Chocolate

Joanne Harris · Capítulo 4 de 40

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Chocolate

Capítulo 3

 

Quinta-feira, 13 de Fevereiro

 

G raças a Deus que acabou. As visitas cansam-me até à medula. Não me

refiro a si, claro, mon père; a minha visita semanal a si é um luxo,

poder-se-á quase dizer, o meu único luxo. Espero que goste das flores. Não têm grande aspecto mas cheiram maravilhosamente. Vou colocá-las aqui, ao lado da sua cadeira, onde as possa ver. Tem-se uma bela vista daqui, sobre os campos, com o Tannes a meia distância e o Garonne cintilando ao longe. Quase se pode imaginar que estamos sozinhos. Ah, não me queixo. Mas sabe como pesa este fardo aos ombros de um homem. As preocupações mesquinhas deles, as suas insatisfações, as suas tolices, os seus milhentos problemas corriqueiros... Terça-feira foi Carnaval. Qualquer um os tomaria por selvagens dançando e gritando. O filho mais novo de Louis Perrin, Claude, disparou uma pistola de água contra mim, e o que é que o seu pai havia de dizer a não ser que ele era uma criança e que precisava de brincar um bocado? Tudo o que eu quero é guiá-los, mon père; libertá-los do seu pecado. Mas eles lutam contra mim a cada instante, como crianças recusando comida saudável para continuarem a comer aquilo que lhes faz mal. Sei que me compreende. Durante cinquenta anos carregou tudo isto aos ombros com paciência e força. Conquistou o amor deles. Terão os tempos mudado tanto? Aqui estou eu, temido, respeitado... mas amado, não. Têm rostos soturnos, ressentidos. Ontem saíram do serviço com cinza na testa e um ar de alívio culpado. Entregues às suas indulgências secretas e vícios privados. Será que não compreendem? O Senhor vê tudo. Eu vejo tudo. Paul-Marie Muscat bate na mulher. Reza dez Avé-Marias semanais no confessionário e sai para recomeçar tudo exactamente na mesma. A mulher dele rouba. Na semana passada foi ao mercado e roubou bijutaria da banca de um vendedor. Guillaume Duplessis quer saber se os animais têm alma e chora quando lhe digo que não têm. Charlotte Edouard acha que o marido tem uma amante — eu sei que ele tem três, mas o confessionário obriga-me a ficar calado. Que crianças aquelas! As suas exigências deixam-me irado e tonto. Mas não me posso dar ao luxo de mostrar fraqueza. As ovelhas não são as criaturas dóceis e amáveis do idílio pastoril. Qualquer homem do campo lhe dirá isso. São manhosas, por vezes perversas, patologicamente estúpidas. O pastor clemente pode achar-se perante um rebanho desordeiro e provocador. Eu não me posso dar ao luxo de ser clemente. por isso que, uma vez por semana, me permito esta única indulgência. A sua boca está tão fechada, mon père, como a do confessor. Os seus ouvidos estão sempre abertos, o seu coração sempre amável. Durante uma hora posso aliviar o fardo. Posso ser falível.

Temos uma paroquiana nova. Uma tal Vianne Rocher, viúva, presumo, com uma criança pequena. Lembra-se da padaria do velho Blaireau? Há quatro anos que ele morreu e o lugar tem vindo a degradar-se desde então. Bem, ela pagou o trespasse e espera reabri-la até ao final da semana. Não acho que seja coisa para durar. Já temos a padaria do Poitou do outro lado da praça e, além do mais, ela nunca se integrará. Até é uma mulher simpática, mas não tem nada a ver connosco. Dou-lhe uns dois meses para ela regressar cidade onde pertence. Curioso: não cheguei a descobrir donde ela veio. De Paris, imagino, ou talvez até do outro lado da fronteira. Tem um sotaque puro, quase demasiado puro para uma francesa, com as vogais mudas do Norte, embora os seus olhos sugiram ascendência italiana ou portuguesa, e a sua pele... Mas realmente não a vi. Trabalhou na padaria todo o dia de ontem e hoje. Há uma folha de plástico cor de laranja a tapar a montra e, de vez em quando, ela ou a filhita traquinas aparecem para deitar um balde de água suja pela sarjeta ou conversar animadamente com um ou outro trabalhador. Tem uma estranha facilidade em arranjar ajudantes. Embora eu lhe tenha oferecido os meus préstimos, duvidei que ela encontrasse muitos dos nossos aldeões dispostos a tal. E, no entanto, vi Clairmont hoje de manhã cedo, com um carrego de lenha, depois Pourceau com os seus escadotes. Poitou mandou alguma mobília; vi-o a carregar um sofá pela praça fora com o ar furtivo de um homem que não quer ser visto. Até aquele maldizente e mal-humorado do Narcisse, que recusou rotundamente cavar no cemitério em Novembro passado, lá foi com as suas ferramentas para lhe limpar o jardim. Esta manhã, cerca das oito e quarenta, uma carrinha de entregas parou em frente da loja. Duplessis, que passeava o cão a hora habitual, passava naquele momento e ela chamou-o para ajudar na descarga. Bem pude ver como ele ficou espantado com o pedido — por um segundo, tive a certeza de que recusaria —, como levou uma mão quase até ao chapéu. Depois ela disse qualquer coisa — não ouvi o que foi — e ouvi o riso dela através da calçada. Ri-se muito e faz muitos gestos ridículos e extravagantes com os braços. Mais um traço citadino, suponho. Nós estamos habituados a uma maior reserva nas pessoas à nossa volta, mas julgo que não o faz por mal. Trazia um lenço roxo atado à cabeça à moda das ciganas, mas a maior parte do cabelo escapava-se-lhe por baixo do lenço e estava manchado de tinta branca. Ela não parecia importar-se. Mais tarde, Duplessis não conseguiu lembrar-se do que ela lhe dissera mas, com o seu jeito desconfiado, disse que a entrega pouco ou nada era, só uns poucos de caixotes, pequenos mas pesados, e umas quantas grades abertas com utensílios de cozinha. Não perguntou o que estava nos caixotes, embora duvidasse que um fornecimento tão reduzido de fosse o que fosse durasse muito numa padaria.

Não imagine, mon père, que eu passei o dia vigiando a padaria. Mas acontece que ela fica quase defronte da minha própria casa — a que foi sua, mon père, antes de tudo isto. Durante o último dia e meio não houve senão martelar e pintar e caiar e esfregar até que, mesmo sem querer, não posso deixar de estar curioso por ver o resultado. Não sou, aliás, o único: ouvi a Madame Clairmont, com o seu ar convencido, a bisbilhotar com um grupo de amigas à porta do Poitou sobre o trabalho do seu marido; falavam de persianas vermelhas, até darem pela minha presença, passando então a um sussurro dissimulado. Como se eu me importasse. A recém-chegada decerto lhes dá assunto para bisbilhotarem, quanto mais não seja. Acho que aquela montra tapada de cor de laranja atrai as atenções nos momentos mais estranhos. Parece um enorme bombom à espera de ser desembrulhado, como uma fatia que tenha sobrado do Carnaval. Há algo de perturbador naquele seu brilho e no modo como as pregas de plástico atraem o sol; dar-me-ei por satisfeito quando o trabalho estiver terminado e aquele sítio voltar a ser uma padaria.

A enfermeira está a tentar chamar a minha atenção. Ela acha que eu o canso. Como é que as suporta, com aquelas vozes altas e modos de enfermeira? Vamos lá, é hora de dormirmos. A malícia dela é chocante, insuportável. E no entanto não faz por mal, dizem-me os seus olhos, mon père. Perdoa-lhes que não sabem o que fazem. Eu não sou bondoso. Venho aqui para meu próprio alívio, não para o seu. E, no entanto, agrada-me pensar que as minhas visitas lhe dão prazer, que o mantêm em contacto com as arestas de um mundo que perdeu juízo e forma. Televisão uma hora por noite, mudar de posição cinco vezes por dia, ser alimentado por um tubo. Falarem de si como de um objecto — Será que ele nos pode ouvir? Acha que ele nos percebe? —, não querendo saber sequer a sua opinião, ignorando-a... Estar afastado de tudo e, no entanto, sentir, pensar... Esta é a verdade do inferno, despida dos seus medievalismos berrantes. Esta perda de contacto. E, no entanto, de si espero que me ensine a comunicar. Que me ensine a esperança.

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