Chocolate
Capítulo 36
Sexta feira, 28 de Março
Sexta-feira Santa
A certa altura, ainda no princípio, esqueci-me do propósito da festa e
comecei a divertir-me. Enquanto Anouk brincava em Les Marauds, eu
orquestrei os preparativos para o maior e mais opíparo repasto que algum dia cozinhei, e perdi-me em pormenores suculentos. Tinha três cozinhas: os meus próprios fornos grandes em LA PRALINE, onde cozi os bolos, a do CAFÉ DES MARAUDS ao cimo da rua para o marisco, e a cozinha minúscula de Ar-mande para a sopa, legumes, molhos e guarnições. Josephine ofereceu-se para emprestar a Armande a louça e talheres extra de que ela pudesse precisar, mas Armande abanou a cabeça, sorrindo.
— Já está tudo tratado — respondeu ela. E estava: quinta-feira de manhã cedo chegou uma carrinha com o nome de uma grande firma de Limoges e descarregou duas caixas de cristais e pratas e outra de porcelana fina, tudo embalado em papel às tirinhas O homem das entregas sorriu ao ver Armande assinar o recibo.
— Uma das netas que se casa, hã? — perguntou ele jovialmente.
Armande deu uma gargalhada alegre.
— Quem sabe — respondeu ela. — Quem sabe?
Passou sexta-feira muito bem disposta, presumivelmente a orientar as coisas, embora de facto mais a atrapalhá-las. Qual criança traquinas, enfiava os dedos nos molhos, espreitava debaixo das tampas de terrinas e tachos até que finalmente eu pedi a Guillaume para a levar ao cabeleireiro a Agen, quanto mais não fosse para a manter afastada durante umas poucas horas. Quando voltou, vinha transformada: um belo corte de cabelo sob um atrevido chapéu novo, luvas novas, sapatos novos. Sapatos, luvas e chapéu eram do mesmo tom cereja, a cor preferida de Armande.
— Comecei de baixo para cima — informou-me ela com satisfação enquanto se sentava na sua cadeira de baloiço a observar os preparativos. — Lá. para o fim da semana talvez já tenha a coragem de comprar um vestido todo cor de cereja. Imagine-me a entrar na igreja com ele. Uuui!
— Descanse um bocado — disse-lhe eu severamente. — Tem uma festa hoje a noite. Não a quero a adormecer a meio da sobremesa.
— Não vou adormecer — disse ela, mas aceitou dormitar durante uma hora ao sol poente enquanto eu punha a mesa e os outros iam a casa mudar-se para a noite. A mesa de jantar é grande, absurdamente grande para a salinha minúscula de Armande, e com algum jeito chegará para todos. Uma peça pesada de carvalho escuro, foram precisos quatro homens para a trazerem do caramanchão recém-construído de Narcisse onde estava guardada debaixo de uma abóbada de folhagem e flores. A toalha é adamascada, com uma fina guarnição de renda, e cheira a alfazema em que esteve guardada desde o casamento — uma prenda, nunca usada, da sua avó. Os pratos de Limoges são brancos com um friso fino de flores amarelas a toda a volta; os copos — três tipos diferentes — são de cristal, quais ninhos de sol salpicando a toalha branca de manchas arco-íris. Um centro de flores primaveris de Narcisse e guardanapos dobrados ao lado de cada prato. Sobre cada guardanapo estão os cartões com o nome de cada convidado inscrito:
Armande Voizin, Vianne Rocher, Anouk Rocher, Caroline Clairmont, Georges Clairmont, Luc Clairmont, Guillaume Duplessis, Joséphine Bonnet, Julien Narcisse, Michel Roux, Blanche Dumand, Cerisette Plancon.
Por momentos, não reconheci os dois últimos nomes, depois lembrei-me de Blanche e Zézette, ainda atracadas a montante do rio, a espera. Dei-me conta de que até agora nunca soubera o nome de Roux, presumira até que seria talvez uma alcunha devido ao cabelo ruivo.
Os convidados começaram a chegar as oito. Saí da minha cozinha as sete para trocar rapidamente de roupa e, quando voltei, o barco já estava ancorado abaixo da casa e as pessoas do rio estavam a chegar. Blanche com o seu dirndl vermelho e saia de renda, Zézette com um antigo vestido de noite preto com os braços tatuados com hena e um rubi na sobrancelha, Roux de jeans lavados e T-shirt branca, todos eles trazendo presentes embrulhados em pedaços de papel colorido, papel de parede ou tecido. Depois chegou Narcisse no seu fato de domingo, depois Guillaume, com uma flor amarela na lapela, depois os Clairmonts, resolutamente bem dispostos, Caro olhando as pessoas do rio com ar desconfiado mas, ainda assim, pronta a divertir-se se fosse esse o sacrifício exigido... Por entre os apéritifs, amendoins salgados e bolachinhas, assistimos à abertura dos presentes recebidos por Armande: de Anouk, um desenho de um gato num envelope vermelho; de Blanche, um pote de mel; de Zézette, saquinhos de alfazema bordados com a letra B — «Não tive tempo de bordar um com a sua inicial» — explicou ela despreocupadamente — «mas prometo que para o ano»; de Roux, uma folha de carvalho esculpida, delicada como uma coisa real, com um cacho de bolotas agarrado ao caule; de Narcisse, um grande cesto de fruta e flores. Presentes mais sumptuosos dos Clairmonts: um lenço de Caro — não Hermes, reparo, mas seda, não obstante — e uma jarra de prata; de Luc, algo brilhante e vermelho num embrulho de papel enrugado que ele esconde da mãe o melhor que pode por baixo de uma pilha de papéis de embrulhos já desfeitos... Armande sorri e diz-me com os lábios Uuui! por trás da mão em concha. Joséphine traz um pequeno fio dourado e sorri como quem pede desculpa.
— Não é novo — diz.
Armande põe-no logo ao pescoço e abraça Joséphine rudemente e, com uma mão descuidada, serve St. Raphaël. Ouço a conversa da cozinha: preparar tanta comida é um trabalho complicado e muita da minha atenção é-lhe dedicada mas apanho alguma coisa do que se vai passando. Caro está amável, disposta a ficar agradada; Joséphine silenciosa; Roux e Narcisse descobriram um interesse comum por árvores de fruta exóticas. Zézette canta parte de uma canção popular com a sua voz aflautada, segurando o seu bebé debaixo do braço. Reparo que até o bebé foi cerimoniosamente pintado com hena, pelo que parece um rechonchudo melãozinho gris nantais com a sua pele dourada sarapintada e olhos cinza-esverdeados.
Dirigem-se para a mesa. Armande, bem disposta, faz grande parte da despesa da conversa. Ouço a voz baixa e agradável de Luc a falar de um livro qualquer que leu. A voz de Caro abespinha-se um pouco — desconfio que Armande voltou a servir-se de outro copo de St. Raphaël.
— Mamã, sabes que não devias... — ouço-a dizer, mas Armande limita-se a rir.
— É a minha festa — declara ela alegremente. — Não quero ninguém triste na minha festa. E muito menos eu.
Por enquanto, o assunto fica por aí. Ouço Zézette a namoriscar com Georges. Roux e Narcisse discutem ameixas.
— Belle du Languedoc — declara o último gravemente. — É a melhor quanto a mim. Pequena e doce, aveludada como asa de borboleta...
Mas Roux é inflexível. — Mirabelle — diz ele firmemente. — A única ameixa branca que vale a pena cultivar. Mirabelle.
Regresso ao meu fogão por momentos e não ouço mais nada.
É coisa que aprendi por mim própria, por obsessão. Ninguém me ensinou a cozinhar. A minha mãe cozinhava conjuros e filtros amorosos, eu sublimava tudo numa alquimia mais doce. Nunca nos parecemos muito, eu e ela. Ela sonhava com flutuações, encontros astrais e essências secretas: eu estudava atentamente receitas e ementas surripiadas de restaurantes onde nunca nos podíamos dar ao luxo de comer. Ela escarnecia gentilmente das minhas preocupações carnais
— Ainda bem que não temos dinheiro — dizia-me ela. — Senão ficavas gorda como um texugo. — Pobre mãe. Quando o cancro já tinha comido grande parte dela, continuava suficientemente vaidosa para se regozijar com a perda de peso. E, enquanto ela consultava as suas cartas e murmurava de si para si, eu folheava a minha colecção de cartões de culinária, recitando os nomes de pratos nunca saboreados como mantras, como as fórmulas secretas da vida eterna. Boeuf en Daube. Champignons farcis la grèque. Escalopes la Reine. Crème Caramel. Schokoladentorte. Tiramisu. Na cozinha secreta da minha imaginação, fazia-as todas, experimentava-as, provava-as, aumentava a minha colecção de receitas onde quer que fosse, colando-as no meu álbum como fotografias de velhos amigos. Tornavam importantes as minhas deambulações, com os recortes brilhantes a reluzirem por entre páginas besuntadas, quais sinais ao longo do nosso trajecto errático.
Pego neles agora como amigos de velhos tempos. Soupe de tomates la gasconne, servida com manjericão fresco e uma fatia de tartelette méridonale, feita empire brisée fina como bolacha e enriquecida com os aromas de azeite, anchovas e os saborosos tomates locais, guarnecida com azeitonas e levemente tostada de forma a produzir uma concentração de sabores que parece quase impossível. Sirvo o Chablis 85 em cálices altos. Anouk bebe limonada do seu com um ar de sofisticação exagerada. Narcisse mostra-se interessado nos ingredientes da tartelete, elogia as virtudes do extravagante tomate Rousette comparado com a uniformidade sensaborona do Moneyspinner europeu. Roux acende os fogareiros em ambas as extremidades da mesa e salpica-os com erva-cidreira para afastar os insectos. Eu dou com Caro a observar Armande com ar reprovador. Como pouco. Imersa nos aromas da culinária durante quase todo o dia, sinto-me tonta noite, particularmente alerta e sensível, pelo que quando a mão de Joséphine zorra na minha perna durante o jantar, eu assusto-me e quase dou um grito. O Chablis está fresco e ácido, e bebo mais do que devia. As cores começam a parecer mais brilhantes e os sons adquirem a aspereza de vidro partido. Ouço Armande elogiar a comida. Trago uma salada de ervas aromáticas para refrescar o hálito, depois foie gras em torradas quentes. Reparei que Guillaume trouxe o seu cão e lhe dá as sobras subrepticiamente por baixo da toalha engomada. Passamos da situação política para os separatistas bascos, para a moda feminina, passando pela melhor maneira de criar juliana-dos-jardins e a superioridade da alface espontânea relativamente à cultivada. O Chablis desliza suavemente. Depois os vols-aux-vent, leves como brisa estival, depois o sorvete de baga de sabugueiro seguido de plateau de fruits de mer com lagostins grelhados, camarões pequenos e grandes, ostras, berniques, caranguejos e os grandes torteaux que podem arrancar um dedo com a mesma facilidade com que eu arranco um ramo de rosmaninho, litorinas, palourdes e, a coroar tudo, uma lagosta preta gigante, majestática e guarnecida de algas. Distribuímos os alicates para as patas dos caranguejos, garfos de marisco, rodelas de limão e maionese. Impossível não se concentrar em tal prato: exige atenção, informalidade. Os copos e talheres cintilam à luz das lanternas suspensas das traves acima das nossas cabeças. A noite cheira a flores e ao rio. Os dedos de Armande movimentam-se ligeiros como os de tricotadeiras; o prato de cascas à sua frente cresce quase sem esforço. Trago mais Chablis; os olhos tornam-se brilhantes, as faces rosadas com o esforço de extrair a carne fugidia do marisco. Este é um manjar que precisa de ser trabalhado, que exige tempo. Joséphine começa a relaxar um pouco, até a falar com Caro, enquanto luta com uma pata de caranguejo. A mão de Caro escorrega e um jacto de água salgada atinge-lhe o olho. Joséphine ri-se. Após um momento, Caro associa-se. Também dou comigo a falar. O vinho está pálido e decepcionante, a intoxicação escondida na suavidade. Caro está ligeiramente embriagada, o rosto corado, o cabelo a cair-lhe em madeixas. Georges belisca-me a perna por baixo da mesa e dá-me uma piscadela atrevida. Blanche fala de viagens: temos lugares em comum, eu e ela. Nice, Viena, Turim. O bebé de Zézette começa a choramingar; ela molha o dedo em Chablis e dá-lho para ele chupar. Armande discute Musset com Luc, que quanto mais bebe, menos gagueja. Tiro finalmente o plateau desfeito, agora reduzido a cascalho cor de pérola numa dúzia de pratos. Taças de água com limão e salada de hortelã-pimenta para os dedos e hálito. Retiro os copos e substituo-os por coupes à champagne. Caro parece de novo alarmada. Quando volto a ir à cozinha, ouço-a mais uma vez a falar com Armande numa voz baixa e premente.
Armande manda-a calar-se.
— Fala-me nisso depois. Hoje quero celebrar.
Saúda o champanhe com um grito de satisfação.
A sobremesa é fondue de chocolate. Fazê-lo num dia claro — o tempo nublado embacia o brilho do chocolate derretido — com setenta por cento de chocolate preto, manteiga, um pouco de óleo de amêndoa, natas espessas adicionadas mesmo no fim e levar tudo a lume brando. Colocar nacos de bolo ou fruta num espeto e molhá-los na mistura de chocolate. Estão aqui hoje as preferências de todos, embora só o gateau savoie se destine a ser passado por chocolate. Caro diz que não consegue comer absolutamente mais nada mas serve-se de duas fatias de roulade bicolore de chocolate branco e preto. Armande prova de tudo, agora corada e cada vez mais expansiva. Joséphine explica a Blanche por que é que deixou o marido. Georges lança-me um sorriso devasso por trás dos seus dedos manchados de chocolate. Luc implica com Anouk que está quase a dormir na sua cadeira. O cão mordisca divertido a perna da mesa. Zézette, muito naturalmente, começa a amamentar o seu bebé. Caro parece estar prestes a fazer um comentário qualquer mas encolhe os ombros e cala-se. Abro outra garrafa de champanhe.
— Tem a certeza de que está bem? — pergunta Luc a Armande. — Quer dizer, não se sente doente nem nada? Tomou os seus remédios?
Armande ri-se.
— Preocupas-te de mais para um rapaz da tua idade — diz-lhe ela. — Devias era estar a fazer o bom e o bonito, a dar preocupações à tua mãe. Não a ensinar o Padre-Nosso ao vigário. — Continua bem disposta mas parece agora um pouco cansada. Há quase quatro horas que estamos mesa. É meia-noite menos dez.
— Eu sei — diz ele pensativo. — Mas não estou com p-pressa de herdar já. — Ela afaga-lhe a mão e serve-lhe mais um copo. A mão dela não é muito firme e derrama um pouco de vinho na toalha.
— Não faz mal — diz jovialmente. — Ainda há muito.
Terminamos o jantar com o meu gelado de chocolate, trufas e café em chaveninhas pequenas, com um digestivo Calvados, bebido da chávena quente como uma explosão de flores. Anouk pede o seu canard, um cubo de açúcar humedecido com umas gotas de licor e depois quer outro para Pantoufle. As chávenas são escoadas, os pratos limpos. O lume dos fogareiros está agora mais brando. Observo Armande, ainda a falar e a rir, mas menos animada do que antes, com os olhos semicerrados e segurando a mão de Luc por debaixo da mesa.
— Que horas são? — pergunta ela um pouco depois.
— Quase uma — responde Guillaume.
Ela suspira.
— Horas de me deitar — declara. — Já não sou tão nova como era, sabem?
Procura pôr-se de pé, pegando numa braçada de presentes debaixo da sua cadeira. Vejo Guillaume a observá-la atentamente. Ele sabe. Ela sorri-lhe, um sorriso especialmente doce e maroto.
— Não julguem que vou fazer um discurso — diz ela com um ar brusco e cómico. — Não suporto discursos. Só queria agradecer-vos a todos, todos vocês, e dizer que passei um bom bocado. Não me lembro de melhor. Acho que nunca houve um melhor. As pessoas acham sempre que o divertimento acaba com a velhice. Pois bem, não acaba. — Palmas de Roux, Georges e Zézette. Armande acena sabiamente. — Mas não me apareçam demasiado cedo amanhã — avisa com uma pequena careta. — Acho que não bebia tanto desde os meus vinte anos e preciso de dormir. — Dá-me um olhar rápido, quase de aviso. — Preciso de dormir — repete vagamente, começando a afastar-se da mesa.
Caro levanta-se para a amparar mas ela acena-lhe num gesto peremptório.
— Não te metas, menina — diz. — Que mania a tua. Sempre a meter-se. — Olha-me com o seu ar vivo. — A Vianne pode ajudar-me — declara. — O resto pode esperar até amanhã.
Levo-a para o seu quarto enquanto os convidados se afastam lentamente, ainda a rir e a conversar. Caro está agarrada ao braço de Georges; Luc apoia-a do outro lado. O cabelo está agora completamente desalinhado, dando-lhe um ar mais jovem e suavizando-lhe as feições. Ao abrir a porta do quarto de Armande, ouvi-a dizer:
— ...praticamente prometeu que ia para Les Mimosas... Ai, que peso fora dos meus ombros... — Armande também ouviu e deu uma gargalhada sonolenta.
— Não deve ser fácil ter uma mãe delinquente — disse ela. — Ponha-me na cama, Vianne. Antes que eu caia. — Ajudei-a a despir-se. Havia uma camisa de noite de linho pousada ao lado da almofada. Dobrei-lhe a roupa enquanto ela a enfiava pela cabeça.
— Presentes — disse Armande. — Ponha-os aqui, onde eu os possa ver. — Um gesto vago na direcção do toucador. Mmm. Está bem.
Cumpri as instruções numa espécie de aturdimento. Talvez também tenha bebido mais do que tencionava, pois sentia-me bastante calma. Sabia pelo número de ampolas de insulina no frigorífico que ela deixara de as tomar há uns dias. Queria perguntar-lhe se tinha a certeza, se realmente sabia o que estava a fazer. Em vez disso, deixei cair o presente de Luc — uma combinação de seda de um vermelho exuberante e ostensivo — nas costas da cadeira para ela ver. Ela deu nova gargalhada e estendeu a mão para tocar o tecido.
— Agora pode ir, Vianne. — A voz era gentil mas firme. — Foi muito bonito.
Hesitei. Por um instante tive um reflexo de ambas no espelho do toucador. Com o seu novo corte de cabelo, ela parecia o velho da minha visão mas as mãos eram uma mancha carmesim e sorria. Tinha fechado os olhos.
— Deixe a luz acesa, Vianne. — Mandava-me inequivocamente embora. — Boa noite.
Beijei-a levemente na face. Cheirava a alfazema e chocolate. Fui para a cozinha acabar de arrumar.
Roux tinha ficado para me ajudar. Os outros convidados tinham partido. Anouk estava a dormir no sofá, com um dedo metido na boca. Lavámos a louça em silêncio e eu coloquei os pratos e copos novos de Armande nos armários. Por uma ou duas vezes, Roux tentou meter conversa mas eu não conseguia falar com ele; só os sons diminutos da porcelana e do vidro pontuavam o nosso silêncio.
— Está bem? — perguntou ele por fim. A sua mão era suave no meu ombro. O seu cabelo era um cravo. Disse a primeira coisa que me veio à cabeça:
— Estava a pensar na minha mãe. — Curiosamente, dei-me conta que era verdade. — Ela teria adorado isto. Adorava... fogo de artifício.
Ele olhou para mim. Os seus estranhos olhos da cor do céu tinham escurecido até se tornarem quase púrpura à luz amarela da cozinha. Desejei poder falar-lhe de Armande.
— Eu não sabia que se chamava Michel — disse eu por fim.
— Os nomes não importam.
— Está a perder o sotaque — espantei-me eu. — Tinha um sotaque marselhês tão forte, mas agora... — Ele sorriu, num dos seus sorrisos doces e raros.
— Os sotaques também não importam.
As mãos dele envolveram-me o rosto. Macias, para um trabalhador manual, pálidas e suaves como as de uma mulher. Perguntei-me se alguma coisa do que ele me contara seria verdade. De momento, parecia não importar. Beijei-o. Cheirava a tinta e sabonete e chocolate. Saboreei o chocolate na sua boca e pensei em Armande. Sempre pensei que ele amava Joséphine. Mesmo ao beijá-lo, sabia que ele a amava, mas esta era a única magia que ambos tínhamos para combater a noite. A mais simples das magias, o relâmpago que trazemos pela encosta da montanha em Beltane, este ano um pouco mais cedo. Pequenos confortos desafiando a escuridão. As suas mãos procuraram os meus seios debaixo da minha camisola.
Hesitei um segundo. Já houve demasiados homens pelo caminho, homens como este, homens bons de quem eu gostava mas não amava. Se eu tivesse razão, e ele e Josephine pertencessem um ao outro, o que é que isto acarretaria para eles? Para mim? A sua boca era leve, o toque simples. Senti uma fragrância de lilás, vinda das flores de lá de fora, trazida pela brisa quente dos fogareiros.
— Lá fora — disse-lhe eu suavemente. — No jardim.
Ele olhou para Anouk, ainda adormecida no sofá, e concordou. Juntos encaminhámo-nos lá para fora sob o céu púrpura e estrelado.
O jardim estava quente do brilho dos fogareiros. As seringueiras e os lilases da pérgula de Narcisse cobriam-nos como um manto perfumado. Deitámo-nos na relva como crianças. Não fizemos promessas, não dissemos palavras de amor, embora ele fosse delicado, quase desapaixonado, deslizando com uma lenta doçura pelo meu corpo, lambendo-me a pele com a língua excitada. Sobre a sua cabeça o céu era negro-púrpura como os seus olhos e via-se a constelação da Via Láctea como uma estrada pelo mundo fora. Eu sabia que esta seria a única vez entre nós e senti apenas uma ténue melancolia. Uma crescente sensação de presença, de completude, inundou-me, sobrepondo-se à minha solidão, até à minha tristeza por Armande. Mais tarde haveria tempo para o luto. Para já, espanto apenas: eu nua deitada na relva, o homem silencioso ao meu lado, a imensidão sobre nós e a imensidão dentro de nós. Ficámos deitados durante muito tempo, eu e Roux, até o nosso suor esfriar e pequenos insectos nos percorrerem os corpos e cheirarmos a alfazema e tomilho do canteiro aos nossos pés quando, ao darmos as mãos, observámos a rotação insuportavelmente lenta do céu.
Por entre a respiração, ouvi Roux cantar uma canção:
V’là l’bon vent, v’là l’joli vent,
V’là l’bon vent, ma mie m’appelle...
O vento soprava agora dentro de mim, arrastando-me com o seu implacável imperativo. Mesmo no centro, um pequenino espaço ainda, milagrosamente sereno, e a sensação quase familiar de algo novo... Também isto é uma espécie de magia, que a minha mãe nunca compreendeu, e, contudo, estou mais certa desta... desta coisa nova, milagrosa, quente dentro de mim... do que de qualquer outra coisa que tenha feito antes. Compreendo por fim por que razão me saíram Os Amantes naquela noite. Guardando ciosamente este saber, fechei os olhos e tentei sonhar com ela, tal como fiz naqueles meses antes de Anouk nascer, uma pequenina estranha com faces rosadas e olhos pretos vivos.
Quando acordei, Roux fora-se embora e o vento voltara a mudar.
OceanofPDF.com