideia nenhuma de que é que ela estava a falar. Mas também eu podia sentir-lhe o cheiro: o aroma da mudança de ventos, aquele ar de revelação. Um aroma distante de fogo e ozono. O chiar de mudanças há muito por usar, a máquina infernal da sincronia. Ou talvez Joséphine tenha razão e Armande seja maluca. Afinal de contas, ela via Pantoufle.

— Não deixe que Reynaud saiba — disse-me ela, com os seus olhos loucos e sérios a cintilar. — Você sabe quem ele é, não sabe?

Fitei-a esgazeada. Devo ter imaginado o que ela disse então. Ou talvez os nossos sonhos se tenham tocado brevemente por uma vez, numa das nossas noites em fuga.

— Ele é o Homem de Preto.

Reynaud. Como uma carta de azar. Uma e outra vez. Riso nas alas.

* * *

Muito depois de deitar Anouk, deitei as cartas da minha mãe pela primeira vez desde que ela morreu. Guardo-as numa caixa de pau-de-sândalo e elas estio macias e perfumadas com as memórias dela. Por um instante, quase as arrumo sem as ler, desconcertada com o rio de associações que aquele aroma carrega consigo. Nova Iorque e bancas fumegantes de cachorros quentes. O CAFÉ DE LA PAIX e os seus empregados imaculados. Uma freira a comer gelado no adro da catedral de Notre-Dame. Quartos de hotel de passagem, porteiros carrancudos, gendarmes desconfiados, turistas curiosos. E, sobre tudo isso, a sombra de Aquilo, a coisa implacável e inominável de que fugíamos.

Eu não sou a minha mãe. Não sou uma fugitiva. E contudo, a necessidade de ver, de saber, é tão grande que dou comigo tirando-as da caixa e espalhando-as, como ela fazia, na beira da cama. Uma olhadela para trás para me certificar de que Anouk está a dormir. Não quero que ela perceba o meu desassossego. Depois baralho, parto, baralho, parto até ter quatro cartas.

Dez de espadas, morte. Três de espadas, morte. Dois de espadas, morte. A Carroça. Morte.

O Eremita. A Torre. A Carroça. Morte.

As cartas são da minha mãe. Isto não tem nada a ver comigo, digo-me, embora o Eremita seja facilmente identificável. Mas a Torre? A Carroça?

Morte?

A carta da Morte, diz a voz da minha mãe dentro de mim, não pressagia sempre a morte física do ser mas a morte de um modo de vida. Uma mudança. Uma viragem nos ventos. Será isto que quer dizer?

Não acredito na adivinhação. Não como ela acreditava, como um modo de cartografar os acasos da nossa trajectória. Não como um pretexto para a inacção, uma muleta quando as coisas vão de mal a pior, uma racionalização do caos interior. Ouço a voz dela agora e ela soa como soava no barco, a sua força transformada em pura teimosia, o seu humor em desespero visionário.

E que tal a Disneylândia? O que é que achas? Florida Keys? Os Everglades? Há tanto para ver no Novo Mundo, tanto que nós não conseguimos sequer sonhar. isso, achas? isso que as cartas dizem?

Mas a Morte estava em todas as cartas, a Morte e o Homem de Preto, que começara a significar a mesma coisa. Fugíamos dele e ele seguia-nos, guardado em pau-de-sândalo.

Como antídoto, eu lia Jung e Hermann Hesse e aprendia sobre o inconsciente colectivo. A adivinhação como uma maneira de nos dizer aquilo que já sabemos. Que tememos. Não demónios, a não ser uma colecção de arquétipos comuns a todas as civilizações. O medo da perda — Morte. O medo do desalojamento — a Torre. O medo da efemeridade — a Carroça.

E contudo a mãe morreu.

Ternamente, voltei a colocar as cartas na sua caixa perfumada. Adeus, mãe. Aqui termina a nossa viagem. Aqui ficamos para enfrentar o que o vento nos trouxer. Não voltarei a ler as cartas.

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