Chocolate
Capítulo 14
Segunda-feira, 24 de Fevereiro
C aroline Clairmont apareceu logo depois da missa. O filho vinha com
ela, de sacola a tiracolo, um rapaz alto de rosto pálido e impassível.
Ela trazia um maço de cartões amarelos manuscritos.
Sorri para ambos.
A loja estava quase vazia — os meus primeiros clientes habituais chegam por volta das nove e eram oito e meia. Só Anouk estava sentada ao balcão, diante de uma tigela de leite semibebida e de um pain au chocolat. Lançou um olhar vivo ao rapaz, acenou com o bolo num gesto vago de saudação, e regressou ao seu pequeno-almoço.
— Em que posso servi-los ?
Caroline olhou a sua volta com uma expressão de inveja e desaprovação. O rapaz olhava a direito mas notei que os seus olhos queriam desviar-se na direcção de Anouk. Parecia bem-educado e taciturno, de olhos brilhantes e impenetráveis sob uma franja comprida.
— Sim. — A voz dela era ligeira e falsamente jovial, o sorriso tão cortante e doce como alcorça, mostrando os dentes. — Ando a distribuir isto... — estendeu o molho de cartões — e pensei que talvez pudesse colocar alguns na montra. — Estendeu um. — Toda a gente está a colocá-los — acrescentou, como se isso pudesse pesar na minha decisão. Peguei no cartaz.
A letras pretas sobre o amarelo, em maiúsculas nítidas e ousadas:
PROIBIDOS VENDEDORES AMBULANTES E ITINERANTES.
A GERÊNCIA RESERVA-SE O DIREITO DE ADMISSÃO.
— Para que é que eu preciso disso? Por que é que eu havia de me recusar a servir seja quem for?
Caroline dirigiu-me um olhar de pena e desdém.
— Claro, você é nova aqui — disse com um sorriso adocicado. — Mas já tivemos problemas no passado. É só uma medida de precaução. Eu duvido muito que Aquela Gente lhe apareça aqui. Mas mais vale prevenir do que remediar, não acha?
Eu continuava sem perceber.
— Remediar o quê?
— Bem, os ciganos. A gente do rio. — Havia uma nota de impaciência na sua voz. — Voltaram e hão-de querer... — fez uma pequena e elegante moue de nojo — ...fazer o que quer que fazem.
— E? — atalhei eu gentilmente.
— Bem, temos de lhes mostrar que não estamos para os aturar! Caroline estava a ficar agitada. — Vamos combinar não servir essa gente. Fazê-los voltar para o sítio donde, vieram.
— Ah. — Pesei o que ela estava a dizer. — Podemos recusar-nos a servi-los? — inquiri com curiosidade. — Se eles tiverem dinheiro para gastar, podemos recusar?
Com impaciência: — Claro que podemos. Quem é que nos impede?
Pensei por um momento e depois devolvi-lhe o cartaz. Caroline fitou-me esgazeada.
— Não vai fazer isso? — A sua voz subiu meia oitava, perdendo assim muita da sua entoação bem-educada.
Encolhi os ombros.
— Parece-me que se alguém quiser gastar o seu dinheiro aqui, não me cabe a mim impedi-lo — disse-lhe.
— Mas a comunidade... — insistia Caroline. — Certamente não quer que gente dessa espécie... itinerantes, ladrões, árabes por amor de Deus...
Uns instantâneos esvoaçaram na memória, porteiros carrancudos em Nova Iorque, damas de Paris, turistas do Sacré-Coeur, de máquina fotográfica em punho, desviando a cara para não verem a menina pedinte, com o seu vestido demasiado curto e as suas pernas demasiado compridas... Caroline Clairmont, não obstante as suas origens rurais, sabe o valor de arranjar a modista certa. A écharpe discreta que usa ao pescoço tem a marca Hermes e o perfume é Coco Chanel. A minha resposta sai mais cortante do que eu pretendia.
— O que me parece é que a comunidade não se devia meter onde não é chamada — disse com acrimónia. — Não me compete a mim, nem a ninguém, decidir como essas pessoas devem viver a sua vida.
Caroline lançou-me um olhar virulento.
— Ah, bom, se é assim que pensa... — voltando-se altivamente para a porta — ...então não tomo mais tempo ao seu negócio. — Uma ligeira ênfase na última palavra, um olhar desdenhoso para os bancos vazios. — Só espero que não se arrependa da sua decisão, é tudo.
— E por que havia eu de me arrepender?
Encolheu os ombros com petulância.
— Bem, se houver problemas ou coisa assim. — Pelo seu tom, percebi que a conversa estava encerrada. — Essa gente pode provocar todo o tipo de problemas, sabe? Drogas, violência... — O azedume do seu sorriso sugeria que, se surgissem esses problemas, ela gostaria que eu fosse vítima deles. O rapaz olhava-me de olhos arregalados, sem perceber. Eu sorri-lhe.
— Vi a tua avó no outro dia — disse-lhe. — Ela falou-me muito de ti. — O rapaz corou e murmurou qualquer coisa ininteligível.
Caroline tornou-se hirta.
— Soube que ela esteve aqui — disse ela. Forçou um sorriso. — Realmente, não devia encorajar a minha mãe — acrescentou com falsa malícia. — Assim como assim, ela já é difícil.
— Ora, eu achei-a uma companhia muito agradável — repliquei sem tirar os olhos do rapaz. — Bastante refrescante. E muito perspicaz.
— Para a idade — disse Caroline.
— Para qualquer idade — disse eu.
— Bem, certamente que será assim com estranhos — disse Caroline firmemente. — Mas com a família... — Lançou-me mais um dos seus sorrisos frios. — Deve compreender que a minha mãe é muito idosa — explicou. — A sua mente já não é o que era. A sua percepção da realidade... — Interrompeu-se com um gesto nervoso. — Certamente que não preciso de lhe explicar — disse.
— Não, não precisa — respondi amavelmente. — Afinal de contas, não é da minha conta. — Vi-a franzir os olhos ao registar a indirecta. Pode ser preconceituosa, mas estúpida não é.
— Quero dizer... — tentou recompor-se por uns instantes. Por um segundo, pensei ver uma faísca de humor nos olhos do rapaz, embora possa ter sido imaginação minha. — Quero dizer que a minha mãe nem sempre faz aquilo que é melhor para ela. — Estava de novo sob controlo, o seu sorriso tão cheio de laca como o cabelo. — Esta loja, por exemplo.
Acenei encorajadoramente.
— A minha mãe é diabética — explicou Caroline. — O médico avisou-a várias vezes para evitar comer açúcar. Ela não quer saber. Recusa o tratamento. — Olhou para o filho com um ar de triunfo. — Diga-me, Madame Rocher, isso é normal? É um comportamento normal? — A sua voz elevava-se de novo, tornando-se estridente e petulante. O filho olhava-a vagamente constrangido e olhava para o relógio.
— Mama, assim at-traso-me. — A sua voz era neutra e bem-educada. — Para mim: — Desculpe, Madame, t-tenho de ir para a esc-cola.
— Toma, aqui tens as minhas pralinas especiais. Por conta da casa. — Estendi-lhas num cartucho de celofane.
— O meu filho não come chocolate. — A voz de Caroline era ríspida. — Ele hiperactivo. Doentio. Sabe que é mau para ele.
Olhei o rapaz. Não me pareceu nem hiperactivo nem doentio, apenas aborrecido e um pouco contrafeito.
— Ela tem-te em grande consideração — disse-lhe eu. — A tua avó. Talvez possas passar por aqui para lhe dizeres olá um dias destes. F, uma das minhas clientes habituais.
Os olhos dele brilharam por um momento sob o cabelo castanho liso.
— Talvez. — Sem entusiasmo na voz.
— O meu filho não tem tempo para andar por lojas de lambarices — disse Caroline com arrogância. — O meu filho é um rapaz dotado. Sabe o que os pais têm feito por ele. — Havia uma espécie de ameaça naquilo que ela dizia, uma certeza presunçosa. Deu meia volta, passando por Luc, que já estava à porta, balançando a sacola.
— Luc. — A minha voz saiu baixa, persuasiva. Ele voltou-se de novo, não sem alguma relutância. Sem me dar conta, tentava chegar até ele, ver para além do seu rosto bem-educado e inexpressivo e vendo... vendo...
— Gostaste de Rimbaud? — Falei sem pensar, a minha cabeça registando as imagens.
Por um momento o rapaz pareceu culpado.
— O quê?
— Rimbaud. Ela deu-te um livro de poemas dele nos teus anos, não deu?
— S-sim. — A resposta foi quase inaudível. Os seus olhos, de um cinza-esverdeado brilhante, ergueram-se de encontro aos meus. Fez um ligeiro aceno com a cabeça, como que de aviso. — M-mas eu não — disse mais alto. — N-não gosto de p-poesia. — Um livro com as folhas marcadas escondido no fundo de uma gaveta de roupa. Um rapaz murmurando as belas palavras para si com uma ferocidade peculiar. Vem, por favor, sussurrei silenciosamente. Por favor, para bem de Armande.
Algo nos seus olhos cintilou.
— Tenho que ir.
Caroline esperava impacientemente porta.
— Por favor. Leva isto. — Estendi-lhe o pacotinho: três pralinas de chocolate num embrulho de papel prateado. O rapaz tem os seus segredos. Senti-os a quererem escapar-se.
Com destreza, mantendo-se fora do campo de visão da mãe, pegou no embrulho e sorriu. Eu quase poderia ter imaginado as palavras que ele articulou à saída:
— Diga-lhe que eu venho — sussurrou ele. — Na q-quarta-feira, quando a mamã for ao ca-cabeleireiro.
E desapareceu.
Contei a visita deles a Armande quando ela apareceu mais tarde. Abanou a cabeça e rebolou-se de riso quando contei a conversa com Caroline.
— He, he, he! — Aninhada na sua cadeira-de-braços funda, uma chávena de mocha na sua mão frágil, parecia mais do que nunca uma maçã-boneca. — Coitada da minha Caro. Não gosta que lhe lembrem, pois não? — Bebericava alegremente. — Quem é que ela se imagina, hã? — perguntou com alguma irritação. — A dizer o que é que os outros devem e não devem fazer. Diabética, eu? Isso é o que o médico dela quer que toda a gente pense. — Resmungou. — Bem, ainda não morri, pois não? Eu cuido-me. Mas isso não é suficiente para eles, não. Têm que controlar tudo. — Abanou a cabeça. — Coitado daquele rapaz. Gagueja, reparou? — Acenei afirmativamente.
— É culpa da mãe. — O tom de Armande era desdenhoso. — Se o deixasse em paz. Mas não. Sempre a corrigi-lo. Sempre a insistir. Só lhe fazendo pior. A mostrar constantemente que ele tem um problema qualquer. — Fez um som irónico. — Ele não tem problema nenhum que uma boa dose de vida não possa curar — declarou, resoluta. — Deixá-lo correr ã. vontade sem estar sempre a preocupar-se com o que lhe aconteceria se caísse. Deixá-lo à solta. Deixá-lo respirar.
Eu disse que era normal uma mãe querer proteger os filhos.
Armande lançou-me um dos seus olhares satíricos.
— É isso que lhe chama? — perguntou ela. — Da mesma maneira que o visco protege a macieira? — Deu uma gargalhada ruidosa. — Eu costumava ter maçãs no meu quintal — contou ela. — O visco dava cabo delas todas, uma a uma. Plantinha irritante, não parece grande coisa, uns bagozinhos bonitos, sem força própria, mas santo Deus! Invade tudo! — Bebericou novamente da sua bebida. — E envenena tudo aquilo em que toca. — Acenou com ar conhecedor. — Tal qual a minha Caro — disse. — Tal qual ela.
Voltei a ver Guillaume depois do almoço. Só parou para cumprimentar, dizendo que estava a caminho do quiosque para ir buscar os jornais. Guillaume é viciado em revistas de cinema, embora nunca vá ao cinema, e todas as semanas recebe uma encomenda delas: Vidée e Ciné-Club, Télérama e Film-Express. Tem a única antena-satélite da aldeia e, na sua casinha minúscula, existe um grande ecrã de televisão e um vídeo Toshiba instalados na parede acima de uma estante inteira de cassetes vídeo. Reparei que ele levava novamente Charly ao colo e que o cão tinha um ar apagado e apático nos braços do seu dono. Guillaume acariciava amiúde a cabeça do cão num gesto familiar de ternura e determinação.
— Como é que ele está? — perguntei por fim.
— Ah, tem os seus dias melhores — disse Guillaume. — Ainda tem muita vida. — E lá prosseguiram o seu caminho, o homem pequenino e gentil agarrando-se ao seu cão castanho e triste como se a sua vida dependesse dele.
Joséphine Muscat passou sem parar. Fiquei um bocadinho desapontada por ela não entrar, pois estava à espera de voltar a falar com ela, mas ela limitou-se a lançar-me um olhar bravio ao passar de mãos firmemente enfiadas nos bolsos. Reparei que tinha um ar ofegante, os olhos semicerrados, embora pudesse ser para se proteger da chuva forte, e a boca hermeticamente fechada. Um cachecol grosso e sem cor envolvia-lhe a cabeça como uma ligadura. Chamei-a mas ela não respondeu, apressando o passo como que para fugir a um qualquer perigo iminente.
Encolhi os ombros e deixei-a ir. Estas coisas levam tempo. Às vezes nunca acabam.
Ainda assim, mais tarde, quando Anouk estava a brincar em Les Marauds e eu fechei a loja por esse dia, dei comigo a caminhar pela Avenue des Francs Bourgeois em direcção ao CAFÉ DE LA RÉPUBLIQUE. É um sítio acanhado e sombrio, janelas ensaboadas e rabiscadas de través com a eterna spécialité du jour, e um toldo mal amanhado que ainda lhe retira mais luminosidade. Lá dentro, duas slot machines silenciosas ladeiam as mesas redondas onde se sentam os escassos clientes, discutindo sorumbaticamente assuntos sem importância em frente de intermináveis demis e cafés-crème. Sente-se o cheiro brando a óleo de comida de micro-ondas e um manto de fumo de cigarro paira sobre o café, embora ninguém pareça estar a fumar. Reparei num dos cartazes manuscritos e amarelos de Caroline Clairmont colocado em lugar proeminente junto à porta. Um crucifixo preto está pendurado sobre a porta.
Olhei, hesitante, e entrei.
Muscat estava no bar. Olhou-me mal eu entrei, esticando a boca. Quase imperceptivelmente, vi os seus olhos dirigirem-se para as minhas pernas, os meus seios, uap-uap, faiscando como os mostradores numa slot machine. Pôs uma mão na máquina da cerveja de pressão, flectindo o antebraço pesado.
— O que deseja?
— Café-cognac, por favor.
O café veio numa chavenazinha castanha com dois cubos de açúcar embrulhados. Peguei nele e sentei-me numa mesa à janela. Dois velhotes — um deles com a Légion d’Honeur presa à lapela puída — olharam-me com desconfiança.
— Quer companhia? — perguntou Muscat, desfazendo-se em sorrisos atrás do bar. — É só que parece um pouco... só, aí sentada sozinha.
— Não, obrigada — respondi-lhe educadamente. — De facto, pensei que pudesse encontrar Josephine hoje. Ela está aqui?
Muscat olhou-me com azedume, já sem vestígios de bom humor.
— Ah, sim, a sua amiga do peito. — Com voz seca. — Bem, está com saudades dela. Ela foi lá para cima deitar-se um bocado. Uma das suas dores de cabeça. — Começou a limpar um copo com especial ferocidade. — Passa as tardes a fazer compras, depois tem de se deitar à noite enquanto eu faço o trabalho todo.
— Ela está bem?
Ele olhou-me.
— Claro que está. — Em tom ríspido. — Por que é que não havia de estar? Se Sua Excelência Maldita se desse pelo menos ao trabalho de levantar o rabo de vez em quando, talvez ainda conseguíssemos aguentar este negócio. — Enfiou o dedo envolto no pano da louça dentro do copo, resmungando com o esforço. — Quero dizer. — Fez um gesto expressivo. — Quero dizer, olhe só para isto. — Olhou-me de relance, como se fosse dizer mais alguma coisa, depois o seu olhar desviou-se para a porta. — Hã! — Deduzi que ele se dirigia a alguém fora do meu campo de visão. — Estão a ouvir aí? Estamos fechados!
Ouvi uma voz de homem dizer qualquer coisa indistinta em resposta. Muscat fez o seu esgar aberto e sombrio.
— Ó seus idiotas, não sabem ler? — Detrás do bar, apontava para o cartão amarelo que eu vira porta. — Desapareçam, toca a andar!
Levantei-me para ver o que se passava. Havia cinco pessoas hesitantes porta do café, dois homens e três mulheres. Todos os cinco me eram estranhos, sem nada de especial a não ser o seu ar indefinidamente diferente, as calças remendadas, as botas de trabalho, as T-shirts desbotadas que os identificavam como forasteiros. Eu conhecia aquele ar. Já o tive em tempos. O homem que falara tinha cabelo ruivo e um lenço estampado verde para o manter afastado do rosto. Os olhos eram prudentes, o tom de voz cuidadosamente neutro.
— Nós não andamos a vender nada — explicou ele. — Só queremos umas cervejas e café. Não vamos causar problemas nenhuns.
Muscat olhou-o com desdém.
— Já disse que estamos fechados.
Uma das mulheres, uma rapariga pálida e magra com uma argola numa sobrancelha, puxou a manga do homem ruivo.
— Não vale a pena, Roux. É melhor...
— Espera aí. — Roux sacudiu com impaciência. — Não estou a perceber. A senhora que estava aqui há um bocado, a sua mulher, ia...
— Raios partam a minha mulher! — exclamou ele estridentemente. — A minha mulher não conseguia dar com o rabo dela nem com as duas mãos e uma lanterna! É o meu nome escrito ali naquela porta e eu, nós, estamos fechados! — Tinha dado três passos desde o bar e agora barrava a porta, de mãos nas ancas, como um atirador obeso num western spaghetti. Notei o brilho amarelado dos nós dos dedos sobre o cinto e ouvi o sopro da sua respiração. O rosto estava congestionado de raiva.
— Certo. — O rosto de Roux era inexpressivo. Lançou um olhar hostil e decidido aos poucos clientes espalhados pelo café. — Fechado. — Novo olhar em redor. Por um instante os nossos olhares encontraram-se. — Fechado para nós — disse ele serenamente.
— Não é tão estúpido como parece, pois não? — disse Muscat com uma satisfação amarga. — Já ficámos fartos da vossa gente da última vez. Desta vez não estamos para vos aturar!
— Okay. — Roux voltou-se para se ir embora. Muscat, qual sentinela hirta ou cão farejando luta, deixou-o sair.
Passei por ele sem uma palavra, deixando o meu café meio-bebido em cima da mesa. Oxalá ele não estivesse espera de gorjeta.
Apanhei os ciganos do rio a meio da Avenue des Francs Bourgeois. Tinha voltado a chuviscar de novo e os cinco tinham um ar pardacento e soturno. Podia agora ver os seus barcos, lá em baixo em Les Marauds, uma dúzia deles — duas dúzias —, uma frota de verde-amarelo-azul-branco-vermelho, umas bandeiras de roupa a secar ao vento, outros pintados com as mil-e-uma-noites e tapetes voadores e variações de unicórnios reflectidos na água monótona e esverdeada.
— Lamento o que se passou — disse-lhes. — Não são especialmente acolhedores em Lansquenet-sous-Tannes.
Roux lançou-me um olhar indiferente e avaliador.
— Chamo-me Vianne — disse-lhe eu. — Tenho uma chocolaterie em frente à igreja. LA CELESTE PRALINE. — Ele observava-me, aguardando. Reconheci-me no seu rosto cauteloso e inexpressivo. Queria dizer-lhe, dizer-lhes a todos, que conhecia a sua raiva e humilhação, que também eu a tinha sentido, que eles não estavam sozinhos. Mas também conhecia o seu orgulho, o desafio inútil que fica depois de se perder tudo o resto. A última coisa que eles queriam, isso eu sabia, era pena.
— Por que é que não aparecem por lá amanhã? — perguntei em tom ligeiro. — Não sirvo cerveja mas talvez vocês gostem do meu café.
Ele olhou-me argutamente, como se achasse que eu podia estar a troçar dele.
— Por favor, apareçam — insisti. — Para tomarem um café e bolo por conta da casa. Todos. — A rapariga magra olhou para os amigos e encolheu os ombros. Roux devolveu-lhe o gesto.
— Talvez. — A sua voz não se comprometia.
— Temos uma agenda muito carregada — chilreou a rapariga em tom impertinente.
Sorri. — Arranjem um furo — sugeri.
Contra aquele olhar avaliador e desconfiado.
— Talvez.
Observei-os a seguirem em direcção a Les Marauds enquanto Anouk corria pelo monte acima na minha direcção, as abas da gabardina vermelha esvoaçando ao vento como asas de um pássaro exótico.
— Mamã, mamã! Olha, os barcos!
Admirámo-los por um bocado, as barcaças rasas, os altos barcos-casa com os telhados ondulados, as chaminés dos fogões, os frescos, as bandeiras multicores, slogans, estratagemas para proteger de acidentes e naufrágios, barcas pequenas, linhas de pesca, bilhas para caranguejos arrumadas junto linha da maré alta durante a noite, guarda-chuvas estragados protegendo os convés, fogueiras a acenderem-se em bidões metálicos na margem do rio. Sentia-se um cheiro a lenha a arder, a gasolina e a peixe frito, e ouvia-se um som distante de música através da água à medida que um saxofone dava início ao seu pranto melodioso e estranhamente humano. No meio do Tannes consegui distinguir uma figura de homem ruivo de pé e só no convés de um barco-casa simples e preto. Enquanto eu o olhava, ele ergueu o braço. Eu devolvi o aceno. Já era quase noite quando nos dirigimos para casa. Lá atrás em Les Marauds um tambor aliara-se ao saxofone e os sons das suas batidas ressoavam nítidos através da água. Passei pelo CAFÉ DE LA REPUBLIQUE sem olhar para dentro.
Mal tinha chegado ao cimo da colina quando senti alguém perto. Voltei-me e dei com Joséphine Muscat, agora sem casaco mas com um lenço à volta da cabeça cobrindo-lhe metade do rosto. Na penumbra, tinha um ar pálido e nocturno.
— Corre para casa, Anouk. Espera lá por mim.
Anouk olhou-me com um ar curioso, depois virou-se e correu obedientemente pelo monte acima, com as abas da gabardina a esvoaçarem bravias.
— Ouvi o que disse. — A voz de Joséphine era rouca e suave. — Você saiu por causa daquela história com a gente do rio.
Acenei que sim.
— Paul-Marie ficou furioso. — A nota grave na voz era quase de admiração. — Devia ter ouvido as coisas que ele disse.
Ri-me.
— Felizmente eu não tenho que ouvir as coisas que o Paul-Marie tem a dizer — disse-lhe com brandura.
— Agora eu não posso falar consigo — prosseguiu ela. — Ele acha que você é uma má influência. — Uma pausa em que me olhou com uma curiosidade nervosa. — Ele não quer que eu tenha amigas — acrescentou.
— Parece-me a mim que estou a ouvir de mais sobre o que o Paul-Marie quer — disse eu suavemente. — Não estou interessada nele. Agora você... — toquei-lhe no braço ao de leve. — É você que me interessa.
Ela corou e desviou o olhar, como se achasse que poderia haver alguém por perto.
— Você não compreende — murmurou.
— Penso que percebo. — Com as pontas dos dedos, toquei no lenço que lhe encobria a cara.
— Por que é que usa isto? — perguntei abruptamente. — Não me quer dizer? — Olhou para mim com esperança e pânico. Abanou a cabeça. Puxei-lhe delicadamente o lenço.
— Você é bonita — disse-lhe à medida que ele se soltou. — Podia ser bonita. — Havia uma ferida recente junto ao seu lábio inferior, azulada sob a luz trémula. Ela abriu a boca para a mentira automática. Interrompi-a.
— Não é verdade — disse eu.
— Como é que sabe? — A sua voz era cortante. — Eu nem sequer disse...
— Nem precisava.
Silêncio. Através da água uma flauta soltava notas vivas por entre as batidas de tambor. Quando ela por fim falou, a sua voz estava carregada de auto-repulsa.
— É estúpido, não é? — Os seus olhos como minúsculos quartos crescentes. — Eu nunca lhe deito as culpas. Nunca. Às vezes até me esqueço do que realmente se passa. — Respirou fundo como um mergulhador prestes a mergulhar. — Ir de encontro a portas. Cair pelas escadas abaixo. Escorregar na calçada. — Parecia à beira do riso. Pude sentir a histeria a borbulhar sob a superfície das suas palavras. — Propensa a acidentes, é o que ele diz que eu sou. Propensa a acidentes.
— Qual foi o motivo desta vez? — perguntei gentilmente. — Foi por causa da gente do rio?
Ela acenou que sim. — Eles não queriam fazer mal nenhum. Eu ia servi-los. — A sua voz tornou-se estridente por um instante. — Não percebo o que é que eu tenho a ver com o que aquela filha da mãe da Clairmont quer! Ó, temos que nos unir — imitou ela furiosamente. — Para bem da comunidade. Pelos nossos filhos, Madame Muscat... — recuperando a sua própria voz ao tomar fôlego — ...quando em circunstâncias normais ela nem me dava os bons-dias na rua... estava-se cagando para mim! — Respirou fundo outra vez, controlando com esforço o desabafo.
— É sempre Caro isto, Caro aquilo. Já reparei no modo como ele olha para ela na igreja. Por que é que não podes ser como a Caro Clairmont? — Agora ela era o marido, a voz grossa de raiva e cerveja. Conseguia até imitar os seus maneirismos, o queixo erguido, a postura hirta e agressiva. — Ao lado dela, pareces uma porca mal-amanhada. Ela tem estilo. Classe. Ela tem um bom filho, com boas notas na escola. E tu, o que é que tu tens, hã?
— Joséphine. — Ela virou-se para mim com uma expressão espantada.
— Desculpe. Por um momento quase me esqueci onde...
— Eu sei.
Senti a raiva a fazer-me formigueiro nos polegares.
— Deve achar-me estúpida por ter ficado com ele estes anos todos. — A sua voz era monótona, os olhos escuros e ressentidos.
— Não, não acho.
Ela ignorou a minha resposta.
— Bem, sou — declarou ela. — Estúpida e fraca. Não gosto dele, não me lembro de alguma vez ter gostado dele. Mas quando penso em deixá-lo mesmo... — Interrompeu-se confusa. — Deixa-lo mesmo... — repetiu numa voz baixa e pensativa. — Não. Não vale a pena. — Levantou os olhos para mim e tinha o rosto cerrado, decidido. — É por isso que não posso voltar a falar consigo — disse com um calmo desespero. — Não podia deixá-la a adivinhar, merece mais do que isso. Mas é como tem de ser.
— Não — disse-lhe. — Não é.
— Ë sim. — Defende-se amarga e desesperadamente da possibilidade de conforto. — Não vê ? Eu não presto. Já lhe menti antes. Eu roubo. Passo a vida a roubar!
Gentilmente: — Eu sei.
Esse saber claro circula entre nós como um brinquedo de Natal.
— As coisas podem melhorar — disse-lhe eu por fim. — O Paul-Marie não manda no mundo.
— Bem pode — retorquiu Joséphine obstinadamente.
Sorri. Se aquela teimosia dela pudesse virar-se para fora e não para dentro, de que é que ela não seria capaz? Eu também seria capaz. Sentia os pensamentos dela, tão próximos, abrindo-se a mim. Seria tão fácil assumir o controlo... Afastei a ideia impacientemente. Não tenho o direito de a forçar a decisão nenhuma.
— Antes, você não tinha para onde ir — disse eu. — Agora tem.
— Tenho? — Na sua boca, era quase uma admissão de derrota.
Não respondi. Deixá-la responder por si própria.
Olhou-me por momentos em silêncio. Os seus olhos estavam cheios de luzes do rio de Les Marauds. Mais uma vez me apercebi de que bastava um pequeno toque para ela ficar bonita.
— Boa noite, Joséphine.
Não me voltei para trás, mas sei que ela ficou a olhar-me enquanto eu subia a colina e sei que ela continuou a olhar muito depois de eu ter dado a curva e desaparecer da vista.
OceanofPDF.com